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domingo, 19 de agosto de 2018

"The Lies she Loved" (Uso wo aisuru onna, 2017)


Com uma carreira de sucesso invejável numa empresa de desenvolvimento de refrigerantes e um namorado gentil que trabalhava na área da pesquisa médica e acomodava todos os seus caprichos, ela tinha tudo. Depois deixou de ter.
Cinco anos antes Yukari Kawahara (Masami Nagasawa) conheceu Kippei Koide (Issey Takahashi) após uma situação de emergência que obrigou à evacuação do metropolitano em que ambos seguiam. Ela estava a ter uma crise de ansiedade e ele sobressaiu da multidão anónima para a ajudar. A mulher dedicada à carreira abriu o coração e não olhou para trás até ao dia em que a polícia lhe bate à porta, pedindo informações sobre o namorado. Kippei teve uma hemorragia cerebral e encontra-se em coma mas tiveram grande dificuldade em chegar a Yukari pois, como descobriram, a identidade de Kippei é falsa. Yukari Kawahara entra numa rota descendente. À negação, ao sentimento de que tudo não passa de um terrível engano passa à resignação de saber que Kippei – será mesmo esse o nome dele? –, a pessoa com quem partilhou cinco anos de intimidade, lhe mentiu, até chegar por fim, à revolta. O facto de a polícia não ter resposta para as muitas perguntas que tem e, enfim, assumirem apenas que Kippei é uma fraude que utilizou Yukari para ter comida e um tecto dado que era ela que pagava as contas, leva-a a contratar um detective privado Takumi Kaibara (Kotaro Yoshida), para desvendar a verdadeira identidade de Kippei.
Masami Nagasawa é a estrela de “The Lies she loved”. Ela interpreta um papel para qual flui naturalmente simpatia. “A mulher enganada”; “a pobre mulher ingénua que deu tudo de si numa relação para ser traída por um traste”; são as primeiras e óbvias linhas de pensamento mas Masami foge a isso. Ela interpreta uma mulher vitimizada pela revelação no entanto, não intrinsecamente uma vítima. A sua personagem não é perfeita. Naqueles cinco anos Yukari foi tudo menos a namorada exemplar o que não quer dizer que não seja digna de respostas. Ela recusa-se ceder à dor e aposta na fuga para a frente. Quer saber a verdade aconteça o que acontecer e custe a quem custar, mesmo sabendo que Kippei pode nunca vir a acordar ou poderá ter sequelas muito graves.
O argumento de Kazuhito Nakae é inteligente e maduro. As personagens são tridimensionais e os seus motivos são bem trabalhados. Nada é tão simples quanto um: “ele enganou, ela é enganada, ela confronta-o, cada um segue o seu caminho e todos são felizes para sempre”. Em primeiro lugar porque a personagem de Yukari é uma feminista com a opção de vida muito clara de ter uma carreira de sucesso e uma relação romântica. Se calhar tem até algum medo do compromisso, o que vai sendo desvendado através de decisões dúbias que toma ao longo da relação. Estas personagens, pelo menos no cinema japonês são mais tipicamente associadas aos intérpretes masculinos. Onde é que já se viu uma mulher segura de si própria que tem um trabalho de sucesso e uma relação e o cônjuge é que trata da lida da casa? Por outro lado, Kippei Koide sobressai como mais do que uma alma ferida que um aldrabão com um coração de pedra. Ele é votado de uma sensibilidade extrema que advém de um passado misterioso mas não é nenhum capacho. É como se através das analepses, que são bastantes, Nakae quisesse demonstrar que a fotografia é tão simples como é apresentada. Nem Yukari é um anjo e ela até surge como um bocado egoísta – por vezes a personagem parece mais interessada em manter o retrato mental que tem da sua relação do que em melhorá-la de facto. O argumento dá espaço a outras personagens como o detective Kaibara, um pouco distraído e desorganizado como um Colombo japonês que tem direito a um subenredo aquém do esperado e que se desenlaça de forma bonitinha ou a lolita Kokoha (Rena Kawaei) com uma paixão por Kippei mas tão limitada que nunca representa um verdadeiro obstáculo. O objectivo e a meta está na relação romântica de duas pessoas como o cenário intimista não se cansa de mostrar.
Vai soar a cliché mas o mais importante em “The Lies she loved” é o caminho e não o destino. A recompensa reside em acompanhar a viagem de Yukari na vida real, pelo Japão para trazer para a luz do dia os segredos que a polícia não colocou a descoberto e a sua viagem interior que a faz perceber quem é enquanto pessoa, mulher e parceira e o que pretende para a sua vida. Três estrelas.
Realização: Kazuhito Nakae
Argumento: Kazuhito Nakae
Masami Nagasawa como Yukari Kawahara
Issey Takahashi como Kippei Koide
Kôtarô Yoshida como Takumi Kaibara
Daigo como Kimura
Rina Kawaei como Kokoha

Próximo filme: "Blood Curse" (Coisa Ruim, 2006)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Annabelle: Creation" (2017)



Assisti há tempos à Conferência de Apresentação de um Festival, uma coisa pequena chamada MOTELX (gritinhos histéricos!), onde foi dado a conhecer um pequeno gostinho do que será a 11.ª Edição, cuja programação foi entretanto relevada. Como habitual, nestas coisas de festivais teve lugar um visionamento-surpresa. Para ser honesta, a exibição de longas numa primeira apresentação à imprensa não é original mas, de facto, só descobri ao que ia quando lá cheguei. Fiquei por isso, um pouco desiludida quando me apercebi que seria exibida a sequela de “Annabelle” (2014). A sério, MOTELX? Estava habituada a filmes indie, por certo longas-metragens de baixo orçamento, mas nunca a continuação de uma película que a despeito de estar inserida na saga de “The Conjuring” é de longe a mais fraca. Ainda mais, se pensarmos que os casos de sequelas superiores aos filmes originais se contam pelos dedos de uma mão.
Estava errada. Em mais sentidos do que um. Apesar de ser conhecida de forma universal por “Annabelle 2”, “Annabelle: Creation” é afinal uma prequela que explica as origens da boneca que tanto terror terá provocado ao casal Warren e o filme representa ainda a segunda incursão no mundo das longas-metragens de uma das novas grandes promessas do cinema de terror, David F. Sandberg. Se não estão familiarizados com a sua película anterior, “Lights Out” (2016), recomendo uma visita rápida ao “cineclube” mais próximo. A curta que inspirou essa longa, está disponível no canal do realizador. Confesso que quando aprecio uma obra originária do cinema independente tenho sempre receio quando os seus criadores dão o salto. Ir parar ao cinema comercial é uma progressão natural na carreira mas, tenho receio que os maus hábitos dos executivos de grandes estúdios que consideram natural impôr as suas opiniões (de)informadas, que se sobrepõem por vezes ao talento contratado. “Annabelle: Creation” felizmente não se enquadra nessa categoria. A acção decorre nos anos 40 e 50, quando os Mullins, casal composto pelo criador de bonecas de porcelana Samuel (Anthony LaPaglia) e Esther (Miranda Otto) perde a filha Bee (Samara Lee) num acidente trágico. Destroçado, o casal isola-se na sua casa e entrega-se ao sofrimento. Doze anos mais tarde, decidem abrir de novo o coração e acolher no seu lar uma freira e seis meninas de um orfanato que ficou sem sede. Ficar ali, pelo menos de forma temporária é a única forma de manter as jovens juntas. O grupo é composto por adolescentes mais velhas que dificilmente serão adoptadas e meninas mais novas, onde se incluem Janice (Talitha Bateman) com mobilidade reduzida após cair vítima de um surto de poliomielite e a sua amiga inseparável Linda (Lulu Wilson). Janice é especialmente susceptível ao encanto de uma boneca de porcelana que encontra nas deambulações pela casa a que se encontra confinada. Apenas Linda se apercebe das mudanças que se operam na amiga.
David F. Sandberg manteve a abordagem que funcionou tão bem em “Lights Out”. Ele está no seu melhor nas cenas que envolvem muita escuridão ao mesmo tempo que manteve as convenções de “The Conjuring” que funcionaram com mais eficácia. Gary Dauberman escreveu o argumento dos dois "Annabelle", notando-se uma subida de qualidade na segunda parte que em muito se deve à nova escolha de realizador. Mas se existe um sinal de que ainda estão por vir muitos trabalhos interessantes de Dauberman, atente-se a “The Nun” e “It”, ambos com estreia em 2018.
O filme é um desfile de caras familiares ao universo de “The Conjuring” e do género de terror em geral. Sandberg foi buscar caras como Lulu Wulson que impressionou em “Ouija: Origin of Evil” (2016), Alicia Vela-Bailey a grande vilã de “Lights Out” ou Joseph Bishara, compositor de vários filmes da saga The Conjuring” e com uma apetência para interpretar o papel de demónios. Do elenco sobressaem Thalita e Lulu como actrizes de fazer envergonhar muito bom actor adulto com muito mais experiências que estas adolescentes, já que Lapaglia e Otto têm pouco que fazer.
Ao contrário de outras sagas que divergem de tom entre filmes, desde a banda-sonora até aos actores, este universo mantém-se fiel a si mesmo. Existe uma ideia de grande coesão desde os demónios aos jumpscares (yep, continua, a funcionar), o que significa que para quem não tenha apreciado os outros filmes da saga, “Annabelle: Creation” não constituirá a excepção. Uma pena porque o universo “The Conjuring” com todas as acusações de repetição dos clichés do género continua a ser uma das sagas mais interessantes e relevantes do panorama do cinema de terror americano dos últimos anos. Três estrelas e meia.
Realização: David F. Sandberg
Argumento: Gary Dauberman
Anthony LaPaglia como Samuel Mullins
Samara Lee como Bee
Miranda Otto como Esther Mullins
Lulu Wilson como Linda
Talitha Eliana Bateman como Janice
Stephanie Sigman como Irmã Charlotte
Mark Bramhall como Padre Massey
Grace Fulton como Carol
Philippa Coulthard como Nancy
Tayler Buck como Kate
Lou Lou Safran como Tierney

Próximo Filme: "Museum" (Myujiamu, 2016)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Get Out (2017)


Imaginem que é noite escura e percorrem sem qualquer companhia as ruas de um subúrbio deserto. Estão perdidos e não conseguem compreender onde se situa a casa que queriam encontrar. Vão no passeio e na estrada a vosso lado, começa a circular um carro com uma música antiquada e um pouco arrepiante. Conseguem visualizar o cenário seguinte? Se fosse uma mulher sozinha certamente, uma caminhada solitária nocturna seria uma péssima ideia. Nos Estados Unidos, numa época em que as tensões raciais se encontram muito elevadas e existem inúmeras acusações de preconceito racial por parte da polícia, um homem de raça negra caminhar sozinho nestas circunstâncias é uma mistura explosiva.

Daniel Kaluuya é Chris um fotógrafo profissional de sucesso que está nervoso por conhecer os pais de Rose (Allison Williams), com quem namora há alguns meses. Ela é caucasiana e nunca namorou com um homem de outra raça mas está certa que os seus pais ultra modernos e liberais não terão qualquer problema a esse respeito. Na verdade Rose está bastante sensibilizada para as questões raciais, sendo até demasiado protectora a esse respeito, uma característica que o namorado considera enternecedora, ainda que ele se consiga defender sozinho. Talvez ela esteja a exagerar e reveja laivos de racismo até onde eles não existem mas Chris tem mais reservas sobre o modo como irá ser recebido durante o fim-de-semana. Está inclusive disposto a apresentar a sua melhor face e suportar quaisquer equívocos que possam surgir por Rose. Já o seu grande amigo Rod (LilRel Howery), um agente da TSA habituado a deparar-se com situações de racial profiling e atento ao que se passa nos media é mais céptico a esse respeito. Tudo parece correr bem a início. Os pais de Rose, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra Missy (Catherine Keener) recebem-no como se fosse o membro mais recente da família. Poderão parecer demasiado curiosos e investidos no novo namorado da filha. Mas é nos empregados Walter e Georgina, de raça negra que Chris manifesta as suas maiores reservas. O seu comportamento é sinistro e misterioso. As suas acções simplesmente não se coadunam com a experiência de Chris enquanto pessoa de raça negra e a história dos seus antepassados. À medida que o fim de semana vai passando e, isso inclui uma sessão de hipnose realizada a despeito das suas objecções pela mãe de Rose, Chris começa a questionar-se se sofre de paranoia motivada por casos recentes, como Rod tão bem e de forma cómica o faz recordar ou se de facto se passa algo muito mais estranho. Rod serve de Grilo Falante, uma consciência, se preferirem -, do realizador e para toda a audiência que grita em coro para o ecrã, que algo está muito errado! Corre Chris! Foge!

Rod não tem a reserva ou censura de Chris que se encontra toldado pelo sentimento amoroso e por um optimismo um pouco infantil. Rod representa por tudo isto, os momentos mais engraçados e auto-conscientes de “Get Out”, ecoando uma espécie de Randy (Jamie Kennedy, em “Scream”), tendo ainda uns laivos do injustiçado "The Skeleton Key" (2005).
Desde os primeiros minutos que não existe qualquer dúvida sobre a mensagem que Jordan Peele pretende transmitir. A primeira é tão meta quanto o “Scream” (1996) de Wes Craven com argumento de Kevin Williamson foi no seu tempo: se algo parece mau e cheira a mau provavelmente é mau. Sigam os instintos. Corram! A segunda é a de que desde “Guess who’s Coming to Dinner” (1967) se calhar ainda muito pouco mudou no que diz respeito ao modo como as relações inter-raciais são percepcionadas pela sociedade. Aproveita ainda para dar uma alfinetada às classes média/média alta educadas e bem sucedidas e obriga-as a observar-se com verdadeiro espírito crítico ao espelho. Ao invés de investir na carga dramática Peele dá-lhe uma volta de 180º e pega nas questões de identidade e de raça através dos géneros de humor e terror sem apresentar falta de gosto no processo. “Get Out” foi uma das manifestações mais interessantes e originais do terror nos últimos anos e não menospreza o seu público-alvo. Perdoam-se-lhe talvez algumas cenas mais fortuitas como a do atropelamento de um animal (quantas vezes é que já vimos nos últimos anos??) mas não envergonha. Três estrelas e meia.

Próximo Filme: "Kung Fu Yoga" (Gong fu yu jia, 2017)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"Black Coal, Thin Ice" (Bai ri yan huo, 2014)


Celebrado pela boa qualidade enquanto espécimen do neo-noir, assemelha-se a um dos mais próximos retratos da China industrial que se viu nos últimos anos em filme.

Esta é a China do segundo sector, do crescimento rápido e sem qualquer atenção pela qualidade de vida. Estamos em 1999, e é encontrado numa fábrica transformadora de carvão é encontrado um membro humano. Ali perto, é encontrada o documento de identificação que corresponde a Liang (Wang Xuebing), um trabalhador que não aparecia há algum tempo. O detective Zhang (Liao Fan) é destacado para o caso. Seguindo uma pista, ele em conjunto com outros colegas vai interrogar um suspeito mas a entrevista corre da pior forma possível. Misto de incúria e arrogância da polícia desenrola-se um tiroteio, ao qual apenas sobrevivem Zhang e o colega Wang (Yu Ailei). Com a carreira e casamento arruinados, Zhang entrega-se ao álcool e ao trabalho com segurança. À viúva de Liang, Wu (Lun Mei Gwei) são entregues as cinzas. O caso é enterrado. Eis que cinco anos depois, começam a surgir de modo idêntico, membros de corpos no meio de carregamentos de carvão por toda a região. Zhang alia-se ao colega para resolver em definitivo o caso e reavivar a chance de um regresso à carreira policial. Tendo ligação a Wu a misteriosa viúva de Liang, Zhang fica convencido que nela se encontra a resolução do caso e começa a segui-la.

“Black Coal Thin Ice” é um filme difícil já que ali nada há de sonho ou de encantador. Entre a aridez poluída da mina de carvão e o ar gélido com queda de neve constante, que se sente até às entranhas, não existe um único elemento de conforto. Nem ninguém é feliz. E se aparentar tal coisa, ainda mais rápido lhe cai a máscara. Subsiste uma aura de resignação e condenação. A ideia de que estas foram as cartas que o destino traçou e é com estas que os personagens terão de se governar está permanente durante todo o filme. Não existe nada mais do que a realidade que conhecem.
Para a viúva Wu, jovem, bonita e inteligente, não há a possibilidade de aspirar a mais do que a pequena lavandaria de bairro ou de pensar num segundo matrimónio. Não faz parte do seu plano de vida. Não dá para ver tão longe. Não dá para ver mais longe além da neve que cai. De igual modo Zhang era a profissão e a relação que tinha e lhe foram retirados. Sem eles sobrevive. Sem eles não há mais nada. A resolução dos casos encontra-se num segundo plano, abaixo das intenções egoístas dos seus protagonistas. Em particular, no caso de Zhang, um meio para um fim. “Black Coal Think Ice” não vai muito além do rótulo de neo-noir. Os papéis estão bem definidos. Wu é a femme Fatale, Zhang é o detective anti-herói. Esta última personagem é também a mais divisiva, já que ele comete demasiados erros, que vão desde o desleixo até uma incapacidade quase primitiva de juntar alguns factos. Ser polícia pode estar-lhe no sangue, as capacidades inquisitivas nem tanto. Digamos que não é nenhum Humphrey Bogart. Quanto ao mistério, esse, não é excessivamente complicado se retirarmos parte do jogo do gato e do rato entre os dois protagonistas e uma narrativa que tende a complexificar-se, para esconder o facto de que a verdade é afinal simples. Com 106 minutos de duração “Black Coal Thin Ice” consegue parecer tão longo quanto um filme que complete as duas horas. Aí reside porventura o seu maior problema, tentar parecer mais complexo do que o é ao invés de se focar naquilo que o tornou interessante desde o início, um descendente directo do género noir tendo por cenário a China industrializada do séc. XXI e as suas idiossincrasias. Três estrelas.

Realização: Diao Yinan
Argumento: Diao Yinan
Liao Fan como Zhang Zili
Gwei Lun-Mei como Wu Zhizhen
Wang Xuebing como Liang Zhijun
Yu Ailei como Wang

Próximo Filme: "Haunted Universities" (Mahalai Sayongkwan, 2009)

domingo, 5 de julho de 2015

"Cold Prey" (Fritt Vilt, 2006)


Por mais anos que passem e, por mais dessensibilizados que fiquem, ainda existem slashers que conseguem, se não surpreender, pelo menos não insultar a nossa inteligência.

Um grupo de amantes de desportos radicais decide praticar snowboard nas remotas montanhas norueguesas, onde poderão divertir-se sem ser incomodados. O que poderia correr mal? A lei de Murphy entra em efeito. Morten Tobias (Rolf Larsen) tem um acidente aparatoso e parte a perna como se um galho se tratasse. Nesse momento que daria jeito que a civilização os acudisse, dão por eles a demasiadas horas de uma localidade e sem sinal de rede no telemóvel. Jannicke (Ingrid Berdal), Eirik (Tomas Larsen), Mikal (Endre Midstigen) e Ingunn (Viktoria Winge) vêem-se obrigados a arrastar o amigo até um velho hotel abandonado ali próximo antes que escureça para poderem tentar pedir auxílio pela manhã. Mal sabem eles que estão acompanhados e que o seu anfitrião mal pode esperar por lhes apresentar a sua picareta.

Até aqui nada de novo e… Daí em diante também não. O assassino de serviço é tão parco nas palavras como os que lhe antecederam mas não é adepto de disfarces. Não deve ter visto o “Halloween” (1978) ou qualquer coisa que o valha. A explicação mais simples é, tão-somente, que é indiferente usar um disfarce. A identidade dele não é importante e as suas vítimas ficam aterrorizadas com alguma rapidez. Com temperaturas negativas e sem populações num raio de vários quilómetros não é como se tivessem para onde fugir. De resto, o psicopata faz uso das convenientes ferramentas para a prática de desportos na neve. A necessidade de “fogo-de-artifício” é nula. A maior “novidade” de “Cold Prey” é que, pela primeira vez em muito, muito tempo, os personagens são simpáticos. Não escapam na totalidade aos estereótipos, (achavam que não ia haver pelo menos uma boazona seminua?), mas desta feita não é como instilassem instintos assassinos por parte do público. Podiam ser o vosso grupo de amigos. Outro toque de frescura, a que não é alheia a cultura nórdica é o facto de o líder natural do grupo ser Jannicke. Ao invés da mulher vulnerável que se revela numa altura de grande pressão ela demonstra ser forte e determinada a todo o momento. Não chega aos calcanhares da esquiva e calculista Erin de “You’re Next” (2011) mas faz tudo o que está ao seu alcance para levar a melhor sobre o seu caçador. A seu lado tem Eirik, um namorado que acha que está na altura de tomar o passo seguinte: viver juntos. Na congénere americana o passo seguinte seria evidentemente dormir juntos (revirar de olhos). Os restantes amigos variam entre o comediante e o melhor amigo, mas sem se excederem nos retratos.

“Cold Prey” não é um blockbuster mas é tão eficaz como qualquer produto massificado. Não abusando, porque não pode, nas cenas que evocam a emoção de repugnância, a construção de um ambiente atemorizante é a sua maior força. Sem se aperceberem passará a marca da meia hora com o grupo ainda intacto. “Cold Prey” toma o seu tempo a apresentar as personagens e a situação desconfortável em que se encontram. Isto, acompanhado pelas paisagens ofegantes das montanhas silenciosas da Noruega revisitadas inúmeras vezes para não nos esquecermos que ninguém os pode ajudar. O perigo, real encontra-se dentro das paredes de um hotel isolado e lá fora, no exterior gélido. Onde iam tentar a vossa sorte? Três estrelas.

O melhor:
- Um grupo de personagens com o qual nos conseguimos identificar
- Cinematografia
- Elenco sólido

O pior:
- A identidade do assassino. Anti-climático!
- Não tenta ser original

Realização: Roar Uthaug
Argumento: Thomas Moldestad, Martin Sundland e Roar Uthaug
Ingrid Bolsø Berdal como Jannicke
Rolf Kristian Larsen como Morten Tobias
Tomas Alf Larsen como Eirik
Endre Martin Midtstigen como Mikal
Viktoria Winge como Ingunn
Rune Melby como Fjellmannen
Erik Skjeggedal como Gutten
Tonie Lunde como Mor
Hallvard Holmen como Far

Próximo Filme: "The Girl who Leapt Through Time" (Toki o kakeru shôjo, 2006)

domingo, 17 de maio de 2015

"The Inugami Family" (Inugami-ke no ichizoku, 1976)


Confesso que não consegui encontrar o trailer do filme de 1976. Fiquem com o trailer do remake de 2008.

Sentados em torno do patriarca às portas da morte, nada faria imaginar as intrigas que assolam o clã. Para os seus momentos finais, mandou juntar as filhas Matsuko (Mieko Tkaamine), Takeko (Miki Sanjo) e Umeko (Mitsuko Kasabue), os respectivos maridos, os seus herdeiros Sukekiyo (Teruhiko Aoi), Suketako (Takeo Chii) e a irmã Sayoko (Akira Kawaguchi) e Suketomo (Hisashi Kawaguchi). Ao grupo junta-se ainda Tamayo Nonomiya (Yoko Shimada) uma jovem por quem o velho criou afecto em final de vida. Terá sido a primeira vez em muitos anos que a família se reuniu. Transpira um desconforto e desconfiança mútuos ocultos sob a aparência do decoro. Apenas têm de aguardar uns momentos mais pela morte de Sahei e logo conhecerão os termos do testamento. O anúncio é chocante para todos. Sahei (Rentaro Mikuni) voltou a ter a última palavra. A fortuna reverte na totalidade para Tamayo se esta aceder a contrair matrimónio com qualquer um dos netos de Sahei.
A fúria e surpresa tomam conta dos presentes. Depois de tantos anos de submissão forçada as irmãs, em especial a calculadora Matsuko, sentem que o mínimo que mereciam era o dinheiro que as manteve prisioneiras na mansão de Sahei e afastou as suas mães biológicas. À intrusa Tamayo acorrem com a ameaça e a lisonja tão inata à família. Ela terá de tomar uma decisão na competição para descortinar quem ganha o prémio. Qual dos filhos pródigos irá assegurar a fortuna de um ramo da família? O previdente advogado que acompanhou os últimos desejos de Sahei teme o pior e manda chamar o detective Kosuke Kindaichi para com o tacto e discrição assegurar que nada de mal ocorre durante a transição. Quando o contractante de Kindaichi é envenenado e vários membros da família começam a surgir assassinados de forma macabra, Kindaichi junta-se às autoridades para descobrir a identidade do assassino e impedir o surgimento de novas vítimas.

O Clã Inugami ou uma família perigosa para pertencer
“The Inugami Family” foi realizado em 1976 e parece tão antiquado e tão moderno quanto um policial de ficção histórica consegue ser pois que a história é universal e tão antiga quanto o próprio tempo. Apenas se nota como é datada, por via dos métodos de investigação policial e a perda de fulgor da figura do detective a favor das forças policiais por oposição à actual obsessão com os avanços tecnológicos disponiveis no século XXI, que se constata por uma oferta excepcional de séries como “CSI”, “Criminal Minds”, “Fringe”, entre muitas outras. Agatha Christie seria a influência óbvia para os amantes do personagem do detective que serpenteia por entre a intriga deixando os suspeitos falar até deixarem escapar informação que eventualmente os condena à prisão. Desvelado e com uma higiene um pouco duvidosa, Kindaichi dá mais ares de Columbo do que Poirot. E também não tem a sua competência. Ele falha numa questão substancial que é prevenir a ocorrência de crimes mas não é como se ele não fizesse mais do que a polícia toda junta. No entanto, os assassinatos não ficam a dever nada ao às novas séries. As mortes engenhosas e cuidadosamente encenadas para representar os emblemas da família: o crisântemo, o koto (harpa japonesa) e o machado são intrigantes o suficiente para atrair e reter o interesse. E uma estória que agarra aquele que a visiona não sai, em definitivo, de moda.

Sem alguma vez surgir no ecrã a interagir com outros personagens, Sahei é uma presença constante. O fantasma da sua presença continua a afectar as filhas ilegítimas mesmo após a sua morte. Elas tiveram uma infância infeliz mas isso não as tornou melhores, apenas maquiavélicas e resilientes… como o pai. O único amor que lhes resta é direccionado para os filhos e até isso alguém lhes quer roubar. Veja-se a exemplo o dilema de Matsuko que quer defender o seu filho que usa uma máscara de latex para esconder a deformidade provocada pela guerra e cuja identidade é questionada a todo o momento pelo resto da família ou Takeko que após um acontecimento que altera toda a sua percepção do mundo deseja quebrar um pacto antigo terrível e revelar a verdade.
Kon Ichikawa conduz as hostilidades com o à-vontade de quem aprecia o conto que tenta emular no cinema e “The Inugami Family” resulta num affair assombroso, tanto pela própria estória como pelo cuidado na direcção. O elenco é sólido e a câmara retira o melhor partido das actrizes veteranas. Ichikawa não foge aos temas negros e retrata-os com igual gravidade. Desde o close-up ao jogo de sombras, o lado negro de cada um dos personagens emerge naturalmente. A estória é pois um híbrido quando podia ser somente um policial para agradar a fãs do género. Quatro estrelas.


O melhor:
- A estória é tão rica que sobra bastante para debater após o seu visionamento
- Elenco
- Passa com honras ao teste do tempo

O pior:

- Efeitos especiais

Realização: Kon Ichikawa
Argumento: Norio Nagata, Shin'ya Hidaka, Kon Ichikawa e Seishi Yokomizo (livro)
Kôji Ishizaka como Kôsuke Kindaichi
Yôko Shimada como Tamayo Nonomiya
Teruhiko Aoi como Sukekiyo Inugami 
Mieko Takamine como Matsuko Inugami
Mitsuko Kusabue como Umeko Inugami
Miki Sanjô como Takeko Inugami
Akira Kawaguchi como Sayoko Inugami
Ryôko Sakaguchi como Haru
Takeo Chii como Suketake Inugami
Hisashi Kawaguchi como Suketomo Inugami
Akiji Kobayashi como Kôkichi Inugami
Minoru Terada como Saruzô
Kazunaga Tsuji como Detective Inoue

Próximo Filme: Ex Machina, 2015

domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Sleepwalker 3D" (Meng you 3D, 2011)


Os sonhos são uns sacanas. Uma pessoa trabalha como uma escrava, tendo por vezes apenas por miragem o sonho de um banho quente e de uma refeição consistente, o mínimo que pode desejar é um sonho reconfortante certo? Nada disso. Os sonhos são a porcaria da recompensa mais inconsistente e desconfortante de todas. Diz que é o espelho do subconsciente, aquele bocadinho de matéria que jaz dormente que surge para nos dizer: “há questões dolorosas, mal resolvidas, que convém explorar neste preciso período em que estás especialmente cansado e angustiado”.
A vida de Yi (Angelica Lee) revolve à volta deste ciclo pernicioso. Ela tenta apanhar os cacos da sua existência após a morte da filha e falha todos os dias. À noite é assaltada por sonhos nos quais uma criança é enterrada num bosque. De manhã, acorda como se tivesse estado acordada durante toda a noite e com as mãos cheias de terra. Com o desaparecimento do ex-marido, Yi começa a temer que tenha tido algo a ver com o caso. Entretanto, Peggy (Charlie Young) está a enfrentar um pesadelo que Yi conhece demasiado bem, o filho desapareceu e com o tempo a passar a esperança torna-se ténue. Com o apoio da detective Au (Huo Sien), Yi compromete-se a dar apoio à investigação. Se os seus sonhos tiverem uma pista para o paradeiro da criança ela irá auxiliá-la ainda que isso possa significar que é culpada do rapto e possivelmente homicídio.

A ideia do sonambolismo é tão tentadora quanto atemorizante mas nas mãos dos irmãos Pang é igualmente excitante. A metade dos irmãos Pang conhecida por Oxide recruta caras conhecidas para mais uma aventura a solo: a sua eterna musa Angelica Lee e Decha Srimantra, cinematógrafo que o acompanhou em quase todos os filmes que realizou até ao momento. É uma garantia reconfortante saber que pelo menos uma das actuações será sólida e que nos aguarda um espectáculo visual, o que é mais que a maioria das películas nos oferece. Oxide diverte-se com as possibilidades de “Sleepwalker 3D” mas não existe um verdadeiro foco. O 3D, à semelhança de tantas outras experiências anteriores e já posteriores mais se assemelha a um acessório que nem era necessário, nem acrescenta um contributo válido para a estória e é escasso. Os motivos de interesse são outros, incluindo a técnica simples mas que sempre funciona da imagem a preto e branco com um toque de cor, matizes azuladas e breves animações nas sequências de sonho. Angelica é a melhor das três protagonistas e parece genuinamente afectada pela perda pessoal, a possibilidade de possuir uma faceta negra e… uma peruca terrível. Estou em crer que algumas das suas lágrimas se devem aquela coisa vermelha que lhe colocaram na cabeça no lugar de peruca e ninguém me convence do contrário.
Ela é uma alfaiate com um estilo pessoal alternativo pelo que não é como se o cabelo vermelho fosse uma opção estética fora de série. No entanto, a caracterização distrai em algumas cenas importantes. A sério que não tinham orçamento para dar à belíssima Angelica um penteado decente? A par com o cabelo estão uma série de desempenhos muito abaixo do nível de aceitabilidade para um grupo de teatro amador. As mulheres fazem o que podem com aquilo que têm. Os homens nem sequer tentam. Este é o calcanhar de Aquiles de qualquer dos irmãos Pang. Eles dedicam mais atenção às suas actrizes e, sobretudo, às que interpretam as protagonistas que ao resto da equipa de actores. Os primeiros filmes da sua carreira e o thrillers “The Detective” (2007) e “The Detective 2” (2011) constituem notáveis excepções. A aparente ausência de preocupação com o casting tem sido uma das críticas consistentes para não possuam uma reputação superior à que por ora possuem e as suas obras fiquem sempre aquém do potencial inicial. O segundo grande mal de “Sleepwalker 3D” é os subenredos que acompanham a narrativa principal que todos os juntos, não parecem fazer grande sentido: ex-maridos desaparecidos, irmãs com uma relação complicada, mulheres em coma… Uma grande série de nada, que não leva a nenhum lado em particular. A prova de que não têm relevância para a estória e apenas contribuem para gerar ruído é o habitual, dispensável, irritante e arrogante flashback para explicar os acontecimentos. Uma estrela e meia.

O melhor:
Os passeios nocturnos de Yi
Os sonhos
Cinematografia
Angelica Lee

O pior:
A peruca da Angelica Lee
A identidade do vilão é óbvia.
É mesmo para dormir… sem direito a sonambulismo.
3D, para que serves tu?


Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Angelica Lee como Yi
Charlie Young como Peggy
Huo Sien como Detective Au
Li Zong Han como Eric

Próximo Filme: Babangluksa, 2011

domingo, 4 de janeiro de 2015

"Marshland" (La isla Mínima, 2014)


Os créditos vêm como uma bomba: um take contínuo percorre a paisagem natural, paradisíaca do sul de Espanha enquanto ecoa o choro de uma guitarra. A paisagem é verde e azul, laranja e castanho, em alternância, o terreno incerto, os sulcos a fazer recordar o próprio cérebro humano, ora digam-me se a película a que vou assistir não é inquietante.

Juan (Javier Gutiérrez) e Pedro (Raúl Arévalo) aguardam à beira da estrada sob o calor abrasador que os venham socorrer. Acabados de chegar sul de Espanha, advindos de Madrid para investigar o desaparecimento de duas irmãs, já dão a imagem de uns inúteis a necessitar de ajuda. Na pensão onde irão pernoitar houve um equívoco: terão de passar a primeira noite no mesmo quarto. Deverá ser pouco tempo, acreditam os locais. As irmãs desaparecidas têm uma má reputação e nem os habitantes, nem o pai destas demonstram grande interesse em fornecer pistas para a resolução do caso. Apenas a mãe Rocío (Nerea Barrios), atormentada pela dor colabora com o pouco que tem para lhes dar, o negativo de fotografias lascivas que o fogo da lareira não conseguiu queimar na totalidade. Esta é sem dúvida uma localidade mínima. Na Espanha abaixo do Guadalquivir pós-Franco, a ditadura apenas findou em termos políticos. A cruz do ditador permanece firme nas paredes das casas. Estado, Família e Igreja governam a mente colectiva. Não existe ainda espaço para a emancipação ou uma sexualidade liberta de preconceitos: aquilo que aquelas adolescentes perigosamente representam. Eis que surgem corpos no meio do terreno pantanoso e aquilo que parecia uma fuga ao tédio, matrimónio em terra idade e aos constrangimentos de uma localidade onde os rumores são difundidos ao sabor do vento, se transformam numa caça a um assassino em série.
“Marshland” é um regresso aos thrillers policiais, um género em decadência, talvez pela sobreexposição, nos últimos anos. Uma das óbvias excepções tem sido o cinema coreano que apresenta de modo sistemático, anualmente, pelo menos um thriller de qualidade para saciar um público que ainda não acusa o cansaço do género. Mas as coincidências de “Marshland” com o cinema coreano não se ficam por aqui. “Marshland” é fantasticamente similar a “Memories of Murder” (2003), de Joon-ho Bong. Ambos ocorrem durante os anos 80, o primeiro pós-ditadura militar, o segundo decorre ainda durante uma no último fôlego, com o surgimento de cadáveres femininos mutilados em campos de arroz. Ambos os casos requerem a visita de um ou mais polícias da cidade, dominantes de novas técnicas, que contrastam com os saberes e desconfiança locais. “Marshland” também mantém a combinação típica do polícia moderno mais subtil e do polícia mais vivido, com métodos mais questionáveis, pelo menos para os padrões actuais. Mas não tenta dizer-nos qual o melhor, deixa as ilações para quem o vê ou, se preferirem, a interpretação estará sujeita à época em que nos inserimos. Gutiérrez e Arévalo estão fantásticos nos papéis convencionais que lhes foram atribuídos. No entanto, as fronteiras entre o polícia bom e o polícia são, no mínimo, nebulosas. Cada um tenta demonstrar o seu caminho ao outro sem criticar abertamente as opções deste. Algures, conseguem manter a cabeça fria ou dão azo à bestialidade quando não o fariam antes. Deles, é Juan o que possui a moralidade mais dúbia e o que parece mais atormentado pelos anos mais de experiência do que Pedro e um passado misterioso. Por isso, encontra maior facilidade em mover-se nos terrenos pantanosos, de segredos obscuros, terríveis e de mostrar as garras sem hesitação ou receio dos locais. Ele conhece as regras implícitas daquelas terras. Juntos, cruzam-se com uma série de personagens, cada uma com uma informação importante a fornecer, mesmo que não o saibam. A cinematografia fabulosa de Alex Catalán completa o cenário de desintegração daquela sociedade. Se não podem sequer confiar nas pessoas que pertencem àquela “ilha”, então em quem? É um sinal dos tempos, terão de reajustar-se se quiserem sobreviver além das próximas colheitas e das mudanças políticas de Madrid. Quatro Estrelas.


Realização: Alberto Rodríguez
Argumento: Rafael Cobos e Alberto Rodríguez
Javier Gutiérrez como Juan
Raúl Arévalo como Pedro
Nerea Barros como Rocío
Jesús Castro como Quini
Antonio de la Torre como Rodrigo
Salva Reina como Jesús
Manolo Solo como Periodista
Cecilia Villanueva como María
Juan Carlos Villanueva como Juez Andrade

O melhor:
- A cinematografia é soberba. Alex Catalán tem motivos para estar satisfeito
- A banda-sonora completa na perfeição as imagens
- Não podiam ter escolhido melhor dupla de actores, em particular, Javier Gutiérrez no papel de um polícia atormentado com esqueletos no armário

O pior:
- Alguma ambiguidade no desenlace

Próximo Filme: "Body of Water" (Syvälle salattu, 2011)

domingo, 16 de novembro de 2014

"Happy Birthday to Me" (1981)


A blogger que mais amam completou X primaveras em Novembro (não estavam mesmo à espera que dissesse quantos aninhos fiz, pois não?) e decidiu que a melhor forma de comemorar esse grande evento seria procurar um filme retro, de preferência sobre um aniversário – que esta pessoa não tem jeito para metáforas –, e chorar para o ecrã enquanto assiste a algumas mortes originais (à época). Como tal e bem poderão inferir, a semi-ausência desta excelsa pessoa deveu-se a estar a fazer “coisas”, aka há vida além do computador e filmes para ver sobre os quais nunca irão ler uma linha escrita por mim.

De facto, de há uns tempos a esta parte, esta pessoa tem-se entretido a recuperar alguns clássicos americanos (incluindo Canadá), nomeadamente ente o final dos anos 70 e inícios dos anos 80 (“Halloweeen”, Tourist Trap”, “Black Christmas”, The Funhouse”, por aí fora). Enfim, os anos que verdadeiramente importam, no que toca ao subgénero slasher americano e redescobri duas questões: que os filmes eram tão mais divertidos na altura e as mulheres eram ainda olhadas com uma visão ingénua. Talvez uma bomba sexual, talvez uma frágil donzela mas, raramente uma assassina. Insólito para um blog que faz vida da desmontagem do mito da descabelada que sai de aparelhos eléctricos e mata as suas vítimas de susto.

“Happy Birthday to me” segue a fórmula quando esta ainda nem sequer era identificada como tal. Uma heroína frágil, um grupo mais ou menos extenso de jovens que irão sofrer uma morte horrenda e um assassino com requintes de malvadez. Para quem aprecia o género pouco mais se exige, não é? Ginny Wainwright, interpretada por Melissa Sue Anderson que tenta descolar-se da sua personagem em “Little House on the Prairie” (1974-1983) pertence à elite de jovens ricos da Academia Crawford que se auto-denominam “Top Dez”. Ela esteve uns anos afastada devido a um evento traumático no passado. Quando os amigos começam a ser assassinos por um desconhecido, as memórias dolorosas que tinham recalcado são despoletadas. Segue-se um jogo de interrogações: é Ginny a culpada ou não? Se não, quem será? Porque se não, a realização está a fazer um esforço tremendo para que todos os caminhos vão dar a Ginny…

Sendo um clássico “Happy Birthday to me” acerta em todas notas habituais excepto na da nudez. Quase um dado adquirido, nos filmes anteriores e nos que lhe seguirem em “Happy Birthday to me” o expoente máximo de marotice é quando Etienne (Michel-René Labelle) rouba umas cuecas do quarto de Ginny. O cinema americano alimentando o sonho de stalkers desde sempre. O elenco é deliciosamente terrível. Ver adultos a interpretar adolescentes hormonais com as falas mais pirosas de sempre é aquilo de que são feitos os sonhos tecnicolores dos anos 80. É isso e os penteados e roupas datados. E tentar imaginar o que terá acontecido com as carreiras daqueles actores após o filme. Tirando um Matt Craven reconhecível, a obscuridade e a idade ocupou-se de todos eles. Apesar de datado “Happy Birthday to Me” é tudo quanto se poderia esperar de um slasher. O assassino é elusivo e algumas mortes são interessantes. Ter pena de "miúdos" que pertencem a um clube de elite que personifica tudo o que está mal com a sociedade contemporânea é para fracos. De destacar uma morte que faz recordar o incidente mortal infeliz de Isadora Duncan, o pior pesadelo de um halterofilista e ainda a cena icónica que teve direito ao poster clássico do filme, “morte por uma espetada”. A ideia é bastante superior à concretização mas que é inventivo, isso, ninguém pode negar. De referir que, com um bom número de personagens para matar, o filme é sempre abrir. Para os habituados ao género “Happy Birthday to Me” não assustará mais do que as criancinhas que espreitam pela primeira vez por entre a fresta de uma porta para descobrir o que é o “terror” e porque é que os mauzões dos pais não a deixam assistir àquilo. Vale mais pelo jantar diabólico final, onde um plano maléfico é revelado, com o velho crime passional com laivos de complexo de Electra e muito mimo à mistura a constituírem o motivo, enquanto se entoa a solitária canção: “Parabéns a mim”...

O melhor:
- Mortes inventivas
- Segue fórmula slasher à risca (se gostarem disso claro)
- Faz-nos suar para tentar perceber quem é o assassino.

O pior:
- Reviravolta final
- Datado


Realização: J. Lee Thompson
Argumento: John C. W. Saxton, Peter Jobin e Timothy Bond
Melissa Sue Anderson como Virginia “Ginny” Wainwright
Glenn Ford como Dr. David Faraday
Lawrence Dane como Hal Wainwright
Sharon Acker como Estelle Wainwright
Frances Hyland como Mrs. Patterson
Tracey E. Bregmam como Ann Thomerson
Jack Blum como Alfred Morris
Matt Craven como Steve Maxwell
Lenore Zann como Maggie
David Eisner como Rudi
Lisa Langlois como Amelia
Michel-René Labelle como Etienne Vercures
Richard Rebiere como Greg Hellman
Lesleh Donaldson como Bernadette O'Hara

Próximo Filme: "Rigor Mortis" (Geung si, 2013)

domingo, 29 de junho de 2014

"The Neighbors" (Ee-oot Salam, 2012)


O vizinho na verdadeira acepção da palavra é uma espécie em via de extinção. Longe estão os dias em que se conheciam todos os vizinhos no mesmo prédio ou das vivendas mais próximas. A cultura do indivíduo toma cada vez mais a primazia sobre as relações humanas, impedindo que se formem os laços de entreajuda que valiam aos nossos antepassados. Assim, muitos factos escandalosos escapam até ao olhar atento do vizinho mais atento...

Em “Neighbors” os residentes de um pequeno complexo de apartamentos  vêem a sua existência pacata em perigo quando uma série de homicídios sucedem dentro da sua área de conforto. A mais recente vítima, Yeo-seon (Sae-ron Kim) vivia no seu prédio. A despeito do acontecimento trágico, eles até podiam esquecer o sucedido e prosseguir com a vida normal não fosse o comportamento muito suspeito do novo vizinho Seung-hyuk (Sung-kyun Kim). Quase todos têm alguma interacção estranha com Seung-hyuk e cedo se estabelece que ele deve ser o assassino da criança. Levanta-se pois uma nova questão, com o comportamento cada vez mais descuidado do assassino e com novas vítimas a surgir, quem será capaz de denunciar o vizinho?

“Neighbors” faz recordar um fenómeno que alguns terão estudado em psicologia ou com o qual se terão cruzado se gostam de canais como o “Biography” denominado de Efeito Genovese. Este é assim denominado, após o estudo por psicólogos de um caso que chocou a América nos anos 60, quando Catherine Genovese foi atacada e esfaqueada até à morte, durante meia hora, os seus gritos e ataque inicial testemunhados por cerca de duas dezenas de pessoas. Ninguém foi capaz de a acudir e o telefonema para a polícia também foi realizado tardiamente. Genovese viria a morrer no hospital. “Neighbors” apresenta também uma panóplia de personagens que, por diversas razões se desresponsabilização da decisão que poderá levar à captura do criminoso, transferindo o ónus para qualquer outro que não eles próprios. Decisão ainda mais premente quando a polícia não possui ainda qualquer pista substancial que o leve a uma prisão.
Kyung-hee (Yun-jin Kim) encontra-se à beira da loucura, tal é a culpa que sente por não ter ido buscar a enteada à escola. Nesse dia a criança desaparecia para o seu corpo ser depois encontrado mutilado, numa mala de viagem. Agora, Kyung-hee vê o fantasma da enteada chegar todos os dias a casa. Entretanto, Sang-yoon (Ji-han Do) verifica um padrão peculiar num dos residentes do condomínio. Ele faz uma entrega de pizza na mesma casa sempre que desaparece uma pessoa. Yong-nam Jang (Tae-Seon Ha) é uma mãe com pouco que fazer e passa o tempo todo a fazer planos para o condomínio, mesmo que isso implique envolver o novo vizinho esquisito e reticente. Aliás, ela encontra-se tão ocupada que descura a própria filha, ela que é uma fotocópia da menina que foi encontrada morta (interpretada pela mesma actriz Sae-ron Kim). Quanto a vós não sei mas se fosse minha filha estaria muito preocupada.
Sang-young (Ha-ryong Lim) é o dono de uma loja de malas de viagem da qual um homem misterioso se tornou cliente assíduo. Jong-rok (Ho-jin Cheon) é um dos seguranças do condomínio que pretende passar despercebido. No entanto, ele sente afinidade pela filha da vizinha da associação de condóminos e não vê com bons olhos o interesse que um dos novos vizinhos parece tomar por ela. Hyuk-Mo (Dong-sok Ma) é um gangster e um bruto impiedoso com quem se atravessa nos seus planos, mesmo que isso signifique apenas não saber estacionar um carro. Todos absorvidos pela sua realidade de tal modo que não vêem ou fingem não ver o que é óbvio. Naquele microcosmos, mesmo que se conheçam não se relacionam além do superficial. Nem o desejam. Que quanto menos souberem melhor. O instinto de auto-preservação é superior à solidariedade. A seu tempo, vão formando uma ideia da realidade e entram num estado de dissonância cognitiva. Será que vão agir? Mais, será que vão agir a tempo? Apesar de ser um elenco vasto, os personagens são facilmente identificáveis e o argumento é excelente a veicular as suas motivações. Não querem perder o trabalho, não querem que sejam descobertos os seus segredos, acham que não é o seu papel… A força do elenco perde-se no tempo que demora a interligar as estórias individuais. Também o casting de Sae-ron Kim nas duas personagens menores é duvidoso. A jovem é talentosa e compreende-se o objectivo da parecença da vítima e de um alvo potencial, por um lado o humor instável da mãe e, por outro, despoletar os instintos homicidas do criminoso, mas bastava apenas que fosse uma actriz fisicamente semelhante. Além disso, o fantasma surge em demasia. Se a ideia era enfatizar o assombro de Yoo-jin com a sua própria culpa a ideia foi apresentada e repetida por demais pois que chega um momento em que nos questionamos se é um fantasma das mentes dos culpados ou o espectro é real. Aspectos sobrenaturais à parte, “Neighbors” é um thriller à boa maneira coreana: leva o seu tempo mas é eficaz. Três estrelas.

O melhor:
- Elenco
- Narrativa fragmentada permite ter insight sobre o que se passa na cabeça de cada um dos personagens sem alienar
- Suspense

O Pior:
- Elemento sobrenatural. Quando é que os argumentistas coreanos vão aprender que não precisam de acrescer elementos de outros géneros se estória inicial tem qualidade por si só?
- Demasiado tempo para interligar as estórias individuais


Realização: Hwi Kim
Argumento: Hwi Kim e Pool Kang (banda-desenhada)
Yun-jin Kim como Kyung-hee
Sung-kyun Kim como Seung-hyuk
Ji-han Do como Sang-yoon
Tae-Seon Ha como Yong-nam Jang
Sae-ron Kim como Yeo-Seon/Sooyeon
Ha-ryong Lim como Sang-young
 Ho-jin Cheon como Jong-rok
Dong-sok Ma como Hyuk-Mo

Próximo Filme: Jeritan Kuntilanak, 2009

domingo, 2 de março de 2014

"Double Vision" (Shuang Tong, 2002)


Huang Huo-tu (Tony Leung Ka Fai) cometeu um pecado capital. Ninguém denuncia corrupção dentro do próprio serviço. É embaraçoso para a entidade, é desconfortável para todos e o mais provável é levar com uma despromoção. A Huo-to os princípios não lhe serviram de muito. Deixou de ser um detective e foi transferido para a unidade que lida com os estrangeiros e fronteiras. Uma das actividades mais pequenas e humilhantes para quem tem a formação de Huo-to e, onde, esperam, que não levante mais a voz. Fica quietinho que estás bem assim. Ah e, junte-se a isto uma esposa insatisfeita que quer o divórcio e uma filha traumatizada para completar o caos que é a vida pós “boa acção vira-se contra o próprio”. O que Huo-to não precisa é de mais complicações. É precisamente isso que sucede quando um serial killer começa a atuar no território e é chamado Kevin Richter (David Morse), um agente do FBI americano no papel de consultor para a resolução do caso. Huo-to é designado como interlocutor entre as duas agências, um papel que na realidade ninguém queria desempenhar. Os colegas não parecem mais interessados em desvendar o caso do que em abafá-lo e Kevin não é visto como mais do que um americano arrogante que foi convocado para fazer figura para os media.

Desconfio fortemente que “Double Vision” tinha como público-alvo o mercado estrangeiro como atestam, quer o trailer com enfoque no actor americano quer por uma narrativa com laivos de filme noir americano. Digo laivos porque a dada altura a narrativa muda numa direcção completamente diferente, com elementos religiosos do Taoísmo e da superstição a tomarem o leme. Um policial para os agarrar, um mistério sobrenatural para os prender. Normalmente, seria tentada a dizer que a mudança radical constituiria o problema do filme mas, neste caso, é o que o torna tão diferente dos demais e até, interessante. “Double Vision” não se demarca de Taiwan, da religião praticada e das suas pessoas, abraçando, antes, a sua cultura. A parelha de polícias não segue a fórmula, já que qualquer dos personagens é inteligente e simpática o suficiente para nos preocuparmos com o que lhes acontece ainda que, estranhamente, Morse sobressaia sobre o actor local Leung Ka Fai. É recomendável que considerem a parelha Chan/Tucker de “Rush Hour” (1998) o oposto do que irão visionar. Aliás, “Double Vision” encontra-se mais próximo de um “Seven”(1995), com o seu ritmo lento e mortes cuidadosamente orquestradas.
As discussões entre o supersticioso Huo-To e o polícia prático que apenas acredita em provas empíricas demonstram que “Double Vision” é tudo menos acéfalo. Em duas linhas de diálogo percebemos quem são os personagens: Huo-to tem demasiada bagagem para não acreditar que tudo acontece por um motivo e Kevin já viu tanto que se recusa a acreditar que o pior na Terra não é o ser humano. Richter é orientado para o resultado e não percebe as nuances culturais que condicionam uma rápida resolução, enquanto Huo-to o tenta fazer compreender este facto sem entrar por território que já não é o seu. Ele é apenas um interlocutor, um interveniente secundário numa sucessão de crimes atrozes e com uma ligação obscura a uni-los. Infelizmente a personagem de Morse não tem história a acompanhar o cinismo manifesto. Apenas podemos supor. E por falar em suposições, de modo algum conseguimos adivinhar o caminho que “Double Vision” irá trilhar desde que surge no ecrã um recém-nascido com duas pupilas no mesmo globo ocular. “Double Vision” alterna entre o visceral e a subtileza a todo o momento que apenas peca pelo ritmo lento e um desfecho inferior ao crescendo que o antecede. Três estrelas.

O melhor:
- David Morse
- Imprevisibilidade da estória
- Cinematografia
- Criatividade das mortes

O pior:
- Complexidade da estória. Demasiados sub-enredos.
- Elemento sobrenatural
- Desfecho


Realização: Kuo-fu Chen
Argumento: Kuo-fu Chen e Chao-bin Su
Tony Leung Ka Fai como Huang Huo-tu
David Morse como Kevin Richter
Rene Liu como Ching-fang
Leon Dai como Li Feng-bo
Wei-hanHuang como Mei-Mei


Próximo filme: "Sawako Decides" (Kawa no soko kara konnichi wa, 2009)

domingo, 17 de novembro de 2013

"Phone" (Pon, 2002)


Ji-won (Ji-won Ha), uma jornalista destemida tem vindo a receber telefonemas ameaçadores desde que escreveu uma série de artigos baseados na investigação de um caso de pedofilia. O casal Ho-jeong (Yu-mi Kim) e Chang-hoon (Woo-jae Choi) de quem é amiga íntima decidem fazer o papel de bons samaritanos e oferecem-lhe estadia numa das suas casas, onde será difícil aos bandidos encontrá-la. Entretanto, Yeong-ju (Seo-woo Eun), a jovem filha do casal atende o telefone de Ji-won por ocasião de uma das chamadas misteriosas e inicia a demonstrar sinais de possessão. Ji-won é forçada a recorrer à sua mente inquiridora, à medida que os telefonemas se intensificam e a música “Moonlight Sonata” começa a ecoar insistentemente na sua cabeça.

Costuma-se dizer, ou pelo menos foi a informação que me venderam, que o mais difícil em cinema é trabalhar com crianças e animais. Quando uma ideia assim tão louca resulta o produto final pode ser surpreendente. A Aniston e o Owen Wilson que me perdoem mas por algum motivo a película é “Marley e eu” e não os “Grogan e o cão”. Em “Phone”, uma miniatura feminina ainda nem chegada à puberdade rouba o filme das mãos de Ji-won Ha, aquela que é uma das actrizes mais populares da Coreia do sul dos dias de hoje. Deve doer.
E os cineastas não tiveram grandes contemplações para com o “selo” da Disney. A pequena Seo-woo comporta-se como uma adulta sem espaço para subtilezas. Ela irradia ódio, histerismo, sedução, maquiavelismo em doses iguais, brutais. O desempenho faz crer que as emoções que exalta nas cenas com Yu-mi Kim e Woo-jae Choi são mais do que mero fingimento. Ela conhece as emoções com que está a trabalhar, emula mais do que a insinuação e ultrapassa-os em profundidade. É boa demais para uma actriz com menos de dez anos de idade e que praticamente não possui experiência. Quando ela não se encontra a trabalhar o ecrã, “Phone” é apenas mais um numa longa sucessão de hair movies, se bem que, com a vantagem da antiguidade que ainda o torna, ligeiramente superior a muitos que se lhe seguiram. Ji-won interpreta uma jornalista, como convém porque à protagonista cabe sempre a ingrata tarefa de investigar uma série de acontecimentos grotescos. Mais alguém se recordou de imediato do “Ring” (1998)? Há lugar a telefones assombrados um elemento também não inteiramente estranho já que “Phone” foi o instigador original da série de filmes “One Missed Call”. Uma música associada a sarilhos? Conhecida ou pelo menos vagamente reconhecível que é para garantir que ninguém do público esquece. Céus, não sei se alguma vez o vi no cinema… À excepção de “Cello” (2005) talvez. E os elevadores, não sei o que se passa com os elevadores asiáticos mas são todos arrepiantes. As luzes apagam-se ou piscam e invariavelmente o número de ocupantes aumenta (lamento dizê-lo), de modo não tradicional. Novo flashback, desta feita apenas uns meses antes, para o filme dos irmãos Pang “The Eye”. Que aconteceu à música de elevador horrível e aos vizinhos desagradáveis com quem nunca ocorre um desbloquear de conversa excepto pelo final da viagem, assim que já não são necessários dos países ocidentais?
“Phone” é tão aborrecido como os restantes hair movies ou tão divertido como os seus congéneres. É uma questão de perspectiva na verdade. O cliente de um restaurante tendo perante si toda uma variedade de pratos só realiza o pedido do costume se ainda não está cansado de pedir sempre o mesmo. Pois “Phone” não engana ninguém, os créditos iniciais são prova disto mesmo. Apresenta exactamente aquilo que este tipo de cliente espera, com uma ou outra variação: maior ou menor quantidade, se calhar uma disposição dos ingredientes diferente mas a essência é a mesma. No máximo “Phone” é um caso de estilo mais interessante do que a substância e nesse caso como fã assumida do género nada tenho a apontar. Três estrelas.
Realização: Byeong-ki Ahn
Argumento: Byeong-ki Ahn
Ji-won Ha como Ji-won
Yu-mi Kim como Ho-jeong
Woo-jae Choi como Chang-hoon
Seo-woo Eun como Yeong-ju
Ji-yeon Choi como Jin-hie


Próximo Filme: “Ong-bak 2” (2008)

domingo, 14 de julho de 2013

"Colic" (Colic: dek hen pee, 2006)


“Colic” atinge as pessoas, sobretudo mães pré-mamãs em todos os pontos certos. Uma mera visualização do poster onde um bebé está sentado perigosamente perto de uma misturadora chega para provocar arrepios. Perigo a pairar sobre criaturas indefesas como bebés sempre foram a última fronteira e, se o resultado não é tão asqueroso como, digamos, um “Art of The Devil” o impacto psicológico é bastante mais vasto.

Quando Phrae (Pimpan Chalaikupp) engravida por acidente, Pong (Vittaya Wasukraipaisan), apesar de não estar preparado para ser pai decide tomar a atitude correcta e casar com a namorada. Esta decisão implica abdicar de uma série de coisas, visto que Phrae deixa de poder trabalhar e sem recursos financeiros para criar um filho, o casal é forçado a mudar-se para a casa da mãe de Pong, longe do centro da cidade, onde ele trabalha como realizador de filmes publicitários. Uma situação temporária, prevêem. Mas mais uma vez, os acontecimentos desenrolam-se contrários aos desejos do casal, já que Pan se revela desde logo um bebé inquieto, sofrendo bastante com ataques de cólicas que não deverão cessar antes de seis meses. O casal terá de depender durante mais algum tempo da boa vontade da mãe de Pong e de Jeen (Kuntheera Sattabongkot), irmã de Phrae. Afinal, o conto-de-fadas apenas teve a duração de uma gravidez pintada de imagens de felicidade conjugal ilusórias. À medida que o choro de Pan se torna cada vez mais incontrolável, Pong afasta-se e Phrae vê-se isolada, provavelmente deprimida e incapaz de lidar com a situação. Será o choro de Pan fruto de uma condição que afecta quase todos os bebés ou há algo mais, algo invisível que perturba o seu primeiro filho?

“Colic” é um longo filme para quem aguarda por momentos de terror visceral. A narrativa arrasta-se uma boa meia hora mais do que o necessário. Entre os episódios em que o bebé é acossado pela maleita há lugar para o drama entre Phrae e Pong. Mesmo que Pan sobreviva às cólicas será que o seu casamento resiste? O nascimento de um filho constitui um motivo suficientemente forte para que duas pessoas que não estão preparadas para o compromisso avançar nesse sentido? “Colic” é pois uma mistela, não se decidindo entre o drama de uma família disfuncional e o terror sobrenatural. As personagens, nomeadamente o casal são fortes o suficiente para carregar o drama aos seus ombros.
 É difícil não nos identificarmos com o seu problema: a criança não para de chorar e, tendo vontade de calar a criaturinha perturbada como não perceber a exaustão e o sofrimento de Phrae e a necessidade de escape de Pong? Os secundários fazem as vezes da audiência, são a família e colegas simpatéticos para com o problema do casal mas que pouco podem fazer para o parar. Thammajira sabe o que faz, construindo uma imagem negra com enquadramentos inteligentes, onde o choro da criança acossada, um quarto solitário cheio de objectos que podem atentar contra a sua integridade física e a existência de pais inexperientes e impotentes, coroam a sensação de que algo muito mau rodeia aquele ser indefeso. A raiz dos problemas de “Colic” reside então no terror sobrenatural, não só uma repetição de eventos de filmes que lhe antecederam como a apresentação de uma proposta dispensável para o desencadear da acção. A somar aos momentos inverosímeis que se sucedem para criar o arrepio fácil (entra a música para assinalar quando nos devemos encolher), são apresentadas sugestões e superstições que ao invés de auxiliar a compreensão da estória, contribuem para uma ainda maior confusão. Afinal, o bebé chora porque tem medo ou porque está a avisar os pais de algo? Está a suceder algo mais entre o casal que nós não sabemos ou os problemas conjugais resultam meramente da falta de preparação? A montagem também não auxilia a resolução destas interrogações pois, se em alturas detém-se demasiado em cenas dispensáveis, no panorama geral a continuidade e lógica são profundamente afectados. Com uma premissa interessante “Colic” é um case-study de película que foi perdida na sala de edição. Os meus pêsames. Duas estrelas e meia.

Realização: Patchanon Thammajira
Pimpan Chalaikupp como Phrae
Vittaya Wasukraipaisan como Pong
Kuntheera Sattabongkot como Jeen

Próximo Filme: “Apartment 1303”, (1303, goshitsu, 2007)
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