terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Annabelle: Creation" (2017)



Assisti há tempos à Conferência de Apresentação de um Festival, uma coisa pequena chamada MOTELX (gritinhos histéricos!), onde foi dado a conhecer um pequeno gostinho do que será a 11.ª Edição, cuja programação foi entretanto relevada. Como habitual, nestas coisas de festivais teve lugar um visionamento-surpresa. Para ser honesta, a exibição de longas numa primeira apresentação à imprensa não é original mas, de facto, só descobri ao que ia quando lá cheguei. Fiquei por isso, um pouco desiludida quando me apercebi que seria exibida a sequela de “Annabelle” (2014). A sério, MOTELX? Estava habituada a filmes indie, por certo longas-metragens de baixo orçamento, mas nunca a continuação de uma película que a despeito de estar inserida na saga de “The Conjuring” é de longe a mais fraca. Ainda mais, se pensarmos que os casos de sequelas superiores aos filmes originais se contam pelos dedos de uma mão.
Estava errada. Em mais sentidos do que um. Apesar de ser conhecida de forma universal por “Annabelle 2”, “Annabelle: Creation” é afinal uma prequela que explica as origens da boneca que tanto terror terá provocado ao casal Warren e o filme representa ainda a segunda incursão no mundo das longas-metragens de uma das novas grandes promessas do cinema de terror, David F. Sandberg. Se não estão familiarizados com a sua película anterior, “Lights Out” (2016), recomendo uma visita rápida ao “cineclube” mais próximo. A curta que inspirou essa longa, está disponível no canal do realizador. Confesso que quando aprecio uma obra originária do cinema independente tenho sempre receio quando os seus criadores dão o salto. Ir parar ao cinema comercial é uma progressão natural na carreira mas, tenho receio que os maus hábitos dos executivos de grandes estúdios que consideram natural impôr as suas opiniões (de)informadas, que se sobrepõem por vezes ao talento contratado. “Annabelle: Creation” felizmente não se enquadra nessa categoria. A acção decorre nos anos 40 e 50, quando os Mullins, casal composto pelo criador de bonecas de porcelana Samuel (Anthony LaPaglia) e Esther (Miranda Otto) perde a filha Bee (Samara Lee) num acidente trágico. Destroçado, o casal isola-se na sua casa e entrega-se ao sofrimento. Doze anos mais tarde, decidem abrir de novo o coração e acolher no seu lar uma freira e seis meninas de um orfanato que ficou sem sede. Ficar ali, pelo menos de forma temporária é a única forma de manter as jovens juntas. O grupo é composto por adolescentes mais velhas que dificilmente serão adoptadas e meninas mais novas, onde se incluem Janice (Talitha Bateman) com mobilidade reduzida após cair vítima de um surto de poliomielite e a sua amiga inseparável Linda (Lulu Wilson). Janice é especialmente susceptível ao encanto de uma boneca de porcelana que encontra nas deambulações pela casa a que se encontra confinada. Apenas Linda se apercebe das mudanças que se operam na amiga.
David F. Sandberg manteve a abordagem que funcionou tão bem em “Lights Out”. Ele está no seu melhor nas cenas que envolvem muita escuridão ao mesmo tempo que manteve as convenções de “The Conjuring” que funcionaram com mais eficácia. Gary Dauberman escreveu o argumento dos dois "Annabelle", notando-se uma subida de qualidade na segunda parte que em muito se deve à nova escolha de realizador. Mas se existe um sinal de que ainda estão por vir muitos trabalhos interessantes de Dauberman, atente-se a “The Nun” e “It”, ambos com estreia em 2018.
O filme é um desfile de caras familiares ao universo de “The Conjuring” e do género de terror em geral. Sandberg foi buscar caras como Lulu Wulson que impressionou em “Ouija: Origin of Evil” (2016), Alicia Vela-Bailey a grande vilã de “Lights Out” ou Joseph Bishara, compositor de vários filmes da saga The Conjuring” e com uma apetência para interpretar o papel de demónios. Do elenco sobressaem Thalita e Lulu como actrizes de fazer envergonhar muito bom actor adulto com muito mais experiências que estas adolescentes, já que Lapaglia e Otto têm pouco que fazer.
Ao contrário de outras sagas que divergem de tom entre filmes, desde a banda-sonora até aos actores, este universo mantém-se fiel a si mesmo. Existe uma ideia de grande coesão desde os demónios aos jumpscares (yep, continua, a funcionar), o que significa que para quem não tenha apreciado os outros filmes da saga, “Annabelle: Creation” não constituirá a excepção. Uma pena porque o universo “The Conjuring” com todas as acusações de repetição dos clichés do género continua a ser uma das sagas mais interessantes e relevantes do panorama do cinema de terror americano dos últimos anos. Três estrelas e meia.
Realização: David F. Sandberg
Argumento: Gary Dauberman
Anthony LaPaglia como Samuel Mullins
Samara Lee como Bee
Miranda Otto como Esther Mullins
Lulu Wilson como Linda
Talitha Eliana Bateman como Janice
Stephanie Sigman como Irmã Charlotte
Mark Bramhall como Padre Massey
Grace Fulton como Carol
Philippa Coulthard como Nancy
Tayler Buck como Kate
Lou Lou Safran como Tierney

Próximo Filme: "Museum" (Myujiamu, 2016)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Kung Fu Yoga" (Gong Fu yu jia, 2017)


“Botched” é um programa americano exibido em Portugal no canal E!, de entretenimento entenda-se, que dá a conhecer sem censura starlets e outros cidadãos anónimos que contactam os cirurgiões de serviço para corrigir ou esconder a porcaria que outros cirurgiões fizeram nas suas mais diversas partes do corpo. A maioria das vezes os cirurgiões do programa conseguem fazer algo para conseguir resgatar a dignidade perdida ou apenas uma aparência estética mais agradável. Digamos que “Kung Fu Yoga” é um filme chinês submetido a uma cirurgia plástica para se assemelhar a uma verdadeira colaboração com o cinema de Bollywood mas a operação cosmética não correu muito bem.

Jackie Chan é Jack um professor de arqueologia do museu chinês de soldados de terracota que se junta uma especialista indiana, a professora Asmita (Disha Patani), para encontrar o fabuloso tesouro Magadha que se deve encontrar algures no Tibete. Ao chegar lá, eles e os seus assistentes, entre outros Jones Lee - Aarif Rahman numa homenagem ao famoso Dr. Jones –, Xiaoguang (Zhang Yixing) e Noumin (Miya Muqi) são surpreendidos por Randall (Sonu Sood) um indiano rico que pretende ficar com o tesouro para si.

Dizer que a homenagem aos filmes de “Indiana Jones” é flagrante é um eufemismo. A personagem de Aarif Rahman não só se chama Jones e utiliza um chicote como é um arqueólogo intrépido. No entanto, todos os indícios de que estariam grandes aventuras por vir não passam disso mesmo. Ele é apenas mais uma das personagens que se passeiam pelo ecrã na qualidade de eye candy e sem apresentar um contributo importante para a narrativa, ela própria pouco mais que perceptível. Por outro lado, não é uma grande novidade e mais uma vez fica bem expresso no ecrã que Jackie Chan já não é o atleta de outros tempos. Ora isso não tem mal nenhum e deixem assentar por um momento a informação de que Chan nasceu em 1954. À data deste filme e com 63 anos ele consegue fazer movimentos com o corpo que jovens com metade da sua idade são incapazes. O seu carisma permanece intacto e ele continua a ser quem tem o melhor timing cómico do elenco multicultural. Com tantos jovens atléticos incluindo novas esperanças do mandopop como Yixing Zhang que tem aptidão para coreografias complexas é surpreendente que este potencial nunca chegue a ser explorado para criativas cenas de acção que possam preencher as evidentes lacunas de Chan. As cenas de acção ficam pois aquém daquilo de que Chan já fez e o vasto elenco poderia fazer. Talvez. Nunca saberemos. Mais estranho ainda é o facto de “Kung Fu Yoga” constituir uma das reuniões menos felizes de Chan com Stanley Tong, depois de “Rumble in the Bronx” (1995) ou “The Myth” (2005). Quem não soubesse diria que não estiveram para despender muita energia. “Kung Fu Yoga” também representa um retrocesso na carreira de Chan que já demonstrou ter capacidade dramática e parecia estar a encaminhar a sua carreira para escolhas mais calmas para o seu físico. Ainda que sejam sempre um regalo para a vista as cómicas e complexas sequência de acção de Jackie Chan, ele já fez muito melhor e, na verdade, quem é que quer ver Chan tornar-se embaraçoso, numa carreira antes gloriosa enquanto artista de cinema e artes marciais?

Uma das cenas mais marcantes deste filme envolve ainda Chan e um animal virtual que é representativo do pior CGI de que o cinema chinês é capaz, como também sucedeu no recente “The Mermaid” (2016) de Stephen Chow, um dos filmes com maior sucesso de bilheteira no país de sempre, e que falha de forma tão arrasadora no campo dos efeitos gerados por computador. Também a colaboração entre a Índia e a China se revela desinspirada. De facto o filme parece adoptar uma perspectiva etnocêntrica que é claramente desvantajosa no que respeita ao retrato da Índia. De facto, todas as alusões ao país surgem sobre a forma de estereótipos chineses do que é o grande país. Algumas situações são retiradas quase a papel químico dos filmes dos anos 80 e 90 como o “Indiana Jones”. Um sucedâneo de qualidade inferior made in China que não o consegue disfarçar. Duas estrelas.
Realização: Stanley Tong
Argumento: Stanley Tong
Jackie Chan como Jack
Disha Patani como Ashmita
Amyra Dastur como Kyra
Aarif Rahman como Jones
Miya Muqi como Nuomin
Sonu Sood como Randall
Paul Philip Clark como Max
Yixing Zhang como Xiaoguang

Próximo Filme: "Annabelle: creation" (2017)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Get Out (2017)


Imaginem que é noite escura e percorrem sem qualquer companhia as ruas de um subúrbio deserto. Estão perdidos e não conseguem compreender onde se situa a casa que queriam encontrar. Vão no passeio e na estrada a vosso lado, começa a circular um carro com uma música antiquada e um pouco arrepiante. Conseguem visualizar o cenário seguinte? Se fosse uma mulher sozinha certamente, uma caminhada solitária nocturna seria uma péssima ideia. Nos Estados Unidos, numa época em que as tensões raciais se encontram muito elevadas e existem inúmeras acusações de preconceito racial por parte da polícia, um homem de raça negra caminhar sozinho nestas circunstâncias é uma mistura explosiva.

Daniel Kaluuya é Chris um fotógrafo profissional de sucesso que está nervoso por conhecer os pais de Rose (Allison Williams), com quem namora há alguns meses. Ela é caucasiana e nunca namorou com um homem de outra raça mas está certa que os seus pais ultra modernos e liberais não terão qualquer problema a esse respeito. Na verdade Rose está bastante sensibilizada para as questões raciais, sendo até demasiado protectora a esse respeito, uma característica que o namorado considera enternecedora, ainda que ele se consiga defender sozinho. Talvez ela esteja a exagerar e reveja laivos de racismo até onde eles não existem mas Chris tem mais reservas sobre o modo como irá ser recebido durante o fim-de-semana. Está inclusive disposto a apresentar a sua melhor face e suportar quaisquer equívocos que possam surgir por Rose. Já o seu grande amigo Rod (LilRel Howery), um agente da TSA habituado a deparar-se com situações de racial profiling e atento ao que se passa nos media é mais céptico a esse respeito. Tudo parece correr bem a início. Os pais de Rose, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra Missy (Catherine Keener) recebem-no como se fosse o membro mais recente da família. Poderão parecer demasiado curiosos e investidos no novo namorado da filha. Mas é nos empregados Walter e Georgina, de raça negra que Chris manifesta as suas maiores reservas. O seu comportamento é sinistro e misterioso. As suas acções simplesmente não se coadunam com a experiência de Chris enquanto pessoa de raça negra e a história dos seus antepassados. À medida que o fim de semana vai passando e, isso inclui uma sessão de hipnose realizada a despeito das suas objecções pela mãe de Rose, Chris começa a questionar-se se sofre de paranoia motivada por casos recentes, como Rod tão bem e de forma cómica o faz recordar ou se de facto se passa algo muito mais estranho. Rod serve de Grilo Falante, uma consciência, se preferirem -, do realizador e para toda a audiência que grita em coro para o ecrã, que algo está muito errado! Corre Chris! Foge!

Rod não tem a reserva ou censura de Chris que se encontra toldado pelo sentimento amoroso e por um optimismo um pouco infantil. Rod representa por tudo isto, os momentos mais engraçados e auto-conscientes de “Get Out”, ecoando uma espécie de Randy (Jamie Kennedy, em “Scream”), tendo ainda uns laivos do injustiçado "The Skeleton Key" (2005).
Desde os primeiros minutos que não existe qualquer dúvida sobre a mensagem que Jordan Peele pretende transmitir. A primeira é tão meta quanto o “Scream” (1996) de Wes Craven com argumento de Kevin Williamson foi no seu tempo: se algo parece mau e cheira a mau provavelmente é mau. Sigam os instintos. Corram! A segunda é a de que desde “Guess who’s Coming to Dinner” (1967) se calhar ainda muito pouco mudou no que diz respeito ao modo como as relações inter-raciais são percepcionadas pela sociedade. Aproveita ainda para dar uma alfinetada às classes média/média alta educadas e bem sucedidas e obriga-as a observar-se com verdadeiro espírito crítico ao espelho. Ao invés de investir na carga dramática Peele dá-lhe uma volta de 180º e pega nas questões de identidade e de raça através dos géneros de humor e terror sem apresentar falta de gosto no processo. “Get Out” foi uma das manifestações mais interessantes e originais do terror nos últimos anos e não menospreza o seu público-alvo. Perdoam-se-lhe talvez algumas cenas mais fortuitas como a do atropelamento de um animal (quantas vezes é que já vimos nos últimos anos??) mas não envergonha. Três estrelas e meia.

Próximo Filme: "Kung Fu Yoga" (Gong fu yu jia, 2017)

domingo, 11 de junho de 2017

Headshot, 2016


O cinema indonésio tem estado sobre a mira do público internacional, tendo conseguido exportar – com algum sucesso admita-se –, actores como Iko Uwais, Yayan Ruhian, Julie Estelle ou Joe Taslim. Também a dupla Stamboel/Tjahjanto, mais conhecida como os “Irmãos Mo”, não são novatos nestas lides desde que chamaram a atenção pelo fantástico “Macabre” (2009), uma espécie de “The Texas Chain saw Massacre” (1973) dos tempos modernos, tendo-se destacado por terem criado algumas das intervenções mais criativas e interessantes em antologias de cinema a oeste, da 2ª década do novo milénio (“ABC’s of Death”, 2012 e “V/H/S/2”, 2013). A pressão para gerar novos sucessos de bilheteira deve ser tão grande quanto a sentida por Ishmael (Iko Uwais), o personagem principal de “Headshot” que encontra mauzões em cada esquina, os quais chacina com brutalidade, minuto após minuto de acção frenética e um pouco louca. A movê-lo está um dos clichés mais utilizados, irritantes e cansativos em cinema ou telenovela. O pobrezinho sofre de amnésia. Encontrado numa praia como morto, ele é assistido pela Dra. Ailin (Chelsea Islan), a personagem mais desesperada por afeição que tenho visto nos últimos tempos. Que importa que ele tenha uma bala na cabeça? Qual é o mal de alguém ter tentado assassiná-lo? Pelos vistos o desconhecido misterioso é atraente e, se for bonzinho, como aparenta, uma vez que depende da boa vontade de estranhos já que não se recorda do próprio nome, deverá ser fácil amestrá-lo até se tornar o namorado perfeito. Ela até lhe dá o nome do personagem principal do livro que está a ler naquele instante: Ishmael um marinheiro resgatado com vida após o encontro funesto do seu barco com a baleia Moby Dick. Tão romântico. Até que ele é visto pelos mauzões que lhe espetaram com uma bala na cabeça. Eles pertencem a uma seita secreta de assassinos e gostariam que desta vez ele ficasse morto. Ailin acaba por ser raptada e Ishmael toma a decisão de a resgatar, mesmo que isso implique descobrir factos menos abonatórios sobre o seu caracter pré-amnésia.

Para este filme os irmãos Mo vão reciclam estórias clássicas do cinema de acção e vão repescar estórias do próprio corpo de trabalho, de que “Killers” (2014) ou “V/H/S/2” constituem um bom exemplo. Existe um entendimento perfeito de que o argumento é secundário. “Heashot” poderá afugentar alguns cinéfilos devido à sua matriz base que é repetitiva. As suas qualidades encontram-se antes nos momentos de combate corpo a corpo, coreografados pelo próprio Uwais e intercalados com acção bélica que faz recordar “The Raid 2” (2014). A título de exemplo, um dos instantes que ficarão para a estória envolvem um autocarro cheio de inocentes e armas. Muitas Armas. O filme tem ainda alguns repetentes tais como Julie Estelle e Very Tri Yulisman que retomam os papéis de “The Raid 2” “Rapariga do Martelo” e “Rapaz do Taco de Baseball”, perdão, como “Femme fatale do facalhão” e o “Assassino Hipster”. Quem pode julgar os “manos Mo” por estas brincadeiras? Eles sabem o que o público quer ver? Os actores é que poderão se cansar de interpretar o mesmo saco de pancada vezes sem conta. As cenas de luta são longas e extenuantes, exageradas e irrealistas mas que ninguém diga que não têm estilo ou não ficam na memória. Morte por facalhão, catana, metralhadora são o pouco nosso de cada dia. Apenas o estilo shaky cam acaba por confundir mais em alguns momentos do que a compreender a acção dura que se vê no ecrã.

O cinema de acção indonésio apresenta-se como a solução para colmatar o vazio entre a acção ultra-violenta mas estilizada do cinema coreano e o wire fu de uma Hong Kong que parece ter-se esquecido dos seus “Hard Boiled” ou “A Better Tomorrow”. Falta apenas encontrar um meio-termo entre a sofreguidão das cenas de acção e a exigência de um argumento que apresente uma estória nova que valha a pena contar através deste estilo tão peculiar. Duas estrelas.

Realização: Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto
Argumento: Timo Tjahjanto
Iko Uwais como Ishmael
Chelsea Islan como Ailin
Sunny Pang como Lee
Very Tri Yulisman como Besi
Julie Estelle como Rika
Yayu A.W. Unru como Romli

Próximo filme: Get Out, 2017

domingo, 16 de abril de 2017

"Knock Knock! Who's There?" (2015)


Hong Kong não parece querer abrandar a produção massiva de filmes de terror. Como se costuma dizer quantidade não é sinónimo e qualidade. E “Knock Knock! Who’s There?” não apresenta qualquer pretensão em ascender à parte superior da tabela.

Carrie Ng é uma actriz veterana de Hong Kong que conseguiu emergir de uma sucessão de maus filmes de categoria III e efetuar com sucesso a transição para o cinema destinado ao grande público. Mas se o tempo foi seu amigo e lhe trouxe respeito e reconhecimento internacional não lhe trouxe jeitinho nenhum para a realização… Entre outros pecados cai no erro da antologia. Ao invés de se focar em retratar uma boa estória foca-se em três, cada uma mais desfocada que a anterior. 
Em “Missing” Isabella (Annie Liu) morre num acidente rodoviário aparatoso ao tentar escapar dos paparazzi que a perseguem e ao seu noivo Harry (Carlos Chan). Inquieto, o seu espírito permanece na casa mortuária onde trabalha Roy (Babyjohn Choi), uma velha paixão. Diz que se reacende a acendalha do amor, que é impossível de concretizar dado… bem, dado o facto de ela estar morta e assim mas pronto, diz que o amor é cego e pelos vistos também imortal.

Segue-se-lhe “Karma” e Carrie Ng interpreta Ngo uma agente funerária viciada no jogo que ouve falar de uma susperstição, segundo a qual, se ela enterrar um gato vivo, será bafejada com grandes riquezas. Na sua ganância, ela comete o erro de matar o gato da sua sobrinha Shou (Kate Tsui). Tímida e quieta, ela recusa ignorar o acto atroz cometido pela tia e vai rebelar-se.
Em “Smell” Yan (Jennifer Tse) é uma artista especialista em tornar os mortos apresentáveis para as exéquias fúnebres que não larga o telemóvel. Um dia recebe uma mensagem de Mei-Mei (Nicola Tsang), alguém que não conhece mas com quem simpatiza de imediato. Mei-mei pede-lhe para ir buscar algo por ela e Yan decide ajudá-la, enfiando-se num bairro pouco recomendável da cidade…
“Knock Knock! Who’s There?” é uma miscelânea de estórias com um tom desigual e emprestado a tantos outros que lhe sucederam. Em casos pontuais, que podem ser encontrados em Eric Kwok e Jennifer Tse e, dada a sua experiência afigura-se uma rara tentativa de elevar o material mas o esforço é insuficiente para apagar o meu gosto deixado pelo mau argumento e direcção.

À excepção da sequência inicial, na qual Isabella sofre uma morte violenta que envolve paparazzi sem escrúpulos e um camião do lixo, “Missing” podia ser ignorado quase na totalidade. Para uma antologia que é vendida como sendo de terror, este primeiro segmento é romântico e enfadonho. Está também repleto de cenas inconsequentes. Isabella torna-se um fantasma dado ter assuntos por resolver, assuntos do coração entenda-se, um pouco como “Ghost” (1990). Entre outras descobertas percebemos que o noivo que deixa vivo não lhe desperta interesse além de um velho amor, terminado de forma precoce e absurda devido à interferência da família dela. O que resulta desta revelação? Nada. E a ameaça de espíritos maus nesta terra a Isabella também desaparece tão rapidamente quanto surge.“Karma” é uma velha estória de crime e castigo e embora Carrie Ng sobressaia no papel de vilã, isto não é necessariamente positivo. “Karma” assemelha-se mais a um produto feito para televisão –meia hora de distracção –, do que uma película para televisão. Apesar de algumas ideias interessantes e com potencial inovador, tais como a possessão por um gato e algum mau CGI, o segmento nunca se consegue elevar como algo mais do que medíocre. “Smell” é um título alusivo ao cheiro de cadáveres em decomposição e o que acompanhamos é a viagem de uma mulher (Jennifer Tse) que trabalha no ramo da morte até ao seu encontro. “Smell” é o segmento mais brutal da antologia, no entanto, pouco mais tem do que isso e surge em quantidades muito pequenas, demasiado tarde. Considerando o constrangimento do orçamento os maus efeitos visuais podiam ser perdoados se mais alguma coisa, o que quer que fosse, tivesse um nível superior. Mas isso nunca sucede e, acreditem, para quem acreditou até ao fim por algum tipo de retorno a espera é penosa. “Knock Knock” é o tipo de filme que faz questionar se vale a pena insistir com o visionamento de filmes de terror made in Hong Kong. É que este filme já nem é só formulaico, é horrível e uma perda de tempo. Mais valia não ter aberto a porta a esta sugestão. Uma estrela e meia.


Realização: Carrie Ng Ka-Lai                      
Argumento: Carrie Ng Ka-Lai, Frankie Tam e Yip Ming-Ho           
Segmento: “Missing”
Annie Liu como Isabella
Carlos Chan como Harry
Babyjohn Choi como Roy

Segmento: “Karma”
Kate Tsui como Shou Yun
Carrie Ng como Ngo
Simon Lui como Tong

Segmento: “Smell”
Jennifer Tse como Yan
Nicola Tsang como Mei-Mei

Eric Kwok como “Assassino”


Próximo Filme: Headshot, 2016

quinta-feira, 30 de março de 2017

"Spiral" (Uzumaki, 2000)


Kirie (Eriko Hatsune) é uma estudante que vive em aparente felicidade em Kurouzu, numa pequena vila japonesa. Vive uma relação de amor platónico com Shuichi (Fhi Fan) e o pai Yasuo (Tarô Suwa) foi recentemente reconhecido pelo trabalho enquanto escultor. Ela aparenta dividir com positividade o tempo entre a escola e a casa. Que mais podia uma garota querer?
Um dia, Kirie passa na rua pelo pai de Shuichi, Toshio (Ren Ôsugi), que se encontra a filmar um caracol. Ela cumprimenta-o mas ele parece nem se dar conta da presença dele. Entretanto, Shuichi pede-lhe para fugir com ele para a cidade. Passa-se algo de muito estranho. Algo que nem mesmo ele compreende e que está a afectar o pai dele. Obcecado por tudo quanto tenha que ver com espirais, o comportamento de Toshio torna-se cada vez mais bizarro e preocupante. Como se nem a própria família tivesse qualquer importância até se deixar consumir por completo pelas espirais. E ele é apenas uma de muitas vítimas. Os colegas de Kirie e outros habitantes começam a ficar tomados pela loucura das espirais. Uma espécie de possessão colectiva que contamina aos poucos Kurouzu. Os personagens perdem o seu lado funcional, deixam de viver para se concentrar nos padrões em espiral que vêem em todo o lado: num caracol, ou umas escadas, em peças de cerâmica, no céu… Apenas Kirie permanece incólume ao que se passa à sua volta.

“Spiral” é um conto de obsessão. Como tal, Higuchinsky (sim, é este o nome do realizador, de origem ucraniana e japonesa), fez questão de inserir espirais, umas vezes de modo cirúrgico, outras mais explicitamente, com caracter crescente conforme a película avança. O tom esverdeado da película que faz recordar por exemplo, um “The Ring” (2002), é convincente para a construção de uma realidade paralela. A somar à cinematografia soberba na sugestão da ideia de loucura contagiante, estão ainda todo o tipo de truques de câmara que contribuem para tornar não só a atmosfera (do filme) louca, como, indicar ao próprio espectador a insanidade do que está a visionar! Dá ares de experimental e isso é interessante tanto mais que nunca se chega a saber se tal se deve a momentos de genialidade ou sorte. As críticas são na maioria favoráveis e parecem apontar a primeira mas não estou assim tão convencida.

“Spiral” baseia-se numa manga (longa) de Junji Ito. Se já é difícil condensar os eventos de um livro num só filme, supõe-se que será muito mais adaptar uma série de carácter semanal que se estendeu por um ano! Porventura, seria mais complicado explicar uma estória tão complexa ou Higushinsky perdeu-se na forma e esqueceu o conteúdo. Além de interacções forçadas entre o duo de protagonistas e representações hórridas, o filme move-se a passo de caracol. Existem algumas cenas muito interessantes incluindo uma metamorfose num destes moluscos, um incidente com um eletrodoméstico ou até a exibição de um penteado de fazer inveja às principais casas de alta-costura. Há qualquer coisa de em “Spiral” que faz aludir a autores como o David Lynch. No entanto, continua a persistir uma enorme dificuldade em proceder à sua classificação enquanto género. É ainda hoje apresentado como o mais original entre os filmes de terror desse ano, sendo que mais de uma década volvida, continua a não existir muito material que se lhe compare nesses termos. As mortes são sem dúvida peculiares e é capaz de nos fazer olhar em redor e perceber que há muito mais espirais nas nossas vidas do que poderíamos pensar. Mas será mesmo um filme de terror? Duas estrelas.

Realização: Higuchinsky
Argumento: Junji Ito (manga), Kengo Kaji, Takao Nitta e Chika Yasuo
Eriko Hatsune como Kirie Goshima
Fhi Fan como Shuichi Saito
Hinako Saeki como Kyoko Sekino
Eun-Kyung Shin como Chie Marayama
Keiko Takahashi como Yukie Saito
Ren Ôsugi como Toshio Saito
Denden Denden como Officer Futada
Masami Horiuchi como Reporter Ichiro Tamura
Tarô Suwa como Yasuo Goshima
Toru Tezuka como Yokota Ikuo
Sadao Abe como Mitsuru Yamaguchi
Asumi Miwa como Shiho Ishikawa

Próximo filme: "Knock Knock! Who's There?" (2015)

quinta-feira, 23 de março de 2017

"House" (Hausu, 1977)


Segundo reza a história, estávamos nos loucos anos 70, quando o estúdio Toho – sim, esse mesmo do Godzilla (1954) –, impressionado pelo sucesso de “Jaws” (1975) encomendou a Nobuhiko Obayashi um filme similar. Sem inspiração e, confiando que a veia artística é de família, Obayashi foi buscar ideias à fértil imaginação de Chigumi, a sua filha então menor. O resultado foi tão pouco convencional que durante anos ninguém quis pegar no argumento incompreendido de Obayashi. Finalmente, o estúdio cedeu o total (des)controlo criativo ao argumentista e assim nasceu um filme que se diria ter sido influenciado pelas tão mal-afamadas drogas dos anos 70. E que viagem “House” se revelou.

Angel (Kimiko Ikegami) rebela-se após o seu pai revelar que encontrou uma nova namorada após anos de viuvez. Angel não gostou de Ryoko (Haruko Hanibucho) apesar da abordagem afectuosa desta e, decide, por despeito, passar as férias de Verão com as amigas e a tia (Yoko Minamida), irmã de sua mãe, que apenas viu em pequena. A tia acolhe-a de braços abertos no casarão onde habita sozinha, no meio de uma floresta. E mal pode estar por estar rodeada de juventude, ela, que se queixa de já não haver jovens na sua localidade. Ainda nos primeiros instantes da introdução da tia, professora de piano, é-nos dado a conhecer uma vida trágica. O noivo partiu para a Guerra mas nunca retornou e ela, nunca desistiu de esperar pelo seu regresso.

Desde os créditos iniciais que é transmitida a ideia de que “House” é uma experiência cinematográfica um pouco diferente. Mas podem referir-se a “House” apenas como uma experiência. O filme tem muito mais de captura dos excessos e defeitos dos anos 70, do que produto cinematográfico. O estúdio desistiu de “House” e deixou Obayashi fazer o que desejasse e isso nota-se. Mais do que a imaginação de uma criança, por incoerente que esta possa assemelhar-se, sobressai todo um look louco, repleto de objectos animados, animais malditos e muito amadorismo que se torna divertido se, (e isto é um grande se), for visionado com bastante distanciamento.
As garotas que dão nome a algumas personagens tão estereotipadas como Angel, Kunfû (Kung Fu), Fanta (Fantasy), Makku (Mac) ou Merodî (Melody), entre outras, são actrizes amadoras que não foram, decerto, selecionadas pelas suas excelentes capacidades dramáticas. De facto, várias actrizes nos mais variados momentos surgem desnudas. Longe de mim imaginar que a popularidade do género exploitation teve algo a ver com isso… Mas quem fala da falta de aptidão dramática das meninas não pode deixar de esquecer personagens como o vendedor de melancias, o próprio Obayashi num momento Hitchcockiano e que aparece para dar pistas de que o casarão esconde algo do outro mundo… E o que de lá vem não é tão macambúzio quanto o cinema de terror de finais dos anos 90 e novo milénio fariam crer. Quem disse que os fantasmas/poltergeists ou seja lá o que for, não têm sentido de humor? Os elementos de terror baseiam-se em momentos de profundo exagero musical, que funcionam como berros aos ouvidos ou até a repetição vezes sem conta de uma composição em particular, tal como as crianças costumam fazer. Além disso, temos alguns efeitos especiais sui generis, seja pelo enquadramento criativo da câmara, dos efeitos dignos de um estudante no primeiro ano do curso de cinema ou efeitos animados dissonantes do contexto que os envolvem. Por mais incrível que pareça, por baixo das camadas de maus efeitos especiais e gargalhadas involuntárias Obayashi faz algumas alusões à tragédia maior da História do Japão seja mediante a estória de um noivo desaparecido na guerra ou de uma personagem que arde até nada mais restar no seu lugar. Temos, por outro lado, as bases para o género da comédia de terror e das estórias de casas assombradas que por um motivo ou por outro entram em casarões e… nem sempre saem com vida. Duas estrelas.

Realização: Nobuhiko Obayashi
Argumento: Chigumi Obayashi
Kimiko Ikegami como Angel
Miki Jinbo como Kunfû
Kumiko Ohba como Fanta
Ai Matsubara como Gari
Mieko Satô como Makku
Eriko Tanaka como Merodî
Masayo Miyako como Suîto

Próximo Filme: "Spiral" (Uzumaki, 2000)

domingo, 5 de março de 2017

"The Handmaiden" (Agassi, 2016)


Chan-wook Park, realizador de filmes tão brilhantes e brutais como a trilogia da Vingança (2002-2005), um dos melhores segmentos da antologia de terror “Three… Extremes” (2004) ou ainda o injustamente ignorado “Snowpiercer” (2013) ainda não encontrou um desafio que não pudesse superar. Desta feita adaptou um romance gótico-vitoriano “Fingersmith” de Sarah Waters escrito em 2002 e transportou-o para a Coreia dos anos 40, ocupada pelo invasor Japão. Tanto quanto me foi dado a perceber (obrigada Google!), a essência e a motivação das personagens permanece a mesma contudo, elas seguem o rumo que Chan-wook Park lhes quis dar. Este thriller erótico-dramático foi escrito por uma romancista mas as personagens são tão familiares, tão intrinsecamente ligadas à obra de Chan-wook que quem não saiba dirá com facilidade que “The Handmaiden” é 100% fruto do seu imaginário.


Hideko (Min-hee Kim) é uma órfã japonesa prisioneira numa relação inquietante com Kouzuki (Jin-woong Jo) um coreano que se casou com uma tia dela para ascender socialmente e usufruir do dinheiro da herdeira para dar azo à sua derradeira paixão: a literatura. A fortuna da jovem japonesa capta as atenções de um vigarista que se apresenta como um Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) tomado de ardores de amor e paixão, herói que a irá resgatar da clausura. Para tal, ele capta a ajuda da pequena ladra Sok-hee (Tae-ri Kim), uma servente que deverá influenciar e colocar Hideko no caminho do sedutor.
Um plano que parecia simples complexifica-se quando Hideko e Sook-hee forjam uma forte ligação. Elas são mais iguais do que seria expectável. Presas às circunstâncias do nascimento, elas parecem fadadas à impossibilidade de escapar aos destinos que lhes foram prescritos há muito, muito tempo. Por dinheiro, ambas são joguetes nas mãos dos homens. Até que surge num plano maquiavélico uma hipótese derradeira de liberdade. As relações entre as personagens são intrincadas e a duplicidade é uma constante. Esta percepção do estado de coisas e das relações entre personagens instala-se pela apresentação de uma narrativa menos comum, divida em capítulos, como se tratasse do livro que lhe deu origem. Cada capítulo é apresentado do ponto de vista das diversas personagens e gera-se mesmo o efeito “Rashômon” até que os motivos são desvelados e confrontados para uma verdade dos “factos” sobressair.

“The Handmaiden” é vastamente superior a muitos equivalentes do género e sim, o recente “Crimson Peak” (2015) vem à mente. As representações do quarteto principal são todas dignas de prémios e a acção move-se devagar, à excepção da última meia hora mas em momento algum se torna insípida como a abordagem de Del Toro. Aqui há beleza à superfície e em profundidade. A cinematografia é esplêndida, o que é aliás comum nos filmes de Park Chan-wook. Existe um forte sentido de transmissão das ideias de clausura física e das barreiras psicológicas que separam as personagens. Sobretudo a relação entre Sook-hee e Hideko é explorada de modo hábil pela câmara curiosa, intrusa, em todos os pequenos momentos, mesmo aqueles em que duas mulheres cúmplices se encontram a brincar aos vestidos. Momentos de comédia transitam para outros de elevada tensão com uma fluidez natural. Por outro lado, existem ainda pequenos momentos de homenagem e referência a trabalhos anteriores, designadamente, uma cena de tortura reminiscente do segmento “Cut” em “Three Extremes” e “Oldboy”. “The Handmaiden” é ainda um thriller erótico com cenas capazes de fazer corar o cinéfilo mais liberal. A despeito do cuidado na direção destas sequências estas prolongam-se sem necessidade, fazendo com que a película perca o ritmo, ou quebre mesmo alguma tensão que lhe antecedeu. Talvez seja este o mal menor num filme onde as personagens são tão violentadas que algo que se assemelhe a um breve momento de prazer saiba a uma pequena recompensa. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Seo-kyeong Jeong e Chan-wook Park
Min-hee Kim como Hideko
Tae-ri Kim como Sook-Hee
Jung-woo Ha como Conde Fujiwara
Jin-woong Jo como Tio Kouzuki
Hae-suk Kim como Miss Sasaki
So-ri Moon como Tia de Hideko

Próximo Filme: "House" (Hausu, 1977)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"The Autopsy of Jane Doe" (2016)


Dois Homens, um cadáver. Podia ter saído de um daqueles vídeos esquisitos que circulam por aí mas revela-se afinal uma das películas de terror mais competentes de 2016. Uma morgue, cadáveres engavetados, uma família a recuperar ainda de uma tragédia pessoal e o corpo de uma jovem cuja mera existência é um anacronismo é tudo quanto basta para uma das experiências mais marcantes do género do ano.

Tommy (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch) são a dupla de pai e filho médicos-legistas, mais competentes do ramo. Tommy vive para o trabalho. Pouco existe que ele não tenha visto e têm ainda bastantes truques para ensinar ao talentoso filho. Já Austin é um apaixonado pelo “negócio” de família mas não se quer deixar consumir por ele. Pensa numa vida além da morgue e esta encontra-se em Emma (Ophelia Lovibond). Mas enquanto não encontra coragem para deixar o desgostoso pai aprender a lidar com as agruras da vida, dedica-se aos mistérios do corpo. Eles encontram o maior de todos em “Jane Doe” (Olwen Catherine Kelly), o cadáver de jovem desconhecida, encontrado pelo familiar Xerife Sheldon (Michael McElhatton) na cena de um massacre que envolve várias caras conhecidas da região.

O prazo é apertado. Numa noite terão de descobrir a causa da morte da desconhecida e a sua ligação às outras mortes mas em como tudo o resto em Jane, ela é um elemento estranho. Tudo na sua presença indica não se encaixar na sequência de eventos. O corpo não aparenta sinais de violência ou… de qualquer outra coisa na verdade. De que é que morreu a desconhecida?
“The Autopsy of Jane Doe” pertence à ainda curta carreira de André Ovredal, realizador norueguês que se notabilizou com uma das raras boas incursões no género de found footage (“Blair Witch” é uma treta cof, cof) com “Trollhunter” que ademais foi beber à própria mitologia do seu país. No entanto, ninguém o pode acusar de amadorismo. “The Autopsy of Jane Doe” parece um dos melhores episódios de "CSI" com uns resquícios de “Six Feet Under” em formato longa-metragem. É impossível não ficar absorvido pela dupla Cox/Hirsch enquanto esta retalha o corpo de Jane, ao mesmo tempo que levanta as hipóteses mais fantásticas e pavorosas. A abordagem fria e clínica da dupla não afugenta, antes torna as actuações mais realistas. Por seu turno, sem dizer nada, a linda e misteriosa Jane Doe marca o tom cada vez mais sinistro do filme. Sem nada dizer ou mover-se – o cadáver! –, comanda o filme. Um excelente exercício de body horror, mas sem o sensacionalismo de outros. A empurrar a narrativa está a sua investigação. A cada novo indício do que poderá ter sucedido, surge uma nova pista desconcertante para o ultra experiente Tommy e o mais novo mas não menos perspicaz Austin. Entretanto, começam a suceder episódios insólitos na cave onde se encontram e que parecem querer indicar que os factos são bem mais complexos e perversos do que se podia à partida supor. Na verdade o contínuo enfoque em Jane Doe traz mais perguntas que respostas. Este enfase não é voyeurista. Pelo menos não numa perspectiva sexual, a despeito de Jane ser belíssima. A obsessão é clínica, como a de um médico que procura de modo furioso descobrir a causa da maleita de um seu doente. A dada altura “Jane Doe” muda para uma direção não totalmente inesperada mas porventura desnecessária, ainda assim competente. No entanto, se o espectador decide prosseguir com o visionamento confiante ou ficar indignado esta é uma decisão subjectiva. Brian Cox e Emile Hirsch continuam tão convincentes, enquanto mentes inquisitivas e na relação de pai e filho, enquanto o mundo à sua volta ameaça ruir.  A despeito de na última metade de “The Autopsy of Jane Doe” existir uma mudança precipitada de direção, a primeira parte é tão impactante que não é possível não permanecer fascinado por este novo estranho monstro recriado por Ovredal. Quatro estrelas.
Realização: André Øvredal
Argumento: Ian B. Goldberg e Richard Naing
Emile Hirsch como Austin Tilden
Brian Cox como Tommy Tilden
Ophelia Lovibond como Emma
Michael McElhatton como Xerife Sheldon
Olwen Catherine Kelly como Jane Doe
Jane Perry como Tenente Wade

Próximo Filme: "The Handmaiden (Agassi, 2016)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"Blair Witch" (2016)


Na lista de sequelas que ninguém queria que acontecessem "Blair Witch" há-de estar lá no topo. A sério. Se têm dito que a fariam em 2000/2001 talvez a expectativa fosse grande. Em 2016 é apenas estar a espancar um cadáver. Se já não existe um sopro de vida naquele corpo para quê insistir? A única parte compreensível do processo é a associação ao projeto de nomes como Adam Wingard e Simon Garrett. Dois nomes jovens e promissores que muito devem ao género de found footage ou não estivessem envolvidos na antologia “V/H/S” e a respectiva sequela. Se na altura, “V/H/S” pareceu adiar a morte ou pelo menos dormência do género, “Blair Witch” é a velhinha resignada que sabe que já não há espaço para novos truques. Onde “Blair Witch Project” foi uma espectacular inovação, termos de fundação das raízes do subgénero, a utilização de um micro-orçamento e de uma manobra de marketing genial e, isto entenda-se que a qualidade do filme não foi e não continua a ser consensual, “Blair Witch” é tudo o que já feito antes e nada traz de novo.

Passados dezassete anos após o desaparecimento de três estudantes algures numa floresta americana é encontrado um vídeo com que se acredita ser uma das últimas imagens de Heather (Heather Donohue) em vida. Obcecado com o acontecimento que marcou para sempre a sua vida, James (James Allen McCune) decide embarcar numa expedição em busca da irmã que então perdeu. Apesar do cepticismo quanto à possibilidade de a encontrar viva, Lisa (Callie Hernandez), Peter (Brandon Scott) e Ashley (Corbin Reid) decidem acompanhá-lo para fechar em definitivo esse capítulo da sua vida. Ao grupo de amigos juntam-se ainda Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry) que encontraram o vídeo que espicaça James a embrenhar-se na floresta.
A partir desse momento torna-se bastante óbvio que Simon Barrett e Adam Wingard estudaram com especial cuidado “The Blair Witch Project” (1999), desde o abuso da câmara aos tremeliques e abanões violentos à sequência de ocorrências estranhas que não é muito diferente do que sucede no filme original, ainda que o grupo seja (apenas) um pouco mais diversificado. James é um homem assombrado pelo momento em que perdeu a inocência. Ele e o velho amigo de infância Peter assistiram e ajudaram às buscas iniciais. Lisa pretende aproveitar a tragédia pessoal de James para realizar um documentário. Lane e Talia cresceram com as lendas da bruxa Blair mas mais do que empatia para com os desaparecidos, desejam conhecer a verdade por trás das estórias de terror. Peter está ali para dar apoio ao amigo ainda que considere que estão ali à procura de fantasmas. Para a namorada Ashley é uma viagem de campismo com amigos. Todos têm motivos muito próprios e a maioria não é particularmente simpática. Depois de êxitos entre o público e a crítica como “You’re Next” e “The Guest”, voltaram aos personagens detestáveis de “Tape 56” e, onde, com a maior sinceridade, mal se podia esperar que tivessem mortes lentas e dolorosas. Depois, claro, as personagens fazem tudo quanto podem de mais idiota que se possa esperar incluindo não tomar as precauções de calçado necessárias para impedir ferimentos debilitantes e que possam infectar longe da civilização. Afastar-se do grupo sobretudo se é noite escura e, por fim, o cliché de todos os clichés, separarem-se. A acepção de que a força se encontra nos números poderá passar por mentira num filme de terror pois não são muitas as vezes que tal se viu acontecer. As novidades encontram-se no aparecimento da Bruxa (mas com atenção), se não, podem perdê-la de vista e lapsos temporais. Bem, eles podem mesmo existir ou será apenas mais uma ilusão da bruxa? O final é porventura o que menos relevante “Bair Witch” tem. Desde os créditos iniciais que existe uma noção de que o “final é um novo começo”. Uma perspectiva circular subjacente à própria razão da existência do found footage. As filmagens existem para ser encontradas e um novo grupo de pessoas vá em busca do que quer que causou aquele incidente, colocando-se numa nova situação de perigo. Duas estrelas.


Realização: Adam Wingard
Argumento: Simon Barrett  
James Allen McCune como James
Callie Hernandez como Lisa
Corbin Reid como Ashley
Brandon Scott como Peter
Wes Robinson como Lane
Valorie Curry como Talia

Próximo Filme: "The Autopsy of Jane Doe" (2016)

domingo, 8 de janeiro de 2017

"Haunted Universities" (Mahalai Sayongkwan 2009)


Da Tailândia chega mais uma antologia de terror. Ênfase no “mais uma” que o país dos sorrisos reproduz antologias como Hollywood sequelas. Como é de senso-comum, quantidade nem sempre significa qualidade e, em comparação com os pares “Haunted Universities” encontra-se na parte inferior da tabela… “Haunted Universities” é composto por quatro segmentos diferentes mas que se encontram interligados através de Muay uma jovem que integra uma equipa de salvamento, que percorre as ruas da cidade de Banguecoque ao longo de uma noite numa ambulância.

“The Toilet” – Um pequeno traficante tenta enganar os seus fornecedores e ficar com as drogas e o lucro para si. Numa festa, é confrontado pelos bandidos e acaba por descobrir da pior maneira que é má ideia enganar pessoas metidas em negócios ilegais. Ele apanha uma grande tareia e a namorada, que não fazia ideia do negócio sujo do namorado acaba por ser arrastada com ele para a universidade onde ele terá escondido as drogas. É bastante tarde e os jovens impressionáveis demonstram medo por calcorrear aqueles corredores, sobretudo perto da casa de banho das raparigas no quinto andar que se diz estar assombrada. Um dos bandidos não contente com a tareia e ameaças dirigidas ao casal decide arrastá-los e ao seu parceiro para o local para ver com os seus olhos a assombração.

“The Elevator” – Caloira na universidade, Noknoi é a descendente de um general ditador entra em conflito com um líder de estudantes que faz questão de a recordar de uma matança que sucedeu num dos velhos elevadores da universidade, a mando de um familiar desta. Para se libertar do assédio Noi aceita o desafio de entrar no infame elevador, cujas paredes estão tingidas de vermelho, para disfarçar o tom do sangue ali derramado.


“The Morgue” – Prasert é um aspirante a dentista que não suporta as aulas de anatomia em face do seu terror perante cadáveres e de assombrações. Tanto que é supersticioso ao ponto de usar um amuleto ao pescoço para se proteger. Em uma tentativa de recuperar pontos junto de uma professora depois de entregar o último trabalho após o prazo estipulado, voluntaria-se para substituir um auxiliar no hospital onde ela trabalha. Os problemas surgem depois de ser destacado para a ala mortuária. O “amigo” Joke tenta pô-lo à vontade e prega-lhe inúmeras partidas para que Prasert descontraia. Para azar de Prasert, Joke prefere marcar um encontro romântico do que fazer o turno para recuperar as notas perdidas e deixa-o sozinho quando mais necessita.

“Stairway” – Sa (Anna Reese) está cansada depois de falar no chat com um desconhecido que termina dirigindo-lhe ameaças. Muay (Panward Hemmanee) mostra-se receosa mas a amiga tenta deixá-la descansada. Como é que o desconhecido iria saber onde elas moram? Se calhar nem vive no mesmo país… E sai para ir buscar comida. Muay entretanto decide ir descansar. Na rua, Sa é assediada por um grupo de homens que acaba por a deixar em paz depois de um homem bem-falante e ar respeitável se interpor entre eles. Sa acaba por aceitar a boleia deste mas as suas intenções podem não ser as melhores.

Os segmentos são bastante diferentes na direcção e no tom. Alguns seguem uma narrativa mais clássica no que diz respeito aos fantasmas e repetem inclusivamente cenas de sustos de filmes anteriores. Surpreendente é a crueza desta antologia é a sua crueza. É pouco habitual assistir a cenas com nudez e violência incluindo violência sexual. Apesar de o cinema tailandês não fugir a estes temas, sobretudo nos filmes de terror estes momentos são mais sugeridos do que explícitos e mais curtos, para dar enfase a outros aspectos. Acaba por ser banal ver-se um cadáver, um fantasma ou um zombie por exemplo e não o processo da morte em si. Em “Toilet” o bad boy com aspirações a gangster leva uma tareia que seria caso para estar no mínimo em coma e uma caracterização mais condicente. A insistência da câmara neste momento é desnecessária e insólita. Passados alguns segundos, a persistência dos murros do gangster torna-se mórbida e gratuita. Tipo, acho que percebemos à primeira que o Jimmy (Atis Amornwetch) está a levar a lição da sua vida.
Porventura pretendiam prolongar um pouco mais esta curta? No geral “The Toilet” não convence podendo constituir motivo de desistência bem cedo na antologia. De modo curioso é a sequência que envolve um elevador onde os piores pesadelos dos personagens tornados realidade, que se revela a mais interessante e assustadora de toda a curta. Tal sequência é até mais impactante que a da curta que se lhe chegue e se chama… “The Elevator”. Esta, apresenta uma abordagem mais próxima da audiência tailandesa através do recurso à utilização de elementos históricos, como o confronto de estudantes com uma das ditaduras militares que perpassaram pelo país. Com algum potencial, “The Elevator” acaba por se perder numa estória romântica de que não necessitava. A tragédia da carnificina de estudantes no elevador de uma universidade e o encontro com uma descendente de um dos homens que orquestraram esse infeliz acontecimento deveria bastar. Também a actriz principal neste segmento ultrapassa os limites do aceitável na representação, tendo alguns momentos histriónicos que não deviam ter saído da sala de montagem. Mas como a maioria das curtas aqui presentes, transparece alguma falta de capacidade de edição por parte da realização.
“The Morgue” tem uma premissa insólita mas perde-se ao longo do caminho. Temos um estudante de um ramo da medicina com horror a cadáveres que é destacado para estar de guarda a uma morgue. A agonia de Prasert (Pangsit Piseesotgan) é prolongada em cenas contínuas em que não sucedem eventos que se revelem de facto assustadores. Talvez para Prasert. Estará tudo na cabeça dele? Porque as cenas arrastam-se de tal modo que provocam sonolência até aos mais corajosos. Em seguida, vem a última e mais brutal das curtas que compõem este “Haunted Universities” e serve como uma lição contra os perigos da internet. As duas personagens femininas tomam algumas atitudes que parecem escapar à lógica: num momento uma delas recusa boleia de estranhos para logo a seguir aceitar boleia de um outro estranho! A aparência deve ser mesmo tudo! Noutro momento, um intruso entra no apartamento e após assustar e ameaçar a estudante decide sair. O que faz a estudante que foi interpelada pelo estranho? Volta a dormir. É legítimo mas as prioridades estão um bocadinho trocadas não? Outro ponto que deverá levantar alguns pontos de exclamação é que “The Stairway” apesar de seguir duas estudantes numa noite que mudará as suas vidas para a eternidade, afasta-se, tal como “The Morgue” do tema da universidade assombrada. O título em inglês não faz justiça nem reflecte a realidade da antologia. Também as curtas se encontram interligadas mas em alguns casos, a ligação é no mínimo forçada. A conexão não é de todo orgânica, antes um pretexto, para contar estórias que de outro modo podiam não ver a luz do dia. Talvez tivesse sido melhor assim. Uma estrela e meia.

Realização: Bunjong Sinthanamongkolkul e Sutthiporn Tubtim
Atis Amornwetch como Jimmy
Pantila Fuglin como Pon
Panward Hemmanee como Muay
Prinya Ngamwongwarn como Jok (as Parinya Gamwongwan)
Ashiraya Peerapatkunchaya como Noknoi
Pangsit Piseesotgan como Prasert
Anna Reese como Saa

Próximo Filme: Blair Witch (2016)
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