domingo, 25 de dezembro de 2011

"Who are you" (Krai... Nai Hong, 2010)

Quem és tu. Assim de repente não é muito fácil responder pois não? Para Nida (Sinjai Plengpanit) também não será fácil. É uma mulher madura, jovial, trabalhadora, espiritual, espirituosa, mãe. Nida esconde-se por detrás de um sorriso demasiado bem ensaiado, ou se calhar está mesmo, por via do culto em que está envolvida, convencida, de que é feliz. Tem o seu próprio negócio, uma banca de venda de DVDs, uns regulares e uns dos outros. Que mal faz um pouco de pecado? Quase consigo imaginar Nida a dizê-lo com um trejeito nos lábios enquanto pisca um olho, a marota. É esta alegria de viver que a faz revelar o seu segredo mais mal guardado. O filho Ton está fechado no quarto há cinco anos. O único modo de comunicar com ele é passando-lhe bilhetes por baixo da soleira da porta. Ele não sai porquê? Porque é viciado em jogos, porque é anti-social, porque ela é má mãe… Sabe lá ela, o motivo. O facto é que sente uma dor aguda, dor de mãe, que não vê o filho há vários anos.
Um produtor de TV (Pongpit Preechaborisutkhun), seu amigo/cliente ouve a história e considera Ton, o alvo perfeito para a sua próxima reportagem. Ele acredita que Ton sofre da síndrome Hikikomori, um termo japonês que designa um novo fenómeno de isolamento social da juventude. Perante uma sociedade repleta de agressão, seja pelo ruído, estímulos visuais ou a pressão social para sair de casa, trabalhar e enfim, ter filhos, muitos jovens desenvolvem uma fobia social que os leva a fechar-se dentro de casa a coberto de pais, muitas vezes, sobre protectores. O produtor convence Nida a deixá-lo entrar no seu mundo, que ele talvez possa ajudar Ton. Não é como se ela tivesse realmente obtido resultados quanto ao filho nos últimos anos. Ela deve ser afinal conivente e fraca e introduz o estranho na sua casa. O refúgio de Nida está recheado de animais empalhados, uma lembrança constante de um passado distante, a certeza de que a sua vida estagnou. Quem mal a conheça duvidará da existência de Ton. Cinco anos é tempo demais para ele não se dar a conhecer. A história dos bilhetes é demasiado rocambolesca. Será Nida uma mulher doente em busca de atenção? Será Ton, a corporização do seu pedido de ajuda? Afinal, ela anda metida com essas seitas esquisitas. Quem és tu. Alguém que não precisa da ajuda de um culto que provavelmente lhe leva todo o pouco dinheiro da venda de DVDs, a troco de um pouco de estabilidade emocional. No prédio em frente vive Pan (Kanya Rattapetch). Também ela não sai do quarto. E também ela tem uma mãe protectora. Mas ela não pode viver como gostaria por que ela sofre de alergias graves. Ela não chegou a completar a escola e não sai de casa, como o fazem outros, nem para dar um simples passeio. O único motivo de movimentação são as idas ao médico. Será que a sua condição se agravou?
Ao contrário de Ton, Pan vive atormentada pelo facto de não poder conhecer o mundo lá fora. Enquanto a mãe de Pan a vai protegendo no seu ninho, Nida deseja que o seu filho saia das amarras que ele próprio criou e viva a vida. Pan e Ton são dois seres indefesos por motivos distintos. Enquanto um se reclui voluntariamente, o outro anseia por extravasar. “Who are you” retrata com distinção dois dilemas terríveis do crescimento. Devemos ceder ao desejo de ficarmos para sempre numa Terra do Nunca e não crescermos ou efectuarmos o empurrão final para sairmos do ninho e tomarmos o destino pelas nossas próprias mãos? Crescer? Independência? Por outro lado, talvez seja altura de Nida se consciencializar que Ton cresceu e está na altura de o deixar partir. Nada dura para sempre. Podemos empalhar animais mas o que subsiste é o exterior. A essência, o que nos fez sentir afecto por eles, já se mudou para outro lugar. É a vida nunca em permanência, sempre em mutação que merece a nossa reflexão. Resulta pois que “Who are you” é uma peça original mas não totalmente inesperada de Eakasit Thairatana que escreveu a banda desenhada que seria a base de “13 Beloved” (2006), “Body #19” (2007) e o segmento “Tit for Tat” de “4bia” (2008). Tanto melhor, pois que “Who are you” transpira fulgor por todos os poros. Muito longe de ser o filme de terror sobrenatural sobre cabelo, “Who are you” parece mais centrado no desenvolvimento dos personagens, em particular, na actuação de Sinjai. “Who are you” teve uma participação discreta no MoteLx, em Setembro deste ano e como lamento não ter visionado esta pequena gema no grande ecrã. Este filme atesta o potencial que o cinema tailandês pode ter em diversas vertentes: argumento, direcção e representação. O único defeito é mesmo o final. Quando se aposta na reviravolta como um dado adquirido de todos os filmes de terror, o fôlego inicial perde-se. As expectativas que se criaram em torno das representações sólidas da dupla de actrizes e o argumento difícil mas, ainda assim credível, são destruídos quando se recorre ao choque com imagens geradas por computador. Como um lindo laço cujas pontas são mal atadas. Em todo o caso, “Who are you” é manifestamente superior ao cinema de terror tailandês típico. Se este é um pronuncio do cinema tailandês para a segunda década do século XXI, aguardam-nos uns próximos anos bastante excitantes. Três estrelas.

Realização: Pakphum Wonjinda
Argumento: Eakasit Thairatana
Sinjai Plengpanit como Nida
Pongpit Preechaborisutkhun como produtor de televisão
Kanya Rattapech como Pan

Próximo Filme: "13 Assassins" (Jûsan-nin no shikaku, 2010)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Battle Royale" (Batoru Rowaiaru, 2000)

"Battle Royale" é uma grande batalha pela sobrevivência onde ser o mais forte, não significa necessariamente, ter a maior força física mas a capacidade de se manter fiel aos seus princípios. Num novo milénio com uma velha sociedade quebrada, o Governo faz aprovar uma lei que castiga os mais novos e anima as massas. Assim, é criado o jogo perigoso "Battle Royale", no qual, todos os anos, é escolhida uma turma de alunos do 9º ano, para se matarem uns aos outros até restar apenas um! Este ano, é seleccionada a turma de Shuya (Tatsuya Fujiwara), um órfão que se vê confrontado com um dilema terrível: defrontar os seus amigos numa luta pela sobrevivência ou deixar-se morrer! Instruidos e acicatados pelo professor Kitano (Takeshi Kitano), os adolescentes têm as mais diversas reacções, desde a recusa em combater, a determinar a sua própria sentença, à resignação e outros há que revelam tendências psicóticas. As regras são muito claras: eles são abandonados numa ilha com diversas armas, desde metralhadoras a binócolos?! (querem melhor sentença de morte?), e umas coleiras ao pescoço. São obrigados a manterem-se em movimento senão as coleiras explodem, se as tentarem retirar terão igual sorte e se, no final do jogo, sobreviver mais do que um aluno, as coleiras explodem e morrem todos! Fixe não é?
As duras circunstâncias irão despertar sentimentos outrora ocultos, reforçar as inimizades e fortalecer laços para sempre. Não se deixem enganar pela premissa, apesar de tudo este é um bom filme com algumas jovens revelações no elenco. Surge aqui uma Chiaki Kuryama pré "Kill Bill" (2003), onde interpreta, curiosamente, uma assassina doida varrida. Temos também uma Kô Shibasaki antes de descobrir a maldição dos telemóveis em "One Missed Call" (2003), que interpreta a adolescente psicopata Mitsuko para quem a "Battle Royale" é mais depressa um modo de satisfazer os desejos sádicos do que um pesadelo. Quanto às mortes propriamente ditas, elas são bastantes e algumas muito originais, afinal é uma turma de 42 alunos. No entanto, não é nada como o banho de sangue que se poderia julgar. Há filmes bem piores a esse respeito, o que não lhe retira o mérito em algumas mortes como a de um jovem que é esfaqueado naquela zona tão sensível... Não que não seja merecido.
"Battle" apresenta alguns erros de continuidade. A deslocação de corpos e a troca de adereços de cena para cena sucede umas poucas vezes. Aquando da estreia o filme foi alvo de uma intensa polémica, o que me custa a compreender. Ok, são adolescentes assassinos mas, a sério, em que planeta é que vivem se acreditam que miúdos de 14 anos são inocentes? Se fosse um filme de pancada com um Steven Seagal ou um Chuck Norris, ninguém o levaria a sério. Por que hão-de fazê-lo com "Battle Royale"? É muito simples e directo ao assunto: apresenta as regras e a partir desse ponto a matança é sempre a abrir. Não ofende a matéria cinzenta já que a intenção também não é fazer pensar demasiado. Se nos faz reflectir, por breves instantes, sobre aquilo a que damos valor e sobre o comportamento das pessoas quando estas sabem que têm uma sentença de morte a pairar sobre si, ao fim e ao cabo é uma série de mortes mais ou menos horripilantes que dá para distrair durante um bocado. Como disse, inofensivo. Três estrelas e meia.
Realização: Kinji Fukasaku
Argumento: Koushun Takami e Kenta Fukasaku
Tatsuya Fujiwara como Shuya Nanahara
Aki Maeda como Noriko Nakagawa
Takeshi Kitano como Kitano Sensei
Taro Yamamoto como Shogo Kawada

Ah e já agora, Feliz Natal a todos / Feliz Navidad / Merry Christmas :)

Próximo Filme: "Who are you" (Krai... Nai Hong, 2010)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "Cello" (Chello hongmijoo ilga salinsagan, 2005)

O violoncelo pode ser considerado um instrumento musical da alta cultura, no sentido mais elitista do tempo. Na verdade, a malta mais nova prefere ficar GaGa pelos beats da música pop do que passar pelo sacrífico de ouvir um pouco de Bach ou de Brahms. Isto, a malta quer é facilitismos, sons contagiantes, fáceis de compreender e de replicar. E assim, no Not a Film Critic passamos de um interlúdio musical no universo do K-pop com “White: The Melody of the Curse” (2010) para a música clássica. Esqueçamos a música reinante nos tops, produzida à velocidade da luz, mainstream, para peças longas, intrincadas, conhecidas somente por alguns iluminados. A simplicidade de “White” contrasta com o denso enredo de “Cello” (2006). Não obstante, ambos vivem de e para a música com a habitual alusão ao sobrenatural.
Mi-ju (Hyeon-a Seong) é uma antiga violoncelista que se dedica agora ao ensino na universidade onde se formou. Apesar dos incentivos para voltar a tocar, por colegas e pela própria família, Mi-ju recusa-se a tocar no instrumento e sente uma especial aversão por uma música em particular. A sua atitude fria face ao ensino e ao próprio instrumento granjeia-lhe o ódio de uma aluna que se sente injustiçada com as notas atribuídas por Mi-ju. Ela promete vingança e pergunta-lhe se “ela está feliz?”, como quem diz, que lhe vai tornar a vida um pesadelo. Entretanto, a luz dos olhos de Mi-ju, a sua filha Yoon-jin sofre de um tipo de autismo que condiciona de modo severo a interacção com os outros. Mi-ju sente um forte sentimento de culpa face à condição de Yoon-jin, apesar de não existirem provas de que o seu comportamento durante a gravidez tenha contribuído para a maleita da filha. Assim, a sua vida se divide entre a indiferença pela profissão e a cobrir de atenções Yoon-jin até que um dia esta demonstra interesse por um violoncelo. Mi-ju não hesita em comprar o instrumento. A partir do momento em que o adquire começam a acontecer uma série de acontecimentos estranhos no seu lar. Estes incluem uma obsessão pouco saudável de Yoon-jin pelo violoncelo e a sua insistência em tocar a música que Mi-ju não suporta ouvir.
À medida que cresce o perigo em redor da sua família, Mi-ju é obrigada a um reencontro com o passado, acabando por revelar o motivo da cisão com a carreira de violoncelista. É-nos revelado que Mi-ju esteve envolvida num acidente de carro que a deixou traumatizada e provocou a morte da sua grande amiga e colega Tae-yeon (Da-na Park). Mas ela esconde um segredo terrível e será preciso aguentar pelo menos 40 minutos de filme até se fazer luz sobre os acontecimentos. Que ninguém se queixe que o cinema coreano não gosta de contar muito bem contadas as suas histórias. O cinema coreano é tipo sexo tântrico, são mais importantes os preliminares do que a penetração, vulgo, clímax. “Cello” reflecte de modo perfeito a obsessão do cinema sul-coreano com o karma. Não interessa quanto tempo passa, o passado volta sempre para nos assombrar, trazendo consequências devastadoras. “Cello” peca pela falta de originalidade: existe uma presença sobrenatural do sexo feminino apostada em fazer das suas, uma mensagem de texto que anuncia intenções perigosas, um instrumento musical amaldiçoado… O motivo por que o violoncelo carrega uma maldição nunca é corporizado. Faz-se um filme sobre um violoncelo que transpira morte e desespero mas nunca se explica porquê?
Mi-ju é a protagonista dislikeable quanto baste. Ela tem uma relação fria com todos os que a rodeiam excepto a filha mais velha. Talvez ela sinta que ter uma filha autista seja o preço a pagar pelos actos do passado. Para quem tanto amava tocar violoncelo, a sua indiferença é surpreendente. Se por outro lado, o instrumento é causa de sofrimento, um lembrete constante dos erros cometidos, seria de pensar que ela preferisse o afastamento total da música. Parece que Mi-ju vive num mundo muito próprio, estéril quase, de aparências, guardando no subconsciente uma informação perigosa, à espera do momento certo para sair e destruir a vida que ela construiu com os cacos do passado.
“Cello” peca por ser qualquer coisa fora do extraordinário: o guião é vulgar, a cinematografia é vulgar, as actuações são regulares. Tirando a composição musical, inexoravelmente ligada ao violoncelo, a actriz principal e a pequena Jin Ji Hye como a filha mais nova de Mi-ju existe pouca ou nenhuma frescura na narrativa. “Cello” funciona num registo muito mediano. Até a reviravolta final é um lugar-comum. A moral da história, entrelaçada com o conceito milenar do karma revolve sobre a punição dos maus actos, mesmo que para tal, o universo tenha de pregar uma grande partida aos prevaricadores e os enleve num ciclo contínuo de dor. Não tenho sentimentos pessoais contra uma história sem fim, excepto quando é tão pouco arrebatadora quanto esta. Duas estrelas.

Realização: Woo-cheol Lee
Argumento: Woo-cheol Lee
Hyeon-a Seong como Mi-ju Hong
Da-an Park como Tae-yeon Kim
Ho-bin Jeong como Jun-ki
Jin Woo como Kyung-ran
Na-woon Kim como Sun-ae
Jin Ji Hye como Yoon-hye

PS: E assim termina o Ciclo Sul-coreano. Aceitam-se sugestões. Por aqui, já não há paciência para Hair movies...

Próximo Filme: "Battle Royale" (Batoru Rowaiaru, 2000)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "Sector 7" (7 Gwanggu, 2011)

Às vezes estou naqueles dias. Não, não é um DESSES dias. Não sejam nojentos. Mas às vezes, sentamo-nos (sim, por que eu costumo ver filmes sentada, em pé não me parece tão fofinho) com a impressão de que o visionamento não vai correr muito bem. A sinopse parecia boa e o trailer prometia. O marketing da película anunciava o primeiro grande filme de monstros desde “The Host” (2005) e o formato IMAX 3D. “Eh lá, deve ser qualquer coisa de interessante”. Então, porquê esta urticária da mente? À partida, tinha uma leve ideia que “Sector 7”, não seria tão bom como as minhas expectativas se tinham deixado elevar, desde que lera aquela notícia em Agosto. Mesmo assim, não estava à espera do modo como as coisas se desenrolaram. Ignorei as críticas do “Sector 7”, sabendo que as primeiras reacções não auguravam nada de bom. Afinal, “não podia ser assim tão mau”.
Uma das observações que se podem fazer deste “Sector 7” é que se assemelha a um filme de série B. Aviso já que não é esse tipo de filme. Antes fosse, que assim ainda seria capaz de nutrir simpatia pelo realizador, actores, efeitos especiais e tantos outros problemas que a película demonstra. Mais vale ser cruel e expor logo o filme como a grande fraude que é. Tough love! A acção de “Sector 7” é situada numa plataforma petrolífera ao largo da ilha Jeju, onde a equipa de extracção luta para encontrar petróleo. A escassos dias de abandonar a busca infrutífera descobrem que aquele lugar alberga um monstro perigoso. Segue-se a fuga do monstro, a luta pela vida, ah e tal que afinal alguns dos membros da plataforma sabiam o que se estava passar, o típico herói durão… Já se viu tudo isto antes e melhor. Que dizer da heroína? É uma cabra que maltrata todos à sua volta por motivo nenhum. Por algum motivo acharam piada fazer do papel principal uma tipa que ninguém grama. Ela é combativa, malcriada, rebelde, desobedece a ordens, enfim, uma maravilha de pessoa para se conviver durante meses a fio. E nunca é explicado o motivo para o seu comportamento anti-social. Está num mundo de homens e quer provar o seu valor? Daddy issues? Pior é tentarem convencer-me que uma escanzelada como aquela tem estaleca para trabalhar numa plataforma petrolífera. Como atleta, modelo ou estrela de cinema muito bem mas para operária? Ji-won Ha foi um erro de casting. Para o meio ainda atiram uma relação mal cozinhada com o mais jeitoso dos operários. Obviamente. Ele, pobre coitado, está embeiçado e é um brinquedo nas mãos dela. É constantemente humilhado e rebaixado pelo objecto da sua afeição. Como é que ela, com aquele muro à sua volta, maior que a muralha da China, deixou alguém entrar é algo que me escapa. Como ele se deixa maltratar é outro mistério. Ah, já percebi, é o sexo. Ela é o homem da relação e só pretende levá-lo para a cama. Ok. E ela também leva algo muito especial para a plataforma: uma mota. Até parece que estou a imaginar a equipa a surgir com a respectiva bagagem e as escovas de dentes e Hae-jun, com aquele ar de desafio aparecer com a mota. “Sim, vou levar a minha mota. O que é que vais fazer quanto a isso?”
Os restantes trabalhadores são estereótipos irritantes. Não é como se vê-los morrer afectasse alguém. Adeusinho. Quanto aos diálogos, consistem em tentativas de comédia falhadas e nos conflitos provocados por Hae-jun. Notem, que com isto tudo, o monstro ainda nem apareceu.  É aquela cena do contexto, de ficarmos a conhecer os personagens e percebermos as suas motivações. Bem, tirando, o facto de ficarmos a saber que os trabalhadores de petrolíferas são todos uns asnos, não posso dizer que tenha compreendido as suas motivações. Népia, nada. Numa das cenas finais, quando se espera que a Hae-jun dê uma de Ripley ela fica especada a ver o monstro trucidar um dos colegas. Então não era ela a durona sem medo de nada? Passemos àquilo que estão mortinhos por saber... O monstro não é nenhum "Host" (2005). É feio, repugnante, mal desenhado e vagamente parecido com uma lesma do mar. Retrata o lado bom e o lado negativo das novas tecnologias em simultâneo. Se por um lado atesta que as possibilidades de criação são infinitas, por outro, nunca um monstro pareceu tão falso. Como pode uma pessoa estremecer de medo perante uma coisa tão… artificial? Se nos estão a vender um produto como terror, esperamos que esteja à altura do título não é? “Sector 7” tem uma premissa interessante mas os cineastas foram incapazes de capitalizar sobre a ideia inicial. A película podia ter por cenário qualquer espaço no planeta. A plataforma petrolífera está ali porque sim. Não existe um motivo especial para a origem do monstro nem para este começar a atacar os trabalhadores. Também não se entende por que estes tomaram a decisão de ir viver durantes largos meses para aquele que é dos locais mais isolados e perigosos do mundo. Escapar do passado? Não têm entes-queridos? Solver as dívidas? É impressionante como um filme com ambições de seriedade é tão básico. Depois de tudo dito e feito, o “melhor” que se pode dizer de “Sector 7” é que podia ter sido realizado pelo Michael Bay. Uma estrela.
Realização: Ji-hun Kim
Argumento: Je-gyun Yun
Ji-won Ha como Hae-jun Cha
Sung-kee Ahn como Jeong Man
Ji-ho Oh como Dong-soo Kim
Ae-ryeon Cha Park como Cientista Kim
Próximo Filme: "Cello" (Chello hongmijoo ilga salinsagan, 2005)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004)


Se não fosse um horror seria uma tragédia. Na Coreia do Sul é comum os actores fazerem carreira em séries de televisão. Alguns nunca chegam a entrar na grande tela. Nem é preciso, a não ser que queiram chegar a uma audiência ainda maior. Lá, as séries merecem um respeito que noutros sítios não se lhes reconhece. Têm qualidade, não constituem um mero veículo para se conseguir uma carreira no grande ecrã. Conduzir uma série em televisão é fazer carreira. Como tal, compreende-se que os filmes coreanos comportem uma componente dramática muito forte. É-lhes inato. Não é pois de espantar que que vários actores de “Ouija Board” tenham experiência televisiva em séries dramáticas prévias ao filme. Se querem saber um pouco mais sobre o universo televisivo sul-coreano, perguntem-lhe a ela. Poucos sabem tanto sobre a televisão asiática nomeadamente, Coreia do Sul, Japão e China e, ainda por cima, em língua portuguesa. No que me diz respeito, creio que participar no filme “Ouija Board”é um downgrade na carreira de um actor. Ninguém precisa de mais um filme sobre mortas despenteadas no currículo. O realizador e argumentista Byeong-ki Ahn tem no seu percurso vários filmes, adivinhe-se lá, sobre moças mortas de cabelo desalinhado. O seu melhor esforço foi “Phone” (2002), que até vai ser alvo de (mais) um remake em Hollywood. Ele descobriu a fórmula do sucesso e limita-se a replicá-la a cada novo projecto. O resultado é um filme tão pouco original que tive de parar o visionamento três vezes, tal o efeito de sedativo. Tenho uma teoria, rebuscada talvez, que o objectivo dos filmes de terror é provocar insónias e não curá-las, mas é apenas a minha opinião.
“Ouija Board” situa-se na província, para onde uma mãe e a filha Yu-jin (Se-eun Lee) oriundas de Seul se mudam. Ali, a jovem citadina torna-se rapidamente o alvo preferido das rufias de serviço. Deve ser por ela ter vindo da grande cidade, estão a ver? Ou se calhar são os grandes, expressivos olhos de Yu-jin a causa de tanta inveja. Enfim, é aquele grupinho muito popular mas que, por algum motivo, ninguém grama. Algures, a lógica de Yun-jin lhe diz que a melhor forma de se livrar dos maus-tratos é lançar uma maldição sobre as vilãs. Reportar aos pais ou aos professores o comportamento vil das meninas? Alguma vez? Não. O mais racional é invocar um espírito maldito para fazer o trabalhinho sujo. Yun-jin reúne-se com outras colegas vítimas de bullying e improvisam uma espécie de jogo do copo (a tal Ouija Board). Yun-jin, qual médium experiente, avisa-as para não abrirem os olhos pois algo de mau pode suceder só que ela própria acusa a pressão do momento e comete esse erro. Elas conseguem invocar com sucesso um espírito e que resultados obtêm! Soubera eu uns anos mais cedo… Infelizmente, o espírito é assim a meios que excessivo, já que as rufias começam a surgir mortas com sacos na cabeça, queimadas até ao irreconhecimento. Digo eu, que não era caso para tanto mas se calhar o que está a suceder às meninas más, não tem nada que ver com o bullying que Yun-jin e as colegas sofrem nos dias de hoje. Entretanto, existe um par de professores simpáticos que querem fazer algo para ajudar as alunas. No entanto, estão de mãos atadas face a um conselho directivo irredutível. Também não ajuda muito o facto da professora nova Eun-ju Lee (Gyu-ri Kim), se enganar em plena aula e chamar In-suk Kim (Yu-ri Kim), uma aluna que já não é vista há 30 anos. Junte-se um segredo terrível e temos o típico filme sobre um espírito vingativo.
A história está pejada de influências anteriores: invejas, abuso, preconceito, sexo… Os personagens dividem-se entre os estereótipos habituais: a rapariga inocente, o professor compreensivo, rufias e os personagens com um passado misterioso. Está lá enfiada toda a última década do cinema. Quando isso sucede o factor medo evapora-se. Mas o grande problema da película nem é Byeong-ki Ahn. Ele repete a fórmula mágica por que o público-alvo ainda não se cansou do género: leiam-se adolescentes em idade escolar. A audiência identifica-se com as personagens de uniforme que tropeçam na magia negra. Muito me admiro se depois da sessão de cinema muitos jovens não tiverem ido experimentar o jogo do copo. E não se pode censurar Byeong-ki Ahn por dar à sua audiência o que ela quer. O género carece urgentemente de ser revitalizado. Infelizmente, isso não acontecerá à custa dos repetidos apelos de cinéfilos. Os “Ouija Board” por esse mundo fora, só irão desaparecer quando a população virar as costas ao género e preferir sucedâneos mais bem cozinhados. Até lá, perseguirei estóica (cof cof) por entre os inúmeros fantasmas vingativos para vos dar a conhecer os melhores filmes de terror coreanos. Duas estrelas.

Realização: Byeong-ki Ahn
Argumento: Byeong-ki Ahn
Se-eun Lee como Yu-jin Lee
Gyu-ri Kim como Eun-ju Lee
Yu-ri Lee como In-suk Kim
Seong-min Choi como Jae-hun Han
Próximo Filme: "Sector 7" (7 Gwanggu, 2011)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "Bloody Reunion" aka "To Sir with Love" (Seuseung-ui eunhye, 2006)

Mas alguém gosta realmente de ir às reuniões de antigos alunos? É ver que os alunos populares continuam bonitos, ricos e bem-sucedidos e os impopulares continuam a ser os mesmos falhados. Esta é a premissa de “Bloody Reunion”, onde uma antiga professora de primária que padece de uma doença terminal se reúne pela primeira vez em muitos anos, com uma turma de ex-alunos. É-nos mostrado que ela sofreu uma gravidez complicada que a fez dar à luz uma criança deformada e lhe custou o casamento. A reunião deverá resultar num último encontro que lhe traga paz de espírito antes de deixar este mundo. Os percursos dos alunos, agora nos seus vinte e poucos anos foram profundamente influenciados pela professora Park (Mi-hee Oh). Uma recepção calorosa inicial dá lugar è frieza e à recriminação è medida que o álcool é vertido e as memórias abafadas começam a surgir… Podíamos ter aqui um drama perfeito, não fosse “Bloody Reunion”, um slasher movie, digno de um “Friday the 13th” (1980).
A primeira parte do filme é passada a dar a conhecer as personagens, as suas motivações e agendas. Ficamos a perceber que abaixo da superfície os ex-alunos são adultos com extremas disfunções. Se-yeol Park aproveita para inserir no argumento laivos de crítica social e incide com a perícia de um cirurgião sobre o sistema educativo coreano. Pak desafia-nos a reflectir sobre aqueles breves momentos da juventude que nos marcaram para sempre ou, de como as mais pequenas frases podem impactar uma jovem mente e formatá-la para o sucesso ou fracasso. Na segunda metade, a tensão acumulada dá lugar a uma sucessão de mortes brutais provocadas por um indivíduo com uma máscara de coelho. “Bloody Reunion” ganha pontos face ao típico slasher pelo facto de ter algumas mortes genuinamente criativas e perturbadoras e por “despachar” personagens que à partida apostaríamos em como seriam as últimas vítimas. O cenário não é meramente decorativo mas serve como uma personagem extra. Nota-se que foi pensado e que não serve apenas um propósito de logística. A praia e o sol intenso contrastam com o ambiente obscuro nos filmes do género e demonstram que um espaço paradisíaco pode servir perfeitamente para criar uma sensação de temor nas entrelinhas de palavras inocentes. À medida que vai escurecendo a atmosfera vai caminhando para o insuportável até desembocar em morte.
A grande pergunta que se impõe é: Quem é o assassino? Terá sido um dos alunos que enlouqueceu de vez? É alguém que ignorámos na equação e que esconde uma agenda mais misteriosa do que podemos imaginar? A resposta não é assim tão difícil de encontrar se houver uma grande atenção aos pormenores. Como tão habitualmente os cineastas gostam de fazer em cinema, mais até no cinema americano que no asiático, onde parece existir uma aversão a deixar perguntas por responder e imagine-se só, fazer a audiência pensar, no final temos direito a uma série de flashbacks que explicam o como e o porquê dos assassinatos. Não sou grande fã desse tratamento que mina o que foi construído até ali. A narrativa deve ser suficientemente forte para se suster a si própria sem o recurso a flashbacks. Se é necessário utilizar este recurso para explicar algo que terá ficado por compreender é porque, muito provavelmente, algo correu mal durante o percurso. O que me leva ao final. É confuso. Os últimos 15 minutos são um conjunto de reviravoltas que não faziam grande falta ao enredo. Talvez a opção tenha sido tomada no sentido de americanizar ainda mais “Bloody Reunion”. Num bom slasher a gratificação não advém necessariamente de sabermos quem é o assassino mas, de existir um good guy ou uma good girl, com o qual nos identificamos e por quem torcemos que escape às garras do matador.
Outra das forças desta película está no elenco sólido do qual destaco Yeong-hye Seo (Mi-ja) com uma grande capacidade dramática, que demonstrou em todo o seu esplendor no drama Bedevilled (2010) e Mi-hee Oh a professora Park que por detrás de uma aparência amável esconde uma insensibilidade e preconceito que professor algum devia ter. “Bloody Reunion” é um bom slasher se tiverem paciência para a construção das personagens e uma primeira metade de filme sem grandes sobressaltos. No entanto, quando tenta deixar de ser igual a si próprio, com as implicações culturais que ser um filme made in Korea tem, para se aproximar dos filmes americanos, “Bloody Reunion” perde a aura de desafio e até a criatividade que até ali tinha demonstrado. Não deixa de ser curioso que um filme de crítica social seja incapaz de fazer uma auto-introspecção. Duas estrelas e meia.
Realização: Dae-wung Lim
Argumento: Se-yeol Park
Yeong-hye Seo como Mi-ja Nam
Mi-hee Oh como professora Park
Ji-yeon Lee como Sun-hee
Hyo-jun Park como Dal-bong
Hyeon-soo Yeo como Se-ho
Seol-as Yu como Eun-young
Dong-kyu Lee como Myung-ho

Próximo Filme: "Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "R-point: Ghost Squad" (Airpointeu, 2004)

Vietname, 1972. Inferno na terra. Gerida e mantida por razões políticas, como sempre são as grandes guerras, encontra-se num impasse. O tenente Tae-in Choi e o soldado Kim aproveitam um momento de pausa nas hostilidades para irem às prostitutas em Nha Trang. Num momento de distracção o inimigo ataca e Kim acaba por ser morto. Entretanto, é recolhido um soldado ferido gravemente em R-point, cujo pelotão estará todo morto. Ele encontra-se num estado de delírio e os seus superiores não conseguem retirar um sentido das palavras desconexas. O quartel-general recebe uma transmissão que indica que os soldados podem ainda estar vivos e decide enviar um grupo de homens para desvendar o seu destino.
O superior de Choi dá-lhe a oportunidade de se redimir se cumprir esta última missão depois do descuido em Nha Trang. Ele e outros 8 soldados são enviados para R-point, uma zona rural inóspita onde têm desde logo uma recepção “calorosa” por parte do inimigo. Eles atingem uma rapariga vietnamita e abandonam-na para morrer dos ferimentos. Mais tarde, encontram uma gravação antiga que fala de um massacre de vietnamitas por chineses, que os largaram num lago e construíram um templo sobre o local para trazer harmonia ao local. Cedo voltam a encontrar um novo aviso: “Quem tem sangue nas mãos, não regressará vivo”. Um a um, os soldados começam a experienciar fenómenos pouco naturais. Os avisos antigos e a súbita realização de que poderão não estar sozinhos começa a ter efeitos perversos na moral dos soldados. É curioso, por que, ali estão eles, no meio de uma guerra. Muitos já terão tido a sua experiência de combate, terão visto cenas que o ser humano comum não consegue sequer imaginar e, no entanto, encontram um novo medo no desconhecido. O terror advém do inesperado e não num qualquer batalhão inimigo que se esconda na selva.
Os soldados são estereótipos que já vimos noutros filmes: o novato, o homem de família, o que tem extensa experiência de batalha… Contudo, as personagens-tipo não afectam o desenrolar da trama, pelo contrário, facilita a distinção entre os soldados do pelotão e a escolha dos nossos favoritos. “R-point” empresta alguns dos seus elementos a belos filmes de guerra como “Platoon” (1986) e “Saving Private Ryan” (1998). Oferece uma perspectiva humanista dos soldados e não como meras máquinas de morte. É também um exercício de reflexão sobre a guerra e o valor da vida humana. Justifica-se enviar para a morte um conjunto de soldados para salvar outros que provavelmente já não estarão vivos? “R-point” evita colocar-se de um dos lados da guerra. Existem apenas soldados no meio de uma guerra e que lutam pela sobrevivência. Alguns ainda têm a vida toda pela frente, outros têm família para a qual querem voltar. O que o argumentista e realizador Su-chang Kong não nos deixa esquecer é que estes homens não são peões inocentes. A situação desesperada em que se encontram vai testar a confiança que colocam na unidade e a disciplina. Todos eles pecaram de algum modo e o temor que os atinge traz a descoberto as suas falhas. À medida que os acontecimentos espiralam fora de controlo, os soldados vão-se tornar mais desconfiados e paranóicos, trazendo a lume o que de melhor e pior guardam dentro de si e, por fim, ditar os seus destinos. Su-chang Kong aproveitou ainda para lançar achas para a fogueira, ao não deixar de fora apontamentos como as intenções colonialistas, imperialistas, de controlo político e económico dos povos chineses, franceses e americanos sobre o território vietnamita. É como se o Vietname fosse uma terra de todos e de ninguém, em que cada povo vai surgindo à vez para reclamar a sua parte. Não considero justo incluir “R-point” no género do K-horror visto que é primeiramente, um filme de guerra. Também não esperem muito gore e os poucos momentos que impressionam pessoas mais sensíveis não estão muito realistas. Sangue de groselha? Valha-nos o argumento, as personagens distintas e o cenário da selva cambojana onde foi rodado. Com todos esses pontos fortes, no final fica uma sensação de vazio, de que faltou algo. A trama não é concluída de modo satisfatório. Os filmes asiáticos são conhecidos por deixarem perguntas por responder mas “R-point” merecia um desenlace mais forte. O motivo da assombração não é clarificado. Se no final alguém vos perguntar porque sucederam acontecimentos terríveis em R-point respondam com um simples “Porque foram para a guerra”. Três estrelas.

Realização: Su-chang Kong
Argumento: Su-chang Kong
Woo-seong Kam como Tenente Tae-in Choi
Byung-ho Son como Sargento Chang-rok Jin
Tae-kyung Oh como Sargento Young-soo Jang
Wong-sang Park como Sargento Cook
Seon-gyun Lee como Sargento Park
Jin-ho Song como Sargento Oh
Byeong-cheol Kim como Cabo Byung-hoon Joh
Kyeong-ho Jeong como Cabo Jae-pil Lee
Yeong-dong Mun como Cabo Byun
Ju-bong Ji como Capitão Park

PS: Há alguns anos que persiste o rumor de que Zhang Yimou pretende realizar o remake de R-Point, em terras americanas. Mas por esta altura não se sabe se o projecto continua na mesa.


Próximo Filme: "Bloody Reunion" aka "To Sir with Love" (Seuseung-ui eunhye, 2006)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Resultados da Votação #8

Ah. Sabe tão bem quando o meu filme preferido vence a votação mensal. Com 2 votos (podiam ter sido mais!), "Phobia 2" ou "5bia" foi a crítica favorita do mês passado. Este mês voltamos à carga com uma nova votação e uma novidade também. A partir de dia 4, um ciclo de cinco filmes sul-coreanos, em jeito de homenagem ao velhinho "Cinco noites, Cinco filmes" da TV2 (ainda se recordam?). É também um docinho visto que uma votação anterior, aqui no blog e promovida no Facebook também, demonstrou que as vossas preferências, dos leitores, claro está recaem, entre outros, sobre o cinema sul-coreano... A abrir a sessão: "R-point-Ghost Squad".

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

3ª Mostra de Cinema de Hong Kong em Lisboa!

Em Janeiro de 2012, Lisboa recebe a terceira edição da mostra dedicada ao cinema de Hong Kong. De 11 a 15 de Janeiro o Cinema City Classic Alvalade será agraciado com filmes de comédia e romance produzidos em Hong Kong.

Programa
11 de Janeiro, quarta-feira - "All About Love"
12 de Janeiro, quinta-feira - "Break Up Club"
13 de Janeiro, sexta-feira - "Crossing Hennessy e "The Drunkard"
14 de Janeiro, sábado - "La Comédie Humaine" e "Echoes of The Rainbow"
15 de Janeiro, domingo - "Gallants"

A Mostra de Cinema de Hong Kong é um projecto desenvolvido pela Zero em Comportamento em parceria com o Hong Kong Economic and Trade Office de Bruxelas e pretende dar a conhecer a vitalidade e diversidade da produção cinematográfica de Hong Kong. Esta iniciativa constitui uma rara oportunidade de conhecer o cinema de romance e comédia do extrema oriente. Eu vou lá estar. E vocês?

Mais informação e o programa completo no website oficial do evento.

domingo, 27 de novembro de 2011

"White: The Melody of a Curse" (Hwaiteu: Jeojooui Mellodi, 2011)


São fãs de música pop com muita coreografia e gritos de adolescentes histéricas? Acham que as girls band ainda não passaram de moda? Ainda dão um passinho de dança quando vêem um videoclip das Pussycat Dolls? Ainda cantam N*Sync no chuveiro? Se a resposta é afirmativa, então "White: The Melody of the Curse" é o filme indicado para vós.
Pink Dolls é um novo grupo feminino de pop constituído por Eun-joo (Eun-jeong Ham) uma antiga bailarina que é a membro mais velha e líder do grupo, Sin-ji (Maydoni) uma rapper e bailarina, Ah-rang (Ah-ra Choi) que é a face mais bonita do grupo e é obcecada pela aparência e Je-ni (Se-yeon Jin) uma vocalista principal que tem medo de atingir notas altas. O grupo muda-se para um novo estúdio e treinam durante todo o dia para chegar o mais longe possível. Um dia, Eun-joo encontra por acaso, uma antiga cassete VHS com o videoclip de uma música chamada “White”. A música contagiante e a coreografia arriscada gritam sucesso e a sua empresária pouco escrupulosa decide que aquele será o seu próximo single. O ambiente do grupo deteriora-se quando a agência decide tornar uma das raparigas a membro principal, para promover “White”. Inicia-se uma batalha feroz entre elas para se tornarem a número 1 do grupo. À medida que lutam para chegar ao primeiro lugar, a maldição começa a manifestar-se. Ciente de que em breve será chamada a tomar a posição principal, Eun-joo e a sua amiga Soon-ye (Woo-seul-hye Hwang), iniciam uma corrida desesperada para desvendar o mistério por detrás da canção e desfazer a maldição.
"White" é um filme de terror passado nos nossos dias que combina de forma inteligente terror com a cena musical sul-coreana. “White” junta algumas actrizes em ascensão com cantoras bem reais do K-pop (Korean pop). Destaque-se Eun-jeong Ham, vocalista da girls band real T-ara e Maydoni uma cantora também muito apreciada na Coreia do sul. Ambas são capazes de pôr a um canto as capacidades de dança de muito boa gente e ainda por cima cantam bem! O grupo After School foi convidado para interpretar a banda rival Pure. Tudo isto dá uma aparência bastante realista ao filme já que o elenco está bem versado na arte de cantar e dançar na vida real, além de se identificar com os personagens. A simulação de programas televisivos de eleição no país, todo o trajecto dos personagens desde as aulas de canto e de dança aos ensaios, promoções, paparazzi, encontros com fãs à beira de um ataque de nervos e toda a produção à volta do grupo tem um feel bastante aproximado ao género documentário. Foi realizado um trabalho de pesquisa que se denota e os actores, mesmo com um pouco de exagero, vestem bem os papéis.
"White: The Melody of the Curse" retrata uma profissão que exige muito trabalho, dedicação, talento (às vezes) e capacidade de lidar com a podridão que grassa na indústria do entretenimento. Assistimos às invejas, intrigas e tentativas de sabotagem por parte das raparigas para se superiorizarem umas às outras, demonstrando, aquilo de que já todos suspeitavam, a vida dentro de um grupo musical não é um mar de rosas. A somar à discórdia entre elas temos empresários e produtores pouco éticos e até cruéis, vidrados que estão, na máquina de fazer dinheiro. Eles chegam ao ponto de roubar material e de criar embustes à la Mili Vanilli. É um retrato da indústria musical coreana mas bem que podemos encontrar um significado mais profundo na sociedade. Nascida em 88, Eun-joo é já considerada velha para vingar no mundo da música. A sério? E Ah-rang, uma miúda adolescente, já está bem versada na cirurgia plástica apesar de não se lhe afigurar um único defeito no rosto perfeito e imune à passagem do tempo. Muitas trocariam os cremes da Nívea que compraram em toda a sua vida, pela pele magnífica das asiáticas! Somos ainda confrontados com verdadeiros atentados à dignidade humana na forma de predadores sexuais e da escravidão. As raparigas são como pequenos robôs, programadas desde pequeninas para falar e mover-se de determinado modo, ao sabor dos caprichos das agências de talento. Não têm identidade, privacidade ou sequer vontade própria mas, surgem lindas, cantam e encantam. Se uma ilação pode ser extraída de “White” é que o mais importante é a aparência. Não admira que a juventude esteja com os valores trocados! “White” tem uma vertente dramática bastante pertinente nos dias de hoje e conducente a uma reflexão séria sobre os valores que estão a moldar a juventude. Mas se não quiserem uma reflexão séria, a componente de terror chega perfeitamente. Se forem fãs de K-pop ou curiosos do género, as coreografias elaboradas e a banda-sonora dão origem a 100 minutos muito bem passados. “White: The Melody of the Curse” brilha por mérito próprio. Três estrelas.

Realização: Gok Kim e Sun Kim
Argumento: Sun Kim e Gok Kim
Eun-jeong Ham como Eun-joo
Woo-seul-hye Hwang como Soon-ye
Maydoni como Sin-ji
Ah-ra Choi como Ah-rang
Se-yeon Jin como Je-ni
Jeong-su Byeon como Empresária

Tema principal de White aqui.

Próximo Filme: "R-point: Ghost Squad" (Airpointeu, 2004)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man 2" (Yip Man 2, 2010)

Ip Man fugiu para Hong Kong depois de um incidente que trouxe uma tremenda humilhação dos invasores japoneses. Desta feita são os ingleses que mandam na cidade e Ip Man terá de reunir forças para enfrentar as sucessivas ofensas deste povo, enquanto luta pela sobrevivência dos que ama. Ip Man entende agora o potencial do Wing Chun e mantém a custo uma escola de artes marciais para jovens chineses.
Em Hong Kong grassa a corrupção com os ingleses a deixar os mestres locais manter os seus negócios a troco de dinheiros e favores. Claro que os donos de escolas de artes marciais não vêem com bons olhos a chegada de um concorrente. Pior que isso: Ip Man é honesto. Aborrecidos com a atitude desafiadora do instruso, levantam obstáculos à existência da escola. Então, Ip Man que apenas pretende ganhar a vida e manter uma actividade honesta, tem mais uma vez de utilizar o Wing Chun. Isto dá origem a uma série de lutas maravilhosamente coreografadas por Sammo Hung, que também desempenha um dos mestres rivais. Curiosamente, Hung sentiu-se mal durante as filmagens de "Ip Man 2" e foi mesmo operado ao coração, após o que voltou à rodagem das exaustivas cenas de luta. Pergunto-me se as cenas captadas em filme, de um Sammo Hung exausto, não correspondem ao drama que se operava na vida real. A atitude deste senhor é tanto mais extraordinária se considerarmos que ele, longe de ostentar a melhor forma física, mantém uma agilidade supra-normal. O confronto entre os mestres do Kung Fu chineses dá direito a uma das melhores sequências de luta do filme... em cima de uma pequena mesa redonda! Se não gostam de filmes moralistas façam fast forward mas não deixem de apreciar esta cena. Magnífica! À semelhança do primeiro filme, a primeira meia hora é leve e despreocupada. Num cenário de guerra e de grandes dificuldades para os cidadãos chineses, eles perdem tempo em escaramuças e brigas que em nada contribuem para a unidade contra o inimigo. Sobrevivem atormentados pelo dilema entre a colaboração com o inimigo, pondo comida na mesa das sua famílias ou enfrentá-lo e arriscar a perda do que lhes é mais querido. Para alguns, esta realização surge tarde demais, para outros, a atitude heróica de uns poucos coloca um ponto final na constante humilhação do invasor. Mais, uma vez os bad guys são mesmo really bad guys. Assistimos ao estereótipo do inglês arrogante, snob, com maus dentes.
É incontornável. O argumento retrata o inglês como um ser odioso. Em "Ip Man 2" a encarnação do mal é o boxer inglês "Twister" (Darren Shalavi), que veio a Hong Kong para demonstrar as suas capacidades atléticas e dar porrada nuns macacos. Não sou eu que o digo, é ele. Aviltante. Odiei-o. Acho que não odiava um personagem tão intensamente desde que o Joaquín Phoenix interpretou César no "Gladiator" (2000). Quase que tenho pena do Darren Shalavi. Temo que a sua reputação tenha sido irremediavelmente destruída junto do povo chinês e que este papel o condene a papéis-tipo, apesar da representação não ser o seu forte. Darling, fica-te pelas cenas de pancada, sim? Os melhores desempenhos vão para personagens secundárias divididas entre o dever para com o país e a sobrevivência. Por comparação, Ip Man surge mais fraco que no primeiro filme. Lamento que no primeiro filme em que Ip Man leva pancada a sério, o inimigo seja Twister. O General Miura do primeiro filme é um adversário infinitamente mais digno que este boxer inglês. Desculpem lá quaquer coisinha mas, é mais interessante assistir a um confronto entre artes marciais chinesas e nipónicas ou ao kung fu contra o boxe? É que os estilos são tão diferentes que não existe nem a beleza visual nem a dificuldade que seria de esperar de um confronto épico. Mas no geral, as sequências de luta são visualmente estonteantes, nada da treta do digital que Hollywood enfia a martelo nos filmes. Contudo, a acção é menos sobre o estilo Wing Chun e mais sobre o confronto étnico. São os britânicos superiores aos chineses? Ip Man, coloca nos seus ombros a responsabilidade de responder pelo povo chinês com uma brutal sessão de pancada. Entretanto, também há desenvolvimentos na sua vida pessoal: a sua mulher Zhang Yong Cheng (Lynn Hung) está grávida e temos a oportunidade de conhecer Wong Lwung (Xiaoming Huang), que se tornaria um dos mais relevantes discíplos de Ip Man. No final, uma surpresa, Bruce Lee lá aparece para dar um ar da sua graça mas soa a um evento oco, sem qualquer significado especial. Foi apenas o primeiro encontro entre dois dos melhores praticantes de artes marciais de sempre, perdoem-me se estava à espera de uma cena com uma forte componente emocional. "Ip Man 2" é inferior ao primeiro filme. Ainda assim há grande valor de entretenimento, sobretudo se forem fãs de kung fu. Três estrelas.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Edmond Wong
Donnie Yen como Ip Man
Lynn Hung como Zhang Yong Cheng
Simon Yam como Zhou Qing Quan
Sammo Hung como Mestre Hong Zhen Nan
Xiaoming Huang como Wong Shun Leung
Siu-Wong Fan como Jin Shan Zhao
Darren Shalavi como Twister
Kent Cheng como Fatso

Próximo Filme: "White: The Melody of the Curse" (Hwaiteu: Jeojooui Mellodi, 2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

Ip Man. De vez em quando surge um homem com um talento tão extraordinário que marca indelevelmente a história. Ip Man é conhecido como o mestre por excelência do Wing Chun uma arte marcial chinesa e um modo de auto-defesa utilizada no combate corpo-a-corpo. Ip Man é responsável por ter deixado por escrito a história desta arte marcial e foi criado um museu em sua honra em Foshan, na China. Mas o motivo por que é mais conhecido no Ocidente é ter sido mestre de um pequeno artista do Kung Fu, de que talvez já tenham ouvido falar, chamado Bruce Lee.  No cinema Ip Man já tinha sido retratado por diversas vezes, nomeadamente, como mestre do seu pupilo mais famoso. Só recentemente houve um renascer da atenção sobre Ip Man, por via do cinema de acção de Hong Kong cujos filmes sobre grandes mestres e o género wu xia são sinónimo de grandes resultados de bilheteira. O facto de o Wing Chun ter uma história tão peculiar, pois que reza a lenda que o estilo nasceu quando a donzela Ying Wing-Chun se defendeu contra um pretendente rejeitado, só podia dar origem a um filme. Em 1994, uma Michelle Yeoh ainda desconhecida no ocidente interpretou a heroína em "Wing Chun", acompanhada por Donnie Yen no papel de pretendente rejeitado. Ele já tinha familiaridade com a lenda e um grande mestre teria de ser retratado por um grande lutador. Yen foi então, a escolha óbvia, ou não fosse ele praticante de wushu, jiu-jitsu, taekwondo, judo e muitas outras artes marciais. E o resultado são sequências de luta impossíveis para o comum dos mortais e visualmente espantosas (o termo técnico é “deixar de queixo caído”).
A narrativa começa em meados dos anos 30 quando um Ip Man, ocioso e despreocupado se limita a praticar e intervir em escaramuças de ocasião as quais secretamente, lhe dão um intenso prazer. Lynn Hung interpreta a esposa de Ip Man que deseja que este abandone as artes marciais e se dedique mais ao filho Ip Chun. Tudo muito giro e calmo até que o exército imperial japonês invade a China. Acredito que tudo correria às mil maravilhas se os japoneses não tivessem cometido o erro histórico de invadir Pearl Harbor, provocando assim a entrada dos EUA na 2ª Grande Guerra e não se tivessem metido com o Ip Man. Ninguém se mete com o Ip Man! Mas ele pertence àquela marca do herói relutante, modesto e cativante, que terá de passar por muitas provações até compreender o poder do seu talento, com o potencial de ser seguido por milhares. Com a invasão japonesa Ip Man é obrigado a deixar o seu palacete e a arranjar um trabalho numa fábrica de extracção de carvão para evitar a fome da sua família. A vida deixa de ser a preto e branco, para existirem vários tons de cinzento. Muitos cidadãos chineses para evitar a miséria, passam-se para o lado dos invasores como espiões e captam antigos mestres para enfrentar lutadores japoneses por sacos de arroz. E aqui incorre o grande defeito do filme. Os maus são demasiado maus, são cartoonescos, demoníacos mesmo. Estamos a referir-nos a uma guerra, pois claro, mas ambas as partes cometeram atrocidades ao longo da história. Até os portugueses foram a dada altura o maior povo esclavagista do mundo! O argumento podia ter manuseado melhor esta questão, explorando por exemplo, o facto de o exército japonês estar a cumprir ordens, de os soldados terem sido enviados para a guerra, deixando também eles, empregos e famílias para trás. O argumento podia ter dar espaço à reflexão sobre como a maldade não é inata, mas no contexto certo pode ser criada. Senti que a escrita foi ao encontro das expectativas das massas que se encontram enraizadas no profundo nacionalismo e ressentimento decorrentes da história entre os dois países. A dissonância cognitiva é melhor demonstrada no personagem Li Zhao (Ka Tung Lam), um chinês tradutor do exército invasor que é forçado a fazer escolhas dificílimas, mesmo perante aqueles a quem há poucos meses chamava de amigos, em nome da sobrevivência da sua família.
Depois temos um Ip Man que aguenta ofensas que só um homem extraordinário pode suportar até que um dia, percebe a razão de ser do seu talento. O evento é, curiosamente, despoletado pela sua mulher que era antes castradora quanto ao seu envolvimento nas artes marciais. É o desejo de proteger a sua família que o leva a empreender toda a sua força contra o inimigo. Ip Man, não pára sozinho a guerra mas incentiva os chineses a lutar pela sua dignidade, emprestando as suas excelentes capacidades físicas e a sua filosofia de vida muito zen. Sim, que apesar de conseguir esmurrar um homem um gazilião de vezes, evita fazê-lo porque ele é assim, muito chill out, estão a ver? Ele incentiva implicitamente os cidadãos de Foshan a resistir e traz o sentimento da esperança novamente àqueles coraçõezinhos quebrados. Há uma luta final, que é o grande confronto com o General japonês Miura, no qual Donnie Yen é excelente, não haja duvida, mas fica a saber a pouco. Quando damos por nós, não sendo fãs acérrimos de artes marciais, a ansiar por mais, é sinal de que o que estamos a ver é pancada da séria! "Ip Man" trouxe reminiscências de um jovem Jean Claude Van Damme, de um explosivo Bruce Lee, ou de um sério mas brutalmente eficaz Chuck Norris. E o melhor de tudo? Donnie Yen tem o desempenho de uma vida. Já o critiquei por diversas vezes: aqui e aqui. As suas qualidades como actor não são as melhores mas em Ip Man, estão bem acima de medíocres, são muito razoáveis. Este filme apesar de toda a liberdade artística em torno da demonização do povo japonês e da própria vida do mestre representa bom entretenimento. Por isso é, no mínimo, de estranhar que Donnie Yen ainda não tenha sido seduzido por Hollywood, nem seja um nome sonante em terras americanas, como o são Jet Li e o Jackie Chan. Neste minúsculo cantinho de língua portuguesa, Donnie Yen merece todo o respeito e aclamação pelo seu trabalho como lutador, coreógrafo e artista. Três estrelas e meia.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Edmond Wong
Donnie Yen como Ip Man
Simon Yam como Zhou Qing Quan
Siu-Wong Fan como Jin Shan Zhao
Ka Tung Lam como Li Zhao
Yu Xing como Mestre Zealot Lin
Lynn Hung como Zhang Yong Cheng
Hiroyuki Ikeuchi como General Miura

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man 2" (Yip Man 2, 2010)

Clica aqui para veres o mestre Yip Man com o seu mais famoso discíplo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Curta #3: "Three - Going Home" (Saam Gaang, 2002)

Depois da recepção gelada que as primeiras curtas-metragens da antologia de terror "Three" obtiveram, a vontade de visionar "Going Home" encontrava-se poucos graus abaixo de zero. Não fosse a companhia e teria ficado "satisfeita" por ter visto duas em três o que constituiria um grande erro. Como se costuma dizer: "o melhor fica para o fim". "Going Home" é uma peça tocante sobre Wai (Eric Tseng) que se muda com o filho Cheung (Ting-Fung Li), para um antigo complexo de apartamentos que irá ser demolido dentro de pouco tempo. Não é pois de estranhar que o seu filho impressionável pense que o edifício está assombrado. Um dia, este segue uma rapariguita de vermelho que costuma brincar no complexo e desaparece. Inquieto com o desaparecimento do filho, Wai bate à porta do seu único vizinho Yu (Leon Lai) e tropeça numa história rocambolesca. Yu tem dedicado a sua vida a cuidar da sua mulher Hai’er (Eugenia Yuan) que matou há três anos! E agora, acreditem nisto, Yu continua a banhar, cortar o cabelo e as unhas da mulher, a passeá-la e a falar-lhe ternamente como se estivesse viva. Só num filme certo? Mas Yu nada tem de psicopata, ele é digno de compaixão, envolvido na ilusão que ele próprio criou de que a esposa irá acordar dentro de dias. A grande força de “Going Home” reside na subtileza do desempenho de Lai e na sua força comedida que fazem questionar se ele estará mesmo louco, ou se realmente encontrou uma solução mágica para a vida depois da morte. Por contraposição, temos um Eric Tseng quebrado perante a sua própria impotência face à ausência inexplicável do filho. Dois modos interessantes de lidar com a perda que podiam ser ainda melhor explorados não fosse esta uma curta. Apesar de eficaz, “Going Home” não está isenta de falhas. O desaparecimento de Cheung despoleta a acção mas, durante mais de metade do filme, não voltamos a ele. É como se o seu desaparecimento fosse apenas uma desculpa para nos introduzir à vida de um vizinho louco. E por muito interessante que seja explorar a "relação unidireccional" de Yu com a mulher, temos sempre presente que uma criança está desaparecida e queremos uma resposta para o mistério. O início também é enganador, com as pistas de que vamos assistir a um thriller sobrenatural a revelarem-se infundadas. Tanto melhor, o mistério sobrenatural como o conhecemos já há muito devia ter caído em desuso. “Going Home” é a obra mais compensadora de “Three” e aquela que podia (devia!) ter sido perscrutada mais profundamente numa longa-metragem. O lirismo da narração e da cinematografia de Christopher Doyle que foi responsável por algumas das obras mais belas na sétima arte como “Hero” (2002) e vários filmes de Wong Kar Wai, a par dos bons desempenhos dos actores, merecem que vejam com a maior urgência esta curta-metragem! É daquelas pequenas pérolas que fazem uma pessoa apaixonar-se de novo pelo cinema. Imperdível. Quatro estrelas.


Realização: Peter Chan
Argumento: Peter Chan, Matt Chow, Jo Jo Yuet-chun Hui e Chao-Bin Su
Leon Lai como Yu
Eric Tseng como Wai
Eugenia Yuan como Hai'er
Ting-Fung Li como Cheung

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Not a Film Critic: Nomeação para a categoria de Novo Blogue dos TCN Blog Awards 2011!

O Not a Film Critic, o meu projecto pessoal sobre o cinema do sudeste asiático foi nomeado para a categoria de Novo Blogue dos TCN Blog Awards de 2011. Neste momento devo parecer um qualquer receptor de prémios, quando acabam de anunciar o seu nome, com aquele ar de espanto ensaiado, mas fui mesmo apanhada de surpresa. É uma enorme alegria quando um projecto tão pessoal, ao qual dedicamos tanto tempo e amor é reconhecido pelos seus pares, os mesmos que admiramos e que contribuíram para que finalmente, desse o salto. Esta nomeação e as vossas crescentes palavras de apreço confirmam, cada vez mais, que a aposta em divulgar o cinema de outras paragens focando, sobretudo, o género do terror não é um sonho absurdo. Um grande obrigada a todos os que votaram para esta nomeação, obrigada a todos os que nos seguem, o Not a Film Critic veio para ficar!

Os TCN Blog Awards 2011 incluem as seguintes categorias:

Novo Blogue
Blogue Individual
Melhor Revista
Melhor Artigo
Melhor Iniciativa
Blogger do Ano
Melhor Crítica
Blogue Colectivo

As votações abrem oficialmente hoje. Para votar e conhecer os restantes nomeados venham aqui: http://cinemanotebook.blogspot.com/

Adenda: A votação está disponível na barra lateral direita do Cinema Notebook. A votação é encerrada no dia 31 de Dezembro às 23h59. Os vencedores serão conhecidos no dia 7 de Janeiro de 2012, no Teatro Turim, às 15h, em Lisboa.

domingo, 13 de novembro de 2011

"Bestseller" (Beseuteu Serreo, 2010)

“Bestseller” é um thriller/mistério de terror interpretado por Jung-hwa Eom que faz o papel da escritora Hee-so, que tem passado os últimos anos a escrever êxitos atrás de êxitos até que um dia é acusada de plágio. A carreira e a vida familiar de Hee-so são abaladas pelo escândalo e ela desespera quando a inspiração tarda em reaparecer. O seu editor sugere-lhe uma mudança de cenário para ultrapassar o bloqueio de escritor e dá-lhe uma última oportunidade para tentar recuperar o que perdeu. Assim, Hee-so parte para uma velha mansão colonial, nos arredores de uma pequena vila, com a sua filha Yeon-hee (Sa-rang Park). Lá, a inspiração continua a iludi-la até que repara que a sua filha mantém conversas com um amigo imaginário. Dessas interacções surge uma história de terror e mistério ocorrida na propriedade. Hee-so, deprimida e frustrada com os seus esforços infrutíferos não hesita em utilizar a história de Yeon-hee que se vem a tornar um sucesso de vendas. Mas o sucesso é efémero, já que Hee-so é novamente acusada de plágio. Com o seu editor a fechar-lhe definitivamente as portas e um marido cada vez mais desencantado com o seu comportamento, Hee-so está disposta a tudo para provar a sua inocência. Então, decide retornar à vila para investigar a origem da história e começa a descobrir que por detrás de uma aparência encantadora, os seus habitantes escondem um segredo obscuro…
Até aqui nada de original. É apenas o vulgar mistério associado a uma casa e alguém determinado a desvendar a verdade até às últimas consequências. A característica distintiva de “Bestseller” é a acção mais centrada nas personagens do que no cenário. A força da narrativa encontra-se nas personagens e nesse campo há que louvar o trabalho de Jeong-hwa Eom, que é competentíssima num papel difícil. Eom interpreta o papel de uma mulher deprimida, neurótica e ambiciosa que identifica o sucesso com o bom desempenho da sua obra literária, mesmo que para tal, negligencie os seus papéis de esposa e de mãe. A primeira parte do filme pertence-lhe toda, com todos os outros personagens a terem participações fugazes ou supérfluas. É de destacar o seu papel invulgarmente intrincado para um filme de terror que exige a demonstração de um vasto espectro de emoções. É necessário compreender a personagem e a sua obsessão com o trabalho, o qual se confunde com a sua própria identidade para justificar as suas acções. Também dei por mim, a olhar para Jeong-hwa e a recordar-me de outra actriz não menos conhecida, que já passou por aqui, Bai Ling. Com o cabelo na cara, o eyeliner carregado e a estrutura óssea frágil faz lembrar a actriz chinesa.
Há uma cena em que Yeon-hee conta à sua mãe uma história de horror e de morte que lhe terá sido contada por um amigo imaginário. Poucas pessoas precisariam de um segundo aviso para perceber que havia algo de muito errado em tudo aquilo e se porem a andar dali para fora. Na lógica da "workaholica" Eom, isso não faz sentido.

Poucos minutos dentro do filme, um dos personagens discorre sobre a história da mansão colonial. Isto acaba por redundar em informação desnecessária e é apenas um motivo de distracção, uma vez que a promessa de assombração não é concretizada. Contudo, a primeira metade do filme é orientada para o sobrenatural, tendo alguns clichés relacionados com portas fechadas e visões assustadoras. Mas gostei do facto de não sermos brindados com a habitual mulher de longos cabelos despenteados. A assombração é bem diferente, o que nos leva à grande revelação do filme. Num momento em que ninguém esperaria, cai uma bomba, bem ao nível de filmes com “The Others” (2001) de Alejandro Aménabar. A última metade da película afasta-se por completo do género sobrenatural e aproxima-se de preocupações terrenas com o bom velho thriller a entrar em força nos últimos 30 minutos de filme. Os viciados nos fenómenos sobrenaturais não vão gostar desta opção. Pelo contrário, os fãs de mecanismos psicológicos que tenham resistido ao início do filme, serão recompensados pela explicação racional da trama. Se qualquer dos géneros não vos fizer confusão não haverá qualquer constrangimento em prosseguir com a visualização do filme. Apesar do argumento não trazer nada de novo em termos de história, já que ela parece ser uma colagem de diferentes partes de filmes, o mix de géneros e a revelação inesperada a meio do filme, ao invés de ser realizada no final como é apanágio dos filmes de terror, fornecem alguns elementos refrescantes à película. Não é brilhante. A palavra que procuram é competente. Duas estrelas e meia.
Realização: Jeong-ho Lee
Argumento: Jeong-ho Lee
Jeong-hwa Eom como Hee-so Baek
Sa-rang Park como Yeon-hee
Seung-yong Ryoo como Yeong-joon Park
Jin-woong Joo como Chan-sik

Próximo Filme: Curta #3: "Three - Going Home" (Saam Gaang, 2002)
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