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domingo, 28 de abril de 2013

"Forbidden Siren" (Sairen, 2006)


Mais uma adaptação desnecessária de um jogo de playstation para a grande tela. Porquê, clamam as audiências internacionais? Não bastava já termos de sofrer com cinco filmes da série "Resident Evil"?
 
“Forbidden Siren” inicia-se com um mistério. Em 1976, os habitantes de uma ilha desapareceram sem deixar rasto, isto é, todos menos um, que é encontrado a falar de modo incoerente. Nos dias de hoje, Shinichi Amamoto (Leo Morimoto) é um jornalista freelancer que viaja com os filhos Yuki (Yui Ichikawa) e Hideo (Jun Nishiyama) para a ilha de modo a que recuperem de um acidente traumático. A viagem é uma má ideia, que a audiência já sabe de antemão dado os acontecimentos passados e devia ser também um sinal para Shinichi visto que os habitantes são tudo menos calorosos. Os personagens dos filmes de mistério, até pelo menos à primeira meia hora de filme, nunca são perspicazes. À frieza da população juntam-se outros indícios ainda mais alarmantes. A casa que irão habitar demonstra vestígios de sangue e a vizinha avisa Yuki de que nunca deverão deixar a casa quando ouvirem a sirene. Esta encontra-se numa torre de metal abandonada numa zona remota da ilha. Depois deixem os factos a torturar o subconsciente de uma adolescente impressionável e eventos graves serão uma inevitabilidade. Yuki tenta ultrapassar a muralha de silêncio tácita entre os habitantes, tornando-se, desde cedo claro que ela é uma estranha e portanto, indigna da sua confiança. Por outro lado, para um pai preocupado, Shinichi encontra-se a leste dos efeitos da curiosidade prodigiosa da filha. Não era suposto irem para a ilha “curar velhas feridas”?
O maior elemento a favor de “Forbidden Siren” (se não jogaram primeiro o jogo) é não se saber exatamente para onde nos querem levar. Por isso, não é como se o elemento mistério não estivesse presente e, em 5 minutos de filme se soubesse antecipadamente o final. A problemática reside no facto de as perguntas persistirem sem resolução. Até onde é que uma pessoa aguenta? Mistério apenas pelo mistério, de nada vale se os argumentistas não começarem a apresentar propostas de solução. O enredo sai cada vez mais embrulhado e onde antes existia ansiedade agora reside frustração. Até pormenores que prometiam, não oferecem a menor hipótese de redenção. “Siren” significa sirene mas também sereia. É o canto da sereia que arrasta as pessoas para a morte?! Potencial desperdiçado. O mesmo também pode ser dito dos actores. Yui Ichikawa é quem tem mais tempo de antena mas entre as suas orelhas proeminentes e os gritos histéricos, agudos, não posso afirmar que me recorde grandemente das capacidades de representação da jovem. Quanto ao pequeno Hideo, ele faz tudo o que lhe é dito para não fazer mas o castigo queda-se por uma leve reprimenda. Deve ser aquele estilo parental modernaço que deixa as crianças ser livres. Isto é, fazer tudo e mais alguma coisa e a culpa nunca é dos pais, porque a criança é um pequeno-adulto capaz de tomar decisões livremente. Pois…
“Forbidden Siren” tem pouco de memorável. A banda-sonora é decente e a representação ainda que não extraordinária também não é horrenda. Os cenários e a caracterização dos personagens a par do argumento constituem as maiores fraquezas do filme. Por comparação, o design do jogo é extremamente profissional, o que leva a pensar que “Forbidden Siren” é desnecessário e um mau cartão-de-visita. Tendo sido desenvolvido para coincidir com o lançamento do segundo jogo da série não consigo imaginar muitas pessoas a ir comprar o jogo depois de ver este filme. Já o contrário parece mais provável. Uma estrela e meia.

Realização: Yukihiko Tsutsumi
Argumento: Naoya Takayama
Yui Ichikawa  como Yuki Amamoto
Leo Morimoto como Shinichi Amamoto
Jun Nishiyama como Hideo Amamoto

Próximo Filme: Série “Whispering Corridors, 1998-2009

domingo, 24 de março de 2013

"Dark Water", (Honogurai mizu no soko kara, 2002)



Yoshimi (Hitomi Kuroki) é o retrato de uma mulher aterrorizada. Foi forçada a adquirir o apartamento mais barato que encontrou, numa zona degradada da cidade, com a filha Ikuko (Rio Kanno) e o ex-marido rancoroso não mostra qualquer sinal de abandonar a luta pela menina, apenas pelo prazer de a fazer sofrer. E agora que descobre que o apartamento que conseguiu arranjar herdou bastantes problemas, nem o solicito agente imobiliário que a convenceu a dar esse passo, nem o encarregado do prédio estão interessados em fazer o seu trabalho. É a maldita infiltração no tecto que parece segui-la, são as torneiras que não abrem e quando o fazem parecem espirrar… cabelos? É ainda a estória de uma menina, com a idade da sua Ikuko que desapareceu um ano antes. Nunca mais se sabe dela mas também não há ninguém terrivelmente preocupado apesar de ela ter morado ali…
Em “Dark Water” o realizador Hideo Nakata regressa ao género que o tornou o famoso, o terror. Embora seja bastante discutível se este é um filme de terror. “Dark Water” foi um dos últimos filmes com os onryo (fantasmas vingativos) a conseguir impressionar as audiências europeias. Quanto tempo dura uma moda? Quatro, cinco anos, no máximo? O auge dos slashers americanos, por exemplo, deu-se entre o final dos anos tempo e o início dos anos 80. Em 86 já ninguém queria ver o Jason, o Michael Myers ou o Freddy Krueger. Seria preciso uma década até ao slasher regressar, reformado com sarcasmo por um velho lobo (Wes Craven), entendedor do cinismo das gerações nascidas nos anos 80, os mesmos que ajudou a moldar! Não admira pois que dez anos passados da estreia os “Ringu” e “Ju-on” sejam recebidos pelos novos cinéfilos com escárnio ou a gargalhada. “Dark Water” é um exercício mais moderado de mais do mesmo. Ao invés de apostar na maldição/assombração a todo o gás, só parando no final, apresenta os desafios de “uma mãe solteira” amedrontada pela possibilidade de perder a filha que encontra eco em qualquer nação. E durante a maior parte dos 100 minutos de película é a isso que assistimos. Uma mulher que não sabe muito bem se está a ficar louca, à medida que os problemas do apartamento se amontoam e sem suporte emocional além da filha e uma força se torna demasiado próxima das duas para seu conforto.
Estaria a mentir se não achasse o cenário demasiado conveniente para o clima de assombro crescente. Os fantasmas “farejam” as criaturas mais vulneráveis, sobretudo mulheres e crianças e, ora bolas, se isso não nos deixa arrepios na espinha. Pior do que saber que os seres mais fracos da estória estão sob ataque é ter a certeza de que estão sós no mundo. Yoshimi, interpretada por Hitomi Kuroki é uma personagem multidimensional. Não é difícil imaginar Yoshimi como uma mulher abusada, pelo menos, em termos psicológicos. É uma daquelas pessoas que tenta agradar a todos e a evitar o conflito. Por fim, acaba por ser a principal prejudicada, a vítima das circunstâncias que ela própria ajudou a criar. “Dark Water” também funciona em crescendo como “Ringu” mas com um argumento mais sólido, ainda que isso não signifique grande coisa. O J-horror nunca foi celebrado pelas estórias magníficas mas sim por um conjunto de tecnicismos vários que criaram as cenas de tensão que têm sido celebradas e parodiadas nos últimos anos. Infelizmente, ultimamente, somente o facto de um filme ser rotulado como J-horror pode levar a que este seja recebido com descrédito pelas audiências ocidentais. Enquanto no extremo oriente a população acorre em massa para ver a mais recente reencarnação do onryo, a oeste as populações suspiram só à menção da rapariga de cabelos negros que aparece e desaparece a seu belo prazer. As actuações são boas, em particular a da então criança Rio Kanno que viria depois a protagonizar “Noroi”. De um modo ou de outro, os personagens são todos emprestados de outros filmes de terror ou viriam a ser repescados posteriormente para o efeito. “Dark Water” é um dos últimos exercícios superiores no que diz respeito aos sempre constantes fantasmas ameaçadores antes de a banalização atacar as estórias em proveito do terror pipoca. “Sadako 3D”? Alguém? Três estrelas e meia.

Realização: Hideo Nakata
Argumento: Koji Suzuki, Ken’ichi Suzuki, Yoshihiro Nakamura e Hideo Nakata
Hitomi Kuroki como Yoshimi Matsubara
Rio Kanno como Ikuko Matsubara
Mirei Oguchi como Mitsuko Kawai
Fumiyo Kohinata como Kunio Hamada
Yu Tokui como Ohta
Isao Yatsu como Kamiya
Shigemitsu Ogi como Kishida

PS: Mais ninguém achou a música no inicio do trailer, completamente desconexa da imagem?

Próximo filme: "Death Bell 2" (Gosa 2)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mononoke (2007)


“Mononoke” é uma série de 12 episódios que segue as aventuras do misterioso viajante vendedor de remédios depois de uma primeira aparição em “Bakeneko”, o terceiro capítulo de “Ayakashi – Samurai Horror Tales”. “Mononoke” é um espírito ou espectro que assombra um local específico ou persegue alguém. Alberga intenções malévolas ligadas aos objectos de assombração. Desta feita, a animação está dividida em cinco estórias independentes cuja única ligação é o vendedor nómada (Takahiro Sakurai) com a capacidade esplêndida de surgir sempre no local certo, à hora certa.



Capítulo I (Episódios 1-2)
“Zashiki-warashi” – Shino, uma mulher grávida roga que a deixem pernoitar num albergue a pretexto de que a vida do seu bebé corre perigo. Inicialmente contrariada, a dona do albergue deixa-a entrar e atribui-lhe o quarto mais distante. Cedo Shino começa a ouvir risos de crianças e a encontrar brinquedos espalhados por todo o lado. Só há um pormenor: naquela noite não havia nenhuma criança lá instalada.

Capítulo II (Episódios 3-5)
“Umibozu” – Durante uma viagem de barco o vendedor de remédios e os restantes passageiros são atraídos para o Triângulo do Dragão, um mar que, diz o folclore, estar repleto de espíritos prontos a atrair os navegadores incautos para a morte. Com o barco a ser atacado pelos espíritos inquietos, o vendedor de remédios terá de encontrar entre pessoas tão diferentes como Kayo ex-serva na casa dos Sakai (“Bakeneko” da série “Ayakashi”), dois monges budistas, um samurai, um menestrel ou o ganancioso dono do barco, sobre qual impede a maldição do espectro, antes que sejam todos arrastados para o fundo do mar.

Capitulo III (Episódios 6-7)
“Noppera-bo” – Ochou está prestes a ser executada por ter assassinado toda a família do marido. O abuso de que foi alvo pela nova família não a deixa ver senão a possibilidade de ter sido ela a cometer o acto hediondo apesar de não se recordar de nada. Será que ela foi alvo de um encantamento e o verdadeiro culpado do crime foi um Mononoke?


Capítulo IV (Episódios 8-9)
“Nue” – Três homens disputam a mão da dama Ruri, a única herdeira da escola de incenso Fuenokouji. Ela desafia-os a entrar numa competição de incenso para desempate. Aquele que conseguir identificar o maior número de aromas será o escolhido para a desposar. À medida que a competição se desenrola, os pretendentes começam a revelar as verdadeiras razões por trás da pretensão. É motivo suficiente para despertar o ressentimento de um espírito malévolo?


Capítulo V (Episódios 10-12)
“Bakeneko” – Em jeito de homenagem ao episódio que deu origem à série “Mononoke”, este capítulo junta uma série de desconhecidos num comboio, unidos por um segredo sórdido. Durante a viagem inaugural são encurralados na última carruagem, começando a ser colhidos um a um, pelo Bakeneko. Para não serem a próxima vítima deverão revelar o seu pecado mortal.

Todos os episódios apresentam a animação característica de “Bakeneko” e que constituiu, em grande parte o seu êxito. A animação está repleta de influências num estilo que já tinha apelidado anteriormente de “pesadelo de um unicórnio”. A colocação de cores pode parecer aleatória mas existe, como em tudo o resto um sentido de causalidade. As influências incluem desde a animação japonesa tradicional baseada nos antigos manuscritos do país até motivos externos desde o surrealismo à Art Nouveau, cores com textura misto de técnicas tradicionais e modernas, existindo mesmo, em “Umibozu”, um quadro que é uma inspiração óbvia de “O Beijo” de Klimt. O capítulo menos ousado em termos da utilização da cor é “Nue”, o qual, durante a maior parte da acção sucede em tons de cinzento que, como perceberão mais adiante não está desligado dos acontecimentos. A estética mais singular pertence a “Bakeneko” que ocorre durante os loucos anos vinte. Aí, numa estação de comboios repleta de gente, os ilustradores decidiram retirar tudo o que era acessório e todos os que não intervêm directamente na estória, não são senão, despojados manequins. Também aqui a explosão de cor é mais contida mas, por oposição apresenta algumas das personagens com maior densidade emocional da série. Pergunto-me também, se estas opções ousadas não foram também motivadas para marcar diferenciação do “Bakeneko” de 2006, ocorrido durante o Japão feudal e que tanta admiração causou. Entre as narrativas mais interessantes encontram-se “Noppera-bo” e “Nue”, o primeiro por a acção ocorrer mais num plano pessoal e introspectivo, como numa conversa interior e o segundo, não só por arriscar num estilo de animação diferente dos episódios anteriores como por ser um dos episódios que mais penetram na cultura japonesa e nesse sentido se demonstrar refrescante. “Umibozu” é o episódio mais representativo do “pesadelo do unicórnio” e, mais que não seja, vale pela ilustração. Podíamos ver o filme sem som e sem legendas e sair fascinado do visionamento. Já “Zashiki-warashi” e “Bakeneko” puxam pelos instintos de protecção da mulher, como ser frágil. E se isto já era verdade em “Ayakashi - Samurai Horror Tales”, continua a ser verdade em “Mononoke”, as tragédias que se abatem sobre a mulher têm sempre uma maior proximidade com a realidade que as restantes.
Mas dizia antes que em “Mononoke” nada é obra do acaso e, de facto, a série está pejada de momentos de simbolismo da vida, da morte e dos pecados do homem que levam à sua queda prematura. No entanto, esta moralidade é momentaneamente esquecida quando à representação da mulher diz respeito. A pele alva e comportamento comedido correspondem à pureza de espírito e inocência, enquanto a pele escura e o atrevimento são característicos da insolência que é vista com desaprovação. O vendedor de remédios, a única constante da série, a despeito do mistério que envolve, passado algum tempo torna-se maçador pois não existe evolução da personagem. A audiência é perpetuamente fascinada pelo vendedor de remédios que tem o condão de surgir sempre que há um espirito maléfico presente, pelo seu humor negro e, fundamentalmente, lacónico, mas a série termina como começou. Nada se sabia do vendedor no início e terminamos sem qualquer resolução nesse aspecto. O seu discurso, episódio após episódio é idêntico: forma (katachi), verdade (makoto) e kotowari (razão) e o modo de combate ao mal, aterrador, por vezes, também. Mas a grande lamentação e o maior elogio que se pode fazer a “Mononoke”, foi o facto de Hashimoto (animação) e Nakamura (realizador) não terem brindado o público com mais material original sobre o vendedor de remédios que combate o mal. Um dos melhores mistérios sobrenaturais de animação que já vi. Quatro estrelas.
Realização: Kenji Nakamura, Kouhei Hatano, Masayuki Matsumoto, Nama Uchiyama e Sumio Watanabe
Argumento: Chiaki J. Konaka, Ikuko Takahashi, Manabu Ishikawa e Michiko Yokote
Designer de Animação Takashi Hashimoto


Próximo Filme: Kisaragi (2007)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goblin Cat”, (Ayakashi – Bakeneko, 2006)


“Bakeneko” pode ser entendido de forma literal como Gato Monstro e pertence à classe dos “yokai” ou monstros sobrenaturais do folclore japonês. Ao contrário dos antigos egípcios, que veneravam o gato, personificado pela deusa Bastet, uma entidade feminina associada à protecção do lar e das mulheres expectantes, o "bakeneko" é o oposto, assombrando e ameaçando a paz do lar. Os seus poderes incluem a capacidade de falar, voar, se transfigurar e devorar humanos. Os seus actos devem ser sempre observados com desconfiança pois, o seu feitio é irascível e nem sempre se move por motivos altruístas e de bondade. Depois de traído torna-se vingativo e poderá consumir aquele que o feriu.
Em “Bakeneko”, durante o período Tokugawa (séc. XVII até meio do séc. XIX), uma família comemora o casamento da única filha que irá permitir saldar as dívidas que anos despesismo e irresponsabilidade incorreram sobre o lar. Com os preparativos do evento, eles deixam a casa desprotegida dando espaço a que um curandeiro que esconde mais segredos do que a aparência humilde deixa antever, se introduza na zona servil, junto da crédula Kayo. Introduz-se ele e, algo mais. Assim que a jovem noiva tenta passar o limiar da casa cai fulminada acometida por uma doença súbita. A família vira-se logo para o curandeiro e prende-o mas, após a morte de outro serve a realidade mostra-se bastante mais negra! O estranho desconhecido sugere que estão a ser assombrados por um bakeneko e que para os proteger eles terão de enfrentar os segredos que despertaram a raiva da besta.
“Bakeneko” é o conto pelo qual os fãs de animação e terror aguardavam. Façamos um exercício: visualizem o grande mestre do terror para vós. Não interessa o nome, apenas, aquele, cujas obras, conseguem, instilar em vós o terror. Aquele que, não interessa o tema ou a época, consegue provocar, invariavelmente, um arrepio na espinha e tornar o mundo dos sonhos um pouco mais aterrador. Agora imaginem que é ele quem está por trás de “Bakeneko”. Compreendem agora que estão perante um conto especial?
Inicialmente, a família permanece incrédula face à suspeição de ataque sobrenatural e paira um clima de suspeição sobre o curandeiro. Tudo indica que são um aglomerado normal apesar das complicadas relações entre os membros da família, servos e conselheiros. Eles vão sendo alvo de ataques sucessivos que vão provocando cada vez maior número de vítimas e dá-se uma revolução no seu mundo interior. Ficam nervosos, temerosos, loucos e começam a falar. Começam a questionar comportamentos passados, a desculpar-se de actos ignóbeis e a culpabilizar-se uns aos outros. É isto mesmo que o curandeiro pretende saber: a “katachi” (forma), “makoto” (verdade) e o “kotowari” (razão) para o demónio os atacar e a informação que poderá ajudá-lo a exorcizá-lo. Há um momento de tensão extraordinária quando o curandeiro coloca balanças com guizos para apurar onde se encontra o demónio. Os guizos começam, um a um, a tocar, em todo o redor da sala e as pessoas que lá estão, até ali descrentes da assombração são incapazes de se movimentar, geladas que estão de medo… A estrutura narrativa não é linear e classificação mais aproximada que consigo encontrar para identificar “Bakeneko” é a de um conto detectivesco/thriller sobrenatural de suspense.
A animação de Takashi Hashimoto também é a mais interessante de toda a série. A despeito da impressão de que estamos perante uma série de gatafunhos antiquados, “Bakeneko” apresenta influências tão notórias e tão distantes como gravuras japonesas dos últimos 100 anos arte moderna ocidental, influências religiosas, motivos asiáticos e africanos, em conjunção com as novas técnicas de animação moderna. Esta massa aglomerada, num só bolo, poderia ser apelidada de pesadelo de um unicórnio, visto que as cores, ao invés de remeterem para uma aura de felicidade açucarada gritam desconforto e inspiram o pesadelo sobrenatural.
“Ayakashi – Samurai Horror Tales” é uma obra desigual que vale apenas pelo último conto. A animação intrigante, a narrativa adulta que provocam um misto de tristeza e fascinação face às suas diferentes tonalidades, merecem ser exploradas. Aconselho os fãs a explorar igualmente a série “Mononoke” de 2007, que surgiu como "spin-off" de “Bakeneko”, dando seguimento às aventuras do curandeiro caçador de demónios. Quatro estrelas.

Realização: Kenji Nakamura
Argumento: Michiko Yokote
Designer de animação: Takashi Hashimoto
Takahiro Sakurai (Japonês), Andrew Francis (Inglês) voz do Curandeiro
Yukana (Japonês), Kelly Sheridan (Inglês) voz de Kayo
Tetsu Inada (Japonês), Trevor Devall (Inglês) voz de Odajima

PS: O sucesso deste episódio foi de tal modo grande que podem encontrar imensos exemplos de fan art por essa internet fora (sobretudo na deviantart) e até cosplay. Numa nota adicional e já depois de ter escrito esta apreciação chamaram-me a atenção para "Gankutsuou", uma outra série de 2004 que terá inspirado o estilo da animação de "Bakeneko".

Próximo Filme: “Zombie 108”, (Z-108 qi chen, 2012)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goddess of the Dark Tower”, (Ayakashi – Tenshu Monogatari, 2006)


Basta irem seguindo os links

“Goddess of the Dark Tower” é o segundo capítulo da mini-série de animação “Ayakashi – Samurai Horror Tales” e estende-se por quatro episódios. À semelhança de “Yatsuya Ghost Story”, a primeira estória da série, “Goddess of the Dark Tower” baseia-se numa peça de teatro que foca o amor proibido entre um humano e uma deusa.

Zushonosuke é encarregado pelo tolo Lorde Harima a recuperar Kojiro, um falcão precioso e inadvertidamente cruza-se com a deusa Tomihime por quem se apaixona à primeira vista. Perdidos de amores entregam-se a um amor proibido e perigoso, à medida que a fronteira entre os reinos se esbate e os samurais a mando do Lorde Harima, invadem o castelo dos deuses para recuperar o falcão.
“Goddess of the Dark Tower” apresenta a narrativa mais convencional da série, é apenas a velha estória do amor que encontra bastantes obstáculos mas no final acaba por vencer (será?). Além dos diferentes planos de existência humanidade vs. Espirito não há grandes objecções a que Zushonosuke e que Tomi permaneçam juntos a não ser, talvez de cariz moral. Está bem que ela é uma deusa lindíssima mas ele já tinha uma companheira e é sempre difícil (a população feminina deve concordar comigo) apoiar um traidor. Quais amores, qual quê? Se já estás comprometido não tens nada que invadir seara alheia. Ele também não demonstra grande conflito com o facto de ela e as outras deusas que habitam o castelo, todas belíssimas por sinal, serem comedoras de homens. Não admira que as suas existências não se devam cruzar. Se fosse ele, também não achava grande piada. Eles podiam chatear-se à séria e ela comia-o por vingança. Infelizmente, para os que os rodeiam este é um caso de estar no sítio errado à hora errada. Por causa de um falcão, o castelo é invadido e o confronto entre deusas e o exército samurai é inevitável.
O samurai, personagem histórica japonesa é fascinante não apenas em termos estéticos mas no que diz respeito ao seu código de conduta. É comovente uma dedicação que até à morte é total e ilimitada. Ao mesmo tempo é desconcertante uma dedicação cega ao serviço de homens que personificam o pior da espécie, sobretudo quando a maldade se alia à tolice.  Por isso, apesar de resultar em imagens incríveis, a morte indiscriminada movida por motivos fúteis é de difícil compreensão. No meio de uma chacina descabida há ideias soltas que fornecem brilho pontual a um episódio, de outro modo, desinteressante. A transformação da deusa, do seu invólucro humano para toda a sua glória divina e as diversas habilidades das deusas para destruir o inimigo comum constituem os momentos altos. Não há limites para o que os deuses podem fazer. De resto, o romance proibido nunca é suficientemente convincente. Abdicar da humanidade ou divindade por um amor rápido e perigoso parece demasiado forçado. Redunda no dramazeco romântico e não no conto de terror que o título pretende fazer crer. É uma entrada que não traz valor acrescentado à série, sendo direccionado para um público mais calmo, fã de romance com alguns salpicos de acção e avesso ao terror. Quando muito contribui para a descida da qualidade média da série. E, até aqui, posso afirmar que estava desiludida com “Samurai Horror Tales”. Teria de esperar por “Goblin Cat” para ficar impressionada… Duas estrelas.
  Realização: Hidehiko Kadota
Argumento: Yuuji Sakamoto
Designer de animação: Yasuhiro Nakura
Hikaru Midorikawa (Japonês) e Kirby Morrow (Inglês) voz de Zoshonosuke Himekawa
Houko Kuwashima (Japonês), Willow Johnson (Inglês) voz de Tomihime
Saeko Chiba (Japonês), Tracey Power (Inglês) voz de Oshizu
Yui Kano (Japonês), Anna Cummer (Inglês) voz de Ominaeshi
Kappei Yamaguchi (Japonês), Alec Willows (Inglês) voz de Kaikaimaru
Masaya Onosaka (Japonês), Samuel Vincent (Inglês) voz de Kikimaru




Próximo Filme: “Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Goblin Cat, (Ayakashi – Bake Neko, 2006)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Yotsuya Ghost Story, (Ayakashi – Yotsuya Kaidan, 2006)


Ainda no segmento televisão (devo estar para apanhar alguma doença), virei todas as atenções para uma série de animação de terror. Isto é, antes da inevitável apreciação ao “Hobbit”. Bem, ainda não decidi se a faço ou não mas parece que é o que todos vão fazer por estes dias. Não sei se não acaba por se tornar redundante. É o grande acontecimento cinematográfico do ano mas há mais cinema. Mas ainda sou capaz de dar uma de Maria-vai-com-as-outras, e vou atrás. Não se preocupem, que trarei o meu habitual charme e poder de observação brilhante como expectável, (FilmPuff Maria, mais humildade, MAIS humildade). Divago. Depois de uma série televisiva de terror sul-coreana longe de estelar, viro-me ainda mais a oriente, no Japão, onde “Yotsuya Kaidan”, uma das estórias mais adaptadas para cinema e televisão é a primeira da antologia “Ayakashi” e aborda os temas imortais do amor, traição e vingança. A narrativa original, escrita no séc. XIX por Nanboku Tsuruya IV para uma peça de teatro kabuki, é uma das estórias de fantasmas mais famosas de sempre. É exemplificativo de como uma estória, não baseada em factos verídicos por via da repetição se torna parte da identidade nacional.
Tamyia Iemon é um ronin, com feitio irascível que mata o sogro após uma zanga. Naosuke é um samurai obcecado por Osode, uma mulher casada. Após esta rejeitar os seus avanços acaba, num acesso de ciúmes por assassinar o marido dela. Os assassinos, na sua vilanagem, decidem fazer um pacto para encobrir o que fizeram. Após a morte do sogro Iemon desinteressa-se da esposa Oiwa e, eventualmente surge uma nova pretendente em Oume, mais bonita e rica. Com a conivência de uma criada e do potencial sogro, Iemon conspira para se livrar do único obstáculo: a esposa. Envenenada pelos conspiradores Oiwa é primeiro desfigurada e, depois de um acesso de loucura, suicida-se. Antes da morte, a promessa de se vingar dos que lhe fizeram mal e todos sabem que não há maior fúria que a de mulher traída. Entretanto Naosuke força Osode a casar-se com ele através da promessa de vingar a morte da sua irmã.
Nanboku surge como parte integrante da estória, o velho contador de estórias, um pouco como o avozinho que conta um conto ao neto, com a excepção que “Yotsuya Kaidan” não é aconselhável a menores de 16. No entanto é mais um brilhante exemplo da empresa Toei, por trás de grandes êxitos da animação em Portugal como “Dragon Ball”, “One Piece”, “Digimon” e muitas séries e filmes de que nunca ouvimos falar e só podemos lamentar nunca terem cá chegado. A Toei não merece uma busca menos que intensiva e tem material suficiente para ocupar os próximos anos em sessões contínuas. A exemplo da qualidade da animação, os personagens chegam a ser mais humanos que os actores reais. Cada olhar, cada expressão tem um significado e assenta na perfeição na narrativa. Façam o teste. Assistam a “Yotsuya Kaidan” sem som durante uns minutos. Através da paralinguagem conseguem decifrar as emoções das personagens e, por conseguinte uma interpretação da narrativa de modo geral. É um dos maiores elogios que se podem fazer a um criador de animação.
Deverão desvalorizar os créditos iniciais que reúnem a utilização de instrumentos tradicionais com o moderno rap. É um anacronismo já que contrasta com as estórias clássicas que se seguem. De resto, a narrativa de “Yotsuya Kaidan” pode soar familiar e antiquada mas é adulta, com temas com os quais os mais velhos se podem identificar e assistir sem sentimento de culpa associado estarem a ver um filme de animação. Poderão encontrar alguns problemas em identificar-se com o facto de uma das personagens ser forçada a contrair matrimónio para ter alguém que vingue a sua irmã e a necessidade imperiosa de manter a face a tudo custo mas este já não é “defeito” da estória, antes uma questão cultural. Normal, portanto. Se quisermos simplificar, o conto recorre a temas que remontam à verdade universal de que o Homem, máquina fantástica como é, é imprevisível e não se lhe pode atribuir demasiada confiança sob pena de uma promessa de sofrimento atroz. Três estrelas e meia.
Realização: Tetsuo Imazawa
Argumento: Chiaki J. Konaka
Designer de animação: Yoshitaka Amano
Hiroaki Hirata (Japonês) e Brian Dobson (inglês) voz de Iemon Tamiya
Mami Koyama (Japonês), Nicole Oliver (inglês) voz de Oiwa Tamiya
Yuko Nagashima (Japonês), Rebecca Shoichet (inglês) voz de Osode Yotsuya
Keiichi Sonobe (Japonês), Samuel Vincent (inglês) voz de Gonbei Naosuke
Ryou Hirohashi (Japonês), Lalainia Lindbjerg (inglês) voz de Oume Ito
Wataru Takagi (Japonês), Michael Adamthwaite (inglês) voz de Yomoshichi Sato


PS: Deixo link para a versão disponível no youtube com dobragem em inglês. Com certeza haverá sempre algo de "lost in translation" e nunca alcança o nível de qualidade do original, mas não deixa de ser um brinde de Natal.

Próximo Filme: “Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Goddess of the Dark Tower, (Ayakashi – Tenshu Monogatari, 2006)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Pulse" (Kairo, 2001)



Os clássicos são uma daquelas coisas. Como clássicos ficam registados na memória colectiva para a posteridade e alvo de amores e ódios extremos. Até os grandes como o “Ring” e “A Tale of Two Sisters”, são olhados com um esgar de indiferença por muitos. No pior dos casos, serão comparados e considerados inferiores aos remakes ocidentais, embora possa afirmar com relativa segurança que esse é um evento raro.

“Pulse” foi o último dos grandes clássicos do J-horror moderno que vi e digamos que ter assistido a doses massivas de J-horror anteriormente, tem a sua influência. Por outro lado, até o mais leigo dos leigos admitirá que “Pulse” é um dos filmes de terror mais introspectivos e reflexivos da primeira década do século XXI. O que “Ring” fez pela cassete de vídeo, “Pulse” fez pela internet. Nesse aspecto, espero daqui a dez anos, esteja eu neste planeta e consiga olhar para o filme com outros olhos. Claro que “Pulse” pode ser apenas uma grande partida e de crítica social não ter nada. Somos nós os tolos que pensam que sim! Onde “Pulse” não corre tão cedo o risco de ficar desactualizado, infelizmente fará maravilhas pelas insónias. Se ao menos a porcaria do filme fosse mais curto!
E a premissa, para simplificar o complicado, envolve a jovem Michi (Kumiko Aso), que fica preocupada após o colega Taguchi (Kenji Mizuhashi), que estava a trabalhar em casa ao computador nunca mais dar sinais de vida. Quando ele comete suicídio de modo inesperado, reina o choque. Quem podia imaginar? Ele nem era do tipo depressivo… Entretanto Ryosuke (Haruhiko Kato) toma um renovado interesse pelos computadores quando a bela Harue (Koyuke) se sente intrigada pelo facto do seu computador parecer ter vontade própria. Cedo se começa a ouvir falar numa vaga de suicídios, aos quais a visualização de uma imagem perturbadora no computador não é alheia. A resposta óbvia é resistir à tentação de ligar o aparelho, o que no início do milénio nem seria assim tão complicado. Mas a curiosidade, ai a curiosidade...
Onde “Ring” e “Grudge”, se encontram claramente interessados em utilizar a figura da mulher para corporizar todas as coisas demónicas, “Pulse” nunca aponta o dedo a nenhum personagem, preferindo escapar às instigações de uma sociedade patriarcal. Quando os créditos iniciais são apresentados já a maquinaria avança a todo o vapor: os personagens pertencem a uma estória superior a eles. Ao contrário de 99,9% de todos os filmes produzidos, os personagens que vemos no ecrã não são o centro do mundo.  Também não são procuradas respostas no sentido tradicional. Enquanto o retorno ao passado surge como a redenção natural nos filmes anteriores, os personagens de “Pulse” têm o instinto mais apurado para o tempo presente. Infelizmente, a audiência não está alheada da experiência e exige respostas para seu descanso. O ser humano não lida muito bem com ausências e se não tiver as informações que necessita racionaliza. Pois isto é tudo quanto nos resta deste filme do Kiyoshi Kurosawa. Apenas podemos supor quais seriam as suas intenções de aproximação bastante Lynchiana. E Kurosawa é muito mais que um realizador de filmes de terror. Apelidar “Pulse” como um filme somente de terror, não é só redutor como ingénuo. Basta examinar outros esforços do realizador como “Cure”, “Loft” ou “Retribution”. E admitir que a sua visualização não é fácil é um eufemismo. Apesar de se abrir a porta para uma reflexão sobre a solidão e o isolamento da sociedade por influência directa dos equipamentos produzidos pelo ser humano para seu entretenimento, em última análise é a falta de foco que trai “Pulse”. O filme inicia-se com uma vaga de suicídios. Pelo final, nem suicídios nem corpos, apenas uma mancha negra, no sítio onde estariam os desaparecidos. O mais assustador talvez nem seja aquilo que não vemos no ecrã mas as impressões. Onde estão todos? Três estrelas.

Realização: Kiyoshi Kurosawa
Argumento: Kiyoshi Kurosawa
Haruhiko Katô como Ryosuke Kawashima
Kumiko Asô como Michi Kudo
Koyuki como Harue Karasawa
Kenji Mizuhashi como Taguchi
Kurume Arisaka como Junko Sasano

Próximo Filme: "Sex is Zero" (Saekjeuk shigong, 2002)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"One Missed Call 2" (Chakushin Ari 2, 2005)



Na lista de coisas que m’atormentam em “One missed call 2”, o modo como o adjectivar, não é das menores. Existirá adjectivo que consiga albergar todo o potencial dissipado neste filme?
Se o primeiro filme não era brilhante e, ele obra de Miike pelo menos não comprometeu. Há ínfimos exemplos de experiências cinematográficas de pseudo-terror inferiores. Mas o caminho estava traçado e “One missed call 2” apenas necessitava de um golpe de génio já que a premissa por si só era fantástica: “jovens recebem chamadas de si próprios vindas do futuro, nas quais conseguem ouvir a sua própria morte”. A benção do primeiro filme, em todo o seu absurdo esplendor, o reconhecimento do mundo dos espíritos através da transmissão televisionada de uma morte, foi abandonada. Como mais uma notícia, ao sabor da agenda dos que mandam nos media, tal revelação é esquecida, uma ninharia. Todas as respostas que tantas pessoas, em todo o mundo procuram são assim, algo de secundário. Ao invés de brincar com a nova realidade, o par de argumentistas retrocede e torna a “chamada perdida” novamente, um segredo. Pior, há mais do que um fantasma a utilizar a tecnologia. Estes espíritos de hoje em dia…
Estão a ver com faço uns olhos esbugalhados na perfeição?
As duas amigas Madoka (Chisun) e Kyoko (Mimura) deparam-se com a maldição, quando durante um jantar alguém atende uma chamada que não devia e, acaba por falecer de um modo atroz. Daí a chegarem à conclusão que a culpa é do telemóvel é um ápice. Que o telefone nos distraia o suficiente para cairmos num poço ou termos um acidente de automóvel é provável e credível agora morte por possessão espírita e/ou libertação de ectoplasma (o palavrão não é meu), via telemóvel já é assim ligeiramente difícil de acreditar. Ou seria, se no primeiro filme uma rapariga não tivesse sido morte à frente das câmaras. E depois, seguindo o padrão do primeiro filme, o fantasma busca na agenda do aparelho por ordem alfabética, o nome da próxima vítima. Infelizmente, o pouco nexo da estória é ainda mais destroçado quando a pessoa errada atende o telefone e acaba por morrer. A vítima desejada não atende o telemóvel e, por isso, quem atender é quem sai na rifa? Que sucede ao pessoal que se esquivou a atendê-lo? Isto quer dizer que está safa da maldição? Mas como é que a maldição seleciona a vítima para começar? E já agora, seria de pensar que uma maldição tão poderosa não iria deixar a sua vítima original escapar incólume. Bolas, se até já envia imagens e tudo…Tudo isto para dizer que a maldição é tão aleatória que é caso para nos perguntarmos se os argumentistas não foram escrevendo toda e qualquer ideia que se lhes ia desenhando na mente…
Claro que eventualmente retornam à fórmula mais que vista, a imitação sem-vergonha e, por vezes na mesma cena de filmes anteriores. Houve uma cena em particular que levará muitos espectadores a questionar-se onde é que já viram aquilo antes. Eu respondo: Ju-on e Ringu.
E com a alusão a este último filme que tenho de me perguntar se a mulher comum não possui um único neurónio decente. Só as jornalistas é que são inquisitivas, inteligentes e destemidas? Por favor deixem-me dar mais exemplos, “The House” (2007, Tailândia), “Phone” (2002, Coreia do Sul). Se as actrizes até se safam invariavelmente bem, começa a tornar-se cansativo o esterótipo “repórter demasiado esperta para ser próprio bem”.
Parece que estou no filme errado...
Já a educadora de infância Kyoko, cuja cara horrorizada parece cómica por oposição a trágica é uma má alternativa à jornalista típica e bastante inferior à personagem da Kou Shibasaki de “One missed cal” e o namorado Naoto (Hisoshi Yoshizawa) é uma não-presença. Imaginem que têm 3 dias de vida. O que fariam? Se calhar iam aos restaurantes finos, aqueles que sempre se quis ir? Faziam coisas que sempre quiseram mas nunca tiveram coragem. Dizer que se lixe e ter horas intermináveis de sexo com o bonzão/boazona que sabem que está caidinho por vós? Não… embora ficar parado a chorar o destino inevitável, não fazendo rigorosamente nada para impedir o acontecimento mais importante das vossas vidas: a vossa morte! Ou pelo menos, curtir até lá. Pessoal… Se não tivessem telemóvel, nada disso aconteceria! Pelo menos até os fantasmas descobrirem os tablets…
Enfim, “One missed call 2” torna-se trágico a cada minuto que passa, com revelações cada vez mais improváveis a casa esquina… Nem as mortes são “dignas”, ocorrem fora do ecrã. Seria de pensar que quem teve a coragem de filmar a sequela de um filme com tanto sucesso não fosse tão cobarde na sua execução. Duas estrelas.

Realização:  Renpei Tsukamoto
Argumento:  Jae-shik Park
Mimura como Kyoko
Asaka Seto como Takako
Chisun como Madoka
Hisashi Yoshikawa como Naoto

Próximo Filme: " A Tale of Two Sisters" (Janghwa,  Hongryeon, 2003)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Curta #3: "Unholy Women - The Inheritance" (Uketsugu Mono, 2006)


Sabem quando a imaginação já não dá para mais? Mas têm mesmo que cumprir aquele prazo ou levar aquele projeto até ao fim? Não faz mal, pode-se sempre reciclar ideias. Que interessa que já se tenha visto a mesma estória não sei quantas vezes antes e melhor? “The Inheritance” é apenas isto. Um filme que herda o cinema de terror que lhe antecede e confia na eficácia das curta-metragens anteriores para manter o espetador colocado ao ecrã.
Após um divórcio que a deixou na penúria, Saeko (Maki Meguro), muda-se para a velha casa da família no campo com o jovem filho Michio (Kenta Suga). O ambiente não é propriamente agradável visto que sua a mãe Masahiko (Ruka Ushida) está um pouco louca e trata mal o neto. Mas é altura de “comer e calar” já que de momento Saeko não tem meios para ir para outro lado. O pequeno Mishio, aborrecido naquela terra no meio do nada explora a casa e descobre a existência de um pequeno que devia ter mais ou menos a sua idade. Era o irmão de Saeko que desapareceu quando ainda eram novos. A sua morte deixou desconforto e talvez por isso, o ambiente familiar não se tenha tornado o melhor. Entretanto, também Saeko começa a explorar e descobre que o passado nem sempre permanece onde deveria.
Uma pista: a herança não é um objeto físico…
“The Inheritance” é um “mistériozinho” sobrenatural previsível, no qual não há susto nem deleite. Não desafia o espetador. É seguro. Para quem não apreciar particularmente o género de terror esta é capaz de ser a curta-metragem mais acessível. Toyoshima não leva a estória até ao limite, não pensa outros modos de tornar as suas mulheres impuras. Provavelmente não há maior pecado que aquele que elas cometem mas os motivos fornecidos são no mínimo vagos. Toyoshima podia ter apostado num ritmo mais elevado para construir um argumento mais sólido. A sua estória não é mais que a de um medo de criança mal explorado pelos adultos. Não há nada de original ou que faça refletir. É facilmente associado a filmes como “Dark Water” ou “The Grudge”. E se o final é desconfortável, quase dá vontade de voltar ao início e ver “Rattle Rattle”, que também não é nada de novo mas sempre é mais intenso! Duas estrelas.


Realização:  Keizuke Toyoshima
Argumento:  Keizuke Toyoshima
Maki Meguro como Saeko Hishikawa
Kenta Suga como Michio Hishikawa
Ruka Ushida como Masahiko Hishikawa

Próximo Filme: "Haunted Changi" (2010)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

"Prayer Beads - Omoinotama Nenju (Okano Masahiro 2004) - "Echoes"



Boas ideias há muitas. Agora, quando se fala em concretização… Veja-se o caso da série “Masters of Horror”, tem alguns episódios excelentes e depois tem outros… menos bons. “Prayer Beads” é um conceito nipónico mais antigo. Nove episódios constituem a série, nove contas para um rosário. Por que o nome da série, será algo como contas de reza, contas de um rosário. Ora o que isso tem que ver com os temas explorados é uma consideração só ao nível dos grandes intelectuais que eu só vejo ali tentativas mais ou menos aleatórias de assustar o espectador em meia hora.
Os episódios têm pouca ou nenhuma ligação entre si pelo que a análise deste sétimo episódio – relaxem, é inócua. “Echoes” é a conta número 7, o número da perfeição? Não. Decerto existirão melhores episódios. Um casal de idosos descobre parte do cadáver da neta e parte para a cidade à descoberta do que provocou a sua morte. Desde logo, um gazilião de interrogações: como é que a partir de um membro adivinham que é Yumiko? Como sabem que ela foi assassinada? Como é que encontram logo o rasto dela na cidade? Que pode um casal de velhotes fazer a esse respeito? Não desesperem pelas respostas que elas não tardam em ser apresentadas, embora pareça a meia hora mais longa da vossa vida. Ecos da vida além da morte? Ecos de mentes com uma ligação muito especial?
Infelizmente não causa grande ressonância na nossa própria mente. O sentimento é de tristeza e até indiferença perante tudo quanto sucede. Apesar de uns quantos efeitos engraçados para quebrar a falta de ritmo e de cor. Céus, que fotografia mais desinteressante. Mais que não seja é um pequeno retrato pedagógico sobre o fosso entre a velhice e a juventude. No japão existe uma cultura de reverência e respeito perante os mais velhos, cultura essa que se tem desvanecido perante uma juventude cada vez mais desafiante. E eles, que pouco ou nada sabem, são superiores em termos físicos e zombam das relíquias de um passado onde as suas não se faziam ouvir.
Apenas não esperem demasiado de uma série de televisão com poucos meios. Os efeitos especiais são tão maus quanto parecem e a representação idem. Algures, os actores olham para o horizonte como se o seu olhar quisesse ou tivesse de facto algo para dizer. Uma mentira, visto que o argumento é fraco, vazio de estória disfarçada em diálogos sem consequência e instantes cheios de nada. É diferente, claro. Vale pelo prazer de criticar as opções das séries de baixo orçamento. Mas passado pouco tempo a estória eclipsa-se da memória. Não é memorável, e muito menos faz perder o sono. Talvez seja aconselhada a não fãs de terror. Duas estrelas

Realização:  Naoki Kusumoto
Argumento:  Naoki Kusumoto
Kei Sato
Michino Yokoyama
Takashi Youki
Mieko Konya
Joe Odagiri

Próximo Filme: Curta #3: "Unholy Women -  The Inheritance" (Uketsugu Mono, 2006)

domingo, 20 de maio de 2012

Curta #2: "Unholy Women - Hagane" (2006)

Lá dizia a Capuchinho Vermelho à Avozinha: “Ó avó, mas que grandes olhos tu tens” e “Que orelhas tão grandes”. “Esses braços são grandes! Que boca tão grande tu tens”.  Tudo isto para dizer que se parece com lobo, cheira a lobo e fala como um lobo, provavelmente é! Convenhamos que se uma rapariga tiver umas pernas lindas e um saco na cabeça, isto não augura nada de bom. Mas vamos começar pelo início. Primeiro sinal de alerta, o chefe quer que um subordinado saia à força com a irmã dele, Hagane (Hagane Takahashi). Parem tudo, um chefe a querer que um empregado leve a sua irmãzinha mais nova a sair? Algo não cheira bem. Quer dizer, se pensarmos nas implicações, o pior que pode acontecer é o pobre rapaz ser despedido. Então, por quê? Segundo sinal de alerta, a rapariga surge para o encontro com uma mini-saia e, um saco castanho que a cobre até à cintura. Das duas, uma: ou a moça é feia como a noite dos trovões ou algo de terrivelmente errado se passa. Só que depois o moço vê aquelas pernas e não há como lhe dar a volta. Mikio (Tasuko Emoto) sente um misto de repulsa quando ouve os grunhidos de Hagane e vê coisas estranhas como insectos a sair do saco e, fascinação, acentuada pelas pernas alvas e longas, complementadas por uns apetecíveis saltos altos vermelhos. Um encontro do inferno transforma-se num jogo de sedução estranho, no qual ele corre atrás de algo que o enoja, mas não consegue deixar de perseguir, acicatado pelo desejo de agradar ao chefe. Aliás, que grande mestre do calculismo é o homem que escolhe um jovem virginal que se deseja seduzir por um belo par de gambias e não faz mais perguntas.
É uma crítica engraçada ao homem e à sua capacidade de se deixar levar pelo físico, no caso, apenas da cintura para baixo: “Desde que tenha órgãos sexuais serve”. E no entanto, é contado com seriedade. Não é uma comédia no verdadeiro sentido da palavra. Embora, os momentos em que Hagane desata a correr e choca com objectos ou tropeça e cai no chão sejam hilariantes. Ela sempre tem um saco na cabeça que não a deixa ver nada à frente não é? Mas ela tem um apetite sexual saudável e ele é um moço tímido e educado que não quer desiludir o chefe… Digamos que existe um final feliz, para ambas as partes…
“Hagane” é uma curta bizarra e surpreendente. Suzuki e Yamamoto escreveram um argumento com base na piada urbana do “saco na cabeça”, em alusão às mulheres feias e transformou-a em algo mais. De facto, se calhar existe mais do que uma cara feia por debaixo do saco. E a curta-metragem é tão envolvente que dei por mim a pesquisar para saber se a actriz Nahana era mesmo feia. O cinema tem destas coisas. Confunde-se o imaginário com o real e quando isso sucede, sabemos que estamos perante um bom produto de consumo. Três estrelas e meia.

Realização: Takuji Suzuki
Argumento: Takuji Suzuki e Naoki Yamamoto
Tasuko Emoto como Mikio Sekiguchi
Nahana como Hagane Takahashi
Teruyuki Kagawa como Tetsu Takahashi

Próximo Filme: "Prayer Beads - Episode 7: Echoes" (2004)

Só para que não subsistam duvidas, eis Hagane (Nahana).

domingo, 13 de maio de 2012

Curta #1: "Unholy Women - Rattle Rattle" (Katakata, 2006)



Para um verdadeiro fã de terror a obsessão pouco saudável do povo japonês com o género não é uma grande novidade. E também não é muito difícil adivinhar onde a maioria dos filmes de terror nipónicos vão beber inspiração. É ali mesmo, no Japão, nos mitos e lendas locais que se retratam e reinventam estórias de horror. Muito comum é a utilização do Yurei ou fantasma, nomeadamente, na sua forma vingativa -, o onryo. Mas se mencionarmos nomes como Kayako ou Sadako, mais depressa os vossos cérebros se iluminarão. É então o onryo, o elemento desestabilizador, aquele que nos faz, após uma noite de cinema de j-horror, perscrutar com um olhar mais atento que o costume, todos os cantos de um quarto para verificar se está tudo bem. Isso e acendermos as luzes antes de entrarmos numa nova divisão.
“Rattle Rattle” ou em japonês Kata Kata, parece, devido à sonoridade uma curta-metragem cómica, no entanto, esta primeira impressão não podia estar mais errada. Vide o trailer e apreciai os gritos histéricos de uma das personagens.
Os créditos introduzem um casal, dentro de um carro envolto na noite. Akira (Kousuke Toyohara) e Kanako (Noriko Nakakoshi) conspiram numa aura de pecado. Eles pretendem casar mas persiste um obstáculo à sua inteira felicidade: Akira é casado. Será que a mulher lhes vai levantar problemas? Ou terão de continuar a encontrar-se na noite? É na escuridão que Kanako, regressando a casa ouve um chocalhar. Bem acima de si, um som estranho e enervante. Som desumano. De algo que não é deste mundo? Algo súbito e repentino precipita-se sobre ela e Kanako perde os sentidos. Quando recupera a consciência, com pouco mais do que um corte e atordoada regressa ao apartamento de solteira. Começa então o pesadelo. Uma mulher de vermelho persegue-a e tenta matá-la! Incrivelmente, não existe ninguém naquela cidade. Apesar da moça gritar a plenos pulmões.
Yurei é a desconstrução da mulher a estado primitivo. O monstro de vermelho possui uma única vontade e esta é a de destruição e não há conversa ou tentativa de o fazer reconsiderar que resulte. O Yurei de Keita Amemiya é uma parábola de como a maldade interior se transforma em fealdade exterior, tornando-se pois, cada vez mais horrendo à medida que procede a atacar a inocente Kanako. Embora o objectivo deva estar muito longe de se pretender induzir a tais reflexões. A narrativa é confusa mas nem por isso original. É uma encarnação de truques que já vimos, com algumas imagem gerada por computador e cenários apetecíveis. De resto, é uma aposta sólida em medos que já demonstraram atrair as massas ao cinema e, por isso, a escolha ideal para a introdução a uma antologia de terror. “Rattle Rattle” é a curta mais emblemática de “Unholy Women”. Isto, com especial enfase na palavra “emblemática”, que para assistir ao melhor segmento das três curtas-metragens temos de aguardar por “Hagane”. Três estrelas.

Realização: Keita Amemiya
Argumento: Keita Amemiya
Noriko Nakakoshi como Kanako Yoshizawa
Kousuke Toyohara como Akira Tasaki
Yuuko Kobayashi como Katakata

Próximo Filme: Curta #2: "Unholy Women - Hagane" (2006)

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