Mostrar mensagens com a etiqueta 2007. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2007. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

"Exte - Hair Extensions" (Ekusute, 2007)

Trailer dobrado em inglês

Dois guardas portuários japoneses encontram o cadáver de uma jovem estrangeira com o cabelo rapado, num contentor cheio de cabelos humanos destinados à indústria de beleza. Na morgue, a polícia apercebe-se que está perante um caso de tráfico humano, dado que foi feita uma colheita de órgãos da vítima antes da sua morte. Yamazaki (Ren Osugi), um sinistro funcionário da morgue com um fetiche por cabelo, fica fascinado com o mais recente cadáver. Os cabelos da vítima continuam a nascer e brotam das feridas e de outros orifícios do corpo da jovem assassinada! Isto, constitui uma oportunidade para o tricófilo Yamazaki renovar incessantemente o stock de cabelos para satisfazer as suas perversões e de fazer negócio através da venda de extensões para os seus contactos em cabeleireiros. Pelo seu caminho cruza-se Yuko (Chiaki Kuriyama), uma aprendiza no cabeleireiro Gilles de Rais, a quem é imposta a presença da sobrinha Mami (Miku Sato), uma menina que exibe sintomas de abuso, mesmo antes de uma demonstração importante no sítio onde trabalha. A ligação ao cabeleireiro representa amplas oportunidades para os personagens que surgirem no caminho dos cabelos da estrangeira serem afectados pela sua maldição mortal, ainda que a contagem de mortes seja diminuta.

Como já foi tantas vezes retratado no cinema japonês, sendo “Ju-on: The Grudge” (2002), um dos seus expoentes máximos, o rancor de uma morte violenta pode apegar-se a objectos, amaldiçoando-os. Onde entrar na casa desse filme era sinónimo de uma morte breve e violenta, em “Exte” a ira da vítima foi transferida para os cabelos rapados da estrangeira para venda como extensões. Se a vítima não os pode ter, quaisquer outros que os coloquem nos seus escalpes também não!
“Exte: Hair Extensions” é um filme muito desigual. A cena inicial que ocorre durante a noite, na qual é descoberto um corpo mutilado, contrasta por completo com a manhã solarenga e animada que se lhe segue. Após um tom de terror prometedor, eis que os personagens vão debitando informação sobre quem são, as suas motivações e ocupações. A justificação apresentada – também pelas personagens –, para comportamento tão estranho é a imitação de um programa de televisão onde os actores efetuam diálogos expositórios, de forma bastante cómica. Se esses pequenos laivos de comédia são interessantes, também se revelam uma maneira preguiçosa de os argumentistas colocarem toda a informação ao dispôr da audiência, sem se preocupar com coisas tão mesquinhas quanto os comportamentos revelarem, a personalidade das personagens.

Sion Sono é um dos nomes mais bem conhecidos e divisivos do cinema japonês, tendo no currículo obras como “Suicide Club” (2001), “Noriko’s Dinner Table (2005) ou “Love Exposure” (2008) para citar apenas alguns. Diria que desta feita se embrenha totalmente no mundo do J-horror mas, a verdade é que os filmes de Sono têm sempre algo de perturbador pelo que os elementos de horror estão sempre presentes. Note-se por exemplo, o pormenor de o cabeleireiro onde Yuko trabalha se chamar Gilles de Rais. O nome francês pode dar uma aparência chique ao salão  mas o nome escolhido corresponde ao de um nobre dos tempos medievais mais conhecido como um assassino em série de crianças. Na mesma linha, existe uma relação tensa e abusiva entre Kiyomi (Tsugumi) e Mami (Miku Sato), a irmã e a sobrinha de Yuko respetivamente. Também existe a sugestão implícita de Kiyomi também maltratava Yuko, maus-tratos que se estendem agora à filha e que porventura, Yuko terá tentado afastar-se da irmã por causa disso. Kiyomi é um monstro, mas não é imediatamente compreensível como é suposto este monstro "real", se encaixa na estória se não para dizer que enquanto Kiyomi tem uma personalidade horrível porque assim o deseja, a desconhecida assim ficou por conta do mal que lhe fizeram. Por seu turno, Yamazaki é um terceiro monstro, não pelo seu fetiche, mas por o colocar acima de tudo, mesmo quando percebe que os cabelos estão na base de mortes horríveis. “Exte: Hair Extensions” perde-se nos muitos hair movies que existem e na própria cabeça de um Sono que não consegue decidir-se por uma narrativa. Vale pelos parcos e inventivos momentos de terror.


Realização: Sion Sono
Argumento: Sion Sono, Masaki Adachi e Makoto Sanada
Chiaki Kuriyama como Yuko Mizushima
Ren Osugi como Gunji Yamazaki
Megumi Sato como Yuki Morita
Tsugumi como Kiyomi Mizushima
Eri Machimoto como Sachi Kondo
Miku Sato como Mami Mizushima
Mayu Sakuma como rapariga estrangeira

PS: Gente gira se quiserem adquirir o DVD deste hair movie clássico ou se tiverem apenas um fetiche com a Chiaki Kuriyama, ebay is your friend.

Próximo Filme: "The Tag Along" (Hong yi xiao nu hai, 2015)

domingo, 16 de março de 2014

"Epitaph" (Gidam, 2007)


Um médico recupera, nostálgico, memórias de quando era apenas um interno no hospital coreano de Ahn Seng que se encontra agora em ruínas, durante a ocupação japonesa dos anos 40.

A estória, contada de modo episódico, revolve, primeiro, em torno de Jung Nam (Goo Jin), um estudante de medicina que fica fascinado pelo cadáver de uma mulher encontrada morta num lago gelado. Como em breve ficará a saber, ela tem uma ligação mais próxima dele do que suspeitava. Porque passadas dezenas, para não dizer centenas de filmes coreanos se torna difícil explicar o que é “normal”, Jung Nam desenvolve uma paixão com contornos de necrofilia pela jovem misteriosa. Em outra instância Asako (Ju-yeon Ko) é internada após um grave acidente rodoviário que vitimou a sua mãe. Acossada por estranhos sonhos e visões, Asako luta por recordar os eventos que levaram ao trágico acidente. Culpa de sobrevivente? Ou o subconsciente de Asako esconde um segredo bem mais terrível? Um soldado japonês é encontrado brutalmente assassino o casal de médicos Dong-won (Tae-woo Kim) e In-young (Bo-kyung Kim) desconfiam que este é o resultado do trabalho de assassino em série. O clima de desconfiança aumenta no hospital, quando Dong-won encontra provas que o levam a suspeitar que alguém de dentro do hospital e, em particular, a sua mulher poderão ter cometido o crime. E aqui têm, mais um filme em que os argumentistas consideraram que a linearidade era o maior dos seus problemas e vai daí desdobram uma estória em três. Isso, ou tinham material mais do que suficiente para três curtas e como pensaram que não teriam outra hipótese para criar, optaram por apresentar as ideias que tinham em carteira de uma só vez.

A complexidade da narrativa torna difícil a identificação dos personagens que transitam entre estórias, para se tornarem meros actores secundários e identificar pontos em comum. A morte, o cenário e quatro dias de vida no hospital são as poucas peças do puzzle que nos são facultadas mas até estas são certezas ambíguas pois analepses e prolepses e a entrada no mundo do sonho são uma constante. De tal modo, que por vezes se torna complicado discernir em que plano se encontram os personagens. Em comum, amores de perdição. “O amor é o beijo da morte”. O argumento alterna entre complexos de édipo, amores proibidos e a incapacidade de ultrapassar a perda da pessoa amada do modo mais belo possível. A imagem é tão cuidada, que a brutalidade se torna inócua. Que é que os cineastas fazem de nós se o sangue se transforma numa visão bonita? Descubra o pequeno mórbido que existe dentro de si! Por outro lado, ao glamorizar a morte, perde-se o elemento de terror. Se a dupla de realizadoras pretendia evidenciar a harmonia do amor com a morte, o marketing que enfatiza os elementos de terror contrasta com o espírito do que pretendiam transmitir.

“Epitaph” (2007) é um híbrido de obras como “A Tale of Two Sisters” e antologias de terror que o antecederam com um sentido estético e cultural da Coreia do Sul e do Japão profusamente desenvolvido. Onde, as relações coreanas e japoneses costumam ser ignoradas ou de um ponto de vista que beneficia grandemente o lado coreano, em “Epitaph”, a coexistência não deixa, apesar do momento histórico, de ser pacífica como até existe um casal nipo-coreano. O amor vence todas as barreiras à excepção da morte. Já como obra de terror original, “Epitaph” não vence a barreira do tempo. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Em termos de imagem, “obra de arte” não parece uma expressão demasiado exagerada para descrever o que vemos no ecrã
- Desempenho de Ju-yeon Ko
- Cenário e época pouco explorados no cinema de terror

O pior:
- A complexidade e repetições da estória
- Parece bastante longo para 100 minutos


Realização: Beom-sik Jung e Sik Jung
Argumento: Beom-sik Jung e Sik Jung
Goo Jin como Jung-Nam Park
Ju-yeon Ko como Asako
Tae-woo Kim como Dong-won
Bo-kyung Kim como In-young
Mu-song Jeon como Jung-Nam Park

Próximo Filme: "Kung Fu Hustle" (Kung Fu, 2004)

domingo, 1 de setembro de 2013

"Don't Look Behind" (Jangan Pandang Belakang, 2007)

“If anyone draws himself from remembrance of God (Most Gracious), we appoint for him an evil one, to be an intimate companion to him”. (Corão)

Estas são as últimas palavras de “Don’t look Behind”, que nos ensinam que não só é mau ser perseguido por um ser maléfico como provavelmente a culpa é nossa. A milhas de distância da estória de um amor tão grande que faz Darma (Pierre Andre), o noivo sobrevivente enfrentar forças sobrenaturais para encerrar o mistério da morte da noiva Rose (Intan Ladyana). Bem, falhei por pouco… Nada a opor contra a religião mas seria simpático que o filme tivesse uma tónica mais positiva. Aquela cena do entretenimento leve, percebem?

“Don’t Look Behind” inicia-se com um exorcismo. Apesar do esforço dos sacerdotes, não lhes é possível salvar o alvo da possessão mas conseguem prender o demónio que é encerrado num frasco, mais tarde deitado ao mar. A cena transita para um ambiente de escritório onde o empresário Darma é informado da morte da noiva. Todos os indícios apontam para um suicídio mas Darma recusa-se a acreditar na versão oficial e decide investigar o caso com a irmã gémea de Rose, Seri (Intan Ladyana).
À época “Don’t look Behind” foi o filme mais visto de sempre do cinema local o que, diga-se de passagem não é um feito assim tão difícil de alcançar. A filmografia malaia consistia em um a dois filmes por ano com interregnos de vários anos sem qualquer produção. Isto deu-se até que, em meados dos anos 90, houve um boom, com meia dezena de filmes por ano, sobretudo do género de terror. A sério, um dia destes tenho de me dedicar a uma investigação desta questão. O sul e sudeste asiáticos têm uma verdadeira paixão pelo cinema de terror. Adiante, Darma começa a ser incomodado por barulhos estranhos, vozes e todo o tipo de aparições que pelos vistos também atacaram Rose. O fenómeno é de tal modo proeminente que até estranhos começam a partilhar as ocorrências com Darma. Monstro exibicionista hã?
Darma e Seri descobrem uma máquina com fotografias estranhas
“Don’t look Behind” torna-se uma sucessão de momentos “não olhes para trás” e a estória perde-se no novelo. Numa nota positiva, ao menos não nos enganaram no título. Com a naturalidade que se lhe conhece os personagens enveredam pela explicação menos lógica, a do fenómeno sobrenatural. O que se encontra atrás dos personagens é um monstro que aparece ostensivamente no material promocional do filme. Já não há segredos. Os actores, esses, sobretudo Pierre Andre e Intan Ladyana que interpretam apenas as personagens mais importantes da narrativa parecem estar sobre o efeito de soporíferos. Pierre ainda demonstra uma tentativa de sofrimento pelo falecimento da futura esposa mas a irmã gémea é inexpressiva, é mesmo a tão falada cara de póquer. Se calhar é apenas uma conspiração conjurada pela minha imaginação fértil e exposição a revistas cor-de-rosa mas dá-me a ideia que Seri até ficou contente com a morte da irmã. Darma é um homem de sucesso, está frágil e ela até é a cara chapada da noiva dele… Quem sabe se ela não está com a ideia de dar o golpe? “Don’t look Behind”, à semelhança de outros filmes malaios também tem uma avozinha a quem falta um parafuso ou dois mas, se falhas se podem encontrar no elenco elas residem mesmo no casal principal. A avozinha é uma instituição, já eles tinham obrigação de fazer melhor. O mais interessante num filme sem brilho acaba por ser a dicotomia entre o moderno e o antigo. Darma e Rose abandonaram as raízes para uma vida citadina, cosmopolita, esqueceram os velhos valores em que foram criados e com toda a probabilidade viviam em pecado. Os demónios viram neles mentes fracas, sem capacidade de luta contra o seu poder sobrenatural. Para os vencer, teriam de fazer um regresso à religião e aos seus anciãos para combater esse mal antigo. Moral da História: Se viveres em pecado vais ser atacado por forças que não são deste mundo e basicamente mereces o sofrimento que atraíste sobre ti. Uma estrela e meia.

Realização: Ahmad Idham
Argumento: Ahmad Idham e Pierre Andre
Pierre Andre como Darma
Intan Ladyana como Seri/Rose
Hatijah Tan como Mak Lang (tia do Darma)
Ruminah Sidek como Opah (Avó)


Próximo Filme: "The Twilight Samurai" (Tasogare Seibei, 2002)

domingo, 25 de agosto de 2013

"The Screen at Kamchanod" (Pee chang nang, 2007)


Quando me deparei com a estória de “The Screen at Kamchanod” o meu primeiro pensamento foi: “Tenho de criar a etiqueta factos verídicos”. São tantos os filmes supostamente baseados em acontecimentos reais, que o mero facto de uma estória ter origem no imaginário dos argumentistas já é um evento em si mesmo. Mas vá lá que esta premissa (real?) até parece interessante. No final dos anos 80, foi organizada uma projecção na floresta de Kamchanod. Os projecionistas asseguraram a exibição da obra até ao fim apesar de não haver uma única pessoa na assistência. Reza a lenda que nos últimos minutos de projecção várias pessoas emergiram da floresta e posicionaram-se em frente ao ecrã após o que desapareceram misteriosamente. Já no séc. XXI, o Dr. Yuth (Achita Pramoj Na Ayudhya) reúne uma equipa, na qual se encontra a sua mulher Orn (Pakkaramai Potranan) e um casal de colegas para o ajudar a encontrar a película perdida e recriar a experiência. Eles conseguem, a custo, encontrar o filme a despeito das objecções do único projecionista ainda vivo. Durante a exibição do filme são acossados por forças sobrenaturais que se revelam determinadas em persegui-los muito depois do acontecimento… A partir daqui “The Screen at Kamchanod” conhece uma morte lenta e dolorosa.
 Dr. Yuth assiste a uma cena de "The Unseeable"

Songsak Mongkolthong, um argumentista inexperiente, cujas únicas notas de relevo no currículo foram as de assistente de realização nos filmes “Som and Bank: Bangkok for Sale” (2001) e “Bangkok Dangerous” (1999), dos irmãos Pang, que nem sequer eram do género de terror é o exemplo clássico da dificuldade em sobreviver a uma premissa interessante. E o pior é que Songsak aliava ao potencial da estória uma excelente técnica incluindo o director de fotografia Chitti Urnorakankij, que trabalhou anteriormente em “Love of Siam” (2007) ou “13 Game of Death” (2006).
“The Screen at Kamchanod” é apenas uma sucessão de cenas arrepiantes, sem nada que as cole entre si. Mongkolthong conhece os truques da profissão mas esquece o que mantém o espectador agarrado ao ecrã, a estória! Ele recorre a um dos elementos mais básicos no conto de um conto. Ele recorre à técnica apelidada “McGuffin” pelo realizador americano Hitchcock que consiste no elemento que motiva os personagens. Em “The Screen at Kamchanod” os personagens buscam activamente a película perdida. No entanto, nunca, em momento algum, é explicado o porquê da obsessão com o filme. Não se entende porque pretendem recriar a experiência. Fama? Dinheiro? Uma maior compreensão dos segredos do universo? Prova da existência de fantasmas? Pretendem aliar a película a um fenómeno sobrenatural? O que poderia motivar médicos de profissão a tal pesquisa? Quanto às expectativas da audiência, elas são ignoradas. Em “The Ring” o momento mais aguardado é o da revelação do que contém o vídeo assassino. O que é que lá está que é mortal? Parece quase um pecado. Como se soubéssemos que estávamos a fazer algo de errado mas mantivéssemos os olhos grudados no ecrã num prazer culpado. “The Screen at Kamchanod” é um affair extra-ecrã.

O enfoque de Songsak vai todo para a pesquisa da equipa e para o modo como lidam com o que viram no ecrã. Inicia-se uma descida às trevas do ser humano. Alguns personagens revelam o que escondiam sob a superfície, qual lobo com pele de cordeiro. Outros vão bem fundo, às entranhas, buscar o pior que têm dentro de si e extravasam. O motor da busca, Dr. Yuth é imperscrutável e a influência que exerce sobre os colegas é um verdadeiro mistério. Cedo é evidente que algo vai muito errado no casamento com Orn. Ela demonstra-se submissa, temerosa, enchendo a sala de silêncio até nova indicação de Yuth. Até Roj (Namo Tongkumnerd) o charrado lá do sítio, se revela detestável. Entre o louco e a besta, todos insuportáveis. Eles não existem além da caricatura, descartáveis, não parecem humanos. Como poderia então alguém preocupar-se se eles são enviados para o outro mundo ou não? Duas estrelas.
Realização: Songsak Mongkolthong
Argumento: Songsak Mongkolthong
Achita Pramoj Na Ayudhya como Dr. Yuth
Pakkaramai Potranan como Orn
Namo Tongkumnerd como Roj

NOTA: Aconselhável elevada dose de paciência dada à péssima tradução ou inexistência da mesma em alguns momentos.

Próximo Filme: "Don't Look Behind" (Jangan Pandang Belakang, 2007)

domingo, 11 de agosto de 2013

Tiyanaks, 2007


No Not a Film Critic lá vamos avisando que não existe número suficiente de filmes com bebés assassinos. As poucas experiências já realizadas encontram-se entre o jocoso incapaz de provocar o riso e uma seriedade artificial. As Filipinas, misto de sonho pagão com o mais fervoroso fanatismo religioso, possuem lendas suficientes para satisfazer os amantes de filmes de terror. Depois do Aswang, abordamos o Tiyanak, uma criatura da mitologia filipina que assume a forma e o choro de uma criança atraindo pessoas insuspeitas para a sua morte. Outras variações da lenda descrevem a criatura como um anão ou um pequeno velhote enrugado. De acordo com a população este é o espírito de uma criança cuja mãe faleceu antes de dar à luz, sendo que na versão mais recente, cristã, o Tiyanak é o espírito de um bebé que morreu antes de ser baptizado ou de um feto abortado.

Em “Tiyanaks” um grupo de amigos de escola e a professora Sheila (Rica Peralejo) decidem fazer uma viagem a um local paradisíaco durante o período de férias da semana santa. Cedo os planos começam a correr mal. Eles perdem-se na floresta e a carrinha que os transportava avaria. A somar à sequência de azares, a professora é acossada por uma série de pesadelos que pressagiam um final amargo para a viagem. Será que conseguirão regressar à civilização ou a floresta esconde um mal que não os deixará sair dali com vida?
Sheila é a única adulta em plena utilização das faculdades mentais. O motorista da carrinha mais parece um amador pois tem a seu cargo um grupo de jovens e deixa-se levar para um local que desconhece sem um mapa, sem alternativas e, perante a ausência de indicações toma a atitude menos inteligente possível: recorre à arte do palpite. Quanto à professora Sheila, ela é daquelas que ignoram o tão aclamado instinto feminino, metendo-se, a despeito de todas as reservas e sinais negativos, na boca do lobo. Já os jovens, eles só podem ser acusados de ser jovens, tal como eles são percebidos no cinema. Meio desmiolados, totalmente preocupados com questões frívolas e obcecados com sexo. Tudo actores conhecidos da telenovela local. Há um rapaz, há a rapariga, há um triângulo amoroso. Mas como tantos outros exemplos anteriores nos ensinaram, nada há a temer a esse respeito. Já nem se trata de vos estar a brindar com spoilers. As interacções dos primeiros minutos de filme são inequívocas. Os bons, os amigos brincalhões, os rebeldes… Quem vive e quem morre parece ter sido decidido pela mesma caneta há décadas. “Tiyanaks” é na essência um slasher que segue todas as regras do género e cuja novidade se encontra na escolha do perseguidor. Podem pois esperar todo o tipo de decisões estúpidas por parte dos personagens. Que seria um slasher sem pérolas do género: “vamos separar-nos?”. Os “Tiyanaks” são um elemento novo, quase como um cruzamento entre a criança, uma planta e um animal feroz. Engraçados à vista, nem por isso assustadores…
O aspecto mais negativo de “Tiyanaks” reside na interpretação mais polémica da lenda. Para as Filipinas modernas e cristãs, a proibição do aborto e os problemas morais advindos da religião são ainda mais ou menos consensuais. Como tal, nem sequer existe subtexto quanto ao facto do aborto ser impensável, é explícito. Sobretudo para as sociedades ocidentais, o conteúdo poderá ser, no mínimo questionável e até fazê-las recusar visionar o filme de todo. Quem é que estes pensam que nos vir dizer que o aborto é errado? Quem são estes para utilizar crianças como armas para defender um ponto de vista? (Notem que as sociedades ocidentais têm o mesmo tipo de comportamento indefensável). Assim, a única sugestão que posso apresentar, sem rejeitar pontos de vistas morais e religiosos alheios, que tentem apreciar “Tiyanaks”, concordando ou não com a propaganda (fé se quiserem), apresentada, como produto da História, cultura e religião local. Talvez a mais-valia deste filme se encontre em dar a conhecer ao mundo uma lenda regional, já que do ponto de vista cinéfilo, “Tiyanaks” não tem muito a oferecer. Uma estrela e meia.
Realização: Mark A. Reyes
Argumento: Mark A. Reyes, Fairlane Raymundo, Venjie Pellena e Roselle Y. Monteverde
Rica Peralejo como Sheila
Jennylyn Marcado como Rina
Mark Herras como Christian
J.C. de Vera como Kerwin
Lotlot de Leon como Mildred
T.J. Trinidad como Professor Earl
Nash Aguas como Biboy
Karel Marquez como Cindy
Ryan Yulo como P.J.
Jill Yulo como Hans
Alwyn Uytingco como Bryan

PS: Não encontrei trailer com legendas em inglês. No entanto, o filme encontra-se online, com legendas em inglês.

Próximo Filme: “The screen at Kamchanod”, 2007

Cliquem aqui se quiserem ver o Tiyanak. Não cliquem se não gostam de spoilers. E depois não digam que não avisei!

domingo, 21 de julho de 2013

"Apartment 1303" (1303-gôshitsu, 2007)


As pessoas têm o direito de saber no que se estão a meter e como já devem ter percebido não sou de intrigas. “Apartment 1303” não é um drama existencialista sobre uma jovem que não consegue lidar com a pressão de sair de casa pela primeira vez. Não. “Apartment 1303” é o típico j-horror mal disfarçado de drama que tenta cavalgar uma tendência que já devia estar morta e enterrada há 10 anos. Podem as meninas japonesas fazer à humanidade o favor de cortar o cabelo e de não o deixar cobrir os olhos?
“Apartment 1303” inicia-se em ambiente de festa: Sayaka festeja com o namorado e os amigos o achado de um apartamento com uma renda muito baixa para passar o período de férias. Em Portugal, a gente avisada costuma utilizar uma expressão que assenta na perfeição no caso: “Quando a esmola é muita, o pobre desconfia”. E de facto, o apartamento era barato demais. Sayaka fica só por momentos e algo tolda-lhe a mente viva e feliz. Num momento fugaz atira-se da varanda do prédio perante o desespero dos que a rodeiam. Segue-se o pranto da família e a descrença. Sayaka era uma rapariga feliz, ela nunca se iria suicidar. Convencida disso mesmo, Mariko (Noriko Nakagoshi) decide investigar as causas da morte da irmã e põe a descoberto uma estória mais antiga ligada ao apartamento e aos seus antigos inquilinos.
A narrativa consiste numa sucessão de improbabilidades. Começa logo pela questão óbvia: como é possível que um apartamento com uma forte atracção pela morte, nunca tenha chamado a atenção das forças policiais ou de outros inquilinos do prédio? Segundo, face ao conjunto de tragédias, talvez fosse melhor fechar o apartamento durante uns tempos não? Parece-me altamente improvável (se calhar é a uma ingenuidade que fala), que os senhorios e companhias imobiliárias, por mais gananciosos que fossem, se quisessem ver associados a um ciclo de morte e destruição.

Eu, amante de terror, aqui me confesso: abominei o pouco que vi da série de filmes “Tomie” (acho que já vai na sequela número 3448563475634), de tal modo, que nunca consegui verter uma linha de texto no Not a Film Critic sobre as películas mas, dentro do género, eram inventivos. E conseguia perceber o apelo, histerismo até, em torno da série. As miúdas eram giras, as estórias absurdas e as mortes sanguinariamente fascinantes. Ataru Oikawa esteve por detrás do filme original e de “Tomie: Beginning” e “Tomie Revenge” por isso, surpreende o facto de ele ter simplesmente “desistido” do cinema. As obras sobre a assassina que não morre e persegue implacavelmente as suas vítimas está bastante longe de ser boa mas tem uma boa dose de inventividade que podia ter sido reaproveitada em “Apartment 1303”.
Uhhhh, “o apartamento tem o número 13, que medo” ou “miúdas giras a ser atacadas por uma força invisível, nunca se viu antes”. Há uma apatia neste filme que me assusta francamente mais que qualquer outro enésimo remake de clássicos do j-horror, o olhar perdido dos actores que se tentam perder nuns personagens em que nem eles acreditam. É mais do mesmo, remastigado e cuspido com outro verniz. “Apartment 1303” não faz carreiras, não para os actores e o mesmo se aplica à equipa técnica. É uma estória confusa, de avanços e retrocessos que não acrescentam nada à estória, a tornam aborrecida e fazem aumentar a confusão sobre o que se está a passar no ecrã. Mais, não se admirem se derem por vós a bocejar e a olhar para o relógio. E pior, o terror, se alguma vez o tiveram, vai desaparecer tão rápido que “Apartment 1303” não é mais do que apenas mais um filme… Apesar do pontual profissionalismo de algum deles, são apenas pinceladas ocasionais num quadro feio, que há muito devia ter sido esquecido numa galeria mixuruca qualquer. Uma estrela e meia.

Realização: Ataru Oikawa
Argumento: Ataru Oikawa, Takamasa Sato e Kei Oshi
Noriko Nakagoshi como Mariko
Arata Furuta como Detective Sakurai
Eriko Hatsune como Sayaka

Próximo Filme: "3 A.M. 3D", 2012

domingo, 17 de março de 2013

"Mad Detective" (San Taam, 2007)



Quando se pensa que o conceito de detective já se esgotou eis que surgem cavalheiros como Johnny To (“Election, 2005), Ka-fai Wai (Fulltime Killer, 2001) e Ching Wan Lau para dar um brutal acordar à minha parva ilusão. Filmpuff Maria, ainda não vistes nada.
“Mad Detective” é um conceito simples: é um detective… que é louco. Ponto. Quer-se dizer, quando o superior se reforma o pessoal vai tomar uns copos com ele, ou prega uma daquelas partidas que nunca mais irá esquecer. Não é assim tão normal cortar-se a orelha e oferecê-la ao chefe como prova de afeição. Digo eu. O infeliz detective Bun (Ching Wan Lau) é forçado a abandonar a carreira até ali brilhante e enclausura-se em casa com a mulher May (Kelly Lin). Até ao dia em que um caso insolúvel bate à porta e Ho (Andy On) o polícia inexperiente recorre ao veterano. O que ele vê é um homem ainda mais desligado da realidade mas que ainda tem os instintos aguçados. Poderá ele forçar Bun a embrenhar-se de novo numa investigação policial a custo da pouca sanidade que lhe resta? O que vos parece?
Como se costuma dizer, há um método para a loucura e a de Bun não parece totalmente desprovida de sentido. Bun entra na pele dos criminosos e replica todos os seus passos de modo a reconstituir os seus crimes mas o mais fascinante é a sua capacidade de ver as personalidades dos que o rodeiam. Imaginem o suspeito rodeado de pessoas que parecem nada ter em comum com ele, excepto o facto de serem uma das partes da sua psique fracturada. Cada atributo forte corresponde a um “corpo” diferente que pode ser desde uma criança a um bruto de 1,90m de altura. Quem sabe se não tenho uma sueca loura e alta dentro de mim? Parvoíces à parte “Mad Detective” é interessante estudo da psique humana. Dos outros e da Bun, sendo que a deste último está muito mais próxima do ponto de ruptura do que a dos “normais”. Apesar dos momentos cómicos gerados por tal improbabilidade, a figura de Bun nunca é alvo de paródia. Piedade talvez mas é impossível rir de Bun. Ele é um homem só. Tem uma capacidade que o torna capaz de grandes feitos, impossíveis para outras pessoas mas que o afastam cada vez mais da humanidade e o torna um recluso da sua própria mente. Como não compreender a tristeza e o sentimento de impotência dos que o amam pela sua inevitável descida à loucura? O foco não é a investigação cuja conclusão linear, apenas o caminho, esse sim, exige atenção redobrada. E o novato que o acompanha tem a complexidade suficiente para não ser abafado de cada vez que Bun surge em cena e esperamos mais um dos seus desvarios. As actuações de ambos são impressionantes, particularmente de Lau que não recorre aos maneirismos habituais de quando se interpreta uma personagem do género. O recurso ao corpo para enfatizar os estados mentais tem por base a realidade mas hoje em dia é um lugar-comum e admitamos que nem todas as pessoais agem desse modo.

To e Wai não trataram “Mad Detective” com abandono, como se “Mad Detective” estivesse destinado a ser mais um daqueles filmes de investigação policial que se perdem no limbo do esquecimento. Não. Permanece bem depois de ter terminado como todos os e se’s que acompanham as questões apresentadas de modo mais ou menos explícito. O nosso comportamento é conduzido pela personalidade que toma conta de nós naquele momento? Existe apenas um “eu” ou o nosso “eu” é constituído por diversas entidades que guerreiam entre si, numa luta constante pelo controlo até à nossa morte? Até que ponto é que devemos controlar as nossas habilidades extraordinárias para nos inserirmos no padrão? Apenas não esqueçamos uma questão: na sua loucura, Bun nunca esquece o motivo pelo qual persegue o criminoso. A despeito do comportamento errático distingue o bem do mal, talvez até melhor que os que não sofrem de maleitas da mente. Três estrelas e meia.
Realização: Johnny To e Ka-fai Wai
Argumento: Ka-fai Wai e Kin-yee Au
Ching Wan Lau como Detective Bun
Andy On como Inspector Ho
Kelly Lin como May
Flora Chan como May
Ka Tung Lam como Ko

Próximo Filme: "Dark Water" (Honogurai mizu no soko kara, 2002)

domingo, 27 de janeiro de 2013

Kirasagi, 2007



Os momentos fantásticos de cinema só acontecem duas, três vezes num ano. Isto, se tivermos sorte. Quando se vêem filmes à velocidade da luz – estão disponíveis em todo o lugar, a qualquer altura, eles desaparecem, como memórias sem importância das mentes sobrepovoadas. Com actores magníficos à disposição, argumentistas dignos das maiores honras, realizadores com “a visão” e rios de dinheiro para gastar sumptuosamente em todos os aspectos técnicos é fascinante descobrir que a futilidade e o desperdício não só não diminuíram como aumentaram. E depois há aqueles pequenos filmes que só conseguem acertar num dos membros da equação e eclipsam os meses terríveis que lhe antecederam.
Kisaragi é um desses pequenos milagres. Para este milagre acontecer só foram precisos cinco actores, um cenário e um realizador capaz de transformar a visão de Ryota Kosawa numa possibilidade. 
Um ano após a morte de Miki Kisaragi uma pin-up de série C, cinco fãs que mantêm um fórum online de homenagem à modelo falecida de modo de precoce num incêndio, decidem fazer uma festa comemorativa da vida e trabalho dela. À medida que os cinco homens “Yuji Oda” (Yusuke Santamaria), “Strawberry Girl” (Teruyuki Kagawa), “Snake” (Keisuke Koide), “Iemoto” (Shun Oguri) e “Yasuo” (Muga Tsukaji) exploram o material que lhe sobreviveu começam a suspeitar que a morte de Miki poderá não ter sido um acidente.
O argumento explora de modo divertido os grupos de fãs das celebridades, as suas ansiedades e psicoses escondidas sobre aparências normais. Um rapaz bonito que poderia ser considerado uma pessoa capaz de estabelecer e manter relações com facilidade, dedica-se, afinal, à obsessão com um estranha tendo chegado a enviar-lhe 200 cartas. Outro, esconde-se por trás de uma alcunha de mulher e revela um conhecimento profundo da celebridade que roça a perseguição. No vazio das suas vidas entregaram-se à veneração de uma rapariga bonita com poucos talentos. Ela era uma celebridade apenas nas suas cabeças. Antes de se tornar famosa, se é que alguma vez isso iria suceder, morreu de modo trágico. A linha de jornal mais importante da sua vida, foi o seu óbito! Enquanto os homens discutem sem pudor os pormenores de uma vida semi-pública, eles analisam a fome de fama, a importância de uma família estruturada, os managers sem escrúpulos, a necessidade de se possuir talento real para se ser famoso, os fãs que exigem demais de pessoas normais. Miki era uma rapariga divertida mas teria ela uma face oculta? Ela tinha uma vontade de vencer no mundo das pinups femininas a todo o custo sob uma aparência inocente? Ela era a rapariga inocente que estava mal aconselhada? O que levou à sua queda. A depressão por saber que a fama nunca iria chegar? A solidão? Os falsos amigos? O manager exigente? O que matou Miki? Se calhar foi ela própria. A reunião redunda numa caça ao culpado, que pode muito bem ser um dos cinco homens.
Entre momentos divertidos nos quais os fãs se tentam ultrapassar na quantidade de conhecimento da modelo e o humor de casa de banho que até diverte, há todo um mistério policial subjacente que faria um escritor do género orgulhoso. Mas Kisaragi não é nem uma comédia, nem um drama, nem um thriller. É tudo junto e com sucesso. Se quisermos recorrer a outras referências cinematográficas e literárias, “Twin Peaks”, 1990-91 e “Rebbeca”, 1940 estarão no topo da lista. Eles são uma súmula de tudo quanto Kisaragi apresentou com sucesso: uma personagem principal que faz as delícias da audiência masculina e comanda a narrativa a despeito de surgir em breves flasbacks, a maioria das vezes, sem sequer vermos a sua face. Não precisamos na verdade. A despeito do mistério que a envolve ela é uma personagens mais transparentes e mais dissecadas que se viu em ecrã. A apoiar Miki está um elenco fantástico, de realçar o “Strawberry Girl” que alterna entre o assustador e um homem digno de piedade. Quatro estrelas.

Realização: Yuichi Satô
Argumento: Ryota Kosawa
Shun Oguri como Iemoto 
Teruyuki Kagawa como Strawberry Girl/Musume Ichigo 
Keisuke Koide como Snake
Yusuke Santamaria como Yuji Oda
Muga Tsukaji como Yasuo
Kanako Sakai como Miki Kisaragi




Próximo Filme: Space Battleship Yamato, 2010

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mononoke (2007)


“Mononoke” é uma série de 12 episódios que segue as aventuras do misterioso viajante vendedor de remédios depois de uma primeira aparição em “Bakeneko”, o terceiro capítulo de “Ayakashi – Samurai Horror Tales”. “Mononoke” é um espírito ou espectro que assombra um local específico ou persegue alguém. Alberga intenções malévolas ligadas aos objectos de assombração. Desta feita, a animação está dividida em cinco estórias independentes cuja única ligação é o vendedor nómada (Takahiro Sakurai) com a capacidade esplêndida de surgir sempre no local certo, à hora certa.



Capítulo I (Episódios 1-2)
“Zashiki-warashi” – Shino, uma mulher grávida roga que a deixem pernoitar num albergue a pretexto de que a vida do seu bebé corre perigo. Inicialmente contrariada, a dona do albergue deixa-a entrar e atribui-lhe o quarto mais distante. Cedo Shino começa a ouvir risos de crianças e a encontrar brinquedos espalhados por todo o lado. Só há um pormenor: naquela noite não havia nenhuma criança lá instalada.

Capítulo II (Episódios 3-5)
“Umibozu” – Durante uma viagem de barco o vendedor de remédios e os restantes passageiros são atraídos para o Triângulo do Dragão, um mar que, diz o folclore, estar repleto de espíritos prontos a atrair os navegadores incautos para a morte. Com o barco a ser atacado pelos espíritos inquietos, o vendedor de remédios terá de encontrar entre pessoas tão diferentes como Kayo ex-serva na casa dos Sakai (“Bakeneko” da série “Ayakashi”), dois monges budistas, um samurai, um menestrel ou o ganancioso dono do barco, sobre qual impede a maldição do espectro, antes que sejam todos arrastados para o fundo do mar.

Capitulo III (Episódios 6-7)
“Noppera-bo” – Ochou está prestes a ser executada por ter assassinado toda a família do marido. O abuso de que foi alvo pela nova família não a deixa ver senão a possibilidade de ter sido ela a cometer o acto hediondo apesar de não se recordar de nada. Será que ela foi alvo de um encantamento e o verdadeiro culpado do crime foi um Mononoke?


Capítulo IV (Episódios 8-9)
“Nue” – Três homens disputam a mão da dama Ruri, a única herdeira da escola de incenso Fuenokouji. Ela desafia-os a entrar numa competição de incenso para desempate. Aquele que conseguir identificar o maior número de aromas será o escolhido para a desposar. À medida que a competição se desenrola, os pretendentes começam a revelar as verdadeiras razões por trás da pretensão. É motivo suficiente para despertar o ressentimento de um espírito malévolo?


Capítulo V (Episódios 10-12)
“Bakeneko” – Em jeito de homenagem ao episódio que deu origem à série “Mononoke”, este capítulo junta uma série de desconhecidos num comboio, unidos por um segredo sórdido. Durante a viagem inaugural são encurralados na última carruagem, começando a ser colhidos um a um, pelo Bakeneko. Para não serem a próxima vítima deverão revelar o seu pecado mortal.

Todos os episódios apresentam a animação característica de “Bakeneko” e que constituiu, em grande parte o seu êxito. A animação está repleta de influências num estilo que já tinha apelidado anteriormente de “pesadelo de um unicórnio”. A colocação de cores pode parecer aleatória mas existe, como em tudo o resto um sentido de causalidade. As influências incluem desde a animação japonesa tradicional baseada nos antigos manuscritos do país até motivos externos desde o surrealismo à Art Nouveau, cores com textura misto de técnicas tradicionais e modernas, existindo mesmo, em “Umibozu”, um quadro que é uma inspiração óbvia de “O Beijo” de Klimt. O capítulo menos ousado em termos da utilização da cor é “Nue”, o qual, durante a maior parte da acção sucede em tons de cinzento que, como perceberão mais adiante não está desligado dos acontecimentos. A estética mais singular pertence a “Bakeneko” que ocorre durante os loucos anos vinte. Aí, numa estação de comboios repleta de gente, os ilustradores decidiram retirar tudo o que era acessório e todos os que não intervêm directamente na estória, não são senão, despojados manequins. Também aqui a explosão de cor é mais contida mas, por oposição apresenta algumas das personagens com maior densidade emocional da série. Pergunto-me também, se estas opções ousadas não foram também motivadas para marcar diferenciação do “Bakeneko” de 2006, ocorrido durante o Japão feudal e que tanta admiração causou. Entre as narrativas mais interessantes encontram-se “Noppera-bo” e “Nue”, o primeiro por a acção ocorrer mais num plano pessoal e introspectivo, como numa conversa interior e o segundo, não só por arriscar num estilo de animação diferente dos episódios anteriores como por ser um dos episódios que mais penetram na cultura japonesa e nesse sentido se demonstrar refrescante. “Umibozu” é o episódio mais representativo do “pesadelo do unicórnio” e, mais que não seja, vale pela ilustração. Podíamos ver o filme sem som e sem legendas e sair fascinado do visionamento. Já “Zashiki-warashi” e “Bakeneko” puxam pelos instintos de protecção da mulher, como ser frágil. E se isto já era verdade em “Ayakashi - Samurai Horror Tales”, continua a ser verdade em “Mononoke”, as tragédias que se abatem sobre a mulher têm sempre uma maior proximidade com a realidade que as restantes.
Mas dizia antes que em “Mononoke” nada é obra do acaso e, de facto, a série está pejada de momentos de simbolismo da vida, da morte e dos pecados do homem que levam à sua queda prematura. No entanto, esta moralidade é momentaneamente esquecida quando à representação da mulher diz respeito. A pele alva e comportamento comedido correspondem à pureza de espírito e inocência, enquanto a pele escura e o atrevimento são característicos da insolência que é vista com desaprovação. O vendedor de remédios, a única constante da série, a despeito do mistério que envolve, passado algum tempo torna-se maçador pois não existe evolução da personagem. A audiência é perpetuamente fascinada pelo vendedor de remédios que tem o condão de surgir sempre que há um espirito maléfico presente, pelo seu humor negro e, fundamentalmente, lacónico, mas a série termina como começou. Nada se sabia do vendedor no início e terminamos sem qualquer resolução nesse aspecto. O seu discurso, episódio após episódio é idêntico: forma (katachi), verdade (makoto) e kotowari (razão) e o modo de combate ao mal, aterrador, por vezes, também. Mas a grande lamentação e o maior elogio que se pode fazer a “Mononoke”, foi o facto de Hashimoto (animação) e Nakamura (realizador) não terem brindado o público com mais material original sobre o vendedor de remédios que combate o mal. Um dos melhores mistérios sobrenaturais de animação que já vi. Quatro estrelas.
Realização: Kenji Nakamura, Kouhei Hatano, Masayuki Matsumoto, Nama Uchiyama e Sumio Watanabe
Argumento: Chiaki J. Konaka, Ikuko Takahashi, Manabu Ishikawa e Michiko Yokote
Designer de Animação Takashi Hashimoto


Próximo Filme: Kisaragi (2007)

domingo, 25 de novembro de 2012

“Flashpoint” (Dou fo sin, 2007)



Diz que as coisas boas vêm aos pares. É mentira. Tudo é melhor em trios. Nunca foi tão evidente num filme. Um dos melhores trios do cinema de acção constituído por o realizador Wilson Yip, o argumentista Kam-yeun Szeto e o actor Donnie Yen, ainda que não no melhor registo daquilo que já demonstraram (“Kill Zone, 2005), conheceu o seu fim este ano com a morte precoce de Szeto vítima de cancro do pulmão. Morrer antes do 50, é um atentado contra a humanidade. Quantas mais estórias de acção não ficaram por escrever? “Flashpoint” é mais uma entrada na longa série de filmes baseados em Hong Kong, no perigo mundo das tríades e polícias infiltrados. “Infernal Affairs” (2002) vem rapidamente à mente e o seu remake “The Departed” (2006) também, mas a nova reencarnação não tenta sequer chegar aos calcanhares destas obras. É antes mais um motivo para ver Donnie Yen a arregaçar as mangas e espancar o mauzão mais mau de todos. E a malta aplaude por que enfim, apesar de o actor ter um sorriso pepsodent e um abdómen híper desenvolvido, falta-lhe a altura e outros encantos para ser considerado um sex symbol. Louis Koo está muito melhor entregue nesse papel. Não. O que a malta quer é ver Donnie Yen dar pancada, minutos ínfimos para deixar a assistência tão cansada como se ela própria tivesse acabado de completar uma aula de pump no ginásio. A dada altura ele até tira o casaco de cabedal, depois de uma longa sequência, para demonstrar que o vilão vai dar um pouco mais trabalho do que os outros estão a ver?
Donnie Yen é Jun Ma o típico polícia que não acata ordens de ninguém e cuja população terá sérias duvidas se o remédio não será pior que o mal. Por onde passa deixa um rasto de feridos. Brutalidade policial? Pfff, não o façam mas é perder tempo. O tempo que não está nas ruas é tempo para mais um criminoso cometer um crime (e ele não custar centenas se não, milhares, ao erário público). Louis Koo é Wilson, um polícia que já se cruzou antes com o caminho do crime e graças a esse passado, conseguiu tornar-se com sucesso no capanga de serviço de uma nova tríade de irmãos vietnamitas que querem entrar no “mercado”. Não que eles precisem de um capanga, talvez mais um condutor de serviço. Eles dominam Artes Marciais Mistas ou (MMA) e destroem todos os que se atrevem a cruzar-se no seu caminho. O chefe é Tony (Collin Chou) que decide entrar em guerra aberta com uma tríade local. Collin Chou é mais conhecido como o Seraph de “Matrix Reloaded” (2003) mas a carreira nunca deslocou a ocidente, onde também Donnie Yen pode relatar uma experiência similar. Está relegado para papéis que envolvem toda a sua destreza física no cinema de acção de Hong Kong, não que isso seja mau e segundos planos para os “Infernal Affairs” deste mundo. Repito, não é como isso também fosse mau. Tudo parece correr bem até que Tony, o irmão com maior número de neurónios, junta as peças e descobre o segredo de Wilson. Jun Ma terá de utilizar toda a sua destreza física, já que não é a carta mais inteligente do baralho para conseguir salvar Wilson de um final trágico.
Uma dos pormenores refrescantes que, de resto, já vimos antes é a irmandade policial. Normalmente há sempre um sargento maldisposto, uma outra dupla de detectives que tem animosidade para com os heróis, no caso estamos perante uma equipa unida, disposta a dobrar as regras para deixar o caminho livre para o senhor que resolve os problemas onde eles existirem, Jun Ma. São precisos pelo menos 50 minutos até que a acção a sério tenha lugar e quando vem é rápida e furiosa, empacotado em estilos combinados de artes marciais: kung fu, muay thai, jiu jitsu, boxe… É só pensar num estilo que provavelmente algum dos elementos dessa forma de luta terão sido inseridos. O que me leva à questão premente. A extraordinária exibição física demonstrada pelos actores/lutadores fazem de “Flashpoint” um bom filme? Não mas tem elementos bastante bons, desde a coreografia das sequência sde acção às perseguições de carros e o desempenho de Koo. Mas lá está, se vão ver um filme cujo trailer promete cenas fantásticas de luta, tudo o que disse antes são apenas balelas. Redunda nas vossas expectativas.  Duas estrelas e meia.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Kam-yuen Szeto e Lik-kei Tang
Donnie Yen como Jun Ma
Louis Koo como Wilson
Collin Chou como Tony
Ray Lui como Archer
Fan Bingbing como Judy
Yu Xing como Tiger

Próximo Filme: “The Good, the Bad, The Weird” (Joheunnom nabbeunnom isanghannom, 2008)

domingo, 21 de outubro de 2012

"Sex is zero 2" (Saek-jeuk-shi-gong-ssi-zeun-too, 2007)



Preparados para nova dose da comédia sexual mais sem-vergonha a sair da Coreia-do-sul nos últimos anos? “Sex is zero 2” faz tudo bem: provoca os mais puritanos e faz soltar as gargalhadas e a testosterona dos jovens obcecados por sexo. Esta sequela do filme de 2002 traz as mesmas personagens e sequências ainda mais arriscadas, chegando mesmo a induzir o vómito. Mas “Sex is zero 2” não propõe re-inventar a roda e segue rigorosamente a mesma fórmula do original.

Eun-sik (Ghang-jung Lim) continua o mesmo “adorável” falhado que não tem muita sorte e que cada vez se parece menos com um estudante universitário. Pudera, aos 30 anos! Depois de abandonado por Eun-hyo (Ji-won Ha), ele consegue arranjar uma nova namorada em Kyeong-ah (Ji-hyo Song), que parece gostar genuinamente dele. Mas a sorte dele nem por isso melhora. Enquanto os amigos lá vão conseguindo dar cambalhotas, um deles inclusivamente mudou de sexo nos últimos 3 anos e já está noivo, ele continua sem conseguir a tão almejada intimidade com Kyeong-ah. Ele vai tentando através de insinuações directas e indirectas e às vezes, Kyeong-ah até parece disposta a ceder. Só que na hora H retrai-se. Não está pronta.
Mas Eun-sik já esperou 3 anos e os seus amigos não estão dispostos a vê-lo esperar mais e a desperdiçar a juventude o que conduz às inevitáveis peripécias que o separam de Kyeong-ah, ao invés de os tornar mais próximos. Entretanto, um antigo pretendente da rapariga, Gi-joo (Sang-yoon Lee) mais bonito, rico e bem-sucedido e com as boas graças da sogra retorna decidido a fazer dela sua esposa.
Desta feita as universitárias não praticam fitness mas estão na equipa de natação o que proporciona momentos mais do que suficientes para estarem à beira da piscina em trajos menores. Os homens, esses, continuam obcecados com as artes marciais, tendo por fim, direito a brilhar num torneio elaborado à pressa para o momento climático do filme.
A maioria das personagens são anedotas andantes, com reacções demasiado exageradas e actos demasiado disparatados para que lhes possamos atribuir alguma credibilidade. Uma das personagens tem um comportamento próximo ao da psicopatia sempre que desconfia que o namorado possa estar a trai-la, outra não consegue encarar a realidade de que o ex-namorado é agora uma mulher e que gosta de homens por fim, temos os pervertidos de serviço para quais já não chega espreitar, também têm de brincar com os orifícios dos outros… Só Eun-sik e Kyeong-ah mantêm alguma proximidade com a realidade, parecendo-se com um casal que podia existir. Enquanto meio mundo à sua volta só pensa no acto sexual, 99% do tempo, quer dentro e fora de uma relação amorosa, o par principal mantém um relacionamento parecido com o de adolescentes que estão apaixonados pela primeira vez e ainda possuem alguma inocência quanto aos factos da vida. Eis a vantagem de Kyeong-ah sobre Eun-hyo, a antiga namorada de Eun-sik. Ela tem genuína afeição por Eun-sik, mesmo com um fraco quociente intelectual e as suas tentativas desajeitadas de a levar para a alcova. É a sua doçura que a atrai. Kyeong-ah nunca ficaria com o tolo Eun-sik por piedade. Onde a antiga relação nos faria estremecer a actual aproxima a audiência dos personagens e fá-la ficar do lado destes, torcendo para que as desventuras do par romântico culminem num final feliz. À semelhança do filme anterior, "Sex is Zero 2" está fadado para um último terço dramático. Felizmente, nesta nova aventura a viragem dramática já não é tão desconexa nem radical. Para os fãs do género “Sex is zero 2” é um repescar das piadas que fizeram do primeiro filme um sucesso, com um período ainda menor de reflexão sobre os malefícios do sexo desprotegido ou sem sentimentos envolvidos. Para dizer a verdade, o que a malta quer é passar da palavra à acção e disso, “Sex is zero 2” tem bastante. Três estrelas.

Realização: Tae-yun Yoon
Argumento: Je-gyun Yun
Ghang-jung Lim como Eun-sik
Ji-hyo Song como Kyeong-ah
Shin-ee como Kyeong-joo
Chae-yeong Yoo como Yoo-mi
Hwa-seon como Yeong-chae
Sang-yoon Lee como Gi-joo

Próximo Filme: "Aokigahara: Suicide Forest", 2010

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...