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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Three - Curta #3: Going Home" (Saam Gaang, 2002)

Depois da recepção gelada que as primeiras curtas-metragens da antologia de terror "Three" obtiveram, a vontade de visionar "Going Home" encontrava-se poucos graus abaixo de zero. Não fosse a companhia e teria ficado "satisfeita" por ter visto duas em três o que constituiria um grande erro. Como se costuma dizer: "o melhor fica para o fim". "Going Home" é uma peça tocante sobre Wai (Eric Tseng) que se muda com o filho Cheung (Ting-Fung Li), para um antigo complexo de apartamentos que irá ser demolido dentro de pouco tempo. Não é pois de estranhar que o seu filho impressionável pense que o edifício está assombrado. Um dia, este segue uma rapariguita de vermelho que costuma brincar no complexo e desaparece. Inquieto com o desaparecimento do filho, Wai bate à porta do seu único vizinho Yu (Leon Lai) e tropeça numa história rocambolesca. Yu tem dedicado a sua vida a cuidar da sua mulher Hai’er (Eugenia Yuan) que matou há três anos! E agora, acreditem nisto, Yu continua a banhar, cortar o cabelo e as unhas da mulher, a passeá-la e a falar-lhe ternamente como se estivesse viva. Só num filme certo? Mas Yu nada tem de psicopata, ele é digno de compaixão, envolvido na ilusão que ele próprio criou de que a esposa irá acordar dentro de dias. A grande força de “Going Home” reside na subtileza do desempenho de Lai e na sua força comedida que fazem questionar se ele estará mesmo louco, ou se realmente encontrou uma solução mágica para a vida depois da morte. Por contraposição, temos um Eric Tseng quebrado perante a sua própria impotência face à ausência inexplicável do filho. Dois modos interessantes de lidar com a perda que podiam ser ainda melhor explorados não fosse esta uma curta. Apesar de eficaz, “Going Home” não está isenta de falhas. O desaparecimento de Cheung despoleta a acção mas, durante mais de metade do filme, não voltamos a ele. É como se o seu desaparecimento fosse apenas uma desculpa para nos introduzir à vida de um vizinho louco. E por muito interessante que seja explorar a "relação unidireccional" de Yu com a mulher, temos sempre presente que uma criança está desaparecida e queremos uma resposta para o mistério. O início também é enganador, com as pistas de que vamos assistir a um thriller sobrenatural a revelarem-se infundadas. Tanto melhor, o mistério sobrenatural como o conhecemos já há muito devia ter caído em desuso. “Going Home” é a obra mais compensadora de “Three” e aquela que podia (devia!) ter sido perscrutada mais profundamente numa longa-metragem. O lirismo da narração e da cinematografia de Christopher Doyle que foi responsável por algumas das obras mais belas na sétima arte como “Hero” (2002) e vários filmes de Wong Kar Wai, a par dos bons desempenhos dos actores, merecem que vejam com a maior urgência esta curta-metragem! É daquelas pequenas pérolas que fazem uma pessoa apaixonar-se de novo pelo cinema. Imperdível. Quatro estrelas.


Realização: Peter Chan
Argumento: Peter Chan, Matt Chow, Jo Jo Yuet-chun Hui e Chao-Bin Su
Leon Lai como Yu
Eric Tseng como Wai
Eugenia Yuan como Hai'er
Ting-Fung Li como Cheung

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Three - Curta #2: The Wheel" (Saam Gaang, 2002)

Pior do que um enredo óbvio só uma narrativa sem direcção. Daquelas que disparam em todas as direcções, a ver se uma cai nas boas graças da audiência. Estão apresentados a “The Wheel”. É a segunda curta-metragem da antologia "Three"e está a cargo de um Nonzee Nimibutr, que teve sucesso com o filme de terror “Nang Nak” (1999). “The Wheel” é um anacronismo, é a peça que não pertence. As outras curtas focam as relações entre os personagens e exploram o sentimento de perda enquanto "The Wheel" é sobre a maldição de uma marioneta... Tem um feel muito diferente das outras curtas-metragens e deita por terra qualquer tipo de transição suave entre as obras de “Three”. Comparativamente, é um trabalho de amadores. “The Wheel” passa-se numa pequena aldeia onde falece um velho mestre criador de marionetas. Diz-nos a narração inicial que as marionetas estão imbuídas com o espírito do seu criador. Este é o único que se pode apropriar delas. Quem quebrar esta regra incorre numa grande maldição. Como é óbvio, há sempre um parvo com a mania que é esperto e ignora o bom senso, sofrendo, por isso, as consequências. 
Contra todos os avisos e conselhos de trabalhadores e família, o mestre Tong (Pongsanart Vinsiri) recusa-se a acreditar na existência de uma maldição e em separar-se dos valiosos bonecos. Guiado pela ganância, Tong vê as marionetas como um modo de melhorar o espectáculo da sua trupe de dança tradicional Khon e trazer-lhe riqueza. À sua volta, começam a haver acidentes e mortes mas nem assim ele se desvia dos seus objectivos. Temos direito a tudo: incêndios, afogamentos, possessões, paixões proibidas, homicídios… Então, os que o rodeiam reúnem-se para travar a maldição e destruir a marioneta. Pois… Era bom. Antes fosse assim. Nimibutr obriga-nos a assistir incrédulos a uma sucessão de acontecimentos evitáveis e ridículos que testam a paciência a um santo. E quando julgamos que a acção não podia piorar eis um balde de água fria, uma reviravolta que ninguém previa mas piora a experiência já de si penosa. Moral? É capaz de algo acerca de nos deixarmos cegar pela ganância e os outros à nossa volta sofrerem com isso, num ciclo vicioso de destruição - the wheel = roda. Lição: é o exemplo perfeito de quando um realizador decide fazer tudo sozinho e dá mau resultado. Pois Nonzee qual mestre de marionetas toma as rédeas da escrita, produção e direcção a seu cargo e o que resulta é uma obra banal, confusa e desinspirada. O tema dos bonecos assassinos não é novidade pelo que ao menos se esperava uma aprendizagem sobre as experiências anteriores. Decerto a experiência cinematográfica seria melhor se Nimibutr se estivesse rodeado por uma equipa competente e não se tivesse deixado guiar pelo narcisismo. A obra cinematográfica é um paralelo da vida real. Não é poético? "The Wheel" não é filme que faça falta numa antologia destas, muito menos em 40 minutos. Uma estrela.
Realização: Nonzee Nimibutr
Argumento: Ek Lemchuen, Nonzee Nimibutr e Nitas Singhamat
Suwinit Panjamawat como Gaan
Komgrich Yuttiyong como mestre Tao
Pongsanart Vinsiri como mestre Tong

Próximo Filme: "Bestseller" (Beseuteu Serreo, 2010) 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Three - Curta #1: Memories" (Saam Gaang, 2002)

“Three” é a colaboração internacional de terror que deu origem à bem mais conhecida sequela “Three…Extremes” (2004). A ideia para a antologia adveio de Peter Chan do cinema de Hong Kong que convidou Nonzee Nimibutr da Tailândia e o sul-coreano Jee-woon Kim a emprestarem os seus dotes de realização ao esforço colectivo. A atenção internacional por “Three” veio quando “Three…Extremes” estourou nos cinemas por todo o mundo e renovou o interesse no primeiro filme que seria depois, estupidamente, denominado na América de “Three… Extremes II”  por estrear após a sequela. Resolvi ignorar este absurdo e manter a denominação original.
Se há curtas que podiam ser sumarizadas num tweet é “Memories”, a primeira curta-metragem realizada por Jee-woon Kim. Como não sou fã de spoilers, fico-me por um sumário da história: um homem (Bo-seok Jeong) consulta um psiquiatra (Jeong-Won Choi) relativamente ao desaparecimento da mulher uns dias antes. Ele não tem nenhuma recordação dos momentos que antecederam o evento. Entretanto, ela (Hye-su Kim), acorda amnésica noutro lado da cidade e tenta lembrar-se como poderá regressar a casa onde quer ela seja. Aos poucos, ambos começam a recordar os acontecimentos que os levaram àquele ponto… Jee-woon Kim, não é um ilustre desconhecido. É "apenas" o realizador de um marco no cinema de terror coreano: "A Tale of Two Sisters", rodado um ano depois desta curta. E a julgar por este esforço não posso dizer que alguém conseguisse antever o sucesso deste realizador. "Memories" sofre de males como a previsibilidade do enredo e duração excessiva. Se passados dois minutos ainda não tiverem tecido uma hipótese (a mais provável), sobre o que sucedeu aconselho-vos a lerem mais vezes as notícias. A duração está totalmente errada, visto que em cinco minutos a história seria facilmente contada. Não estou a brincar, o enredo é assim tão básico. Suponho que a conversa com Peter Chan se deve ter desenrolado nesta linha: "Consegues desenrascar-me uns 40 minutos de filme?" E pronto. Temos a perspectiva dos dois personagens, o homem e a mulher, ambos a tentar recordar os dias anteriores, uma série de flashbacks, algumas interacções que não contribuem para grande coisa excepto para preencher o tempo e uma tentativa falhada de levar a história para o campo do sobrenatural. Divertem-me as longas sequências de acção zero, qual Manuel de Oliveira. Dois, três minutos a focar a ausência de acção não é artístico, é aborrecido. "Memories" podia ter sido denominada "Insónia", por que os seus longos 40 minutos soam a duas horas de um programa zen. Uma cena de perseguição (alguém me explica o sentido daquilo por favor?) e a cena em que a mulher enfia o dedo na cabeça são as únicas emoções fortes a que a audiência tem direito. A nível visual, "Memories" é a experiência mais interessante da antologia. Mas num mundo ideal, as obras são sustentadas por pouco mais do que apenas os aspectos visuais. Muita parra, pouco sumo. Uma estrela e meia.
Realização: Jee-woon Kim
Argumento: Jee-woon Kim
Elenco:
Bo-seok Jeong como Homem
Hye-su Kim como Mulher
Jeong-Won Choi como Psiquiatra

PS: Quero aproveitar para fazer um pequeno lembrete. Na barra lateral direita, por debaixo da caixa de pesquisa há uma caixa com o título "Inscrever-se". Experimentem. É simples, rápido e a subscrição permite receber um aviso com as novas actualizações do blogue. Se não houver novidades este não aparece e escusam de perder tempo de navegação.

Próximo Filme: "Karak" 2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"5bia" aka "Phobia 2" (ห้าแพร่ง ou Ha Phrang, 2009)



Um ano volvido o sucesso estrondoso de "4bia", chega-nos "5bia", a sequela que volta a reunir três dos quatro realizadores da primeira película. Desta feita, aumentou a dose de terror com Songyos Sugmakanan autor do aclamado "Dorm" (Dek Hor, 2006) e Visute Poolvaralaks, produtor executivo de "Alone" (2007) na sua estreia directorial a juntarem-se à equipa. Nesta sequela não há o bónus extra da ligação entre as curtas. Não se sente a sua falta. "Phobia 2" só fez 64,4 milhões de baths na primeira semana de exibição, o que representou a melhor estreia de sempre no cinema tailandês. E se ainda duvidam da sua qualidade, figura na lista dos 10 melhores filmes de 2009 do Wise Kwai's Thai Film Journal, muito provavelmente o melhor blogue sobre cinema tailandês que existe por aí.

As curtas:

"Novice"

A primeira curta foca-se em Pey (Jirayu La-ongmanee) que após cometer um crime é forçado pela mãe a juntar-se a um grupo de monges na selva para evitar a prisão já que de acordo com a lei, os monges não podem ser presos. Pey não mostra compreensão do resultado das suas acções e revolta-se por ter sido deixado naquele lugar. Enquanto a lei não o encontra Pey permanece sobre o olhar vigilante dos espíritos que venera. Como Pey irá descobrir, ele pode escapar da civilização mas o Karma pode encontrá-lo em qualquer lugar...



"Ward"
Arthit (Danuwong Worrawech) teve um acidente de bicicleta que lhe deixou as pernas partidas e obrigou a pernoitar no hospital. Nessa noite, Arthit é deixado no quarto com um velho em coma. Este é um líder de um culto e estão à espera que os últimos familiares o vão visitar para poderem desligar o suporte de vida. Confinado à cama, Arthit cedo percebe que pode existir mais vida naquele quarto do que inicialmente julgava.


"Backpackers"

Um casal de turistas japoneses apanha boleia de um camionista num zona inóspita da Tailândia. O camião é conduzido por um homem de aspecto sujo e pouco afável e um jovem que o exorta a deixar os jovens na estrada. A viagem é conturbada, com o homem a ficar furioso com uma chamada e a existência de sons vindos da zona de carga. Acontece que esta não é uma carga normal e quando o condutor pára o camião para verificar a carga depara-se com uma montanha de corpos. Mas nem tudo é o que parece e quando os corpos regressam à vida, o que era uma simples boleia torna-se uma corrida mortal.




"Salvage"
Nuch (Nicole Theriault) é uma vendedora de carros pouco escrupulosa que manda arranjar carros acidentados para depois os vender como novos. Numa noite em que está sozinha no stand com o seu filho Toey (Peeratchai Roompol), o passado trágico dos carros acidentados irá regressar para a assombrar...

"In The End"

Os quatro amigos Ter (Nattapong Chartpong), Aey (Kantapat Permpoonpatcharasuk), Shin (Wiwat Kongrasri) e Phueak (Pongsatorn Jongwilat) fazem parte da equipa de filmagens do filme "Alone 2". Durante a gravação da última cena Gade (Phijitra Ratsameechawalit), a actriz que desempenha o papel de fantasma sente-se mal e é levada para o hospital por Aey. Ela regressa novamente para terminar a última cena. Entretanto, Aey é informado que Gade faleceu e informa os amigos do facto. Se ela está morta, quem é que está ali com eles?

Sobre os filmes:
Paween Purijitpanya, autor de "Tit for Tat", a segunda curta-metragem de "4bia" abre desta vez e com chave de ouro. Num registo quanto a mim superior ao anterior, Paween deslumbra mais uma vez com uma cinematografia e um rítmo muito próprios numa película de curtissíma duração. Jirayu La-ongmanee que desempenha o papel principal é muito bom a fazer o papel destestável de Pey, nem quando as consequências dos seus actos chegam até ele (e que consequências!), conseguimos sentir compaixão pelo jovem vilão. A segunda curta, do estreante Visute Poolvoralaks é o registo mais fraco. O que começa com uma boa premissa depressa se torna previsível. Quem é que passados alguns minutos não tinha já compreendido o que iria acontecer? Valha-nos a forte tensão que é montada num curto espaço de tempo. "Backpackers" também não é exactamente original com a premissa de "casal apanha boleia da pessoa errada" mas tem momentos verdadeiramente perturbadores. E vá lá, ao menos não temos o já típico fantasma de cabelos negros a pairar sobre os actores ou a aparecer nos sítios mais improváveis. "Backpackers" é também uma curiosa reunião: a de Songyos Sugmakanan com Charlie Trairat, o actor que dirigiu em Dorm, agora irreconhecível num corpo de homem. A próxima paragem é no stand de Nuch (Nicole Theriault) e diria eu, uma das curtas mais injustiçadas deste "5bia". O tormento de mãe de Nuch é muito provavelmente o medo mais real de todos os que estão retratados nesta sequela. É surpreeendente verificar que mesmo no outro lado do mundo, também persiste a ideia de que os vendedores de automóveis são uns intrujões. Quem é que não se identifica com isto? Excepto, talvez, os vendedores de carros. A história tem imagens geradas por computador q.b. e uns sustos bem proporcionados. A cena final, é de arrepiar a espinha de qualquer mãe. "In The End", atesta mais uma vez, a excelente capacidade de Banjong Pisanthanakun de não se levar demasiado a sério e de se rir do seu próprio trabalho [vejam as referências a "Alone" (2007) e Shutter (2004)]. Este realizador permite-se fazer troça do overacting nos filmes em geral e ao cliché em que se tornaram os fantasmas e banaliza-os, reduzindo ao absurdo o peso que as audiências lhes atribuem. Somos ainda brindados com a excelente química do quarteto de actores que tivemos oportunidade de conhecer na curta do primeiro filme, "In the Middle". Mais do que um filme de terror é uma crítica bem humorada ao cinema de terror em que as situações cómicas se seguem umas após as outras. "Phobia 2" não desilude, é uma sequela com o seu próprio mérito, em nada inferior ao título que lhe deu origem. Apresenta valores de produção tão bons ou superiores a "4bia" e os novos realizadores não comprometeram. Posto isto, só permanece uma questão: para quando "Phobia 3"? Quatro estrelas.



Curta
#1: "Novice"
Realização: Paween Purijitpanya
Argumento: Paween Purijitpanya e Nitis Napichayasutin
Elenco:
Jirayu La-ongmanee como Pey
Ray MacDonald como monge
Chunporn Theppitak como monge mais velho
Apasiri Nitibnon como mãe de Pey

Curta #2: "Ward"
Realização: Visute Poolvoralaks
Argumento: Parkpoom Wongpoom e Sopon Sukdapisit
Elenco:
Danuwong Worrawech como Arthit
Chartpawee Treechartchawanwong como enfermeira

Curta #3: "Backpackers"
Realização: Songyos Sugmakanan
Argumento: Songyos Sugmakanan e Sopana Chaowwiwatkul
Elenco:
Charlie Trairat como Joi
Sutheerush Channukool como condutor do camião
Akiko Ozeki como turista japonesa
Teerneth Yuki Tanaka como turista japonês

Curta #4: "Salvage"
Realização: Parkpoom Wongpoon
Argumento: Parkpoom Wongpoon e Sopon Sukdapisit
Elenco:
Nicole Theriault como Nuch
Peeratchai Roompol como Toey

Curta #5: "In The End"
Realização: Banjong Pisanthanakun
Argumento: Banjong Pisanthanakun, Chantavit Dhanasevi e Mez Tharatorn
Elenco:
Marsha Wattanapanich como Marsha
Nattapong Chartpong como Ter
Kantapat Permpoonpatcharasuk como Aey
Pongsatorn Jongwilat como Phueak
Wiwat Kongrasri como Shin
Phijitra Ratsameechawalit como Gade
Nimitr Lugsameepong como Realizador

Próximo Filme: "Lawang Sewu Dendam Kuntilanak", 2007

terça-feira, 2 de agosto de 2011

"4bia" aka "Phobia" (สี่แพร่ง ou See Phrang, 2008)



Seis anos depois de "Three" (2002) um esforço colectivo internacional que nos apresentou três das melhores curtas-metragens que o cinema de terror já viu, chega-nos a resposta tailandesa. "4bia" é uma antologia de quatro filmes de terror realizada pelos autores de "Shutter" (2004), "Alone" (2007) e de Body #19 (2007). Não podia ter ficado mais satisfeita com a vossa escolha na votação do ínicio do mês de Julho. Não conhecia quaisquer dos filmes sugeridos pelo que a descoberta de "4bia" foi uma novidade para mim tal como será para vocês.


As curtas:
"Happiness" [título tailandês - "Loneliness" (Ngao)]
Uma jovem está condenada a pasar os dias em casa a recuperar da perna partida num acidente de táxi. Com amigos e família fora, o seu único modo de comunicar com o mundo é o telemóvel. Na sua solidão Pin começa a receber mensagens de um estranho que a deseja conhecer. A sua hesitação inicial é ultrapassada à medida que o aborrecimento toma conta dela. Com o passar dos dias, o estranho simpático começa a mandar mensagens cada vez mais perturbadoras e Pin assusta-se quando ele lhe diz que vai passar lá por casa...

"Tit for Tat" [título tailandês - "Deadly Charm" (Yan Sang Tai)]
Apanhados com erva pelo director da escola e face à possibilidade de expulsão, um grupo de jovens descarrega a toda a sua raiva no jovem delator Ngit. Depois de um último espancamento brutal, Ngit implora que o deixem ir em paz mas a barbárie não pára. Um dia, um Ngit alterado encontra os autores do seu sofrimento e decide lançar-lhes uma maldição...

"In The Middle" (Kon Klang)
Quatro jovens numa tenda contam histórias para se assustarem. No meio da brincadeira, Aye diz aos amigos que se ele morresse, o primeiro a quem iria assombrar seria a pessoa do meio. Eles riem-se e não o levam a sério. No dia seguinte, o barco onde faziam rafting vira-se e Aye desaparece no meio dos rápidos. Desesperados, os seus amigos procuram-no por toda a parte mas não o encontram. Nessa mesma noite um gelado Aye aparece na sua tenda mas aparenta estar diferente. Cedo os seus amigos percebem que algo não está bem e viram-se para Ter, era ele que na última noite tinha dormido no meio...


"The Last Flight" [título tailandês - Flight 244 (Teaw Bin 244)]
Uma hospedeira é obrigada a fazer parte da tripulação no voo 244, no qual segue a princesa Sophia do Kurquistão. Esta assedia-a e maltrata-a durante todo o voo até que finalmente se sente indisposta. A princesa acaba por morrer e a hospedeira Pim é obrigada a seguir no próximo voo e assegurar que nada acontece ao corpo...


Sobre os filmes:
"4bia" começa logo bem com o genérico. Marca posição e ali ficamos a saber que o que vamos ver é terror. A primeira curta é de Youngyooth Thongkonthun, mais conhecido pelas comédias e o underdog do colectivo, quanto ao género de terror. Mas abre as hostilidades e de que maneira, com uma actuação solitária, brilhante de Maneerat Kham-uan (Pin) e um crescendo de terror que culmina num grande susto digno de sujar a roupa interior. Pin surge na maioria das cenas bored to death, a lutar contra a solidão com a ajuda do telemóvel e a ceder às suas reacções. Na verdade, age como qualquer rapariga na vida real. Sentimos a sua ansiedade pela próxima mensagem, o gosto pelo flirt e a perturbação com o sentimento de invasão de privacidade que admitamos, numa altura ou outra já sentimos. Acresce o facto de nos sentirmos tão presos como Pin no seu apartamento e temos filme. "Happiness" é subtil, gradual e não cansa. Perfeito para uma curta. "Tit for Tat" é o oposto da primeira. É sempre a abrir, frenético no género de terror in your face. Não será a curta mais original das quatro pelas semelhanças com "Final Destination" (2000) mas cumpre em 25 minutos. É também o segmento com mais gore e mais distintivo. A edição, as cores gritantes, o constante jogar de ângulos contrastam com a "monotonia" da antologia. Só os efeitos especiais me parecem um pouco exagerados e enfiados à pressa o que, em última análise, não afecta por aí além o produto final. Para quem prefere um ritmo mais acelerado, verão em "Tit for Tat", um doce. "In The Middle", está lá no meio, literalmente, mas é tudo menos mediano. Com um mix de comédia e de horror que funcionam muito bem, Banjong Pisanthanakun apresenta-nos quatro rapazes que ao fim de cinco minutos conseguimos distinguir claramente. Temos aqui personagens com mais personalidade do que muitas longas-metragens conseguem alcançar. De todas as curtas, "In The Middle" é o que melhor imagino como filme de longa duração. O timing cómico está óptimo, a representação está boa, a interacção entre os personagens muito bem conseguida e as referências a diversos filmes, como Shutter demonstram uma boa dose de humor e a capacidade de Banjong de brincar com o seu próprio trabalho. É refrescante e, na minha humilde opinião, a curta mais bem conseguida das três. Quanto a "The Last Flight", digamos que a história não será a coisa mais imprevisível que já se viu mas agarra-nos de tal forma que queremos, de qualquer modo, chegar ao fim. A hospedeira Pim (sem desmerecer as suas capacidades de representação), é um show de beleza e as suas interacções com a princesa Sophia são as melhores do filme. A troca de olhares gélidos e violência de sentimentos latente, por breves que sejam, é sublime. "The Last Flight" é um final digno desta antologia de terror. "4bia" é refrescante e não comparável a "Three" (2002) e a sua sequela. Semelhanças só no conceito, em termos de terror não podiam estar mais distantes. "4bia" nada tem da terrível sugestão perturbadora de "Dumplings" ou do surrealismo de "Box". E há uma subtil ligação entre as curtas-metragens, que dão a sensação de não estarmos a ver quatro filmes totalmente diferentes. Pontos para quem conseguir juntar o puzzle ou, se preferirem e não conseguirem encontrar as pistas no filme, a seguir à ficha técnica podem encontrar um spoiler*. Não há nenhuma dúvida por estes lados. "4bia" é uma obra boa e coesa e por isso merece quatro estrelas e meia.
Curta #1: "Happiness"
Realização: Youngyooth Thongkonthun
Argumento: Youngyooth Thongkonthun
Elenco:
Maneerat Kham-uan como Pin
Wirot Ngaoumphanphaitoon como Ton

Curta #2: "Tit for Tat"
Realização: Paween Purikitpanya
Argumento: Paween Purikitpanya,Vanridee Pongsittisak, Amornthep Sukumanont e Eakasit Thairaat
Elenco:
Apinya Sakuljaroensuk como Pink
Nattapol Pohphay como Ngit
Witawat Singlampong como Diaw
Chon Wachananon como Yo
Shindanai Kanoksrithaworn como Ball
Nottapon Boonprakob como Toot
Teerapon Panyayuttakarn como Ace

Curta #3: "In The Middle"
Realização: Banjong Pisanthanakun
Argumento: Banjong Pisanthanakun
Elenco:
Nattapong Chartpong como Ter
Kantapat Permpoonpatcharasuk como Aey
Pongsatorn Jongwilat como Phueak
Wiwat Kongrasri como Shin

Curta #4: "The Last Flight"
Realização: Parkpoom Wongpoon
Argumento: Parkpoom Wongpoon e Sopon Sukdapisit
Elenco:
Laila Boonyasak como Pim
Nada Lesongan como Princesa Sophia
Plai Paramej como Capitão

Próximo Filme: "14 Blades" (Jin yi wei, 2010)

PS: Se gostaram deste filme, terão uma agradável surpresa no final do mês.

Spoiler*

domingo, 24 de julho de 2011

"Three...Extremes - Curta #3: Box" (Saam gaang Yi, 2004)

"Box" é a última supresa de "Three...Extremes" e para mim, a menos extrema no sentido literal do termo. Isto surpreendeu-me, ou não fosse o realizador Takashi Miike. A narrativa centra-se em Kyoko que em criança (Mai Susuki), tinha uma irmã gémea Shoko (Yuu Susuki), que com ela fazia um número circense de contorcionismo. O número, conduzido pelo seu próprio pai, consistia em enfiarem-se em caixas pequenas, das quais desapareciam e surgiam, no seu lugar, rosas. Mas elas são iguais apenas na aparência. Shoko tem a preferência do pai e como se sugere, o seu amor incestuoso. Kyoko não consegue lidar com esta situação e um simples acto de criança vai desencadear acontecimentos terríveis. A  Kyoko (Kyoko Hasegawa), adulta é consumida pela dor do seu passado e sonha todas as noites que está a ser enterrada numa caixa, na neve. Mas será que é apenas um sonho? A história é um pouco confusa, como uma peça surreal, na qual temos de encontrar um significado sob a superfície. Muitas cenas não serão entendidas de imediato, somente após uma reflexão. A acção alterna o sonho com a realidade de um modo que podemos não conseguir encontrar a fronteira entre eles e até confundi-los. Depois de "Dumplings" e "Cut", "Box" soa a peça que pertence noutro puzzle pois ainda é mais contida de que "Cut".
 
A ligação entre as irmãs poderia ter sido melhor explorada, o facto de serem gémeas não justifica tudo. Quantos irmãos não têm más relações? Também o facto de Shoko ser a filha favorita não é explicado. Apenas se assume que existe um fio invisível e inquebrável que une as irmãs a ponto de uma ruptura poder ser desastrosa. Conseguimos empatizar com Kyoko e percebê-la só que sabe a poucochinho. Pessoalmente, queria mais. Mas é na cinematografia que a curta ganha pontos e ultrapassa largamente "Cut". Gostos. Não se discutem, lamentam-se. "Box" traz uma estética que concebo (ingenuamente dirão), mais próxima do horror. Toda a qualidade de sonho, a imagem e a narrativa surreal, funcionam muito bem. A árvore velha que domina a paisagem branca de neve parece uma pintura. Entretanto, esta cena orgânica exterior vai alternando com as cenas de circo numa estética que faz lembrar, por momentos, a época dourada dos circos itinerantes de freak shows, durante a Grande Depressão. Também a máscara veneziana representa um misto de mistério e de sedução que acentua o sonho. Belíssimo. Por fim, somos assaltados pela realidade fascinante que motiva o "remexer" do subconsciente de Kyoko: o facto de que ela e Shoko estarão juntas para sempre.
Em última instância, "Box" sempre é uma curta e exigir mais no seu tempo de duração seria difícil senão mesmo impossível. Miike sempre pensa "outside the box" por isso, leva "apenas" quatro estrelas.



Realização: Takashi Miike
Argumento: Haruko Fukushima e Bun Saikou
Elenco:
Kyoko Hasegawa como Kyoko 
Atsurô Watabe como Yoshii / Higata
Mai Susuki como jovem Kyoko
Yuu Susuki como jovem Shoko

Próximo Filme: "Cinderella" (Sin-de-re-lla, 2006)

domingo, 12 de junho de 2011

"Three..Extremes - Curta #2: Cut" (Saam Gaang Yi, 2004)

Depois de "Dumplings", segue-se "Cut", num registo mais contido. Embora, "Cut" mostre mais que o anterior, sugere muito menos. É muito menos extremo. Opiniões. E a premissa nem é má. Um realizador interpretado por Byung-hun Lee, que é uma paz de alma no set e trata a todos com igual bondade e educação é raptado da sua casa por um figurante. Esse personagem é completamente chanfrado e embirra com o realizador por ele ser bom. Pois. Isso mesmo. Rico, bem casado e sucedido, não tem direito a ser boa pessoa. Enfim, a inveja é uma coisa muito feia. Como tal, o louco arrasta para a sua "vendetta" a mulher do pianista e uma criança desconhecida. Ele propõe um desafio a Lee que de desafio não tem nada pois que é forçado a isso, se ele não estrangular a criança, ele cortará os dedos da sua mulher, um a um, enquanto ele não agir. Notem o requinte de malvadez: a mulher do realizador é pianista... Não só lhe arranca os dedos como o seu sustento. Ouch. Mas ele é louco e com os loucos não dá para argumentar. Na sua insanidade ainda espera que o realizador se lembre dele, a ele que é um mero figurante, entre centenas de pessoas. Ah, um pormenor que a mim arrepia os pêlos da nuca é o realizador ser raptado de sua casa para o estúdio que é uma réplica exacta da sua casa! Não é espécie de violação de privacidade? Deve ser só de mim.  Quanto à atmosfera propriamente dita, acho o início mais forte que o final, talvez também por ainda estar imbuída do espírito de "Dumplings". A cena do rapto está bem conseguida até ao momento em que ele acorda no estúdio. A partir daí perde-se alguma da atmosfera psicológica e que se nota também no ambiente físico. O estúdio, réplica da casa do realizador, apresenta cores vibrantes que contrastam com o assunto negro.  É revelador da dicotomia que é o figurante, uma personagem louca e divertida ao mesmo tempo. Talvez por isso, não fui capaz de o levar a sério, mesmo quando ele ameaçava o casal. Quanto ao realizador, não convence enquanto homem bom por demais, nem mesmo quando finalmente, confessa os seus segredos mais obscuros. Não existe ali um verdadeiro ponto de ruptura o que acaba por ditar um fim igualmente inconsequente.  Apreciei apenas o facto de "Cut" terminar, de certo modo,  como começou, vampires anyone? Sendo uma fã de Park e de Lee, não pude deixar de pensar que este filme me parecia desfasado do contexto de "Dumplings" (é o mal de se verem as curtas por uma determinada ordem) e mesmo da temática: extremos! Dá vontade de dizer, "corta e passa à próxima". Por isso, leva umas comedidas três estrelas.


Realização: Chan-wook Park
Argumento: Chan-wook Park
Elenco:
Byung-hun Lee como Realizador
Won-hie Lim como Figurante
Hye-jeong Kang como Mulher do Realizador

Próximo Filme: "Senjakala", 2011

domingo, 22 de maio de 2011

"Three...Extremes - Curta #1: Dumplings" (Saam Gaang Yi, 2004)

"Dumplings" é a contribuição chinesa para a trilogia de curtas de horror "Three...Extremes" sequela de "Three" (Saam Gaang, 2002). Esta experiência do horror asiático junta os realizadores Fruit Chan, (Hong Kong - China),  Park Chan-Wook (Coreia do Sul) e Takashi Miike (Japão) que apresentam entre os três, obras como "Don't Look Up" (2009), "Thirst" (2009) e "13 Assassins" (2010). Uma colaboração de sonho portanto. Ou se preferirem, um grande pesadelo assustador.


Bem, que podiam tirar do título "Extremes", que com estes realizadores acaba por se tornar redundante. O primeiro filme da trilogia é "Dumplings" que não deixa margem para dúvidas. Marca desde logo um tom brutal e divide a audiência. Este é um filme que se ama ou se odeia, de extremos, a bem dizer. É provocador, obsceno, repugnante, perturbador, desconcertante, chocante e outros tantos adjectivos na mesma linha. A premissa é simples: Li (Miriam Yeung Chin Wah), uma senhora de meia idade visita a "Tia" Mei (Bai Ling) para que esta lhe faça um dos seus famosos "dumplings", uns bolinhos de massa, que supostamente têm propriedades rejuvenescedoras. Estes bolinhos são muito famosos na China sendo confeccionados com carne, peixe, legumes, o que quiserem, a massa é a base. Inicialmente, Mei pergunta a Li quantos anos lhe dá, ao que esta responde 30. É muito mais velha e como ela diz e bem, ela é a melhor publicidade dela própria. Mei, mete-se na cozinha e começa a fazer os seus bolinhos mágicos: tritura, pica, amassa, coze como uma verdadeira fada do lar. Claro que a higiene é muito má, mas é cozinha caseira. Os produtos de fumeiro e os queijos não são feitos nos ambientes mais assépticos, no entanto, são bons que se farta não são? O pior é mesmo o ingrediente secreto de Mei (que não vou revelar) embora, ela não faça questão de o esconder, até faz gala disso. Afinal, não se trata aquilo de atingir a suprema beleza? Não é apenas uma transacção comercial? À mera menção do ingrediente alguns hão-de estremecer na cadeira, outros mesmo hão-de parar o visionamento do filme. Muitos, não olharão para bolinhos de massa cujo conteúdo desconhecem com os mesmos olhos... Mas o que me impressiona mesmo é a reacção, ou melhor ausência de reacção de Li, perante os bolinhos de cor rosa bebé. A sua indiferença é perturbadora. Nem mesmo o nojo de meter os bolinhos na boca sabendo aquilo que são a detém. Vêmo-la mastigar, ouvimos o conteúdo a estalar nos seus dentes e a ser sorvido... Criaturinha amoral. Faz pensar sobre a sanidade mental da personagem. A beleza vale perder a alma? E quando voltamos a vê-la, Li parece resplandecente, sem qualquer exagero de maquilhagem, apenas uma abordagem brilhante da câmara e a capacidade de representação de Chin Wah. Quanto à "Tia" Mei é refrescante, parece indiferente ao problema moral que os seus bolinhos acarretam e vai angariar os seus ingredientes como uma comum dona de casa vai à mercearia. O horror de Chan funciona muito melhor pela via da psique do que pela demonstração. Tem algumas imagens terríveis mas o que a audiência adivinha e antevê, por si só, é bem capaz de mexer com os seus sentimentos e estômagos. Ele semeia e instala desde logo uma sensação de desconforto para as curtas seguintes. E por isso, vale ouro. Quatro estrelas.



Realizador: Fruit Chan
Argumento: Lilian Lee (Pik Wah Li)
Elenco:
Bai Ling como Mei
Miriam Yeung Chin Wah como Senhora Li
Tony Leung Ka Fai como Senhor Li

Próximo Filme: "Noroi -The Curse" (Noroi, 2005)
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