domingo, 24 de julho de 2011

Curta #3: "Three...Extremes - Box" (Saam gaang Yi, 2004)

"Box" é a última supresa de "Three...Extremes" e para mim, a menos extrema no sentido literal do termo. Isto surpreendeu-me, ou não fosse o realizador Takashi Miike. A narrativa centra-se em Kyoko que em criança (Mai Susuki), tinha uma irmã gémea Shoko (Yuu Susuki), que com ela fazia um número circense de contorcionismo. O número, conduzido pelo seu próprio pai, consistia em enfiarem-se em caixas pequenas, das quais desapareciam e surgiam, no seu lugar, rosas. Mas elas são iguais apenas na aparência. Shoko tem a preferência do pai e como se sugere, o seu amor incestuoso. Kyoko não consegue lidar com esta situação e um simples acto de criança vai desencadear acontecimentos terríveis. A  Kyoko (Kyoko Hasegawa), adulta é consumida pela dor do seu passado e sonha todas as noites que está a ser enterrada numa caixa, na neve. Mas será que é apenas um sonho? A história é um pouco confusa, como uma peça surreal, na qual temos de encontrar um significado sob a superfície. Muitas cenas não serão entendidas de imediato, somente após uma reflexão. A acção alterna o sonho com a realidade de um modo que podemos não conseguir encontrar a fronteira entre eles e até confundi-los. Depois de "Dumplings" e "Cut", "Box" soa a peça que pertence noutro puzzle pois ainda é mais contida de que "Cut".
 
A ligação entre as irmãs poderia ter sido melhor explorada, o facto de serem gémeas não justifica tudo. Quantos irmãos não têm más relações? Também o facto de Shoko ser a filha favorita não é explicado. Apenas se assume que existe um fio invisível e inquebrável que une as irmãs a ponto de uma ruptura poder ser desastrosa. Conseguimos empatizar com Kyoko e percebê-la só que sabe a poucochinho. Pessoalmente, queria mais. Mas é na cinematografia que a curta ganha pontos e ultrapassa largamente "Cut". Gostos. Não se discutem, lamentam-se. "Box" traz uma estética que concebo (ingenuamente dirão), mais próxima do horror. Toda a qualidade de sonho, a imagem e a narrativa surreal, funcionam muito bem. A árvore velha que domina a paisagem branca de neve parece uma pintura. Entretanto, esta cena orgânica exterior vai alternando com as cenas de circo numa estética que faz lembrar, por momentos, a época dourada dos circos itinerantes de freak shows, durante a Grande Depressão. Também a máscara veneziana representa um misto de mistério e de sedução que acentua o sonho. Belíssimo. Por fim, somos assaltados pela realidade fascinante que motiva o "remexer" do subconsciente de Kyoko: o facto de que ela e Shoko estarão juntas para sempre.
Em última instância, "Box" sempre é uma curta e exigir mais no seu tempo de duração seria difícil senão mesmo impossível. Miike sempre pensa "outside the box" por isso, leva "apenas" quatro estrelas.



Realização: Takashi Miike
Argumento: Haruko Fukushima e Bun Saikou
Elenco:
Kyoko Hasegawa como Kyoko 
Atsurô Watabe como Yoshii / Higata
Mai Susuki como jovem Kyoko
Yuu Susuki como jovem Shoko

Próximo Filme: "Cinderella" (Sin-de-re-lla, 2006)

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