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quarta-feira, 7 de março de 2012

"Haunted Village" (Arang, 2006)

O cinema sul-coreano sempre teve um fraquinho por mistérios. Grandes detectives forjados num cenário de tragédia pessoal desbravam caminho por entre os casos mais difíceis, até à sua resolução. So-young (Yun-ah Song) é uma detective determinada e perspicaz assombrada pelo passado, que a compele a entregar-se de corpo e alma a cada novo caso.

Depois de um período de suspensão por deixar as suas emoções levarem a melhor sobre si, num caso de violação, So-young regressa ao activo para investigar as mortes de uma série de homens que começam a surgir brutalmente assassinados. Todas as vítimas parecem ter ingerido ácido. Mais estranho ainda, todos eles, velhos amigos de infância receberam o mesmo e-mail antes da sua morte. Este contém um link que encaminha os internautas para uma página gerida por uma bela jovem e uma casa de sal. Em conjunto com um novo parceiro Hyun-ki (Dong-wook Lee), So-young faz uma viagem ao meio rural para encontrar a casa de sal e compreender, se existe uma ligação entre os dois eventos. “Arang” é uma sucessão de erros e lugares-comuns. Uma das cenas inicias é a de um casal no dia do seu casamento, rodeado de amigos prestes a tirar a fotografia da praxe. Os meus neurónios efectuaram logo uma ligação directa ao “Shutter” (2004). E sabem que mais? Não está muito longe. Ao longo de “Arang”, temo dizer que esta sensação é recorrente.
A novela detectivesca pode ser recuperada a outros filmes e como não podia deixar de ser, existem elementos sobrenaturais, nomeadamente, a mulher de longos cabelos negros com mau feitio.
“Bestseller” (2010), é uma cópia tirada a papel químico de “Arang” com a vantagem de ser mais eficaz e a desvantagem de ter estreado quatro anos mais tarde. Também a comparação entre as duas actrizes principais é inevitável e nesse campo, “Arang” fica a perder. Não é que Yun-ah Song não seja competente mas o que não faltam nestas produções são actrizes competentes e Jeong-hwa Eom é excelente. Além disso, a imagem da tecnologia como meio portador da morte está por demais desgastado. “Pulse" (2001), “Ring” (1998) e “The Grudge” (2008), pertencem definitivamente ao manual de assombrações do realizador Sang-hoon Ahn.
A dinâmica entre a dupla de detectives é boa, não sendo levado ao extremo o polícia novato vs. Polícia veterano. A sua relação também está no centro da maior reviravolta de todo o filme.
No entanto, apesar da peculiaridade das mortes que dão inicio à trama o caminho para a sua resolução nada tem de extraordinário. A linha de investigação resulta mais de saltos ilógicos que do seguimento de pistas à semelhança de uma verdadeira inquirição policial. Quando So-young decide, realizar uma intervenção cirúrgica de improviso ao cadáver do cão de um dos mortos, é surreal. Desde a justificação desta acção ao modo como a própria cirurgia é realizada, é tudo demasiado fantástico para ser verdade. Tipo, quantos procedimentos de segurança e higiene quebraram logo ali? Uma prova obtida por tais meios alguma vez teria admissibilidade em julgamento? E imagine-se só, eles encontram um vídeo entre o conteúdo do estômago da criatura. Uau. Que poder de dedução extraordinário. Para mais, o vídeo encontra-se em óptimas condições. Os ácidos no estomago do bicho não chegaram a corroer a prova nem nada. Espectacular.
Mas talvez o aspecto mais surpreendente num filme como “Arang” em que existem cenas tais como: “embora autopsiar um cão, sem instrumentos cirúrgicos por que tenho um palpite”, a película mantém a seriedade e prende a atenção do espectador. É interessante seguir So-young perseguir um caso que lhe está tão próximo do coração e vê-la conter-se para não perder a frieza analítica de detective para levar o seu empreendimento até ao fim. Como Ícaro ela quer voar cada vez mais alto, mas com a prudência recém-adquirida de quem não quer perder os ventos favoráveis de Zéfiro e cair do céu. “Arang” tem suficientes argumentos para não se deixar cair na tentação de seguir os truques de uma vintena de filmes que lhe antecederam o que, infelizmente, não acontece. Em última análise, “Arang” acaba por adoptar uma via feminista, da mulher que faz justiça pela mulher que não se pode defender e da mulher que pode ser fraca mas escolhe não ser uma vítima. E o desenlace podia ter sido verdadeiramente especial se o cineasta se tem quedado pelo encerramento do caso de polícia. Não. Por algum motivo, (atenção, spoiler), a assombração não morre com o caso e toma como sua vendetta pessoal as ofensas a So-young, deixando o caminho aberto para a sequela que, até hoje, não se materializou. E como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio. Duas estrelas.


Realização: Sang-hoon Ahn
Argumento: Sang-hoon Ahn, Seon-ju Jeong, Jeong-seob Lee e Yun-kyung Sin
Yun-ah Song como So-young
Dong-wook Lee como Hyun-ki


Próximo Filme:  "Doll Master" (Inhyeongsa, 2004) 

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Hansel & Gretel" (Henjel gwa Geuretel, 2007)


Era uma vez um rapaz que tinha medo da responsabilidade. Ele tinha tanto medo que preferiu fugir a enfrentá-la. Nisto, um estranho tipo de magia interveio e ele foi parar a uma floresta encantada. Esta esconde um casarão, daqueles que se desejam em sonhos e o conforto e todas as coisas boas que se podem conceber no mundo da imaginação, onde foi recebido por crianças de faces rosadas que a lá permanecer para todo o sempre.
Eun-Soo (Jeong-myeong Cheon), pois que esse é o seu nome, nem por um momento se sente tentado a permanecer. A sua ânsia de escapismo, não é, afinal, assim tão forte, nem as saudades daqueles que deixou para trás tão fracas. Então, decide ir-se embora, voltar ao mundo real e nele, confrontar todos os seus medos. Só que Man-bok (Won-jae Eun), Young-hee (Eun-kyung Shim) e Jung-Soon (Ji-hee Jin), não o querem deixar partir. Eles guardam um segredo terrível, um que prende com amarras, todos aqueles que por ali passem e esmaga todos os que atentarem contra eles. Eun-Soo vê-se assim, obrigado a calcular todos os seus passos com cuidado para não magoar as crianças, nem atrair a sua fúria. Mas ele não deixou um rasto de migalhas desde a casa de gengibre até à estrada para a liberdade. Como regressar?
“Hansel & Gretel” é mais uma incursão no imaginário dos Irmãos Grimm. Esta estória tem passado ao lado de outros grandes clássicos sobre explorados como a Bela Adormecida e mais recentemente, a Branca de Neve. Este filme sul-coreano é uma versão modernizada, na qual, mais depressa se encontram ecos simbólicos da narrativa original do que uma interpretação literal. Apenas a cinematografia parece ter ido buscar inspiração directamente a gravuras antigas, conferindo a esta obra do novo milénio um exterior delicioso. A composição musical de Byung-woo Lee é um regalo para os saudosistas pois parece retirada dos grandes filmes de fantasia dos anos 80. A identidade sul-coreana não se perde nas alusões a um mundo mágico importado da velha Europa. O elenco, das crianças aos adultos, é um portento. E os eventuais contornos dramáticos são uma trademark em si mesma. Este conto negro e belo ao mesmo tempo recebeu por isso, aclamação a nível internacional e no Fantasporto de 2009 chegou mesmo a arrecadar o Grande Prémio da Secção Orient Express. Onde “Hansel & Gretel” se perde é na narrativa. A motivação de Eun-soo é uma incógnita. Ele é apresentado, num primeiro momento como um inconstante que aspira à liberdade por oposição aos constrangimentos que a vida coloca no seu caminho. Mas assim, que surge a oportunidade de fuga perfeita ele não hesita um único momento em rejeitá-la. Ele sabe que a sua vida está com aqueles que umas horas antes desejava desertar. Também se pode alegar que cuidar de crianças representa uma responsabilidade igual àquelas de que foge e que, como tal, ele opta pela realidade que conhece. Esse argumento é fraco. Aliás, as crianças não necessitam de ninguém que cuide delas. Elas sabem governar-se e raciocinar como… se não fossem crianças. Estão apenas carentes de amor, aquilo que todos os confortos deste mundo não conseguem substituir. Eun-soo acaba por depender da sua maturidade para que compreendam que o amor é uma oferta, recíproca, desinteressada e incondicional. Nunca forçado como elas o pretendem, por todos os meios obter. E assim temos uns pequenos monstrinhos alternam entre o demoníaco e o adorável, com Man-bok mais próximo do primeiro extremo e Young-hee no último.
“Hansel & Gretel” é um exemplo clássico da natureza humana. Ao contrário dos contos originais, nos quais os desejos e vontades das criaturas são retratados a preto e branco, num cenário de inúmeras cores, o filme demonstra os diferentes tons do ser humano. Sob a superfície encontra-se todo um passado, mais ou menos trágico, que lança uma nova luz sobre o passado trágico das personagens. Assim, quando chegamos ao último capítulo desta estória de encantar, já os nossos sentimentos sofreram várias revoluções. Queremos um: “E viveram felizes para sempre”. Três Estrelas.

Realização: Pil-sung Yim
Argumento: Pil-sung Yim e Min-sook Kim
Jeong-myeong Cheon como Eun-Soo
Won-jae Eun como Man-bok
Eun-kyung Shim como Young-hee
Ji-hee Jin como Jung-Soon

Próximo Filme: "Phoonk", 2008

domingo, 19 de fevereiro de 2012

"The Cut" (Haebuhak-gyosil, 2007)

Estudar medicina pode ser um simples exercício de memorização até que chega a hora da verdade. Existe aquele momento importante em que se passa da teoria à acção e é solicitado ao estudante que opere sobre a máquina extremamente complexa que é o corpo humano. Mas os melhores só se distinguem dos teóricos quando chega a altura de explorar o corpo humano em carne e osso. Seis alunos formam um grupo improvável: Sun-hwa (Ji-min Han) a rapariga boazinha, o líder natural Ki-beom (Tae-gyeong Oh), a ratinho de biblioteca Eun-joo (Soy), o gordo Kyung-min (Won-joo Moon), a promiscua Ji-yeong (Yoon-seo Cha) e Jung-seok (Joo-wan On) o menino do papá , bem-parecido e com dinheiro como convém. Agora que chegou a altura de separar os incompetentes dos futuros médicos vale tudo. Os mais ambiciosos apontam com a precisão cirúrgica de um profissional os mais fracos e provocam a excisão do tumor. A selecção natural inicia-se na primeira aula de anatomia. O grupo é confrontado com o cadáver de uma bela mulher com a tatuagem de uma rosa no seio. Sun-hwa tem uma sensação estranha quando disseca o cadáver. Compreensível, certo? Eun-joo é a primeira a ceder à pressão e é humilhada pelo Dr. Han (Min-gi Jo), um homem extremamente reputado no seio da comunidade científica. Porque será que todos os grandes professores na universidade são uns estupores inveterados? Requisito de profissão?
Com o aproximar da época de exames aumenta o nervosismo e os alunos recolhem aos dormitórios para se embrenharem nos livros. A faculdade é abalada pela morte brutal de uma aluna na morgue. A polícia inclina-se para a tese de suicídio derivada a intensa pressão à qual os estudantes estão sujeitos. Estes não se sentem seguros visto que as mortes vão-se sucedendo a um ritmo vertiginoso. O grupo de amigos, liderado por Sun-hwa (Ji-min Han) junta-se para investigar o caso e cedo se debruçam sobre o cadáver da aula de anatomia. Estranha causa-efeito mas enfim.
“The Cut” sofre do mal que se abateu sobre o cinema sul-coreano na última década: a repetição a que se junta uma tremenda falta de imaginação. Como se uma primeira ideia tivesse sido preservada em formol, ressequida com a passagem do tempo mas reutilizável. Verifica-se a inexistência de um desejo colectivo no sentido de efectuar um corte profundo no ideário institucionalizado no cinema de terror coreano. Há apontamentos aqui e ali, que fogem ao status quo mas não se preocupem que os estúdios estão atentos e decerto encaminharão os cineastas vindouros para o que fizeram os antecessores e, pasme-se, copiá-los. Há quem lhe chame homenagem, mas dez anos de homenagens parece-me exagero.
No entanto, existe uma cena singular no departamento dos sustos, no primeiro capítulo da película. Tentem imaginar o seguinte cenário: ficarem fechados na morgue sozinhos durante toda a noite. Não é para fracos de coração (acreditem que o trocadilho terá muito mais piada quando se dispuserem a ver o filme). Além disso, o argumento incorre em dois erros graves. A narrativa começa por matar uma das personagens mais empáticas em todo o filme e o nosso grupo de estudantes é demasiado grande. Dois ou três bastavam. Para quê cinco ou seis personagens decorativas com pouca ou nenhuma participação na desmistificação do mistério que vão ser mortas de qualquer modo? Antes uma parelha inteligente e depois centena e meia de mortes. Who cares?
O resto é um filme de terror standard: segredos antigos mal escondidos, diga-se de passagem, uns culpados que não conseguiam ostentar um ar mais menos suspeito mesmo que tentassem e claro, personagens descartáveis ao menor sinal de aborrecimento do enredo. Como não podia deixar de ser e por que os argumentistas coreanos gostam de complicar (que isso é uma coisa boa, atenção), entra-se no thriller sobrenatural com direito a incursão breve e pouco substancial no território da experimentação científica. Não há nada ao nível de um Frankenstein ou de uma ilha do Dr. Moreau. Mas é demasiado pouco, demasiado tarde. Para os fãs de K-horror é mediano. Para os restantes é sofrível. Estão a ver a diferença? Duas estrelas.

Realização: Derek Son
Argumento: Soon-wok Jeon
Ji-min Han como Sun-hwa
Tae-gyeong Oh como Ki-beom
Joo-wan On como Jung-seok
Min-gi Jo como Dr. Han
Soy como Eun-joo
Won-joo Moon como Kyung-min
Yoon-seo Cha como Ji-yeong


Próximo Filme:  "Don't turn Away" (Wag Kang Lilingon, 2006)

domingo, 18 de dezembro de 2011

"Cello" (Chello hongmijoo ilga salinsagan, 2005)

O violoncelo pode ser considerado um instrumento musical da alta cultura, no sentido mais elitista do tempo. Na verdade, a malta mais nova prefere ficar GaGa pelos beats da música pop do que passar pelo sacrífico de ouvir um pouco de Bach ou de Brahms. Isto, a malta quer é facilitismos, sons contagiantes, fáceis de compreender e de replicar. E assim, no Not a Film Critic passamos de um interlúdio musical no universo do K-pop com “White: The Melody of the Curse” (2010) para a música clássica. Esqueçamos a música reinante nos tops, produzida à velocidade da luz, mainstream, para peças longas, intrincadas, conhecidas somente por alguns iluminados. A simplicidade de “White” contrasta com o denso enredo de “Cello” (2006). Não obstante, ambos vivem de e para a música com a habitual alusão ao sobrenatural.
Mi-ju (Hyeon-a Seong) é uma antiga violoncelista que se dedica agora ao ensino na universidade onde se formou. Apesar dos incentivos para voltar a tocar, por colegas e pela própria família, Mi-ju recusa-se a tocar no instrumento e sente uma especial aversão por uma música em particular. A sua atitude fria face ao ensino e ao próprio instrumento granjeia-lhe o ódio de uma aluna que se sente injustiçada com as notas atribuídas por Mi-ju. Ela promete vingança e pergunta-lhe se “ela está feliz?”, como quem diz, que lhe vai tornar a vida um pesadelo. Entretanto, a luz dos olhos de Mi-ju, a sua filha Yoon-jin sofre de um tipo de autismo que condiciona de modo severo a interacção com os outros. Mi-ju sente um forte sentimento de culpa face à condição de Yoon-jin, apesar de não existirem provas de que o seu comportamento durante a gravidez tenha contribuído para a maleita da filha. Assim, a sua vida se divide entre a indiferença pela profissão e a cobrir de atenções Yoon-jin até que um dia esta demonstra interesse por um violoncelo. Mi-ju não hesita em comprar o instrumento. A partir do momento em que o adquire começam a acontecer uma série de acontecimentos estranhos no seu lar. Estes incluem uma obsessão pouco saudável de Yoon-jin pelo violoncelo e a sua insistência em tocar a música que Mi-ju não suporta ouvir.
À medida que cresce o perigo em redor da sua família, Mi-ju é obrigada a um reencontro com o passado, acabando por revelar o motivo da cisão com a carreira de violoncelista. É-nos revelado que Mi-ju esteve envolvida num acidente de carro que a deixou traumatizada e provocou a morte da sua grande amiga e colega Tae-yeon (Da-na Park). Mas ela esconde um segredo terrível e será preciso aguentar pelo menos 40 minutos de filme até se fazer luz sobre os acontecimentos. Que ninguém se queixe que o cinema coreano não gosta de contar muito bem contadas as suas histórias. O cinema coreano é tipo sexo tântrico, são mais importantes os preliminares do que a penetração, vulgo, clímax. “Cello” reflecte de modo perfeito a obsessão do cinema sul-coreano com o karma. Não interessa quanto tempo passa, o passado volta sempre para nos assombrar, trazendo consequências devastadoras. “Cello” peca pela falta de originalidade: existe uma presença sobrenatural do sexo feminino apostada em fazer das suas, uma mensagem de texto que anuncia intenções perigosas, um instrumento musical amaldiçoado… O motivo por que o violoncelo carrega uma maldição nunca é corporizado. Faz-se um filme sobre um violoncelo que transpira morte e desespero mas nunca se explica porquê?
Mi-ju é a protagonista dislikeable quanto baste. Ela tem uma relação fria com todos os que a rodeiam excepto a filha mais velha. Talvez ela sinta que ter uma filha autista seja o preço a pagar pelos actos do passado. Para quem tanto amava tocar violoncelo, a sua indiferença é surpreendente. Se por outro lado, o instrumento é causa de sofrimento, um lembrete constante dos erros cometidos, seria de pensar que ela preferisse o afastamento total da música. Parece que Mi-ju vive num mundo muito próprio, estéril quase, de aparências, guardando no subconsciente uma informação perigosa, à espera do momento certo para sair e destruir a vida que ela construiu com os cacos do passado.
“Cello” peca por ser qualquer coisa fora do extraordinário: o guião é vulgar, a cinematografia é vulgar, as actuações são regulares. Tirando a composição musical, inexoravelmente ligada ao violoncelo, a actriz principal e a pequena Jin Ji Hye como a filha mais nova de Mi-ju existe pouca ou nenhuma frescura na narrativa. “Cello” funciona num registo muito mediano. Até a reviravolta final é um lugar-comum. A moral da história, entrelaçada com o conceito milenar do karma revolve sobre a punição dos maus actos, mesmo que para tal, o universo tenha de pregar uma grande partida aos prevaricadores e os enleve num ciclo contínuo de dor. Não tenho sentimentos pessoais contra uma história sem fim, excepto quando é tão pouco arrebatadora quanto esta. Duas estrelas.

Realização: Woo-cheol Lee
Argumento: Woo-cheol Lee
Hyeon-a Seong como Mi-ju Hong
Da-an Park como Tae-yeon Kim
Ho-bin Jeong como Jun-ki
Jin Woo como Kyung-ran
Na-woon Kim como Sun-ae
Jin Ji Hye como Yoon-hye


Próximo Filme: "Battle Royale" (Batoru Rowaiaru, 2000)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"Sector 7" (7 Gwanggu, 2011)

Às vezes estou naqueles dias. Não, não é um DESSES dias. Não sejam nojentos. Mas às vezes, sentamo-nos (sim, por que eu costumo ver filmes sentada, em pé não me parece tão fofinho) com a impressão de que o visionamento não vai correr muito bem. A sinopse parecia boa e o trailer prometia. O marketing da película anunciava o primeiro grande filme de monstros desde “The Host” (2005) e o formato IMAX 3D. “Eh lá, deve ser qualquer coisa de interessante”. Então, porquê esta urticária da mente? À partida, tinha uma leve ideia que “Sector 7”, não seria tão bom como as minhas expectativas se tinham deixado elevar, desde que lera aquela notícia em Agosto. Mesmo assim, não estava à espera do modo como as coisas se desenrolaram. Ignorei as críticas do “Sector 7”, sabendo que as primeiras reacções não auguravam nada de bom. Afinal, “não podia ser assim tão mau”.
Uma das observações que se podem fazer deste “Sector 7” é que se assemelha a um filme de série B. Aviso já que não é esse tipo de filme. Antes fosse, que assim ainda seria capaz de nutrir simpatia pelo realizador, actores, efeitos especiais e tantos outros problemas que a película demonstra. Mais vale ser cruel e expor logo o filme como a grande fraude que é. Tough love! A acção de “Sector 7” é situada numa plataforma petrolífera ao largo da ilha Jeju, onde a equipa de extracção luta para encontrar petróleo. A escassos dias de abandonar a busca infrutífera descobrem que aquele lugar alberga um monstro perigoso. Segue-se a fuga do monstro, a luta pela vida, ah e tal que afinal alguns dos membros da plataforma sabiam o que se estava passar, o típico herói durão… Já se viu tudo isto antes e melhor. Que dizer da heroína? É uma cabra que maltrata todos à sua volta por motivo nenhum. Por algum motivo acharam piada fazer do papel principal uma tipa que ninguém grama. Ela é combativa, malcriada, rebelde, desobedece a ordens, enfim, uma maravilha de pessoa para se conviver durante meses a fio. E nunca é explicado o motivo para o seu comportamento anti-social. Está num mundo de homens e quer provar o seu valor? Daddy issues? Pior é tentarem convencer-me que uma escanzelada como aquela tem estaleca para trabalhar numa plataforma petrolífera. Como atleta, modelo ou estrela de cinema muito bem mas para operária? Ji-won Ha foi um erro de casting. Para o meio ainda atiram uma relação mal cozinhada com o mais jeitoso dos operários. Obviamente. Ele, pobre coitado, está embeiçado e é um brinquedo nas mãos dela. É constantemente humilhado e rebaixado pelo objecto da sua afeição. Como é que ela, com aquele muro à sua volta, maior que a muralha da China, deixou alguém entrar é algo que me escapa. Como ele se deixa maltratar é outro mistério. Ah, já percebi, é o sexo. Ela é o homem da relação e só pretende levá-lo para a cama. Ok. E ela também leva algo muito especial para a plataforma: uma mota. Até parece que estou a imaginar a equipa a surgir com a respectiva bagagem e as escovas de dentes e Hae-jun, com aquele ar de desafio aparecer com a mota. “Sim, vou levar a minha mota. O que é que vais fazer quanto a isso?”
Os restantes trabalhadores são estereótipos irritantes. Não é como se vê-los morrer afectasse alguém. Adeusinho. Quanto aos diálogos, consistem em tentativas de comédia falhadas e nos conflitos provocados por Hae-jun. Notem, que com isto tudo, o monstro ainda nem apareceu.  É aquela cena do contexto, de ficarmos a conhecer os personagens e percebermos as suas motivações. Bem, tirando, o facto de ficarmos a saber que os trabalhadores de petrolíferas são todos uns asnos, não posso dizer que tenha compreendido as suas motivações. Népia, nada. Numa das cenas finais, quando se espera que a Hae-jun dê uma de Ripley ela fica especada a ver o monstro trucidar um dos colegas. Então não era ela a durona sem medo de nada? Passemos àquilo que estão mortinhos por saber... O monstro não é nenhum "Host" (2005). É feio, repugnante, mal desenhado e vagamente parecido com uma lesma do mar. Retrata o lado bom e o lado negativo das novas tecnologias em simultâneo. Se por um lado atesta que as possibilidades de criação são infinitas, por outro, nunca um monstro pareceu tão falso. Como pode uma pessoa estremecer de medo perante uma coisa tão… artificial? Se nos estão a vender um produto como terror, esperamos que esteja à altura do título não é? “Sector 7” tem uma premissa interessante mas os cineastas foram incapazes de capitalizar sobre a ideia inicial. A película podia ter por cenário qualquer espaço no planeta. A plataforma petrolífera está ali porque sim. Não existe um motivo especial para a origem do monstro nem para este começar a atacar os trabalhadores. Também não se entende por que estes tomaram a decisão de ir viver durantes largos meses para aquele que é dos locais mais isolados e perigosos do mundo. Escapar do passado? Não têm entes-queridos? Solver as dívidas? É impressionante como um filme com ambições de seriedade é tão básico. Depois de tudo dito e feito, o “melhor” que se pode dizer de “Sector 7” é que podia ter sido realizado pelo Michael Bay. Uma estrela.
Realização: Ji-hun Kim
Argumento: Je-gyun Yun
Ji-won Ha como Hae-jun Cha
Sung-kee Ahn como Jeong Man
Ji-ho Oh como Dong-soo Kim
Ae-ryeon Cha Park como Cientista Kim
Próximo Filme: "Cello" (Chello hongmijoo ilga salinsagan, 2005)

domingo, 11 de dezembro de 2011

"Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004)


Se não fosse um horror seria uma tragédia. Na Coreia do Sul é comum os actores fazerem carreira em séries de televisão. Alguns nunca chegam a entrar na grande tela. Nem é preciso, a não ser que queiram chegar a uma audiência ainda maior. Lá, as séries merecem um respeito que noutros sítios não se lhes reconhece. Têm qualidade, não constituem um mero veículo para se conseguir uma carreira no grande ecrã. Conduzir uma série em televisão é fazer carreira. Como tal, compreende-se que os filmes coreanos comportem uma componente dramática muito forte. É-lhes inato. Não é pois de espantar que que vários actores de “Ouija Board” tenham experiência televisiva em séries dramáticas prévias ao filme. Se querem saber um pouco mais sobre o universo televisivo sul-coreano, perguntem-lhe a ela. Poucos sabem tanto sobre a televisão asiática nomeadamente, Coreia do Sul, Japão e China e, ainda por cima, em língua portuguesa. No que me diz respeito, creio que participar no filme “Ouija Board”é um downgrade na carreira de um actor. Ninguém precisa de mais um filme sobre mortas despenteadas no currículo. O realizador e argumentista Byeong-ki Ahn tem no seu percurso vários filmes, adivinhe-se lá, sobre moças mortas de cabelo desalinhado. O seu melhor esforço foi “Phone” (2002), que até vai ser alvo de (mais) um remake em Hollywood. Ele descobriu a fórmula do sucesso e limita-se a replicá-la a cada novo projecto. O resultado é um filme tão pouco original que tive de parar o visionamento três vezes, tal o efeito de sedativo. Tenho uma teoria, rebuscada talvez, que o objectivo dos filmes de terror é provocar insónias e não curá-las, mas é apenas a minha opinião.
“Ouija Board” situa-se na província, para onde uma mãe e a filha Yu-jin (Se-eun Lee) oriundas de Seul se mudam. Ali, a jovem citadina torna-se rapidamente o alvo preferido das rufias de serviço. Deve ser por ela ter vindo da grande cidade, estão a ver? Ou se calhar são os grandes, expressivos olhos de Yu-jin a causa de tanta inveja. Enfim, é aquele grupinho muito popular mas que, por algum motivo, ninguém grama. Algures, a lógica de Yun-jin lhe diz que a melhor forma de se livrar dos maus-tratos é lançar uma maldição sobre as vilãs. Reportar aos pais ou aos professores o comportamento vil das meninas? Alguma vez? Não. O mais racional é invocar um espírito maldito para fazer o trabalhinho sujo. Yun-jin reúne-se com outras colegas vítimas de bullying e improvisam uma espécie de jogo do copo (a tal Ouija Board). Yun-jin, qual médium experiente, avisa-as para não abrirem os olhos pois algo de mau pode suceder só que ela própria acusa a pressão do momento e comete esse erro. Elas conseguem invocar com sucesso um espírito e que resultados obtêm! Soubera eu uns anos mais cedo… Infelizmente, o espírito é assim a meios que excessivo, já que as rufias começam a surgir mortas com sacos na cabeça, queimadas até ao irreconhecimento. Digo eu, que não era caso para tanto mas se calhar o que está a suceder às meninas más, não tem nada que ver com o bullying que Yun-jin e as colegas sofrem nos dias de hoje. Entretanto, existe um par de professores simpáticos que querem fazer algo para ajudar as alunas. No entanto, estão de mãos atadas face a um conselho directivo irredutível. Também não ajuda muito o facto da professora nova Eun-ju Lee (Gyu-ri Kim), se enganar em plena aula e chamar In-suk Kim (Yu-ri Kim), uma aluna que já não é vista há 30 anos. Junte-se um segredo terrível e temos o típico filme sobre um espírito vingativo.
A história está pejada de influências anteriores: invejas, abuso, preconceito, sexo… Os personagens dividem-se entre os estereótipos habituais: a rapariga inocente, o professor compreensivo, rufias e os personagens com um passado misterioso. Está lá enfiada toda a última década do cinema. Quando isso sucede o factor medo evapora-se. Mas o grande problema da película nem é Byeong-ki Ahn. Ele repete a fórmula mágica por que o público-alvo ainda não se cansou do género: leiam-se adolescentes em idade escolar. A audiência identifica-se com as personagens de uniforme que tropeçam na magia negra. Muito me admiro se depois da sessão de cinema muitos jovens não tiverem ido experimentar o jogo do copo. E não se pode censurar Byeong-ki Ahn por dar à sua audiência o que ela quer. O género carece urgentemente de ser revitalizado. Infelizmente, isso não acontecerá à custa dos repetidos apelos de cinéfilos. Os “Ouija Board” por esse mundo fora, só irão desaparecer quando a população virar as costas ao género e preferir sucedâneos mais bem cozinhados. Até lá, perseguirei estóica (cof cof) por entre os inúmeros fantasmas vingativos para vos dar a conhecer os melhores filmes de terror coreanos. Duas estrelas.

Realização: Byeong-ki Ahn
Argumento: Byeong-ki Ahn
Se-eun Lee como Yu-jin Lee
Gyu-ri Kim como Eun-ju Lee
Yu-ri Lee como In-suk Kim
Seong-min Choi como Jae-hun Han
Próximo Filme: "Sector 7" (7 Gwanggu, 2011)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Bloody Reunion" aka "To Sir with Love" (Seuseung-ui eunhye, 2006)

Mas alguém gosta realmente de ir às reuniões de antigos alunos? É ver que os alunos populares continuam bonitos, ricos e bem-sucedidos e os impopulares continuam a ser os mesmos falhados. Esta é a premissa de “Bloody Reunion”, onde uma antiga professora de primária que padece de uma doença terminal se reúne pela primeira vez em muitos anos, com uma turma de ex-alunos. É-nos mostrado que ela sofreu uma gravidez complicada que a fez dar à luz uma criança deformada e lhe custou o casamento. A reunião deverá resultar num último encontro que lhe traga paz de espírito antes de deixar este mundo. Os percursos dos alunos, agora nos seus vinte e poucos anos foram profundamente influenciados pela professora Park (Mi-hee Oh). Uma recepção calorosa inicial dá lugar è frieza e à recriminação è medida que o álcool é vertido e as memórias abafadas começam a surgir… Podíamos ter aqui um drama perfeito, não fosse “Bloody Reunion”, um slasher movie, digno de um “Friday the 13th” (1980).
A primeira parte do filme é passada a dar a conhecer as personagens, as suas motivações e agendas. Ficamos a perceber que abaixo da superfície os ex-alunos são adultos com extremas disfunções. Se-yeol Park aproveita para inserir no argumento laivos de crítica social e incide com a perícia de um cirurgião sobre o sistema educativo coreano. Pak desafia-nos a reflectir sobre aqueles breves momentos da juventude que nos marcaram para sempre ou, de como as mais pequenas frases podem impactar uma jovem mente e formatá-la para o sucesso ou fracasso. Na segunda metade, a tensão acumulada dá lugar a uma sucessão de mortes brutais provocadas por um indivíduo com uma máscara de coelho. “Bloody Reunion” ganha pontos face ao típico slasher pelo facto de ter algumas mortes genuinamente criativas e perturbadoras e por “despachar” personagens que à partida apostaríamos em como seriam as últimas vítimas. O cenário não é meramente decorativo mas serve como uma personagem extra. Nota-se que foi pensado e que não serve apenas um propósito de logística. A praia e o sol intenso contrastam com o ambiente obscuro nos filmes do género e demonstram que um espaço paradisíaco pode servir perfeitamente para criar uma sensação de temor nas entrelinhas de palavras inocentes. À medida que vai escurecendo a atmosfera vai caminhando para o insuportável até desembocar em morte.
A grande pergunta que se impõe é: Quem é o assassino? Terá sido um dos alunos que enlouqueceu de vez? É alguém que ignorámos na equação e que esconde uma agenda mais misteriosa do que podemos imaginar? A resposta não é assim tão difícil de encontrar se houver uma grande atenção aos pormenores. Como tão habitualmente os cineastas gostam de fazer em cinema, mais até no cinema americano que no asiático, onde parece existir uma aversão a deixar perguntas por responder e imagine-se só, fazer a audiência pensar, no final temos direito a uma série de flashbacks que explicam o como e o porquê dos assassinatos. Não sou grande fã desse tratamento que mina o que foi construído até ali. A narrativa deve ser suficientemente forte para se suster a si própria sem o recurso a flashbacks. Se é necessário utilizar este recurso para explicar algo que terá ficado por compreender é porque, muito provavelmente, algo correu mal durante o percurso. O que me leva ao final. É confuso. Os últimos 15 minutos são um conjunto de reviravoltas que não faziam grande falta ao enredo. Talvez a opção tenha sido tomada no sentido de americanizar ainda mais “Bloody Reunion”. Num bom slasher a gratificação não advém necessariamente de sabermos quem é o assassino mas, de existir um good guy ou uma good girl, com o qual nos identificamos e por quem torcemos que escape às garras do matador.
Outra das forças desta película está no elenco sólido do qual destaco Yeong-hye Seo (Mi-ja) com uma grande capacidade dramática, que demonstrou em todo o seu esplendor no drama Bedevilled (2010) e Mi-hee Oh a professora Park que por detrás de uma aparência amável esconde uma insensibilidade e preconceito que professor algum devia ter. “Bloody Reunion” é um bom slasher se tiverem paciência para a construção das personagens e uma primeira metade de filme sem grandes sobressaltos. No entanto, quando tenta deixar de ser igual a si próprio, com as implicações culturais que ser um filme made in Korea tem, para se aproximar dos filmes americanos, “Bloody Reunion” perde a aura de desafio e até a criatividade que até ali tinha demonstrado. Não deixa de ser curioso que um filme de crítica social seja incapaz de fazer uma auto-introspecção. Duas estrelas e meia.
Realização: Dae-wung Lim
Argumento: Se-yeol Park
Yeong-hye Seo como Mi-ja Nam
Mi-hee Oh como professora Park
Ji-yeon Lee como Sun-hee
Hyo-jun Park como Dal-bong
Hyeon-soo Yeo como Se-ho
Seol-as Yu como Eun-young
Dong-kyu Lee como Myung-ho

Próximo Filme: "Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004)

domingo, 4 de dezembro de 2011

"R-point: Ghost Squad" (Airpointeu, 2004)

Vietname, 1972. Inferno na terra. Gerida e mantida por razões políticas, como sempre são as grandes guerras, encontra-se num impasse. O tenente Tae-in Choi e o soldado Kim aproveitam um momento de pausa nas hostilidades para irem às prostitutas em Nha Trang. Num momento de distracção o inimigo ataca e Kim acaba por ser morto. Entretanto, é recolhido um soldado ferido gravemente em R-point, cujo pelotão estará todo morto. Ele encontra-se num estado de delírio e os seus superiores não conseguem retirar um sentido das palavras desconexas. O quartel-general recebe uma transmissão que indica que os soldados podem ainda estar vivos e decide enviar um grupo de homens para desvendar o seu destino.
O superior de Choi dá-lhe a oportunidade de se redimir se cumprir esta última missão depois do descuido em Nha Trang. Ele e outros 8 soldados são enviados para R-point, uma zona rural inóspita onde têm desde logo uma recepção “calorosa” por parte do inimigo. Eles atingem uma rapariga vietnamita e abandonam-na para morrer dos ferimentos. Mais tarde, encontram uma gravação antiga que fala de um massacre de vietnamitas por chineses, que os largaram num lago e construíram um templo sobre o local para trazer harmonia ao local. Cedo voltam a encontrar um novo aviso: “Quem tem sangue nas mãos, não regressará vivo”. Um a um, os soldados começam a experienciar fenómenos pouco naturais. Os avisos antigos e a súbita realização de que poderão não estar sozinhos começa a ter efeitos perversos na moral dos soldados. É curioso, por que, ali estão eles, no meio de uma guerra. Muitos já terão tido a sua experiência de combate, terão visto cenas que o ser humano comum não consegue sequer imaginar e, no entanto, encontram um novo medo no desconhecido. O terror advém do inesperado e não num qualquer batalhão inimigo que se esconda na selva.
Os soldados são estereótipos que já vimos noutros filmes: o novato, o homem de família, o que tem extensa experiência de batalha… Contudo, as personagens-tipo não afectam o desenrolar da trama, pelo contrário, facilita a distinção entre os soldados do pelotão e a escolha dos nossos favoritos. “R-point” empresta alguns dos seus elementos a belos filmes de guerra como “Platoon” (1986) e “Saving Private Ryan” (1998). Oferece uma perspectiva humanista dos soldados e não como meras máquinas de morte. É também um exercício de reflexão sobre a guerra e o valor da vida humana. Justifica-se enviar para a morte um conjunto de soldados para salvar outros que provavelmente já não estarão vivos? “R-point” evita colocar-se de um dos lados da guerra. Existem apenas soldados no meio de uma guerra e que lutam pela sobrevivência. Alguns ainda têm a vida toda pela frente, outros têm família para a qual querem voltar. O que o argumentista e realizador Su-chang Kong não nos deixa esquecer é que estes homens não são peões inocentes. A situação desesperada em que se encontram vai testar a confiança que colocam na unidade e a disciplina. Todos eles pecaram de algum modo e o temor que os atinge traz a descoberto as suas falhas. À medida que os acontecimentos espiralam fora de controlo, os soldados vão-se tornar mais desconfiados e paranóicos, trazendo a lume o que de melhor e pior guardam dentro de si e, por fim, ditar os seus destinos. Su-chang Kong aproveitou ainda para lançar achas para a fogueira, ao não deixar de fora apontamentos como as intenções colonialistas, imperialistas, de controlo político e económico dos povos chineses, franceses e americanos sobre o território vietnamita. É como se o Vietname fosse uma terra de todos e de ninguém, em que cada povo vai surgindo à vez para reclamar a sua parte. Não considero justo incluir “R-point” no género do K-horror visto que é primeiramente, um filme de guerra. Também não esperem muito gore e os poucos momentos que impressionam pessoas mais sensíveis não estão muito realistas. Sangue de groselha? Valha-nos o argumento, as personagens distintas e o cenário da selva cambojana onde foi rodado. Com todos esses pontos fortes, no final fica uma sensação de vazio, de que faltou algo. A trama não é concluída de modo satisfatório. Os filmes asiáticos são conhecidos por deixarem perguntas por responder mas “R-point” merecia um desenlace mais forte. O motivo da assombração não é clarificado. Se no final alguém vos perguntar porque sucederam acontecimentos terríveis em R-point respondam com um simples “Porque foram para a guerra”. Três estrelas.

Realização: Su-chang Kong
Argumento: Su-chang Kong
Woo-seong Kam como Tenente Tae-in Choi
Byung-ho Son como Sargento Chang-rok Jin
Tae-kyung Oh como Sargento Young-soo Jang
Wong-sang Park como Sargento Cook
Seon-gyun Lee como Sargento Park
Jin-ho Song como Sargento Oh
Byeong-cheol Kim como Cabo Byung-hoon Joh
Kyeong-ho Jeong como Cabo Jae-pil Lee
Yeong-dong Mun como Cabo Byun
Ju-bong Ji como Capitão Park

PS: Há alguns anos que persiste o rumor de que Zhang Yimou pretende realizar o remake de R-Point, em terras americanas. Mas por esta altura não se sabe se o projecto continua na mesa.


Próximo Filme: "Bloody Reunion" aka "To Sir with Love" (Seuseung-ui eunhye, 2006)

domingo, 27 de novembro de 2011

"White: The Melody of a Curse" (Hwaiteu: Jeojooui Mellodi, 2011)


São fãs de música pop com muita coreografia e gritos de adolescentes histéricas? Acham que as girls band ainda não passaram de moda? Ainda dão um passinho de dança quando vêem um videoclip das Pussycat Dolls? Ainda cantam N*Sync no chuveiro? Se a resposta é afirmativa, então "White: The Melody of the Curse" é o filme indicado para vós.
Pink Dolls é um novo grupo feminino de pop constituído por Eun-joo (Eun-jeong Ham) uma antiga bailarina que é a membro mais velha e líder do grupo, Sin-ji (Maydoni) uma rapper e bailarina, Ah-rang (Ah-ra Choi) que é a face mais bonita do grupo e é obcecada pela aparência e Je-ni (Se-yeon Jin) uma vocalista principal que tem medo de atingir notas altas. O grupo muda-se para um novo estúdio e treinam durante todo o dia para chegar o mais longe possível. Um dia, Eun-joo encontra por acaso, uma antiga cassete VHS com o videoclip de uma música chamada “White”. A música contagiante e a coreografia arriscada gritam sucesso e a sua empresária pouco escrupulosa decide que aquele será o seu próximo single. O ambiente do grupo deteriora-se quando a agência decide tornar uma das raparigas a membro principal, para promover “White”. Inicia-se uma batalha feroz entre elas para se tornarem a número 1 do grupo. À medida que lutam para chegar ao primeiro lugar, a maldição começa a manifestar-se. Ciente de que em breve será chamada a tomar a posição principal, Eun-joo e a sua amiga Soon-ye (Woo-seul-hye Hwang), iniciam uma corrida desesperada para desvendar o mistério por detrás da canção e desfazer a maldição.
"White" é um filme de terror passado nos nossos dias que combina de forma inteligente terror com a cena musical sul-coreana. “White” junta algumas actrizes em ascensão com cantoras bem reais do K-pop (Korean pop). Destaque-se Eun-jeong Ham, vocalista da girls band real T-ara e Maydoni uma cantora também muito apreciada na Coreia do sul. Ambas são capazes de pôr a um canto as capacidades de dança de muito boa gente e ainda por cima cantam bem! O grupo After School foi convidado para interpretar a banda rival Pure. Tudo isto dá uma aparência bastante realista ao filme já que o elenco está bem versado na arte de cantar e dançar na vida real, além de se identificar com os personagens. A simulação de programas televisivos de eleição no país, todo o trajecto dos personagens desde as aulas de canto e de dança aos ensaios, promoções, paparazzi, encontros com fãs à beira de um ataque de nervos e toda a produção à volta do grupo tem um feel bastante aproximado ao género documentário. Foi realizado um trabalho de pesquisa que se denota e os actores, mesmo com um pouco de exagero, vestem bem os papéis.
"White: The Melody of the Curse" retrata uma profissão que exige muito trabalho, dedicação, talento (às vezes) e capacidade de lidar com a podridão que grassa na indústria do entretenimento. Assistimos às invejas, intrigas e tentativas de sabotagem por parte das raparigas para se superiorizarem umas às outras, demonstrando, aquilo de que já todos suspeitavam, a vida dentro de um grupo musical não é um mar de rosas. A somar à discórdia entre elas temos empresários e produtores pouco éticos e até cruéis, vidrados que estão, na máquina de fazer dinheiro. Eles chegam ao ponto de roubar material e de criar embustes à la Mili Vanilli. É um retrato da indústria musical coreana mas bem que podemos encontrar um significado mais profundo na sociedade. Nascida em 88, Eun-joo é já considerada velha para vingar no mundo da música. A sério? E Ah-rang, uma miúda adolescente, já está bem versada na cirurgia plástica apesar de não se lhe afigurar um único defeito no rosto perfeito e imune à passagem do tempo. Muitas trocariam os cremes da Nívea que compraram em toda a sua vida, pela pele magnífica das asiáticas! Somos ainda confrontados com verdadeiros atentados à dignidade humana na forma de predadores sexuais e da escravidão. As raparigas são como pequenos robôs, programadas desde pequeninas para falar e mover-se de determinado modo, ao sabor dos caprichos das agências de talento. Não têm identidade, privacidade ou sequer vontade própria mas, surgem lindas, cantam e encantam. Se uma ilação pode ser extraída de “White” é que o mais importante é a aparência. Não admira que a juventude esteja com os valores trocados! “White” tem uma vertente dramática bastante pertinente nos dias de hoje e conducente a uma reflexão séria sobre os valores que estão a moldar a juventude. Mas se não quiserem uma reflexão séria, a componente de terror chega perfeitamente. Se forem fãs de K-pop ou curiosos do género, as coreografias elaboradas e a banda-sonora dão origem a 100 minutos muito bem passados. “White: The Melody of the Curse” brilha por mérito próprio. Três estrelas.

Realização: Gok Kim e Sun Kim
Argumento: Sun Kim e Gok Kim
Eun-jeong Ham como Eun-joo
Woo-seul-hye Hwang como Soon-ye
Maydoni como Sin-ji
Ah-ra Choi como Ah-rang
Se-yeon Jin como Je-ni
Jeong-su Byeon como Empresária

Tema principal de White aqui.

Próximo Filme: "R-point: Ghost Squad" (Airpointeu, 2004)

domingo, 13 de novembro de 2011

"Bestseller" (Beseuteu Serreo, 2010)

“Bestseller” é um thriller/mistério de terror interpretado por Jung-hwa Eom que faz o papel da escritora Hee-so, que tem passado os últimos anos a escrever êxitos atrás de êxitos até que um dia é acusada de plágio. A carreira e a vida familiar de Hee-so são abaladas pelo escândalo e ela desespera quando a inspiração tarda em reaparecer. O seu editor sugere-lhe uma mudança de cenário para ultrapassar o bloqueio de escritor e dá-lhe uma última oportunidade para tentar recuperar o que perdeu. Assim, Hee-so parte para uma velha mansão colonial, nos arredores de uma pequena vila, com a sua filha Yeon-hee (Sa-rang Park). Lá, a inspiração continua a iludi-la até que repara que a sua filha mantém conversas com um amigo imaginário. Dessas interacções surge uma história de terror e mistério ocorrida na propriedade. Hee-so, deprimida e frustrada com os seus esforços infrutíferos não hesita em utilizar a história de Yeon-hee que se vem a tornar um sucesso de vendas. Mas o sucesso é efémero, já que Hee-so é novamente acusada de plágio. Com o seu editor a fechar-lhe definitivamente as portas e um marido cada vez mais desencantado com o seu comportamento, Hee-so está disposta a tudo para provar a sua inocência. Então, decide retornar à vila para investigar a origem da história e começa a descobrir que por detrás de uma aparência encantadora, os seus habitantes escondem um segredo obscuro…
Até aqui nada de original. É apenas o vulgar mistério associado a uma casa e alguém determinado a desvendar a verdade até às últimas consequências. A característica distintiva de “Bestseller” é a acção mais centrada nas personagens do que no cenário. A força da narrativa encontra-se nas personagens e nesse campo há que louvar o trabalho de Jeong-hwa Eom, que é competentíssima num papel difícil. Eom interpreta o papel de uma mulher deprimida, neurótica e ambiciosa que identifica o sucesso com o bom desempenho da sua obra literária, mesmo que para tal, negligencie os seus papéis de esposa e de mãe. A primeira parte do filme pertence-lhe toda, com todos os outros personagens a terem participações fugazes ou supérfluas. É de destacar o seu papel invulgarmente intrincado para um filme de terror que exige a demonstração de um vasto espectro de emoções. É necessário compreender a personagem e a sua obsessão com o trabalho, o qual se confunde com a sua própria identidade para justificar as suas acções. Também dei por mim, a olhar para Jeong-hwa e a recordar-me de outra actriz não menos conhecida, que já passou por aqui, Bai Ling. Com o cabelo na cara, o eyeliner carregado e a estrutura óssea frágil faz lembrar a actriz chinesa.
Há uma cena em que Yeon-hee conta à sua mãe uma história de horror e de morte que lhe terá sido contada por um amigo imaginário. Poucas pessoas precisariam de um segundo aviso para perceber que havia algo de muito errado em tudo aquilo e se porem a andar dali para fora. Na lógica da "workaholica" Eom, isso não faz sentido.

Poucos minutos dentro do filme, um dos personagens discorre sobre a história da mansão colonial. Isto acaba por redundar em informação desnecessária e é apenas um motivo de distracção, uma vez que a promessa de assombração não é concretizada. Contudo, a primeira metade do filme é orientada para o sobrenatural, tendo alguns clichés relacionados com portas fechadas e visões assustadoras. Mas gostei do facto de não sermos brindados com a habitual mulher de longos cabelos despenteados. A assombração é bem diferente, o que nos leva à grande revelação do filme. Num momento em que ninguém esperaria, cai uma bomba, bem ao nível de filmes com “The Others” (2001) de Alejandro Aménabar. A última metade da película afasta-se por completo do género sobrenatural e aproxima-se de preocupações terrenas com o bom velho thriller a entrar em força nos últimos 30 minutos de filme. Os viciados nos fenómenos sobrenaturais não vão gostar desta opção. Pelo contrário, os fãs de mecanismos psicológicos que tenham resistido ao início do filme, serão recompensados pela explicação racional da trama. Se qualquer dos géneros não vos fizer confusão não haverá qualquer constrangimento em prosseguir com a visualização do filme. Apesar do argumento não trazer nada de novo em termos de história, já que ela parece ser uma colagem de diferentes partes de filmes, o mix de géneros e a revelação inesperada a meio do filme, ao invés de ser realizada no final como é apanágio dos filmes de terror, fornecem alguns elementos refrescantes à película. Não é brilhante. A palavra que procuram é competente. Duas estrelas e meia.
Realização: Jeong-ho Lee
Argumento: Jeong-ho Lee
Jeong-hwa Eom como Hee-so Baek
Sa-rang Park como Yeon-hee
Seung-yong Ryoo como Yeong-joon Park
Jin-woong Joo como Chan-sik

Próximo Filme: Curta #3: "Three - Going Home" (Saam Gaang, 2002)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Three - Curta #1: Memories" (Saam Gaang, 2002)

“Three” é a colaboração internacional de terror que deu origem à bem mais conhecida sequela “Three…Extremes” (2004). A ideia para a antologia adveio de Peter Chan do cinema de Hong Kong que convidou Nonzee Nimibutr da Tailândia e o sul-coreano Jee-woon Kim a emprestarem os seus dotes de realização ao esforço colectivo. A atenção internacional por “Three” veio quando “Three…Extremes” estourou nos cinemas por todo o mundo e renovou o interesse no primeiro filme que seria depois, estupidamente, denominado na América de “Three… Extremes II”  por estrear após a sequela. Resolvi ignorar este absurdo e manter a denominação original.
Se há curtas que podiam ser sumarizadas num tweet é “Memories”, a primeira curta-metragem realizada por Jee-woon Kim. Como não sou fã de spoilers, fico-me por um sumário da história: um homem (Bo-seok Jeong) consulta um psiquiatra (Jeong-Won Choi) relativamente ao desaparecimento da mulher uns dias antes. Ele não tem nenhuma recordação dos momentos que antecederam o evento. Entretanto, ela (Hye-su Kim), acorda amnésica noutro lado da cidade e tenta lembrar-se como poderá regressar a casa onde quer ela seja. Aos poucos, ambos começam a recordar os acontecimentos que os levaram àquele ponto… Jee-woon Kim, não é um ilustre desconhecido. É "apenas" o realizador de um marco no cinema de terror coreano: "A Tale of Two Sisters", rodado um ano depois desta curta. E a julgar por este esforço não posso dizer que alguém conseguisse antever o sucesso deste realizador. "Memories" sofre de males como a previsibilidade do enredo e duração excessiva. Se passados dois minutos ainda não tiverem tecido uma hipótese (a mais provável), sobre o que sucedeu aconselho-vos a lerem mais vezes as notícias. A duração está totalmente errada, visto que em cinco minutos a história seria facilmente contada. Não estou a brincar, o enredo é assim tão básico. Suponho que a conversa com Peter Chan se deve ter desenrolado nesta linha: "Consegues desenrascar-me uns 40 minutos de filme?" E pronto. Temos a perspectiva dos dois personagens, o homem e a mulher, ambos a tentar recordar os dias anteriores, uma série de flashbacks, algumas interacções que não contribuem para grande coisa excepto para preencher o tempo e uma tentativa falhada de levar a história para o campo do sobrenatural. Divertem-me as longas sequências de acção zero, qual Manuel de Oliveira. Dois, três minutos a focar a ausência de acção não é artístico, é aborrecido. "Memories" podia ter sido denominada "Insónia", por que os seus longos 40 minutos soam a duas horas de um programa zen. Uma cena de perseguição (alguém me explica o sentido daquilo por favor?) e a cena em que a mulher enfia o dedo na cabeça são as únicas emoções fortes a que a audiência tem direito. A nível visual, "Memories" é a experiência mais interessante da antologia. Mas num mundo ideal, as obras são sustentadas por pouco mais do que apenas os aspectos visuais. Muita parra, pouco sumo. Uma estrela e meia.
Realização: Jee-woon Kim
Argumento: Jee-woon Kim
Elenco:
Bo-seok Jeong como Homem
Hye-su Kim como Mulher
Jeong-Won Choi como Psiquiatra

PS: Quero aproveitar para fazer um pequeno lembrete. Na barra lateral direita, por debaixo da caixa de pesquisa há uma caixa com o título "Inscrever-se". Experimentem. É simples, rápido e a subscrição permite receber um aviso com as novas actualizações do blogue. Se não houver novidades este não aparece e escusam de perder tempo de navegação.

Próximo Filme: "Karak" 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

O que se passou neste filme foi mais na linha de "Olha que truque giro" do que propriamente, "Sujei as calças", com o terror, estão a ver? Este thriller sobrenatural de Sung-ho Kim que também escreveu o argumento foi o tal que inspirou não tão vagamente assim o filme "Mirrors" (2008), com Kiefer Sutherland e o inferior "Mirrors" 2. Em "Into the Mirror", o ex-polícia Yeong-min (Ji-tae Yu) é obrigado a pedir ao tio emprego no seu centro comercial, depois ter sido expulso da força no seguimento de uma situação de reféns que terminou com o seu parceiro a ser assassinado à sua frente. Atormentado pelo passado, Yeong-min refugia-se no álcool e numa existência solitária. É um caso óbvio de arte a imitar a vida real no caso de Kiefer Sutherland. Bom casting! Adiante, num cargo claramente inferior às suas capacidades, o agora segurança de centro comercial passa os dias a visualizar as câmaras da loja. Uma noite, uma funcionária deixa-se ficar até tarde para se dedicar a pequenos roubos e na manhã seguinte é encontrada morta. Isto dá origem a uma investigação policial que leva Yeong-min a cruzar-se com um antigo colega que o despreza. Com uma segunda morte a suceder em menos de nada e a pressão do seu tio para reabrir o centro comercial, Yeong-min é obrigado enfrentar as suas inseguranças. Na resolução deste caso, estará a sua redenção e a realização de que afinal, Yeong-min ainda é um bom polícia.
Ah e tal, tudo bastante seguro, prevísivel até, no entanto, há uns pontos que me atormentam deveras. Desculpem lá qualquer coisinha, mas qual é a pessoa que fica num centro comercial, durante a noite, sozinha? Mais, quem é que depois de ver e ouvir vislumbres e sons estranhos ao invés de se dirigir à saída mais estranha ainda fica por lá? Ah e depois de roubar, os ladrões têm algum tipo de fetiche por exibir calmamente os objectos desviados? Pelos vistos... Yeong-min não é melhor. Durante mais de metade do filme, ele não faz nada de útil, excepto andar a sofrer pelos cantos. Ok, o passado atormenta-te, blá, blá, blá, agora recompõe-te e faz alguma coisa, sei lá, vigiar o centro que é para isso que és pago! Mesmo que a Yeong-min estivesse somente destinado o papel de segurança da loja, o seu desempenho é fraquissímo. Depois da segunda morte, Yeong-min devia ter sido logo despedido pelo tio. Se uma morte é má publicidade, duas demonstram uma inépcia gritante. Além disto, Yeong-min começa a mandar bitaites sobre o envolvimento dos espelhos nas mortes. Assumindo, que o absurdo é real, ele não apresenta provas que sustentem os seus argumentos nem faz mais do que deambular pelos corredores deprimido. Como se uma morte não fosse de suma urgência para ele acordar para a vida e ajudar a solucionar o caso. Por contraste, há o tal polícia que o despreza e que é suposto antipatizarmos mas com um herói tão mole é díficil dizer qual dos dois o pior. Atire-se para o meio um mistério sobrenatural e uma conspiração e temos a história do filme em linhas gerais. Infelizmente, os espelhos podiam ter tido um enfoque ainda maior.
Veja-se o titulo, "into the mirror", podia ter sido mais explorada a hipótese da existência de uma outra dimensão ou até uma fragmentação de personalidade. Não se pode dizer que a originalidade do argumento seja o ponto forte da história. O rítmo é lento, e podiam ter sido cortados uns bons 20 minutos de película que não servem para nada. O que o filme faz é deter-se demasiado no pathos de Yeong-min que é algo que se estabelece nos instantes iniciais do filme. Tudo o mais é bater no ceguinho. O melhor da película está nos efeitos criados em torno dos espelhos, com uma série de truques que servem alternamente as vezes de efeitos de infinito, profundidade e ilusões de óptica. Efeitos engraçados? Sim. Assustadores? Nem por isso. Para isso vejam o "Mirrors" com o Sutherland. Duas estrelas.

Realização: Sung-ho Kim
Argumento: Sung-ho Kim
Ji-tae Yu como Yeong-min Woo
Myung-min Kim como Hyeon-su Heo
Hie-na Kim como Ji-hyeon Lee / Jeong-hyeon Lee

Próximo Filme: "Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

domingo, 21 de agosto de 2011

"The Host" (Gwoemul, 2006)

Às vezes só apetece ver um filme de monstros grande, feio e furioso. Um filme que não envolva muito esforço intelectual. Algo, que entretenha durante hora e meia, duas horas e que passado uns minutos já tenha desaparecido completamente das nossas mentes. Joon-ho Bong, realizador do thriller de sucesso “Memories of Murder (2003), decide mudar de registo com um filme de monstros que teve um sucesso monstruoso: “The Host” é o filme mais visto de sempre nos cinemas sul-coreanos.
Esta película vem na linha de um “Godzilla” (1998), com a espécie humana, mais uma vez, a assumir as culpas sobre os males que atrai sobre si própria. Neste caso, a criatura não resulta de mutações geradas por uma bomba atómica mas algo mais familiar, descargas ilegais de resíduos tóxicos no rio Han, que atravessa Seul. Se é verdade que “Godzilla” é um produto grande e grosseiro, “The Host” nada tem de incompetente. Seguindo a mesma premissa do filme anterior, “The Host” sucede onde o outro falhou: juntar com sucesso comédia, thriller dramático e sátira social. Também se contém e resiste à apresentação de soluções simples, dignas de uma sessão da tarde com direito a pipocas. Infelizmente, não está isento de problemas. Já vimos que é a humanidade que comete um erro de proporções épicas mas estamos a falar, exactamente, de quem? Ora de quem mais? E.U.A. Quando se fala nesta nação só podem resultar dois enredos, ambos extremos. Ou temos um enredo direccionado para o ultra-nacionalismo fundamentalista patriótico ou para a demonização do gigante com um forte complexo de superioridade. O papel dos coreanos no meio disto tudo é a anuência, impotência e até burrice. Não será o retrato mais atraente do sistema social e político da Coreia do Sul mas diz que é uma sátira. Isto aborrece-me porque é demasiado fácil atribuir culpas aos americanos. Quando, a meio do filme, é necessário encontrar um vilão, em paralelo com o óbvio monstro, ainda que por breves instantes, o escolhido é um americano. Admito que a meio do filme também são explorados os actos heróicos de um americano mas estes em nada diluem os efeitos dos erros dos seus compatriotas.
Mas já me alonguei em considerações que se afastam da essência de “The Host”, que é tão-somente um filme sobre uma besta que destrói tudo quanto se atravessa no seu caminho. Quando se cria uma aberração esta é normalmente destituída de moral e no reino animal por muito que não se consiga perceber exactamente o que ela é, o seu instinto é bem familiar: sai do seu covil para se alimentar! A moralidade só existe na família Park, um avô e o seu filho que são donos de um roulote de venda de comida nas margens do rio, a neta estudante e os seus tios, um universitário desempregado e uma arqueira medalhada. Quando o monstro emerge das águas e leva a menina, a família que nem sempre concorda, une-se para a salvar. Com o monstro surge também outro vilão: todo o sistema que não acredita que Hyun-seo esteja viva e que os apelos de seu pai Gang-du, interpretado magistralmente por Kang-ho Song, não passam de delírios de um homem com um atraso mental. É irónico que um sistema cuja existência se deve à necessidade de protecção da população seja aquele que impede que isto mesmo suceda. É também assustador se pensarmos nisso.
Além do pânico gerado pelo surgimento da besta cria-se também desinformação e o rumor da existência de um vírus que afecta todos aqueles que entraram em contacto com o monstro. Isto serve de fundo para interesses tais como a utilização de armas biológicas e a lógica oposição da população, um pouco como a situação actual em Fukushima face ao nuclear, se preferirem. Dizia eu que no meio de todas estas questões políticas, temos desempenhos fortes, sobretudo de Kang-ho Song que faz de homem com uma óbvia debilidade mental, de Hie-bong Byeon que desempenha o papel de avô de Hyun-seo (Ah-sung Ko) e dela própria. Também o monstro está bem conseguido embora, com a certeza de que o que estava a ver era totalmente criado por computador. Senti a falta de um aspecto um pouco mais orgânico do monstro mas, nesta questão, confesso que estou a ser picuinhas. As cenas de Hyun-seo no covil do monstro são muito boas, em tensão e desconforto, cria-se aquela atmosfera atemorizante desejada. “The Host” não é só bom, é um manual de como os bons filmes de monstros deviam ser feitos. Só vos faço UM pedido, NÃO vejam a versão dobrada em inglês! Quatro estrelas.


  
PS: Não estavam com certeza à espera que pusesse aqui imagens do monstro pois não?

Realização: Joon-ho Bong
Argumento: Joon-ho Bong, Won-jun Ha e Chul-hyun Baek
Elenco:
Kang-ho Song como Gang-du Park
Hie-bong Byeon como Hie-bong Park
Hae-il Park como Nam-il Park
Doona Bae como Nam-joo Park
Ah-Sung Ko como Hyun-seo Park

Próximo Filme: "Super 8", 2011
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