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domingo, 17 de setembro de 2017

Notas de um Festival de Cinema de Terror” – Parte dois


Aqui a je não conseguiu ir ao primeiro dia de festival. Antecipava algumas das propostas em cartaz das quais deixo contributos válidos e que vou seguindo com alguma atenção como “Dave made a Maze” ou “Prey”. Já tinha visto o “The Void” e não morro de amores pelo filme que é sobretudo uma oportunidade mal-amanhada. Tanto que nem sequer me dignei a escrever uma crítica sobre ele, mas aproveito para partilhar uma estória de terror muito pessoal. Nesse dia estive num casamento (existe lá melhor incidência para faltar ao festival?) e descobri, no dia anterior que não cabia no vestido que tinha planeado, pelo que tive de desencantar um trapinho no dia anterior. O drama, a tragédia, o horror!

Dia 2

“The Endless” (2017)

E o 1º Prémio para “Filme de que mais gostei de modo inesperado” foi “The Endless” (2017). Sabia pouco mais que a sinopse e conhecia um pequeno clip que nem sequer é representativo de todo o filme. Também conseguiu estar milhas à frente de “The Bad Batch”, da Ana Lily Amirpour que realizou o hipnotizante “A Girl Walks Home Alone at Night”, então exibido numa sessão de warm-up da Edição do Motelx de 2015.
Justin (Justin Benson) e Aaron (Aaron Moorhead) são irmãos com um passado incomum. Eles escaparam a um culto há cerca de uma década e estão tanto tempo depois ainda a ajustar-se a uma vivência mais convencional, que se denota na incapacidade de formar ligações amorosas ou de lidar com uma rotina de trabalho das 9:00 às 18:00. Enquanto Justin está convencido que a opção de fuga foi a melhor decisão que tomou para ele e para o seu irmão que extraiu do “Campo Arcádia”, Aaron não parece lembrar-se do que era assim tão mau na vida em comunidade com um grupo de pessoas com uma percepção diferente da realidade mas que pareciam ter relações genuínas e querer melhorar-se enquanto pessoas, nem ele está certo de que a palavra “culto” é a mais apropriada para o que viveram. Ademais, ele está farto da sua existência menor, numa firma de limpezas. Saiu de lá para isso? É apenas para isso que está fadado? Quando recebem no correio uma cassete VHS em que uma das mulheres do campo fala na “Ascensão” que sobrevirá em breve, Aaron fica determinado em regressar e clarificar o que significam as suas memórias. Justin decide acompanhá-lo desde que a visita seja breve e demonstre por fim que o campo é tudo menos saudável para eles. À chegada descobrem que o que mais mudou foram eles. Os membros do campo estão iguais a quando os deixaram e continuam a ocorrer eventos estranhos mas estes talvez não correspondam aquilo que pensam. “The Endless” permite a análise sob os olhos dos dois irmãos sobre as memórias de eventos que nos marcaram e das acções que então tomámos que nos levaram ao ponto em que nos encontramos, bem como sobre a verdade dessas mesmas memórias e os ciclos em que estamos inseridos como resultado dessas opções passadas. Contar mais é mais do que ser um dos trolls dos spoilers, é estragar a mística de uma mitologia que merece ser descoberta e descodificada por quem a vê e cujas respostas, a ser encontradas, poderão diferir em consonância com as experiências do seu intérprete.
Benson e Moorhead têm uma enorme química no desempenho de irmãos e ao demonstrar que não são funcionais na sua totalidade, a despeito de por vezes o argumento parecer um pouco apressado e existirem algumas falhas pontuais de quem se encontra a executar muitas funções ao mesmo tempo (realização, montagem, representação, etc). Com uma carreira conjunta que inclui “Resolution” (2012) que tem uma aparição interessante neste filme e “Spring” (2014), considerado pelo Guillermo Del Toro como um dos melhores filmes da década, Benson e Moorhead insistem desde os créditos iniciais que a natureza do horror de “The Endless” é lovecraftiana. De facto, fez recordar alguns filmes exibidos no Motelx em anos anteriores como o mindbender “Coherence” (2013) ou o estudo sobre a paranóia “The Invitation” (2015), pelo argumento intricado ou similitude temática. “The Endless” não procura respostas fáceis. É mais sobre o caminho do que a chegada. E que pena ter chegado ao fim de uns 111 minutos que pareceram curtos. Três estrelas e meia.


“The Bad Batch (2016)

Se “The Endless” augurava um bom início de festival “The Bad Batch” foi um balde de água fria. Suki Waterhouse é aquela coisinha gira que fica óptima no ecrã, sobretudo se tiver com uns calções curtinhos que mostrem uns km de pernas e um smiley face numa das nádegas como quem diz que é autoconsciente da graça que tem. Infelizmente, a graça fica-se pela aparência que em breve terá apenas um braço e uma perna, que os outros foram comidos por canibais, já que como actriz é uma nódoa, daquelas que não saem numa só lavagem. E sim, o Keanu Reeves entra no filme.
“The Bad Batch” é sobre todos aqueles que a sociedade civilizada (?) considera como indesejáveis. Os imigrantes, os criminosos, os injustamente julgados, os doentes mentais, os drogados e os inadaptados são marcados com um número atrás da orelha e largados num terreno árido rodeado por uma vedação, algures no Texas, no qual são obrigados a fazer as coisas mais obscenas para sobreviver. Mas entendam que dentro da vedação não estão no Estado do Texas. Aliás, nem  sequer estão nos E.U.A. É uma terra de ninguém e de cada um por si. O melhor a fazer é morrer. Suki Waterhouse é Arlen, uma rapariga rebelde que se passeia sem cerimónia e até de forma exibicionista por aquela paisagem desértica até ter um brutal encontro com a realidade. Os mais fracos são aprisionados e tornam-se o alimento de canibais, que é na verdade, uma das poucas formas de sobreviver num terreno onde é despejado lixo tóxico e parece subsistir pouco mais do que coelhos. Graças ao pensamento rápido, Arlen consegue depois de ter perdido alguns membros, ser mais esperta que uma das suas captoras e fugir para se enveredar, semi-morta, no deserto. Lá, é resgatada por um vagabundo (Jim Carrey quase irreconhecível) que a deixa em Comfort, uma localidade onde imperam se não leis, pelo menos bom-senso. Mas a menina Arlen é teimosa e vingativa pelo que não sente “confortável” o suficiente para se aguentar lá por muito tempo. Ela quer mais, quer algo que não consegue vocalizar ou expressar de modo conveniente. No entanto, pelas vezes que de lá sai, apenas em uma ocasião não retorna.
“The Bad Batch” é uma visão distópica com inspirações da saga “Mad Max” e nada subtil à sociedade contemporânea que não sabe o que fazer com os seus “indesejados”. Daí à vaga migratória no Mediterrâneo e o discurso de Trump sobre um muro que irá manter todos os ilegais de fora é um instante. O sonho americano é mencionado na inquietude dos seus personagens mas nunca se materializa. Por fim, temos ainda a lembrança brutal e cada vez mais rodeada de uma certa tendência de negacionismo, do povo judeu marcado como animais e exterminado em campos de concentração. “The Bad Batch” está cheio de ideias mas parece estar mais preocupado com as aparências –, Lyle Vincent faz um papel brilhante de cinematografia –, dado que o conteúdo nunca é desenvolvido e as mudanças tonais advêm de nenhures. Os personagens andam à deriva. A sociedade que os liberta ali está mais ciente das suas convicções, por horrendas que sejam, do que os indesejáveis. Por serem rejeitados, eles ali não se tornam mais fortes ou unidos. Eles não almejam sequer formar uma nova ordem, que lhes permita ser produtivos, não enquanto sociedade de consumo mas por eles próprios, seus sonhos e ideias. Eles entregam-se a drogas, à manipulação de outrém e a ser miseráveis para os seus pares. Evidencía talvez um excesso de zelo de Armipour na demonstração de que os “outros” estão errados, sem tentar provar que a mercadoria estragada não é, afinal, tão estragada quanto isso. Mas existe luz ao fundo do túnel. A dada altura surge um romance por que o que faltava em “The Bad Batch” era mesmo um amor mal cozinhado. E de que precisa uma Arlen mais do que um homem másculo que poderá querer comê-la a dada altura, além do sentido erótico do termo, para sobreviver naquele lugar? Depois de uma relação vampirica em "A Girl Walks Home Alone at Night" começo a encontrar um padrão. Duas estrelas.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

“Notas de um Festival de Cinema de Terror” – Parte um


Um Festival, doze filmes. Desde 2011, com a interrupção de um ano (2013) em que valores mais altos se levantaram (temos pena mas férias), que não falho um ano. Nem sei se este foi o ano mais prolífico em termos de sessões do Motelx – ainda assim foram 12 bolas! – mas não foi, apesar das expectativas, a melhor edição de sempre. Ainda assim, e como bem diz a expressão popular, o melhor estava guardado para o fim e não, não me refiro ao fenómeno IT (2017)!

Sessão de Abertura

"Super Dark Times" (2017)

Depois de uma sessão de apresentação mais convencional viramo-nos para o que o Motelx sabe fazer melhor: dar a conhecer gemas indie que nos dão um murro no estômago que perfura a pele, revira as tripas lá dentro e as puxa para fora. “Super Dark Times” é o título hiperbólico e um pouco cómico de uma película com muito pouco de jocoso. Zach (Owen Campbell) e Josh (Charlie Tahan) –, este último digam lá se não é a cara chapada da Martha Plimpton? -, São um duo de amigos que passa os dias entre ir para a escola, percorrer os terrenos da sua pacata vila de bicicleta e inventar passatempos. Falam de raparigas, de rufias, de jogos de vídeo. Nada de extraordinário. Um dia decidem quebrar a rotina juntando-se a dois miúdos que não conhecem bem, Charlie (Sawyer Barth) que é o irmão mais novo de uma colega de escola e Daryl (Max Talisman), um puto ruidoso e malcriado que faz qualquer pessoa com um mínimo de sanidade mental, questionar por que querem sequer estar na sua companhia. Ânimos exaltam-se, um acidente sucede e Daryl acaba morto. O pânico toma conta dos adolescentes que decidem ocultar o que se passou. Mas retomar a vida normal é mais difícil do que uma decisão extemporânea podia fazer parecer e a pressão quebra de formas diferentes Zach e Josh.

“Super Dark Times” é, como o próprio nome indica, super negro. Faz refletir sobre os arrependimentos e faz perguntas difíceis como quão “para sempre” são de facto os laços de amizade que tínhamos como inquebráveis, se conhecemos tão bem como pensamos aqueles que têm estado nas nossas vidas desde sempre e se seríamos capazes de tomar aquelas decisões nas mesmas circunstâncias. Nota-se a ausência de interferências externas na vida destes adolescentes. Eles são acriançados, idiotas, borbulhentos, envergam pêlos solitários à laia da existência de bigode e tiram macacos do nariz. Comportam-se tal e qual os adolescentes da vida real. Tudo isto pontuado por uma imagética muito reminiscente de “Stranger Things” (e este nem foi o primeiro filme do festival a fazer eco de uma série que é a autêntica definição de hype), com o teen spirit inquieto e depressivo dos anos 90, numa idade que é, para todos, francamente estranha. Pode uma má acção definir-nos para o resto da vida? Agora imaginem uma culpa dessas cair sobre os ombros ainda não muito largos de adolescentes que nunca saíram da sua concha e do seu pequeno vilarejo. “Super Dark Times” é em última análise traído pela sua própria vontade de ser original, quando já o era desde o inicio, (o tema era lúgubre o suficiente para necessitar de invocar os excessos típicos do género de terror). “Less is more”. O desvio de 45º perto do final não deixa de ser, no entanto, uma decisão corajosa numa estreia cinematográfica muito competente de Kevin Phillips. Três estrelas.

Próximo Filme: “Notas de um Festival de Cinema de Terror” – Parte dois

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Museum: The Serial Killer is Laughing in the Rain" (Myujiamu, 2016)

Atenção aos inúmeros spoilers, vejam o trailer por vossa conta e risco.

“Museum” é a adaptação de uma manga inserida no género de horror de Ryosuke Tomoe que foi publicada durante os anos de 2013 e 2014. A acção centra-se nos homicídios bizarros cometidos por um misterioso Homem-rã e a perseguição que lhe é movida pelo detective Sawamura que tem um interesse pessoal no caso.

A realização esteve a cargo de Keichi Otomo que também dirigiu o live-action do sucesso estrondoso em manga e animação “Rurouni Kenshin”, sob a forma de uma trilogia (2012-2014), cobrindo de grosso modo a respetiva mitologia e seus personagens. Admita-se porém que “Museum” representa um compêndio de três volumes, enquanto a saga “Rurouni Kenshin” teve direito a três filmes, cada um com mais de duas horas e parece não ter existido a pretensão de deixar esta estória aberta à possibilidade de uma continuação. Otome não é um estreante nas andanças da adaptação de publicações de sucesso ao grande ecrã. E quando o material original é bom, é difícil falhar na concretização não é? Pois…

Os créditos iniciais anunciam pompa e circunstância. No meio de chuva torrencial a polícia tenta corresponder à chamada que deseja nunca ouvir: aconteceu um homicídio. Entram em cena os detectives duros e lacónicos de gabardina. O experiente Sawamura (Shun Oguri) e o novato Nishino (Shuhei Nomura) que tenta manter os conteúdos do estômago no seu devido lugar. O corpo de uma jovem mulher assassinada com os requintes de uma besta é encontrado como numa encenação. Essa imagem remete de imediato para outros espaços e temporalidade: “Seven” (1995), “The Bone Collector” (1999) ou até “The Wailing” (2016) vêm à mente. Não será a primeira e também a última vez que tal irá suceder durante o filme. No entanto, o ritmo mais lento é abandonado em favor da exposição da montra de horrores demasiado cedo, fazendo cair a investigação para enveredar pelos tortuosos caminhos de um “Saw” (2004-2010). O aparecimento de novas vítimas sucede a um ritmo rápido e furioso. Uma nota deixada no local, falando numa punição apropriada aos erros cometidos pelas vítimas, anunciam tratar-se de um assassino em série. Esta sequência de eventos conduz a investigação policial ao caso de um assassinato cometido tempos antes e que teria sido solucionado. A forma como as vítimas são apresentadas é impressionante ainda que, de modo casual, uma ou outra encenação possa parecer menos realista. Alguns dos adereços sobretudo os que dizem respeito à anatomia humana têm aparência amadora por comparação com outros surgidos em cenas similares. Porém, o enfoque nas vítimas e no método investigativo é mais célere e aleatório que o início do filme faria antever. “Museum” despacha as vítimas com rapidez para avançar para uma investigação rebuscada, com direito a polícias a demonstrar à boa maneira asiática como conseguem ser incompetentes e pistas cujas interpretação desafia a lógica para se tornar num “Saw” nas suas piores iteracções. De facto, um filme de investigação policial by the numbers como um “Seven” seria sempre mais interessante que o “Sawven” em que seria tornar. Shun Oguri é um excelente actor, capaz de ligar o fogo-de-artifício quando tal lhe é exigido e o seu personagem alterna entre o detective compenetrado e o homem frustrado com muita volatilidade mas aguentar estas cenas é pouco mais que sofrível. O build-up para as cenas dramáticas é quase inexistente, parecendo somente histriónicas. Isto, em conjunção com flashbacks que surgem nas piores alturas se é que eram de todo necessários, transforma a última meia hora num exercício de endurance penoso. No meio de tudo, o Homem-rã, cuja máscara e motivos tinham tido todo o potencial para se tornar num clássico, é quase esquecido. Mais uma vez o passado de um personagem surge à pressa sob a forma de um flashback ainda que este nada esclareça das suas motivações. No tempo presente não se consegue extrair um racional deste assassino para a sua obra e métodos, cujo discurso louco não se coaduna com o de quem passou bastante tempo a planear assassinatos elaborados. Além disso, antecipar e reforçar repetidamente a ideia de que "Museum" irá ser extremo ao ponto de romper com tabus e depois acobardar-se é apenas patético. Para isso, até o "Saw" fez melhor. Salva-se a primeira meia hora. O remanescente é puro engano. Duas estrelas e meia.

Shun Oguri como Detective Hisashi Sawamura
Satoshi Tsumabuki como Homem-rã
Machiko Ono como Haruka Sawamura
Shūhei Nomura como Junichi Nishino
Tomomi Maruyama  como Tsuyoshi Sugawara
Tomoko Tabata como Kayo Akiyama
Mikako Ichikawa como Mikie Tachibana

Próximo Filme: ?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Annabelle: Creation" (2017)



Assisti há tempos à Conferência de Apresentação de um Festival, uma coisa pequena chamada MOTELX (gritinhos histéricos!), onde foi dado a conhecer um pequeno gostinho do que será a 11.ª Edição, cuja programação foi entretanto relevada. Como habitual, nestas coisas de festivais teve lugar um visionamento-surpresa. Para ser honesta, a exibição de longas numa primeira apresentação à imprensa não é original mas, de facto, só descobri ao que ia quando lá cheguei. Fiquei por isso, um pouco desiludida quando me apercebi que seria exibida a sequela de “Annabelle” (2014). A sério, MOTELX? Estava habituada a filmes indie, por certo longas-metragens de baixo orçamento, mas nunca a continuação de uma película que a despeito de estar inserida na saga de “The Conjuring” é de longe a mais fraca. Ainda mais, se pensarmos que os casos de sequelas superiores aos filmes originais se contam pelos dedos de uma mão.
Estava errada. Em mais sentidos do que um. Apesar de ser conhecida de forma universal por “Annabelle 2”, “Annabelle: Creation” é afinal uma prequela que explica as origens da boneca que tanto terror terá provocado ao casal Warren e o filme representa ainda a segunda incursão no mundo das longas-metragens de uma das novas grandes promessas do cinema de terror, David F. Sandberg. Se não estão familiarizados com a sua película anterior, “Lights Out” (2016), recomendo uma visita rápida ao “cineclube” mais próximo. A curta que inspirou essa longa, está disponível no canal do realizador. Confesso que quando aprecio uma obra originária do cinema independente tenho sempre receio quando os seus criadores dão o salto. Ir parar ao cinema comercial é uma progressão natural na carreira mas, tenho receio que os maus hábitos dos executivos de grandes estúdios que consideram natural impôr as suas opiniões (de)informadas, que se sobrepõem por vezes ao talento contratado. “Annabelle: Creation” felizmente não se enquadra nessa categoria. A acção decorre nos anos 40 e 50, quando os Mullins, casal composto pelo criador de bonecas de porcelana Samuel (Anthony LaPaglia) e Esther (Miranda Otto) perde a filha Bee (Samara Lee) num acidente trágico. Destroçado, o casal isola-se na sua casa e entrega-se ao sofrimento. Doze anos mais tarde, decidem abrir de novo o coração e acolher no seu lar uma freira e seis meninas de um orfanato que ficou sem sede. Ficar ali, pelo menos de forma temporária é a única forma de manter as jovens juntas. O grupo é composto por adolescentes mais velhas que dificilmente serão adoptadas e meninas mais novas, onde se incluem Janice (Talitha Bateman) com mobilidade reduzida após cair vítima de um surto de poliomielite e a sua amiga inseparável Linda (Lulu Wilson). Janice é especialmente susceptível ao encanto de uma boneca de porcelana que encontra nas deambulações pela casa a que se encontra confinada. Apenas Linda se apercebe das mudanças que se operam na amiga.
David F. Sandberg manteve a abordagem que funcionou tão bem em “Lights Out”. Ele está no seu melhor nas cenas que envolvem muita escuridão ao mesmo tempo que manteve as convenções de “The Conjuring” que funcionaram com mais eficácia. Gary Dauberman escreveu o argumento dos dois "Annabelle", notando-se uma subida de qualidade na segunda parte que em muito se deve à nova escolha de realizador. Mas se existe um sinal de que ainda estão por vir muitos trabalhos interessantes de Dauberman, atente-se a “The Nun” e “It”, ambos com estreia em 2018.
O filme é um desfile de caras familiares ao universo de “The Conjuring” e do género de terror em geral. Sandberg foi buscar caras como Lulu Wulson que impressionou em “Ouija: Origin of Evil” (2016), Alicia Vela-Bailey a grande vilã de “Lights Out” ou Joseph Bishara, compositor de vários filmes da saga The Conjuring” e com uma apetência para interpretar o papel de demónios. Do elenco sobressaem Thalita e Lulu como actrizes de fazer envergonhar muito bom actor adulto com muito mais experiências que estas adolescentes, já que Lapaglia e Otto têm pouco que fazer.
Ao contrário de outras sagas que divergem de tom entre filmes, desde a banda-sonora até aos actores, este universo mantém-se fiel a si mesmo. Existe uma ideia de grande coesão desde os demónios aos jumpscares (yep, continua, a funcionar), o que significa que para quem não tenha apreciado os outros filmes da saga, “Annabelle: Creation” não constituirá a excepção. Uma pena porque o universo “The Conjuring” com todas as acusações de repetição dos clichés do género continua a ser uma das sagas mais interessantes e relevantes do panorama do cinema de terror americano dos últimos anos. Três estrelas e meia.
Realização: David F. Sandberg
Argumento: Gary Dauberman
Anthony LaPaglia como Samuel Mullins
Samara Lee como Bee
Miranda Otto como Esther Mullins
Lulu Wilson como Linda
Talitha Eliana Bateman como Janice
Stephanie Sigman como Irmã Charlotte
Mark Bramhall como Padre Massey
Grace Fulton como Carol
Philippa Coulthard como Nancy
Tayler Buck como Kate
Lou Lou Safran como Tierney

Próximo Filme: "Museum" (Myujiamu, 2016)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Get Out (2017)


Imaginem que é noite escura e percorrem sem qualquer companhia as ruas de um subúrbio deserto. Estão perdidos e não conseguem compreender onde se situa a casa que queriam encontrar. Vão no passeio e na estrada a vosso lado, começa a circular um carro com uma música antiquada e um pouco arrepiante. Conseguem visualizar o cenário seguinte? Se fosse uma mulher sozinha certamente, uma caminhada solitária nocturna seria uma péssima ideia. Nos Estados Unidos, numa época em que as tensões raciais se encontram muito elevadas e existem inúmeras acusações de preconceito racial por parte da polícia, um homem de raça negra caminhar sozinho nestas circunstâncias é uma mistura explosiva.

Daniel Kaluuya é Chris um fotógrafo profissional de sucesso que está nervoso por conhecer os pais de Rose (Allison Williams), com quem namora há alguns meses. Ela é caucasiana e nunca namorou com um homem de outra raça mas está certa que os seus pais ultra modernos e liberais não terão qualquer problema a esse respeito. Na verdade Rose está bastante sensibilizada para as questões raciais, sendo até demasiado protectora a esse respeito, uma característica que o namorado considera enternecedora, ainda que ele se consiga defender sozinho. Talvez ela esteja a exagerar e reveja laivos de racismo até onde eles não existem mas Chris tem mais reservas sobre o modo como irá ser recebido durante o fim-de-semana. Está inclusive disposto a apresentar a sua melhor face e suportar quaisquer equívocos que possam surgir por Rose. Já o seu grande amigo Rod (LilRel Howery), um agente da TSA habituado a deparar-se com situações de racial profiling e atento ao que se passa nos media é mais céptico a esse respeito. Tudo parece correr bem a início. Os pais de Rose, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra Missy (Catherine Keener) recebem-no como se fosse o membro mais recente da família. Poderão parecer demasiado curiosos e investidos no novo namorado da filha. Mas é nos empregados Walter e Georgina, de raça negra que Chris manifesta as suas maiores reservas. O seu comportamento é sinistro e misterioso. As suas acções simplesmente não se coadunam com a experiência de Chris enquanto pessoa de raça negra e a história dos seus antepassados. À medida que o fim de semana vai passando e, isso inclui uma sessão de hipnose realizada a despeito das suas objecções pela mãe de Rose, Chris começa a questionar-se se sofre de paranoia motivada por casos recentes, como Rod tão bem e de forma cómica o faz recordar ou se de facto se passa algo muito mais estranho. Rod serve de Grilo Falante, uma consciência, se preferirem -, do realizador e para toda a audiência que grita em coro para o ecrã, que algo está muito errado! Corre Chris! Foge!

Rod não tem a reserva ou censura de Chris que se encontra toldado pelo sentimento amoroso e por um optimismo um pouco infantil. Rod representa por tudo isto, os momentos mais engraçados e auto-conscientes de “Get Out”, ecoando uma espécie de Randy (Jamie Kennedy, em “Scream”), tendo ainda uns laivos do injustiçado "The Skeleton Key" (2005).
Desde os primeiros minutos que não existe qualquer dúvida sobre a mensagem que Jordan Peele pretende transmitir. A primeira é tão meta quanto o “Scream” (1996) de Wes Craven com argumento de Kevin Williamson foi no seu tempo: se algo parece mau e cheira a mau provavelmente é mau. Sigam os instintos. Corram! A segunda é a de que desde “Guess who’s Coming to Dinner” (1967) se calhar ainda muito pouco mudou no que diz respeito ao modo como as relações inter-raciais são percepcionadas pela sociedade. Aproveita ainda para dar uma alfinetada às classes média/média alta educadas e bem sucedidas e obriga-as a observar-se com verdadeiro espírito crítico ao espelho. Ao invés de investir na carga dramática Peele dá-lhe uma volta de 180º e pega nas questões de identidade e de raça através dos géneros de humor e terror sem apresentar falta de gosto no processo. “Get Out” foi uma das manifestações mais interessantes e originais do terror nos últimos anos e não menospreza o seu público-alvo. Perdoam-se-lhe talvez algumas cenas mais fortuitas como a do atropelamento de um animal (quantas vezes é que já vimos nos últimos anos??) mas não envergonha. Três estrelas e meia.

Próximo Filme: "Kung Fu Yoga" (Gong fu yu jia, 2017)

domingo, 16 de abril de 2017

"Knock Knock! Who's There?" (2015)


Hong Kong não parece querer abrandar a produção massiva de filmes de terror. Como se costuma dizer quantidade não é sinónimo e qualidade. E “Knock Knock! Who’s There?” não apresenta qualquer pretensão em ascender à parte superior da tabela.

Carrie Ng é uma actriz veterana de Hong Kong que conseguiu emergir de uma sucessão de maus filmes de categoria III e efetuar com sucesso a transição para o cinema destinado ao grande público. Mas se o tempo foi seu amigo e lhe trouxe respeito e reconhecimento internacional não lhe trouxe jeitinho nenhum para a realização… Entre outros pecados cai no erro da antologia. Ao invés de se focar em retratar uma boa estória foca-se em três, cada uma mais desfocada que a anterior. 
Em “Missing” Isabella (Annie Liu) morre num acidente rodoviário aparatoso ao tentar escapar dos paparazzi que a perseguem e ao seu noivo Harry (Carlos Chan). Inquieto, o seu espírito permanece na casa mortuária onde trabalha Roy (Babyjohn Choi), uma velha paixão. Diz que se reacende a acendalha do amor, que é impossível de concretizar dado… bem, dado o facto de ela estar morta e assim mas pronto, diz que o amor é cego e pelos vistos também imortal.

Segue-se-lhe “Karma” e Carrie Ng interpreta Ngo uma agente funerária viciada no jogo que ouve falar de uma susperstição, segundo a qual, se ela enterrar um gato vivo, será bafejada com grandes riquezas. Na sua ganância, ela comete o erro de matar o gato da sua sobrinha Shou (Kate Tsui). Tímida e quieta, ela recusa ignorar o acto atroz cometido pela tia e vai rebelar-se.
Em “Smell” Yan (Jennifer Tse) é uma artista especialista em tornar os mortos apresentáveis para as exéquias fúnebres que não larga o telemóvel. Um dia recebe uma mensagem de Mei-Mei (Nicola Tsang), alguém que não conhece mas com quem simpatiza de imediato. Mei-mei pede-lhe para ir buscar algo por ela e Yan decide ajudá-la, enfiando-se num bairro pouco recomendável da cidade…
“Knock Knock! Who’s There?” é uma miscelânea de estórias com um tom desigual e emprestado a tantos outros que lhe sucederam. Em casos pontuais, que podem ser encontrados em Eric Kwok e Jennifer Tse e, dada a sua experiência afigura-se uma rara tentativa de elevar o material mas o esforço é insuficiente para apagar o meu gosto deixado pelo mau argumento e direcção.

À excepção da sequência inicial, na qual Isabella sofre uma morte violenta que envolve paparazzi sem escrúpulos e um camião do lixo, “Missing” podia ser ignorado quase na totalidade. Para uma antologia que é vendida como sendo de terror, este primeiro segmento é romântico e enfadonho. Está também repleto de cenas inconsequentes. Isabella torna-se um fantasma dado ter assuntos por resolver, assuntos do coração entenda-se, um pouco como “Ghost” (1990). Entre outras descobertas percebemos que o noivo que deixa vivo não lhe desperta interesse além de um velho amor, terminado de forma precoce e absurda devido à interferência da família dela. O que resulta desta revelação? Nada. E a ameaça de espíritos maus nesta terra a Isabella também desaparece tão rapidamente quanto surge.“Karma” é uma velha estória de crime e castigo e embora Carrie Ng sobressaia no papel de vilã, isto não é necessariamente positivo. “Karma” assemelha-se mais a um produto feito para televisão –meia hora de distracção –, do que uma película para televisão. Apesar de algumas ideias interessantes e com potencial inovador, tais como a possessão por um gato e algum mau CGI, o segmento nunca se consegue elevar como algo mais do que medíocre. “Smell” é um título alusivo ao cheiro de cadáveres em decomposição e o que acompanhamos é a viagem de uma mulher (Jennifer Tse) que trabalha no ramo da morte até ao seu encontro. “Smell” é o segmento mais brutal da antologia, no entanto, pouco mais tem do que isso e surge em quantidades muito pequenas, demasiado tarde. Considerando o constrangimento do orçamento os maus efeitos visuais podiam ser perdoados se mais alguma coisa, o que quer que fosse, tivesse um nível superior. Mas isso nunca sucede e, acreditem, para quem acreditou até ao fim por algum tipo de retorno a espera é penosa. “Knock Knock” é o tipo de filme que faz questionar se vale a pena insistir com o visionamento de filmes de terror made in Hong Kong. É que este filme já nem é só formulaico, é horrível e uma perda de tempo. Mais valia não ter aberto a porta a esta sugestão. Uma estrela e meia.


Realização: Carrie Ng Ka-Lai                      
Argumento: Carrie Ng Ka-Lai, Frankie Tam e Yip Ming-Ho           
Segmento: “Missing”
Annie Liu como Isabella
Carlos Chan como Harry
Babyjohn Choi como Roy

Segmento: “Karma”
Kate Tsui como Shou Yun
Carrie Ng como Ngo
Simon Lui como Tong

Segmento: “Smell”
Jennifer Tse como Yan
Nicola Tsang como Mei-Mei

Eric Kwok como “Assassino”


Próximo Filme: Headshot, 2016

quinta-feira, 30 de março de 2017

"Spiral" (Uzumaki, 2000)


Kirie (Eriko Hatsune) é uma estudante que vive em aparente felicidade em Kurouzu, numa pequena vila japonesa. Vive uma relação de amor platónico com Shuichi (Fhi Fan) e o pai Yasuo (Tarô Suwa) foi recentemente reconhecido pelo trabalho enquanto escultor. Ela aparenta dividir com positividade o tempo entre a escola e a casa. Que mais podia uma garota querer?
Um dia, Kirie passa na rua pelo pai de Shuichi, Toshio (Ren Ôsugi), que se encontra a filmar um caracol. Ela cumprimenta-o mas ele parece nem se dar conta da presença dele. Entretanto, Shuichi pede-lhe para fugir com ele para a cidade. Passa-se algo de muito estranho. Algo que nem mesmo ele compreende e que está a afectar o pai dele. Obcecado por tudo quanto tenha que ver com espirais, o comportamento de Toshio torna-se cada vez mais bizarro e preocupante. Como se nem a própria família tivesse qualquer importância até se deixar consumir por completo pelas espirais. E ele é apenas uma de muitas vítimas. Os colegas de Kirie e outros habitantes começam a ficar tomados pela loucura das espirais. Uma espécie de possessão colectiva que contamina aos poucos Kurouzu. Os personagens perdem o seu lado funcional, deixam de viver para se concentrar nos padrões em espiral que vêem em todo o lado: num caracol, ou umas escadas, em peças de cerâmica, no céu… Apenas Kirie permanece incólume ao que se passa à sua volta.

“Spiral” é um conto de obsessão. Como tal, Higuchinsky (sim, é este o nome do realizador, de origem ucraniana e japonesa), fez questão de inserir espirais, umas vezes de modo cirúrgico, outras mais explicitamente, com caracter crescente conforme a película avança. O tom esverdeado da película que faz recordar por exemplo, um “The Ring” (2002), é convincente para a construção de uma realidade paralela. A somar à cinematografia soberba na sugestão da ideia de loucura contagiante, estão ainda todo o tipo de truques de câmara que contribuem para tornar não só a atmosfera (do filme) louca, como, indicar ao próprio espectador a insanidade do que está a visionar! Dá ares de experimental e isso é interessante tanto mais que nunca se chega a saber se tal se deve a momentos de genialidade ou sorte. As críticas são na maioria favoráveis e parecem apontar a primeira mas não estou assim tão convencida.

“Spiral” baseia-se numa manga (longa) de Junji Ito. Se já é difícil condensar os eventos de um livro num só filme, supõe-se que será muito mais adaptar uma série de carácter semanal que se estendeu por um ano! Porventura, seria mais complicado explicar uma estória tão complexa ou Higushinsky perdeu-se na forma e esqueceu o conteúdo. Além de interacções forçadas entre o duo de protagonistas e representações hórridas, o filme move-se a passo de caracol. Existem algumas cenas muito interessantes incluindo uma metamorfose num destes moluscos, um incidente com um eletrodoméstico ou até a exibição de um penteado de fazer inveja às principais casas de alta-costura. Há qualquer coisa de em “Spiral” que faz aludir a autores como o David Lynch. No entanto, continua a persistir uma enorme dificuldade em proceder à sua classificação enquanto género. É ainda hoje apresentado como o mais original entre os filmes de terror desse ano, sendo que mais de uma década volvida, continua a não existir muito material que se lhe compare nesses termos. As mortes são sem dúvida peculiares e é capaz de nos fazer olhar em redor e perceber que há muito mais espirais nas nossas vidas do que poderíamos pensar. Mas será mesmo um filme de terror? Duas estrelas.

Realização: Higuchinsky
Argumento: Junji Ito (manga), Kengo Kaji, Takao Nitta e Chika Yasuo
Eriko Hatsune como Kirie Goshima
Fhi Fan como Shuichi Saito
Hinako Saeki como Kyoko Sekino
Eun-Kyung Shin como Chie Marayama
Keiko Takahashi como Yukie Saito
Ren Ôsugi como Toshio Saito
Denden Denden como Officer Futada
Masami Horiuchi como Reporter Ichiro Tamura
Tarô Suwa como Yasuo Goshima
Toru Tezuka como Yokota Ikuo
Sadao Abe como Mitsuru Yamaguchi
Asumi Miwa como Shiho Ishikawa

Próximo filme: "Knock Knock! Who's There?" (2015)

quinta-feira, 23 de março de 2017

"House" (Hausu, 1977)


Segundo reza a história, estávamos nos loucos anos 70, quando o estúdio Toho – sim, esse mesmo do Godzilla (1954) –, impressionado pelo sucesso de “Jaws” (1975) encomendou a Nobuhiko Obayashi um filme similar. Sem inspiração e, confiando que a veia artística é de família, Obayashi foi buscar ideias à fértil imaginação de Chigumi, a sua filha então menor. O resultado foi tão pouco convencional que durante anos ninguém quis pegar no argumento incompreendido de Obayashi. Finalmente, o estúdio cedeu o total (des)controlo criativo ao argumentista e assim nasceu um filme que se diria ter sido influenciado pelas tão mal-afamadas drogas dos anos 70. E que viagem “House” se revelou.

Angel (Kimiko Ikegami) rebela-se após o seu pai revelar que encontrou uma nova namorada após anos de viuvez. Angel não gostou de Ryoko (Haruko Hanibucho) apesar da abordagem afectuosa desta e, decide, por despeito, passar as férias de Verão com as amigas e a tia (Yoko Minamida), irmã de sua mãe, que apenas viu em pequena. A tia acolhe-a de braços abertos no casarão onde habita sozinha, no meio de uma floresta. E mal pode estar por estar rodeada de juventude, ela, que se queixa de já não haver jovens na sua localidade. Ainda nos primeiros instantes da introdução da tia, professora de piano, é-nos dado a conhecer uma vida trágica. O noivo partiu para a Guerra mas nunca retornou e ela, nunca desistiu de esperar pelo seu regresso.

Desde os créditos iniciais que é transmitida a ideia de que “House” é uma experiência cinematográfica um pouco diferente. Mas podem referir-se a “House” apenas como uma experiência. O filme tem muito mais de captura dos excessos e defeitos dos anos 70, do que produto cinematográfico. O estúdio desistiu de “House” e deixou Obayashi fazer o que desejasse e isso nota-se. Mais do que a imaginação de uma criança, por incoerente que esta possa assemelhar-se, sobressai todo um look louco, repleto de objectos animados, animais malditos e muito amadorismo que se torna divertido se, (e isto é um grande se), for visionado com bastante distanciamento.
As garotas que dão nome a algumas personagens tão estereotipadas como Angel, Kunfû (Kung Fu), Fanta (Fantasy), Makku (Mac) ou Merodî (Melody), entre outras, são actrizes amadoras que não foram, decerto, selecionadas pelas suas excelentes capacidades dramáticas. De facto, várias actrizes nos mais variados momentos surgem desnudas. Longe de mim imaginar que a popularidade do género exploitation teve algo a ver com isso… Mas quem fala da falta de aptidão dramática das meninas não pode deixar de esquecer personagens como o vendedor de melancias, o próprio Obayashi num momento Hitchcockiano e que aparece para dar pistas de que o casarão esconde algo do outro mundo… E o que de lá vem não é tão macambúzio quanto o cinema de terror de finais dos anos 90 e novo milénio fariam crer. Quem disse que os fantasmas/poltergeists ou seja lá o que for, não têm sentido de humor? Os elementos de terror baseiam-se em momentos de profundo exagero musical, que funcionam como berros aos ouvidos ou até a repetição vezes sem conta de uma composição em particular, tal como as crianças costumam fazer. Além disso, temos alguns efeitos especiais sui generis, seja pelo enquadramento criativo da câmara, dos efeitos dignos de um estudante no primeiro ano do curso de cinema ou efeitos animados dissonantes do contexto que os envolvem. Por mais incrível que pareça, por baixo das camadas de maus efeitos especiais e gargalhadas involuntárias Obayashi faz algumas alusões à tragédia maior da História do Japão seja mediante a estória de um noivo desaparecido na guerra ou de uma personagem que arde até nada mais restar no seu lugar. Temos, por outro lado, as bases para o género da comédia de terror e das estórias de casas assombradas que por um motivo ou por outro entram em casarões e… nem sempre saem com vida. Duas estrelas.

Realização: Nobuhiko Obayashi
Argumento: Chigumi Obayashi
Kimiko Ikegami como Angel
Miki Jinbo como Kunfû
Kumiko Ohba como Fanta
Ai Matsubara como Gari
Mieko Satô como Makku
Eriko Tanaka como Merodî
Masayo Miyako como Suîto

Próximo Filme: "Spiral" (Uzumaki, 2000)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"The Autopsy of Jane Doe" (2016)


Dois Homens, um cadáver. Podia ter saído de um daqueles vídeos esquisitos que circulam por aí mas revela-se afinal uma das películas de terror mais competentes de 2016. Uma morgue, cadáveres engavetados, uma família a recuperar ainda de uma tragédia pessoal e o corpo de uma jovem cuja mera existência é um anacronismo é tudo quanto basta para uma das experiências mais marcantes do género do ano.

Tommy (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch) são a dupla de pai e filho médicos-legistas, mais competentes do ramo. Tommy vive para o trabalho. Pouco existe que ele não tenha visto e têm ainda bastantes truques para ensinar ao talentoso filho. Já Austin é um apaixonado pelo “negócio” de família mas não se quer deixar consumir por ele. Pensa numa vida além da morgue e esta encontra-se em Emma (Ophelia Lovibond). Mas enquanto não encontra coragem para deixar o desgostoso pai aprender a lidar com as agruras da vida, dedica-se aos mistérios do corpo. Eles encontram o maior de todos em “Jane Doe” (Olwen Catherine Kelly), o cadáver de jovem desconhecida, encontrado pelo familiar Xerife Sheldon (Michael McElhatton) na cena de um massacre que envolve várias caras conhecidas da região.

O prazo é apertado. Numa noite terão de descobrir a causa da morte da desconhecida e a sua ligação às outras mortes mas em como tudo o resto em Jane, ela é um elemento estranho. Tudo na sua presença indica não se encaixar na sequência de eventos. O corpo não aparenta sinais de violência ou… de qualquer outra coisa na verdade. De que é que morreu a desconhecida?
“The Autopsy of Jane Doe” pertence à ainda curta carreira de André Ovredal, realizador norueguês que se notabilizou com uma das raras boas incursões no género de found footage (“Blair Witch” é uma treta cof, cof) com “Trollhunter” que ademais foi beber à própria mitologia do seu país. No entanto, ninguém o pode acusar de amadorismo. “The Autopsy of Jane Doe” parece um dos melhores episódios de "CSI" com uns resquícios de “Six Feet Under” em formato longa-metragem. É impossível não ficar absorvido pela dupla Cox/Hirsch enquanto esta retalha o corpo de Jane, ao mesmo tempo que levanta as hipóteses mais fantásticas e pavorosas. A abordagem fria e clínica da dupla não afugenta, antes torna as actuações mais realistas. Por seu turno, sem dizer nada, a linda e misteriosa Jane Doe marca o tom cada vez mais sinistro do filme. Sem nada dizer ou mover-se – o cadáver! –, comanda o filme. Um excelente exercício de body horror, mas sem o sensacionalismo de outros. A empurrar a narrativa está a sua investigação. A cada novo indício do que poderá ter sucedido, surge uma nova pista desconcertante para o ultra experiente Tommy e o mais novo mas não menos perspicaz Austin. Entretanto, começam a suceder episódios insólitos na cave onde se encontram e que parecem querer indicar que os factos são bem mais complexos e perversos do que se podia à partida supor. Na verdade o contínuo enfoque em Jane Doe traz mais perguntas que respostas. Este enfase não é voyeurista. Pelo menos não numa perspectiva sexual, a despeito de Jane ser belíssima. A obsessão é clínica, como a de um médico que procura de modo furioso descobrir a causa da maleita de um seu doente. A dada altura “Jane Doe” muda para uma direção não totalmente inesperada mas porventura desnecessária, ainda assim competente. No entanto, se o espectador decide prosseguir com o visionamento confiante ou ficar indignado esta é uma decisão subjectiva. Brian Cox e Emile Hirsch continuam tão convincentes, enquanto mentes inquisitivas e na relação de pai e filho, enquanto o mundo à sua volta ameaça ruir.  A despeito de na última metade de “The Autopsy of Jane Doe” existir uma mudança precipitada de direção, a primeira parte é tão impactante que não é possível não permanecer fascinado por este novo estranho monstro recriado por Ovredal. Quatro estrelas.
Realização: André Øvredal
Argumento: Ian B. Goldberg e Richard Naing
Emile Hirsch como Austin Tilden
Brian Cox como Tommy Tilden
Ophelia Lovibond como Emma
Michael McElhatton como Xerife Sheldon
Olwen Catherine Kelly como Jane Doe
Jane Perry como Tenente Wade

Próximo Filme: "The Handmaiden (Agassi, 2016)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"Blair Witch" (2016)


Na lista de sequelas que ninguém queria que acontecessem "Blair Witch" há-de estar lá no topo. A sério. Se têm dito que a fariam em 2000/2001 talvez a expectativa fosse grande. Em 2016 é apenas estar a espancar um cadáver. Se já não existe um sopro de vida naquele corpo para quê insistir? A única parte compreensível do processo é a associação ao projeto de nomes como Adam Wingard e Simon Garrett. Dois nomes jovens e promissores que muito devem ao género de found footage ou não estivessem envolvidos na antologia “V/H/S” e a respectiva sequela. Se na altura, “V/H/S” pareceu adiar a morte ou pelo menos dormência do género, “Blair Witch” é a velhinha resignada que sabe que já não há espaço para novos truques. Onde “Blair Witch Project” foi uma espectacular inovação, termos de fundação das raízes do subgénero, a utilização de um micro-orçamento e de uma manobra de marketing genial e, isto entenda-se que a qualidade do filme não foi e não continua a ser consensual, “Blair Witch” é tudo o que já feito antes e nada traz de novo.

Passados dezassete anos após o desaparecimento de três estudantes algures numa floresta americana é encontrado um vídeo com que se acredita ser uma das últimas imagens de Heather (Heather Donohue) em vida. Obcecado com o acontecimento que marcou para sempre a sua vida, James (James Allen McCune) decide embarcar numa expedição em busca da irmã que então perdeu. Apesar do cepticismo quanto à possibilidade de a encontrar viva, Lisa (Callie Hernandez), Peter (Brandon Scott) e Ashley (Corbin Reid) decidem acompanhá-lo para fechar em definitivo esse capítulo da sua vida. Ao grupo de amigos juntam-se ainda Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry) que encontraram o vídeo que espicaça James a embrenhar-se na floresta.
A partir desse momento torna-se bastante óbvio que Simon Barrett e Adam Wingard estudaram com especial cuidado “The Blair Witch Project” (1999), desde o abuso da câmara aos tremeliques e abanões violentos à sequência de ocorrências estranhas que não é muito diferente do que sucede no filme original, ainda que o grupo seja (apenas) um pouco mais diversificado. James é um homem assombrado pelo momento em que perdeu a inocência. Ele e o velho amigo de infância Peter assistiram e ajudaram às buscas iniciais. Lisa pretende aproveitar a tragédia pessoal de James para realizar um documentário. Lane e Talia cresceram com as lendas da bruxa Blair mas mais do que empatia para com os desaparecidos, desejam conhecer a verdade por trás das estórias de terror. Peter está ali para dar apoio ao amigo ainda que considere que estão ali à procura de fantasmas. Para a namorada Ashley é uma viagem de campismo com amigos. Todos têm motivos muito próprios e a maioria não é particularmente simpática. Depois de êxitos entre o público e a crítica como “You’re Next” e “The Guest”, voltaram aos personagens detestáveis de “Tape 56” e, onde, com a maior sinceridade, mal se podia esperar que tivessem mortes lentas e dolorosas. Depois, claro, as personagens fazem tudo quanto podem de mais idiota que se possa esperar incluindo não tomar as precauções de calçado necessárias para impedir ferimentos debilitantes e que possam infectar longe da civilização. Afastar-se do grupo sobretudo se é noite escura e, por fim, o cliché de todos os clichés, separarem-se. A acepção de que a força se encontra nos números poderá passar por mentira num filme de terror pois não são muitas as vezes que tal se viu acontecer. As novidades encontram-se no aparecimento da Bruxa (mas com atenção), se não, podem perdê-la de vista e lapsos temporais. Bem, eles podem mesmo existir ou será apenas mais uma ilusão da bruxa? O final é porventura o que menos relevante “Bair Witch” tem. Desde os créditos iniciais que existe uma noção de que o “final é um novo começo”. Uma perspectiva circular subjacente à própria razão da existência do found footage. As filmagens existem para ser encontradas e um novo grupo de pessoas vá em busca do que quer que causou aquele incidente, colocando-se numa nova situação de perigo. Duas estrelas.


Realização: Adam Wingard
Argumento: Simon Barrett  
James Allen McCune como James
Callie Hernandez como Lisa
Corbin Reid como Ashley
Brandon Scott como Peter
Wes Robinson como Lane
Valorie Curry como Talia

Próximo Filme: "The Autopsy of Jane Doe" (2016)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)



Shinya Tsukamoto, realizador conhecido por ter alguns clássicos de culto no currículo incluído o incontornável filme do subgénero cyberpunk “Tetsuo” (1989) e a respetiva sequela, ou o drama erótico (experimental?! Diria que em qualquer filme de Tsukamoto a experiência é uma constante) “A Snake of June” (2002), retoma a sua abordagem pouco convencional num mistério detectivesco.

Em Tóquio, ocorrem num curto espaço de tempo, duas mortes brutais por esfaqueamento. Numa primeira análise, as condições em que sucederam, como o facto de os apartamentos onde foram encontrados os corpos se encontrarem fechados por dentro, fariam crer à força policial que esta estaria perante casos de suicídio. Um erro negligente e amador para Keiko Kirishima (Hitomi) uma inteligente mas inexperiente detective no terreno, que foi transferida há muito pouco tempo para aquela esquadra. A reprovação e desrespeito pela senioridade dos colegas em conjugação pela reacção de choque ao visionar os cenários macabros do crime, granjeiam-lhe a desconfiança dos colegas Ishida (Ren Osugi) e Wakamiya (Masanobu Ando) e a desvalorização das capacidades que o seu currículo ostenta. É a cabeça fria porém que lhe diz que existe algo mais por trás de mortes tão aparatosas. Os suicídios foram grotescos, por que não escolher formas mais rápidas e indolores de provocar a própria morte? Se a morte foi voluntária porque é que em ambos os casos há relatos de pedidos de ajuda ou de agonia não deliberada? Por fim, ambas as vítimas marcaram o número 0 antes da morte? Estarão perante um culto suicida ou porventura, um anjo da morte? Estas e outras interrogações levam a investigação policial por caminhos nunca trilhados no campo dos sonhos e que são a todo o momento questionados pelos detectives mais racionais. A investigação conduz Keiko a Kyoichi Kagenuma (Ryuhei Matsuda), um homem atormentado de quem se diz possuir a capacidade de mergulhar nos sonhos de terceiros. Entretanto e, a bem do velho método policial continua uma investigação paralela com diligências mais convencionais.


Se a premissa já parece intrigante o facto de ter o nome de Shinya Tsukamoto associado é a confirmação de que “Nightmare Detective” não é o thriller policial típico. É aliás, o ambiente natural para Tsukamoto se exibir em todo o seu esplendor. Ele é obsessivo no que respeita ao mundo onírico. Quase todos os seus filmes têm uma ou mais sequências de sonho e flashbacks.
As bizarrias, fetiches e pecados imaginários ou passados podem ser resgatados na psique dos personagens desta forma. Sem se tornarem repetitivas, as cenas são tão características do trabalho do realizador que por vezes, pode até aparentar que elas foram idealizadas em primeiro lugar na sua mente e só numa fase posterior se desenhou o remanescente da estória. Elas constituem ainda momentos surrealistas que em muito fazem lembrar realizadores como David Lynch. No caso de “Nightmare Detective” será porventura mais fácil descortinar o significado por trás da imagética pois que este, apesar de tão distintivo do realizador é uma versão mais acessível e comercial da sua filmografia. Ele próprio surge como uma personagem fulcral na narrativa, pois que ele gosta de imergir nos seus próprios filmes através da interpretação de personagens – sem qualquer vestígio de surpresa –, quanto mais bizarras melhor. A premissa de “Nightmare Detective” conduz a algumas semelhanças óbvias com “Nightmare in Elm Street” contudo, é bem mais difícil de rotular, encontrando-se mais próximo do thriller que do género de terror. É representativo do trabalho do realizador sem se tornar pretencioso e é uma lufada de ar fresco para os mistérios detectivescos em geral. Temos aqui um bom ponto de partida para um franchise de sucesso. Três estrelas.


Realização: Shin'ya Tsukamoto
Argumento: Hisakatsu Kuroki e Shin'ya Tsukamoto
Ryûhei Matsuda como Kyoichi Kagenuma
Hitomi como Keiko Kirishima
Masanobu Andô como Detective Wakamiya
Ren Ohsugi como Detective Sekiya
Yoshio Harada como Keizo Oishi

Próximo Filme: "Black Coal, Thin Ice" (Bai ri yan huo, 2014)

domingo, 20 de março de 2016

"Teke-Teke" (2009)


Kana (Yuko Oshima) é uma estudante que acabou de perder a melhor amiga de uma forma brutal. Ela foi assassinada, tendo sido encontrada desmembrada. A sua morte impressiona Kana de tal modo que a instiga a investigar mais sobre o caso. Ela depara-se com o mito-urbano “Teke-Teke”, sobre uma mulher que teve uma morte muito violenta, ao cair para os carris de comboio e foi atropelada por um comboio que partiu o seu corpo em dois. Agora ela assombra as estações ferroviárias procurando fazer dos passageiros e transeuntes incautos as próximas vítimas da sua fúria cruel. O mito não só parecer encaixar-se na perfeição no modo como a amiga faleceu como se pega a Kana que se começa a sentir acossada. Se o mito for verdadeiro, Kana deverá decidir como agir com rapidez, pois que diz que quem trava conhecimento com a estória irá morrer dentro de três dias…

Se “Teke-Teke” faz recordar algo saído da escola de cinema de terror cabeludo de início do milénio, com o slogan imediatamente reconhecível “irás morrer em sete dias”, à cabeça não é por acaso. É aliás tão similar que se não soubesse diria ter sido realizado em 1998. Koji Shiraishi continua a ser recordado pelo seu “The Curse” de 2005, um dos melhores exemplos do subgénero do found footage antes deste se tornar particularmente intragável e irritante e por “Carved”, uma deambulação anterior por terrenos dos mitos urbanos. Com “Teke-teke” dá um passo atrás e vai buscar o que há, em simultâneo, de melhor e de pior no género de terror. “Teke-Teke” é um telefilme inspirado numa lenda local que vai buscar o retrato já tradicional da mulher como um ser monstruoso capaz de devorar e destruir tudo à sua volta, mesmo que não tenha um motivo grave para tal. Se não tiverem por hábito assistir a terror do sudeste asiático e/ou japonês, esta interpretação pode revelar-se interessante. Se este tipo de filmes forem tão óbvios para vós como respirar digamos que a ideia da mulher malévola é muito “fim de milénio”. Já era hora de a figura “mulher” deixar de ser percepcionada como rancorosa, vingativa ou odiosa mas parece que procurar novas soluções de vilões é como pedir ao cinema de terror japonês para se regenerar. Tarefa árdua.
Uma (!) das boas notícias é que “Teke-Teke” não fica o tempo suficiente para uma pessoa se cansar. São apenas cerca de 70 minutos de drama adolescente intermediado por ataques e perseguições. A equipa técnica percebeu que outro dos pontos positivos era a imagem forte do monstro, no entanto, a repetição desta aparição vezes demais porventura devida a limitações de orçamento, estraga o efeito que seria desejado. O maior foco de interesse de “Teke-Teke” constitui a própria lenda pelo que é muito estranha a decisão de a expôr ostensivamente no trailer. Ainda mais estranho se pensarmos que a lenda é conhecida pelo público japonês. O elemento surpresa não existe e se pensarmos nos parcos momentos de acção, pouco mais existe que a exibição de cadáveres. O factor medo talvez resida apenas nas mentes dos mais impressionáveis que não sofrem da dessensibilização advinda de anos a fio de sobre-exposição ao terror tão característico deste país. Restam actrizes jovens e bonitas que só ali estão pela popularidade pré-existente e pretendem demonstrar que possuem talento além dos atributos físicos e personalidades espirituosas que as colocaram no filme. A película necessita delas para atrair telespectadores e, ao mesmo tempo, elas utilizam este pequeno filme de terror, de um especialista é certo, como rampa de lançamento para uma carreira mais “séria”. “Teke-Teke” não é muito mais do que um conceito interessante produzido para consumo rápido e descartado como a tendência da semana. Dá para acreditar que até fizeram uma sequela? Duas estrelas.

Realização: Kôji Shiraishi
Argumento: Takeki Akimoto
Yuko Oshima as Kana Ōhashi
Mami Yamasaki as Rie Hirayama


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