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domingo, 30 de dezembro de 2012

4ª Mostra de Cinema de Hong Kong



Ano novo, nova Mostra de Cinema de Hong Kong. Entre os dias 9 e 13 de Janeiro, os lisboetas terão oportunidade de assistir a alguns exemplos do que melhor se tem feito em Hong Kong, no Cinema City Classic Alvalade. Com géneros como acção, drama, comédia, wuxia, é difícil não encontrar pelo menos um título que seja do vosso agrado. Se bem se recordam foi lá que tive oportunidade de ver o excelente "Echoes of the Rainbow", que conseguiu deixar-me em lágrimas. Para já os títulos que me atraem mais são o aclamado e ultra-premiado "A Simple Life" (2011) e "Overheard 2" da dupla maravilha Alan Mak e Felix Chong ("Infernal Affairs", 2002). Também aconselho "The Detective 2", ainda que inferior ao título original. E se forem fãs da Elanne Kwong e do Aaron Kwok então podem esfregar as mãos de contentes pois que apresentam dois filmes cada.

Preço dos bilhetes: 4€
Descontos: 3,5 € (grupos, parcerias, jovens, seniores)
Voucher para todas as (8) sessões 24 €

(Legendas em português e inglês)

PS: Acham que é boa ideia transmitir sequelas, quando provavelmente a maioria da população não teve oportunidade de visionar antes os originais?

domingo, 25 de novembro de 2012

“Flashpoint” (Dou fo sin, 2007)



Diz que as coisas boas vêm aos pares. É mentira. Tudo é melhor em trios. Nunca foi tão evidente num filme. Um dos melhores trios do cinema de acção constituído por o realizador Wilson Yip, o argumentista Kam-yeun Szeto e o actor Donnie Yen, ainda que não no melhor registo daquilo que já demonstraram (“Kill Zone, 2005), conheceu o seu fim este ano com a morte precoce de Szeto vítima de cancro do pulmão. Morrer antes do 50, é um atentado contra a humanidade. Quantas mais estórias de acção não ficaram por escrever? “Flashpoint” é mais uma entrada na longa série de filmes baseados em Hong Kong, no perigo mundo das tríades e polícias infiltrados. “Infernal Affairs” (2002) vem rapidamente à mente e o seu remake “The Departed” (2006) também, mas a nova reencarnação não tenta sequer chegar aos calcanhares destas obras. É antes mais um motivo para ver Donnie Yen a arregaçar as mangas e espancar o mauzão mais mau de todos. E a malta aplaude por que enfim, apesar de o actor ter um sorriso pepsodent e um abdómen híper desenvolvido, falta-lhe a altura e outros encantos para ser considerado um sex symbol. Louis Koo está muito melhor entregue nesse papel. Não. O que a malta quer é ver Donnie Yen dar pancada, minutos ínfimos para deixar a assistência tão cansada como se ela própria tivesse acabado de completar uma aula de pump no ginásio. A dada altura ele até tira o casaco de cabedal, depois de uma longa sequência, para demonstrar que o vilão vai dar um pouco mais trabalho do que os outros estão a ver?
Donnie Yen é Jun Ma o típico polícia que não acata ordens de ninguém e cuja população terá sérias duvidas se o remédio não será pior que o mal. Por onde passa deixa um rasto de feridos. Brutalidade policial? Pfff, não o façam mas é perder tempo. O tempo que não está nas ruas é tempo para mais um criminoso cometer um crime (e ele não custar centenas se não, milhares, ao erário público). Louis Koo é Wilson, um polícia que já se cruzou antes com o caminho do crime e graças a esse passado, conseguiu tornar-se com sucesso no capanga de serviço de uma nova tríade de irmãos vietnamitas que querem entrar no “mercado”. Não que eles precisem de um capanga, talvez mais um condutor de serviço. Eles dominam Artes Marciais Mistas ou (MMA) e destroem todos os que se atrevem a cruzar-se no seu caminho. O chefe é Tony (Collin Chou) que decide entrar em guerra aberta com uma tríade local. Collin Chou é mais conhecido como o Seraph de “Matrix Reloaded” (2003) mas a carreira nunca deslocou a ocidente, onde também Donnie Yen pode relatar uma experiência similar. Está relegado para papéis que envolvem toda a sua destreza física no cinema de acção de Hong Kong, não que isso seja mau e segundos planos para os “Infernal Affairs” deste mundo. Repito, não é como isso também fosse mau. Tudo parece correr bem até que Tony, o irmão com maior número de neurónios, junta as peças e descobre o segredo de Wilson. Jun Ma terá de utilizar toda a sua destreza física, já que não é a carta mais inteligente do baralho para conseguir salvar Wilson de um final trágico.
Uma dos pormenores refrescantes que, de resto, já vimos antes é a irmandade policial. Normalmente há sempre um sargento maldisposto, uma outra dupla de detectives que tem animosidade para com os heróis, no caso estamos perante uma equipa unida, disposta a dobrar as regras para deixar o caminho livre para o senhor que resolve os problemas onde eles existirem, Jun Ma. São precisos pelo menos 50 minutos até que a acção a sério tenha lugar e quando vem é rápida e furiosa, empacotado em estilos combinados de artes marciais: kung fu, muay thai, jiu jitsu, boxe… É só pensar num estilo que provavelmente algum dos elementos dessa forma de luta terão sido inseridos. O que me leva à questão premente. A extraordinária exibição física demonstrada pelos actores/lutadores fazem de “Flashpoint” um bom filme? Não mas tem elementos bastante bons, desde a coreografia das sequência sde acção às perseguições de carros e o desempenho de Koo. Mas lá está, se vão ver um filme cujo trailer promete cenas fantásticas de luta, tudo o que disse antes são apenas balelas. Redunda nas vossas expectativas.  Duas estrelas e meia.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Kam-yuen Szeto e Lik-kei Tang
Donnie Yen como Jun Ma
Louis Koo como Wilson
Collin Chou como Tony
Ray Lui como Archer
Fan Bingbing como Judy
Yu Xing como Tiger

Próximo Filme: “The Good, the Bad, The Weird” (Joheunnom nabbeunnom isanghannom, 2008)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"Shaolin Soccer" (Siu lam juk kau, 2001)



Neste período de conturbação social e com uma ansia de escapismo crescente, (a alternativa é a depressão) a magia do cinema permite-nos esquecer, pelo menos, por alguns momentos as amarguras da vida. Ora como nem todos têm 6€ para pagar em bilhetes de cinema e, ainda menos têm acesso a convites VIP, vivam as cópias piratas e streaming online. Isto (não) foi um desabafo senhores que regulam estas coisas.
Um desabafo seria talvez admitir a necessidade de assistir a películas inócuas como modo de descansar a retina de governantes, que nem se conseguem a eles próprios convencer da legitimidade dos argumentos que apresentam e, pôr-me a ouvir discos tipo nostalgia, por que já não há paciência para Micki Minajs a assassinar a música.
Valham-nos os “tipos muito engraçados do kung fu” que parecem fazer coisas impossíveis com o corpo – aquela flexibilidade senhores, aquela flexibilidade! E mal não fará se juntarmos ao kung fu uma boa dose daquela pandemia tão bem conhecida do sexo feminino, chamada futebol. Para os mais fervorosos fãs, não, o Benfica não faz nenhuma aparência mas não se preocupem que “Shaolin Soccer” não podia ser mais divertido nem menos polémico. Stephen Chow é Sing, um artista de artes marciais tornado cantoneiro que procura um modo de globalizar o modo de vida shaolin. Ele não é propriamente inteligente senão já se teria apercebido há muito que a sua “perna de aço” e o seu talento inato para jogar futebol podiam tornar real o seu sonho. E como o destino destas coisas, (também lhe podem chamar conveniências de argumento), Sing é aconselhado por Fung (Ng Man Tat), um senhor que nos seus tempos áureos como jogador de futebol era apelidado de perna dourada até a ver quebrada por culpa do companheiro de equipa e óbvio vilão Hung (Patrick Tse Yin). Na linha do amor do ponta-de-lança encontra-se uma mocinha tímida, Mui (Zhao Wei) que faz pão com auxílio do seu magnífico domínio da arte do Tai Chi. Mui representa a estória clássica de rapariga feia vira quase Miss Universo. E que transformação, por entre borbulhas, crostas, cicatriz, cabelo tipo óleo de fritar e, pouco faltou para postulas e bubões. Os senhores da maquilhagem divertiram-se bastante a tornar a bela Zhao Wei feia.


Mas como dizia só temos dois personagens para uma equipa de futebol pelo que temos oportunidade de assistir ao divertido recrutamento e sessão de treinos dos antigos companheiros monges de Sing. Entre os companheiros encontram-se um verdadeiro cabeça dura que é um homenzinho mais cobarde e um “mãozinhas” que passava por clone do Bruce Lee, a que não é alheio o fato-macaco amarelo exactamente igual ao que a lenda do jeet kune do vestiu em “Game of Death” (1972). Todos juntos formam uma dream team, que se torna uma séria candidata ao titulo de melhor equipa do campeonato do mundo. Essa possibilidade deixa Hung a tremer, pelo que recorre sem embaraço às suas técnicas preferidas: batota. Os jogos são qualquer coisa de fabuloso. A equipa shaolin praticamente não chuta a bola, recorrendo a todo o tipo de acrobacias aéreas e à ajuda do computador para colocar a bola dentro da baliza adversária. Francamente? Alguém está à espera que a equipa maravilha perca o jogo?
“Shaolin Soccer” não tem grande estória, do início ao fim é fácil perceber que a fusão shaolin/futebol são apenas uma pretexto para apresentar uma sucessão de gags hilariantes, uns após os outros. Aos momentos de especial comicidade não é alheia a presença especial das estrelas Karen Mok e Cecilia Cheung como capitãs da “equipa do bigode”. Também as brincadeiras com comida por parte do “pequeno” irmão e a transformação física extrema de Mui estão qualquer coisa de fantástico. No meio desta paródia, a moral reside em qualquer coisa como ser perseverante e ter fair-play, que no final os justos serão recompensados. Por fim, fica a sensação que Stephen Chow nos pregou uma grande partida. De facto, pelo número de críticas e, pelas reacções por esse mundo fora ao filme duns tipos do kung fu que jogam futebol, até por quem não aprecia artes marciais é demonstrado que se calhar “Shaolin Soccer” não é assim tão inocente e cumpre para a posteridade o objectivo naif e fantástico de Sing: disseminar o kung fu pelo mundo. Três estrelas e meia.


Realização:  Stephen Chow
Argumento:  Stephen Chow, Chi-keung Fung, Stephen Fung, Wei Lu e Kang-cheung Tsang
Stephen Chow como Sing (Perna de aço)
Zhao Wei como Mui
Man tat Ng como Fung (Perna dourada)
Patrick Tse Yin como Hung (Treinador da Equipa Malvada)

Próximo filme: Sessão Especial Motelx

domingo, 2 de setembro de 2012

"The Detective 2" (B+ jing taam, 2011)



O início do fim de uma saga com potencial para se tornar um grande franchise começa numa sequela inferior ao filme original. Numa tentativa de superar, a maioria das vezes, o insuperável, os cineastas lançam-se numa corrida para ver quem é que consegue realizar o filme mais exagerado, vide “Transformers 2”. Ou então não, evitem o filme de todo. Não vale a pena ver robots maiores, mais furiosos, mais destruidores, o corpo da Megan Fox mais oleado e as suas formas ainda mais expostas ao freguês do que na primeira vez… Esqueçam o que acabei de dizer. O que pretendia afirmar é que quando um filme é tão bom que se encontra no nosso top 10 de surpresas agradáveis de 2011 (“The Detective” estreou em 2007), a ideia de uma sequela é a substância de que são feitos os pesadelos. Junte-se a isto o fenómeno Pang, isto é, sucesso – fracasso – sucesso, num ciclo ininterrupto e, temos um dos filmes mais esperados do ano.
Tam (Aaron Kwok) parece ter sido promovido de detective de terceira categoria a detective de segunda e o seu Watson, o polícia Chak (Kai Chiu Liu) continua a depender dele para conseguir resolver os casos com que a polícia do bairro chinês de Banguecoque se depara. Começando onde terminou o caso do primeiro filme “The Detective”, os acontecimentos seguintes não são particularmente felizes para os personagens. Apesar de recém-descoberta notoriedade, Tam continua a ter dificuldade em pagar as dívidas e Chak, não só não foi promovido como nunca irá progredir na carreira, já que o crédito de quaisquer avanços que faça nas investigações é-lhe roubado pelo novo superior arrogante e oportunista, Lo (Patrick Tam).
Entretanto, ocorrem uma série de mortes em circunstâncias estranhas no bairro chinês e Tam rapidamente se convence que na aparente aleatoriedade se encontra um padrão. Com Lo decidido a desvalorizar os crimes como incidentes isolados e Chak de mãos atadas, cabe a Tam, o detective de segunda categoria, desvendar o mistério e parar o que supõe ser um assassino em série.

E se Tam continua com as velhas camisas 100% poliéster, saídas de uma loja vintage, que há muito deviam ter queimadas, já as suas faculdades mentais parecem mirrar. Grande parte do que tornava Tam uma personagem tão querida do público desapareceu visto que quase não há espaço na narrativa para ele colocar em acção a sua capacidade de desenrascanço e a sua experiência baseada no senso-comum. Digamos que Tam é o oposto de um James Bond, ele não dispõe de engenhos high-tech e recorre a artimanhas artesanais, assentes na experiência. “The Detective 2” também ignora pormenores deliciosos como a música dos créditos iniciais. “Me Panda” era um pormenor delicioso e divertido que ajudava a marcar o tom do filme anterior. Na sequela é penosamente aparente que o registo vai ser bem mais sério. Ênfase no melodrama. A investigação é agridoce já que o modo como Tam chega a determinadas conclusões deixará mais de metade da audiência a coçar a cabeça. Ou então não sou assim tão inteligente, pronto!
A tensão do primeiro filme também se evapora e as personagens secundárias não são memoráveis como no primeiro filme. Desaparecem as testemunhas que em pouco menos de cinco minutos de ecrã ficavam registadas na memória de modo indelével, como por exemplo a senhora com um fraquinho por detectives delicados ou as vizinhas bisbilhoteiras com demasiado empenho em auxiliar a investigação. Permanecem as grandes cenas de perseguição, parte do factor de atracção de “The Detective”, assim como a camaradagem entre Tam e Chak, cuja amizade é desta feita mais aprofundada. São ainda apresentadas novas pistas para o mistério da morte dos pais de Tam. Com um enfoque na investigação e pouco tempo para Tam investigar as novas pistas, está bem de se ver para onde “The Detective 2” se dirige: trilogia aí vamos nós! Daqui resulta um problema óbvio, os irmãos Pang não são conhecidos por fazerem boas sequelas.
“The Detective 2” deixa a sensação de um trabalho mais polido em termos imagéticos cuja narrativa descola do conceito inicial do primeiro filme para a vulgaridade. Perde-se o caos de uma Banguecoque criminosa, as ruelas parecem menos labirínticas e obscuras que anteriormente, resultando um filme que podia ser igual a tantos outros. Duas estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Aaron Kwok como Tam
Kai Chiu Liu como Chak
Patrick Tam como Lo
Beibi Gong como Ke Er/Ling Hoi Yee (adulta)
Ciwi Lam como Ling Hoi Yee (jovem)

Próximo Filme: "One Missed Call 2" (Chakushi Ari 2, 2005)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

"Shaolin" (Xin shao lin si, 2011)


O grande general Hou Jie (Andy Lau) evoca todas as características de um tirano: cruel e déspota que vê a compaixão como uma fraqueza e apenas encontra um breve sentimento de conforto na persecução das ideias paranoicas. Ele é tão bom no seu papel que até os subordinados têm medo da sua admoestação e aliena aqueles, dos quais depende a sua segurança e a da sua família. Como um mestre camaleão Hou Jie alterna o papel de senhor da guerra com o de marido dedicado e pai extremoso, algo que esconde convenientemente do exterior. Ele sabe que é este afinal, o seu grande ponto fraco, aquele que conduzirá à sua queda. Ao seu engenho escapam as maquinações de Cao Man (Nicholas Tse), o subordinado leal que tratava como de um animal se tratasse. Com a queda do pedestal e a perda do que lhe é mais querido Hou Jie descobre o perdão no local onde menos esperaria, no seio daqueles que tanto ridicularizou e maltratou.
A acção tem lugar nos anos 20, uma altura em que os senhores da guerra e os “invasores” estrangeiros faziam negócios altamente lucrativos para si e, totalmente ruinosos para as populações. Tal período histórico abre espaço para uma estória de redenção centrada na filosofia budista. Ademais, compreende aqueles temas de redenção e de crime e castigo que as audiências tanto gostam e tanto sucesso deu ao cinema de Hong Kong já em Hollywood no final do século XX e no início do século XXI. Se a isto se juntarem a superestrela asiática Andy Lau, o super prometedor Nicolas Tse, o sempre fiável e rei das artes marciais além-mar Jackie Chan, com a beleza exótica da Fan Bingbing, temos êxito certo.
“Shaolin” só falha no campo das expectativas. Com 131 minutos, a estória podia ter sido facilmente contada em pouco mais de uma hora. E, no entanto, falta-lhe algo, o que me leva a questionar a edição do filme. A conversão de Hou Jie a um monge, no próprio templo que vitimizou quando possuía um poder que lhe parecia inesgotável, alimentado na própria miséria dos seus alvos. Pode um homem mau tornar-se bom sobretudo depois de ser vítima do maior ataque que alguém pode sofrer? Não seria antes um motivo para uma investida implacável contra os maiores opositores? O percurso de Hou Jie mais se afigura a uma obrigação, visto que ele perdeu tudo, do que o desejo consciente e tomado de coração de um homem que opta por perder. Sem alternativas, não pode agir muito além de um templo onde tem a garantia de protecção e de uma disciplina rígida que servirão de guias ideais à preparação de um contra-ataque brutal. Céus, mais depressa soa a manipulação industrial qual lavagem cerebral fora do ecrã, no sentido de as massas recolherem às suas casas calmas e submissas, sobe a égide dos preceitos. A velha revenge que é francamente mais apetitosa mas essa é a minha opinião. O conceito de perdão e compaixão não está ao alcance de todos os mortais.
Falta ardor no Hou Jie, aquele que de todo o elenco, se esperaria mais. Quanto aos monges, para o título “Shaolin”, não têm o tempo de antena suficiente. Eles encarnam a mensagem que o argumento almeja transmitir: nos ideais budistas e na acção corporal, coreografada de modo impressionante por Corey Yuen. Nesse campo podemos aguardar o melhor, em particular nas cenas do cozinheiro Wudao (Jackie Chan igual a si próprio). Num pequeno aparte e, isto fascina-me deveras, conseguem colocar a única personagem feminina importante, com mais do que duas ou três falas como “esposa de alguém”. A pobrezinha é assim tão insignificante que não tem direito a um nome? Acrescentar um (!) nome gasta muito papel no argumento?
“Shaolin” tem bastantes pontos a seu favor em termos técnicos, mas não é visualmente tão interessante como os últimos filmes da fábrica de épicos de Hong Kong. Uma injustiça que o tempo irá, (espera-se), superar. Além disso e, com uma longa duração e um argumento que não vai a lado nenhum durante bastante tempo, “Shaolin” perde para os mais próximos concorrentes. Para o interesse que a menção da palavra Shaolin suscita em torno do rigoroso código moral e religioso, do estilo de vida austero e, claro, o esforço extremo do corpo até aos seus limites, “Shaolin” é maçador. Talvez seja altura de pegar em papel e lápis e começar de novo. Duas estrelas e meia.

Realização:  Benny Chan
Argumento:  Alan Yuen, Chi Kwong Cheung, Quiyu Wang, Kam Cheong Chan e 
Andy Lau como Hou Jie
Nicholas Tse como Cao Man
Fan Bingbing como esposa de Hou Jie
Jackie Chan como cozinheiro Wudao
Jacky Wu como Jing Neng
Yu Xing como Jing Kong

Próximo Filme: "Loner" (Woetoli, 2008)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"The Eye" (Gin Gwai, 2002)


Os olhos devem ser um dos órgãos mais importantes, subestimados e maltratados em todo o corpo humano. É que nem temos noção. Passamos horas a forçá-los à frente de monitores, insistimos em mantê-los abertos muito depois do cérebro gritar de cansaço e, nem sequer, os utilizamos como deve ser. Não fossem os vossos olhos e, não podiam ler estas linhas sobre um dos grandes filmes de terror do século XXI. E, se os olhos são tão pouco considerados pelos poucos dotados com uma visão perfeita, imaginem como será uma lembrança preciosa por quem um dia a possuiu. O caso aplica-se como uma luva a Mun (Angelica Lee), uma rapariga de 24 anos que após duas décadas de escuridão, recupera a visão num novo procedimento cirurgico. O processo de recuperação é assustador. Não só devido à ansiedade de conhecer um mundo além dos outros quatros sentidos mas também pelo facto de ser como uma criança novamente. Tem de aprender a redescobrir o mundo e a relacionar-se com ele e distinguir o real do ilusório. Entre os vários desafios estão a distrinça das superfícies e o reconhecimento da própria imagem. E quão solitária deve ser esta jornada quando Mun tem uma família que não se pode identificar com a sua situação e a orquestra de invisuais na qual tocava, já não a considera como uma deles.
Mun, por entre a profusão de imagens que inundam incessantemente o seu espectro de visão, não se apercebe de imediato que vê algo mais, algo que os restantes seres vivos não vêem. E, não sabe, por isso, reconhecê-lo. Enquanto a maioria dos que a rodeiam atribui a nova atitude de introversão de Mun ao processo de transição que está a atravessar, apenas o seu psicólogo, Dr. Wah (Lawrence Chou) a parece compreender. Perante imagens de natureza tão perturbadora ela isola-se, retira-se do mundo social. Existe uma resposta racional para o que lhe está a suceder ou o fenómeno pertence mesmo ao campo do sobrenatural? Ao contrário de outros grandes clássicos do cinema asiático como “Ringu”, “Ju-on” ou “A Tale of Two Sisters”, “The Eye”, baseia-se num problema fisico, algo que tocará mais perto do coração e da racionalidade do Homem. Qualquer um se pode identificar com o receio de perder a visão, ou de ver algo que não quer, o tal “monstro debaixo da cama”.Por outro lado, há sempre o medo mais primitivo da provocação de danos sobre o globo ocular. “Un chien Andalou”, o nome, se calhar, não vos dirá nada mas se referir a cena da senhora cujo globo é perfurado por uma faca, a referência talvez não seja tão estranha...
De resto a narrativa não será totalmente original, sendo desaproveitadas algumas oportunidades como a possibilidade da loucura de Mun. Nunca surge a mais remota hipótese de que está tudo na sua cabeça, a causa é exterior. Também Angelica Lee, que após este filme se viria a tornar mulher de um dos realizadores, o Oxide Pang Chun, é a maior força do filme. É o seu desempenho que carrega todo o filme sendo que com um retrato menos realista de Lee, “The Eye”, não teria metade do impacto. A maior fraqueza encontra-se no Dr. Wah, um Lawrence Chou demasiado imberbe para interpretar um psicólogo experiente e conceitado. Tanto ele como Angelica viriam a fazer carreira com os irmãos Pang, acertando algumas vezes (“Re-cycle”) e falhando redondamente noutras ocasiões (“Sleepwalker 3D”). Outra questão que poderá afugentar os espectadores de “The Eye” nada tem que ver com o filme mas com o remake americano com Jessica Alba. É certo que ela não é o pior do filme mas ajuda muito. Essa versão, além de já não possuir o factor novidade, não é tão aterradora. Para não alienar o publico e chegar a um publico mais jovem, suavizaram de tal modo certas cenas icónicas que ver Alba a estremecer de medo não assusta, incomoda. Mais do que isso, “The Eye” é um caso de estudo de imitação e replicação de cenas que, hoje em dia se tornaram banais mas, não neste filme, que dez anos volvidos envelheceu bem. Atentem bem a “The Eye”, e observem bem o material de que são feitos os grandes clássicos de terror. Quatro estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun e Danny Pang
Argumento: Yuet-Jan Hui, Oxide Pang Chun e Danny Pang
Angelica Lee como Wong Kar Mun
Lawrence Chou como Dr. Wah
Yut Lai So como Yingying
Edmund Chen como Dr. Lo
Candy Lo como Yee

Próximo Filme: "Misteri Jalan Lama", 2011

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Hong Kong Ghost Stories" (Mag gwai oi ching goo si, 2011)

Que curiosa obsessão com antologias de terror. Por todo o sudeste asiático persiste um gosto especial pela criação deste tipo de cinema, no qual, a audiência paga um bilhete com direito a três ou quatro curtas-metragens de uma só vez. Exemplos destes há muitos: “Visits: Hungry Ghost Anthology” (2004) da Malásia, “Takut: Faces of Fear” (2009) da Indonésia, “Unholy Woman” (2006) do Japão ou “Cinco” (2010) das Filipinas. Mas os melhores exemplares desta mania ainda pouco comum fora de portas continuam a ser “Three” e a respectiva sequela (2002-2004) e “Phobia” 1 e 2 (2008-2009), que já aqui tivemos oportunidade de apreciar. A maior dificuldade que estas antologias levantam é a sua regionalidade. Algumas estão tão agarradas a costumes e superstições internas que se torna difícil a alguém fora desses países compreender determinadas piadas e expressões idiomáticas. Nada disto tem algum mal se o objectivo é, como se supõe, atingir as audiências locais. No entanto, hoje em dia a frase “Pensar Global” está tão embrenhada no vocabulário das empresas relativo ao crescimento que urge reflectir, se a enfase no público interno não será uma oportunidade perdida.
“Hong Kong Ghost Stories” enquadra-se nesse pensamento primitivo e como o nome indica conta-nos duas estórias de fantasmas de Hong Kong. A primeira “Classroom” apresenta Jennifer Tse, irmã de Nicholas Tse que brilhou recentemente em “Shaolin” (2011), ao lado de Andy Lau e Jackie Chan. Ela interpreta a professora Yip, uma mulher que já não estando exactamente nos vinte e poucos anos tem de começar tudo de novo. Maltratada por um namorado abusivo durante anos a fio, ela refugia-se na casa dos pais e arranja trabalho numa nova escola. Chung (Pakho Chow), não desiste de a tentar recuperar, ao mesmo tempo, que a jovem professora tem que lidar com o regresso ao ninho e ao retomar da actividade do ensino junto de uma turma estranha. Os alunos começam por demonstrar um mau comportamento que se vai intensificando até à hostilidade declarada. O que pode a Miss Yip fazer para não perder a sua última oportunidade de independência?
Na senda da fama do irmão mais velho, a bela Jennifer Tse aproveita para demonstrar a sua capacidade de representação. A sua escolha de filmes talvez pudesse ser um pouco mais feliz. Wong Jing, o realizador desta curta-metragem, parece trabalhar numa autêntica linha de montagem em série, pensando porventura que a quantidade é melhor que qualidade. Os seus poucos filmes dignos de nota, nem sequer vão além do medianamente bom. Entretanto, a sua actriz principal faz um verdadeiro one woman show, uma vez que pouco a auxilia na árdua tarefa de defender a professora Yip. Há uma cena numa casa de banho da escola em que ela grita apavorada contra um medo que só ela vê e tem. A câmara não a ajuda, o cenário, a sonoplastia, nada. Está ali ela, a fazer as vezes de um terror que só ela percepciona. A audiência não participa deste medo, é puro voyeur. Ademais, a estória é uma verdadeira bagunça, ora foca os ricos paizinhos da miss Yip, ora até parece que o maldito ex tem alguma importância e a turma, não é propriamente novidade. Salas de aula assombradas não são a ideia mais original que se viu. E certamente, que “Classroom” também não é a melhor concretização da ideia. O prólogo, que nada tem que ver com quaisquer das curtas-metragens é de longe o momento mais insólito e interessante da antologia. Duas marionetas em tamanho real (Sammy Ho e Jeana Ho) preparam-se para filmar as curtas-metragens que iremos ver…
“Travel” ainda menos tem de assustador, o que compensa em comédia. Diga-se que Kong não é um realizador de terror. A sua carreira tem sido construída à volta de comédias românticas menores, com grande parte dos actores que recruta para “Travel”. Isto se compreenderem as alusões a Raymond Lam e a crítica a algumas emissoras de TV. No centro da trama está a falecida Bobo (Chrissie Chau), que devia ser impopular visto só lá estarem quatro raparigas (Charmaine Fong, Jacqueline Chong, Harriet Yeung e Rose Chan) que a conheceram na última viagem que fez. Estas estudantes são o máximo. Viajam desde Hong Kong até à Tailândia para ver as vistas… Homens, entenda-se. Já para não dizer que têm uma obsessão pouco saudável pelo actor/cantor Raymond Lam. Nem o pobre polícia de férias Jack (Timmy Hung) escapa à sua observação lasciva e é empurrado para almoços e outras interacções com as estudantes devassas. Depois, temos uma morte mal explicada e um amante (Him Law) que regressa de nenhures à procura de algo que Bobo deixou para trás. A dada altura começam os flashbacks para percebermos como a pobre Bobo chegou àquele ponto. Afinal, ela de inocente tinha muito pouco e as suas amigas não eram tanto assim. De qualquer modo, está interessante a transição de Hong Kong para a Tailândia com o contraste noite/dia a não ser um acidente na variação de uma estória negra para um humor perverso. “Travel”, não é uma estória muito mais simples que “Classroom” mas proporcionou bons momentos de humor. O quarteto maravilha: Fong, Chong, Chan e, em particular, Yeung, fizeram um trabalho humorístico espantoso. Kong, sem se afastar muito do seu género preferido consegue realizar um trabalho superior ao de Wong Jing. Duas conclusões saltam à vista: dificilmente serão duas curtas-metragens de terror, pois que a primeira falha nos sustos e a segunda prefere a sátira. Além disso, no último filme, a acção passa-se maioritariamente na Tailândia. Contos de Hong Kong? Uma estrela e meia.


“Classroom”
Realização: Wong Jing
Argumento: Wong Jing
Jennifer Tse como Miss Yip
Pakho Chow como Chung
Sammy Ho como Marioneta 1
Jeana Ho como Marioneta 2

“Travel”
Realização: Patrick Kong
Argumento: Patrick Kong
Chrissie Chau como Bobo
Charmaine Fong como Estudante 1
Jacqueline Chong como Estudante2
Harriet Yeung como Estudante 3
Rose Chan como Estudante 4
Timmy Hung como Jack
Him Law como Karl
Stephy Tang como Phoenix

Próximo Filme: "The Man From Nowhere" (Ajeossi, 2010)


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Echoes of the Rainbow" (Sui yuet san tau, 2010)

“Echoes of the Rainbow” não se enquadra na temática habitual do Not a Film critic. É que nem de acção é. Não tenham ilusões. Certamente, não se enquadra na minha filosofia sobre filmes do género (Oportunidade para inserir link aleatório para outro texto aproveitada). Mas prometi-me assistir a pelo menos um dos filmes da 3ª Mostra de Cinema de Hong Kong. Como um dos meus gurus online aconselhou “Echoes” e sou altamente influenciável atirei-me de cabeça ao dramalhão. O resultado é um retrato ficcional da infância de Alex Law. Um retrato melodramático entenda-se. Eis que desembainho os meus argumentos para verem o filme. Eu chorei. Vêm como apelei ao sentimento ali atrás? Ok. É um descaramento assumir que dão alguma importância aos meus apelos mas não vos aconselhei já tantos bons filmes? (Ou, pelo menos, imaginemos que sim). Se não gostam de drama podem considerar “Echoes” um filme de terror. Se apreciam o género dramático e desfazem-se por estórias simples, vindas do coração, a estória do senhor Law irá provocar reacções químicas satisfatórias nos vossos corpos.
A família Law sobrevive na Hong Kong de final dos anos 60. O senhor Law (Simon Yam) é um sapateiro que representa o único sustento da família que luta para pôr comida na sua mesa, fazer subornos a polícias corruptos e ainda pagar as propinas da escola do filho mais velho enquanto repete o mantra de que “nada é mais importante do que ter um tecto sobre a cabeça”. A senhora Law (Sandra Ng) é a mestre do regateio que mete vergonha a um qualquer comerciante de uma medina em Marrocos. Expedita, segura e com inteligência emocional elevada ela é também a âncora da família. Desmond (Aarif Rahman) é o filho mais velho do casal. Perfeito em todos os aspectos, ele é o que todos os outros crescem a odiar: aluno brilhante, atleta fora de série e o queridinho das moçoilas. Como se nada disto bastasse, ele é um rapaz sério e não tem olhos para mais nenhuma outra que a sua Flora (Evelyn Choi). Orelhas Grandes (Buzz Chung) completa o quadro familiar. É um pequeno traquina, protegido por todos. Ele nasceu fora de tempo e talvez por isso, seja um pequeno tirano, que sabe bem tirar partido da conjuntura familiar e arranjar perdão para as suas malandrices. Ele desleixa-se na escola, nos deveres e… tem mão leve. Podia ser uma vida idílica. Ora, como bem sabemos e os Law tanto fazem questão de frisar, “depois da tempestade vem a bonança”. E eles escaparam à maré brava por tempo demais. Quando a tragédia se abate, eles refugiam-se no pouco que têm, os laços que os unem. É através dos olhos inocentes de Orelhas Grandes que assistimos, quais voyeurs à felicidade e à queda dos Law. Somos convidados a sentar-nos à mesa com eles, a experimentar os seus sapatos, a testemunhar o amor que os une e a presenciar as suas perdas. Atente-se sobretudo aos desempenhos espantosos de Simon Yam e Sandra Ng. Sendo que Yam chegou mesmo a receber o prémio de melhor Actor dos Hong Kong Film Awards 2010. Outra estrelinha é Buzz Chung como Orelhas Grandes, um pequeno sonhador que vê o mundo através de um aquário. É que ele na Hong Kong dos anos 60 quer ser um astronauta. Tão giro não é? Já o irmão Desmond é tão bom rapaz que custa a crer que exista semelhante ser. Ao mesmo tempo é um desempenho aborrecido por ser tão mais fácil que o de Chung. Os irmãos são como o azeite e o vinagre em personalidade e na representação. No conjunto, o elenco é um portento. Se não soubéssemos diríamos que estávamos a assistir à dinâmica de uma família real tal a sua entrega. Rimos e choramos com eles mesmo que a alturas o ritmo estagne e pareça chafurdar indefinidamente na tragédia humana. “A audiência está triste?” “Não chega. Vamos pô-los miseráveis!” Facto é que os dramas humanos são duros e intermináveis (ou assim parecem).
“Echoes of the Rainbow” é um bom candidato a censura sobre a ausência de crítica social e política. A espaços parece que o argumento vai tomar essa rota e depois retrai-se. As alusões estão lá. Resta saber se são propositadas ou não passam de meros motivos espácio-temporais. Custa-me ser crítica neste ponto. Se o objectivo do filme é demonstrar a dinâmica de uma família na Hong Kong dos anos 60 não vejo por que há-de alguém vir dizer o contrário. Felizmente todos são críticos, poucos são argumentistas. Com tantas línguas faladas quanto o mandarim, cantonês, inglês e ainda outros dialectos regionais, por vezes aborrece a retina ver que o som não acompanha as falas dos actores, qual filme de Kung Fu do Bruce Lee. Mas é um mal menor. Alex Law conseguiu tornar a obra que escreveu e realizou tão pessoal e real quanto a sua própria existência. Conquanto a narrativa não seja original é pontuada por uma honestidade rara em cinema. Mais se tratando de uma auto-biografia onde a família é tudo menos um “Brady Bunch”, ainda que com pinceladas dos “The Monkees” pelo meio. Os filmes mais belos são os que vêm do coração e apelam ao coração. Ideal para uma noite fria com aqueles que mais amamos neste mundo. Quatro estrelas.

Realização: Alex Law
Argumento: Alex Law
Buzz Chung como Orelhas Grandes
Simon Yam como Senhor Law
Sandra Ng como Senhora Law
Aarif Rahman como Desmond Law
Evelyn Choi como Flora


Próximo filme: "Alone" (Fad, 2007) 

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Re-cycle" (Gwai Wik, 2006)

O cérebro é uma coisa fascinante. Não nos deixa esquecer as memórias que mais teimamos em abandonar e é implacável com aquelas que nos são preciosas. Ting-yin (Sinjie Lee) é uma escritora que está finalmente pronta a abandonar o passado. Um romance falhado deu-lhe material para quatro livros de grande sucesso mas enquanto a sua vida profissional floresce, a sentimental é inexistente. Ting-yin decide fazer o corte do modo mais radical: escrever um livro sobre o sobrenatural. Fiel ao seu método que melhor conhece, o de vivenciar aquilo que escreve, Ting-yin anseia por ter uma experiência sobrenatural.
O antigo amor, aquele que lhe deu inspiração para uma vida inteira de romances trágicos de sucesso ressurge disposto a comprometer-se. Entretanto, também o seu manager Lawrence (Lawrence Chow), anuncia o título do novo livro de Ting-yi sem esta ter ainda escrito uma linha. Perturbada com o regresso do que lhe provocou tanta dor e a pressão de escrever um novo livro, a tarefa é-lhe mais difícil do que nunca. Escreve, apaga, reescreve, desiste e deita fora o papel. Este ritual repete-se até que as suas linhas principiam a transpor para a realidade. Os aparelhos começam a tomar vida própria e as torneiras abrem-se sozinhas. Ting-yi sente-se assombrada. É real ou está tudo na sua cabeça? Não era afinal o que Ting-yin queria? Apostada em compreender o que se está a passar, Ting-yin entra numa dimensão paralela, onde os seus medos se tornam realidade. Dificilmente se encontrarão dois capítulos mais distintos numa película. Os primeiros quarenta minutos são típicos dos irmãos Pang, onde se podem vislumbrar truques ou variações das técnicas presentes na série de filmes “The Eye” (2002). A segunda metade do filme também é típica dos Pang com a ligeira diferença de que a dupla aposta tudo nos aspectos visuais em detrimento do desenvolvimento da narrativa. E que festim para a vista: temos um parque de diversões made in hell, um batalhão de zombies, uma gruta de fetos abortados… Sim, eles foram lá. E mais não digo para não furtar a surpresa à experiência visual. “Re-cycle” apresenta uma confluência de fontes de inspiração que não são assim tão difíceis de encontrar. Temos desde a entrada de Tyng-yi na nova realidade paralela qual “Alice no País das Maravilhas” do Lewis Carrol, passando pelo imaginário de Tarsem Singh [“The Cell”(2000) e “The Fall” (2006)] e pela obra extraordinária do Terry Gilliam até ao universo dos jogos de vídeo e computador com “Sillent Hill” (2006). A homenagem, não se sabe se intencional ou não, é inócua e está ao nível dos exemplos anteriormente citados. É onde o cinema e a arte se encontram de mãos dadas, discorrendo livre, sem interferências explícitas do estúdio. “Re-cycle” é sobre a perda e a mudança, sobre como podemos passar a vida real para o papel e lhe podemos dar um final feliz. “Re-cycle” é também a lembrança de tudo o que descartámos ou deixámos para trás: sonhos, pensamentos, desejos e acções, seguindo um caminho diferente na estrada sinuosa da vida. Mas toda esta reflexão é abandonada para dar lugar ao espectáculo visual.
Os temas são abordados superficialmente, por um ancião e uma pequenina que acabam por se tornar os guardiões de Ting-yi na dimensão. Mas parece não existir um esforço consciente para dar continuidade às temáticas. Nem Ting-yin está interessada em buscar um significado para a experiência simultaneamente fantástica e assombrosa que está a viver, nem retomadas as questões levantadas logo de início pelos novos personagens. Ting-yin sobressai como uma mulher vulnerável que só quer fugir do pesadelo onde se enfiou por desejo próprio. Explorar a sua própria psique e encontrar a resposta tão óbvia para a sua presença ali é a sua última preocupação. A recém-descoberta vulnerabilidade de Ting-yin contrasta com a personagem quase glacial a que fomos apresentados pelos Pang. Tivesse Sinjie Lee um pouco de argumento e seriamos brindados com uma representação digna do seu talento. Sinjie Lee é na verdade Angelica Lee actriz preferida dos Pang desde que contracenou em “The Eye” (2001) e comprova mais uma vez por que é a musa perfeita para as obras focadas no sobrenatural da dupla de realizadores. E o seu próximo esforço também está quase ai, “Sleepwalker” (2011), no qual é dirigida pelo marido, nada mais, nada menos, que Oxide Pang Chun. A ela junta-se também Lawrence Chow, outro habitué nos filmes dos cineastas. Um passeio no parque para os Pang. Estes irmãos não são consensuais e têm obras bastante questionáveis, mas depois de obras com a mestria de “Re-cycle” uma pessoa começa a questionar-se se os problemas de concretização estão no talento da realização ou nas pressões dos estúdios. Outro ponto controverso será a forte mensagem pró-vida do filme que certamente provocará uns risos nervosos nos defensores mais fervorosos do aborto. Visualmente perfeito e a gritar por uns óculos 3D, “Re-cycle” é uma película imperfeita que pede mais do que uma visualização até que o olhar humano consiga apurar todos os pormenores magníficos da obra desta dupla de Hong Kong. Três estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun e Danny Pang
Argumento: Cub Chin, Sam Lung, Oxide Pang Chun, Danny Pang e Thomas Pang
Sinje Lee como Ting-yin
Ekin cheng como Jeong Man
Lawrence Chow como Manager de Ting-yin
Siu Ming-Lau como Velho
Yaqi Zheng como Ting-yu
Próximo Filme: "Ju-on: The Grudge" (Ju-on, 2003)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

3ª Mostra de Cinema de Hong Kong em Lisboa!

Em Janeiro de 2012, Lisboa recebe a terceira edição da mostra dedicada ao cinema de Hong Kong. De 11 a 15 de Janeiro o Cinema City Classic Alvalade será agraciado com filmes de comédia e romance produzidos em Hong Kong.

Programa
11 de Janeiro, quarta-feira - "All About Love"
12 de Janeiro, quinta-feira - "Break Up Club"
13 de Janeiro, sexta-feira - "Crossing Hennessy e "The Drunkard"
14 de Janeiro, sábado - "La Comédie Humaine" e "Echoes of The Rainbow"
15 de Janeiro, domingo - "Gallants"

A Mostra de Cinema de Hong Kong é um projecto desenvolvido pela Zero em Comportamento em parceria com o Hong Kong Economic and Trade Office de Bruxelas e pretende dar a conhecer a vitalidade e diversidade da produção cinematográfica de Hong Kong. Esta iniciativa constitui uma rara oportunidade de conhecer o cinema de romance e comédia do extrema oriente. Eu vou lá estar. E vocês?

Mais informação e o programa completo no website oficial do evento.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man 2" (Yip Man 2, 2010)

Ip Man fugiu para Hong Kong depois de um incidente que trouxe uma tremenda humilhação dos invasores japoneses. Desta feita são os ingleses que mandam na cidade e Ip Man terá de reunir forças para enfrentar as sucessivas ofensas deste povo, enquanto luta pela sobrevivência dos que ama. Ip Man entende agora o potencial do Wing Chun e mantém a custo uma escola de artes marciais para jovens chineses.
Em Hong Kong grassa a corrupção com os ingleses a deixar os mestres locais manter os seus negócios a troco de dinheiros e favores. Claro que os donos de escolas de artes marciais não vêem com bons olhos a chegada de um concorrente. Pior que isso: Ip Man é honesto. Aborrecidos com a atitude desafiadora do instruso, levantam obstáculos à existência da escola. Então, Ip Man que apenas pretende ganhar a vida e manter uma actividade honesta, tem mais uma vez de utilizar o Wing Chun. Isto dá origem a uma série de lutas maravilhosamente coreografadas por Sammo Hung, que também desempenha um dos mestres rivais. Curiosamente, Hung sentiu-se mal durante as filmagens de "Ip Man 2" e foi mesmo operado ao coração, após o que voltou à rodagem das exaustivas cenas de luta. Pergunto-me se as cenas captadas em filme, de um Sammo Hung exausto, não correspondem ao drama que se operava na vida real. A atitude deste senhor é tanto mais extraordinária se considerarmos que ele, longe de ostentar a melhor forma física, mantém uma agilidade supra-normal. O confronto entre os mestres do Kung Fu chineses dá direito a uma das melhores sequências de luta do filme... em cima de uma pequena mesa redonda! Se não gostam de filmes moralistas façam fast forward mas não deixem de apreciar esta cena. Magnífica! À semelhança do primeiro filme, a primeira meia hora é leve e despreocupada. Num cenário de guerra e de grandes dificuldades para os cidadãos chineses, eles perdem tempo em escaramuças e brigas que em nada contribuem para a unidade contra o inimigo. Sobrevivem atormentados pelo dilema entre a colaboração com o inimigo, pondo comida na mesa das sua famílias ou enfrentá-lo e arriscar a perda do que lhes é mais querido. Para alguns, esta realização surge tarde demais, para outros, a atitude heróica de uns poucos coloca um ponto final na constante humilhação do invasor. Mais, uma vez os bad guys são mesmo really bad guys. Assistimos ao estereótipo do inglês arrogante, snob, com maus dentes.
É incontornável. O argumento retrata o inglês como um ser odioso. Em "Ip Man 2" a encarnação do mal é o boxer inglês "Twister" (Darren Shalavi), que veio a Hong Kong para demonstrar as suas capacidades atléticas e dar porrada nuns macacos. Não sou eu que o digo, é ele. Aviltante. Odiei-o. Acho que não odiava um personagem tão intensamente desde que o Joaquín Phoenix interpretou César no "Gladiator" (2000). Quase que tenho pena do Darren Shalavi. Temo que a sua reputação tenha sido irremediavelmente destruída junto do povo chinês e que este papel o condene a papéis-tipo, apesar da representação não ser o seu forte. Darling, fica-te pelas cenas de pancada, sim? Os melhores desempenhos vão para personagens secundárias divididas entre o dever para com o país e a sobrevivência. Por comparação, Ip Man surge mais fraco que no primeiro filme. Lamento que no primeiro filme em que Ip Man leva pancada a sério, o inimigo seja Twister. O General Miura do primeiro filme é um adversário infinitamente mais digno que este boxer inglês. Desculpem lá quaquer coisinha mas, é mais interessante assistir a um confronto entre artes marciais chinesas e nipónicas ou ao kung fu contra o boxe? É que os estilos são tão diferentes que não existe nem a beleza visual nem a dificuldade que seria de esperar de um confronto épico. Mas no geral, as sequências de luta são visualmente estonteantes, nada da treta do digital que Hollywood enfia a martelo nos filmes. Contudo, a acção é menos sobre o estilo Wing Chun e mais sobre o confronto étnico. São os britânicos superiores aos chineses? Ip Man, coloca nos seus ombros a responsabilidade de responder pelo povo chinês com uma brutal sessão de pancada. Entretanto, também há desenvolvimentos na sua vida pessoal: a sua mulher Zhang Yong Cheng (Lynn Hung) está grávida e temos a oportunidade de conhecer Wong Lwung (Xiaoming Huang), que se tornaria um dos mais relevantes discíplos de Ip Man. No final, uma surpresa, Bruce Lee lá aparece para dar um ar da sua graça mas soa a um evento oco, sem qualquer significado especial. Foi apenas o primeiro encontro entre dois dos melhores praticantes de artes marciais de sempre, perdoem-me se estava à espera de uma cena com uma forte componente emocional. "Ip Man 2" é inferior ao primeiro filme. Ainda assim há grande valor de entretenimento, sobretudo se forem fãs de kung fu. Três estrelas.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Edmond Wong
Donnie Yen como Ip Man
Lynn Hung como Zhang Yong Cheng
Simon Yam como Zhou Qing Quan
Sammo Hung como Mestre Hong Zhen Nan
Xiaoming Huang como Wong Shun Leung
Siu-Wong Fan como Jin Shan Zhao
Darren Shalavi como Twister
Kent Cheng como Fatso

Próximo Filme: "White: The Melody of the Curse" (Hwaiteu: Jeojooui Mellodi, 2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

Ip Man. De vez em quando surge um homem com um talento tão extraordinário que marca indelevelmente a história. Ip Man é conhecido como o mestre por excelência do Wing Chun uma arte marcial chinesa e um modo de auto-defesa utilizada no combate corpo-a-corpo. Ip Man é responsável por ter deixado por escrito a história desta arte marcial e foi criado um museu em sua honra em Foshan, na China. Mas o motivo por que é mais conhecido no Ocidente é ter sido mestre de um pequeno artista do Kung Fu, de que talvez já tenham ouvido falar, chamado Bruce Lee.  No cinema Ip Man já tinha sido retratado por diversas vezes, nomeadamente, como mestre do seu pupilo mais famoso. Só recentemente houve um renascer da atenção sobre Ip Man, por via do cinema de acção de Hong Kong cujos filmes sobre grandes mestres e o género wu xia são sinónimo de grandes resultados de bilheteira. O facto de o Wing Chun ter uma história tão peculiar, pois que reza a lenda que o estilo nasceu quando a donzela Ying Wing-Chun se defendeu contra um pretendente rejeitado, só podia dar origem a um filme. Em 1994, uma Michelle Yeoh ainda desconhecida no ocidente interpretou a heroína em "Wing Chun", acompanhada por Donnie Yen no papel de pretendente rejeitado. Ele já tinha familiaridade com a lenda e um grande mestre teria de ser retratado por um grande lutador. Yen foi então, a escolha óbvia, ou não fosse ele praticante de wushu, jiu-jitsu, taekwondo, judo e muitas outras artes marciais. E o resultado são sequências de luta impossíveis para o comum dos mortais e visualmente espantosas (o termo técnico é “deixar de queixo caído”).
A narrativa começa em meados dos anos 30 quando um Ip Man, ocioso e despreocupado se limita a praticar e intervir em escaramuças de ocasião as quais secretamente, lhe dão um intenso prazer. Lynn Hung interpreta a esposa de Ip Man que deseja que este abandone as artes marciais e se dedique mais ao filho Ip Chun. Tudo muito giro e calmo até que o exército imperial japonês invade a China. Acredito que tudo correria às mil maravilhas se os japoneses não tivessem cometido o erro histórico de invadir Pearl Harbor, provocando assim a entrada dos EUA na 2ª Grande Guerra e não se tivessem metido com o Ip Man. Ninguém se mete com o Ip Man! Mas ele pertence àquela marca do herói relutante, modesto e cativante, que terá de passar por muitas provações até compreender o poder do seu talento, com o potencial de ser seguido por milhares. Com a invasão japonesa Ip Man é obrigado a deixar o seu palacete e a arranjar um trabalho numa fábrica de extracção de carvão para evitar a fome da sua família. A vida deixa de ser a preto e branco, para existirem vários tons de cinzento. Muitos cidadãos chineses para evitar a miséria, passam-se para o lado dos invasores como espiões e captam antigos mestres para enfrentar lutadores japoneses por sacos de arroz. E aqui incorre o grande defeito do filme. Os maus são demasiado maus, são cartoonescos, demoníacos mesmo. Estamos a referir-nos a uma guerra, pois claro, mas ambas as partes cometeram atrocidades ao longo da história. Até os portugueses foram a dada altura o maior povo esclavagista do mundo! O argumento podia ter manuseado melhor esta questão, explorando por exemplo, o facto de o exército japonês estar a cumprir ordens, de os soldados terem sido enviados para a guerra, deixando também eles, empregos e famílias para trás. O argumento podia ter dar espaço à reflexão sobre como a maldade não é inata, mas no contexto certo pode ser criada. Senti que a escrita foi ao encontro das expectativas das massas que se encontram enraizadas no profundo nacionalismo e ressentimento decorrentes da história entre os dois países. A dissonância cognitiva é melhor demonstrada no personagem Li Zhao (Ka Tung Lam), um chinês tradutor do exército invasor que é forçado a fazer escolhas dificílimas, mesmo perante aqueles a quem há poucos meses chamava de amigos, em nome da sobrevivência da sua família.
Depois temos um Ip Man que aguenta ofensas que só um homem extraordinário pode suportar até que um dia, percebe a razão de ser do seu talento. O evento é, curiosamente, despoletado pela sua mulher que era antes castradora quanto ao seu envolvimento nas artes marciais. É o desejo de proteger a sua família que o leva a empreender toda a sua força contra o inimigo. Ip Man, não pára sozinho a guerra mas incentiva os chineses a lutar pela sua dignidade, emprestando as suas excelentes capacidades físicas e a sua filosofia de vida muito zen. Sim, que apesar de conseguir esmurrar um homem um gazilião de vezes, evita fazê-lo porque ele é assim, muito chill out, estão a ver? Ele incentiva implicitamente os cidadãos de Foshan a resistir e traz o sentimento da esperança novamente àqueles coraçõezinhos quebrados. Há uma luta final, que é o grande confronto com o General japonês Miura, no qual Donnie Yen é excelente, não haja duvida, mas fica a saber a pouco. Quando damos por nós, não sendo fãs acérrimos de artes marciais, a ansiar por mais, é sinal de que o que estamos a ver é pancada da séria! "Ip Man" trouxe reminiscências de um jovem Jean Claude Van Damme, de um explosivo Bruce Lee, ou de um sério mas brutalmente eficaz Chuck Norris. E o melhor de tudo? Donnie Yen tem o desempenho de uma vida. Já o critiquei por diversas vezes: aqui e aqui. As suas qualidades como actor não são as melhores mas em Ip Man, estão bem acima de medíocres, são muito razoáveis. Este filme apesar de toda a liberdade artística em torno da demonização do povo japonês e da própria vida do mestre representa bom entretenimento. Por isso é, no mínimo, de estranhar que Donnie Yen ainda não tenha sido seduzido por Hollywood, nem seja um nome sonante em terras americanas, como o são Jet Li e o Jackie Chan. Neste minúsculo cantinho de língua portuguesa, Donnie Yen merece todo o respeito e aclamação pelo seu trabalho como lutador, coreógrafo e artista. Três estrelas e meia.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Edmond Wong
Donnie Yen como Ip Man
Simon Yam como Zhou Qing Quan
Siu-Wong Fan como Jin Shan Zhao
Ka Tung Lam como Li Zhao
Yu Xing como Mestre Zealot Lin
Lynn Hung como Zhang Yong Cheng
Hiroyuki Ikeuchi como General Miura

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man 2" (Yip Man 2, 2010)

Clica aqui para veres o mestre Yip Man com o seu mais famoso discíplo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Three - Curta #3: Going Home" (Saam Gaang, 2002)

Depois da recepção gelada que as primeiras curtas-metragens da antologia de terror "Three" obtiveram, a vontade de visionar "Going Home" encontrava-se poucos graus abaixo de zero. Não fosse a companhia e teria ficado "satisfeita" por ter visto duas em três o que constituiria um grande erro. Como se costuma dizer: "o melhor fica para o fim". "Going Home" é uma peça tocante sobre Wai (Eric Tseng) que se muda com o filho Cheung (Ting-Fung Li), para um antigo complexo de apartamentos que irá ser demolido dentro de pouco tempo. Não é pois de estranhar que o seu filho impressionável pense que o edifício está assombrado. Um dia, este segue uma rapariguita de vermelho que costuma brincar no complexo e desaparece. Inquieto com o desaparecimento do filho, Wai bate à porta do seu único vizinho Yu (Leon Lai) e tropeça numa história rocambolesca. Yu tem dedicado a sua vida a cuidar da sua mulher Hai’er (Eugenia Yuan) que matou há três anos! E agora, acreditem nisto, Yu continua a banhar, cortar o cabelo e as unhas da mulher, a passeá-la e a falar-lhe ternamente como se estivesse viva. Só num filme certo? Mas Yu nada tem de psicopata, ele é digno de compaixão, envolvido na ilusão que ele próprio criou de que a esposa irá acordar dentro de dias. A grande força de “Going Home” reside na subtileza do desempenho de Lai e na sua força comedida que fazem questionar se ele estará mesmo louco, ou se realmente encontrou uma solução mágica para a vida depois da morte. Por contraposição, temos um Eric Tseng quebrado perante a sua própria impotência face à ausência inexplicável do filho. Dois modos interessantes de lidar com a perda que podiam ser ainda melhor explorados não fosse esta uma curta. Apesar de eficaz, “Going Home” não está isenta de falhas. O desaparecimento de Cheung despoleta a acção mas, durante mais de metade do filme, não voltamos a ele. É como se o seu desaparecimento fosse apenas uma desculpa para nos introduzir à vida de um vizinho louco. E por muito interessante que seja explorar a "relação unidireccional" de Yu com a mulher, temos sempre presente que uma criança está desaparecida e queremos uma resposta para o mistério. O início também é enganador, com as pistas de que vamos assistir a um thriller sobrenatural a revelarem-se infundadas. Tanto melhor, o mistério sobrenatural como o conhecemos já há muito devia ter caído em desuso. “Going Home” é a obra mais compensadora de “Three” e aquela que podia (devia!) ter sido perscrutada mais profundamente numa longa-metragem. O lirismo da narração e da cinematografia de Christopher Doyle que foi responsável por algumas das obras mais belas na sétima arte como “Hero” (2002) e vários filmes de Wong Kar Wai, a par dos bons desempenhos dos actores, merecem que vejam com a maior urgência esta curta-metragem! É daquelas pequenas pérolas que fazem uma pessoa apaixonar-se de novo pelo cinema. Imperdível. Quatro estrelas.


Realização: Peter Chan
Argumento: Peter Chan, Matt Chow, Jo Jo Yuet-chun Hui e Chao-Bin Su
Leon Lai como Yu
Eric Tseng como Wai
Eugenia Yuan como Hai'er
Ting-Fung Li como Cheung

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"The Lost Bladesman" (Guan Yun Chang, 2011)

Ah, os grandes épicos chineses. Suspiro. Histórias moralistas camufladas por entre cenas de luta e romances melodramáticos. Não é que não sejam visualmente espantosas ou que não entretenham mas no universo das máquina de fazer filmes épicos já escasseia algo que se destaque no meio de todos eles. Desta feita, "The Lost Bladesman" é baseado na figura lendária de Guan Yu descrita no "Romance dos Três Reinos", uma peça literária do século XIV. A adaptação ao cinema foi realizada por Felix Chong e Alan Mak, a dupla que nos trouxe "Infernal Affairs" (2002), que caso não conheçam é apenas o filme que Scorcese copiou no oscarizado "The Departed" (2006), pelo que a expectativa desta reunião era alta. A história começa quando Guan Yu (Donnie Yen), general de Liu Bei é capturado pelo seu inimigo Cao Cao (Wen Jiang). Com uma força tão poderosa em seu poder, Cao Cao tenta convencer Guan Yu a juntar-se a ele oferecendo-lhe Qi Lan (Betty Sun), a terceira esposa de Liu Bei por quem ele está apaixonado. Sendo o herói honrado que é, Guan Yu recusa-se a trair a lealdade de Liu Bei mas aceita lutar por Cao Cao em troca da liberdade de Qi Lan. Cao Cao aceita a sua condição e deixa-o partir. Contudo, os seus generais, com medo de voltar a encontrar o poderio de Guan Yu em batalha decidem mandar matá-lo. É esta acção que desencadeia o rumo dos acontecimentos que levarão à imortalização de Guan Yu.
Com apenas uma arma e escoltando uma mulher indefesa, Guan Yu deixa um rasto de morte e destruição por onde passa, à medida que os seus inimigos conjuram a sua morte e se recusam a dar-lhe passagem segura. Infelizmente, o enredo não é tão interessante como à partida se apresenta. A história é bastante intrincada e só os conhecedores do romance e de filmes anteriores baseados no manuscrito como Red Cliff (2008-2009) é que se sentirão minimente à vontade com o vasto número de personagens e de intrigas. A somar ao desconhecimento da trama os novatos na história têm de lidar com cenas de diálogo fastidioso, filosófico e (por vezes) bonito, mas que nem por isso leva a lado algum. Depois existe um problema fundamental: o personagem de Guan Yu. A começar pelo visual do personagem. Donnie Yen, não tem a estatura nem a presença imponente e real de Guan Yu assinalada no manuscrito original do romance. Nesse aspecto, Donnie Yen não corresponde às expectativas. O próprio guarda-roupa e caracterização ficam aquém do imaginário do herói lendário. A peruca que Yen utiliza durante todo o filme é simplesmente horrível. Não conseguiam mesmo fazer melhor? Adiante, Yen é um excelente lutador de artes marciais e foi ele que esteve a cargo da direcção das cenas de luta. Nesse campo, irrepreensível. Mas ele não é, nem nunca foi, lamento, um grande actor. A sua contenção é frustrante. O seu rol de expressões é equivalente à de um Keanu Reeves e nos poucos momentos em que se lhe era exigido um sorriso, Yen esboçava um sorriso amarelo como quem diz: "ora deixa cá mostrar um pouco os dentes, porque é isso que eles querem". Yen, parece constrangido a todo o momento e o seu desempenho parece forçado. Só corresponde nas cenas de luta. E mesmo aí, verifica-se contenção. Ninguém vê um filme de Donnie Yen, para não o ver arrancar uma demonstração explosiva das suas capacidades atléticas.
Por fim, temos o romance com Qi Lan (Betty Sun), que é o elo mais fraco de filme. Sun está ali apenas para sorrir e parecer bonita como o desejo de afeição proibido de um Guan Yu dividido entre o amor e a lealdade ao seu companheiro de armas Liu Bei. Mas lá está, não existe um verdadeiro dilema por parte do nosso herói pois ele é sempre correcto e leal, acima de tudo. Guan Yu, nunca comete nenhum deslize pelo que temos desde cedo a certeza que ele não irá ceder a impulsos de ordem romântica. Guan Yu é apenas uma pequena peça num grande tabuleiro que os generais manobram a seu belo prazer. Resta-nos pois um herói aborrecido e magníficas cenas de luta que infelizmente são tão breves que não compensam o ritmo lento da história. O actor com mais material com que trabalhar acabou por ser o Cao Cao de Wen Jiang, cujas maquinações fazem mover toda a trama. Esta é uma opção infeliz visto que o actor secundário se superioriza ao principal.
Veredicto: os cenários e paisagens deslumbrantes, o guarda-roupa faustoso e as cenas de luta espectaculares contribuem para tornar “The Lost Bladesman”, uma visão agradável. Mas e daí também os outros épicos pontuam nestes aspectos. Há muito que o cinema de Hong Kong aprendeu essa lição. Então o que traz “The Lost Bladesman” de diferente? Com toda a sinceridade, nada. Vê-se. Duas estrelas.
Realização: Felix Chong e Alan Mak
Argumento: Felix Chong e Alan Mak
Donnie Yen como Guan Yu
Wen Jiang como Cao Cao
Betti Sun como Qi Lan

Próximo Filme: "Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)
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