domingo, 17 de junho de 2012

Boa tentativa, Ridley.



É muito difícil criar um filme de qualidade tão superior que marque indelevelmente a história do cinema. Ridley Scott já tem dois no currículo, o que é manifestamente mais, do que muitos bons realizadores alguma vez poderão almejar. E Prometheu prometia, passe o trocadilho.
Os seus esforços mais recentes não refletem as alturas a que é capaz de chegar. E, perdoem-me, a não tão inocente comparação, mas a carreira de Scott pode, em certo grau assemelhar-se à de M. Night Shyamalan. Podemos desgostar da filmografia mais recente, (“G.I Jane”, “Gladiador”), mas ninguém lhe pode retirar o mérito de obras como “Blade Runner” ou “Alien”.
Os últimos anos têm sido parcos em boas ideias a oeste. Talvez seja culpa de um sistema instituído que não permite a muitos jovens argumentistas fazer-se ouvir. Quem sabe? Ou uma necessidade imperiosa de manter margens de lucro que obriga os estúdios a afastarem-se de projetos mais inovadores com medo de se tornarem o próximo “Waterworld” ou “John Carter” e preferem olhar para trás. Remakes, sequelas, prequelas… aí vamos nós! O vácuo criativo tem assim assegurado um revivalismo, que apresenta velhos clássicos a novas gerações, como revelou a primeira tentativa de regresso ao universo “Tron”, “Tron Legacy”. O filme de 1982 não foi um sucesso de bilheteira, mas adquiriu o estatuto de culto graças à VHS. “Tron” não será o melhor filme da década, ou sequer do género mas tem muitas ideias, de argumento e efeitos digitais, à época inovadores. Por isso, se o “Legado” pode ser considerado um tributo inferior ao original para os que viram a obra de 82, ele cumpriu, no entanto, a velha promessa de enfim, valorizar “Tron”, com nova sequela já prevista. No campo das promessas por cumprir, encontra-se, no primeiro lugar da fila o “Blade Runner”, uma obra manifestamente superior que ainda ninguém teve coragem de retomar. Não se deve mexer com os clássicos. Pois não, sobretudo quando os clássicos já são dos melhores filmes de sempre. Mas a avaliar pelo amor do universo de ficção em geral, pelo filme, que o toma como referência, com maior frequência do que o ignora e o amor dos fãs, parece ainda existir mercado. É a velha estória do marketing, se a vaca leiteira ainda tem leite, há que espremê-la toda.
“Alien” é um desses casos e, apesar do sucesso variável, a cada nova encarnação, a franquia parece mais longe de morrer. Afirmo e reafirmo, que “Alien Ressurrection” foi o maio desgosto da série e que “Alien 3” foi um mal necessário.  Eventualmente, algum realizador (saiu a fava ao Fincher), iria ter de fechar o ciclo criado por Scott: Ripley é uma personagem espantosa mas não é invencível. “Alien vs. Predator” é uma aventura completamente diferente, de junção com outro universo, que deve ser considerado apenas pela experiência, para alguns satisfatória, de por fim, juntar dois personagens favoritos do público e pô-los a combater até ao extermínio, sem grandes considerações quanto à mitologia da série.
Ora, se já se matou Ripley uma vez e já se apresentou o Alien ao Predador, o que é que se pode fazer mais? Voltar atrás no tempo, claro. Ridley voltou à menina dos seus olhos e preferiu fazer novas perguntas. Que importa para onde vamos se não sabemos de onde viemos? O Alien é já um caso banal e este argumento vira as atenções para o ser humano. Elisabeth Shaw (Noomi Rapace) é uma mulher obcecada com questões metafísicas. São os seres humanos o resultado de milhares de anos de evolução ou existirá um criador? Serão o produto do engenho de um ser superior? Se sim, qual é a sua agenda. Isto são preocupações de uma personagem que se sente perdida e que mais precisa de um psiquiatra e de colinho de que ter as respostas que procura com tanto ardor. Que fará quando tiver as respostas? Ela continuará viva e o seu pai continuará morto.




A sua obsessão é alimentada por um cientista tão louco quanto ela, Charlie (Logan Marshall-Green). Por isso, quando descobrem que a resposta se encontra nas estrelas, nada os demove. O presidente da Weyland Corporation é o tipo excêntrico e megalómano perfeito para aceitar a sugestão fantástica desta dupla de doidos e enviar uma nave com destino incerto e respectiva tripulação à sua sorte. Prometheus é o seu nome. Um titã destinado a sofrer para o resto da eternidade por ter concedido à humanidade o dom de criar o fogo, o que significa independência e desafio aos deuses que os conceberam. Isto, acaba por se revelar uma metáfora perfeita já que Prometheus é uma mensagem de concepção e de esperança que pode ser destruída pelos mesmos que a alimentam ou não sabem o que fazer com o dom que lhes foi atribuído.
Os tripulantes são 17 mas apenas meia dúzia vale a pena revisitar. Entre eles, encontra-se o cyborg David, os cientistas Elisabeth e Charlie, a representação da corporação Meredith Vickers, o capitão Janek, o geólogo Fifield e o biólogo Millburn. Infelizmente, é mais fácil encontrar os problemas de “Prometheus” que as suas virtudes. Comecemos por constatar o óbvio: “Prometheus” não é nenhum “Alien”. O que significa que não temos um argumento tão bem polido, personagens tão bem construídas, a aura de mistério e perigo a todo o momento e o suspense é inexistente. A nave é uma desilusão o brilho asséptico de Prometheus não tem comparação com a penumbra excruciante da Nostromo. Esta última escondia algo nas sombras. Na Prometheus está tudo a nu, até as intenções dos personagens não são assim tão difíceis de deslindar. Concedo-lhe as maravilhas da tecnologia e caraterização modernas e a fotografia excelente. Mas nunca é mais do que um filme acima da média, no género de ficção científica e dificilmente um contendor para o título de melhor filme de 2012. Não me entendam mal quando refiro “Alien”. Não esperava de todo um reboot, revestido com uma pele diferente. Apenas não possui as qualidades que tornaram o filme de 79, uma obra intocável. Repete-se o mantra tantas vezes repetido por críticos por seu mundo fora: “style over substance”. E de facto é uma desilusão constatar como as personagens são invariavelmente fracas ou possuem falhas de construção tão óbvios que até o mais leigo dos cinéfilos se aperceberá. A começar por uma Noomi Rapace longe do seu melhor. A sua Elisabeth Shaw não tem carisma e, ao contrário do que 10% do filme demonstra, uma criatura indefesa. Aparentemente basta o mínimo de preparação para qualquer um viajar no espaço. E Charlie, o par romântico de Elisabeth é tão tolo e tão sonhador quanto ela.
Janek, o capitão é interpretado pelo subaproveitado Idris Elba que é um estereótipo andante que de vez em quando larga umas tiradas profundas, aparte umas capacidades como capitão, no mínimo questionáveis. As grandes interpretações ficam a cargo de uma não tão improvável Charlize Theron com uma Vickers que é a maior cabra gélida da nave e arredores e o David de Michael Fassbender. Charlize tem a força de ecrã que falta a Noomi e Michael… Foi o primeiro filme que vi deste Fassbender, é uma vergonha bem sei. Pois que ele rouba cada cena em que aparece. O seu cyborg está ao nível de um laconismo do Lance Henrikson e de um pragmatismo hostil do Ian Holm. David é um bebé, submisso ao criador, que não questiona ordens, como é óbvio e aceita a sua condição de cyborg. Ao longo de toda a saga Alien, os cyborgs dividiram-se entre a ocultação da origem e a vergonha e até, asco, da sua condição. David é por isso, o mais robótico de todos. Não há como duvidar da sua lealdade ao programador, significando acções que lhe podem valer tanto a simpatia como o ódio do público. Mas passemos do melhor ao pior: Fifield e Millburn. Como é possível que um geólogo, vulgo pessoa que estuda calhaus não se consiga orientar num espaço que ele próprio mapeou. Ademais, sem a ajuda das tecnologias, teria a obrigação de identificar o terreno no qual se encontra. E Millburn é o biólogo mais estranho a que alguma vez que se pôs a vista. Um biólogo com medo de potenciais seres vivos? Um biólogo que contra toda uma formação se aproxima de modo negligente de um ser cuja biologia desconhece em absoluto? Os argumentistas não devem ver o National Geographic de certeza. Que sobra então deste Prometheus? O argumento está cheio de ideias, com poucas bem concretizadas e, tristemente, personagens ainda pior desenvolvidos. Li algures algumas comparações de Elisabeth a Ripley mas tal não podia estar mais longe da verdade. Até a sua Lisbeth Salander da “Rapariga com a Tatuagem do Dragão” é mais forte. Como filme de ficção científica vale por mérito próprio mas não é o filme por que se esperaram trinta anos. Lamentavelmente é mais forma que conteúdo. Não obstante, foi uma boa tentativa Ridley. Três estrelas.

Realização:  Ridley Scott
Argumento:  Jon Spaihts
Noomi Rapace como Elisabeth Shaw
Michael Fassbender como David
Charlize Theron como Meredith Vickers
Idris Elba como Janek
Logan Marshall-Green como Charlie
Sean Harris como Fifield
Rafe Spall como Millburn

Próximo Filme: "Tidal Wave" (Haeundae, 2009)

2 comentários:

  1. Subscrevo.

    Apesar de achar que o "brilho asséptico" da direcção artística ser um dos trunfos de PROMETHEUS, este regresso de Ridley Scott à ficção-científica merecia um argumento mais robusto.

    Cumps cinéfilos.

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  2. Sam. Sim, é belíssimo, mas não serve o segredo, o mistério. Está tudo às claras e, o que eu queria, era dobrar, a cada nova esquina, uma sombra escondida. "Prometheus", a nave, nunca esteve realmente em perigo.

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