Haverá pior do que estar grávida quase no fim de termo, completamente só, sem tecto sob o qual pernoitar e sem dinheiro no bolso? Assim de repente não me consigo recordar de grande coisa mas Mitsuko (Riisa Naka) parece não se importar. É daquelas miúdas que arregaçam as mangas, mesmo que tenham uma barriga muito grande a dificultar a mobilidade. E decide seguir uma nuvem que a leva à antiga casa de infância. Esta continua a ser habituada pela ex-senhoria Kiyoshi (Miyoko Inagawa) agora acamada, que continua com tão mau feitio quanto antes. Mitsuko passa à acção, impõe-se na antiga casa e aproveita a velha paixão de Yoichi (Aoi Nakamura) para tomar refeições grátis no seu restaurante. Não fosse o facto de estar grávida e seria apenas uma miúda de nariz empinado, meio irritante. Ou se calhar é, mas perdoada pela ternura de uma barriga cheia de vida. “Mitsuko Delivers” tem um título que se pode perder nas várias traduções, mas escusado será dizer que Mitsuko dá à luz a muito mais que uma criança. É quase como se ela tomasse como uma causa sua, provocar desconforto numas vidas acomodadas num falso conforto. Como se ninguém à sua volta estivesse disposto a fazer um esforço extra para melhorar umas vidas que nem são más de todo. Mas porquê, contentar-se com o “bonzinho” quando se pode ter o “muito bom”?
Yuya Ishii é um pensador. Já em “Sawako Decides” (2010), tinha pegado numa personagem feminina forte que provocou uma pequena revolução no seu microcosmos social, com resultados mistos. Ambos os filmes se apresentam como comédias com contornos dramáticos, em tudo semelhantes ao que se faz com regularidade no cinema sul-coreano. Mas algumas piadas podem passar despercebidas ou não ser mesmo do agrado de quem vê. E as personagens principais têm feitios muito peculiares. Se Mitsuko não estivesse grávida, com grande probabilidade perdia a simpatia de grande parte dos espectadores. As personagens são de uma lassidão desconcertante. Tão passivas que uma pessoa se pergunta como é que foram capazes de tomar uma decisão em toda a sua vida. E atenção que estamos a falar da película “Mitsuko Delivers” e não de “Sawako Decides”! A própria imagem não auxilia à resolução dos corações sobre a orientação da película. As tonalidades próximas de sépia não boas indicações de um filme de alma leve e alegre.
O importante em “Mitsuko Delivers” é não olhar sobremaneira para a protagonista mas o modo como a sua acção impacta as vidas dos outros. É filme construído por camadas e, à medida que as exteriores vão sendo retiradas, chegamos a níveis de complexidade tal que finalmente se compreendem os motivos por trás de iniciativas aparentemente aleatórias da protagonista. Em particular, a estória de Jiro (Ryo Ishibashi), o tímido tio de Yoichi e a dona de um restaurante, ameaça roubar o filme. Durante mais de duas décadas e apesar da óbvia química entre os dois, Jiro ainda não foi capaz de abordar o objecto de afeição.
A Mitsuko fez pelas grávidas asiáticas o que a “Juno” fez pelas americanas. As grávidas não têm de ser delicadas, frágeis e hormonais. Sim, Mitsuko é uma espertalhona e não, não é hormonal. É uma força da natureza que chegou para dar um abanão nas vidas dos que a rodeiam. Três estrelas e meia.
Realização: Yuya Ishii
Argumento: Yuya Ishii
Riisa Naka como Mitsuko
Miyoko Inagawa como Miyoko
Aoi Nakamura como Yoichi
Ryo Ishibashi como Jiro
Hoje é dia de filme nomeado aos óscares. Isso traz sempre algum temor. É a aclamação justificada? Ou terão sido os críticos, no calor do momento, arrastados pelas opiniões positivas do outro lado do vasto oceano influenciados a louvar uma obra no máximo, mediana?
“The Twilight Samurai” inicia-se numa nota triste. Seibei Iguchi (Hiroyuki Sanada) perdeu a alegria de viver após perder a esposa amada. Enterrado na pobreza extrema, ele divide o tempo entre um trabalho burocrático, imagem longínqua da glória do samurai e o cuidar de uma mãe doente e filhas menores. Todos os dias, dia após dia, até ao final da vida. Até os colegas de ofício o já convidam para uma bebida após o trabalho por descarga de consciência. Seibei não é feliz nem parece querer sê-lo, contenta-se com o pouco que possui e os laços familiares, fortes. Ele sente a obrigação de tomar conta dos seus sem qualquer auxílio. Está no crepúsculo da vida de guerreiro. Um pouco como os samurais por todo o país. A época dourada há muito que se foi. Não há espaço para o samurai. Resta-lhe definhar e morrer. Um pouco como a paisagem desolada que anuncia tempos de seca, doença e fome. As mesmas que vitimaram a sua esposa e às quais, apenas as famílias poderosas conseguirão resistir sem perdas. Eis que surge Tomoe (Rie Miyazawa), uma amiga de infância por quem nutriu um amor nunca concretizado, recém-divorciada. Empenhado em vingar a honra da antiga paixão, ele volta a pegar na espada de samurai. Se ele conseguir sobreviver, poderá ter a chance de um segundo momento de felicidade. Num tema tantas vezes tocado, como é a vida do samurai, a abordagem de Yoji Yamada é estranhamente original. O seu samurai encontra-se muito longe do anti-herói tradicional. Ele não almeja a fama ou glória mas uma existência pacata com os seus. Descura até a sua própria higiene. A mãe e as filhas encontram-se em primeiro lugar. Seibei é mais feliz quando a sua família tem comida na boca do que quando parte numa missão ordenada pelo lorde do seu clã. Ele foge à responsabilidade da hierarquia enquanto pode e, poderia ser apelidado cobarde mas é um homem que reconhece as suas limitações e apenas quer desfrutar de uma existência confortável. Por isso, ele é dotado de humanidade extrema, tornando-o, digno de afeição aos olhos da audiência. Desejamos que ele se torne o homem que deve ser e que tenha uma segunda oportunidade na vida com a mulher que ama. E a sua honestidade e humildade quase se tornam o seu pior inimigo, considerando-se inferior às perspectivas que se lhe apresentam. O seu segundo inimigo acaba por ser a próprio clã em que está inserido, o que lhe proporciona pão mas poderá, em qualquer altura enviá-lo para a morte, pela recusa em admitir a mudança dos tempos.
Existe um sentimento de desolação inerente à película apenas ultrapassado pelo calor das interacções dos personagens. Seibei apenas se permite mostrar emoções quando está com as filhas, com Tomoe, os sentimentos estão implícitos. À sua volta é apenas morte, desespero, resignação, desilusão. Como não agarrar-se ao que há de mais precioso?
“Twilight Samurai” se sofre de algum mal é o da subtileza. Há o perigo de se deixarem enlevar pela ideia do espadachim. Este não é um desses filmes. Aliás, é um dos poucos que não enveredam por esse caminho e antes se focam numa altura menos áurea: o fim do Japão feudal e o início Japão moderno. Em última análise, “The Twilight Samurai” é um daqueles filmes modestos que nos apanham de surpresa para se tornar um dos grandes filmes que tivemos a feliz oportunidade de assistir. Justíssimo nomeado para os maiores prémios da 7ª Arte. Quatro estrelas.
Realização: Yoji Yamada
Argumento: Yoji Yamada, Shuhei Fujisawa e Yoshikata Asama
Hiroyuki Sanada como Seibei Iguchi
Rie Miyazawa como Tomoe
Nenji Kobayashi como Choubei
Ren Ohsugi como Toyotaou Kouda
Mitsuru Fukikoshi como Michinojo
Miki Ito como Kayano Iguchi
Erina Hashiguchi como Ito Iguchi
Reiko Kusamura como mãe de Seibei
Próximo Filme: "The Twilight Samurai" (Rab Nong Sayong Kwan, 2005)
Um conto de raparigas preguiçosas, rebeldes e em alguns casos delinquentes que se viram para o Swing. Entenda-se do jazz e não do divertimento para adultos. E este é um blogue sério. Não há cá dessas coisas. Excepto aqui e aqui.
“Swing Girls”, supostamente baseada em factos reais (não são sempre?), inicia-se com o desencantamento de uma adolescente Tomoko (Juri Ueno) que descobre durante a escola de Verão o gosto pelo jazz e depois tenta, por meios próprios, prolongar e aperfeiçoar a experiência. Ok, não é assim tão linear: quem não optaria por visitas de estudo com a banda ao invés de aulas de matemática? Pelo caminho, Tomoko recruta amigos como Yoshie (Shihori Kanjiya), Sekiguchi (Yukia Motokariya) e Nakamura (Yuta Hiraoka), todos eles a atravessar a fase do desabrochar na adolescência. Um acto irreflectido de rebelião resulta numa pequena revolução quando a Tomoko que nunca leva nenhum empreendimento até ao fim, percebe que está rodeada de uma dezena de raparigas também elas à espera de algo que as faça romper com o aborrecimento. Assim, as raparigas da recém-formada banda de swing da escola que nem sequer sabiam tocar um instrumento decidem, habilmente empurradas pela líder nata Tomoko, entrar num concurso de bandas escolares. O seu mentor trapalhão é o professor Ozawa (Naoto Takenaka). Se viram “Waterboys”, não estranhem a sensação de déjà vu, Takenaka está mesmo a repetir o papel. Quando já se fez um gazilião de filmes e se interpretou tudo quanto existe, o que é repetir um personagem?
Se há coisa de que podem acusar “Swing Girls” é de ser previsível. As piadas são percepcionadas a quilómetros de distância, mas nunca caiem no erro da rudez ou do impróprio. Shinobu Yaguchi, que também escreveu o argumento de “Waterboys” e Junko Yaguchi têm sensibilidade suficiente para atingir jovens adolescentes sem os tratar como mentecaptos (inserir piada com o Adam Sandler) ou recorrer à vulgaridade fácil (inserir nova piada com o Adam Sandler). Os momentos musicais, (qualquer desculpa é boa para ouvir Glen Miller), têm a benesse de a equipa de actores ter aprendido a tocar instrumentos para desempenhar o papel. Tanto que após o tremendo sucesso de bilheteira fizeram uma digressão mundial onde tocaram os temas do filme. “Swing Girls” também é ajudado pelo facto de os jovens actores serem, na maioria naturais e demonstrarem potencial. Não é por acaso que os quatro jovens actores principais apresentam carreiras tanto prolíficas como premiadas.
“Swing Girls” faz pelo jazz o que “Waterboys”, fez três anos antes pela natação artística. Realizado em 2004, podia ter sido rodado este ano. A alienação da juventude é um dos grandes problemas do século XXI. Há muitas, demasiadas ocupações, no entanto, muitos jovens optam por permanecer em casa a ver televisão ou presos ao computador. Parece não existir paixão. E se existe, ela encontra-se enterrada debaixo de camadas de possibilidades. Há material mais do que suficiente para que todos os anos surja uma película com a mesma temática: rapazes que aprendem a costurar, raparigas que se dedicam ao kickboxing… e pelo caminho aprendem aquilo que adoram fazer na vida. A imaginação é o limite. Três estrelas.
Realização: Shinobi Yaguchi
Argumento: Shinobi Yaguchi e Junko Yaguchi
Juri Ueno como Tomoko
Yuta Hiraoka como Nakamura
Shihori Kanjiya como Yoshie Saito
Yuika Motokariya como Kaori Sekiguchi
Naoto Takenaka como Ozawa
O Hideo Nakata vem ao MOTELx - Festival Internacional de Terror de Lisboa e ouvem-se gritinhos histéricos oriundos de um blogue minúsculo (assobia para o lado). Mas garanto que a sua dona ainda está em recuperação. Afinal de contas, Nakata sempre é um dos pais do J-horror moderno, responsável por filmes como "Ring", "Dark Water", "Kaidan" e, mais recentemente, "The Complex". Aliás, para recuperar até vou ali dentro fazer mais uma maratona de alguns dos seus melhores filmes. Até daqui a uns dias.
As pessoas têm o direito de saber no que se estão a meter e como já devem ter percebido não sou de intrigas. “Apartment 1303” não é um drama existencialista sobre uma jovem que não consegue lidar com a pressão de sair de casa pela primeira vez. Não. “Apartment 1303” é o típico j-horror mal disfarçado de drama que tenta cavalgar uma tendência que já devia estar morta e enterrada há 10 anos. Podem as meninas japonesas fazer à humanidade o favor de cortar o cabelo e de não o deixar cobrir os olhos?
“Apartment 1303” inicia-se em ambiente de festa: Sayaka festeja com o namorado e os amigos o achado de um apartamento com uma renda muito baixa para passar o período de férias. Em Portugal, a gente avisada costuma utilizar uma expressão que assenta na perfeição no caso: “Quando a esmola é muita, o pobre desconfia”. E de facto, o apartamento era barato demais. Sayaka fica só por momentos e algo tolda-lhe a mente viva e feliz. Num momento fugaz atira-se da varanda do prédio perante o desespero dos que a rodeiam. Segue-se o pranto da família e a descrença. Sayaka era uma rapariga feliz, ela nunca se iria suicidar. Convencida disso mesmo, Mariko (Noriko Nakagoshi) decide investigar as causas da morte da irmã e põe a descoberto uma estória mais antiga ligada ao apartamento e aos seus antigos inquilinos.
A narrativa consiste numa sucessão de improbabilidades. Começa logo pela questão óbvia: como é possível que um apartamento com uma forte atracção pela morte, nunca tenha chamado a atenção das forças policiais ou de outros inquilinos do prédio? Segundo, face ao conjunto de tragédias, talvez fosse melhor fechar o apartamento durante uns tempos não? Parece-me altamente improvável (se calhar é a uma ingenuidade que fala), que os senhorios e companhias imobiliárias, por mais gananciosos que fossem, se quisessem ver associados a um ciclo de morte e destruição.
Eu, amante de terror, aqui me confesso: abominei o pouco que vi da série de filmes “Tomie” (acho que já vai na sequela número 3448563475634), de tal modo, que nunca consegui verter uma linha de texto no Not a Film Critic sobre as películas mas, dentro do género, eram inventivos. E conseguia perceber o apelo, histerismo até, em torno da série. As miúdas eram giras, as estórias absurdas e as mortes sanguinariamente fascinantes. Ataru Oikawa esteve por detrás do filme original e de “Tomie: Beginning” e “Tomie Revenge” por isso, surpreende o facto de ele ter simplesmente “desistido” do cinema. As obras sobre a assassina que não morre e persegue implacavelmente as suas vítimas está bastante longe de ser boa mas tem uma boa dose de inventividade que podia ter sido reaproveitada em “Apartment 1303”.
Uhhhh, “o apartamento tem o número 13, que medo” ou “miúdas giras a ser atacadas por uma força invisível, nunca se viu antes”. Há uma apatia neste filme que me assusta francamente mais que qualquer outro enésimo remake de clássicos do j-horror, o olhar perdido dos actores que se tentam perder nuns personagens em que nem eles acreditam. É mais do mesmo, remastigado e cuspido com outro verniz. “Apartment 1303” não faz carreiras, não para os actores e o mesmo se aplica à equipa técnica. É uma estória confusa, de avanços e retrocessos que não acrescentam nada à estória, a tornam aborrecida e fazem aumentar a confusão sobre o que se está a passar no ecrã. Mais, não se admirem se derem por vós a bocejar e a olhar para o relógio. E pior, o terror, se alguma vez o tiveram, vai desaparecer tão rápido que “Apartment 1303” não é mais do que apenas mais um filme… Apesar do pontual profissionalismo de algum deles, são apenas pinceladas ocasionais num quadro feio, que há muito devia ter sido esquecido numa galeria mixuruca qualquer. Uma estrela e meia.
Realização: Ataru Oikawa
Argumento: Ataru Oikawa, Takamasa Sato e Kei Oshi
Noriko Nakagoshi como Mariko
Arata Furuta como Detective Sakurai
Eriko Hatsune como Sayaka
No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima, que provocou reacções como se fosse uma enzima. No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão, depois veio a calma, procura do saber e a satisfação.
Da Weasel in Iniciação A Uma Vida Banal - O Manual
Perdoem-me se comparo o “Paranormal Activity” a qualquer sensação parecida com prazer e bem-estar (na verdade não peço, não). Se os da Weasel podem ir beber ao Evangelho de São João, não me parece desproporcional utilizar tais termos para o mais recente fenómeno do cinema de terror. Ele era o “melhor filme de terror da década”, ele era “arrepiante”, ele era a frescura por oposição aos anos de desgaste do subgénero torture porn, ingenuamente conduzida pelos criadores de “Saw” e o Eli Roth. E se acredito fortemente, que o sucesso de “Paranormal Activity” se deveu em parte a reboque do facto de as pessoas estarem sequiosas por uma nova experiência de terror, isto não o torna menos eficaz. A estória de um casal simpático acossado por forças invisíveis, que podia ser nosso vizinho, bebe-se de um trago ao contrário do sadismo exagerado de assassinos temíveis e sociedades secretas que engenham armas de tortura inacreditáveis. Isto, sem mencionar a “nova vaga” do cinema de terror francês (que já é nova há muitos anos) e o cinema japonês que já por aí anda há bastante tempo, sem lhe atribuir nomes sexy.
Eis pois, que o “Paranormal Activity” (2007) tem sucesso e logo surge a sequela japonesa não oficial, “Paranormal Activity: Tokyo Night” (2010). Não fosse estranha a mera colocação da hipótese de realização de uma sequela japonesa, que o percurso costuma ser inverso, Japão/EUA -, temos ainda produção e argumento em tudo similares, ou como diria a minha avozinha, “De boas intenções está o Inferno cheio”.
A pobre Haruka (Noriko Aoyama) regressa a Tóquio depois de umas férias nos EUA, onde teve um acidente de viação que a deixou com as pernas partidas. Sobre para o irmão mais novo Koichi (Aoi Nakamura) que está completamente obcecado com a mais recente aquisição para realizar filmagens tomar conta da convalescente. Assim que se instala para o caminho da recuperação Haruka começa a dar por objectos fora do lugar, barulhos estranhos, o sentimento de que não está só… E quer a sorte que os irmãos habitem um dos países com mais videovigilância do mundo. Estão a ver o mito do japonês com a máquina fotográfica?
Ora, se o ponto de partida é inteligente (o acidente de viação de Haruka tem muito que se lhe diga) é o desenvolvimento que fracassa. Sucede a mesma sequência de acontecimentos que vitimizam Katie e Micah do filme original. Numa análise fria Tokyo Night seria uma versão superior se fosse o primeiro filme na ordem cronológica já que o cineasta Toshikazu Nagae opta por livrar-se dos planos que minavam o ritmo de “Paranormal Activity”, e em que não acontecia nada, sem eliminar a tensão remanescente. Concebem a ironia de um filme japonês tomar a decisão de eliminar excedentes em prol do ritmo? Também a dupla de protagonistas é forte tendo bastante experiência em cinema e televisão e emulam com facilidade a naturalidade dos actores da película americana. Esta coisa de contracenar como se não o estivesse a fazer é o maior achado de sempre. Outro aspecto de nota é os personagens principais serem irmãos. Relembra-me de certo modo do “Jeepers Creepers” (2001) de cujo choque (o Darry não!), até hoje, ainda não recuperei. O foco no ângulo amoroso sobre o de laços familiares acaba por se tornar um elemento de falsidade no cinema. Desde quando é que vemos primos em 2º grau? Ou um tio e sobrinho afastados, por exemplo? Um pormenor técnico remotamente interessante é o recurso ao splitscreen (divisão do ecrã), que por momentos dá a ilusão de sermos voyeurs de uma experiência a decorrer em tempo real. De resto não há um elemento dissonante, um grito de desafio aos antecessores “Paranormal Activity” e “Paranormal Activity 2”, algo que chegue ao âmago das audiências e explique porque é que esta versão era necessária e acrescenta algo sobre o anterior. Ok, o destinatário principal é a população japonesa mas faziam alguma coisa diferente não? É mais do mesmo que conduziu à saturação de sagas anteriores, como o “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “Nightmare in Elm Street”, “Saw”, etc, cujo sucesso inicial redunda sempre num remastigar orgíaco cíclico do pecado original. E a audiência? Amorfa, cansada, que procura algo mais do que a satisfação de encontrar o que reconhece de aventuras anteriores. No princípio era o hype. O fim? Só Deus sabe como termina. Duas estrelas e meia.
Realização: Toshikazu Nagae
Argumento: Toshikazu Nagae e Oren Peli
Noriko Aoyama como Haruka
Aoi Nakamura como Koichi
Mais uma adaptação desnecessária de um jogo de playstation para a grande tela. Porquê, clamam as audiências internacionais? Não bastava já termos de sofrer com cinco filmes da série "Resident Evil"?
“Forbidden Siren” inicia-se com um mistério. Em 1976, os habitantes de uma ilha desapareceram sem deixar rasto, isto é, todos menos um, que é encontrado a falar de modo incoerente. Nos dias de hoje, Shinichi Amamoto (Leo Morimoto) é um jornalista freelancer que viaja com os filhos Yuki (Yui Ichikawa) e Hideo (Jun Nishiyama) para a ilha de modo a que recuperem de um acidente traumático. A viagem é uma má ideia, que a audiência já sabe de antemão dado os acontecimentos passados e devia ser também um sinal para Shinichi visto que os habitantes são tudo menos calorosos. Os personagens dos filmes de mistério, até pelo menos à primeira meia hora de filme, nunca são perspicazes. À frieza da população juntam-se outros indícios ainda mais alarmantes. A casa que irão habitar demonstra vestígios de sangue e a vizinha avisa Yuki de que nunca deverão deixar a casa quando ouvirem a sirene. Esta encontra-se numa torre de metal abandonada numa zona remota da ilha. Depois deixem os factos a torturar o subconsciente de uma adolescente impressionável e eventos graves serão uma inevitabilidade. Yuki tenta ultrapassar a muralha de silêncio tácita entre os habitantes, tornando-se, desde cedo claro que ela é uma estranha e portanto, indigna da sua confiança. Por outro lado, para um pai preocupado, Shinichi encontra-se a leste dos efeitos da curiosidade prodigiosa da filha. Não era suposto irem para a ilha “curar velhas feridas”?
O maior elemento a favor de “Forbidden Siren” (se não jogaram primeiro o jogo) é não se saber exatamente para onde nos querem levar. Por isso, não é como se o elemento mistério não estivesse presente e, em 5 minutos de filme se soubesse antecipadamente o final. A problemática reside no facto de as perguntas persistirem sem resolução. Até onde é que uma pessoa aguenta? Mistério apenas pelo mistério, de nada vale se os argumentistas não começarem a apresentar propostas de solução. O enredo sai cada vez mais embrulhado e onde antes existia ansiedade agora reside frustração. Até pormenores que prometiam, não oferecem a menor hipótese de redenção. “Siren” significa sirene mas também sereia. É o canto da sereia que arrasta as pessoas para a morte?! Potencial desperdiçado. O mesmo também pode ser dito dos actores. Yui Ichikawa é quem tem mais tempo de antena mas entre as suas orelhas proeminentes e os gritos histéricos, agudos, não posso afirmar que me recorde grandemente das capacidades de representação da jovem. Quanto ao pequeno Hideo, ele faz tudo o que lhe é dito para não fazer mas o castigo queda-se por uma leve reprimenda. Deve ser aquele estilo parental modernaço que deixa as crianças ser livres. Isto é, fazer tudo e mais alguma coisa e a culpa nunca é dos pais, porque a criança é um pequeno-adulto capaz de tomar decisões livremente. Pois…
“Forbidden Siren” tem pouco de memorável. A banda-sonora é decente e a representação ainda que não extraordinária também não é horrenda. Os cenários e a caracterização dos personagens a par do argumento constituem as maiores fraquezas do filme. Por comparação, o design do jogo é extremamente profissional, o que leva a pensar que “Forbidden Siren” é desnecessário e um mau cartão-de-visita. Tendo sido desenvolvido para coincidir com o lançamento do segundo jogo da série não consigo imaginar muitas pessoas a ir comprar o jogo depois de ver este filme. Já o contrário parece mais provável. Uma estrela e meia.
Realização: Yukihiko Tsutsumi
Argumento: Naoya Takayama
Yui Ichikawa como Yuki Amamoto
Leo Morimoto como Shinichi Amamoto
Jun Nishiyama como Hideo Amamoto
Próximo Filme: Série “Whispering Corridors, 1998-2009
Cenário: Acordam numa sala com pessoal que não conhecem de lado nenhum e com uma enorme bola preta onde surge uma mensagem que diz que 1) Existem aliens e 2) têm vinte minutos para matar o alien cuja imagem surge no ecrã. A primeira reacção deve ser qualquer coisa entre um: “tenho de largar as drogas!” e beliscar-se para acordar. Mas e se não acordarem e chegarem à conclusão que o cenário é real, que não é uma brincadeira de mau gosto e que se querem permanecer vivos têm de atirar a matar? Que tal isto para programa de diversão nocturna? Kei Kurono (Ninomyia Kazunaru) e Masaru Kato (Kenichi Matsuyama) são dois amigos que morrem atropelados por um comboio após tentar salvar um homem bêbado que caiu nos carris do metro. A bola negra transporta-os para a sala e dá-lhes uma nova oportunidade mas não está longe de ser um pacto com o diabo. A nova vida tem um preço: têm de matar aliens e a cada nova morte recebem pontos. A recompensa por atingir os 100 pontos é a possibilidade de esquecer o que passaram e não mais voltar àquela sala ou ressuscitar um dos muitos que já morreram antes deles a combater as criaturas invasoras. Aparte o segredo da sala que lhes irá, eventualmente, custar a vida (admitamos que os aliens são cada vez mais rápidos, furiosos e maiores), têm uma vida e entes queridos que não querem deixar sozinhos. Kato tem um irmão mais novo que não quer deixar entregue a assistentes sociais e Kei torna-se alvo das cada vez mais óbvias investidas românticas de Tae Kojima (Yuriko Yoshikata).
Assim a meios que a morte pode ser um impedimento no reatar de ligações familiares e românticas. Sobretudo, no que diz respeito a Kato e Kishimoto (Natsuna) que se conhecem na sala do Gantz.
“Gantz” é um dos melhores filmes resultantes de adaptações de anime e mangá, dos últimos anos. Se não conhecerem a mangá ou o anime, como era o meu caso, mesmo assim irão sentir que não estão a perder informação preciosa. “Gantz” tenta apelar ao máximo número de faixas etárias possível, sacrificando pelo caminho, carradas de nudez e de sexo. Também o protagonista deixa de ser um tarado sexual para passar a ser apenas um sujeitinho arrogante, com manias de grandeza a quem é ensinada uma grande lição. É uma adaptação digna de quem conhece bem o público-alvo.
As cenas de acção, nomeadamente, de perseguição e combate aos extra-terrestres são as mais interessantes e, se quisermos dar largas ao pequeno malvado que existe dentro de nós, pode-se sempre fazer apostas sobre quem chegará ao fim de mais uma caçada. As cenas de acção são tão competentes que a série com actores reais chegar ao pequeno ecrã não seria de menosprezar. Imaginem se a cada novo episódio tivessem um grupo de cidadãos “destacados” para matar o alien du jour? Como é óbvio a perfeição não existe e as cenas iniciais começam por ser irritantes já que os escolhidos são tão incompetentes que cometem todos os erros possíveis para se deixar ferir, matar ou negligentes a ponto de deixar colegas morrer. “Gantz” não está isento de dilemas morais. Matar um ser vivo, mesmo que este não pertença ao mundo como o conhecemos apresenta-se um problema para a maioria dos escolhidos. E não é como se tivessem grande alternativa: se quiserem viver têm de matar ou esconder-se bem. Temo que esta última opção não deixe de acarretar um alto grau de risco. Se calhar poderíamos alegar preocupações humanistas e que a morte seria um fim mais digno mas creio que isso não estaria longe da hipocrisia. Além disso, há pais, irmãos, namoradas…quem consegue resistir ao apelo da vida? E depois há os psicopatas e aqueles cuja ilusão de poder os faz regredir aos estádios mais primários da existência humana: vale tudo para não sobreviver. Mas ao invés de se restringir a uma luta selvática pela sobrevivência “Gantz” “agarra” as personagens principais como Kei e Kato, jovens imaturos e que pouco sabem da vida e fá-los crescer, tornar-se os heróis que nunca quiseram ser e reconhecidos por poucos, até há muito provavelmente breve morte. Nesse sentido, “Gantz” não é apenas um filme sci-fi de acção desmiolado. Obrigada, as audiências do século XXI agradecem. Três estrelas e meia.
Realização: Shinsuke Kato
Argumento: Yosuke Watanabe e Hiroyia Oku (autor da banda-desenhada)
Ninomyia Kazunari como Kei Kurono
Kenichi Matsuyama como Masaru Kato
Yuriko Yoshikata como Tae Kojima
Natsuna como Megumi Kishimoto
Taguchi Tomorowo como Suzuki Yoshikazu
Kensuke Chisaka como Ayumu Kato
Yoshimi (Hitomi Kuroki) é o retrato de uma mulher aterrorizada. Foi forçada a adquirir o apartamento mais barato que encontrou, numa zona degradada da cidade, com a filha Ikuko (Rio Kanno) e o ex-marido rancoroso não mostra qualquer sinal de abandonar a luta pela menina, apenas pelo prazer de a fazer sofrer. E agora que descobre que o apartamento que conseguiu arranjar herdou bastantes problemas, nem o solicito agente imobiliário que a convenceu a dar esse passo, nem o encarregado do prédio estão interessados em fazer o seu trabalho. É a maldita infiltração no tecto que parece segui-la, são as torneiras que não abrem e quando o fazem parecem espirrar… cabelos? É ainda a estória de uma menina, com a idade da sua Ikuko que desapareceu um ano antes. Nunca mais se sabe dela mas também não há ninguém terrivelmente preocupado apesar de ela ter morado ali…
Em “Dark Water” o realizador Hideo Nakata regressa ao género que o tornou o famoso, o terror. Embora seja bastante discutível se este é um filme de terror. “Dark Water” foi um dos últimos filmes com os onryo (fantasmas vingativos) a conseguir impressionar as audiências europeias. Quanto tempo dura uma moda? Quatro, cinco anos, no máximo? O auge dos slashers americanos, por exemplo, deu-se entre o final dos anos tempo e o início dos anos 80. Em 86 já ninguém queria ver o Jason, o Michael Myers ou o Freddy Krueger. Seria preciso uma década até ao slasher regressar, reformado com sarcasmo por um velho lobo (Wes Craven), entendedor do cinismo das gerações nascidas nos anos 80, os mesmos que ajudou a moldar! Não admira pois que dez anos passados da estreia os “Ringu” e “Ju-on” sejam recebidos pelos novos cinéfilos com escárnio ou a gargalhada. “Dark Water” é um exercício mais moderado de mais do mesmo. Ao invés de apostar na maldição/assombração a todo o gás, só parando no final, apresenta os desafios de “uma mãe solteira” amedrontada pela possibilidade de perder a filha que encontra eco em qualquer nação. E durante a maior parte dos 100 minutos de película é a isso que assistimos. Uma mulher que não sabe muito bem se está a ficar louca, à medida que os problemas do apartamento se amontoam e sem suporte emocional além da filha e uma força se torna demasiado próxima das duas para seu conforto.
Estaria a mentir se não achasse o cenário demasiado conveniente para o clima de assombro crescente. Os fantasmas “farejam” as criaturas mais vulneráveis, sobretudo mulheres e crianças e, ora bolas, se isso não nos deixa arrepios na espinha. Pior do que saber que os seres mais fracos da estória estão sob ataque é ter a certeza de que estão sós no mundo. Yoshimi, interpretada por Hitomi Kuroki é uma personagem multidimensional. Não é difícil imaginar Yoshimi como uma mulher abusada, pelo menos, em termos psicológicos. É uma daquelas pessoas que tenta agradar a todos e a evitar o conflito. Por fim, acaba por ser a principal prejudicada, a vítima das circunstâncias que ela própria ajudou a criar. “Dark Water” também funciona em crescendo como “Ringu” mas com um argumento mais sólido, ainda que isso não signifique grande coisa. O J-horror nunca foi celebrado pelas estórias magníficas mas sim por um conjunto de tecnicismos vários que criaram as cenas de tensão que têm sido celebradas e parodiadas nos últimos anos. Infelizmente, ultimamente, somente o facto de um filme ser rotulado como J-horror pode levar a que este seja recebido com descrédito pelas audiências ocidentais. Enquanto no extremo oriente a população acorre em massa para ver a mais recente reencarnação do onryo, a oeste as populações suspiram só à menção da rapariga de cabelos negros que aparece e desaparece a seu belo prazer. As actuações são boas, em particular a da então criança Rio Kanno que viria depois a protagonizar “Noroi”. De um modo ou de outro, os personagens são todos emprestados de outros filmes de terror ou viriam a ser repescados posteriormente para o efeito. “Dark Water” é um dos últimos exercícios superiores no que diz respeito aos sempre constantes fantasmas ameaçadores antes de a banalização atacar as estórias em proveito do terror pipoca. “Sadako 3D”? Alguém? Três estrelas e meia.
Realização: Hideo Nakata
Argumento: Koji Suzuki, Ken’ichi Suzuki, Yoshihiro Nakamura e Hideo Nakata
Hitomi Kuroki como Yoshimi Matsubara
Rio Kanno como Ikuko Matsubara
Mirei Oguchi como Mitsuko Kawai
Fumiyo Kohinata como Kunio Hamada
Yu Tokui como Ohta
Isao Yatsu como Kamiya
Shigemitsu Ogi como Kishida
PS: Mais ninguém achou a música no inicio do trailer, completamente desconexa da imagem?
Se sobreviveram aos primeiros minutos de filme, os meus parabéns. Pertencem àquele grupo especial de pessoas com elevado grau de tolerância pelo que é “estranho”. “Casshern” é a adaptação de um anime dos anos 70, que cresce sobre o material original, em suma um super-herói e lhe acrescenta temas modernos como a destruição da biodiversidade pelo ser humano, a espiral de dor e morte como resultados inevitáveis da guerra, a desconfiança pelo que são as experiências laboratoriais em seres vivos e a inteligência artificial. E se isto já não parece pouco, polvilhe-se um pouco de romance para agradar a todos. Definitivamente, as palavras fácil e linear não se aplicam em “Casshern”. Agora, esplendor visual…
Com um orçamento de 6,6 milhões de dólares, Kiriya Kazuaki fez todo o tipo de experiências com o seu rato de laboratório, “Casshern”. Não há um momento aborrecido em termos estéticos nesta película: da cinematográfica, aos cenários e guarda-roupa, há sempre bastante para onde olhar. Ora, se esse truque é capaz de resultar em desviar o foco de atenção dos defeitos, não é menos verdade que tal nível de detalhe não é aconselhável com pessoas com deficit de atenção. Mas passemos à estória… Tetsuya (Yusuke Iseya) é um daqueles homens que não têm grande sorte na vida: o pai enlouqueceu, a mãe foi raptada e, mesmo antes de se casar com a bela Luna (Kumiko Aso) foi morto na guerra. Ah, esqueci-me de mencionar que ele morreu? Sim, o protagonista morre no início do filme. Não têm com que se preocupar, que o pai dele é um génio que criou as “neo células”, que lhe concedem o dom de uma nova vida e uma série de outros poderes. Antes de Tetsuya a experiência é testada em cadáveres cujo regresso à vida assusta os militares e conduz a um massacre da centena de mutantes. Boa. Como se não bastasse a vida no planeta Terra estar assolada por males como a Guerra, a poluição e as máquinas a revoltar-se contra os seus criadores, agora, existem também, mutantes assassinos. Tetsuya pertence a esta nova estirpe mas permanece ligado à Terra pelo mais provável dos sentimentos: o amor pela noiva que deixou. Ele torna-se Casshern, um Tetsuya melhorado que irá salvar a mãe das garras dos seus captores e no final ficar com a rapariga da sua vida. Pelo menos é esse o plano. Ou esboço de plano que o pobre Casshern, durante mais de metade do filme não sabe o que está a fazer. Assim como Luna, que surge sempre bela e um pouco alheada do que se passa à sua volta. Ela passeia-se pelo ecrã, conferindo mais um motivo de apreciação estética que uma personagem mais interessante que, digamos, um mosquito.
“Casshern” é sobretudo a estória do nascimento de um herói. Assistimos a relances de uma vida pré-guerra, à morte, segundo nascimento, a tomada de consciência de um valor sobre-humano completo com uma armadura especial e meia dúzia de vilões com agendas mais ou menos maléficas. E para que não subsistam dúvidas sobre quem são os vilões, a narrativa está pejada de simbologia nazi e da antiga URSS. Porque pronto, há alturas para ser subtil e outras para vago. Se há grande motivo de interesse, este não se encontra na narrativa. As possibilidades que o argumento apresenta são tão descabidas e exigem uma enorme tolerância e uma grande dose de imaginação que a recompensa está mesmo na imagem. Foram utilizadas diversas técnicas incluindo o recurso a técnicas de animação, sendo que os momentos de acção estão relegados, sobretudo para cores como o preto e o branco. Eis que saltamos de cena e temos cores em abundância, verdadeiro atentado aos epilépticos. São camadas e camadas de estilos, que se desdobram em cenas díspares das anteriores, com a coesão a residir sobre os ombros dos actores, cenários e uma banda-sonora que acredito, continuará a ser identificável por muitos anos. “Casshern” é um sonho artístico, uma obra de arte onde o estilo vence sobre o conteúdo. Mas mais do que lamentar uma estória que sofreu em detrimento dos efeitos especiais, urge reflectir sobre as fronteiras do cinema. Se elas praticamente já não existem, se quase tudo é possível por que é que tanto filme sofre uma desinspiração absoluta? Duas estrelas e meia.
Realização: Kiriya Kazuaki
Argumento: Kiriya Kazuaki, Dai Sato e Shotaro Suga
Yusuke Iseya como Tetsuya Azuma/Casshern
Kumiko Aso como Luna
Akira Terao como Kotaro Azuma
Kanako Higuchi como Midori Azuma
Toshiaki Karasawa como Burai
Ah o espaço, alvo de ínfimas versões que pertencem aos sonhos molhados dos fãs mais ardentes da teoria de que existem seres inteligentes nas estrelas. Em quaisquer versões “eles” são mais inteligentes, embora, seja sempre o Homem que acaba por resolver os conflitos iniciados pelos alienígenas e a ter o ónus da superioridade moral. Vá-se lá perceber porquê. “Space Battleship Yamato” baseia-se na série anime dos anos 70 (74-75), que com apenas 26 episódios, conquistou um espaço no imaginário japonês e mundial, de tal modo, que ao longo dos anos proliferou o mercado de novas séries, filmes para TV, mangá e todo o tipo de merchandising que possam imaginar. Os ocidentais são capazes de reconhecer a série pelo nome “Star Blazers”. Se me pedissem para classificar “Space Battleship Yamato” diria que é um híbrido de “Star Trek”, “Battlestar Galactica” e “Star Wars”.
A versão japonesa possui um elenco fixo de notáveis, uma tripulação facilmente reconhecível e com a qual o fã desenvolve uma relação de quase dependência como sucedia com “Star Trek” e “Battlestar Galactica”. É muito complicado “matar” uma personagem sob pena de sofrerem a fúria dos fãs. Mas as semelhanças não se ficam por aí, focando-se num poderoso comandante, confiante na sua equipa, de raciocínio em tudo superior, side-kicks robóticos e personagens-tipo facilmente identificáveis entre as séries. Onde Susumu Kodai é James T. Kirk (William Shatner), Yuki Mori corresponde a uma Starbuck (Katee Sackoff). E onde o sentimento de aventura é apurado, tendo por pano de fundo paisagens e planos ofegantes, as relações humanas não podiam ser menos exploradas à boa maneira do subgénero de ficção científica tão odiado, space opera, qual “Star Wars”.
“Space Battleship Yamato” apresenta uma humanidade em decadência, forçada a viver debaixo de terra para escapar à radiação, que aposta numa viagem final da única nave de combate que resistiu ao ataque dos gamilas, uma espécie alienígena apostada em levá-la à extinção. A “Yamato”, comandada pela mão de ferro do experiente e respeitado Capitão Okita (Tsutomu Yamazaki), deixa a Terra com uma pista, uma capsula com as coordenadas para o planeta Iskandar, a base da espécie invasora. Quem sabe o que poderão encontrar por lá. Entre a tripulação encontra-se o cabeça-quente Susumu Kodai (Takuya Kimura) que acredita que o Capitão Okita é o culpado pela morte do seu irmão Mamoru e a temperamental Yuki Mori (Meisa Kuroki). Se a perspectiva do que se encontra no final da viagem é fascinante, o caminho para lá chegar é uma estopada. Na ideia de contentar os fãs da série que atravessa várias décadas, o argumentista demonstrou voracidade tremenda no sentido de apresentar todos os personagens queridos. Alguns não possuem mais do que segundos de ecrã e apenas servem para confundir quem não está integrado naquele universo. Meia dúzia de personagens inconsequentes desviam o foco da acção principal e não auxiliam o desenvolvimento dos que realmente conduzem o filme. Isso explica que em pouco mais de 130 minutos de filme, Susumu passe de intempestivo, a moderado e, finalmente, o herói que todos sabiam que ele tinha dentro dele, sem que exista um grande motivo para tal. Pior sorte tem a adorável Meisa Kuroki, cuja personagem parece uma feminista tal como é percepcionada por um machista. Eu explico melhor. Ela é toda fogosa e combativa porque tem falta de sexo. A sério. A partir do momento em que enceta um romance toda ela é cores rosadas e uma ternura que, minutos atrás, não imaginávamos que tivesse.
A acção é o que seria de esperar de um super-orçamento e é nas cenas de combate espacial entre os caças terrestres e as naves Gamilas que se encontram os momentos mais divertidos. Os miúdos, em particular, acharão um mimo. Apenas não esperem um argumento brilhante. O objectivo é agradar aos velhos conhecidos sem alienar novos espectadores. Mas, eu, céptica, aqui me confesso: por regra não apoio a existência de sequelas porque raramente fazem sentido. Em “Space Battleship Yamato”, com qualidade técnica e bons actores que tão-somente tinham papéis subdesenvolvidos, mais valia tem partido a estória em dois ou três filmes para explorar com calma o material que tinham entre mãos. Duas estrelas e meia.
Realização: Takashi Yamazaki
Argumento: Shimako Sato, Yoshinobu Nishizaki (estória) e Leiji Matsumoto (mangá)
Takuya Kimura como Susumu Kodai
Meisa Kuroki como Yuki Mori
Tsutomu Yamazaki como Capitão Jūzō Okita
Toshirō Yanagiba como Shirō Sanada
Yusuke Santamaria como Yuji Oda
Naoto Ogata como Daisuke Shima, chief navigator
Reiko Takashima como Dra. Sado
PS: Créditos Finais - música pirosa do Steven Tyler. Mau flashback de 1998.
Os momentos fantásticos de cinema só acontecem duas, três vezes num ano. Isto, se tivermos sorte. Quando se vêem filmes à velocidade da luz – estão disponíveis em todo o lugar, a qualquer altura, eles desaparecem, como memórias sem importância das mentes sobrepovoadas. Com actores magníficos à disposição, argumentistas dignos das maiores honras, realizadores com “a visão” e rios de dinheiro para gastar sumptuosamente em todos os aspectos técnicos é fascinante descobrir que a futilidade e o desperdício não só não diminuíram como aumentaram. E depois há aqueles pequenos filmes que só conseguem acertar num dos membros da equação e eclipsam os meses terríveis que lhe antecederam.
Kisaragi é um desses pequenos milagres. Para este milagre acontecer só foram precisos cinco actores, um cenário e um realizador capaz de transformar a visão de Ryota Kosawa numa possibilidade.
Um ano após a morte de Miki Kisaragi uma pin-up de série C, cinco fãs que mantêm um fórum online de homenagem à modelo falecida de modo de precoce num incêndio, decidem fazer uma festa comemorativa da vida e trabalho dela. À medida que os cinco homens “Yuji Oda” (Yusuke Santamaria), “Strawberry Girl” (Teruyuki Kagawa), “Snake” (Keisuke Koide), “Iemoto” (Shun Oguri) e “Yasuo” (Muga Tsukaji) exploram o material que lhe sobreviveu começam a suspeitar que a morte de Miki poderá não ter sido um acidente.
O argumento explora de modo divertido os grupos de fãs das celebridades, as suas ansiedades e psicoses escondidas sobre aparências normais. Um rapaz bonito que poderia ser considerado uma pessoa capaz de estabelecer e manter relações com facilidade, dedica-se, afinal, à obsessão com um estranha tendo chegado a enviar-lhe 200 cartas. Outro, esconde-se por trás de uma alcunha de mulher e revela um conhecimento profundo da celebridade que roça a perseguição. No vazio das suas vidas entregaram-se à veneração de uma rapariga bonita com poucos talentos. Ela era uma celebridade apenas nas suas cabeças. Antes de se tornar famosa, se é que alguma vez isso iria suceder, morreu de modo trágico. A linha de jornal mais importante da sua vida, foi o seu óbito! Enquanto os homens discutem sem pudor os pormenores de uma vida semi-pública, eles analisam a fome de fama, a importância de uma família estruturada, os managers sem escrúpulos, a necessidade de se possuir talento real para se ser famoso, os fãs que exigem demais de pessoas normais. Miki era uma rapariga divertida mas teria ela uma face oculta? Ela tinha uma vontade de vencer no mundo das pinups femininas a todo o custo sob uma aparência inocente? Ela era a rapariga inocente que estava mal aconselhada? O que levou à sua queda. A depressão por saber que a fama nunca iria chegar? A solidão? Os falsos amigos? O manager exigente? O que matou Miki? Se calhar foi ela própria. A reunião redunda numa caça ao culpado, que pode muito bem ser um dos cinco homens.
Entre momentos divertidos nos quais os fãs se tentam ultrapassar na quantidade de conhecimento da modelo e o humor de casa de banho que até diverte, há todo um mistério policial subjacente que faria um escritor do género orgulhoso. Mas Kisaragi não é nem uma comédia, nem um drama, nem um thriller. É tudo junto e com sucesso. Se quisermos recorrer a outras referências cinematográficas e literárias, “Twin Peaks”, 1990-91 e “Rebbeca”, 1940 estarão no topo da lista. Eles são uma súmula de tudo quanto Kisaragi apresentou com sucesso: uma personagem principal que faz as delícias da audiência masculina e comanda a narrativa a despeito de surgir em breves flasbacks, a maioria das vezes, sem sequer vermos a sua face. Não precisamos na verdade. A despeito do mistério que a envolve ela é uma personagens mais transparentes e mais dissecadas que se viu em ecrã. A apoiar Miki está um elenco fantástico, de realçar o “Strawberry Girl” que alterna entre o assustador e um homem digno de piedade. Quatro estrelas.
Realização: Yuichi Satô
Argumento: Ryota Kosawa
Shun Oguri como Iemoto
Teruyuki Kagawa como Strawberry Girl/Musume Ichigo
“Mononoke” é uma série de 12 episódios que segue as aventuras do misterioso viajante vendedor de remédios depois de uma primeira aparição em “Bakeneko”, o terceiro capítulo de “Ayakashi – Samurai Horror Tales”. “Mononoke” é um espírito ou espectro que assombra um local específico ou persegue alguém. Alberga intenções malévolas ligadas aos objectos de assombração. Desta feita, a animação está dividida em cinco estórias independentes cuja única ligação é o vendedor nómada (Takahiro Sakurai) com a capacidade esplêndida de surgir sempre no local certo, à hora certa.
Capítulo I (Episódios 1-2)
“Zashiki-warashi” – Shino, uma mulher grávida roga que a deixem pernoitar num albergue a pretexto de que a vida do seu bebé corre perigo. Inicialmente contrariada, a dona do albergue deixa-a entrar e atribui-lhe o quarto mais distante. Cedo Shino começa a ouvir risos de crianças e a encontrar brinquedos espalhados por todo o lado. Só há um pormenor: naquela noite não havia nenhuma criança lá instalada.
Capítulo II (Episódios 3-5) “Umibozu” – Durante uma viagem de barco o vendedor de remédios e os restantes passageiros são atraídos para o Triângulo do Dragão, um mar que, diz o folclore, estar repleto de espíritos prontos a atrair os navegadores incautos para a morte. Com o barco a ser atacado pelos espíritos inquietos, o vendedor de remédios terá de encontrar entre pessoas tão diferentes como Kayo ex-serva na casa dos Sakai (“Bakeneko” da série “Ayakashi”), dois monges budistas, um samurai, um menestrel ou o ganancioso dono do barco, sobre qual impede a maldição do espectro, antes que sejam todos arrastados para o fundo do mar.
Capitulo III (Episódios 6-7) “Noppera-bo” – Ochou está prestes a ser executada por ter assassinado toda a família do marido. O abuso de que foi alvo pela nova família não a deixa ver senão a possibilidade de ter sido ela a cometer o acto hediondo apesar de não se recordar de nada. Será que ela foi alvo de um encantamento e o verdadeiro culpado do crime foi um Mononoke?
Capítulo IV (Episódios 8-9) “Nue” – Três homens disputam a mão da dama Ruri, a única herdeira da escola de incenso Fuenokouji. Ela desafia-os a entrar numa competição de incenso para desempate. Aquele que conseguir identificar o maior número de aromas será o escolhido para a desposar. À medida que a competição se desenrola, os pretendentes começam a revelar as verdadeiras razões por trás da pretensão. É motivo suficiente para despertar o ressentimento de um espírito malévolo?
Capítulo V (Episódios 10-12)
“Bakeneko” – Em jeito de homenagem ao episódio que deu origem à série “Mononoke”, este capítulo junta uma série de desconhecidos num comboio, unidos por um segredo sórdido. Durante a viagem inaugural são encurralados na última carruagem, começando a ser colhidos um a um, pelo Bakeneko. Para não serem a próxima vítima deverão revelar o seu pecado mortal.
Todos os episódios apresentam a animação característica de “Bakeneko” e que constituiu, em grande parte o seu êxito. A animação está repleta de influências num estilo que já tinha apelidado anteriormente de “pesadelo de um unicórnio”. A colocação de cores pode parecer aleatória mas existe, como em tudo o resto um sentido de causalidade. As influências incluem desde a animação japonesa tradicional baseada nos antigos manuscritos do país até motivos externos desde o surrealismo à Art Nouveau, cores com textura misto de técnicas tradicionais e modernas, existindo mesmo, em “Umibozu”, um quadro que é uma inspiração óbvia de “O Beijo” de Klimt. O capítulo menos ousado em termos da utilização da cor é “Nue”, o qual, durante a maior parte da acção sucede em tons de cinzento que, como perceberão mais adiante não está desligado dos acontecimentos. A estética mais singular pertence a “Bakeneko” que ocorre durante os loucos anos vinte. Aí, numa estação de comboios repleta de gente, os ilustradores decidiram retirar tudo o que era acessório e todos os que não intervêm directamente na estória, não são senão, despojados manequins. Também aqui a explosão de cor é mais contida mas, por oposição apresenta algumas das personagens com maior densidade emocional da série. Pergunto-me também, se estas opções ousadas não foram também motivadas para marcar diferenciação do “Bakeneko” de 2006, ocorrido durante o Japão feudal e que tanta admiração causou. Entre as narrativas mais interessantes encontram-se “Noppera-bo” e “Nue”, o primeiro por a acção ocorrer mais num plano pessoal e introspectivo, como numa conversa interior e o segundo, não só por arriscar num estilo de animação diferente dos episódios anteriores como por ser um dos episódios que mais penetram na cultura japonesa e nesse sentido se demonstrar refrescante. “Umibozu” é o episódio mais representativo do “pesadelo do unicórnio” e, mais que não seja, vale pela ilustração. Podíamos ver o filme sem som e sem legendas e sair fascinado do visionamento. Já “Zashiki-warashi” e “Bakeneko” puxam pelos instintos de protecção da mulher, como ser frágil. E se isto já era verdade em “Ayakashi - Samurai Horror Tales”, continua a ser verdade em “Mononoke”, as tragédias que se abatem sobre a mulher têm sempre uma maior proximidade com a realidade que as restantes.
Mas dizia antes que em “Mononoke” nada é obra do acaso e, de facto, a série está pejada de momentos de simbolismo da vida, da morte e dos pecados do homem que levam à sua queda prematura. No entanto, esta moralidade é momentaneamente esquecida quando à representação da mulher diz respeito. A pele alva e comportamento comedido correspondem à pureza de espírito e inocência, enquanto a pele escura e o atrevimento são característicos da insolência que é vista com desaprovação. O vendedor de remédios, a única constante da série, a despeito do mistério que envolve, passado algum tempo torna-se maçador pois não existe evolução da personagem. A audiência é perpetuamente fascinada pelo vendedor de remédios que tem o condão de surgir sempre que há um espirito maléfico presente, pelo seu humor negro e, fundamentalmente, lacónico, mas a série termina como começou. Nada se sabia do vendedor no início e terminamos sem qualquer resolução nesse aspecto. O seu discurso, episódio após episódio é idêntico: forma (katachi), verdade (makoto) e kotowari (razão) e o modo de combate ao mal, aterrador, por vezes, também. Mas a grande lamentação e o maior elogio que se pode fazer a “Mononoke”, foi o facto de Hashimoto (animação) e Nakamura (realizador) não terem brindado o público com mais material original sobre o vendedor de remédios que combate o mal. Um dos melhores mistérios sobrenaturais de animação que já vi. Quatro estrelas.
Realização: Kenji Nakamura, Kouhei Hatano, Masayuki Matsumoto, Nama Uchiyama e Sumio Watanabe
Argumento: Chiaki J. Konaka, Ikuko Takahashi, Manabu Ishikawa e Michiko Yokote
Designer de Animação Takashi Hashimoto