quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "Bloody Reunion" aka "To Sir with Love" (Seuseung-ui eunhye, 2006)

Mas alguém gosta realmente de ir às reuniões de antigos alunos? É ver que os alunos populares continuam bonitos, ricos e bem-sucedidos e os impopulares continuam a ser os mesmos falhados. Esta é a premissa de “Bloody Reunion”, onde uma antiga professora de primária que padece de uma doença terminal se reúne pela primeira vez em muitos anos, com uma turma de ex-alunos. É-nos mostrado que ela sofreu uma gravidez complicada que a fez dar à luz uma criança deformada e lhe custou o casamento. A reunião deverá resultar num último encontro que lhe traga paz de espírito antes de deixar este mundo. Os percursos dos alunos, agora nos seus vinte e poucos anos foram profundamente influenciados pela professora Park (Mi-hee Oh). Uma recepção calorosa inicial dá lugar è frieza e à recriminação è medida que o álcool é vertido e as memórias abafadas começam a surgir… Podíamos ter aqui um drama perfeito, não fosse “Bloody Reunion”, um slasher movie, digno de um “Friday the 13th” (1980).
A primeira parte do filme é passada a dar a conhecer as personagens, as suas motivações e agendas. Ficamos a perceber que abaixo da superfície os ex-alunos são adultos com extremas disfunções. Se-yeol Park aproveita para inserir no argumento laivos de crítica social e incide com a perícia de um cirurgião sobre o sistema educativo coreano. Pak desafia-nos a reflectir sobre aqueles breves momentos da juventude que nos marcaram para sempre ou, de como as mais pequenas frases podem impactar uma jovem mente e formatá-la para o sucesso ou fracasso. Na segunda metade, a tensão acumulada dá lugar a uma sucessão de mortes brutais provocadas por um indivíduo com uma máscara de coelho. “Bloody Reunion” ganha pontos face ao típico slasher pelo facto de ter algumas mortes genuinamente criativas e perturbadoras e por “despachar” personagens que à partida apostaríamos em como seriam as últimas vítimas. O cenário não é meramente decorativo mas serve como uma personagem extra. Nota-se que foi pensado e que não serve apenas um propósito de logística. A praia e o sol intenso contrastam com o ambiente obscuro nos filmes do género e demonstram que um espaço paradisíaco pode servir perfeitamente para criar uma sensação de temor nas entrelinhas de palavras inocentes. À medida que vai escurecendo a atmosfera vai caminhando para o insuportável até desembocar em morte.
A grande pergunta que se impõe é: Quem é o assassino? Terá sido um dos alunos que enlouqueceu de vez? É alguém que ignorámos na equação e que esconde uma agenda mais misteriosa do que podemos imaginar? A resposta não é assim tão difícil de encontrar se houver uma grande atenção aos pormenores. Como tão habitualmente os cineastas gostam de fazer em cinema, mais até no cinema americano que no asiático, onde parece existir uma aversão a deixar perguntas por responder e imagine-se só, fazer a audiência pensar, no final temos direito a uma série de flashbacks que explicam o como e o porquê dos assassinatos. Não sou grande fã desse tratamento que mina o que foi construído até ali. A narrativa deve ser suficientemente forte para se suster a si própria sem o recurso a flashbacks. Se é necessário utilizar este recurso para explicar algo que terá ficado por compreender é porque, muito provavelmente, algo correu mal durante o percurso. O que me leva ao final. É confuso. Os últimos 15 minutos são um conjunto de reviravoltas que não faziam grande falta ao enredo. Talvez a opção tenha sido tomada no sentido de americanizar ainda mais “Bloody Reunion”. Num bom slasher a gratificação não advém necessariamente de sabermos quem é o assassino mas, de existir um good guy ou uma good girl, com o qual nos identificamos e por quem torcemos que escape às garras do matador.
Outra das forças desta película está no elenco sólido do qual destaco Yeong-hye Seo (Mi-ja) com uma grande capacidade dramática, que demonstrou em todo o seu esplendor no drama Bedevilled (2010) e Mi-hee Oh a professora Park que por detrás de uma aparência amável esconde uma insensibilidade e preconceito que professor algum devia ter. “Bloody Reunion” é um bom slasher se tiverem paciência para a construção das personagens e uma primeira metade de filme sem grandes sobressaltos. No entanto, quando tenta deixar de ser igual a si próprio, com as implicações culturais que ser um filme made in Korea tem, para se aproximar dos filmes americanos, “Bloody Reunion” perde a aura de desafio e até a criatividade que até ali tinha demonstrado. Não deixa de ser curioso que um filme de crítica social seja incapaz de fazer uma auto-introspecção. Duas estrelas e meia.
Realização: Dae-wung Lim
Argumento: Se-yeol Park
Yeong-hye Seo como Mi-ja Nam
Mi-hee Oh como professora Park
Ji-yeon Lee como Sun-hee
Hyo-jun Park como Dal-bong
Hyeon-soo Yeo como Se-ho
Seol-as Yu como Eun-young
Dong-kyu Lee como Myung-ho

Próximo Filme: "Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004)

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