domingo, 18 de dezembro de 2011

Ciclo Sul-Coreano: "Cello" (Chello hongmijoo ilga salinsagan, 2005)

O violoncelo pode ser considerado um instrumento musical da alta cultura, no sentido mais elitista do tempo. Na verdade, a malta mais nova prefere ficar GaGa pelos beats da música pop do que passar pelo sacrífico de ouvir um pouco de Bach ou de Brahms. Isto, a malta quer é facilitismos, sons contagiantes, fáceis de compreender e de replicar. E assim, no Not a Film Critic passamos de um interlúdio musical no universo do K-pop com “White: The Melody of the Curse” (2010) para a música clássica. Esqueçamos a música reinante nos tops, produzida à velocidade da luz, mainstream, para peças longas, intrincadas, conhecidas somente por alguns iluminados. A simplicidade de “White” contrasta com o denso enredo de “Cello” (2006). Não obstante, ambos vivem de e para a música com a habitual alusão ao sobrenatural.
Mi-ju (Hyeon-a Seong) é uma antiga violoncelista que se dedica agora ao ensino na universidade onde se formou. Apesar dos incentivos para voltar a tocar, por colegas e pela própria família, Mi-ju recusa-se a tocar no instrumento e sente uma especial aversão por uma música em particular. A sua atitude fria face ao ensino e ao próprio instrumento granjeia-lhe o ódio de uma aluna que se sente injustiçada com as notas atribuídas por Mi-ju. Ela promete vingança e pergunta-lhe se “ela está feliz?”, como quem diz, que lhe vai tornar a vida um pesadelo. Entretanto, a luz dos olhos de Mi-ju, a sua filha Yoon-jin sofre de um tipo de autismo que condiciona de modo severo a interacção com os outros. Mi-ju sente um forte sentimento de culpa face à condição de Yoon-jin, apesar de não existirem provas de que o seu comportamento durante a gravidez tenha contribuído para a maleita da filha. Assim, a sua vida se divide entre a indiferença pela profissão e a cobrir de atenções Yoon-jin até que um dia esta demonstra interesse por um violoncelo. Mi-ju não hesita em comprar o instrumento. A partir do momento em que o adquire começam a acontecer uma série de acontecimentos estranhos no seu lar. Estes incluem uma obsessão pouco saudável de Yoon-jin pelo violoncelo e a sua insistência em tocar a música que Mi-ju não suporta ouvir.
À medida que cresce o perigo em redor da sua família, Mi-ju é obrigada a um reencontro com o passado, acabando por revelar o motivo da cisão com a carreira de violoncelista. É-nos revelado que Mi-ju esteve envolvida num acidente de carro que a deixou traumatizada e provocou a morte da sua grande amiga e colega Tae-yeon (Da-na Park). Mas ela esconde um segredo terrível e será preciso aguentar pelo menos 40 minutos de filme até se fazer luz sobre os acontecimentos. Que ninguém se queixe que o cinema coreano não gosta de contar muito bem contadas as suas histórias. O cinema coreano é tipo sexo tântrico, são mais importantes os preliminares do que a penetração, vulgo, clímax. “Cello” reflecte de modo perfeito a obsessão do cinema sul-coreano com o karma. Não interessa quanto tempo passa, o passado volta sempre para nos assombrar, trazendo consequências devastadoras. “Cello” peca pela falta de originalidade: existe uma presença sobrenatural do sexo feminino apostada em fazer das suas, uma mensagem de texto que anuncia intenções perigosas, um instrumento musical amaldiçoado… O motivo por que o violoncelo carrega uma maldição nunca é corporizado. Faz-se um filme sobre um violoncelo que transpira morte e desespero mas nunca se explica porquê?
Mi-ju é a protagonista dislikeable quanto baste. Ela tem uma relação fria com todos os que a rodeiam excepto a filha mais velha. Talvez ela sinta que ter uma filha autista seja o preço a pagar pelos actos do passado. Para quem tanto amava tocar violoncelo, a sua indiferença é surpreendente. Se por outro lado, o instrumento é causa de sofrimento, um lembrete constante dos erros cometidos, seria de pensar que ela preferisse o afastamento total da música. Parece que Mi-ju vive num mundo muito próprio, estéril quase, de aparências, guardando no subconsciente uma informação perigosa, à espera do momento certo para sair e destruir a vida que ela construiu com os cacos do passado.
“Cello” peca por ser qualquer coisa fora do extraordinário: o guião é vulgar, a cinematografia é vulgar, as actuações são regulares. Tirando a composição musical, inexoravelmente ligada ao violoncelo, a actriz principal e a pequena Jin Ji Hye como a filha mais nova de Mi-ju existe pouca ou nenhuma frescura na narrativa. “Cello” funciona num registo muito mediano. Até a reviravolta final é um lugar-comum. A moral da história, entrelaçada com o conceito milenar do karma revolve sobre a punição dos maus actos, mesmo que para tal, o universo tenha de pregar uma grande partida aos prevaricadores e os enleve num ciclo contínuo de dor. Não tenho sentimentos pessoais contra uma história sem fim, excepto quando é tão pouco arrebatadora quanto esta. Duas estrelas.

Realização: Woo-cheol Lee
Argumento: Woo-cheol Lee
Hyeon-a Seong como Mi-ju Hong
Da-an Park como Tae-yeon Kim
Ho-bin Jeong como Jun-ki
Jin Woo como Kyung-ran
Na-woon Kim como Sun-ae
Jin Ji Hye como Yoon-hye

PS: E assim termina o Ciclo Sul-coreano. Aceitam-se sugestões. Por aqui, já não há paciência para Hair movies...

Próximo Filme: "Battle Royale" (Batoru Rowaiaru, 2000)

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