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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Election" (Hak se wui, 2005)


De dois em dois anos a tríade Wo Shing passa por um período de eleições para escolher o seu líder máximo. Acerca-se um novo de período de eleições e os membros seniores da Wo Shing acomodados que estão nas suas regras e rituais não pensam candidatar-se. Também é verdade que não estão mais perto de encontrar um novo líder. É altura de entrar sangue novo e as opiniões dividem-se entre Lok (Simon Yam) e Big D (Tony Leung Ka Fai). Lok é calmo e reservado, dir-se-ia mesmo sonso, não fosse ele um assassino frio e calculista que gostava de analisar todas as jogadas antes de decidir o curso de acção. Big D é o oposto. Espalhafatoso e possuidor de confiança excessiva, ele acredita que estão todos abaixo dele o que gosta de demonstrar por via do sadismo. Se por um lado está disposto a tudo para a Wo Shing triunfar por entre todas as sociedades criminosas e, sobretudo ele, reinar, por outro é a característica que o torna vulnerável a cometer o tipo de erros de impulsividade que costumam granjear muitos inimigos. São tidas reuniões, são feitos subornos e são tidas ainda mais reuniões. Uma decisão é tomada. Mas convém não esquecer um importante pormenor. Os anciões da tríade são organizados mas acima de tudo dão valor à tradição. O vencedor, para se legitimar terá de possuir um bastão centenário que pertenceu aos diversos chefes. Quem o obtiver será reconhecido por todos como o Grande Líder. Desencadeia-se então uma luta entre as facções e os seus seguidores para conseguir o símbolo máximo de poder.

É comum fazer-se uma associação imediata à extrema violência à mera menção da palavra máfia mas “Election” é tão enganador como os seus predecessores. Conduzido com a mão sábia de Johnnie To que tem um vasto currículo no retrato dos estilos de vida à margem da lei, “Election” concentra-se mais nas maquinações das tríades chinesas que na sua brutalidade mesmo que esta quando surja seja marcante. A título de exemplo, um leal lacaio mastiga pedaços de porcelana a mando do chefe…
A maioria do elenco, quase na totalidade do sexo masculino, são homens de meia-idade, práticos e capitalistas. Não fosse a natureza dos assuntos com que lidam e quase se poderia olhar para estes como legítimos homens de negócios. No fundo, tudo é passível de ser transformado num negócio desde que se seja amoral. Com alguns dos meninos bonitos do cinema chinês como Louis Koo (Jimmy) e Nick Cheung (Jet) é de estranhar quão pouco estes são utilizados. Eles ostentam nas poucas cenas em que surgem carisma suficiente para se querer saber mais sobre os seus personagens que se revelam, aliás, os poucos idealistas ou bandidos por vocação num filme onde predomina o cinismo. Entra ainda em acção a força policial, como que para nos fazer recordar quem é que é o bom da fita. Ela está no entanto, condenada a um plano secundário num enredo onde já existem demasiados actores secundários. Talvez fosse mesmo essa a ideia dos argumentistas, demonstrar como estas sociedades são enormes, como existem demasiados intervenientes a considerar e, assim, se torna difícil distingui-los. A película perde talvez o potencial de encanto após abandonar o engenho em detrimento da caça ao homem, ou melhor, ao bastão mítico, altura em que se torna mais convencional. Curiosamente, uma crítica que não se lhe pode apontar e não costuma ser habitual em filmes sobre a máfia (chinesa, italiana ou japonesa) é que é demasiado curto.
Após um período de acalmia, o fim vem rápido e furioso, com os dois melhores actores em cena a comprovar aquilo que já se dizia sobre os seus personagens. Aquele é um negócio sujo e mesmo sobre um clima de calma aparente, os bandidos não conseguem negar a sua natureza. Três estrelas.

Realização: Johnnie To
Argumento: Nai-Hoi Yau e Tin-Shing Yip
Simon Yam como Lok
Tony Ka Fai Leung como Big D
Louis Koo como Jimmy
Nick Cheung como Jet
Ka Tung Lam como Kun
Siu-Fai como Sr. So
Suet Lam como Big Head
Tian-Lin Wang como Uncle Teng
Bing-Man Tam Uncle Cocky
Maggie Siu como Senhora Big D
David Chiang Chefe Superintendente Hui

Próximo filme: "Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)

domingo, 21 de dezembro de 2014

"The Protector" (Tom Yum Goong, 2005)


Sejamos honestos, o Tony Jaa é um péssimo protector. No “Ong Bak” (2003) foi incapaz de evitar que roubassem a cabeça da estátua de um Buda apesar de esta ser tipo enorme, em “The Protector” ele consegue, não sei como, perder uma cria de elefante que era tarefa sua proteger. Mas se um vilão ofender o vosso irmãozinho pequenino ou raptar o vosso gato bebé ele é a pessoa certa para a tarefa. Para uma referência mais actual, considerem-no um Liam Neeson mais inepto nas palavras mas que executa na perfeição alguns dos espancamentos mais brutais a que já tiveram oportunidade assistir.

Tony Jaa é Kham, o último descendente numa linha de guardiões dos elefantes da família real Tailandesa. Durante as comemorações de um festival e aproveitando a confusão do grande afluxo de gente, uns malfeitores, com a conivência de um ilustre cidadão local aproveitam para roubar o membro mais novo da família de elefantes e atingem o pai de Kham com um tiro. Como podem imaginar o Tony Jaa fica muito zangado. Ao ponto de viajar até ao outro lado do mundo para ir resgatar o seu elefantezinho e vingar o ataque ao pai. Ele não viaja efectivamente até ao outro lado do mundo, até porque a Austrália é logo ali, mesmo ao pé da Tailândia (vá, quase), mas é bonito pensarmos que sim. Lá, ele depara-se com um estranho mundo novo, não só porque parece um peixe fora de água – ele fazia flexões nos dentes de um elefante afinal de contas –, mas é um país onde a língua é estranha e a confluência de novos estímulos é avassaladora. Para sua “alegria”, o mundo do crime mantém a conexão com a cultura que conhece ou não fosse o bandido, dono do restaurante “Tom Yum Goong” (um prato tradicional tailandês) e quem lhe dá guarida é Pla (Bongkoj Khongmalai) uma tailandesa atraída para as malhas da prostituição no exterior.

“The Protector” toca em tudo quanto são assuntos mas não se foca em nenhum: o tráfico de seres vivos e de arte; as dificuldades de adaptação dos imigrantes a uma nova cultura, sistema de justiça e religião; a prostituição forçada de mulheres estrangeiras… Kham apenas quer o seu elefante. Mas não se preocupem que a ligação de ambos é mais forte do que possam imaginar. É histórica e espiritual. Por isso, Kham encontra-se disposto a espalhar mortos e feridos por toda a Austrália se tal for necessário para chegar até ele. À boa maneira deste tipo de filmes, os bandidos não têm uma grande apetência para as armas de fogo se não, ao fim de dez minutos já não haveria estória para contar. É que Kham é um incómodo daqueles que mais valia recorrer a uma metralhadora do que ir contratar os lutadores mais brutamontes (e incompetentes e caricaturais) que já se viu. Na maior parte e a despeito de pontualmente se deparar com uns quantos adversários de valor, eles são francamente ineficazes contra o muay thai quebra articulações de Kham. Nm dos momentos mais fascinantes e brutais, para quem vê e para os duplos, Kham atravessa um edifício inteiro e, em particular, sobe uma escadaria num impulso decisivo e destruidor. Tudo quanto se atravessa no seu caminho é empurrado, esborrachado e, enfim, trucidado. Eu não queria ser um daqueles duplos! Esta cena providencia um instante espantoso se pensarmos na perfeição da coreografia que envolveu dezenas de intervenientes e a mestria de Prachya Pinkaew que optou por captar a cena num único take. O que pensando bem, poderá até ter constituído um dos momentos cinematográficos inspiradores do não menos superior “The Raid 2: Berandal” (2014). “The Protector” é igual a todos os filmes de artes de marciais remanescentes na medida em que temos de nos convencer com todas as nossas forças que o que estamos a assistir podia acontecer. No entato, é um deslumbramento admirar a destreza, o portento físico dos seus intervenientes. Denota-se um esforço real por parte da equipa em mostrar um produto excitante. Não é a acção chapa 5 de um “Kickboxer 33” ou um “Bloodsport 15”. Pretendem mesmo que apreciemos um filme onde o prato principal é pancada até mais não. Três estrelas.

Realização: Prachya Pinkaew
Argumento: Napalee, Piyaros Thongdee, Joe Wannapin, Kongdej Jaturanrasameee Prachya Pinkaew
Tony Jaa como Kham
Mum Jokmok como Inspector Mark
Xing Jing como Madam Rose
Johnny Tri Nguyen como Johnny
Bongkoj Khongmalai como Pla
Sotorn Rungruaeng como pai de Kham
David Asavanond como Rick

O melhor:
- Se gostam e esperam brutalidade no seu modo mais cru, da oferta moderna pouco existe de superior a “The Protector”
- Coreografia das cenas de artes marciais no seu melhor

O pior:
- A versão Weinstein conseguiu comprimir um bom filme de 110 minutos num de 85. A evitar.
- Mortos e feridos por um elefante poderá custar a engolir a alguns
- Tony Jaa não é propriamente um actor Shakespeariano. Encontra-se mais próximo do Arnie acabadinho de chegar aos EUA, oriundo da Áustria.

Próximo Filme: "The Thieves" (Dodookdeul, 2012)

domingo, 6 de abril de 2014

"Noriko's Dinner Table" (Noriko no shokutaku, 2005)


O mundo precisava mesmo de uma sequela de “Suicide Club” (2001)? Quer queiram ou não, ela existe. Desta feita, Shion Sono apresenta um tom mais familiar, centrado na vida de Noriko Shimabara (Kazue Fukushi) uma adolescente sonhadora que ambiciona deixar uma existência banal. Ela vive com o pai Tetsuzo Shimabara (Ken Mitsuishi), a mãe Taeko (Sanae Miyata) e a irmã mais nova Yuko (Yuriko Yoshitaka), todos eles demasiado distraídos para compreender que Noriko é mais do que uma rapariga que deverá cumprir tudo quanto é esperado dela. Na verdade ela encontra-se profundamente deprimida com a possibilidade de nunca abandonar a pequena vila que habita e onde todos, sem excepção, levam vidas sem quaisquer vestígios do Extraordinário. É isso que ela quer, o Excepcional. Quer partir para Tóquio, grande cidade e onde os sonhos são tão grandes quanto a cidade, isto é, maiores do que a maioria. Ela está registada num site onde encontra outras adolescentes tão alienadas quanto ela e, num impulso planeado, foge de casa para se encontrar com “Estação de Ueno 54” ou Kumiko (Tsugumi) que a leva numa viagem pelo mais bizarro de Tóquio, uma “seita” especializada no aluguer de famílias para corações solitários e indivíduos que perderam alguém especial.

Qualquer obra de Sono tem uma sinopse interessante, desde o suicídio em massa de adolescentes a extensões de cabelo assassinas em série, a sua filmografia promete bastante. Quando escreve em parceria ou deixa mesmo a tarefa para outros (evento raro) as películas fluem bastante melhor. Porque o homem, por bem intencionado que seja, é incapaz de editar o seu próprio pensamento resultando, depois, em obras que sentimos serem bem mais longas do que a sua duração real. Bem, “Love Exposure” (2008) tem Quatro! horas de duração. Multipliquem por dois e ficam a duração real de tempo desperdiçado. “Noriko’s Dinner Table” segue essa regra implícita. Desbastando a película em 30 minutos, “Noriko’s Dinner Table” seria mais directa ao assunto, sem perturbar o pensamento de quem o escreveu. O maior problema de Sono é não se conseguir abster de microanalisar a mais pequena expressão facial ou pensamento. Ele diz-nos em que reparar e como processar essa mesma informação. Mais condescendente e com menor fé no espectador é difícil. Essa sensação é depois acentuada pela narração constante. A vida interior dos personagens já é, por isso só, um livro aberto. A necessidade de preencher um espaço vazio percepcionado pelo argumentista-realizador como narração desnecessária é tão-só um preciosismo num filme já pejado de significações. Juventude alienada, sobretudo num país onde os jovens são sobre-estimulados, onde a doença mental ainda é olhada de soslaio, o poder da internet na criação de mundos secretos para mentes inquietas e a sua capacidade de distorcer e criar universos preferíveis àqueles que de facto habitamos, a reflexão sobre o que é a identidade e como esta nos influencia, a possibilidade de romper com o passado e inventar uma nova pessoa… Todos estes temas são abordados por diversas personagens com perspectivas muito diferentes… A fugitiva, aquela que apoiou e até encorajou a fuga, o que procura desesperado aquela que perdeu… E em pano de fundo uma pergunta, repetida até à exaustão, lavagem cerebral, cortesia de Shion Sono: estás conectado a ti próprio? Ao fim de uma hora, se ainda não estivermos conectados com a seca que de facto estamos a apanhar, não, se calhar, não estamos.

“Noriko’s Dinner Table” funciona melhor quando estabelece uma ligação ao predecessor “Suicide Club”, satisfazendo muito do que ficou por explicitar neste último. Talvez por compensação Sono tenha transportado demasiado para este Noriko. A transmissão das suas reflexões mediante a apresentação da tragédia de uma família que, em última análise, não se conhece de todo, é capaz de aproximar mais as audiências. No entanto, quando esta for fim se volta a sentar ao redor de uma mesa, trocando sorrisos e passando comida uns aos outros, este cenário parece estranhamente artificial. Duas estrelas.

O melhor:
- O elenco
- Temas com os quais as sociedades modernas se podem identificar

O pior:
- Duração
- Infantilização do público

Realização: Shion Sono
Argumento: Shion Sono
Kazue Fukushi como Noriko Shimabara
Ken Mitsuishi como Tetsuzo Shimabara
Tsugumi como Kumiko
Sanae Miyata como Taeko
Yuriko Yoshitaka como Yuko

Próximo filme: "Howling", 2012

domingo, 9 de fevereiro de 2014

"Neighbour n.º 13" (Rinjin 13-go, 2005)


Todos conhecem alguém que sofreu de “bullying” durante os anos de escola, ou foram eles próprios vítimas. É quase um ritual de passagem, uma realidade da vida, que magoa enquanto dura e depois se vai embora, tão rápido quanto surgiu. Uma mera mancha numa vida que se prevê de sucesso e produtiva. É coisa de canalha, não mata ninguém. Aos agressores passa-lhes, às vítimas, essas têm é de ser fortes e aguentar. Não é? Este é o tipo de discurso mais comum e que peca por ainda não ter sido erradicado das mentes comezinhas dos idiotas que, suspeito, se encontravam no lado dos agressores ou dos indiferentes, e não sofriam na pele tal abuso.
“Neighbor no.13” foca a estória de Juzo Murasaki (Shun Oguri) um jovem que durante os tempos de escola era sistematicamente perseguido, atormentado e vítima de sevícias várias por Toru Akai (Hirofumi Arai) e o seu gangue de rufias. Ele é aquele tipo de miúdo introvertido que nunca irá contar a ninguém os abusos de que é alvo e faz, portanto, as delícias de miúdos com a malícia em mente. Anos mais tarde, Juzo continua a ser um adulto calado, levando uma existência benigna e muito aquém de extraordinária. Até ao dia em que se muda para o mesmo edifício onde mora o seu antigo atormentador Toru, agora casado e com um filho. Quer também o destino, (ou é demasiada coincidência?), que Juzo comece a trabalhar na mesma empresa de construção civil que Toru. Tantos anos passados e nada mudou, Toru continua um cretino da pior espécie e inicia a fazer de Juzo a nova cobaia para todo o tipo de maus-tratos no local de trabalho. A pior ofensa? Toru nem sequer se recorda de Murasaki. O que podia tornar-se uma repetição dos tempos de escola, indicia tornar-se em algo completamente diferente. É que todos aqueles anos atrás, algo se quebrou dentro de Murasaki. A sua mente fragmentou-se, criando uma personalidade distinta da sua (Shidô Nakamura) que ostenta as suas cicatrizes, qual Jekyll e Hyde. Ele vive numa luta constante entre manter a fachada de vulnerabilidade e libertar o monstro sedento de vingança que se encontra dentro dele. “Neighbor no.13” resulta pois num estudo sobre os efeitos psicológicos do abuso.

Murasaki é um capacho, disso não restam dúvidas, mas a personagem criada pelo ódio retido na sua carapaça frágil é o oposto dele. Nem este Jekyll é uma personagem que inspire respeito nem o seu Hyde possui algo mais do que perversidade, o erotismo da maldade do personagem de Mary Shelley. O único momento de sugestão de volúpia sucede numa breve interacção entre Juzo e Nozomi (Yumi Yoshimura), a bela mulher de Toru que, vá-se lá perceber porquê, acha boa ideia que o vizinho, que não conhece de lado nenhum, tome conta do filho enquanto vai numa saída romântica com o marido. Mas até ela representa algo de amoral, como demonstra uma sequência que não interessa particularmente à construção do enredo que não a de declarar que qualquer personagem possui pelo menos um aspecto da personalidade duvidoso em “Neighbor no.13”. Até o puto, que ainda agora começou a andar, já ameaça tornar-se um pequeno terrorista à semelhança do pai!
Ao longo de toda a película, há uma sensação crescente de tensão e desconforto pois nunca se sabe quando é que Murasaki irá finalmente explodir. Será que ele irá finalmente confrontar o seu agressor? Haverá possibilidade de paz ou foram, já, ultrapassadas quaisquer hipóteses de perdão? A estas perguntas são dadas várias respostas revelando ou receio do argumentista em comprometer-se com uma solução ou o desejo de agradar a gregos e a troianos. A hipótese de vingança é possível e expectável desde os primeiros minutos do filme mas levanta a questão do incentivo à justiça pelas próprias mãos numa sociedade colectivista. Outra perspectiva é uma de inactividade que não acalma os desejos de punição dos agressores. É a possibilidade mais usual mas pode assemelhar-se a concordância implícita com os actos realizados se não menos o minimizar da questão. A decisão é sempre um imbróglio mas a não-decisão do argumentista redunda em cobardia. Note-se que “Neighbor no.13” é uma obra tão mais relevante porque, no Japão, o “bullying” é um fenómeno persistente, sendo que miúdos desde a pré-adolescência continuam a suicidar-se e a auto mutilar-se na sequência das humilhações a que foram sujeitos, sem consequências práticas para os que motivam tais actos desesperados. Realizado em 2005, “Neighbor no. 13” mantém-se actual, mas perde toda uma série de oportunidades, desde personagens unidimensionais a soluções que evitam a verdadeira reflexão sobre o problema e propostas para a sua resolução. A manutenção do “status quo” é conveniente mas não faz um bom filme. Duas estrelas.


O melhor:
- A tensão!
- A sequência de animação que surge de nenhures
- O cameo de Takashi Miike

O pior:
- Amo o actor Shidô Nakamura aos molhos mas este não é o seu melhor papel.
- Um cacto tem mais personalidade que o Shun Oguri.
- Desenlace teatral que já vimos 294738347 vezes antes.
- O à-vontade de Nozomi em deixar um filho com um estranho.
- A falta de coragem em assumir tudo o que se passou durante 100 minutos.


Realização: Yasuo Inoue
Argumento: Hajime Kado e Santa Inoue (Mangá)
Shun Oguri como Juzo Murasaki
Hirofumi Arai como Toru Akai
Shidô Nakamura como Vizinho n.º 13
Yumi Yoshimura como Nozomi Akai
Takashi Miike como Kaneda

Próximo Filme: "Insidious: Chapter 2", 2013

domingo, 22 de setembro de 2013

"Scared" (Rab Nong Sayong Kwan, 2005)


A vossa querida amiga FilmPuff não desapareceu cavalgando em direcção ao crepúsculo como fariam crer alguns sonhos mais românticos, apenas esteve de férias. Momentos agridoces acreditem pois, a despeito dos muitos pontos positivos que se podem encontrar num tal período, não deixei de ver filmes… maus. “Scared” foi a experiência mais penosa do período. Acredito piamente que existe uma conspiração mundial para provar que os adolescentes são umas criaturas maquiavélicas que merecem morrer. Ele é filmes que nunca mais acabam sobre adolescentes mal comportados cuja existência é brutalmente encurtada por um ou mais assassinos misteriosos, antes mesmo de terem tempo de se tornarem pessoas produtivas para a sociedade e que limpam o quarto. E o pior é que nos fazem mesmo odiá-los, ou não fossem todos, ou quase todos, impossivelmente bonitos como num universo paralelo qualquer onde todos são belos e atléticos e ter uns quilinhos a mais ou borbulhas é uma raridade.

“Scared” inicia-se com a habitual viagem de estudantes num autocarro que desconfio que não devia passar na revisão. Eles têm um acidente, ficam presos numa floresta e além das dificuldades óbvias imediatas descobrem que têm um assassino no encalço. Mais pistas do que o mero facto de estarem vivos para tão perigosa persecução são escassas e vagas. Quanto entendemos que vai ser um desses filmes, vemos que nem sequer vale a pena conhecer o vasto elenco e mais vale encostar-nos e apreciar as execuções em toda a sua glória. E, verdade seja dita, com uniformes escolares iguais e sem tempo suficiente para os conhecer ou saber os seus nomes é muito complicado destrinçar quem é quem. Eu, FilmPuff Maria, aqui me confesso: tive de fazer rewind numa cena para perceber quem é que tinha ido desta para os anjos. Não me considero fã da esquemática do elenco numeroso. Tendo memória de peixe e é possível que passe grande parte da película a tentar identificar os personagens. Uma das poucas excepções honrosas foram “Battle Royale” (2000) e, mais recentemente “King Game” (2011), ambos japoneses. Já no espectro oposto, vi um “House of Wax”(2005) apenas e só pela alegria de ver a Paris Hilton ser assassinada. É preferível um enfoque mais profundo em poucas personagens do que uma alusão a muitas. Demasiados nomes, desafios e vontades servem a dispersão e confusão. Mas se o realizador e argumentista pretendia somente focar as mortes (o que conseguiu com sucesso), garantiu a inexistência de memória futura de “Scared” que não possui à partida grandes atributos. O humor tailandês está presente durante o primeiro quarto de hora, quando ainda parecia que podia ser outro filme após o que desaparece sem deixar rasto. O humor podia ser das poucas qualidades defensáveis de “Scared”. Mas se apenas estão aqui pela contagem de corpos, suponho que o filme cumpre…

À excepção de Kanya Rattanapetch, com algum talento já reconhecido, os actores são desconhecidos. Os personagens, para não variar, têm um instinto de auto-preservação tão fraco que não são capazes de colocar as quezílias de parte e manter-se juntos. Mas de decisões idiotas estão os slashers cheios. Por que “Scared” seria diferente? Só que é nessa pergunta retórica que reside o meu transtorno e de muitos outros fãs de terror por esse mundo fora. Porque é que as personagens, apesar de estarem mortas à partida têm de ser estúpidas? Não podem ser inteligentes e apesar disso, conhecerem um destino cruel? Se tanto, até lhe concedia um certo fascínio que o poderia diferenciar das toneladas de slashers que por aí pululam. Os estudantes parecem desprovidos de qualquer artifício e até de senso-comum. Uma dezena de pessoas podia engendrar um plano de escape ou defesa contra o atacante “invisível”. Até porque, vá-se lá entender porquê, vão dar a instalações agrícolas, onde poderiam tentar partido da panóplia de ferramentas à disposição. Por isso, mais depressa a sua situação provoca o escárnio da audiência que o temor. É que muitas vezes são os próprios personagens que selam o seu destino. “Ora deixa-me ir à casa-de-banho num local isolado e que não conheço, durante a noite, enquanto um assassino ciranda aí”… O cenário é o ideal dados os constrangimentos de orçamento e a espaços, nomeadamente, quando há um enfoque sobrenatural/religioso parece que se almeja atingir algo parecido com atmosfera. Espaços demasiado breves para que atinja um produto de nível superior. Quase. Uma estrela e meia.

Realização: Pakphum Wonjinda
Argumento: Pakphum Wonjinda
Kanya Rattanapetch como Tarn
Sumonrat Wattanaselarat como Pii May
Wongthep Khunarattantrat como Jonathan
Amornpan Kongtrakarn como Mew
Atchara Sawangwai como Awm
Kenta Tsujiya como Kenta
Buanphot Jaikanthaa como Mai
Chatchawan Sida como Bawmp
Matika Arthakornsiripho como Tan

Próximo Filme: "Mitsuko Delivers" (Hara ga kore nande, 2011)

domingo, 5 de maio de 2013

TOP Saga “Whispering Corridors” (1998-2009)


Trailer de "Whispering Corridors" (1998)

Duas belas tardes, nos idos de março (notem bem a referência cinematográfica, hã?), muni-me das armas essenciais de qualquer cinéfilo que se preze: chocolate, uma manta, lencinhos renova, que isto nunca se sabe quando a lágrima se forma ao canto do olho e decidi-me a visionar a saga de terror coreano “Whispering Corridors”.

“Whispering Corridors” é um dos primeiros clássicos do final dos anos 90 que contribuíram para a insanidade temporária ao redor do j-horror e k-horror. A saga gerou cinco filmes, o último dos quais estreou apenas há alguns anos (2009) e, provavelmente encerrou um dos capítulos mais famosos do cinema de terror sul-coreano. Impressões: as estudantes de liceu são bastante desenvolvidas em termos de físico (ou isso ou já contratavam actrizes mais novas para os papéis, só um pensamento), contem com uma percentagem de 0,00000000000123% de testosterona neste filme, toda a gente a dada altura pensa em matar-se ou chega mesmo a suicidar-se, os colégios femininos são um inferno e os tipos que trataram do marketing dos filmes são uns génios. Se desejam descobrir em que se baseiam estas impressões sigam sem demoras para o TOP Saga “Whispering Corridors” do Not a Film Critic.

1) “Whispering Corridors 2” – Memento Mori (1999): Min-ah é uma colegial demasiado curiosa para seu próprio bem que encontra o diário esquecido de uma colega de turma. Ao invés de o devolver ela dedica-se a explorar cada página que foi decorada como se de um tesouro se tratasse por Shi-eun e Hyo-shin de quem corre o rumor de que estão envolvidas romanticamente. Quando Hyo-shin salta do telhado da escola para a morte, Min-ah e as colegas começam a ser alvo de eventos sobrenaturais cada vez mais aterrorizantes. Conseguirá Min-ah descobrir a ligação entre o diário e o fenómeno antes que seja tarde demais?

2) “Whispering Corridors” (1998): O último ano de secundário inicia-se com uma tragédia. Park, uma professora a quem as alunas chamavam pouco afectuosamente de “Velha Raposa” é encontrada morta por enforcamento, na escola por duas alunas. Jae-yi é a típica rapariga tímida em quem ninguém repara até ao último ano e Ji-oh é a jovem artista cheia de talento que os professores conservadores adoram odiar. Elas encontram numa sala de aulas desactivada o local onde estudar e criar arte sem ninguém as incomodar. Diz-se pela escola que o local é assombrado pelo fantasma de uma antiga aluna que morreu ali 9 anos antes e que esse evento poderá estar relacionado com a morte da professora Park.

3) “Whispering Corridors 4: Voice” (2005): Young-eon passa os dias a treinar canto com a professora ou se deixa ficar até bem tarde de noite, no estúdio da escola. Um dia ela ouve um barulho e ao investigar, acaba por ser assassinada com uma pauta de música. Ela transforma-se num fantasma condenado a vaguear os corredores da escola até conseguir alcançar um qualquer tipo de resolução que lhe permita passar para o outro lado. A sua única esperança é a melhor amiga Sun-min que parece ser capaz de a ouvir do além. Recorrendo às últimas memórias antes da morte e a investigação no mundo dos vivos de Sun-min tentam descobrir quem está por trás da sua morte.

domingo, 7 de abril de 2013

"Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)



Quanto quilómetro é necessário percorrer até se obter perdão? Até onde somos capazes de ir para sermos perdoados? O “para sempre” apenas existe até que uma das partes teimosas em oposição decidir que a dor da inexistência de relacionamento é mais penosa que a existência de uma relação complicada.

Takata (Ken Takakura) é um velho casmurro que apenas põe o orgulho de lado quando a nora Rie (Terajima Shinobu) lhe diz que Kenichi (Kiichi Nakai), o filho dele, se encontra doente. O rancor de muitos anos de desavenças e anos sem qualquer contacto ainda não abandonou Kenichi e este recusa-se a ver o pai que veio de propósito a Tóquio para o ver. Quando Rie diz a Takata que Kenichi sofre de cancro em estado terminal ele agarra-se ao único objecto que tem do filho, um documentário que ele realizou na vila remota de Lijian, na China. Kenichi filmou Li Jiamin, um cantor de ópera local que lhe prometeu que na sua próxima visita lhe cantaria uma obra pela qual tinha especial interesse. Com a vida do filho por um fio, Takata toma a inesperada decisão de viajar pela China rural para encontrar o cantor e filmá-lo a cantar a obra que Kenichi nunca terá oportunidade de assistir em pessoa.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma desilusão para quem espera um filme grandioso de Zhang Yimou. Na verdade ele tornou-se tão conhecido nos últimos dez anos pelos épicos wuxia como “Hero” (2002) ou “The House of the Flying Daggers (2004) que muitos esqueceram obras como “Raise the Red Lantern” (1991), existindo até casos em que há uma cisão declarada entre os preferem a filmografia de cariz mais espectacular e os que preferem a sua câmara mais comedida. A grandiosidade de “Riding Alone for Thousands of Miles” reside nas paisagens de tirar o fôlego e na representação dos actores que envolve longas sequências de momentos “Lost in Translation”. É que Takata chega a uma altura da viagem em que é acompanhado por um guia que sabe muito pouco japonês para o compreender e todos os outros não o compreendem de todo. Por isso, as cenas alternam entre o falar sem ser compreendido ou apenas em parte e as tentativas de explicação ao estranho senhor japonês que veio à China ver um simples cantor rural. Takata é um homem sem tempo e quanto mais se embrenha na paisagem chinesa mais terá de lidar com pessoas que estranham as suas intenções e que se refugiam nas burocracias para não ferir as leis e sensibilidades locais. E os processos atrasam e Takata, sem conseguir fazer-se entender, tem de recorrer à lisonja e ao suborno para conseguir obter algum tipo de consentimento, que ainda há valores universais.
As expressões de incompreensão, frustração e cansaço constituem os momentos mais realistas da película, os viajantes mais do que todos decerto compreenderão. No entanto, Yimou recusa-se a que a população chinesa se aproveite de Takata. A sua viagem não é de roubo ou decepção, é uma viagem de muitos quilómetros na China e no interior de um homem.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma estória intimista, simples. A narrativa conta a aventura de um pai que redescobre um modo de se ligar ao filho e que embarca numa viagem que o faz repensar as acções dos dois e, com a maturidade da idade perdoar e ser perdoado. Yimou escapou ao cliché da “mudança nos sentimentos por causa de um evento grave”. A personalidade não muda. Takata continua tão teimoso como nos instantes iniciais da película, os motivos é que se alteraram grandemente. Enquanto há vida não há urgência e agora, que Kenichi está prestes a desaparecer do mundo dos vivos, Takata dedica-se com o mesmo fervor de quem evitou o filho durante anos, a estabelecer um ligação emocional com ele. Mas esta estória não é apenas a de Takata e de Kenichi, é também a estória de um pai e um filho chineses, cujas vidas são tocadas quando o cidadão senior japonês decide visitar uma aldeia remota, aproximando também os dois países. Três estrelas e meia.

Realização: Zhang Yimou
Argumento: Zhang Yimou, Jingzhi Zou e Bin Wang
Ken Takakura como Takata
Kiichi Nakai como Kenichi (voz)
Terajima Shinobu como Rie
Jiamin Li como Li Jiamin
Jiang Wen como Jasmine
Lin Qiu como Lingo
Zhenbo Yang como Yang Yang

Próximo Filme: "Gantz", 2010

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"The Wig" (Gabal, 2005)


Mais uma entrada para a molhada da brigada de cabelos negros certo? Errado. “The Wig” é mais uma versão do onryo (fantasma vingativo) que pulula o cinema asiático e muito mais. Quando o reinado de uma entidade de terror que vale por si própria termina, a película necessita de mais em que se apoiar e nesse aspecto “The Wig” tenta escapar à corrente dominante. Mais próximo de “A Tale of Two Sisters” (2003) do que um “Ringu” (1998), “The Wig” foca-se na relação de duas irmãs, enquanto aguardam pela morte de uma delas com cancro em estado terminal. Ji-yeon (Seon yu)é a irmã mais velha que vê a irmã mais nova, a decair a cada novo dia enquanto tenta preparar-se para o inevitável. Como boa irmã, tenta minorar a miséria de Su-yeon (Min-seo Chae), comprando-lhe uma peruca para cobrir a careca provocada pela quimioterapia e cedendo a todo o tipo de indulgências. Ji-yeon sofre com a morte precoce iminente que a roubará de experiências como viver um primeiro amor. Não bastasse o facto de a irmã mais nova estar prestes a falecer e sem nada poder fazer, Su-yeon vive ainda atormentada com o acidente de viação que lhe retirou a voz e um namorado que foi incapaz de lidar com a nova situação. Não fosse o Not a Film Critic um blogue que privilegia o terror e diriam estar perante um dramalhão. Também é. Mas isso não é propriamente novidade. No que dia em que o cinema coreano decidir apostar num cinema mais convencional, sem o habitual enfoque dramático, perde a identidade.
Filmes com objectos inanimados que subitamente adquirem vida são de alto risco. Ou apostam na risada assente na premissa absurda e levam o conceito até às últimas consequências ou são tão sérios que a ideia morre à nascença. “The Wig” encontra-se entre os dois extremos. A peruca nunca se torna um elemento autónomo, apenas o catalisador para o melodrama de terror (ou terror melodramático, este é complicado de classificar)! Lume brando é a expressão que melhor define “The Wig”. Os sustos são espaçados e nem sempre previsíveis.  O drama é uma constante. O que também é uma constante é a interrogação sobre o que se está a passar. Enquanto o estado de Su-yeon é bastante óbvio, a mudez de Ji-yeon é uma enorme fonte de distração. Nos primeiros minutos de filme uma pessoa pensa que os argumentistas são minimalistas, depois vem a possibilidade de Ji-yeon estar em estado de choque com a doença da irmã, seguindo-se a ideia de que afinal ela é uma mulher fria ou, se calhar, sempre foi muda mas… Porque é que não avisaram?! Então, vindo do nada surge um flashback que demonstra um acidente horrendo que explica como é que a irmã mais velha perdeu a fala e, consequentemente o namorado. Claro que depois, qualquer simpatia que se pudesse ter pelo naco de carne asiático é eclipsada. Ah! “Ele é um estupor, como pôde deixá-la naquele estado?” Tudo razões do coração que, bem vistas as coisas, de nada valem. Como reagiriam se a mulher amada perdesse a voz para todo sempre? Se bem que esse nem é o menor dos problemas do homem… Já que Su-yeon surge mais insinuante que nunca e deseja tê-lo, o mais possível. Último desejo de uma mulher moribunda? Ou possessão demoníaca pela cabeleira? Embora, alguém pode censurar uma mulher que sabe que vai morrer muito brevemente de ter uma aventura final?


O trabalho das actrizes é soberbo. Enquanto Ji-yeon fala com recurso ao olhar e à gestualidade, Su-yeon alterna entre uma fragilidade e força renovada que demonstra uma tremenda evolução na personagem. A sua actuação, além caracterização, permite-nos entender com clareza quando ela é a doente terminal e quando é a mulher sedutora com ânsia de prazer. A representação da dupla é negada por um argumento cobarde já que “The Wig” tem pelo menos dois finais. O primeiro incide no fenómeno sobrenatural que ninguém adivinha, já só mais de metade da duração do filme é que surgem as primeiras indicações sobre a peruca “assombrada” e o outro numa explicação racional, ilustrada vezes sem conta. O público, ao contrário, do que devem pensar, não é ignorante e consegue juntar as pistas até à conclusão óbvia. Tudo o mais são artifícios para uma película que já tinha terminado durar, durar, durar. O toque melodramático final, quando chega nada mais é do que uma tremenda irritação. Tanto quiseram fazer que perderam a beleza da simplicidade que lhe estava subjacente: duas irmãs e o seu modo de lidar com uma tragédia. Três estrelas.
Realização: Shin-yeon Won
Argumento: Sung-won Cho, Hyun-jung Do e Shin-yeon Won
Min-seo Chae como Su-hyeon
Seon yu como Ji-yeon

Próximo Filme: Casshern, 2004 

domingo, 4 de novembro de 2012

"The Red Shoes" (Bunhongsin, 2005)



Do conto-de-fadas moderno fazem parte itens como a casa grande, as aulas de ballet e um roupeiro cheio de sapatos. De preferência um armário só para sapatos, onde estes possam ser ostentados e adorados, além de calçados. Ao melhor preço que o gosto pode alcançar. Acima de tudo bens, visíveis e passíveis de apreciados e invejados pelos outros. O prazer de saber que os outros anseiam pelas nossas possessões é pouco superior ao de nos sabermos donos e senhores daquilo que detemos. Do sonho apenas se excluem maridos infiéis, filhas desobedientes e a sensação de que somos apenas um bocado de carne andante, que apenas serve para cumprir um desígnio superior… de outra pessoa.
Sun-Jae (Hye Soo Kim), tem um brutal acordar para a realidade quando encontra o marido com outra mulher e, ofensa maior, que calça os seus belos saltos altos durante o acto sexual. Sun-Jae abdica do sonho que era na verdade um pesadelo mas, só ela não o queria ver e foi a última a compreendê-lo com toda a dor que isso implica. Ela muda-se com Tae-su (Yeon-ah Park), a filha menor, para um apartamento decrépito. Lá, tenta manter pequenas lembranças da vida de luxo anterior, como o expositor dos seus belos sapatos, ao mesmo tempo que recupera forças para iniciar um negócio por conta própria. A filha, essa, rebela-se. O pai que era incapaz de lhe dizer a palavra “não” e gostava de a ver dançar era muito melhor.
Por entre a recém-descoberta vida de mãe solteira e o interesse súbito de In-cheol (Seong-su Kim), o designer de interiores que escolheu para decorar o escritório, Sun-Jae encontra um par de sapatos cor-de-rosa intenso. E estão ali, no meio de uma carruagem do metro, abandonados. Como é possível? Ela arrisca. Assentam na perfeição. Como se tivessem desenhados para os seus pés. E finos, requintados. Logo ela, que nunca admitiria ter encontrado os sapatos. Ela é o tipo de mulher a quem se oferecem sapatos. Caros. Sun-jae sente-se desde logo assombrada e encantada. Pois que eles têm memória e, rapidamente, Sun-jae alterna os momentos de realidade com a ficção do novo par de sapatos que encontrou. Mas os saltos de princesa cor-de-rosa também encantam a outrem. Os seus sapatos atraem o olhar lascivo dos homens e a inveja das mulheres e, não tarda, também a morte.
“The Red Shoes” baseia-se no conto de Hans Christian Andersen “Os sapatinhos vermelhos”, no qual, o sueco relata a estória da queda de uma menina pobre que se deslumbrou e descurou os seus deveres por causa de um par de sapatos vermelhos recém-adquiridos. Perante a sua crescente vaidade e desleixo pelos outros, os sapatos foram amaldiçoados e ela condenada a dançar para todo o sempre até que, cheia de dores implorou a um carrasco que lhe amputasse os pés. Ela viveu o remanescente dos seus dias aleijada mas feliz com a nova descoberta de piedade e amor pelo próprio. Quanto a mim esta é uma moral um bocado psicopata, não que a minha opinião venha ao caso, embora, tal conto mais depressa inspire o temor nos jovens do que os incite a uma reflexão sobre os efeitos do seu comportamento sobre os outros. Ainda que narrativa da película seja uma adaptação tão livre do conto que poucos a associem a Anderson, a fotografia é excepcional e evoca o conto de fadas. Valha-nos a imagem, bela e assombrosa, como as estórias de Anderson. Bela e arrepiante, nomeadamente nos momentos em que o sangue corrompe superfícies alvas e limpas, trazendo poluição ao perfeito mundo minimalista que poucos segundos antes ali tivera lugar. Estas cenas são tão mais evidenciadas pela ausência de figurantes. Todos os espaços públicos estão desertos. Apenas quando a personagem principal está em cena, o mundo parece um pouco mais povoado mas mesmo assim são poucas as ocasiões para tal. Sun-jae vive numa bolha com a filha. Quando corpos estranhos se tentam introduzir nela acabam por sofrer as consequências fatais. Mas até no número de mortes “The Red Shoes” é minimalista. Curiosamente é a narrativa que se encontra pejada de ideias, demasiadas, cuja existência, perante um desenlace tão óbvio, é muito duvidosa. Optaram por esta opção ao invés de se manterem na linha minimalista que antes tinha sido demonstrada. Face a opções tão idiotas só posso concluir com o velho princípio KISS - Keep It Simple Stupid! Duas estrelas e meia.


Realização: Young-gyun Kim
Argumento: Young-gyun Kim, Sang-ryeol Man e Hans Christian Andersen (conto)
Hye-soo Kim como Sun-jae
Seong-su Kim como In-cheol
Yeon-ah Park como Tae-su

Próximo Filme: "Art of the Devil 3" (Long khong 2, 2008)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"One Missed Call 2" (Chakushin Ari 2, 2005)



Na lista de coisas que m’atormentam em “One missed call 2”, o modo como o adjectivar, não é das menores. Existirá adjectivo que consiga albergar todo o potencial dissipado neste filme?
Se o primeiro filme não era brilhante e, ele obra de Miike pelo menos não comprometeu. Há ínfimos exemplos de experiências cinematográficas de pseudo-terror inferiores. Mas o caminho estava traçado e “One missed call 2” apenas necessitava de um golpe de génio já que a premissa por si só era fantástica: “jovens recebem chamadas de si próprios vindas do futuro, nas quais conseguem ouvir a sua própria morte”. A benção do primeiro filme, em todo o seu absurdo esplendor, o reconhecimento do mundo dos espíritos através da transmissão televisionada de uma morte, foi abandonada. Como mais uma notícia, ao sabor da agenda dos que mandam nos media, tal revelação é esquecida, uma ninharia. Todas as respostas que tantas pessoas, em todo o mundo procuram são assim, algo de secundário. Ao invés de brincar com a nova realidade, o par de argumentistas retrocede e torna a “chamada perdida” novamente, um segredo. Pior, há mais do que um fantasma a utilizar a tecnologia. Estes espíritos de hoje em dia…
Estão a ver com faço uns olhos esbugalhados na perfeição?
As duas amigas Madoka (Chisun) e Kyoko (Mimura) deparam-se com a maldição, quando durante um jantar alguém atende uma chamada que não devia e, acaba por falecer de um modo atroz. Daí a chegarem à conclusão que a culpa é do telemóvel é um ápice. Que o telefone nos distraia o suficiente para cairmos num poço ou termos um acidente de automóvel é provável e credível agora morte por possessão espírita e/ou libertação de ectoplasma (o palavrão não é meu), via telemóvel já é assim ligeiramente difícil de acreditar. Ou seria, se no primeiro filme uma rapariga não tivesse sido morte à frente das câmaras. E depois, seguindo o padrão do primeiro filme, o fantasma busca na agenda do aparelho por ordem alfabética, o nome da próxima vítima. Infelizmente, o pouco nexo da estória é ainda mais destroçado quando a pessoa errada atende o telefone e acaba por morrer. A vítima desejada não atende o telemóvel e, por isso, quem atender é quem sai na rifa? Que sucede ao pessoal que se esquivou a atendê-lo? Isto quer dizer que está safa da maldição? Mas como é que a maldição seleciona a vítima para começar? E já agora, seria de pensar que uma maldição tão poderosa não iria deixar a sua vítima original escapar incólume. Bolas, se até já envia imagens e tudo…Tudo isto para dizer que a maldição é tão aleatória que é caso para nos perguntarmos se os argumentistas não foram escrevendo toda e qualquer ideia que se lhes ia desenhando na mente…
Claro que eventualmente retornam à fórmula mais que vista, a imitação sem-vergonha e, por vezes na mesma cena de filmes anteriores. Houve uma cena em particular que levará muitos espectadores a questionar-se onde é que já viram aquilo antes. Eu respondo: Ju-on e Ringu.
E com a alusão a este último filme que tenho de me perguntar se a mulher comum não possui um único neurónio decente. Só as jornalistas é que são inquisitivas, inteligentes e destemidas? Por favor deixem-me dar mais exemplos, “The House” (2007, Tailândia), “Phone” (2002, Coreia do Sul). Se as actrizes até se safam invariavelmente bem, começa a tornar-se cansativo o esterótipo “repórter demasiado esperta para ser próprio bem”.
Parece que estou no filme errado...
Já a educadora de infância Kyoko, cuja cara horrorizada parece cómica por oposição a trágica é uma má alternativa à jornalista típica e bastante inferior à personagem da Kou Shibasaki de “One missed cal” e o namorado Naoto (Hisoshi Yoshizawa) é uma não-presença. Imaginem que têm 3 dias de vida. O que fariam? Se calhar iam aos restaurantes finos, aqueles que sempre se quis ir? Faziam coisas que sempre quiseram mas nunca tiveram coragem. Dizer que se lixe e ter horas intermináveis de sexo com o bonzão/boazona que sabem que está caidinho por vós? Não… embora ficar parado a chorar o destino inevitável, não fazendo rigorosamente nada para impedir o acontecimento mais importante das vossas vidas: a vossa morte! Ou pelo menos, curtir até lá. Pessoal… Se não tivessem telemóvel, nada disso aconteceria! Pelo menos até os fantasmas descobrirem os tablets…
Enfim, “One missed call 2” torna-se trágico a cada minuto que passa, com revelações cada vez mais improváveis a casa esquina… Nem as mortes são “dignas”, ocorrem fora do ecrã. Seria de pensar que quem teve a coragem de filmar a sequela de um filme com tanto sucesso não fosse tão cobarde na sua execução. Duas estrelas.

Realização:  Renpei Tsukamoto
Argumento:  Jae-shik Park
Mimura como Kyoko
Asaka Seto como Takako
Chisun como Madoka
Hisashi Yoshikawa como Naoto

Próximo Filme: " A Tale of Two Sisters" (Janghwa,  Hongryeon, 2003)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Lady Vengeance" (Chinjeolhan geumjassi, 2005)

Persistindo na “tradição” de abordar filmes de sagas por nenhuma ordem em particular, um destes dias voltei-me para “Lady Vengeance”, o terceiro filme da trilogia da Vingança de Chan-wook Park. Este filme não é tão bem-amado quanto o brutal “Oldboy” (2003) e possivelmente, mais introspectivo e contemplativo que “Sympathy for Mr. Vengeance”. Mas, é interessante verificar a piscadela e, crítica, não tão implícita quanto isso, à religião assim como, o filme mais feminino de Park. Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee) é uma naïve religiosa que acaba por se meter dar com a pessoa errada e, acaba na prisão por um crime que não cometeu. A prisão não é lugar para alguém como ela. A prisão não é lugar para um anjo. Mas ela tem uma boa motivação. Deixou uma filha lá fora, cujo crescimento não teve oportunidade de acompanhar devido a um psicopata. E ela tem tempo. Para aprender, para se preparar, para estudar, planear e construir um plano de vingança. Para fazer justiça. E assim, o anjo inocente se torna num anjo vingador. Ela acaba por dar uma estalada na cara, literal, da religião e empenha todos os seus esforços num novo fanatismo, o de procura da filha que nunca conheceu. O filme é todo um percurso de Geum-ja, desde que sai da prisão, decidida e vingativa, disposta a recorrer à ajuda dos ex-companheiros de prisão até à redenção. Min-sik Choi tem um excelente regresso, depois de interpretar o personagem principal em “Oldboy”. Desta feita encarna um personagem tão terrível quanto a sua capacidade de representar lhe permite… o que é bastante. O seu senhor Baek é temível e, no entanto, Cha-wook Park deixa bem patente o sentido de humor negro: o seu assassino de criancinhas é um professor pré-escolar.
Mas deixai as senhoras brilhar. E de facto é Yeong-ae Lee, uma actriz infelizmente afastada da sétima arte quem mais brilha. É por senhoras como esta que são criados os prémios de representação. A sua Geum-ja é naive, inocente, angelical, fria, calculista, maternal e todo o espectro de emoções que Chan-wook conseguiu empregar no filme. Algumas então passar-nos-ão despercebidas. “Lady Vengeance” é assim tão complexa. As cenas de Geum-ja na prisão são deliciosas. A audiência fica a conhecer as suas companheiras de cela, quase tão bem quanto ela, mediante pequenas cenas contadas em estilo flashback. E permite um investimento tal, que é possível odiar ou sentir piedade pelas prisioneiras, tanto quanto se deseja que Geum-ja consiga a sua vingança. Park dá também um docinho àqueles que sempre demonstraram desejo de confrontar os seus demónios e vingar aqueles que destruíram a sua vida. Imaginem. Todo o filme é pontuado por uma fotografia e um visual geral de simbolismo. Desde o início altamente focado no sol, nos brilhos e espaços abertos ao final negro e de espaços fechados. É flagrante o contraste entre uma Geum-ja de olhos vivos e esperançosos na sua cela alva sobrepovoada e uma Geum-ja sentada à beira da cama do seu quarto escuro e pequeno, como se de uma cela se tratasse. Geum-ja era mais livre na prisão do que é na cidade. Lá tinha tempo para sonhar a sua vingança. No seu quarto citadino ela não se consegue libertar das amarras do desejo obsessivo de vingança. É só na sua descoberta como mãe e no conforto da sua filha que encontrará a verdadeira salvação. Será?
Depois de um inicio estranho, o ritmo arrasta-se, prolongando-se por mais tempo do que deveria mas em termos globais funciona. Pelo meio, há cenas de extrema violência e desconcerto, incluindo assassínio e abuso psicológico e sexual. Cenas tão ou mais impressionantes que filmes que apostam no gore. O horror está na mente e Chan-wook Park é aqui, mais cerebral que visceral. Depois de dois filmes antecedentes muito bons, está claramente habilitado a seguir um caminho diferente com “Lady Vengeance”. Por ela sim, queremos sentir simpatia mas, realmente, depois de tanto sofrimento, de que serve a vingança? A vingança que vale por ela mesma é oca. No final, a vida continua tão miserável quanto antes. De nada serve sem redenção. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Chan-wook Park
Yeong-ae Lee como Geum-ja Lee
Min-sik Choi como Senhor Baek
Yea-young Kwon como Jenny

Próximo filme: "Merantau Warrior" (Merantau, 2009)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"Loft" (Rofuto, 2005)

O termo técnico que melhor descreve “Loft” é seca descomunal. Não, não é uma expressão comumente utilizada pelos críticos de cinema mas, e daí, não me considero uma crítica. Perco-me de paixão pelas narrativas cerebrais tão singulares que só podem ser made in asia. Mas por vezes exageram. Tal como um Shion Sono, de que não sou a maior fã, Kiyoshi Kurosawa brinca com as emoções da audiência, testando-a até ao limite, ainda que seja, estranhamente, mais comedido que Sono. Enquanto o primeiro quebra as regras todas e leva a audiência, desde os primeiros segundos de película na sua trip tão própria, Kurosawa é um grande mentiroso. Ele embala a audiência na aventura da sua mente, fazendo-a pensar que o que vai ver é mais uma obra simples e inofensiva, quando na verdade se está a preparar para embarcar em mais uma peça estranha, confusa, extenuante e aborrecida. O seguidor mais fervoroso do K.K. verá “Loft” como a evolução natural do autor, um brilharete, na sua suposição tão parcial. Quem não o conhece, ficará no mínimo, a coçar a cabeça. Foi a isto que o cinema japonês se reduziu? A resposta é dúbia: sim e não. A indústria cinematográfica japonesa permite-se obras de autor, singularidades no meio do que se produz para as massas. Isto, não significa que o K.K. seja consensual. Pelo menos, os seus filmes conferem-lhe o título de “realizador de culto” que eu adoro, visto que nunca percebi muito bem o que é isso de culto…
Reiko Hatuna (Miki Nakatani) é uma escritora sofrendo de bloqueio de escritor, que é pressionada pelo editor Koichi Kijima (Hidetoshi Nishijima) a isolar-se numa vivenda isolada até finalizar o mais recente romance. Lá, Reiko perde-se mais em passeios pelo bosque e a percorrer os longos corredores da vivenda do que na escrita. Um dia, Reiko espreita pela janela o seu vizinho Yoshioka (Toyokawa Etsushi) a segurar o que parece ser um cadáver e decide investigar… Kurosawa podia ter adoptado a rota de “Rearview Window” (1954) mas decidiu não seguir esse caminho. Ao que parece também existe a maldição de uma múmia com uma milena de anos, (solução demasiado fácil talvez) e a vivenda ocupada por Reiko estará assombrada pelo fantasma da sua habitante anterior. Algures, Reiko e Yoshioka descobrem que sentem uma inclinação romântica um pelo outro. Para quê optar por uma via quando se podem seguir todas elas? Entretanto, a actriz principal se não é uma grande incógnita deixa, pelo menos, uma pequena incerteza. Dificilmente teriam escolhido uma actriz mais apática, formada com distinção na escola de actores de Keanu Reeves. A face dela diz tudo: absolutamente nada. Ajuda a que o romance improvável com Yoshioka soe a uma farsa. Devo dizer que quando começou a troca de palavras delicodoces entre os dois, alternei entre um súbito desconforto na cadeira e o risinho involuntário. Num filme de registo semi-dramático, pseudo-terrífico, os momentos involuntariamente hilariantes não assentam bem. A película encaixa perfeitamente no género J-horror, ou não fosse K.K um percursor do género. No entanto, e ao contrário dos seus conterrâneos menos cerebrais, K.K. escolhe um ritmo deliberadamente lento, demasiado até, que se por vezes vinga na produção de sustos, por outro, adormece os sentidos de tal modo que os eventos se sucedem sem grande efeito no espectador. Quando se chega a um terço do filme, o efeito soporífero já há muito se instalou e a vontade de ver o final é mais uma questão de teimosia e persistência do que a curiosidade de saber que surpresa nos aguarda.
Os planos são ostensivamente focados em Reiko. Ela, a escritora, apática, fumadora inveterada, que sofre de uma maleita qualquer e que por fim, até é capaz de nutrir sentimentos de afeição por outro ser humano. Só me choca como uma mulher com todos os argumentos a seu favor para se revelar uma mulher determinada, cosmopolita e sofisticada se demonstra tão… simplória. Se algo se pode dizer do argumento é que tem muitas ideias. Kurosawa mostra-se inventivo é verdade mas incapaz de editar. Suponho que todas as ideias que alguma vez teve foram parar ao produto final. Claro que poucas dessas ideias foram concretizadas e ainda menos tiveram direito a um bom tratamento. Quando se fala em cinema de autor, a mais pequena crítica certamente, soará a uma tentativa mais ou menos velada da indústria de o censurar, de o tentar comprar até. Significa pois que a crítica se perde no vácuo. Se nada há de bom a dizer não se diga nada. Assim, Kurosawa continuará a fazer o que bem lhe apetecer, pelo menos, enquanto mantiver a legião de fãs acérrimos. Uma estrela.
Realização: Kiyoshi Kurosawa
Argumento: Kiyoshi Kurosawa
Miki Nakatani como Reiko Hatuna
Toyokawa Etsushi como Yoshioka
Hidetoshi Nishijima como Koichi Kijima

Próximo Filme: "Where got Ghost" (Xia dao xiao, 2009)

domingo, 18 de dezembro de 2011

"Cello" (Chello hongmijoo ilga salinsagan, 2005)

O violoncelo pode ser considerado um instrumento musical da alta cultura, no sentido mais elitista do tempo. Na verdade, a malta mais nova prefere ficar GaGa pelos beats da música pop do que passar pelo sacrífico de ouvir um pouco de Bach ou de Brahms. Isto, a malta quer é facilitismos, sons contagiantes, fáceis de compreender e de replicar. E assim, no Not a Film Critic passamos de um interlúdio musical no universo do K-pop com “White: The Melody of the Curse” (2010) para a música clássica. Esqueçamos a música reinante nos tops, produzida à velocidade da luz, mainstream, para peças longas, intrincadas, conhecidas somente por alguns iluminados. A simplicidade de “White” contrasta com o denso enredo de “Cello” (2006). Não obstante, ambos vivem de e para a música com a habitual alusão ao sobrenatural.
Mi-ju (Hyeon-a Seong) é uma antiga violoncelista que se dedica agora ao ensino na universidade onde se formou. Apesar dos incentivos para voltar a tocar, por colegas e pela própria família, Mi-ju recusa-se a tocar no instrumento e sente uma especial aversão por uma música em particular. A sua atitude fria face ao ensino e ao próprio instrumento granjeia-lhe o ódio de uma aluna que se sente injustiçada com as notas atribuídas por Mi-ju. Ela promete vingança e pergunta-lhe se “ela está feliz?”, como quem diz, que lhe vai tornar a vida um pesadelo. Entretanto, a luz dos olhos de Mi-ju, a sua filha Yoon-jin sofre de um tipo de autismo que condiciona de modo severo a interacção com os outros. Mi-ju sente um forte sentimento de culpa face à condição de Yoon-jin, apesar de não existirem provas de que o seu comportamento durante a gravidez tenha contribuído para a maleita da filha. Assim, a sua vida se divide entre a indiferença pela profissão e a cobrir de atenções Yoon-jin até que um dia esta demonstra interesse por um violoncelo. Mi-ju não hesita em comprar o instrumento. A partir do momento em que o adquire começam a acontecer uma série de acontecimentos estranhos no seu lar. Estes incluem uma obsessão pouco saudável de Yoon-jin pelo violoncelo e a sua insistência em tocar a música que Mi-ju não suporta ouvir.
À medida que cresce o perigo em redor da sua família, Mi-ju é obrigada a um reencontro com o passado, acabando por revelar o motivo da cisão com a carreira de violoncelista. É-nos revelado que Mi-ju esteve envolvida num acidente de carro que a deixou traumatizada e provocou a morte da sua grande amiga e colega Tae-yeon (Da-na Park). Mas ela esconde um segredo terrível e será preciso aguentar pelo menos 40 minutos de filme até se fazer luz sobre os acontecimentos. Que ninguém se queixe que o cinema coreano não gosta de contar muito bem contadas as suas histórias. O cinema coreano é tipo sexo tântrico, são mais importantes os preliminares do que a penetração, vulgo, clímax. “Cello” reflecte de modo perfeito a obsessão do cinema sul-coreano com o karma. Não interessa quanto tempo passa, o passado volta sempre para nos assombrar, trazendo consequências devastadoras. “Cello” peca pela falta de originalidade: existe uma presença sobrenatural do sexo feminino apostada em fazer das suas, uma mensagem de texto que anuncia intenções perigosas, um instrumento musical amaldiçoado… O motivo por que o violoncelo carrega uma maldição nunca é corporizado. Faz-se um filme sobre um violoncelo que transpira morte e desespero mas nunca se explica porquê?
Mi-ju é a protagonista dislikeable quanto baste. Ela tem uma relação fria com todos os que a rodeiam excepto a filha mais velha. Talvez ela sinta que ter uma filha autista seja o preço a pagar pelos actos do passado. Para quem tanto amava tocar violoncelo, a sua indiferença é surpreendente. Se por outro lado, o instrumento é causa de sofrimento, um lembrete constante dos erros cometidos, seria de pensar que ela preferisse o afastamento total da música. Parece que Mi-ju vive num mundo muito próprio, estéril quase, de aparências, guardando no subconsciente uma informação perigosa, à espera do momento certo para sair e destruir a vida que ela construiu com os cacos do passado.
“Cello” peca por ser qualquer coisa fora do extraordinário: o guião é vulgar, a cinematografia é vulgar, as actuações são regulares. Tirando a composição musical, inexoravelmente ligada ao violoncelo, a actriz principal e a pequena Jin Ji Hye como a filha mais nova de Mi-ju existe pouca ou nenhuma frescura na narrativa. “Cello” funciona num registo muito mediano. Até a reviravolta final é um lugar-comum. A moral da história, entrelaçada com o conceito milenar do karma revolve sobre a punição dos maus actos, mesmo que para tal, o universo tenha de pregar uma grande partida aos prevaricadores e os enleve num ciclo contínuo de dor. Não tenho sentimentos pessoais contra uma história sem fim, excepto quando é tão pouco arrebatadora quanto esta. Duas estrelas.

Realização: Woo-cheol Lee
Argumento: Woo-cheol Lee
Hyeon-a Seong como Mi-ju Hong
Da-an Park como Tae-yeon Kim
Ho-bin Jeong como Jun-ki
Jin Woo como Kyung-ran
Na-woon Kim como Sun-ae
Jin Ji Hye como Yoon-hye


Próximo Filme: "Battle Royale" (Batoru Rowaiaru, 2000)
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