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quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Lady Vengeance" (Chinjeolhan geumjassi, 2005)

Persistindo na “tradição” de abordar filmes de sagas por nenhuma ordem em particular, um destes dias voltei-me para “Lady Vengeance”, o terceiro filme da trilogia da Vingança de Chan-wook Park. Este filme não é tão bem-amado quanto o brutal “Oldboy” (2003) e possivelmente, mais introspectivo e contemplativo que “Sympathy for Mr. Vengeance”. Mas, é interessante verificar a piscadela e, crítica, não tão implícita quanto isso, à religião assim como, o filme mais feminino de Park. Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee) é uma naïve religiosa que acaba por se meter dar com a pessoa errada e, acaba na prisão por um crime que não cometeu. A prisão não é lugar para alguém como ela. A prisão não é lugar para um anjo. Mas ela tem uma boa motivação. Deixou uma filha lá fora, cujo crescimento não teve oportunidade de acompanhar devido a um psicopata. E ela tem tempo. Para aprender, para se preparar, para estudar, planear e construir um plano de vingança. Para fazer justiça. E assim, o anjo inocente se torna num anjo vingador. Ela acaba por dar uma estalada na cara, literal, da religião e empenha todos os seus esforços num novo fanatismo, o de procura da filha que nunca conheceu. O filme é todo um percurso de Geum-ja, desde que sai da prisão, decidida e vingativa, disposta a recorrer à ajuda dos ex-companheiros de prisão até à redenção. Min-sik Choi tem um excelente regresso, depois de interpretar o personagem principal em “Oldboy”. Desta feita encarna um personagem tão terrível quanto a sua capacidade de representar lhe permite… o que é bastante. O seu senhor Baek é temível e, no entanto, Cha-wook Park deixa bem patente o sentido de humor negro: o seu assassino de criancinhas é um professor pré-escolar.
Mas deixai as senhoras brilhar. E de facto é Yeong-ae Lee, uma actriz infelizmente afastada da sétima arte quem mais brilha. É por senhoras como esta que são criados os prémios de representação. A sua Geum-ja é naive, inocente, angelical, fria, calculista, maternal e todo o espectro de emoções que Chan-wook conseguiu empregar no filme. Algumas então passar-nos-ão despercebidas. “Lady Vengeance” é assim tão complexa. As cenas de Geum-ja na prisão são deliciosas. A audiência fica a conhecer as suas companheiras de cela, quase tão bem quanto ela, mediante pequenas cenas contadas em estilo flashback. E permite um investimento tal, que é possível odiar ou sentir piedade pelas prisioneiras, tanto quanto se deseja que Geum-ja consiga a sua vingança. Park dá também um docinho àqueles que sempre demonstraram desejo de confrontar os seus demónios e vingar aqueles que destruíram a sua vida. Imaginem. Todo o filme é pontuado por uma fotografia e um visual geral de simbolismo. Desde o início altamente focado no sol, nos brilhos e espaços abertos ao final negro e de espaços fechados. É flagrante o contraste entre uma Geum-ja de olhos vivos e esperançosos na sua cela alva sobrepovoada e uma Geum-ja sentada à beira da cama do seu quarto escuro e pequeno, como se de uma cela se tratasse. Geum-ja era mais livre na prisão do que é na cidade. Lá tinha tempo para sonhar a sua vingança. No seu quarto citadino ela não se consegue libertar das amarras do desejo obsessivo de vingança. É só na sua descoberta como mãe e no conforto da sua filha que encontrará a verdadeira salvação. Será?
Depois de um inicio estranho, o ritmo arrasta-se, prolongando-se por mais tempo do que deveria mas em termos globais funciona. Pelo meio, há cenas de extrema violência e desconcerto, incluindo assassínio e abuso psicológico e sexual. Cenas tão ou mais impressionantes que filmes que apostam no gore. O horror está na mente e Chan-wook Park é aqui, mais cerebral que visceral. Depois de dois filmes antecedentes muito bons, está claramente habilitado a seguir um caminho diferente com “Lady Vengeance”. Por ela sim, queremos sentir simpatia mas, realmente, depois de tanto sofrimento, de que serve a vingança? A vingança que vale por ela mesma é oca. No final, a vida continua tão miserável quanto antes. De nada serve sem redenção. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Chan-wook Park
Yeong-ae Lee como Geum-ja Lee
Min-sik Choi como Senhor Baek
Yea-young Kwon como Jenny

Próximo filme: "Merantau Warrior" (Merantau, 2009)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

"The Yellow Sea" (Hwanghae, 2010)



Falar de cinema coreano é fazermos uma associação mental aos nomes óbvios de Ki-duk Kim, Joon-ho Bong, Jee-won Kim e Chan-wook Park. Mas brevemente, mais do que se possa pensar, segundo creio, poderão juntar Hong-jin Na à lista dos melhores realizadores coreanos de sempre. Vou mais longe ainda, Hong-jin Na, com apenas dois filmes no portefólio pode figurar à vontade na lista de melhores realizadores de mistérios/crimes dramáticos ao lado de figuras como Scorsese, Coppola, Hitchcock ou Kurosawa.
Depois da estreia excelente com “The Chaser”, onde um ex-polícia tornado proxeneta enceta uma perseguição letal a um serial killer que escolheu as suas meninas como alvo, Hong-jin troca-nos as voltas e inverte os papéis. Em “The Yellow Sea”, Yun-seok Kim passa de anti-herói a vilão assumido e Jung-woo Ha, o antes vilão brutal torna-se agora um anti-herói.
Desterrado em Yanji, na província de Yabian, um enclave entre a China, Coreia e Rússia onde a maioria da população sobrevive de actividades ilegais e na extrema pobreza, Ga-num (Jung-woo Ha) equilibra o pouco dinheiro que tem entre o táxi e o mah-jong. Com as dívidas a acumular, uma filha pequena e uma mulher que foi para a Coreia do sul vai para seis meses e nunca mais voltou, Ga-num é um homem desesperado. Myun-ga (Yun-seok Kim) precisa de um homem assim e dá-lhe a oportunidade de saldar as suas dívidas. A contrapartida lá está, não é pequena. Jung-woo Ha deverá ir para a Coreia, matar um homem e entregar-lhe o polegar como prova do acto! Ga-num aceita a proposta tendo em vista o final feliz: a reunião com a mulher e uma vida livre de dívidas. Mas o seu percurso será tudo menos fácil. Se os bandidos se dão a grande trabalho para o fazer entrar ilegalmente no país, a partir do momento em que lá está, Ga-num é deixado à sua sorte, com apenas dez dias para cometer o crime. Ah e, já agora, se não fizer aquilo para que foi contratado matam a sua filha e mãe.

Nada é o que parece e Ga-num é rapidamente traído e descartado num país desconhecido. Ga-num é um peão no meio de um jogo perigoso entre Tae-won, o gangster local já estabelecido e um Myun-ga em ascensão que não se coíbe de fazer trabalhos sujos. “The Yellow Sea” é, em tudo visceral, nas lutas corpo-a-corpo, no sexo, nas magníficas sequências de perseguição, nos acidentes rodoviários… E Hong-jin Na obriga o seu personagem a sofrer em todos os aspectos. Note-se a solidão de um imigrante ilegal num país onde mal domina a língua, contido num silêncio forçado já que não tem ninguém com quem falar, nem mesmo existe quem o queira ouvir. É um imigrante chinês de origem coreana, que veio da pobreza e lá pertence. Ga-num não tem lugar numa cidade cosmopolita como Seul. Ele é um intruso, nem sequer é lixo, ele não é ninguém. Mas nesta estória de sobrevivência Ga-num cresce e o homem desajeitado desaparece. Ele arranja recursos e recorre à violência se necessário para lutar contra o destino que lhe querem atribuir e atravessar o mar amarelo. Daí a divisão em quatro capítulos: “taxista”, “o crime”, “Joseonjok” e “mar amarelo”. O enredo é extremamente intrincado e complicado de seguir e se “The Chaser” já tinha uma visão negra da sociedade e do crime, “The Yellow Sea” consegue acentuá-la ainda mais. A cinematografia acompanha esta visão desesperada ultraviolenta. Quanto à força policial, esta é ainda mais ineficiente do que no filme de estreia de Hong-jin, seguindo no entanto, a tradição do cinema coreano de ridicularizar as forças policiais do país. Qualquer thriller dramático que se preze tem um órgão policial cuja ineficácia é tão flagrante que os criminosos circulam livremente, cabendo pois aos heróis a reposição de um certo sentido de justiça ou a condução de uma vingança brutal. Contudo, é nas personagens que “The Yellow Sea” revela a qualidade superior. A Jung-woo Ha é permitido brilhar como o estrangeiro solitário na viagem mais importante da sua vida.

Gu-nam viveu preso durante toda a sua vida e quando é perseguido num país estranho pelo que fez e pelo que não fez, liberta-se das amarras e decide que não pretende mais viver enclausurado. A liberdade é a única coisa que lhe resta, visto que lhe tiraram a família, a terra e que não tenha mais para o que regressar se não as dividas e os bandidas que o atormentam com regularidade. Um homem que nunca fez grande coisa por ele e pelos seus, desperta do coma emocional e decide lutar contra as circunstâncias. Esta realização pode já ter vindo tarde. Se retirarmos todas as reviravoltas do argumento e traições esta é a estória de um homem que só quer regressar a casa. E uau, como é difícil. Quatro estrelas.

Realização:  Hong-jin Na
Argumento:  Hong-jin Na
Jung-Woo Ha como Gu-nam
Yun-seok Kim como Myun-ga
Cho Seong-Ha como Tae-won Kim

Próximo Filme: "Attack the Block", 2011

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Ichi the killer" (Koroshiya 1, 2001)


ATENÇÃO: Cenas de violência extrema!

É degradante. É extremo. É ofensivo. É do Takashi Miike. Nada de novo. Não obstante ser uma adaptação de uma mangá “Ichi the Killer” respira Miike por todos os poros. É o tipo de filme com o qual as crianças mais destemidas só deixarão de ter pesadelos quando estiverem bem na adolescência e os velhotes por pouco não terão uma síncope. Sim. É esse tipo de filme. Como tal e, numa manobra de marketing cinematográfico arriscadíssima, desafio-os a continuar a ler esta apreciação ou passarem rapidamente para a seguinte. A partir deste momento estão por vossa conta e risco. Coragem!


No seio da yakuza Kakihara (Tadanobu Asano), um assassino sadomasoquista, vulgo psicopata empedernido descobre que o patrão sumiu. Desapareceu. Desvaneceu-se no ar. Puff. Enquanto os restantes membros da “família” pensam que Anjo fez um desfalque e fugiu, Kakihara está convencido que “alguém o fez desaparecer”. Isso é um bocado mau por que um Kakihara insatisfeito é um homem extremamente perigoso. E ainda mais que o costume já que desapareceu o único homem que o fazia sofrer fisicamente como deve ser. Ele retira prazer da dor e Anjo é o único que lha sabe dar. Jijii (Shyn’ia Tsukamoto) surge na paisagem e acusa Suzuki de ser o autor do crime. Kakihara pode ser fiel como um cão mas não é propriamente inteligente. Então… Pobre Suzuki. O que Kakihara lhe faz, até que é finalmente convencido que Suzuki não tem nada a ver com o acaso. Não interessa. Foi divertido. Aliás, a nova pista é bem mais interessante. Diz que Anjo foi atacado por um tal de Ichi (Nao Ohmori), um temível assassino, sádico como nunca se viu antes. Kakihara vê vermelho… de alegria. É este o fado de quem se deixa agarrar por “Ichi” até ao fim. Assassinatos, tortura, violação, tudo no registo mais violento que possam imaginar. É que “Ichi” é terrivelmente gráfico. Bem, depende. Se são fãs de gore estão perante um excelente filme. Sangue, tripas, desmembramentos, sangue a esguichar por todos os lados, muito sofrimento do ser humano. Se não, como já disse antes, o melhor é verem um filme sobre uma casa assombrada ou assim. Não existe uma única personagem equilibrada neste universo. Uma única que se aproveite. Chanfrados ao extremo ou uns pobres coitados cujas acções mais depressa nos fazem detestá-los do que apiedarmo-nos deles.

No centro da trama encontra-se Kakihara, alguém que rezamos a todos os santinhos para que não exista na vida real. É um sadomasoquista assumido que se não fosse assassino teria de ser um talhante ou caçador. Sei lá. Aquilo só está feliz quando o mal está a ser praticado. E não é de falinhas mansas. Não há cá execuções com tiros para ninguém. Para ele, o acto de matar é como um consumar do acto sexual. Também não se percebe como ele se tornou perverso mas até os próprios subordinados têm medo dele. Dificilmente, alguém voluntaria para deixar Kakihara encostar a cabeça no seu ombro e contar-lhe todos os seus traumas. No espectro oposto encontra-se Ichi, um cobarde e um medroso, que foi atacado por rufias em miúdo e agora, na vida adulta, não se sabe defender. As mazelas de infância e um manipulador nato ajudam a torná-lo um assassino nato. No entanto, ele não sabe controlar os seus desejos, bem retorcidos por sinal, que o fazem ficar com uma erecção de cada vez que vê alguém a ser violentado, em particular, as raparigas por quem se sente excitado mas nunca sonharia satisfazer. E é assim, esta orgia de violência e sexo que faz desencadear uma série de actos inimagináveis e repugnantes. A estória tem algo muito vago que se assemelha a um fio condutor e apenas se aproveitam os personagens, sobretudo os dois antagonistas, saídos quase a papel químico de livros de psicologia, já que devem apresentar um pouco de todos os transtornos de personalidade existentes. Assistir a “Ichi the Killer” é saber que vamos assistir a uma viagem louca, na maioria das vezes desagradável. Então porquê ver? Talvez algum desejo voyeur qualquer de se ver como é a vida do outro lado? Vocês sabem que o têm... Duas estrelas e meia.


Realização: Takashi Miike
Argumento: Hideo Yamamoto e Sakichi Satô
Tadanobu Asano como Kakihara
Nao Ohmori como Ichi
Shyn’ia Tsukamoto como Jjii
Paulyn Sun como Karen
Suzuki Matsuo como Jirô / Saburô

Próximo Filme: Curta #1: "Unholy Women - Rattle Rattle" (Katakata, 2006)

domingo, 29 de abril de 2012

"The Chaser" (Chugyeogja, 2008)

Eu corro, tu corres, todos correm… No dia-a-dia, isto é. Levam-se vidas stressantes que não conduzem a lado nenhum para se ter um salário ao fim do mês, pagar as despesas e recomeçar tudo de novo. Joong-ho Eom (Yun-seok Kim), um ex-polícia, decidiu deixar de ser bonzinho ou, pelo menos, de fingir e usa os contactos no submundo do crime para se tornar um proxeneta. Talvez esta palavra não seja a mais indicada. Ele é uma espécie de gestor de clientes. Eles ligam-lhe a pedir uma menina, e ele faz o reencaminhamento dos serviços. As regras são simples: elas vão, fazem o serviço, pagam-lhe e ele distribui os “dividendos”, à sua maneira, claro. Só não vale bater nas meninas. Ai deles. Que elas são mercadoria, mas são a mercadoria dele. E não queiram ver um duro, enfurecido. Pois que tudo corre às maravilhas, até que as suas colaboradoras começam a desaparecer. Ele compreende algo que ninguém até ali tinha tido a destreza mental ou vontade de fazer: todas desapareceram depois de ter sido chamadas pelo mesmo cliente. E a última Mi-jin (Yeong-hie Seo), acabou de sair para ir ter com o tipo. Ninguém, tenta roubar as meninas dele. Ou será que a verdade é bem mais aterradora?
Joong-ho Eom é um chulo, um anti-herói. Mas é o único que se importa. No meio de um escândalo que envolve o presidente da câmara de Seul, no qual a inacção da polícia não foi o menor dos males, o desaparecimento de umas prostitutas parece uma inconveniência. Mesmo quando os ex-colegas de Joong-ho começam a acreditar que no caso há mais do que o simples tráfico humano, os meandros da política não os deixam agir de modo eficaz. E Mi-jin continua desaparecida. Cabe a Joong-ho Eom correr contra o tempo antes que seja tarde demais. “The Chaser” é um estudo de personagens, dos papéis que desempenhamos na vida real e da sua importância relativa. Há ainda lugar para uma forte crítica social e política, com as fragilidades da justiça a serem demonstradas em toda a sua crueza. É triste verificar que o bem não surge sem grandes defeitos e que o mal é uma encarnação perfeita de tudo a quanto reservamos aversão. A vida de uma pessoa vale menos por esta ter uma profissão moralmente condenável? É mais importante salvar a face sobre todos os princípios? O fim de salvar uma pessoa justifica a brutalidade policial? Uma tecnicalidade deve sobrepor-se a suspeitas gravíssimas sobre alguém?
Jung-woo Ha é Young-min Jee, o antagonista implacável, que é tão odioso que o actor corre o risco de as pessoas mais sensíveis confundirem a personagem com a sua verdadeira personalidade. Quando esta raridade sucede, sabemos que um desempenho foi mesmo bom. Dei por mim, a torcer pelo anti-herói, a ficar frustrada com a inactividade da polícia, aqueles de quem, afinal, se esperava mais e, o temível Young-min a crescer em maldade a todo o momento. E sabem o que é mais assustador? “The Chaser” é baseado em eventos reais. Young-chul Yoo foi capturado em 2004, depois de um ano de matança, no qual assassinou 21 idosos e prostitutas, a maioria deles, à martelada. Foi condenado à morte, sentença que ainda não foi executada.
A maioria dos “thrillers”, apenas o são de nome e, apenas por que algum génio do marketing decidiu que os apelidar de thrillers era bom para o negócio. Um thriller com um ritmo rápido e furioso, intenso e estressante é ainda mais raro. Não devem procurar mais longe do que na Coreia do Sul, terra dos sonhos dos thrillers, onde “I Saw the Devil” e “Yellow Sea” são mais do que felizes acasos. “The Chaser” enquadra-se confortavelmente entre os filmes anteriormente mencionados, em nada inferior, tão somente uma das melhores exportações do cinema coreano nos últimos anos e, sem dúvida alguma, um daqueles filmes de qualidade superior destinados a sofrer um remake de Hollywood. Em 2013, para ser mais exacta, com o DiCaprio e a mesma equipa que nos trouxe “Departed”. Alguém questiona a eventualidade de um Óscar no horizonte? Só me interrogo se a versão americana será corajosa o suficiente para tomar o mesmo caminho de “The Chaser”, ao invés de embrulhar tudo bonitinho como é seu apanágio. Não é para fracos de coração. Quatro estrelas.


Realização: Hong-jin Na
Argumento: Wan-Chan Hong, Chinho Lee e Hong-jin Na
Yun-seok Kim como Joong-ho Eom
Jung-woo Ha como Young-min Jee
Yeong-hie Seo como Mi-jin Kim
Seong Kwang Ha como Detective Park
In-ji Jeong como Detective Lee
Moo-yeong Yeo como Comissário da Polícia

Próximo Filme: "The Hunger Games", 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

"Haunted Village" (Arang, 2006)

O cinema sul-coreano sempre teve um fraquinho por mistérios. Grandes detectives forjados num cenário de tragédia pessoal desbravam caminho por entre os casos mais difíceis, até à sua resolução. So-young (Yun-ah Song) é uma detective determinada e perspicaz assombrada pelo passado, que a compele a entregar-se de corpo e alma a cada novo caso.

Depois de um período de suspensão por deixar as suas emoções levarem a melhor sobre si, num caso de violação, So-young regressa ao activo para investigar as mortes de uma série de homens que começam a surgir brutalmente assassinados. Todas as vítimas parecem ter ingerido ácido. Mais estranho ainda, todos eles, velhos amigos de infância receberam o mesmo e-mail antes da sua morte. Este contém um link que encaminha os internautas para uma página gerida por uma bela jovem e uma casa de sal. Em conjunto com um novo parceiro Hyun-ki (Dong-wook Lee), So-young faz uma viagem ao meio rural para encontrar a casa de sal e compreender, se existe uma ligação entre os dois eventos. “Arang” é uma sucessão de erros e lugares-comuns. Uma das cenas inicias é a de um casal no dia do seu casamento, rodeado de amigos prestes a tirar a fotografia da praxe. Os meus neurónios efectuaram logo uma ligação directa ao “Shutter” (2004). E sabem que mais? Não está muito longe. Ao longo de “Arang”, temo dizer que esta sensação é recorrente.
A novela detectivesca pode ser recuperada a outros filmes e como não podia deixar de ser, existem elementos sobrenaturais, nomeadamente, a mulher de longos cabelos negros com mau feitio.
“Bestseller” (2010), é uma cópia tirada a papel químico de “Arang” com a vantagem de ser mais eficaz e a desvantagem de ter estreado quatro anos mais tarde. Também a comparação entre as duas actrizes principais é inevitável e nesse campo, “Arang” fica a perder. Não é que Yun-ah Song não seja competente mas o que não faltam nestas produções são actrizes competentes e Jeong-hwa Eom é excelente. Além disso, a imagem da tecnologia como meio portador da morte está por demais desgastado. “Pulse" (2001), “Ring” (1998) e “The Grudge” (2008), pertencem definitivamente ao manual de assombrações do realizador Sang-hoon Ahn.
A dinâmica entre a dupla de detectives é boa, não sendo levado ao extremo o polícia novato vs. Polícia veterano. A sua relação também está no centro da maior reviravolta de todo o filme.
No entanto, apesar da peculiaridade das mortes que dão inicio à trama o caminho para a sua resolução nada tem de extraordinário. A linha de investigação resulta mais de saltos ilógicos que do seguimento de pistas à semelhança de uma verdadeira inquirição policial. Quando So-young decide, realizar uma intervenção cirúrgica de improviso ao cadáver do cão de um dos mortos, é surreal. Desde a justificação desta acção ao modo como a própria cirurgia é realizada, é tudo demasiado fantástico para ser verdade. Tipo, quantos procedimentos de segurança e higiene quebraram logo ali? Uma prova obtida por tais meios alguma vez teria admissibilidade em julgamento? E imagine-se só, eles encontram um vídeo entre o conteúdo do estômago da criatura. Uau. Que poder de dedução extraordinário. Para mais, o vídeo encontra-se em óptimas condições. Os ácidos no estomago do bicho não chegaram a corroer a prova nem nada. Espectacular.
Mas talvez o aspecto mais surpreendente num filme como “Arang” em que existem cenas tais como: “embora autopsiar um cão, sem instrumentos cirúrgicos por que tenho um palpite”, a película mantém a seriedade e prende a atenção do espectador. É interessante seguir So-young perseguir um caso que lhe está tão próximo do coração e vê-la conter-se para não perder a frieza analítica de detective para levar o seu empreendimento até ao fim. Como Ícaro ela quer voar cada vez mais alto, mas com a prudência recém-adquirida de quem não quer perder os ventos favoráveis de Zéfiro e cair do céu. “Arang” tem suficientes argumentos para não se deixar cair na tentação de seguir os truques de uma vintena de filmes que lhe antecederam o que, infelizmente, não acontece. Em última análise, “Arang” acaba por adoptar uma via feminista, da mulher que faz justiça pela mulher que não se pode defender e da mulher que pode ser fraca mas escolhe não ser uma vítima. E o desenlace podia ter sido verdadeiramente especial se o cineasta se tem quedado pelo encerramento do caso de polícia. Não. Por algum motivo, (atenção, spoiler), a assombração não morre com o caso e toma como sua vendetta pessoal as ofensas a So-young, deixando o caminho aberto para a sequela que, até hoje, não se materializou. E como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio. Duas estrelas.


Realização: Sang-hoon Ahn
Argumento: Sang-hoon Ahn, Seon-ju Jeong, Jeong-seob Lee e Yun-kyung Sin
Yun-ah Song como So-young
Dong-wook Lee como Hyun-ki


Próximo Filme:  "Doll Master" (Inhyeongsa, 2004) 

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"World of Silence" (Joyong-han saesang, 2006)

Se gostam de thrillers detectivescos com twists, então tomem atenção que tenho aqui algo especial para vós. Dirigido por Eui-seok Jo, "World of Silence" é um mistério à volta de meninas que começam a aparecer assassinadas, em circunstâncias muito estranhas. Elas são todas encontradas a envergar roupas estranhas e  a ostentar um ar pacífico como se tivessem tido o melhor tempo do mundo antes da morte... Agora, se o foco é a investigação policial? É e não é. Por muito interessantes que sejam os filmes em torno da investigação de um homicídio, às vezes falta-lhes um pouco de humanidade. É aí que "World of Silence" ganha pontos. Chamem-lhe thriller com alma se quiserem.
Temos um Detective Kim (Yong-woo Park), homem que já viu de tudo e cuja visão da lei é tudo menos a preto e branco. Até se dá ao "trabalho" de deixar fugir pequenos criminosos pelo gozo de os perseguir mais tarde. Não o entendam mal, Kim está bem resolvido. Apesar de o trabalho na força policial lhe consumir praticamente a vida toda, ele destrinça os pequenos delitos do grande crime. Mais resoluto e profissional do que Kim na caça de assassinos de crianças não haverá. Em paralelo temos um Jung-ho Ryu (Sang-kyung Kim), fotógrafo introvertido que adquire a custódia de Su Yeon (Bo-bae Han), uma menina do mesmo orfanato de onde as vítimas eram oriundas. Jung-ho é retratado como um homem misterioso e protector de uma vida, intencionalmente solitária para quem Su Yeon será somente um fardo. Além disso, Jung-ho possui umas capacidades brilhantes de dedução quase mediónicas até que apenas Su-Yeon começa a compreender. Assim se explica a paciência da criança perante a frieza e distanciamento de Jung-ho. Ou talvez seja apenas a forte carência afectiva de quem se encontra só no mundo. Jung-ho tam ainda o dom de se encontrar com o detective Kim nas circunstâncias mais suspeitas. Será ele o assassino? Será que ele alberga a sua própria vítima?
Kim encontra-se numa corrida contra o tempo para impedir que mais crianças sejam assassinadas e Jung-ho torna-se um suspeito natural. Ora, quando poderíamos pensar na criação de um duelo o argumento troca-nos as voltas. Valha-nos a imprevisíbilidade do enredo e o investimento nas personagens que a longo prazo se torna recompensador. Outro pormenor interessante é o assassino. Sem desvendar a sua identidade, a câmara foca as luvas de veludo a manusear bonecas e outros objectos. Mesmo sem o vermos ele está presente em cada passo da história como uma ameaça intangível ao longo de toda a narrativa. Mas a maior surpresa nem é a identidade do assassino, revelada no final da história, é mesmo o que dá o título ao filme. É digno de darmos uma palmada na cabeça e dizermos "Como é que eu não percebi isto?"
"World of Silence" é uma obra bem escrita, realizada e desempenhada que peca pelo rítmo lento e por uma cinematografia sem sabor. Diria mesmo que "não aquece nem arrefece". Podia ser pior. Claro. E melhor? Também. Mas satisfaz? Sim. A minha curiosidade mórbida foi plenamente satisfeita. Três estrelas e meia.

Realização: Eui-seok Jo
Argumento: Jin Han
Elenco:
Sang-kyung Kim como Jung-ho Ryu
Yong-woo Park como Detective Kim
Bo-bae Han como Su-Yeon

Próximo Filme: "Nightmare Detective 2" (Akumu tantei 2, 2008)
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