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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"Blood Curse" (Coisa Ruim, 2006)



Ah, como é bom o sonho de ter uma grande casa no campo e viver o resto dos dias na paz e no sossego em comunhão com a natureza. Para a família Monteiro esta premissa não é inteiramente verdade nem é, se calhar, verdade para a maioria dos seus elementos. Xavier (Adriano Luz) um professor universitário decide mudar-se com a mulher, os filhos e um neto, para uma aldeia, no município português de Seia, após descobrir ser o único herdeiro de um tio afastado. Esta mudança constitui para ele uma oportunidade já a pensar na reforma e de se libertar da azafama da capital lisboeta. A mulher Helena (Manuela Couto) apoia-o com algumas reservas. Os filhos é que não parecem estar muito contentes com a falta de acesso ao mundo exterior, em particular, o filho mais velho Rui (José Afonso Pimentel). Sofia (Sara Carinhas), a filha adolescente é já mãe de um bebé, do qual recusa identificar a identidade paternal e aparenta uma maior resignação, preferindo passar despercebida.


A família Monteiro descobre com alguma rapidez que ao herdar a casa estão a herdar também os seus fantasmas, que as gentes da terra alimentam com o habitual mix de folclore com religião temente a Deus. Isto é uma delícia para a mente cientifica de Xavier que apesar de céptica deseja sorver todas as histórias a seu redor. Já Helena começa a ficar cada vez mais reticente quanto à mudança dado que as histórias, sobretudo as que são contadas pelos caçadores e pelo padre da terra começam a confundir-se com eventos estranhos na casa que agora habitam. Esses eventos consistem sobretudo ruídos e outros indícios que podem ter explicações mais terrenas pelo que a aceitação de uma assombração pela família é um pouco complicada de aceitar. Necessitavam sem dúvida mais uma ou duas sequências dessa natureza para reforçar a crença do sobrenatural.
“Blood Curse” aborda motivos comuns nas histórias de casas assombradas, o pai que arrasta uma família relutante para um local para onde não quer ir; uma atitude estranha por parte dos locais; acontecimentos estranhos que dividem a família; a profunda divisão no que toca a permanecer no local em que se investiu ou regressar à proveniência; a dicotomia ciência vs. folclore/religião, entre outros. As interações desta família disfuncional são talvez um pouco mais cuidadas e escapam aos vícios da escrita-preguiça, como a existência de um trauma relacionado com uma morte na família ou um divórcio. A família Monteiro tem isso sim, um grave problema de comunicação. Existe um pacto de silêncio implícito no que se refere à gravidez da filha do meio, fazendo aparentar a quem esteja no exterior a observá-los que reina a paz no seu seio. Existe uma alusão à possibilidade de incesto, mas esta é rápida e nunca volta a surgir deixando a resposta para a nossa imaginação embora, em certos casos é preferível deixar algumas pedras por revirar.
O filme tem uma qualidade onírica que é enfatizada pela câmara desfocada umas quantas vezes a mais para ser mero descuido, tentando talvez significar o cruzamento da realidade com a história da casa e, na verdade, daquela localidade. Essa qualidade é depois desfeita sem cerimónia num final apressado e, a bem dizer, atabalhoado, onde é gritante o parco orçamento. Além disso, volta a reforçar o filme junto dos seus conterrâneos com todos os clichés que isso implica. Mais uma vez o drama humano é relegado para segundo plano dando lugar a um final insatisfatório, mas mais convencional.
As maiores virtudes de “Blood Curse” residem em deixar a natureza da assombração deliberadamente vaga quase até ao final dos seus parcos 97 minutos e no facto de não insistir nos sustos de sobressaltos repentinos. No entanto, o percurso sinuoso deixa adivinhar que o argumentista Rodrigo Guedes de Carvalho não sabia como chegar ao final ou não tinha a real certeza do que queria fazer com ele, o que é uma pena dado o caminho trilhado até ali. Duas estrelas e meia.

Realização: Tiago Guedes e Frederico Serra
Argumento: Rodrigo Guedes de Carvalho
Adriano Luz como Xavier Oliveira Monteiro
Manuela Couto como Helena Oliveira Monteiro
Sara Carinhas como Sofia
José Afonso Pimentel como Rui
João Santos como Ricardo
José Pinto como padre Vicente
João Pedro Vaz como padre Cruz
Miguel Borges como Ismael

Próximo Filme: Buppa Rahtree, 2003

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)



Shinya Tsukamoto, realizador conhecido por ter alguns clássicos de culto no currículo incluído o incontornável filme do subgénero cyberpunk “Tetsuo” (1989) e a respetiva sequela, ou o drama erótico (experimental?! Diria que em qualquer filme de Tsukamoto a experiência é uma constante) “A Snake of June” (2002), retoma a sua abordagem pouco convencional num mistério detectivesco.

Em Tóquio, ocorrem num curto espaço de tempo, duas mortes brutais por esfaqueamento. Numa primeira análise, as condições em que sucederam, como o facto de os apartamentos onde foram encontrados os corpos se encontrarem fechados por dentro, fariam crer à força policial que esta estaria perante casos de suicídio. Um erro negligente e amador para Keiko Kirishima (Hitomi) uma inteligente mas inexperiente detective no terreno, que foi transferida há muito pouco tempo para aquela esquadra. A reprovação e desrespeito pela senioridade dos colegas em conjugação pela reacção de choque ao visionar os cenários macabros do crime, granjeiam-lhe a desconfiança dos colegas Ishida (Ren Osugi) e Wakamiya (Masanobu Ando) e a desvalorização das capacidades que o seu currículo ostenta. É a cabeça fria porém que lhe diz que existe algo mais por trás de mortes tão aparatosas. Os suicídios foram grotescos, por que não escolher formas mais rápidas e indolores de provocar a própria morte? Se a morte foi voluntária porque é que em ambos os casos há relatos de pedidos de ajuda ou de agonia não deliberada? Por fim, ambas as vítimas marcaram o número 0 antes da morte? Estarão perante um culto suicida ou porventura, um anjo da morte? Estas e outras interrogações levam a investigação policial por caminhos nunca trilhados no campo dos sonhos e que são a todo o momento questionados pelos detectives mais racionais. A investigação conduz Keiko a Kyoichi Kagenuma (Ryuhei Matsuda), um homem atormentado de quem se diz possuir a capacidade de mergulhar nos sonhos de terceiros. Entretanto e, a bem do velho método policial continua uma investigação paralela com diligências mais convencionais.


Se a premissa já parece intrigante o facto de ter o nome de Shinya Tsukamoto associado é a confirmação de que “Nightmare Detective” não é o thriller policial típico. É aliás, o ambiente natural para Tsukamoto se exibir em todo o seu esplendor. Ele é obsessivo no que respeita ao mundo onírico. Quase todos os seus filmes têm uma ou mais sequências de sonho e flashbacks.
As bizarrias, fetiches e pecados imaginários ou passados podem ser resgatados na psique dos personagens desta forma. Sem se tornarem repetitivas, as cenas são tão características do trabalho do realizador que por vezes, pode até aparentar que elas foram idealizadas em primeiro lugar na sua mente e só numa fase posterior se desenhou o remanescente da estória. Elas constituem ainda momentos surrealistas que em muito fazem lembrar realizadores como David Lynch. No caso de “Nightmare Detective” será porventura mais fácil descortinar o significado por trás da imagética pois que este, apesar de tão distintivo do realizador é uma versão mais acessível e comercial da sua filmografia. Ele próprio surge como uma personagem fulcral na narrativa, pois que ele gosta de imergir nos seus próprios filmes através da interpretação de personagens – sem qualquer vestígio de surpresa –, quanto mais bizarras melhor. A premissa de “Nightmare Detective” conduz a algumas semelhanças óbvias com “Nightmare in Elm Street” contudo, é bem mais difícil de rotular, encontrando-se mais próximo do thriller que do género de terror. É representativo do trabalho do realizador sem se tornar pretencioso e é uma lufada de ar fresco para os mistérios detectivescos em geral. Temos aqui um bom ponto de partida para um franchise de sucesso. Três estrelas.


Realização: Shin'ya Tsukamoto
Argumento: Hisakatsu Kuroki e Shin'ya Tsukamoto
Ryûhei Matsuda como Kyoichi Kagenuma
Hitomi como Keiko Kirishima
Masanobu Andô como Detective Wakamiya
Ren Ohsugi como Detective Sekiya
Yoshio Harada como Keizo Oishi

Próximo Filme: "Black Coal, Thin Ice" (Bai ri yan huo, 2014)

domingo, 22 de novembro de 2015

"Diary" (Mon seung, 2006)


Winnie (Charlene Choi) encontra-se deprimida depois de mais uma relação falhada. Após Seth (Shawn Yue) a abandonar, Winnie passa os dias a fazer bonecos, a tratar da lida da casa e escrever no seu diário. A sua vida dá uma volta inesperada quando encontra Ray que é exactamente igual ao ex-namorado. Ela dá uma nova oportunidade ao amor e acaba por conquistar Ray que rapidamente se muda para a casa da nova namorada. Winnie dá por si a cometer erros do passado com o novo amor ou será que o ciclo vicioso nunca chegou a terminar?

“Diary” é uma viagem desorientadora e aborrecida pela mente de uma personagem que poderá ou não estar no pleno das suas faculdades mentais. A viagem desorienta devido às muitas repetições e mudanças de perspectiva mas também aborrece porque, afinal, quantas vezes é que tem de mostrar a mesma cena até ao público acusar cansaço?! Todos os sinais apontam para que Winnie não seja a pessoa mais estável em termos psicológicos. Entre os vários afazeres mundanos, apercebemo-nos que Seth fez as malas e deixou-a só. Outro indício bastante óbvio é o facto de Winnie procurar criar um relacionamento com um sósia do homem que lhe partiu o coração. A sério que não havia ali ninguém para lhe dizer: “Querida, esta é capaz de não ser uma das melhores ideias de já tiveste?” Por que se o homem é igual, a personalidade pode ser em tudo diferente. Aliás, a maior parte do tempo, Ray aparenta possuir uma personalidade submissa se não, como aguentaria suportar que Winnie o tratasse por inúmeras, demasiadas vezes, pelo nome do anterior namorado. Também Winnie se contenta com pouco. As suas relações chegam sempre a um ponto em que os companheiros não se dão à tão árdua tarefa de lhe responder ou sequer reconhecer a presença dela, na sua própria casa. Mas a câmara de Oxide Pang parece querer contar uma estória distinta. Eles podem não estar ali, podem nunca ter estado ali. Se calhar é tudo uma grande partida da mente de uma Winnie que tem visões e por vezes apresenta dificuldade em discernir o que é real e o que é sonho. Charlene Choi, uma estrela da cena cantopop prova que não é apenas uma carinha laroca e mostra que possui capacidades para a representação mais do que suficientes para a interpretação de uma mulher que poderá ou não ser desequilibrada. A Shawn Yue pouco mais é dado que fazer do que se assemelhar a um vegetal, enquanto Isabella Leong, num papel fulcral para o desenlace da trama não surge em quantidade suficiente para não ser eclipsada por Choi. O enredo é um puzzle complexo cuja revelação poderá escapar a alguns ou ainda conduzir a interpretações dissemelhantes. Uma dica: a profusão de cor ou a aposta na simples cinza pode ajudar a despistar o sonho do quotidiano. Mas a despeito de uma execução técnica exemplar o fracasso reside num argumento pobre. Choi parece arrastar-se pelo ecrã a todo momento, levando com ela a pouca atenção que ainda lhe é concedida após a realização de que “Diary” não é tanto um filme de terror como um thriller dramático. Pang cai na armadilha habitual no seu currículo cinematográfico, das reviravoltas e desenlaces que… não eram necessários e mais, dão a sensação de que só existem para aumentar o tempo de duração de um filme que ainda assim só tem uns meros 85 minutos.

“Diary” é um excelente recordatório das capacidades de Oxide Pang em criar películas espantosas em termos visuais e igualmente fracas em termos narrativos. Esta constante, desde inícios do milénio até ao final da primeira década do século XXI, comprova a incapacidade de qualquer dos manos Pang e, em particular, do mais talentoso Oxide, em aprimorar a sua arte. Isto é capaz de ter algo a ver com a quantidade de filmes que já criaram até ao momento e, como é por demais sabido, a quantidade costuma ser inimiga da qualidade. Duas estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Charlene Choi como Leung Wing-na (Winnie)
Isabella Leong como Yee
Shawn Yue como Seth/Ray
Hin-Wai Au como Detective

Próximo Filme: "The House at the End of Time" (La casa del fin de los tiempos, 2013)

domingo, 19 de julho de 2015

"The Girl who leapt trough time" (Toki o kakeru shôjo, 2006)



"O tempo não espera por ninguém".

O Verão de uma vida. Amigos que ficam para sempre guardados nas mais doces memórias. Aqueles momentos que são mais vezes resgatados ao baú das recordações na mente, quando se refere a palavra “felicidade”. Ser jovem e despreocupado… pela última vez.

Makoto Konno (Riisa Naka) vive o sonho de qualquer adolescente. Passou um Verão fantástico a jogar baseball com os melhores amigos: o sempre bem-disposto Kosuke Tsuda (Mitsutaka Itakura) e o misterioso Chiaki Mamiya (Takuya Ishida). Por ela duraria para sempre mas o que é bom tem curta duração. A maria-rapaz descobre ao recomeçar as aulas que continua tão desatenta e tão desastrada como sempre. Por algum motivo as pessoas se referem aos anos da adolescência como embaraçosos. Ela não consegue corresponder à pressão de um teste surpresa e comete a proeza de provocar um incêndio durante uma aula de cozinha. Depois, já na descontracção misturada com a irritação daquele dia para esquecer, perde os travões da bicicleta durante uma descida ingreme e atravessa-se na frente de um comboio que a mata. Bem, mais ou menos. Nesse mesmo dia, Makoto entrou numa sala e, para não variar, a moça desastrada cai em cima de qualquer coisa que despoleta um processo insólito. Qual “Groundhog Day” (1993), ela vê-se a repetir aquele mesmo dia e a verificar que pode alterar os acontecimentos de modo a lhe serem benéficos. A única pessoa em quem confidencia esta descoberta é Kazuko (Sachie Hara) a tia que trabalha num museu como restauradora de quadros reservando ainda alguma juventude sonhadora e com certeza não a julgará pelas inúmeras indiscrições resultantes da sua imaturidade. Com o advento e percepção de tão grande poder seria expectável que Makoto o utilizasse para o bem comum, certo? Nada podia estar mais longe do pensamento da adolescente. A cultura popular e, em particular o cinema, desde heróis da banda-desenhada às forças policiais, não consegue exaltar com mais convicção do que aquela que já transmite que, quem se encontra numa posição de poder o deve utilizar de forma ponderada, comedida e até com alguma humildade para o bem de todos. O problema nesta linha de raciocínio é que pressupõe que qualquer herói, participante e relutante em igual medida, possui uma visão do todo, integrada. A realidade dita o oposto. Muitas vezes, mais do que seria desejável, o poder cai em mãos indesejadas que não vêem além dos seus próprios desejos fúteis e também destruidores. Makoto adquire um poder que nunca desejou e dedica-se com um toque de ingenuidade, sem egoísmo e com alguma ausência de experiências transformadoras, a melhorar aos poucos a sua própria vida. Melhores notas nos testes? Um pouco mais de tempo de diversão? Evitamento de tarefas aborrecidas? Ela satisfaz todos os caprichos. Quando descobre que uma colega nutre sentimentos por Kosuke, o que poderá ditar o afastamento do amigo do grupo, tudo o que ela terá de fazer é evitar o acontecimento. Se lhe é sugerido que Chiaki poderá estar apaixonado por ela própria, consegue adiar o confronto. Antecipar e prolongar o prazer e adiar o sofrimento é possível. Eis que a realidade a atinge dura como a reprimenda de um pai zangado. As suas acções têm consequências. E a despeito de conseguir melhorar a experiência dela enquanto amiga, filha ou estudante, qual efeito borboleta, os outros à sua volta sofrem pelas falhas que ela não cometeu. Ela tem de tomar a decisão de arcar com as consequências e sofrer ou, acolher a ideia de que terá de crescer e aprender a enfrentar as situações complicadas que daí advirão. “The Girl Who Leapt Trough Time” é sobre a jornada de uma rapariga banal e de um momento extraordinário na sua existência e que ressoa com pessoas de qualquer idade: uma criança porque gosta do cinema de animação, um adolescente porque se revê nas dores de crescimento ou até um adulto pela doce melancolia.

A animação não é a mais luxuriante que já se viu no cinema do género japonês ainda que a estória, brilhante, seja baseada na obra de Yasukata Tsutsui que escreveu o fenómeno “Paprika” (2006). Tanto a animação como o piano que pautua a banda-sonora, servem de complemento à estória, não se pretendendo substituir a ela como tantas vezes acaba por suceder. No entanto, existem alguns momentos fantásticos, seja nos momentos de quietude como o enfoque num “simples” crepúsculo ou uma Makoto numa corrida alucinada a não conseguir chegar a tempo – imagem forte de um ecrã a avançar cidade adentro, com a rapariga a ficar para trás. Escapa-se-lhe o tempo. Essa frase, descartada no início e inúmeras vezes repetida, ganha maior projecção até ao total (re)conhecimento por altura dos créditos. Vejam o quanto antes, afinal, “o tempo não espera por ninguém”. Quatro estrelas e meia.

O melhor:
- A animação, a narrativa, composição musical.
- Cinematografia
- A voz de Riisa Naka assenta na perfeição na extrovertida Makoto
- Mensagem transgeracional

Realização: Mamoru Hosoda
Argumento: Satoko Okudera e Yasukata Tsutsui (obra)
Riisa Naka como Makoto Konno
Takuya Ishida como Chiaki Mamiya
Mitsutaka Itakura como Kosuke Tsuda
Ayami Kakiuchi como Yuri Hayakawa
Sachie Hara como Kazuko Yoshiyama
Mitsuki Tanimura como Kaho Fujitani
Yuki Sekido como Miyuki Konno (irmã de Makoto)
Utawaka Katsura como pai de Makoto
Midori Ando como mãe de Makoto
Fumihiko Tachiki como Fukushima-sensei
Keiko Yamamoto como Obasan
Shiori Yokohari como Noriko Uesugi
Sonoka Matsuoka como Sekimi Nowake
Takayuki Handa como Kato

Próximo Filme: ?

domingo, 5 de julho de 2015

"Cold Prey" (Fritt Vilt, 2006)


Por mais anos que passem e, por mais dessensibilizados que fiquem, ainda existem slashers que conseguem, se não surpreender, pelo menos não insultar a nossa inteligência.

Um grupo de amantes de desportos radicais decide praticar snowboard nas remotas montanhas norueguesas, onde poderão divertir-se sem ser incomodados. O que poderia correr mal? A lei de Murphy entra em efeito. Morten Tobias (Rolf Larsen) tem um acidente aparatoso e parte a perna como se um galho se tratasse. Nesse momento que daria jeito que a civilização os acudisse, dão por eles a demasiadas horas de uma localidade e sem sinal de rede no telemóvel. Jannicke (Ingrid Berdal), Eirik (Tomas Larsen), Mikal (Endre Midstigen) e Ingunn (Viktoria Winge) vêem-se obrigados a arrastar o amigo até um velho hotel abandonado ali próximo antes que escureça para poderem tentar pedir auxílio pela manhã. Mal sabem eles que estão acompanhados e que o seu anfitrião mal pode esperar por lhes apresentar a sua picareta.

Até aqui nada de novo e… Daí em diante também não. O assassino de serviço é tão parco nas palavras como os que lhe antecederam mas não é adepto de disfarces. Não deve ter visto o “Halloween” (1978) ou qualquer coisa que o valha. A explicação mais simples é, tão-somente, que é indiferente usar um disfarce. A identidade dele não é importante e as suas vítimas ficam aterrorizadas com alguma rapidez. Com temperaturas negativas e sem populações num raio de vários quilómetros não é como se tivessem para onde fugir. De resto, o psicopata faz uso das convenientes ferramentas para a prática de desportos na neve. A necessidade de “fogo-de-artifício” é nula. A maior “novidade” de “Cold Prey” é que, pela primeira vez em muito, muito tempo, os personagens são simpáticos. Não escapam na totalidade aos estereótipos, (achavam que não ia haver pelo menos uma boazona seminua?), mas desta feita não é como instilassem instintos assassinos por parte do público. Podiam ser o vosso grupo de amigos. Outro toque de frescura, a que não é alheia a cultura nórdica é o facto de o líder natural do grupo ser Jannicke. Ao invés da mulher vulnerável que se revela numa altura de grande pressão ela demonstra ser forte e determinada a todo o momento. Não chega aos calcanhares da esquiva e calculista Erin de “You’re Next” (2011) mas faz tudo o que está ao seu alcance para levar a melhor sobre o seu caçador. A seu lado tem Eirik, um namorado que acha que está na altura de tomar o passo seguinte: viver juntos. Na congénere americana o passo seguinte seria evidentemente dormir juntos (revirar de olhos). Os restantes amigos variam entre o comediante e o melhor amigo, mas sem se excederem nos retratos.

“Cold Prey” não é um blockbuster mas é tão eficaz como qualquer produto massificado. Não abusando, porque não pode, nas cenas que evocam a emoção de repugnância, a construção de um ambiente atemorizante é a sua maior força. Sem se aperceberem passará a marca da meia hora com o grupo ainda intacto. “Cold Prey” toma o seu tempo a apresentar as personagens e a situação desconfortável em que se encontram. Isto, acompanhado pelas paisagens ofegantes das montanhas silenciosas da Noruega revisitadas inúmeras vezes para não nos esquecermos que ninguém os pode ajudar. O perigo, real encontra-se dentro das paredes de um hotel isolado e lá fora, no exterior gélido. Onde iam tentar a vossa sorte? Três estrelas.

O melhor:
- Um grupo de personagens com o qual nos conseguimos identificar
- Cinematografia
- Elenco sólido

O pior:
- A identidade do assassino. Anti-climático!
- Não tenta ser original

Realização: Roar Uthaug
Argumento: Thomas Moldestad, Martin Sundland e Roar Uthaug
Ingrid Bolsø Berdal como Jannicke
Rolf Kristian Larsen como Morten Tobias
Tomas Alf Larsen como Eirik
Endre Martin Midtstigen como Mikal
Viktoria Winge como Ingunn
Rune Melby como Fjellmannen
Erik Skjeggedal como Gutten
Tonie Lunde como Mor
Hallvard Holmen como Far

Próximo Filme: "The Girl who Leapt Through Time" (Toki o kakeru shôjo, 2006)

domingo, 21 de junho de 2015

"13: Game of Death" (13 Game Sayong, 2006)


Bem-vindos ao século XXI, era em que a dignidade humana passou em definitivo para segundo plano e a religião mais importante é a do dinheiro. O Homem não pode viver sem dinheiro e aquele que não lhe aceder contenta-se em observar o outro humilhar-se para o conseguir, porque nada é grátis.

Phuchit Puengnathong (Krissada Sukosol) é a mais recente vítima da conspiração universal para ver mais um Homem cair em desgraça. Enganado num esquema de um colega sem escrúpulos e sem alcançar os duros objectivos que lhe são impostos pela empresa é despedido. A somar à sua infelicidade, a mãe continua a gastar o dinheiro que ele acumulou com dificuldade e a namorada troca-o pela ambição de se tornar uma estrela pop. Desesperado e a acumular dívidas, Puchit alinha de imediato quando recebe uma proposta para ganhar 100 milhões de baht. Mas há um senão. Há sempre um senão. Ele terá de cumprir 13 missões. A primeira é simples: matar uma mosca. A segunda é comê-la e já deixa antever o que estará por vir. A escalada é brutal e a cada passo Puchit fica cada vez mais longe do que é bom e puro e mais perto do monstruoso. Não sendo desinteressado, Puchit também se apercebe que, tomando determinadas decisões não poderá voltar atrás. A ex-colega e amiga Tong (Achita Sikamana) é a única que tenta lutar por Puchit mas conseguirá ela salvá-lo?
A noção de transformar a vida dos personagens num jogo mortal não é propriamente nova: “Cube” (1997), “Saw” (2004), “Incite Mill” (2010), etc. Apenas varia o grau de conhecimento dos seus participantes e da audiência, que alterna entre a inexistência de informação e a exposição total. Puchit é um participante activo e tem perfeita consciência dos efeitos das suas acções sendo que apenas ignora a sua proeminência no grande esquema das coisas. A psicologia desta personagem é o que de melhor e mais intrigante “13: Game of Death” tem para nos apresentar. As armadilhas que lhe são apresentadas são brutais, repugnantes e assustadoras e constituem uma delícia para os fãs deste subgénero. É um parente interessante dos filmes anteriormente mencionados pelas sequências impressionantes, ainda que com efeitos digitais duvidosos. Apresenta também uma das reviravoltas mais espantosas dos seus congéneres que dita a convicção entre o ódio e o amor pela estória. Mas nunca foi tão interessante explorar o paradoxo de uma personagem que está disposta tudo para salvar a vida em ruínas, a mesma que destrói enquanto joga! Onde muitos hesitariam, Puchit não hesita em seguir em frente até à destruição total. O personagem não só não tem nada a perder como não se considera especial o suficiente para despoletar mecanismos de auto-defesa. “13: Game of Death” é inteligente em explorar a herança étnica de Puchit, filho de uma tailandesa e um cidadão americano, que nunca sentiu que pertencia a um local, já que os outros fizeram questão de o relembrar disso. Desde o pai, considerado o intruso que é capaz de pouco mais que violência e crueldade, passando pela mãe fraca que faz questão de o recordar da sua inferioridade, através das exigências pouco razoáveis e a criançada que ataca Puchit apenas por ele ser diferente.
Persistente, ele aguentou e aguardou sempre à sempre do pote de ouro no fim do arco-íris. Pelo que quando ele surge, Puchit não quer deixá-lo escapar, ainda que seja um presente envenenado. Três estrelas.

O melhor:
- O conceito
- A falência moral em que o personagem principal incorre
- Sequências muito impressionantes em termos visuais

O pior:
- Chega a um momento em que se torna impossível continuar a apoiar o personagem principal
- O desenlace

Realização: Chookiat Sakveerakul
Argumento: Eakasit Thairatana (estória) e Chookiat Sakveerakul
Krissada Sukosol como Phuchit Puengnathong
Achita Sikamana como Tong
Sarunyu Wongkrachang como Surachai
Nattapong Arunnate como Mik
Namfon Pakdee como Maew
Piyapan Choopech como Chalerm
Philip Wilson como pai de Phuchit
Sukanya Kongkawong como Mãe de Phuchit

O Próximo Filme: "Cold Prey" (Fritt Vilt, 2006)

domingo, 5 de outubro de 2014

"The Chanting" (Kuntilanak, 2006)


Antes de se tornar a “Hammer Girl”, a assassina icónica dos óculos de sol ultra estilosos que transportava dois martelos mortíferos em “The Raid 2: Berandal” (2014), Julie Estelle era a miúda sensação dos filmes de terror indonésios. Em 2006, ela participou em “Kuntilanak”, um dos dois filmes e meio de cariz sobrenatural cque ostentam uma qualidade razoável e em “Macabre” (2009), onde encarnou a “final girl” capaz de escapar a uma família de canibais sedentos de sangue.

Em “Kuntilanak” Estelle interpreta Samantha, uma rapariga que após a morte da mãe foge de casa para escapar às investidas amorosas do padrasto. Sam recusa-se a aceitar o apoio do namorado Agung (Evan Sanders) que não esteve ao lado dela quando a mãe dela morreu e procura refúgio numa residencial de estudantes. Esta é gerida por Yanti (Lita Soewardi) uma mulher supersticiosa que lhe explica as regras do local e lhe conta como o edifício teve um incêndio há muitos anos, sendo propriedade, nos dias de hoje, da elusiva Madame Mangkujiwo (Alice Iskak). Segundo a tradição local, a árvore em frente à residência é habitada por um demónio, motivo pelo qual, a população evita passar ali, à excepção de jovens estudantes com parcos recursos e desconhecimento da História. A acreditar no folclore local, o monstro pode ser convocado através de um encantamento que procede a entoar. Se ele aparecer e o som parecer próximo é por que na verdade ele encontra-se ainda longe. Se, por outro lado, se ouvir uma gargalhada distante ele encontra-se mais perto do que se poderia pensar. Claro que tudo não passa de um conto de gente supersticiosa. No entanto, após esta interacção Sam nunca mais é a mesma. Ela fica fascinada pelo espelho que possui no seu novo quarto que aparenta possuir poderes místicos e mostra um comportamento irascível crescente. Em simultâneo o corpo dela inicia a demonstrar sequelas físicas. Em breve, aqueles que a maltratam começam a surgir mortos. Será que a dor que sente a está a transformar num monstro? Será tudo obra de uma mente bem mais maléfica ligada ao mundo dos espíritos?

No totoloto que é o cinema de terror indonésio, “Kuntilanak” é uma das experiências mais entusiasmantes e seguras. Uma tendência da indústria e, em particular, no género de terror é a utilização exagerada da técnica da subexposição. Esta serve uma dupla função: utilizar a ausência de luz como modo de acentuar o sentimento de desconforto e, o mais provável, tentar disfarçar na ausência de cor, as deficiências do orçamento que se denotam por demais nos cenários e “efeitos especiais”.  Em “Kuntilanak” são evidentes os dois lados da moeda. Durante o dia é utilizada a sobreexposição que acaba por ter o mesmo efeito de disfarçar eventuais deficiências e de conferir uma atmosfera de desconforto genuíno e não apenas ensaiado. “Kuntilanak” continua a apostar na velha fórmula de jovens na maioria bonitos e um pouco parvos, para quando estes encontrarem o fado, não termos pena excessiva deles. O que lhes acontece é menos importante que os demónios de Samantha. É em Estelle que se encontra o potencial e na tragédia da personagem uma estória mais do que vaga. A morte da mãe dela, a relação péssima com o namorado e a sugestão de abuso por parte do padrasto são material muito mais interessante do que criaturas rastejantes de cabelos compridos. A mente perturbada aliada às estórias contadas para assustar a pequena e adultos em semelhante medida constituem o ingrediente ideal. A ideia de que Sam finalmente quebra perante a pressão e ataca em todas as direcções é tentadora mas ainda assim uma improbabilidade. Só que à época, Julie Estelle era ainda uma actriz verde e o argumento demasiado óbvio. Talvez por isso é que quando Sam entoa o encantamento pela primeira vez a imagem parece ridícula ao invés de desconcertante. Afinal, “Kuntilanak” continua a constituir um mistério sobrenatural. Três estrelas.

Realização: Rizal Mantovani
Argumento: Ve Handojo e Rizal Mantovani
Julie Estelle como Samantha
Evan Sanders como Agung
Ratu Felisha como Dinda
Alice Iskak como Madame Mangkujiwo
Lita Soewardi como Yanti
Ibnu Jamil como Iwank

Próximo Filme: "Invitation Only" (Jue ming pai dui, 2009)

domingo, 14 de julho de 2013

"Colic" (Colic: dek hen pee, 2006)


“Colic” atinge as pessoas, sobretudo mães pré-mamãs em todos os pontos certos. Uma mera visualização do poster onde um bebé está sentado perigosamente perto de uma misturadora chega para provocar arrepios. Perigo a pairar sobre criaturas indefesas como bebés sempre foram a última fronteira e, se o resultado não é tão asqueroso como, digamos, um “Art of The Devil” o impacto psicológico é bastante mais vasto.

Quando Phrae (Pimpan Chalaikupp) engravida por acidente, Pong (Vittaya Wasukraipaisan), apesar de não estar preparado para ser pai decide tomar a atitude correcta e casar com a namorada. Esta decisão implica abdicar de uma série de coisas, visto que Phrae deixa de poder trabalhar e sem recursos financeiros para criar um filho, o casal é forçado a mudar-se para a casa da mãe de Pong, longe do centro da cidade, onde ele trabalha como realizador de filmes publicitários. Uma situação temporária, prevêem. Mas mais uma vez, os acontecimentos desenrolam-se contrários aos desejos do casal, já que Pan se revela desde logo um bebé inquieto, sofrendo bastante com ataques de cólicas que não deverão cessar antes de seis meses. O casal terá de depender durante mais algum tempo da boa vontade da mãe de Pong e de Jeen (Kuntheera Sattabongkot), irmã de Phrae. Afinal, o conto-de-fadas apenas teve a duração de uma gravidez pintada de imagens de felicidade conjugal ilusórias. À medida que o choro de Pan se torna cada vez mais incontrolável, Pong afasta-se e Phrae vê-se isolada, provavelmente deprimida e incapaz de lidar com a situação. Será o choro de Pan fruto de uma condição que afecta quase todos os bebés ou há algo mais, algo invisível que perturba o seu primeiro filho?

“Colic” é um longo filme para quem aguarda por momentos de terror visceral. A narrativa arrasta-se uma boa meia hora mais do que o necessário. Entre os episódios em que o bebé é acossado pela maleita há lugar para o drama entre Phrae e Pong. Mesmo que Pan sobreviva às cólicas será que o seu casamento resiste? O nascimento de um filho constitui um motivo suficientemente forte para que duas pessoas que não estão preparadas para o compromisso avançar nesse sentido? “Colic” é pois uma mistela, não se decidindo entre o drama de uma família disfuncional e o terror sobrenatural. As personagens, nomeadamente o casal são fortes o suficiente para carregar o drama aos seus ombros.
 É difícil não nos identificarmos com o seu problema: a criança não para de chorar e, tendo vontade de calar a criaturinha perturbada como não perceber a exaustão e o sofrimento de Phrae e a necessidade de escape de Pong? Os secundários fazem as vezes da audiência, são a família e colegas simpatéticos para com o problema do casal mas que pouco podem fazer para o parar. Thammajira sabe o que faz, construindo uma imagem negra com enquadramentos inteligentes, onde o choro da criança acossada, um quarto solitário cheio de objectos que podem atentar contra a sua integridade física e a existência de pais inexperientes e impotentes, coroam a sensação de que algo muito mau rodeia aquele ser indefeso. A raiz dos problemas de “Colic” reside então no terror sobrenatural, não só uma repetição de eventos de filmes que lhe antecederam como a apresentação de uma proposta dispensável para o desencadear da acção. A somar aos momentos inverosímeis que se sucedem para criar o arrepio fácil (entra a música para assinalar quando nos devemos encolher), são apresentadas sugestões e superstições que ao invés de auxiliar a compreensão da estória, contribuem para uma ainda maior confusão. Afinal, o bebé chora porque tem medo ou porque está a avisar os pais de algo? Está a suceder algo mais entre o casal que nós não sabemos ou os problemas conjugais resultam meramente da falta de preparação? A montagem também não auxilia a resolução destas interrogações pois, se em alturas detém-se demasiado em cenas dispensáveis, no panorama geral a continuidade e lógica são profundamente afectados. Com uma premissa interessante “Colic” é um case-study de película que foi perdida na sala de edição. Os meus pêsames. Duas estrelas e meia.

Realização: Patchanon Thammajira
Pimpan Chalaikupp como Phrae
Vittaya Wasukraipaisan como Pong
Kuntheera Sattabongkot como Jeen

Próximo Filme: “Apartment 1303”, (1303, goshitsu, 2007)

domingo, 12 de maio de 2013

"The Unseeable" (Pen choo kab pee, 2006)




Chega uma altura na carreira de um cineasta tailandês em que ele tem de escolher difícil. Continuar a fazer os filmes que deseja fazer ou apostar num filme de terror para conseguir financiar projectos futuros. Atualmente Pee Mak Phrakanong (Pee significa fantasma), uma comédia de terror ou terror cómico, se preferirem, é o segundo filme mais visto de sempre do cinema tailandês. E a presença de filmes de terror tailandeses no top dos filmes mais vistos de sempre não é um acaso. Já antes, filmes como “Mae Nak”, “Dorm” ou “Shutter” tinham feito as delícias das audiências locais, recolhendo aclamação crítica internacional. Em comum? Realizadores cujo currículo se estende além do género que os deu a conhecer e captou todo o tipo de apoios futuros. “The Unseeable” é um desses infelizes acasos. Wisit Sasanatieng teve de baixar bastante o tom dos filmes anteriores, “Tears of the Black Tiger” e “Citizen Dog”, cuja utilização de cores saturadas podia ser apelidada de sonho Tecnicolor. Isso ou melhor da pop art de Andy Warhol, em especial a evocação do glamour de Hollywood dos anos 30. Com menores recursos e um argumento que não o seu basta dizer que a estória foi escrita por um dos membros da “Equipa Ronin” Kongkiat Khomsiri, que escreveu a tão popular série de filmes “Art of the Devil” e, mais recentemente, o desastroso “Dark Flight 407”. Só filmes de terror denotam um padrão?
A narrativa acompanha Nualjan (Siraphan Wattanajinda), uma rapariga do campo que se apaixona violentamente por um músico que surge na pequena localidade de Cholburi. Ele corteja-a e acabam por casar. Mas ele é um músico e terá de partir por uns dias em trabalho. Nunca mais retorna e uma Nualjan grávida decide procurá-lo. Eis que chega a uma antiga casa senhorial que parece parada no tempo. Entre estórias de terror contadas por uma empregada estranha, uma governanta digna de uma Mrs. Danvers da literatura, um homem que apenas cava buracos sob o olhar atento da lua e uma viúva amarga presa nos bons velhos tempos que não deseja abandonar os aposentos qual rainha de um castelo, o local não parece o ideal para uma grávida em final de termo. Ainda assim, onde é que ela pernoita?
Note-se que ela nem coloca a hipótese do marido estar morto ou de ter fugido para escapar às suas responsabilidades maritais. Pobre inocente. A ação decorre nos anos 30, um dos últimos redutos do realizador de "Tears of the Black Tiger", sendo que um dos poucos pormenores de interesse são a luta de classes. Os mais pobres têm tez mais escura e menos educação. Falta-lhes toda uma maneira de ser e de estar, acentuada por uma pele branca e leitosa qual marca de nascimento que só os da alta possuem, a crer no conservadorismo da época. Talvez por isso, os personagens de um nível inferior da sociedade surjam infinitamente mais acolhedores, "humanos" e, de certo modo, inocentes.
“The Unseeable” é um conjunto de acontecimentos que se vêm a milhas, a começar pelo título. O que aconteceu ao mistério? Ao suspense? Ao ficar nos píncaros? A roer as unhas? A esconder a face atrás das mãos? Nãooooooooo… embora dar um titulo óbvio e um trailer que desvenda os melhores momentos…

Que mania! Se vão mostrar o melhor no trailer é por que há uma tremenda falta de confiança de que conseguem vender o produto. Não. É porque sabem que o produto carece no departamento da qualidade.
Se para os realizadores tailandeses há um momento em que têm de reflectir sobre o caminho a adoptar sob pena de não conseguir fazer mais filmes também existe uma altura em que audiência se questiona se os argumentistas fizeram um pacto secreto sob o qual se comprometem a seguir, com mais ou menos desvios, a mesma narrativa. Primeiro a rapariga do filme vai parar, sabe-se lá por que obra do destino, a um local misterioso. Segundo ela toma a decisão de permanecer no sítio que não inspira assim tanta confiança. Acontece, faz parte dos homens tomar decisões estúpidas. O que não é tão perdoável assim é o que sucede num terceiro momento. A jovem é avisada em diversas ocasiões para não ter certos comportamentos. E o que ela faz é ignorar todos os avisos, quebrar todas as regras. E, em boa verdade, quem é que não sente uma ligeira satisfação pela desgraça que se abate sobre a transgressora? Duas estrelas.

Realização: Wisit Sasanatieng
Argumento: Kongkiat Khomsiri
Siraphan Wattanajinda como Nualjan
Supornthip Choungrangsee como Madame Runjuan
Tassawan Seneewongse como Somchit
Sombatsara Teerasaroch como Choy

Próximo Filme: "Ghost Sweepers" (Jeomjaengyideyl, 2012)

domingo, 28 de abril de 2013

"Forbidden Siren" (Sairen, 2006)


Mais uma adaptação desnecessária de um jogo de playstation para a grande tela. Porquê, clamam as audiências internacionais? Não bastava já termos de sofrer com cinco filmes da série "Resident Evil"?
 
“Forbidden Siren” inicia-se com um mistério. Em 1976, os habitantes de uma ilha desapareceram sem deixar rasto, isto é, todos menos um, que é encontrado a falar de modo incoerente. Nos dias de hoje, Shinichi Amamoto (Leo Morimoto) é um jornalista freelancer que viaja com os filhos Yuki (Yui Ichikawa) e Hideo (Jun Nishiyama) para a ilha de modo a que recuperem de um acidente traumático. A viagem é uma má ideia, que a audiência já sabe de antemão dado os acontecimentos passados e devia ser também um sinal para Shinichi visto que os habitantes são tudo menos calorosos. Os personagens dos filmes de mistério, até pelo menos à primeira meia hora de filme, nunca são perspicazes. À frieza da população juntam-se outros indícios ainda mais alarmantes. A casa que irão habitar demonstra vestígios de sangue e a vizinha avisa Yuki de que nunca deverão deixar a casa quando ouvirem a sirene. Esta encontra-se numa torre de metal abandonada numa zona remota da ilha. Depois deixem os factos a torturar o subconsciente de uma adolescente impressionável e eventos graves serão uma inevitabilidade. Yuki tenta ultrapassar a muralha de silêncio tácita entre os habitantes, tornando-se, desde cedo claro que ela é uma estranha e portanto, indigna da sua confiança. Por outro lado, para um pai preocupado, Shinichi encontra-se a leste dos efeitos da curiosidade prodigiosa da filha. Não era suposto irem para a ilha “curar velhas feridas”?
O maior elemento a favor de “Forbidden Siren” (se não jogaram primeiro o jogo) é não se saber exatamente para onde nos querem levar. Por isso, não é como se o elemento mistério não estivesse presente e, em 5 minutos de filme se soubesse antecipadamente o final. A problemática reside no facto de as perguntas persistirem sem resolução. Até onde é que uma pessoa aguenta? Mistério apenas pelo mistério, de nada vale se os argumentistas não começarem a apresentar propostas de solução. O enredo sai cada vez mais embrulhado e onde antes existia ansiedade agora reside frustração. Até pormenores que prometiam, não oferecem a menor hipótese de redenção. “Siren” significa sirene mas também sereia. É o canto da sereia que arrasta as pessoas para a morte?! Potencial desperdiçado. O mesmo também pode ser dito dos actores. Yui Ichikawa é quem tem mais tempo de antena mas entre as suas orelhas proeminentes e os gritos histéricos, agudos, não posso afirmar que me recorde grandemente das capacidades de representação da jovem. Quanto ao pequeno Hideo, ele faz tudo o que lhe é dito para não fazer mas o castigo queda-se por uma leve reprimenda. Deve ser aquele estilo parental modernaço que deixa as crianças ser livres. Isto é, fazer tudo e mais alguma coisa e a culpa nunca é dos pais, porque a criança é um pequeno-adulto capaz de tomar decisões livremente. Pois…
“Forbidden Siren” tem pouco de memorável. A banda-sonora é decente e a representação ainda que não extraordinária também não é horrenda. Os cenários e a caracterização dos personagens a par do argumento constituem as maiores fraquezas do filme. Por comparação, o design do jogo é extremamente profissional, o que leva a pensar que “Forbidden Siren” é desnecessário e um mau cartão-de-visita. Tendo sido desenvolvido para coincidir com o lançamento do segundo jogo da série não consigo imaginar muitas pessoas a ir comprar o jogo depois de ver este filme. Já o contrário parece mais provável. Uma estrela e meia.

Realização: Yukihiko Tsutsumi
Argumento: Naoya Takayama
Yui Ichikawa  como Yuki Amamoto
Leo Morimoto como Shinichi Amamoto
Jun Nishiyama como Hideo Amamoto

Próximo Filme: Série “Whispering Corridors, 1998-2009

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goblin Cat”, (Ayakashi – Bakeneko, 2006)


“Bakeneko” pode ser entendido de forma literal como Gato Monstro e pertence à classe dos “yokai” ou monstros sobrenaturais do folclore japonês. Ao contrário dos antigos egípcios, que veneravam o gato, personificado pela deusa Bastet, uma entidade feminina associada à protecção do lar e das mulheres expectantes, o "bakeneko" é o oposto, assombrando e ameaçando a paz do lar. Os seus poderes incluem a capacidade de falar, voar, se transfigurar e devorar humanos. Os seus actos devem ser sempre observados com desconfiança pois, o seu feitio é irascível e nem sempre se move por motivos altruístas e de bondade. Depois de traído torna-se vingativo e poderá consumir aquele que o feriu.
Em “Bakeneko”, durante o período Tokugawa (séc. XVII até meio do séc. XIX), uma família comemora o casamento da única filha que irá permitir saldar as dívidas que anos despesismo e irresponsabilidade incorreram sobre o lar. Com os preparativos do evento, eles deixam a casa desprotegida dando espaço a que um curandeiro que esconde mais segredos do que a aparência humilde deixa antever, se introduza na zona servil, junto da crédula Kayo. Introduz-se ele e, algo mais. Assim que a jovem noiva tenta passar o limiar da casa cai fulminada acometida por uma doença súbita. A família vira-se logo para o curandeiro e prende-o mas, após a morte de outro serve a realidade mostra-se bastante mais negra! O estranho desconhecido sugere que estão a ser assombrados por um bakeneko e que para os proteger eles terão de enfrentar os segredos que despertaram a raiva da besta.
“Bakeneko” é o conto pelo qual os fãs de animação e terror aguardavam. Façamos um exercício: visualizem o grande mestre do terror para vós. Não interessa o nome, apenas, aquele, cujas obras, conseguem, instilar em vós o terror. Aquele que, não interessa o tema ou a época, consegue provocar, invariavelmente, um arrepio na espinha e tornar o mundo dos sonhos um pouco mais aterrador. Agora imaginem que é ele quem está por trás de “Bakeneko”. Compreendem agora que estão perante um conto especial?
Inicialmente, a família permanece incrédula face à suspeição de ataque sobrenatural e paira um clima de suspeição sobre o curandeiro. Tudo indica que são um aglomerado normal apesar das complicadas relações entre os membros da família, servos e conselheiros. Eles vão sendo alvo de ataques sucessivos que vão provocando cada vez maior número de vítimas e dá-se uma revolução no seu mundo interior. Ficam nervosos, temerosos, loucos e começam a falar. Começam a questionar comportamentos passados, a desculpar-se de actos ignóbeis e a culpabilizar-se uns aos outros. É isto mesmo que o curandeiro pretende saber: a “katachi” (forma), “makoto” (verdade) e o “kotowari” (razão) para o demónio os atacar e a informação que poderá ajudá-lo a exorcizá-lo. Há um momento de tensão extraordinária quando o curandeiro coloca balanças com guizos para apurar onde se encontra o demónio. Os guizos começam, um a um, a tocar, em todo o redor da sala e as pessoas que lá estão, até ali descrentes da assombração são incapazes de se movimentar, geladas que estão de medo… A estrutura narrativa não é linear e classificação mais aproximada que consigo encontrar para identificar “Bakeneko” é a de um conto detectivesco/thriller sobrenatural de suspense.
A animação de Takashi Hashimoto também é a mais interessante de toda a série. A despeito da impressão de que estamos perante uma série de gatafunhos antiquados, “Bakeneko” apresenta influências tão notórias e tão distantes como gravuras japonesas dos últimos 100 anos arte moderna ocidental, influências religiosas, motivos asiáticos e africanos, em conjunção com as novas técnicas de animação moderna. Esta massa aglomerada, num só bolo, poderia ser apelidada de pesadelo de um unicórnio, visto que as cores, ao invés de remeterem para uma aura de felicidade açucarada gritam desconforto e inspiram o pesadelo sobrenatural.
“Ayakashi – Samurai Horror Tales” é uma obra desigual que vale apenas pelo último conto. A animação intrigante, a narrativa adulta que provocam um misto de tristeza e fascinação face às suas diferentes tonalidades, merecem ser exploradas. Aconselho os fãs a explorar igualmente a série “Mononoke” de 2007, que surgiu como "spin-off" de “Bakeneko”, dando seguimento às aventuras do curandeiro caçador de demónios. Quatro estrelas.

Realização: Kenji Nakamura
Argumento: Michiko Yokote
Designer de animação: Takashi Hashimoto
Takahiro Sakurai (Japonês), Andrew Francis (Inglês) voz do Curandeiro
Yukana (Japonês), Kelly Sheridan (Inglês) voz de Kayo
Tetsu Inada (Japonês), Trevor Devall (Inglês) voz de Odajima

PS: O sucesso deste episódio foi de tal modo grande que podem encontrar imensos exemplos de fan art por essa internet fora (sobretudo na deviantart) e até cosplay. Numa nota adicional e já depois de ter escrito esta apreciação chamaram-me a atenção para "Gankutsuou", uma outra série de 2004 que terá inspirado o estilo da animação de "Bakeneko".

Próximo Filme: “Zombie 108”, (Z-108 qi chen, 2012)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goddess of the Dark Tower”, (Ayakashi – Tenshu Monogatari, 2006)


Basta irem seguindo os links

“Goddess of the Dark Tower” é o segundo capítulo da mini-série de animação “Ayakashi – Samurai Horror Tales” e estende-se por quatro episódios. À semelhança de “Yatsuya Ghost Story”, a primeira estória da série, “Goddess of the Dark Tower” baseia-se numa peça de teatro que foca o amor proibido entre um humano e uma deusa.

Zushonosuke é encarregado pelo tolo Lorde Harima a recuperar Kojiro, um falcão precioso e inadvertidamente cruza-se com a deusa Tomihime por quem se apaixona à primeira vista. Perdidos de amores entregam-se a um amor proibido e perigoso, à medida que a fronteira entre os reinos se esbate e os samurais a mando do Lorde Harima, invadem o castelo dos deuses para recuperar o falcão.
“Goddess of the Dark Tower” apresenta a narrativa mais convencional da série, é apenas a velha estória do amor que encontra bastantes obstáculos mas no final acaba por vencer (será?). Além dos diferentes planos de existência humanidade vs. Espirito não há grandes objecções a que Zushonosuke e que Tomi permaneçam juntos a não ser, talvez de cariz moral. Está bem que ela é uma deusa lindíssima mas ele já tinha uma companheira e é sempre difícil (a população feminina deve concordar comigo) apoiar um traidor. Quais amores, qual quê? Se já estás comprometido não tens nada que invadir seara alheia. Ele também não demonstra grande conflito com o facto de ela e as outras deusas que habitam o castelo, todas belíssimas por sinal, serem comedoras de homens. Não admira que as suas existências não se devam cruzar. Se fosse ele, também não achava grande piada. Eles podiam chatear-se à séria e ela comia-o por vingança. Infelizmente, para os que os rodeiam este é um caso de estar no sítio errado à hora errada. Por causa de um falcão, o castelo é invadido e o confronto entre deusas e o exército samurai é inevitável.
O samurai, personagem histórica japonesa é fascinante não apenas em termos estéticos mas no que diz respeito ao seu código de conduta. É comovente uma dedicação que até à morte é total e ilimitada. Ao mesmo tempo é desconcertante uma dedicação cega ao serviço de homens que personificam o pior da espécie, sobretudo quando a maldade se alia à tolice.  Por isso, apesar de resultar em imagens incríveis, a morte indiscriminada movida por motivos fúteis é de difícil compreensão. No meio de uma chacina descabida há ideias soltas que fornecem brilho pontual a um episódio, de outro modo, desinteressante. A transformação da deusa, do seu invólucro humano para toda a sua glória divina e as diversas habilidades das deusas para destruir o inimigo comum constituem os momentos altos. Não há limites para o que os deuses podem fazer. De resto, o romance proibido nunca é suficientemente convincente. Abdicar da humanidade ou divindade por um amor rápido e perigoso parece demasiado forçado. Redunda no dramazeco romântico e não no conto de terror que o título pretende fazer crer. É uma entrada que não traz valor acrescentado à série, sendo direccionado para um público mais calmo, fã de romance com alguns salpicos de acção e avesso ao terror. Quando muito contribui para a descida da qualidade média da série. E, até aqui, posso afirmar que estava desiludida com “Samurai Horror Tales”. Teria de esperar por “Goblin Cat” para ficar impressionada… Duas estrelas.
  Realização: Hidehiko Kadota
Argumento: Yuuji Sakamoto
Designer de animação: Yasuhiro Nakura
Hikaru Midorikawa (Japonês) e Kirby Morrow (Inglês) voz de Zoshonosuke Himekawa
Houko Kuwashima (Japonês), Willow Johnson (Inglês) voz de Tomihime
Saeko Chiba (Japonês), Tracey Power (Inglês) voz de Oshizu
Yui Kano (Japonês), Anna Cummer (Inglês) voz de Ominaeshi
Kappei Yamaguchi (Japonês), Alec Willows (Inglês) voz de Kaikaimaru
Masaya Onosaka (Japonês), Samuel Vincent (Inglês) voz de Kikimaru




Próximo Filme: “Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Goblin Cat, (Ayakashi – Bake Neko, 2006)

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