quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Top 5: Filmes para ver no dia de Halloween

A noite de Halloween está a chegar e  no Not a Film Critic não quisemos deixar passar a data em branco. É certo que Portugal não tem uma grande tradição nesta celebração tal como é realizada nos EUA, com as crianças a mascararem-se e a percorrerem o seu bairro fazendo a habitual peregrinação "Doçura ou Travessura". Por cá, o Halloween é denominado "Dia das Bruxas" e está intrinsecamente ligado à Igreja Católica por via do "Dia de Todos os Santos" e o "Dia de Finados". Portugal tem abraçado cada vez mais a celebração e além de ser uma nova possibilidade de rentabilidade para os comerciantes, têm surgido algumas iniciativas interessantes como o Zombie Walk. 'Bora lá? A origem do "Dia das Bruxas" é fascinante e se quiserem explorar um pouco mais a esse respeito podem encontrar uma série de artigos interessantes por toda a internet, assim como livros dedicados a desvendar as raízes desta tradição europeia aqui. Por estes lados, o Halloween é desculpa ideal para fazer uma maratona de filmes de terror. E como esta é uma noite de família, apresentamos propostas para todos os gostos. Feliz Halloween!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Resultados da votação #7

1º Coreia do Sul - 2 votos (40%)
1º Japão - 2 votos (40%)
3º China - 1 voto (20%)

And the results are in! A sétima votação foi efectuada em paralelo com a nossa página no Facebook com vista a saber de que país ou região da Ásia são originários os vossos filmes de terror favoritos. Sem surpresa a Coreia do Sul e o Japão levaram a coroa, com 80% dos votos. As películas oriundas destes países são muito mais divulgadas no ocidente do que digamos uma Indonésia ou Filipinas, o que é pena. Apesar dos orçamentos substancialmente inferiores destas regiões estes últimos revelam um humor cheesy e laivos de criatividade de quem não tem muito com que trabalhar. Também a Tailândia passou misteriosamente despercebida no meio desta votação, ela que possui alguns dos filmes mais originais e criativos que tenho visto dentro do género. É pois um desejo meu que daqui por algum tempo se repita esta votação e os resultados sejam mais equilibrados já que se pretende aqui divulgar o cinema mais obscuro e que não possui tantos meios. Na barra lateral direita está disponível uma nova votação. Entretanto, temos também um passatempo de Halloween a decorrer na nossa página de Facebook, no qual poderão ganhar um colar do Dia das Bruxas para vós ou as vossas mais que tudo. Para mais informações sobre as condições de participação cliquem na imagem na barra superior direita onde diz passatempo.

domingo, 23 de outubro de 2011

"Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

O título inglês "Coming soon" não podia ser mais apropriado, por todas as razões. Só nesta era é que se podia fazer um filme sobre um filme dentro do filme que ultrapassa a ficção e afecta os personagens no mundo real. Confusos? O título original da película é qualquer coisa como "este programa é o espírito vingativo". O tal filme que vai estrear brevemente no cinema onde Shane (Chantavit Dhanasevi) trabalha. Ele deve dinheiro a uns rufias devido ao seu vício de jogo e pensa que a melhor maneira de arranjar dinheiro é piratear o novo filme. O vício custou-lhe a namorada Som (Vookam Rojjanavatchra), está a afectar o seu trabalho e poderá trazer-lhe a morte! "Espírito Vingativo" é a história "baseada em factos reais de Shomba", uma velha decrépita que rapta crianças para substituir os próprios filhos que morreram num incêndio. Louca, esta predadora cega e tortura as crianças dos modos mais horríveis. A sua própria aparência é matéria de pesadelos: cabelo cinzento desgrenhado, olhar maléfico e uma perna aleijada que arrasta, devagar, como o som da morte a aproximar-se... Os pais das crianças mobilizam-se para encontrar as crianças mas quando as encontram deparam-se com um cenário de terror. Horrorizados, eles lincham Shomba. Nasce uma maldição. Ou será que não? Quando "Espírito Vingativo" perpassa a película e os corpos se começam a acumular, Shane alia-se a Som para descobrir o que está por detrás das mortes e como as deter.
O argumento é de Sopon Sukdapisit que emprestou o seu contributo a "Shutter" (2004) e "Alone" (2007) e se estreia pela primeira vez na cadeira de realizador. A narrativa é interessante com alguns dos laivos de originalidade que já lhe são reconhecidos. Infelizmente, "Coming Soon", tem alguns problemas. Para começar, "Espírito Vingativo" é mais assustador do que o filme no qual está inserido. Tem uma envolvência e uma atmosfera que "Coming soon" conseque alcançar apenas em momentos fugazes e nunca ao mesmo nível. Talvez o talento de Sukdapisit surja no trabalho de outros, fazendo-os brilhar e não quando toma as rédeas do projecto. Não é uma crítica afinal, o trabalho de um realizador sempre se baseia num argumento.  Além disso, quando um filme começa com um estrondo, depois abranda e parece que nunca mais recupera o fôlego inicial em 95 minutos de duração é mau sinal. Tudo o resto são truques gastos vistos inúmeras vezes: o personagem ouve um som estranho e vai verificar ou pensa que viu algo pelo canto do olho, etc.
Um pormenor que me dá sempre vontade de rir, à boa maneira dos slashers dos anos 80, é que a nossa assassina é uma velhinha que arrasta uma perna, no entanto, ninguém consegue correr mais do que ela nem superar a sua força. Dá vontade de lhe perguntar que vitaminas é que ela toma, que se chegar àquela idade quero ser rija como ela. De qualquer modo, "Coming soon" não é mau de todo. O cenário é pelo menos original. Fazer um filme de terror num cinema verdadeiro não é totalmente descabido. Salas enormes com duas ou três pessoas, um projeccionista sozinho, corredores escuros e compridos quando se acaba de sair de uma sessão de terror... Houve aí bastante material para explorar e o próprio merchandise do filme "Espírito Vingativo" podia pertencer a um filme verdadeiro em exibição. Por isso, é lamentável que a película não tenha respondido ao hype que se gerou em seu redor, que de resto é justificado com o currículo de Sukdapisit. "Coming Soon" pertence àquele tipo de terror descartável que entretém (mais ou menos), enquanto é visionado e cai no esquecimento horas depois. Duas estrelas.
Realização: Sopon Sukdapisit
Argumento: Sopon Sukdapisit
Elenco:
Chantavit Dhanasevi como Shane
Vookam Rojjanavatchra como Som

Próximo Filme: "Three - Memories" (Saam Gaang, 2002)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

O que se passou neste filme foi mais na linha de "Olha que truque giro" do que propriamente, "Sujei as calças", com o terror, estão a ver? Este thriller sobrenatural de Sung-ho Kim que também escreveu o argumento foi o tal que inspirou não tão vagamente assim o filme "Mirrors" (2008), com Kiefer Sutherland e o inferior "Mirrors" 2. Em "Into the Mirror", o ex-polícia Yeong-min (Ji-tae Yu) é obrigado a pedir ao tio emprego no seu centro comercial, depois ter sido expulso da força no seguimento de uma situação de reféns que terminou com o seu parceiro a ser assassinado à sua frente. Atormentado pelo passado, Yeong-min refugia-se no álcool e numa existência solitária. É um caso óbvio de arte a imitar a vida real no caso de Kiefer Sutherland. Bom casting! Adiante, num cargo claramente inferior às suas capacidades, o agora segurança de centro comercial passa os dias a visualizar as câmaras da loja. Uma noite, uma funcionária deixa-se ficar até tarde para se dedicar a pequenos roubos e na manhã seguinte é encontrada morta. Isto dá origem a uma investigação policial que leva Yeong-min a cruzar-se com um antigo colega que o despreza. Com uma segunda morte a suceder em menos de nada e a pressão do seu tio para reabrir o centro comercial, Yeong-min é obrigado enfrentar as suas inseguranças. Na resolução deste caso, estará a sua redenção e a realização de que afinal, Yeong-min ainda é um bom polícia.
Ah e tal, tudo bastante seguro, prevísivel até, no entanto, há uns pontos que me atormentam deveras. Desculpem lá qualquer coisinha, mas qual é a pessoa que fica num centro comercial, durante a noite, sozinha? Mais, quem é que depois de ver e ouvir vislumbres e sons estranhos ao invés de se dirigir à saída mais estranha ainda fica por lá? Ah e depois de roubar, os ladrões têm algum tipo de fetiche por exibir calmamente os objectos desviados? Pelos vistos... Yeong-min não é melhor. Durante mais de metade do filme, ele não faz nada de útil, excepto andar a sofrer pelos cantos. Ok, o passado atormenta-te, blá, blá, blá, agora recompõe-te e faz alguma coisa, sei lá, vigiar o centro que é para isso que és pago! Mesmo que a Yeong-min estivesse somente destinado o papel de segurança da loja, o seu desempenho é fraquissímo. Depois da segunda morte, Yeong-min devia ter sido logo despedido pelo tio. Se uma morte é má publicidade, duas demonstram uma inépcia gritante. Além disto, Yeong-min começa a mandar bitaites sobre o envolvimento dos espelhos nas mortes. Assumindo, que o absurdo é real, ele não apresenta provas que sustentem os seus argumentos nem faz mais do que deambular pelos corredores deprimido. Como se uma morte não fosse de suma urgência para ele acordar para a vida e ajudar a solucionar o caso. Por contraste, há o tal polícia que o despreza e que é suposto antipatizarmos mas com um herói tão mole é díficil dizer qual dos dois o pior. Atire-se para o meio um mistério sobrenatural e uma conspiração e temos a história do filme em linhas gerais. Infelizmente, os espelhos podiam ter tido um enfoque ainda maior.
Veja-se o titulo, "into the mirror", podia ter sido mais explorada a hipótese da existência de uma outra dimensão ou até uma fragmentação de personalidade. Não se pode dizer que a originalidade do argumento seja o ponto forte da história. O rítmo é lento, e podiam ter sido cortados uns bons 20 minutos de película que não servem para nada. O que o filme faz é deter-se demasiado no pathos de Yeong-min que é algo que se estabelece nos instantes iniciais do filme. Tudo o mais é bater no ceguinho. O melhor da película está nos efeitos criados em torno dos espelhos, com uma série de truques que servem alternamente as vezes de efeitos de infinito, profundidade e ilusões de óptica. Efeitos engraçados? Sim. Assustadores? Nem por isso. Para isso vejam o "Mirrors" com o Sutherland. Duas estrelas.

Realização: Sung-ho Kim
Argumento: Sung-ho Kim
Ji-tae Yu como Yeong-min Woo
Myung-min Kim como Hyeon-su Heo
Hie-na Kim como Ji-hyeon Lee / Jeong-hyeon Lee

Próximo Filme: "Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

domingo, 16 de outubro de 2011

Top 12: Realizadores de cinema de terror asiático

Esta é capaz de não ser a lista mais convidativa se compararmos, por exemplo, com “as cinco melhores mortes” ou “as dez actrizes mais jeitosas”, mas hão-de reparar que de vez em quando existe a menção a um certo realizador, seja por que uma película me recorda o seu trabalho ou por que existe mais do que um registo da sua obra aqui no blog. O "Top 12: Realizadores de cinema de terror asiático", reflecte à semelhança das listas anteriores, o meu gosto pessoal e o conhecimento da obra dos respectivos realizadores. Não sou nem pretendo ser uma enciclopédia pelo que o mais provável é deixar de fora algumas contribuições válidas. Claro está, na caixa de comentários poderão deixar a vossa opinião e outras contribuições possíveis. Também, não pretendo afirmar que conheço a filmografia completa dos realizadores que vos apresento mas quero fazer notar os contributos mais importantes destes realizadores para o género do terror, guiada por críticas, êxito de bilheteira e, obviamente, a opinião de cinéfilos como eu.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"The Lost Bladesman" (Guan Yun Chang, 2011)

Ah, os grandes épicos chineses. Suspiro. Histórias moralistas camufladas por entre cenas de luta e romances melodramáticos. Não é que não sejam visualmente espantosas ou que não entretenham mas no universo das máquina de fazer filmes épicos já escasseia algo que se destaque no meio de todos eles. Desta feita, "The Lost Bladesman" é baseado na figura lendária de Guan Yu descrita no "Romance dos Três Reinos", uma peça literária do século XIV. A adaptação ao cinema foi realizada por Felix Chong e Alan Mak, a dupla que nos trouxe "Infernal Affairs" (2002), que caso não conheçam é apenas o filme que Scorcese copiou no oscarizado "The Departed" (2006), pelo que a expectativa desta reunião era alta. A história começa quando Guan Yu (Donnie Yen), general de Liu Bei é capturado pelo seu inimigo Cao Cao (Wen Jiang). Com uma força tão poderosa em seu poder, Cao Cao tenta convencer Guan Yu a juntar-se a ele oferecendo-lhe Qi Lan (Betty Sun), a terceira esposa de Liu Bei por quem ele está apaixonado. Sendo o herói honrado que é, Guan Yu recusa-se a trair a lealdade de Liu Bei mas aceita lutar por Cao Cao em troca da liberdade de Qi Lan. Cao Cao aceita a sua condição e deixa-o partir. Contudo, os seus generais, com medo de voltar a encontrar o poderio de Guan Yu em batalha decidem mandar matá-lo. É esta acção que desencadeia o rumo dos acontecimentos que levarão à imortalização de Guan Yu.
Com apenas uma arma e escoltando uma mulher indefesa, Guan Yu deixa um rasto de morte e destruição por onde passa, à medida que os seus inimigos conjuram a sua morte e se recusam a dar-lhe passagem segura. Infelizmente, o enredo não é tão interessante como à partida se apresenta. A história é bastante intrincada e só os conhecedores do romance e de filmes anteriores baseados no manuscrito como Red Cliff (2008-2009) é que se sentirão minimente à vontade com o vasto número de personagens e de intrigas. A somar ao desconhecimento da trama os novatos na história têm de lidar com cenas de diálogo fastidioso, filosófico e (por vezes) bonito, mas que nem por isso leva a lado algum. Depois existe um problema fundamental: o personagem de Guan Yu. A começar pelo visual do personagem. Donnie Yen, não tem a estatura nem a presença imponente e real de Guan Yu assinalada no manuscrito original do romance. Nesse aspecto, Donnie Yen não corresponde às expectativas. O próprio guarda-roupa e caracterização ficam aquém do imaginário do herói lendário. A peruca que Yen utiliza durante todo o filme é simplesmente horrível. Não conseguiam mesmo fazer melhor? Adiante, Yen é um excelente lutador de artes marciais e foi ele que esteve a cargo da direcção das cenas de luta. Nesse campo, irrepreensível. Mas ele não é, nem nunca foi, lamento, um grande actor. A sua contenção é frustrante. O seu rol de expressões é equivalente à de um Keanu Reeves e nos poucos momentos em que se lhe era exigido um sorriso, Yen esboçava um sorriso amarelo como quem diz: "ora deixa cá mostrar um pouco os dentes, porque é isso que eles querem". Yen, parece constrangido a todo o momento e o seu desempenho parece forçado. Só corresponde nas cenas de luta. E mesmo aí, verifica-se contenção. Ninguém vê um filme de Donnie Yen, para não o ver arrancar uma demonstração explosiva das suas capacidades atléticas.
Por fim, temos o romance com Qi Lan (Betty Sun), que é o elo mais fraco de filme. Sun está ali apenas para sorrir e parecer bonita como o desejo de afeição proibido de um Guan Yu dividido entre o amor e a lealdade ao seu companheiro de armas Liu Bei. Mas lá está, não existe um verdadeiro dilema por parte do nosso herói pois ele é sempre correcto e leal, acima de tudo. Guan Yu, nunca comete nenhum deslize pelo que temos desde cedo a certeza que ele não irá ceder a impulsos de ordem romântica. Guan Yu é apenas uma pequena peça num grande tabuleiro que os generais manobram a seu belo prazer. Resta-nos pois um herói aborrecido e magníficas cenas de luta que infelizmente são tão breves que não compensam o ritmo lento da história. O actor com mais material com que trabalhar acabou por ser o Cao Cao de Wen Jiang, cujas maquinações fazem mover toda a trama. Esta é uma opção infeliz visto que o actor secundário se superioriza ao principal.
Veredicto: os cenários e paisagens deslumbrantes, o guarda-roupa faustoso e as cenas de luta espectaculares contribuem para tornar “The Lost Bladesman”, uma visão agradável. Mas e daí também os outros épicos pontuam nestes aspectos. Há muito que o cinema de Hong Kong aprendeu essa lição. Então o que traz “The Lost Bladesman” de diferente? Com toda a sinceridade, nada. Vê-se. Duas estrelas.
Realização: Felix Chong e Alan Mak
Argumento: Felix Chong e Alan Mak
Donnie Yen como Guan Yu
Wen Jiang como Cao Cao
Betti Sun como Qi Lan

Próximo Filme: "Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

domingo, 9 de outubro de 2011

"Body #19" (Body sob 19, 2007)

Quando penso em "Body #19", duas palavras vêem-me à mente: espectáculo e grotesco. Espectáculo como em: "Esta cena até está porreira" e grotesco do género: "Que nojo!É horrível, é repugnante!" (digo, enquanto cubro os olhos).

Chonlasit (Arak Amornsupasiri) é um estudante de medicina que começa a ter pesadelos horríficos, nos quais uma mulher é morta e esquartejada. Isto não seria nada demais se os sonhos não se estivessem a transpôr para a realidade e uma versão aviltante da morta não começasse a matar aqueles que Chon contacta. À medida que os eventos se começam a tornar demasiado perigosos, Chon começa a duvidar da sua própria sanidade mental e decide investigar a morte da mulher. Os posters do filme apresentam bons argumentos para se ver o filme: "Body #19" é do mesmo estúdio que nos trouxe Shutter (2004) e Alone (2007) e parece que é baseado no caso real de um médico ginecologista que matou a sua mulher, a esquartejou e mandou os seus restos pela retrete abaixo. Visão bonita, certo? De qualquer modo, a expressão "baseado em factos reais" sempre conseguiu levar muito boa gente a correr aos grandes écrãs. O realizador, Paween Purikitpanya não é nenhum novato aqui para os nossos lados. Ele esteve por detrás dos segmentos "Tit for Tat" e "Novice" em "4bia" (2008) e "5bia" (2009), respectivamente. Já o actor principal é o guitarrista de uma banda rock conhecida lá para os lados da Tailândia.
O grande problema de "Body #19" é o fracasso na concretização. A narrativa é muito complicada de seguir. O desejo de imprimir originalidade a uma velha história ao invés de tornar o filme refrescante só consegue confundir os espectadores. Mesmo com toda a atenção dedicada ao filme é demasiado fácil perder-se o fio à meada. Qual era o objectivo dos argumentistas? Explorar as motivações das personagens ou abordar o terror de modo brutal e sem censuras? Não se consegue perceber. A este problema fundamental acresce o facto de estarmos constantemente a saltar entre dimensões: ora passamos do sonho para o real e vice-versa, ora real e sonho se confundem ou afinal, não é uma coisa nem outra e o que estamos a ver são flasbacks! De resto não existe grande originalidade. É apenas a história do monstro destruidor que nos aponta o caminho para a solução. Em "Body #19", se seguirmos as pistas que nos são apresentadas e retirarmos as reviravoltas, com o que ficamos é um enredo que não tem nada de surpreendente. Mesmo as personagens não são likeable. Nunca se cria uma afinidade com Chon nem existe vontade de torcer por ele. As personagens passeiam-se no écrã, por que sim.
Onde "Body #19" sucede é na apresentação do macabro e do grotesco como o título e o poster desejam adivinhar. Apesar de as imagens geradas por conputador tenderem mais para o artificial do que para o realista, estão bastante fortes. Há cenas deliciosas para quem sabe lidar com o choque e o profundamente repugnante. Mas também fora do elemento digital a equipa técnica dá cartas: a cena do esquartejamento em particular, está maravilhosa em toda a sua glória perturbadoramente realista. A câmara desempenha ainda um papel importante na construção de uma atmosfera atemorizante: sempre que possível há uma perspectiva dos personagens vista de cima ou de baixo. Quando os sustos se aproximam, esta perspectiva ajuda a fortalecer ainda mais a visão do que vai acontecer. Noutras é somente acessória. Enfim, com uma história complicada de seguir, personagens com os quais não se consegue simpatizar e onde apenas sobressaem os méritos técnicos, "Body #19" torna-se dificil de apreciar, mesmo quando aposta no que há de mais perturbador. Duas estrelas.
Realização: Paween Purikitpanya
Argumento: Chukiat Sakveerakul e Paween Purikitpanya
Arak Amornsupasiri como Chonlasit
Ornjira Lamwilai como Ae
Kriteera Inpornwijit como Usa
Patharawarin Timkul como Dararai
Próximo Filme:  "The Lost Bladesman" (Guan Yun Chang, 2011)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Julia's Eyes" (Los Ojos de Julia, 2010)

"Julia's Eyes" é a minha mais recente incursão no cinema espanhol. Diz-se por cá que "De Espanha, nem bom vento nem bom casamento", o que me parece tudo muito bem desde que não incluam o cinema. Esta é apenas a segunda longa-metragem de Guillem Morales e também é uma aventura no imaginário do thriller/terror psicológico. Claro que o facto de ter um Guillermo del Toro a emprestar o nome à produção ajuda. Ele que foi igualmente produtor no bem conseguido "The Orphanage" (2007), curiosamente com a actriz Belén Rueda. Nem tudo o que reluz é outro mas aplicado a Guillermo del Toro, quase.
"Julia's Eyes" segue a história de Júlia que sofre de uma condição genética que a levará inevitavelmente à cegueira. Quando a sua irmã Sara, já cega, visto que também sofria da doença, é encontrada enforcada, Júlia questiona a conclusão da polícia de que se trata de um suícidio. Contra os desejos do seu marido Isaac (Lluís Homar) que teme que ela tenha um ataque que a deixe cega de vez, Júlia decide investigar o caso. À medida que se aproxima da verdade, Júlia convence-se de que está a ser observada e que por detrás da morte da irmã se esconde um terrível segredo... Se a sinopse parece igual a tantas outras, o desenvolvimento da narrativa é mais compensador e intrigante por comparação. O trabalho de câmara está brilhante, albergando todo um conjunto de jogos de sombras que veículam a sensação de cegueira que a personagem está a sentir e nos levar a questionar se o que vemos é real. A complementar a direcção de Morales está a cinematografia de Óscar Faura, com uma palete de cores totalmente ajustada a um clima de tensão e claustrofobia crescente.
A liderar o elenco está uma Rueda quarentona que põe a um canto muitas mulheres com metade da idade. O que me leva a uma questão pertinente: o que é que se passa com as mamas da Belén? Elas surgem firmes e hirtas em quase todas as cenas como que a anunciar quem é ali a estrela. Em cenas de frio e de chuva intensa, cheguei a temer que um dos seus mamilos saltasse e atingisse a audiência num olho! Não deixa de ser um truque cinematográfico deliberado de flirt com a audiência masculina mas aqueles peitos distraem! Considerações físicas à parte, Rueda é a protagonista forte que o filme necessitava. Sabe ser uma mulher de recursos quando a vista lhe falha, resiliente na sua luta pela verdade e ao mesmo tempo vulnerável. Mas não tenham pena dela, que Júlia não é uma mulher indefesa e muito menos de quem se sinta pena. A minha única crítica vai para a pouca afectação pela morte de entes queridos. É que Júlia passa o tempo todo à procura da verdade no que toca à morte da irmã mas ao longo da película, ela não a chora nem sequer recorda. Aliás, quando Sara morre, elas já não mantinham o contacto há alguns meses. Mas para mim, a grande estrela do filme é Pablo Derqui. Quando cada centímetro da tela é preenchido pela face de Pablo, podemos ver olhos raiados de loucura. Sentimos que ele não está a olhar para uma personagem qualquer, está a olhar para nós. E a química que tem com Rueda é muito boa.
Segunda questão: qual é a fixação com caves? Não se pode matar uma pessoa, digamos, numa cozinha ou num hall de entrada? Porque é que têm de ser sempre caves? É prevísivel que algo vai correr mal porque sempre sucede algo de mal numa cave! Lembram-se de "The orphanage"? Outro aspecto que pode ser questionado é a duração da película. Duas horas podem ser cansativas mas apreciei a consideração pelo desenvolvimento da história a um rítmo muito próprio sem precipitação de acontecimentos. Me gusta. Três estrelas e meia.

Realização: Guillem Morales
Argumento: Guillem Morales e Oriol Paulo
Elenco:
Bélen Rueda como Júlia/Sara
Lluís Homar como Isaak
Pablo Derqui como Iván
Próximo Filme: "Body #19" (Body sob 19, 2007)

domingo, 2 de outubro de 2011

"Visit" (Dalaw, 2010)

Tenho de admirar um filme que usa e abusa de visco/ranhoca/nhanha/gosma azul e pretende ser levado a sério. É fofinho. E tenho absolutamente de louvar um produto cinematográfico que dá emprego a um belo naco de homem e o junta a uma mulher bonitinha mas vulgar. Faz-me pensar que afinal as mulheres reais até têm alguma hipótese (a isto chama-se aparte).
A qualidade de "Visit" é fraca, fraquinha mas só pelos dois pormenores acima mencionados, esta apreciação não será demolidora na totalidade. "Visit" é protagonizado por Kris Aquino filha da ex-presidente filipina, Corazon Aquino e irmã do actual presidente Benigno. Querem cunhas melhores que estas? Cof cof. Estava a brincar. De certeza que é pelas suas enormes qualidades dramáticas que Kris foi seleccionada para o papel principal em "Visit"... Seja como for, Kris é cotada como a rainha do terror filipino ou não tivesse ela protagonizado "Feng Shui" (2004) e Sukob" (2006), dois dos maiores êxitos do cinema de terror de sempre nas bilheteiras filipinas. Kris Aquino é tão-somente genérica: uma careta para aqui, um grito para ali e pouco mais. Já vai pior, não afugenta. Melhor, só mesmo Diether Ocampo. As suas capacidades de representação só têm um grande defeito: não o vi em tronco nu! Vá, num registo mais sério, o seu personagem Anton é sofrível.
"Visit" segue a história de Stella (Kris Aquino), uma viúva com um filho que decide casar três anos decorridos da morte do marido. Vítima de violência doméstica às mãos do marido Danilo, Stella ainda se culpabiliza pela sua morte acidental. No entanto, deseja dar um pai ao seu filho Paolo (Maliksi Morales) e a estabilidade que ele merece. Stella reencontra na velha paixão Anton (Diether Ocampo), a quem abandonou por pressão dos pais para desposar Danilo, um novo recomeço. Contra os seus próprios receios e os conselhos da sua prima metediça Trina (Alessandra de Rossi), Stella prossegue com o casamento. A partir desse momento, uma força que parecia aguardar na sombra surge para a assombrar e aos que mais ama.
Esta sinopse até podia ser interessante mas a concretização é no mínimo dúbia. Nem os encantos de Anton, nem todo o esforço de Kris em representar chegam para compensar as falhas no argumento. Os erros de continuidade, os sustos fáceis do género "ai que este guarda-fatos está assombrado" e a história que é tão prevísivel que ao fim de 15 minutos já desvendámos o mistério não ajudam. Com alguns bons actores como é o caso da Alessandra de Rossi que já vimos em "The Maid" (2005) e Susan Africa que interpreta uma mulher vítima de uma trombose de modo bastante razoável, as falhas tornam-se demasiado óbvias. Custa-me dizer isto mas fosse o elenco igualmente medíocre e mal daríamos pelos problemas do argumento. Por exemplo, Gina Pareño que interpreta a habitual mulher com um sexto sentido e que é uma verdadeira enciclopédia sobre como lidar com fantasmas, é o caso clássico de não se perceber se está ali para fornecer o alívio cómico ou para imprimir um tom dramático à película. Com cenas de terror involuntariamente cómicas e outras de extremo drama, "Visit" é mais uma oportunidade desperdiçada, de um argumento que nunca soube o que queria ser, actores que não sabiam o que fazer com o material que lhes foi dado e uma direcção provavelmente tão confusa quanto eles. "Visit" é mais do mesmo e mais do mesmo mal feito. Uma desilusão. Meia estrela.

Realização: Dondon S. Santos
Argumento: Joel Mercado, Enrico Santos, Jerry Lopez Sineneng, Lawrence Nicodemus e John Paul Abellera
Elenco:
Kris Aquino como Stella
Diether Ocampo como Anton
Gina Pareño como Oga
Maliksi Morales como Paolo
Susan Africa como Milagros
Alessandra de Rossi como Trina
Karylle Padilla como Lorna

Próximo Filme: "Julia's Eyes" (Los Ojos de Julia, 2010)
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