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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Março é Mês de Monstra


Diz que a Monstra - Festival de Animação de Lisboa está aí a rebentar e eu sou uma pessoa para não me deixar ficar (por casa). De 03 a 13 de Março, Lisboa (e não só) vão estar mais animados.  Em 2016 estamos em 32 salas, 61 escolas, 12 universidades. Vamos levar a MONSTRA e a MONSTRINHA a 10 cidades de Portugal e a mais duas dezenas nos cinco continentes. De Timor a Brasília, de Arras a Buenos Aires, de Berlim a São Paulo, de Maputo a Viena. Realizámos a quinta edição da MONSTRA em França. De 300 espectadores em 2002, ultrapassámos os 5.500 em 2016. São muitos números estão a ver? E este ano, a Monstra além da sempre interessante competição de longas-metragens, explora os lados dos inesperados balcãs. Mas independentemente disso, um dos meus filmes preferidos de sempre, quiçá, o mais-melhor-preferido "Spirited Away" (A Viagem de Chihiro) vai ser exibido na Secção "Históricos". Ouvem isto? É o som da criancinha que mora dentro de vós a rogar para que visitem a Monstra. Encontramo-nos .

domingo, 27 de setembro de 2015

"The Shrew's Nest" (Musarañas, 2014)


Por entre os devaneios retro de um “Turbo Kid”, a loucura sem limites de “Yakuza Apocalipse” ou os nervos contidos de “The Invitation” seria fácil “The Shrew’s Nest” (que teve uma presença discreta no Cinefiesta de 2014), passar despercebido na 9.ª Edição do MOTELx. Seria… mas não foi.


“The Shrew’s Nest” foca a estória de Montse (Macarena Gómez) e a irmã acabada de completar 18 anos (Nadia de Santiago). Com a morte prematura da mãe e o abandono do pai (Luís Tosar), Montse chama a si o papel de progenitora que assume com todo o zelo e autoridade. Acossada pelo temor do desconhecido Montse é uma reclusa na sua própria casa, fazendo trabalhos de modista e tendo por ligação mais imediata ao exterior a irmã que trabalha na loja de ambas. Na casa que governa com mão de ferro, Montse recebe ainda a Dona Puri (Gracia Olayo) cliente e boa vizinha de confiança há muitos anos conquistada, pois que qualquer pessoa que introduza no seu lar é uma pessoa a mais. Viciada em morfina, nos seus receios e fervor religioso que constituem a maior fonte de emoções numa vida sem acontecimentos, Montse não tem qualquer desejo de alterar a sua situação. Enquanto o exterior não lhe entrar pela casa adentro e conseguir manter a irmã com rédea curta estará no pleno da sua existência limitada.

No entanto, a irmã que até ali manifestara meros laivos de rebeldia inicia a demonstrar um preocupante desejo de independência e a questionar a autoridade de Montse. Entretanto, o vizinho do andar de cima Carlos (Hugo Silva) cai das escadas do prédio quedando-se perto da sua porta. Pela primeira vez em muitos anos Montse é confrontada com uma situação em que se sente forçada a sair da sua zona de conforto e toma a decisão de esconder Carlos que partiu uma perna no acidente, qual Annie Wilkes (“Misery” 1990). Receber um estranho na sua casa, ademais o sedutor Carlos revela-se avassalador para Montse. Um mundo de oportunidades se abre para ela. De súbito, tentar sair de casa parece menos assustador e a ideia da irmã a trocar por outra realidade não se assume como o pior que poderia suceder. A destruição destas ilusões românticas prematuras irá lançar Montse numa espiral de insanidade com contornos trágicos. Montse é uma metáfora da sociedade do ditador Franco. Desde o temor profundo que lhe é incutido através da figura do pai déspota e da religião obsessiva como guia orientador e resposta para quaisquer eventos que fujam aos padrões do que se entende por uma boa conduta, até à “claridade” de que um homem constitui a solução para todos os problemas.
Macarena Gómez é uma estrela como Montse. É esta personagem que confere uma força vital ao argumento. Ela é a Espanha franquista dominada pelo medo. Ela tem medo, incute medo e sobrevive através do medo. Ela teme o desconhecido e exerce o temor no castigo da irmã, no fundo, a única pessoa na qual pode descarregar toda a sua frustração e, em simultâneo, aquela que lhe permite manter alguma sanidade na sua cela voluntária. Quando surge um desafio ao seu poder, ela faz o que qualquer animal perseguido faz: ela luta com todas as suas forças para sobreviver. Só que o que ela entende como provocação, não é mais do que as vivências que qualquer indivíduo tem de ultrapassar para se melhorar enquanto ser humano.
A acção de “The Shrew’s Nest” ocorre quase na íntegra no apartamento das irmãs mas não está confinado ao espaço. Antes ajuda a criar um sentimento de empatia para com Montse e a sua agorafobia e, por outro, criar uma afinidade com a irmã de Montse que anseia ir além das paredes que a sufocam. O argumento foi escrito com uma sensibilidade que permite observar as personagens nas suas áreas cinzentas. Ninguém é por completo um monstro ou uma vítima. O sentimento de desconforto, a loucura que grassa nas paredes aguardando por um rastilho para explodir é palpável. A escalada e a recompensa demoram mas são rápidas e furiosas. Não é mesmo este o tipo de emoções que se esperam de um festival de cinema de terror?

PS 1: Texto publicado originalmente aqui.

domingo, 22 de março de 2015

MONSTRA a todo o vapor! - Parte 2


Gosto de pensar que a minha versão da “MONSTRA” foi parca em quantidade mas rica em termos de qualidade. De uma sexta-feira 13 de documentário, saltei para uma segunda-feira de “Pos-eso”, longa-metragem em stop-motion diretamente inspirada de um “The exorcist” e outros inúmeros filmes indissociáveis da evolução da história de cinema de terror (e não só) sem perder um travo caliente. Desde “Evil Dead” a “A trip to the Moon” de Méliès, passando por “The Omen”, nada escapa a Sam, e realizador e escritor com um sentido de humor caustico e, para mal dos pecados católicos, herege. A melhor bailarina de Flamenco do mundo, Trini (Anabel Alonso) tão fogosa na paixão quanto na dança, tem um casamento relâmpago com o melhor toureiro à face da terra. Uma relação que faz correr tinta pelas revistas cor-de-rosa espanholas que auguram o melhor para Damian (Santiago Segura), o filho de ambos. Após a morte do marido num acidente terrível, qual cruel partida do destino Trini entra numa espiral de depressão que a impede de reconhecer que há algo muito errado com o filho. Cabe pois ao padre Lenin (Josema Yuste) que enfrenta uma grave crise de fé salvar Damian do demo. Podia pôr-me a palrar sobre a falta de originalidade e apego demasiado aos filmes que o inspiraram. No entanto, a animação estava fantástica e nenhuma piada caiu no vazio. Não se ouviram grilos. Quando muito, houve espectadores mais atentos que solicitaram a outros que se calassem. As piadas auto-referênciais tendem a ter esse efeito. Sala cheia, ambiente excelente mas não foi filme para Grande Prémio.



De regresso ao Cinema Ideal e, em dia de “The Tale of The Princess Kaguya” no São Jorge, eis que a Sessão “Terror Anim – Amaldiçoados” esteve quase deserta. Com menos de metade da sala preenchida aparentava estarem presentes apenas os fãs do cinema de terror, ainda que em doses residuais. Sessenta e um minutos de sessão não se assemelha a muito, pois não? “Amaldiçoados” é um festival de curtas-metragens de terror que se realiza anualmente no Brasil. A MONSTRA teve a feliz sorte de apresentar 12 curtas entre prémios do júri e do público do festival da edição de 2014. Os resultados foram… mistos. Entre as melhores propostas as curtíssimas “Super Venus”, “The Zombie Survival Guide” que mais parecem uma crítica aos cânones de beleza do séc. XXI e um panfleto animado sobre como sobreviver ao impensável, respectivamente e “The Taxidermist” em que o homem que dava vida àquilo que morreu encontra ele próprio o Fado. “Unhudo” é um caso estranho, baseado numa lenda que terá merecido o voto mais pela proximidade do que pela estória ou animação e quanto menos se disser sobre ele melhor. Uma curta visualmente impressionante mas que me deixou ambivalente foi “The Obvious Child”. É uma curta espantosa, perturbadora, aquilo de que são feitos os pesadelos e difícil de digerir. Então que sentimento é este que me impede de avançar com algo mais do que um “não sei se gostei”? De entre as diversas sessões foi a que me deixou mais insatisfeita, pela diferença óbvia na qualidade entre as propostas, pela baixa qualidade de algumas, porque queria mais… Uma sessão que não ficará para a história. Já nas longas-metragens seguintes, conseguiria encontrar mais motivos para ficar contente. Mas para isso, terão de esperar.

PS: Entretanto fiquem com os vencedores.


sábado, 14 de março de 2015

MONSTRA a todo o vapor!


O certame arrancou dia 12 e, lá estava o Not a Film Critic, na sessão de abertura lotada da Sala Manoel de Oliveira no São Jorge, para fazer a sua cobertura completa e seríssima – not really. Houve mais do mesmo: “este ano vai ser mais melhor bom que o anterior”, momentos musicais de altíssima qualidade (fiquei fã da Mariana Abrunheiro e da Jacqueline Mercado) e algumas personalidades foram convidadas a ir ao palco, incluindo EGEACs, ICAs e realizadores estrangeiros, por entre muitos abraços e beijinhos e o Fernando Galrito (Director Artístico do Festival) falou, falou um pouco mais, falou bastante e por fim, lá se calou, deixando a sensação de que 10 dias são uma gota de água num oceano de cinema animado.

Entre as tantas, demasiadas novidades, destaca-se o separador giríssimo “Rayuela – Jogo da Macaca” criado por Nico Guedes e pela Miss Suzie, dotada de uma brutal energia positiva, que contagiou sala inteira com o som dos seus passinhos rápidos e alegria nervosa. Made in Portugal, pois com certeza. Seguiram-se propostas da América Latina como um “La Gran Carrera” (1935), “Quinoscopio” (1987), “Hasta los Huesos” (2001) e “Llluvia en los Ojos” (2014), pois que este ano, o festival de cinema de animação de Lisboa homenageia a América Latina. Foi uma verdadeira viagem no tempo e pelas diferentes técnicas de animação, que fizeram recordar alguns “Grandes” como o Quino, mais conhecido pela eterna chica-esperta Mafalda; rir de “caixão à cova” ou provocar chuva nos olhos… A retrospectiva dedicada ao Japão quase passaria despercebida, não estivessem uns certos Isao Takahata e Hayao Miyazaki na programação. O único outsider é Mizuho Nishikubo com o seu “Giovanni’s Island (2014), na Competição Oficial de longas-metragens. As propostas remanescentes destes autores são: “The Wind Rises” (2013), “Pom Poko” (1994), “Only Yesterday” (1991), “My Neighours the Yamadas” (1999) e “The Tale of the Princess Kaguya” (2014) e que me levam ao documentário “The Kingdom of Madness and Dream” (2013).

Exibido no Cinema Ideal, na minha estreia nesta sala íntima (é mais bonito do que chamar-lhe pequena), e com lotação quase cheia, tinha as expectativas sem dúvida, por demais, elevadas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Eu MONSTRO, Tu MONSTRAS, Nós MONSTRAMOS


A MONSTRA – Festival de Cinema de Animação de Lisboa regressa em 2015, de 12 a 22 de março, para celebrar os seus 15 anos. Nesta edição, o festival irá prestar homenagem ao cinema de animação da América Latina, com uma grande retrospetiva. Ao todo serão exibidos 75 filmes, 6 longas-metragens e 5 sessões de curtas-metragens destes países.

Para comemorar os seus 15 anos, a MONSTRA vai lançar durante o festival um dvd que compila 15 filmes de animação para os mais novos. Ainda no âmbito destas celebrações, João Garção Borges, realizador do extinto programa da RTP2, Onda Curta, irá programar uma sessão dedicada aos melhores filmes apresentados na MONSTRA e neste programa televisivo. O programa de documentários da Monstra, Dokanim, irá apresentar filmes do Festival DokLeipzig que refletem os 15 anos da Monstra. Ainda para celebrar estes 15 anos, haverá uma sessão dos melhoresvideoclips feitos em cinema de animação e outra de cinema de animação experimental. Já na FNAC Chiado e Fábrica Braço de Prata, serão exibidos os 15 cartazes da Monstra, desde o nascimento do festival, em 2000. [Comunicado de imprensa]

Leram tudo até aqui? Lindos meninos. Se bem que esta pessoa não tem por hábito fazer copy & paste de comunicados de imprensa com mais de uma página. Ler a meios que cansa e, por muito interessante que o programa seja (e é!), mais vale ir directa ao assunto.

Em tempos que já lá vão (fins de novembro do ano passado e até meados de janeiro de 2015), fiz uma maratona de cinema de animação. Estava a meios que imbuída ainda de um espírito, quiçá natalício, que me incitou a ver Hayao Miyazaki, Satoshi Kon, Mamoru Hosoda e Isao Takahata de enfiada. Juro que não me estou a armar numa daquelas pessoazinhas arrogantes que se põe a citar nomes para se mostrarem imensamente cultas, até porque alguns, tive mesmo de os ir pesquisar, que tenho memória de peixe e esqueço os nomes dos realizadores mas quero, não… Insisto, que vão pesquisar as obras destes senhores e as visionem. Divago. Digamos que se quisessem uma lista de essenciais de animação japonesa, eu, que posso ou nada sei a respeito das idiossincrasias do género, recomendaria fortemente estes quatro senhores, sendo que, voilá, a MONSTRA, dedica a dois deles, precisamente uma secção. Ou melhor, ao cinema de animação japonês, homenageando Takahata e exibindo ainda a última longa-metragem concretizada de Miyazaki “Wind Rises”. Do primeiro serão exibidos: “The Tales of the Princess Kaguya” – baseado na fantástica lenda do Cortador de Bambu que ela própria já merece a vossa curiosidade –, “Pom Poko”, Only Yesterday” e “My Neighbors the Yamadas”. E qual cereja no topo do bolo figurativo, o documentário “The Kingdom of Dreams and Madness” que foca o trabalho destes dois senhores. E porque me alongo sugiro mesmo a consulta do website da MONSTRA claro!

Conclusão: esta pessoa vai tentar estar lá. E você?

PS: A não ser que sejam visitantes de outro país. Então que sejam muito bem-vindos a este blogue e… Roam-se de inveja.

PS 2: Diz que também uma secção de animação de terror. Calo-me já, já.

domingo, 7 de dezembro de 2014

“NAFF – Not a Film Festival”- parte 1 ou, um GPS dava jeito!



Já tinha dito que queria ir. Mas entre compromissos, chuva, frio, sonos retardados e alguma preguiça vá, fui adiando. Era domingo à noite (21 de novembro) e feita corajosa fiz-me à estrada. Foi ali para os lados de Benfica, num Turim que não é visitado o suficiente e não tem rede telefónica. Quem precisa disso numa sala de cinema?! A chegada foi uma aventura. Na minha melhor demonstração de incompetência em sentido de orientação e apesar de já lá ter passado umas quatro vezes, fui incapaz de chegar à sessão “Not a Film About Us” a tempo. Percorrer a estrada de Benfica à noite e ao frio é uma experiência fascinante mas não tanto quanto teria sido ter assistido às duas sessões a que me propus. Felizmente não ia em trabalho, como uma jornalista a sério, se não levava uma reprimenda do chefe! Assim, quedei-me pel’ “A Máquina”, que apresenta um velho barbudo e engenhocas, grande cientista autodidacta desconhecido do nosso tempo; uma “Emília” que descobre a jovem rebelde e revoltada que há em todos nós (que permanecemos em Portugal), a “Fúria” de miúdos cujos pais deverão pensar algo como “antes levarem nas trombas num ringue” do que andar na rua na vadiagem e “A Remissão Completa” sobre a redenção de um incorrigível.
“A Máquina” é um mix de qualquer coisa cómica com qualquer coisa de desconcertante. Todos têm um “louco” na sua vida. Aquele género de pessoa que é meio exagerada e meio genial e tivesse ela apoio (recursos humanos e materiais – não falemos de dinheiro por aqui), quem sabe que resultados podiam advir daquela loucura metódica? O avô deseja construir uma máquina que crie uma energia eternamente renovável. Ele admite que talvez nunca venha a conseguir alcançar o seu objectivo e que enquanto possuir a faculdade mental e vigor físico a busca incessante irá manter-se. As suas confissões meandram entre a paixão pela verdade e o afastamento da solidão. “A Máquina” revela-se pois o exercício mais forte, mais intimista, afinal é dedicada a um avô, numa sessão onde se esperava que o cenário mais próximo dos corações se encontrasse na desolada “Emília”. Após um documentário melancólico “Emília” não parece procurar a esperança. À semelhança de muitas outras jovens, ela encontra-se desempregada e desesperada com a situação financeira. Com uma mãe doente e com as mais recentes perspectivas de emprego goradas, a independência não passa de uma miragem. A isto não ajudam as estórias de outros mais bem-sucedidos e “amigos” condescendentes. Se ela quisesse podia ter um trabalho, tem é de se sujeitar. Depois surgem os rebeldes com uma causa, que lhe dizem para lutar contra o sistema, por um destino melhor. Porque parecerá toda esta sucessão de acontecimentos uma encenação? Já o vimos demasiadas vezes? Ou é “Emília” a jovem que podia ser anónima mas não é e representa todos esses jovens anónimos desesperados uma película sem alma? Em 15 minutos, Emília encontra dentro si a força para a ruptura. O que a compele para uma marcha lenta, inútil e sem quaisquer efeitos práticos contra forças que auxiliam a manutenção do status quo mas o representam. Lutar contra canhões com uma pena, hã? “Fúria” descreve o quotidiano de miúdos de um bairro pobre que entre as brincadeiras de rua descarregam a energia no boxe. É uma coisa positiva estão a ver? Dá aos miúdos um objectivo e afasta-os da realidade brutal da rua. Praticam um desporto, adquirem disciplina e descarregam a bílis. Está implícito. É um retrato. E ficamo-nos por aí.
 “Remissão Completa” completo com uma alusão ao cancro é uma estória em tons de rosa. Um homem odioso, daqueles que têm tudo menos um coração perde a razão de ser quando perde a mulher para um cancro. Ele retirava tudo a quem tivesse de ser, para seguir as ordens rígidas, cegas do banco para o qual trabalhava. Um dia, uma das suas vítimas diz-lhe algo que ressoa dentro dele. Como umas palavras ecoam dentro de um corpo oco é um enigma mas é o que acaba por suceder depois do Karma fazer das suas. O mal que lançou para mundo é-lhe agora devolvido. Perde a mulher que amava – notem que no inicio ele está numa discoteca a beijar uma mulher que poderá não ser a esposa –, passa a viver num quarto arrendado com uma velha senhoria (pobre coitado) até que um dia encontra a hipótese. Não, o desejo, da redenção numa boa acção. A moral da estória não é a de que “um Homem pode mudar” mas a de que se cometer um acto altruísta resultante de um desejo egoísta: “se eu fizer uma boa acção, eu poderei ser melhor logo, terei uma boa vida novamente”, isso, não é censurável. E para concluir o facto de ele se ter tornado uma pessoa melhor, ele necessita de narrar aquilo por que passou a um amigo de infância. Narcísico no mínimo. A grande vitória do pouco que tive oportunidade de assistir nesta sessão “Not a Film About Us” foram as ideias havidas e não necessariamente o modo como foram retratadas. Duas estrelas e meia.

Curta-metragem #1: “A Máquina”
Realização: Mafalda Marques

Curta-metragem #1: “Emília”
Realização: Diogo M. Borges
Argumento: Diogo M. Borges

Curta-metragem #3: “Fúria”
Realização: Diogo Baldaia
Argumento: Diogo Baldaia e Manuel Rocha da Silva


Curta-metragem #4: “Remissão Completa”
Realização: Carlos Melim
Argumento: Frederico Ferreira

Próximo Filme: "The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Motelx abre com um toquezinho a Coreia*



O Motelx está aí a rebentar (é só em setembro mas quem está a contar os dias?) e os fãs de terror têm razões para ficar contentes. A conferência de imprensa do Motelx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa deixou antever que, entre outros, o cinema São Jorge tem o Teatro Tivoli por companheiro e que os primeiros filmes anunciados deixam água na boca. SÓ na secção Quarto Perdido vamos ter películas como “Life After Beth” que se não reinventa a comédia zombie, pelo menos dará para recordar nostálgico o “Shaun of the Dead” – desculpem qualquer coisinha mas gosto de fingir que o “Warm Bodies” não aconteceu e que vai ser exibido o mais brutal, mais assombroso e menos hiperbólico filme que já se viu na tela desde o “The Raid: Redemption”, o “The Raid 2”. E porque não se diga que as criancinhas não têm a devida atenção, vem aí o Lobo Mau com o “Pinocchio”, “Fantasia” e “Snow White and The Seven Dwarfs”. Tudo clássicos de levar os meninos às lágrimas e recalcamentos tais que só passados muitos anos de terapia é que irão compreender que na base dos seus medos mais profundos se encontra aquele filme inofensivo que os pais os levaram a assistir há tanto tempo atrás. E se a organização quiser fazer mesmo mazelas, pode ser que para o ano exibam “The Rescuers”. Se não gostarem desse filme de animação não têm coração meus queridos. Ai naninanão que não têm. Pobre Penny. Mas já voltamos a esse filme…

E como não estivessem já os cinéfilos com o apetite bem aguçado, eis que o prato principal e sobremesa foi “Snowpiercer” de Joon-ho Bong*. (Sim, eu sei que estão fartos de ler em todo o lado “Bong Joon-ho” mas por uma questão de coerência deste estaminé é nome próprio seguido de apelido, sim?) Num futuro pós-apocalíptico, ou como costuma fazer sentido que se iniciem quaisquer críticas que se refiram a um futuro mais ou menos indistinto onde a humanidade se encontra quase extinta porque esta, sozinha, contribuiu para a destruição do planeta (quem diria?), um super-comboio atravessa o globo ininterruptamente. Porquê? Não é como se importasse, fá-lo e pronto. A terra encontra-se a atravessar uma era glacial e o comboio é a única esperança de sobrevivência da humanidade. Para não variar, o Homem continua no seu melhor. No comboio vigora um “Estado” Totalitário sob o comando do elusivo Wilford e os habitantes nas carruagens inferiores estão reduzidos a meros mendigos. Porcos, feios e quase despojados de humanidade aguentam as piores sevícias até ao mais recente dissabor. Os passageiros da frente reclamam duas pequenas crianças para si (vide “The Rescuers”) – juro que não spoilo mais nada –, e eles decidem enfim, encetar a revolta. O objectivo? Chegar à cúpula. O que farão depois disso logo se verá. “Snowpiercer” não é nenhum “The Host” (2006) ou “Memories of Murder” (2003), mas serve para o efeito e, como vou dizendo, bom seria se todos os realizadores tivessem pelo menos um grande filme no currículo. “Snowpiercer” é um híbrido, criado para apelar um público mais vasto ou não fosse o protagonista um Chris Evans ainda assim, “enfeiado” com um nariz prostético para se parecer de forma vaga com um vagabundo comedor de criancinhas. (Não, desta vez a prótese não dará direito a um Óscar). O elenco é um desfile multiétnico de grandes estrelas e actores consagrados num produto que devia ser o grande filme catástrofe da segunda década do milénio ficando apenas a instantes disso mesmo. Não me entendam mal, “Snowpiercer” é mais cerebral que qualquer cataclismo que tenham visto nos últimos anos: se retirarmos o comboio imparável e as personagens excêntricas (se não soubesse, não conseguia reconhecer a Tilda Swinton!), a ideia base é conhecida, incidindo sobre a luta eterna do homem contra os seus pares. A impossibilidade de colaboração por oposição à competição, a concepção da superioridade de uns sobre outros e a consequente exploração dos subjugados por aqueles que detêm os recursos essenciais à geração de vida são tão reais agora como eram há centenas de anos, com a diferença de que agora utilizamos números para descrever a situação: 99% versus 1%. A tese da novela gráfica em que “Snowpiercer” se baseia causa desconforto e aí poderá residir um dos elos mais fracos para a captação de audiências. Isso, e cortes desnecessários (que levante a mão em que acha que os Weinstein deviam guardar o lápis azul). É dado tantas vezes repetido que o Homem tende a evitar o desconforto e a buscar o prazer. Mas também é verdade que filmes de desastres são muitas vezes ridículos servindo apenas combustível suficiente para a audiência sair da sala de cinema agradada com a mensagem de esperança de final. Pouco espaço é deixado para a reflexão. Então, porque é que Joon-ho Bong fez a aposta controversa de realizar um filme catastrófico, com tão desagradável subtexto social? Duas desgraças num só filme? Venham daí mais que, meus queridos fãs de terror, é este o nosso alimento e o Motelx ainda agora começou... Três estrelas e meia.


Realização: Joon-ho Bong
Argumento: Joon-ho Bong e Kelly Masterson
Chris Evans como Curtis
Kang-ho Song como Min-soo
Ed Harris como Wilford
John Hurt como Gilliam
Tilda Swinton como Mason
Jamie Bell como Edgar
Octavia Spencer como Tanya
Ewen Bremmer como Andrew
Ah-sung Go como Yona

segunda-feira, 10 de junho de 2013

NAFF - Not a Film Festival: Not a Scary Session - Parte 3

Chegados ao epílogo dos comentários à Not a Scary Session do Not a Film Festival, chega pois a parte mais difícil que é a da despedida. Por aqui vê-se, assumidamente, pouco cinema português e com grandes intervalos de distância. Parte preconceito, que entretanto se tem vindo a desvanecer, parte hábito. É um mea culpa, mas pelo qual assumo total responsabilidade. E a sensação com que fiquei, depois de uma mera sessão de cinema é de que estou a perder imenso e que tenho de me redimir pois, mesmo as curta-metragens menos sólidas demonstram uma técnica, um desejo de aprender e uma vontade de vencer admiráveis. Atestam também aquilo que já se sabe em alguns meios mas alguns parecem não querer acreditar, o cinema nacional está bom e recomenda-se.

“Projecto V”

Sinopse: “Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.” - Sigmund Freud. Quando um predador é movido por sentimentos de vingança, o que poderá a presa fazer dentro de quatro paredes? Deverá aceitar o seu fim?”
Antes de virem para aqui dizer que a je é muito má deixem-me que vos lembre vingança é um dos temas mais explorados em cinema. É extremamente difícil ser original no que a este tema diz respeito. Posto isto, podia-me lembrar para assim de repente de uma centena de referências cinematográficas onde “Projecto V” pode ter ido beber. Se é que não foi mesmo… Logo à primeira e sem ler o titulo, “V”… de Vingança, certo? Pondo de lado o título óbvio, viram o “Buried”? O protagonista está encurralado sem qualquer hipótese de escapatória e é atormentado por uma voz que não consegue identificar. Já se fez tudo isso antes e melhor. E a jovem protagonista precisava de mais uns minutos até ficar no ponto rebuçado: o choro, seguido de histerismo e desespero, passa-se à velocidade da luz. Pouco credível. Uns minutos mais e… Também a câmara é pouco intrusiva, como se existisse medo de penetrar a intimidade da actriz. Mas ela é uma vítima, o espaço íntimo já foi violado, pelo que é de estranhar o receio de aproximação ao corpo de delito. Uma estrela e meia.

Realização: Bernardo Gomes de Almeida
Duração: 11 minutos


“Som do Silêncio”

A Fernanda Serrano desperta emoções estranhas na minha pessoa. Quero gostar dela terrivelmente mas não consigo. E o facto de dar a cara pelo tipo de livros popularuchos que só as donas de casa com pouco que fazer lêem não a ajuda. Mas depois temos 11 minutos onde a Fernanda demonstra que sem falar consegue dizer muito e tudo fica bem no meu mundinho. O “Som do Silêncio” tem uma ideia profundamente provocadora, a de uma realidade onde as pessoas não podem falar (não, em público, pelo menos). Censura sobre a forma de lei. Umas linhas não se podem sobrepor a uma necessidade humana. Ou podem? É um problema de equilibrismo, aquele que opõe a lei à razão. A resposta de Joana ao problema é apenas um tipo de clausura diferente. O cenário é o museu de arte antiga. Local bem a propósito. Durante séculos afim e, ainda hoje, em algumas regiões do globo tentam calar a arte. Três estrelas.

Realização: Paulo Grade e João Lourenço
Duração: 11 minutos

“Utopia”

“Utopia” é difícil de definir. Mas como diria Joana Maria Sousa, que este simpaticamente à conversa com Not a Film Critic nem podia ser de outro modo. Ela é adepta das sessões de cinema partilhadas, com finais em aberto, que geram discussão e especulação. A sua fantasia envolve duas jovens acossadas. Será uma delas a própria Joana. O perseguidor é desconhecido mas hipóteses não escasseiam. As jovens são vítimas dos seus próprios sonhos, são o reflexo de uma vida anterior, um alter-ego? É possível efetuar a distinção mediante o recurso de filtros. A decisão por uma das realidades reside na mente de quem a vê. Duas estrelas e meia.

Realização: Joana Maria Sousa
Duração: 9 minutos


“Still Room”
Um quarto. Uma mulher inquieta. E uma sucessão de imagens que deviam ter sido antecedidas de um aviso a pessoas com fotossensibilidade e/ou epilépticas. Como trabalho de um artista visual tendo por objectivo a contemplação e discussão funciona. Como estória é fraco. Uma mulher revolve na cama, levanta-se para ir à janela e volta a deitar-se. Crise de insónia contada através da fotografia em sucessão, estática. Não da imagem em movimento. Estrela e meia.
Realização: Mafalda Relvas
Duração: 2 minutos

“O Fim do Homem”
Ou o exemplo clássico da magia da pós-produção. Uma jovem possui um amuleto que poderá salvar a Terra do Apocalipse. Mas enquanto uns lutam para a salvar, as forças do mal não se deterão a nada para obter tal fonte de poder. E sabem que mais? Pode já ser tarde demais.
Enquanto a estória não oferece nada de original, com a ratinho de biblioteca a servir de peça central, capangas à la ninjas e a lutadora das forças do bem de ar andrógino, é o trabalho digital o que mais sobressai numa sessão onde os “efeitos especiais” foram poucos e longínquos. Três estrelas.

Realização: Bruno Telésforo e Luís Lobo
Duração: 9 minutos

Próximo Filme: “Paranormal Activity – Tokyo Night”, 2010

quinta-feira, 6 de junho de 2013

NAFF - Not a Film Festival: Not a Scary Session - Parte 2

Eis que estamos a meio da sessão e eles, os cineastas entram a matar. Desafiam-nos com duelos, tentam-nos a jogar o politicamente correto pela janela e a exercícios de introspecção. Talvez algumas destas curtas nem sejam assustadoras de todo. Umas resultam, outras dão saltos lógicos que desafiam a compreensão - se calhar uma curta-metragem é muito pouco tempo.

“Duel”

Um rapaz, uma rapariga, uma parede e uma lata de spray. Ele é todo ele contestação, ela arde pela paz, amor e todas aquelas causas que a candidatariam, num mundo ideal a santa. Mas como ainda é só beata resta-lhe combater, no mesmo terreno o jovem que guarda tanta agressão dentro dele. E como sabemos tudo isto, se eles não dizem uma única palavra durante os quatro minutos? Diz que o material é bom. Não diria que “Duel” é de um visionário mas é transportável para qualquer sociedade. Três estrelas.

Realização: Philippe Teixeira Tambwe
Duração: 4 minutos


“Brinca com o Fogo”
“A Mãe de César, um adolescente ligado ao activismo político, tem que enfrentar um horrível dilema, quando o filho chega a casa transtornado, vindo de uma manifestação.”
Quem brinca com o fogo queima-se… Ou então tem uma mãe assim, que deixa pecar e absolve. A punição é a possessão de consciência? E se a não tiverem? Seria a intenção desta curta-metragem, a crítica social? E a violência a forma de luta justificada com a anuência de um progenitor? Ou apenas, uma mãe que protege a cria contra tudo e todos, independentemente, deste ter tomado opções erradas? “Brinca com o Fogo” quase que podia ser a antítese de “Duel” que torna a arte a sua arma de arremesso e onde os personagens chamam a si a responsabilidade para os actos que cometem. Em “Brinca com o Fogo” fala-se muito mas o seu significado é mais nevoeiro que outra coisa. Duas estrelas.

Realização: Rui Esperança
Duração: 8 minutos

“De mim”
É “de mim” mas podia ser facilmente denominado “Viagem ao centro do cérebro” do Carlos Melim. A viagem tem tanto de tormento como de fascinante. Carlos Melim é um pensador, um daqueles que mói e remói os acontecimentos de uma vida. As imagens decorrem em sucessão, alternando entre os enquadramentos de uma entidade unívoca mas que nunca é claramente identificável podendo confundir-se com todos os homens e paisagens (posso dizer ofegantes?) – a cinematografia é de todo em todo magnífica. É uma conversa íntima de si para si, enquanto assistimos e nos integramos e convertemos. É um monólogo interior com vista à ascensão a um plano superior. Paz de espírito? Os delírios de Melim podiam ser os nossos. Aí se encontra a força da narrativa. Foi por isso, que enquanto uns encolheram os ombros, outros se arrepiaram. Três estrelas.

Realização: Carlos Melim
Duração: 5 minutos


“Analepsis”
É sempre preocupante quando a técnica é a personagem principal. Analepsis é um recurso que permite contar uma estória de modo não linear. Sublinho o auxiliar a contar uma estória e não substituir-se à mesma. Dois polícias vão no carro, são chamados para uma ocorrência. Uma rapariga é atacada em casa. Os polícias chegam e investigam. Ah e parece que um deles não é parte inocente no evento. Podiam ter um elenco só de clones do Isaac Alfaiate que isso não a iria tornar mais interessante. Incapaz de provocar mais que a indiferença. Curiosamente é a curta que inicia o ciclo de violência sobre a mulher até ao final da sessão. Mesmo que essa violência seja provocada pela própria. Uma estrela e meia.


Realização: Rodrigo Duvens Pinto e Ricardo Mourão
Duração: 5 minutos


PS: A fotografia minha gente. Já viram do que são capazes alguns destes "meninos"?

Próximo Filme: NAFF – Not a Film Festival: Not a Scary Session – Parte 3

domingo, 2 de junho de 2013

NAFF - Not a Film Festival: Not a Scary Session - Parte 1


Eles dizem que não é um festival de cinema. Eu acho que estão a enganar-nos.

O Not a Film Critic esteve presente na “Not a Scary Session” de dia 31 de Maio, no auditório Carlos Paredes para uma mini-maratona de curtas-metragens que “não metem medo ao diabo”. E se a sessão sofreu um atraso que fez com que a audiência apenas deixasse o auditório muito depois da hora que os pediatras aconselham a que as criancinhas estejam na cama a dormir, mal se deu pelo tocar das 12 badaladas. Aqui fica a primeira parte de uma viagem pelo jovem talento do cinema nacional.

“O Troco”
Alguém disse micronarrativa? É cool e tem mais piada que 90% das propostas de agências de “criatividade”. Mas é uma curta? Desbastem uns segundos a mais de “O Troco” e têm um anúncio ao chocolate Mars. Soraia, embora? Duas estrelas e meia.

Realização: Soraia Ferreira
Duração: 3 minutos

“Walkie - Talkie”
Luís e Mário são dois seguranças de um estúdio de televisão que preferem ficar a jogar Mario Bros a fazer a ronda no estúdio de Televisão onde trabalham. Numa noite alucinada, (demasiado jogo dá nisto), Luís e Mário acabam engolidos pelo aspirador do Velho homem das limpezas conjuntamente com a barata gigante e faladora Kedixktem. “Walkie & Talkie” parece o sonho cor-de-rosa da malta que desejava nunca ter saído dos 80’s, que jura a pés juntos que o Super Mário é e será para todo o sempre, o melhor jogo para consola alguma vez criado e que ligava às 3 da manhã para as televendas quando ainda não existia TV por cabo porque não tinha nada para fazer. “Walkie-talkie” também não fica a dever nada à experimentação com drogas alucinogénias, que o roubam de qualquer sentido mas, foi ou não, a maior trip da sessão? Três estrelas e meia.

Realização: João Lourenço
Duração: 9 minutos

“Cool”
A sinopse desta curta diz qualquer coisa como: Zé Barata, agente especial da União Nacional de Cervejas, recorda os tempos de novato, nomeadamente o duelo com Jorge, o Terrível, no dia em que passa o testemunho ao irmão mais novo, Chico Barata. Esta curta que tem feito as rondas dos festivais só tem um problema: tenta ser fixe. E não é preciso. Bastaria a Zé contar a estória do seu encontro com Jorge, o Terrível, (Joaquim Nicolau na sua melhor imitação de Clint Eastwood). A sua interpretação de agente Smith versão hipster em contraste com o “Saloon”, onde os putos jogam matraquilhos e os velhos que jogam à sueca onde uma má cartada poderá significar desatar aos tiros (num sentido metafórico vá), tem tanto de anacrónico como de bom: a cerveja e a guitarra portuguesa não enganam, estamos mesmo em território nacional. Façam-me só um favor: dêem um chapéu de cowboy ao Joaquim Nicolau e ficamos com um “Matrix Western em português”. Três estrelas.

Realização: João Garcia, João Rodrigues e Francisco Manuel Sousa
Duração: 10 minutos


Próxima Publicação: NAFF – Not a Film Festival: Not a Scary Session – Parte 2

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sessão Especial MOTELx - parte 1


Dia 1: Genérico Inicial – 12 de Setembro

“The King of Pigs” (Dwae-ji-ui wang, 2011) - Coreia do Sul

Apreciando terror como é do conhecimento geral, ou pelo menos, de quem aqui passa, decerto não passou despercebido como tive vontade de ficar todos os dias, todo o santo o dia, lá dependurada. Infelizmente houve algumas falhas graves que irei tentar colmatar, não digo nos próximos dias mas, talvez, durante os meses seguintes. Ouviram, “Emergo” e “American Mary”? O que se segue é pois o pequeno somatório das experiências cinematográficas que acumulámos (eu e os meus acompanhantes), durante os cinco dias de festival. Refeita de uma sessão pré-festival com direito a piadas sobre tarados que invadem salas de cinema aos tiros e um dos piores filmes de que tenho memória de assistir no São Jorge (“Urban Explorers” - tenham muito, mas muito medo), fiz-me então à primeira sessão que pude com exagerado optimismo. Digo exagerado porque “The King of Pigs” (2011) é capaz de ser um dos filmes mais deprimentes do festival e, aqui, notem que não estou a recorrer à hipérbole. Este filme de animação não é aconselhável a pessoas à beira do suicídio. Admitamos que até uma pessoa já com a corda ao pescoço, enquanto ouve a melodia “Baby join me in death” dos Him, tem menor probabilidade de se matar do que quem assiste, com uma já valente depressão a “The King of Pigs”. Agora, não me entendam mal, eu não disse, em nenhuma altura que “The King of Pigs” é mau, tão-somente não é adequado a pessoas num estado de espírito tão especial. Este filme é um recordar daqueles momentos que a maioria de nós estudantes, sem nenhuma habilidade particularmente boa para repelir rufias preferia enclausurar nos recantos mais distantes do hipocampo. Dois estudantes, Kyung-min (Jung-se Oh) e Jong-suk (Ik-june Yang), que acabaram por nunca fazer nada espantoso na vida adulta, recordam os velhos tempos de escola em que sofriam na pele os abusos dos “cães”. O mal de existirem “cães” é o facto de haver “porquinhos”. E estes passavam pelas sevícias mais cruéis, a pretexto de serem pobres, desengraçados, estarem naquela “idade esquisita” ou, só por que sim. Eles recordam ainda com saudade, o único colega que teve coragem de fazer frente aos agressores e toda a série de consequências que gerou tal afronta. Eles acabaram por nunca ultrapassar por completo aqueles eventos que os fizeram tornar-se homens mais cedo, cicatrizados, a nível psicológico, isto é. “The King of Pigs” é uma animação mas desencante-se quem pense que irá assistir a um filme inofensivo. Afinal de contas, o Motelx sempre é um festival de cinema de terror! “The King of Pigs” é de uma violência brutal, não só pelo que é demonstrado, mas também, pelo que se sugere. E é no poder de sugestão, mais pela via da reflexão, que se desferem os golpes mais profundos. É difícil não nos perguntarmos por que terá passado o argumentista desta animação (Sang-ho Yeon) e, de que lado da cerca se encontrava. Qualquer das hipóteses é aterradora. Quanto à animação em si, o facto de esta ser limitada e, por vezes, aquém dos níveis de qualidade a que estamos habituais no médium comercial, é inócua em termos de análise final. Esta é uma estória com mais conteúdo que outros concorrentes da animação e de live-action e é por ela que deve ser avaliada. Quem quiser deixar os fantasmas do passado dentro do armário deve afastar-se deste filme. Aqueles que quiserem defrontar um passado mal resolvido ou, tão simplesmente se vêem incapazes de levar com seriedade o mundo ficcional, podem e devem submeter-se ao terror de “The King of Pigs”. Três estrelas e meia.

Dia 2: “Vogue Fashion’s Night Out” – 13 de Setembro

Na verdade o título é só para despistar, mas esta noite tão especial coincidiu com o evento de moda mais “street” do ano. Yep. Os streetwalkers eram aos milhares, passe a piadinha ordinária. Na sala de cinema Manoel de Oliveira do São Jorge a estória era outra. Sim, a sala estava à pinha mas o participante era mais tipo pé descalço e não daqueles que veraneiam pelas ruas da baixa lisboeta, procurando a última novidade Prada ou Chanel. Mas não me creiam amargurada. Ver um filme tailandês, em estreia no grande ecrã português, é uma novelty que só um verdadeiro amante de cinema pode apreciar.

“Laddaland” (2011) - Tailândia

“Laddaland”  foi o maior sucesso de bilheteira tailandês o ano passado. Não é de estranhar, ao leme estava Sophon Sukdapisit que só tem créditos em filmes como “Shutter” (2004), “Alone” (2007), “4bia” (2008), “5bia” (2009) e “Coming Soon” (2009), qualquer deles aqui já apreciados. Ora, se à partida ia predisposta a aceitar um bom filme de terror, a verdade é que não esperava, por nada, um bom filme dramático. A isso deve-se o trabalho da argumentista de serviço, Sopana Chaowwiwatkul e a uma boa direção de actores. “Laddaland” é uma versão de um sonho americano desfeito. Thee (Saharat Sangkapreecha) é um pai de família com um único objectivo em vista: juntar toda a sua família numa casa confortável, paga por ele. Na família reina tudo menos o conforto. Sobre a felicidade conjugável paira a suspeita de que Parn (Piyathida Woramuksik) traiu o marido com o anterior patrão. E Nan (Suthatta Udomsilp), além de estar na idade perigosa, da adolescência, não esquece o sentimento de abandono provocado pelo facto de ter sido criada pela avó, já que os pais não tinham capacidade económica para tal. Apenas Nat (Apinya Sakuljaroensuk), como criança que é, está alheio a estes sentimentos e rancores. Por entre uma família cuja coesão é apenas aparente, o condomínio Laddaland esconde bastantes segredos, tais como o assassinato de uma criada birmanesa que nem depois de morta mostra sinais de querer abandonar o local. “Laddaland”, por mais assustador que possa ter sido e, vi muitos homens adultos saltar na cadeira e largar risos nervosos, enquanto as companheiras se aguentavam estoicas, não é um filme sobre o medo. Quer dizer, não sobre o medo do sobrenatural mas antes da desagregação da família, do perder do controlo dos afectos e de estes quebrarem irremediavelmente. Enquanto os familiares insistem para deixar Laddaland, Thee continua agarrado ao sonho. Por mais que as assombrações se tornem regulares e cada vez mais assustadoras, é mais importante manter a casa. A casa é o sonho. Mesmo que o emprego pareça demasiado bom para ser verdade, mesmo que todos os outros fujam. Por que a casa é o símbolo do que Thee foi capaz de fazer pelos seus entes queridos. Sem ela não tem nada para mostrar. Será que ele terá a capacidade de se afastar antes que seja tarde demais? Poderá ele abandoná-la antes que se revele o pior dentro de todos eles? Três estrelas.

“The Tall Man” (2012) - E.U.A.

Claro que nada me poderia preparar para a sessão seguinte. Não posso. Juro que não. Eu tentei com todas as forças deste físico com 58 kg. O senhor “Martyrs” (2008) afastou-se tanto desse filme que por pouco o não reconhecia. A partir da primeira reviravolta, cada músculo do meu corpo se contraia em descrença. Não podia ser assim tão mau. O primeiro problema de “The Tall Man” é a associação ao slenderman ou o homem esguio vá, não sei como se diz em português. Vamos lá desmitificar o pessoal, sim? Este filme não tem nada em comum com o personagem da lenda urbana. O tipo que aparece no meio do mato e nos faz enlouquecer de medo não faz uma única aparição em “The Tall Man”. Ele é, como o nome indica, um homem alto. Ponto. E “The Tall Man”, (também não se deixem enganar por isto), não é um filme de terror. Não, no sentido clássico. É um filme de terror se pensarmos no horror que poderá ser assistir a este filme. Isso e ver a Jessica Biel tentar representar. Como diria um velho amigo, (não é antigo, ele é mesmo velho), “a Biel só tem dois grandes talentos e eles foram bem visíveis no filme com o Sandler” ("I now pronounce you Chuck & Larry", 2007). Ela fala e… grilos. Ou isso ou o discurso que ela faz a dada altura sobre as criancinhas é assim a modos que triste, no sentido em que dá vontade de rir à gargalhada. Até uma miss teria uma actuação melhor. A Biel não deve ter visto muitos discursos de misses sobre a fome e as criancinhas e África. Ela até faz uma bonita feia, assim simples e sem maquilhagem mas isso não é nenhum esticão para qualquer actriz. Enfim, às vezes até parece competente e, assim foi, até à primeira reviravolta, o momento que marca o início do descalabro. Realmente, até ali existia alguma tensão, mistério e os momentos de acção foram bastante sólidos. Aparte talvez a sua personagem Julia ser atirada contra tudo e mais alguma coisa, sofrer um acidente de viação e mesmo assim não partir um osso do corpo. Depois claro, mas isto creio que é um apontamento apenas para os ingénuos, não há qualquer momento de brutalidade tal como em “Martyrs”. Todos os momentos de “violência” são bastante mais estilizados à la Hollywood. Alguém ainda acredita que Hollywood se arriscaria a criar um filme tal, que afugente as camadas mais jovens? Ah, quanto à estória, essa, até já me esquecia, é sobre Cold Rock, uma cidade perdida no interior dos Estados Unidos, atacada pelo flagelo da pobreza, onde as crianças começam a desaparecer misteriosamente. Diz que foi o “Homem Alto” que as levou. Onde há pessoas há sempre teorias parvas e ninguém tem o bom-senso de chamar a cavalaria! Até a Jodelle Ferland (Alessa e Sharon em “Silent Hill”), que interpreta uma pré-adolescente desconectada da realidade, parece penosamente deslocada! Laugier, que foste tu fazer? Uma estrela e meia.

Próximo Filme: “Sessão Especial MOTELx – Parte 2”

quarta-feira, 25 de julho de 2012

MOTELx 2012 - O cinema de terror volta a invadir Lisboa


De 12 a 16 de Setembro o cinema São Jorge volta a receber o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, o MOTELx. Esta é ma excelente ocasião para conhecer as novas tendências e revisitar clássicos. Do gore estilizado nipónico ao slasher e torture porn, passando pelo mestre do "Giallo", Dario Argento há de tudo um pouco.

Quanto à selecção de filmes asiáticos digamos que, com "Laddaland" (2011) de Sophon Sukdapisit, cujos créditos incluem "Shutter", "Alone", "Coming Soon", ou a saga "Phobia", todos eles já (bem)apreciados pelo Not a Film Critic e, uma retrospectiva no, adequadamente intitulado "Japão Retro", do realizador de "Jigoku", o Nobuo Nakagawa eu sei onde vou querer estar em Setembro. E tu?

Programação completa aqui

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Suicide Club (Jisatku sâkuru, 2001)


A minha estreia no MoteLx iniciou-se com "Suicide Club" (ou se preferirem "Suicide Circle", esta gente não se entende com as traduções). Teria sido muito bom se tivesse visionado outros títulos, mas infelizmente não deu (sou uma pessoa ocupada sim?) E que dizer desta entrada de Shion Sono? Pois... um grupo de 54 colegiais japonesas atira-se para a frente de um comboio na estação de Shinjuku, Tóquio. Na plataforma é encontrada uma mala com um conteúdo grotesco: um enleado de pele humana pertencente às vítimas. O aparente suicídio colectivo levanta as suspeitas da polícia de que um culto talvez esteja por detrás do sucedido. Entretanto, uma hacker contacta a polícia, liderada pelo detective Kuroda (Rio Ishibashi) e indica-lhes um website onde uma série de pontos vermelhos correspondem ao número de mortos. Ponto. Acaba aqui a sanidade. Esta é a parte em que começa a tocar J-pop e quase que posso imaginar um David Cronenberg sob o efeito de calmantes a ver um game-show japonês. E esta, meus caros, é a descrição mais aproximada daquilo que vi. O filme é uma grande trip, uma grande mescla alucinogénia à volta de uma das pragas do século XXI. Com uma das maiores taxas de suicídio do mundo a ter lugar no Japão, um estudo do fenómeno no círculo cinematográfico não seria uma mera coincidência, tão-somente uma questão de tempo. O modo como Sono abordou a questão é que levanta muitas dúvidas.
Com todo o hype que circundou o filme e, ainda hoje existe, as minhas expectativas foram desde sempre altas. Ok, também não ajudou o facto de já ter visto para aí 60% do filme antes vá.  E caíram, ai se caíram, como que de um precipício e vieram a rolar por aí fora, batendo em todas as pedras no caminho. Percebi alguma coisa das intenções de Sono ou acho que percebi, outras nem por isso. Por exemplo, é irónico que numa sociedade onde é virtualmente impossível não estar ligado, não soem gritos de ajuda. Onde os telemóveis, a ligação à Internet e o escondermo-nos por detrás de uma alcunha parecem mais naturais do que dizer simplesmente: "estou deprimido". Talvez seja apenas difícil dizer aos adultos aquilo que se está a sentir ou talvez eles não estejam sintonizados para ouvir, tal é o fosso geracional. Seja como for, "Suicide Club" não deixa de ser uma sátira onde se debate um poderoso jogo de vontades onde eles (os suicidas) ganham e todos os outros em redor perdem. O meu grande problema é que esta reflexão está por baixo de camadas e camadas de J-pop (aparentemente) aleatório já que é preciso chegar ao fim do filme para se compreender o significado da misteriosa banda "Dessert" de miudinhas de 12/13 anos com músicas também, aparentemente, inócuas, um bando de tarados com a mania das grandezas que matam e violam e cuja maior pretensão é a comparação ao Charles Manson e outras tantas distracções.
As actuações não são nada de extraordinário mas também não se pode dizer que exista um grande argumento embora a oportunidade de nos concentrarmos no velho polícia esperto como uma raposa, avesso às novas tecnologias tenha sido claramente perdida. Outra oportunidade desperdiçada foi a de instalar um sentimento de pânico, um sentimento de urgência para a resolução da série de suicídios que começam a varrer o país. Um thriller detectivesco puxaria sempre menos pelos miolos mas seria infinitamente mais satisfatório. Com a cena inicial brutal e brilhante como é, um dos melhores inícios de filmes que já vi (sim, é uma declaração arriscada), sinto que me puxaram o tapete debaixo dos pés. “Suicide Club” promete imenso mas não cumpre. Deixa-nos num intenso êxtase prematuro para chegarmos ao final, com a sensação de que sabemos tanto quanto antes, ou menos, que o raio do filme é confuso. "Suicide Club" ou se ama ou se odeia e eu não amei. Tecnicamente está bem conseguido, há gore, há... Uma grande confusão. Uma estrela.
Realização: Shion Sono
Argumento: Shion Sono
Elenco:
Rio Ishibashi como Detective Kuroda
Masatoshi Nagase como Detective Shibusawa
Rolly como Genesis

Próximo Filme: "Insidious", 2011

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

5ª Edição MoteLx

É já esta quarta-feira que o grande monstro tentacular vai atacar e eu, meus amigos vou lá estar. O MoteLx, festival de cinema de terror de Lisboa estreia-se esta quarta e prolonga-se até domingo (7-11 Set.) no cinema São Jorge. São sessões continuas por isso, se tiverem um tempo livre aproveitem e passem lá. Quanto aqui à je, vou ver o filme "Suicide Club" (2001) e, com alguma sorte, "Exte: Hair Extensions" (2007). Assistir a toda a retrospectiva de Sion Sono seria ouro sobre azul mas valores mais altos se impõem, ou seja, trabalho. Para não variar, depois cá estarei para vos dizer o que achei.

Podem consultar a programação aqui.
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