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domingo, 13 de maio de 2012

Curta #1: "Unholy Women - Rattle Rattle" (Katakata, 2006)



Para um verdadeiro fã de terror a obsessão pouco saudável do povo japonês com o género não é uma grande novidade. E também não é muito difícil adivinhar onde a maioria dos filmes de terror nipónicos vão beber inspiração. É ali mesmo, no Japão, nos mitos e lendas locais que se retratam e reinventam estórias de horror. Muito comum é a utilização do Yurei ou fantasma, nomeadamente, na sua forma vingativa -, o onryo. Mas se mencionarmos nomes como Kayako ou Sadako, mais depressa os vossos cérebros se iluminarão. É então o onryo, o elemento desestabilizador, aquele que nos faz, após uma noite de cinema de j-horror, perscrutar com um olhar mais atento que o costume, todos os cantos de um quarto para verificar se está tudo bem. Isso e acendermos as luzes antes de entrarmos numa nova divisão.
“Rattle Rattle” ou em japonês Kata Kata, parece, devido à sonoridade uma curta-metragem cómica, no entanto, esta primeira impressão não podia estar mais errada. Vide o trailer e apreciai os gritos histéricos de uma das personagens.
Os créditos introduzem um casal, dentro de um carro envolto na noite. Akira (Kousuke Toyohara) e Kanako (Noriko Nakakoshi) conspiram numa aura de pecado. Eles pretendem casar mas persiste um obstáculo à sua inteira felicidade: Akira é casado. Será que a mulher lhes vai levantar problemas? Ou terão de continuar a encontrar-se na noite? É na escuridão que Kanako, regressando a casa ouve um chocalhar. Bem acima de si, um som estranho e enervante. Som desumano. De algo que não é deste mundo? Algo súbito e repentino precipita-se sobre ela e Kanako perde os sentidos. Quando recupera a consciência, com pouco mais do que um corte e atordoada regressa ao apartamento de solteira. Começa então o pesadelo. Uma mulher de vermelho persegue-a e tenta matá-la! Incrivelmente, não existe ninguém naquela cidade. Apesar da moça gritar a plenos pulmões.
Yurei é a desconstrução da mulher a estado primitivo. O monstro de vermelho possui uma única vontade e esta é a de destruição e não há conversa ou tentativa de o fazer reconsiderar que resulte. O Yurei de Keita Amemiya é uma parábola de como a maldade interior se transforma em fealdade exterior, tornando-se pois, cada vez mais horrendo à medida que procede a atacar a inocente Kanako. Embora o objectivo deva estar muito longe de se pretender induzir a tais reflexões. A narrativa é confusa mas nem por isso original. É uma encarnação de truques que já vimos, com algumas imagem gerada por computador e cenários apetecíveis. De resto, é uma aposta sólida em medos que já demonstraram atrair as massas ao cinema e, por isso, a escolha ideal para a introdução a uma antologia de terror. “Rattle Rattle” é a curta mais emblemática de “Unholy Women”. Isto, com especial enfase na palavra “emblemática”, que para assistir ao melhor segmento das três curtas-metragens temos de aguardar por “Hagane”. Três estrelas.

Realização: Keita Amemiya
Argumento: Keita Amemiya
Noriko Nakakoshi como Kanako Yoshizawa
Kousuke Toyohara como Akira Tasaki
Yuuko Kobayashi como Katakata

Próximo Filme: Curta #2: "Unholy Women - Hagane" (2006)

quarta-feira, 7 de março de 2012

"Haunted Village" (Arang, 2006)

O cinema sul-coreano sempre teve um fraquinho por mistérios. Grandes detectives forjados num cenário de tragédia pessoal desbravam caminho por entre os casos mais difíceis, até à sua resolução. So-young (Yun-ah Song) é uma detective determinada e perspicaz assombrada pelo passado, que a compele a entregar-se de corpo e alma a cada novo caso.

Depois de um período de suspensão por deixar as suas emoções levarem a melhor sobre si, num caso de violação, So-young regressa ao activo para investigar as mortes de uma série de homens que começam a surgir brutalmente assassinados. Todas as vítimas parecem ter ingerido ácido. Mais estranho ainda, todos eles, velhos amigos de infância receberam o mesmo e-mail antes da sua morte. Este contém um link que encaminha os internautas para uma página gerida por uma bela jovem e uma casa de sal. Em conjunto com um novo parceiro Hyun-ki (Dong-wook Lee), So-young faz uma viagem ao meio rural para encontrar a casa de sal e compreender, se existe uma ligação entre os dois eventos. “Arang” é uma sucessão de erros e lugares-comuns. Uma das cenas inicias é a de um casal no dia do seu casamento, rodeado de amigos prestes a tirar a fotografia da praxe. Os meus neurónios efectuaram logo uma ligação directa ao “Shutter” (2004). E sabem que mais? Não está muito longe. Ao longo de “Arang”, temo dizer que esta sensação é recorrente.
A novela detectivesca pode ser recuperada a outros filmes e como não podia deixar de ser, existem elementos sobrenaturais, nomeadamente, a mulher de longos cabelos negros com mau feitio.
“Bestseller” (2010), é uma cópia tirada a papel químico de “Arang” com a vantagem de ser mais eficaz e a desvantagem de ter estreado quatro anos mais tarde. Também a comparação entre as duas actrizes principais é inevitável e nesse campo, “Arang” fica a perder. Não é que Yun-ah Song não seja competente mas o que não faltam nestas produções são actrizes competentes e Jeong-hwa Eom é excelente. Além disso, a imagem da tecnologia como meio portador da morte está por demais desgastado. “Pulse" (2001), “Ring” (1998) e “The Grudge” (2008), pertencem definitivamente ao manual de assombrações do realizador Sang-hoon Ahn.
A dinâmica entre a dupla de detectives é boa, não sendo levado ao extremo o polícia novato vs. Polícia veterano. A sua relação também está no centro da maior reviravolta de todo o filme.
No entanto, apesar da peculiaridade das mortes que dão inicio à trama o caminho para a sua resolução nada tem de extraordinário. A linha de investigação resulta mais de saltos ilógicos que do seguimento de pistas à semelhança de uma verdadeira inquirição policial. Quando So-young decide, realizar uma intervenção cirúrgica de improviso ao cadáver do cão de um dos mortos, é surreal. Desde a justificação desta acção ao modo como a própria cirurgia é realizada, é tudo demasiado fantástico para ser verdade. Tipo, quantos procedimentos de segurança e higiene quebraram logo ali? Uma prova obtida por tais meios alguma vez teria admissibilidade em julgamento? E imagine-se só, eles encontram um vídeo entre o conteúdo do estômago da criatura. Uau. Que poder de dedução extraordinário. Para mais, o vídeo encontra-se em óptimas condições. Os ácidos no estomago do bicho não chegaram a corroer a prova nem nada. Espectacular.
Mas talvez o aspecto mais surpreendente num filme como “Arang” em que existem cenas tais como: “embora autopsiar um cão, sem instrumentos cirúrgicos por que tenho um palpite”, a película mantém a seriedade e prende a atenção do espectador. É interessante seguir So-young perseguir um caso que lhe está tão próximo do coração e vê-la conter-se para não perder a frieza analítica de detective para levar o seu empreendimento até ao fim. Como Ícaro ela quer voar cada vez mais alto, mas com a prudência recém-adquirida de quem não quer perder os ventos favoráveis de Zéfiro e cair do céu. “Arang” tem suficientes argumentos para não se deixar cair na tentação de seguir os truques de uma vintena de filmes que lhe antecederam o que, infelizmente, não acontece. Em última análise, “Arang” acaba por adoptar uma via feminista, da mulher que faz justiça pela mulher que não se pode defender e da mulher que pode ser fraca mas escolhe não ser uma vítima. E o desenlace podia ter sido verdadeiramente especial se o cineasta se tem quedado pelo encerramento do caso de polícia. Não. Por algum motivo, (atenção, spoiler), a assombração não morre com o caso e toma como sua vendetta pessoal as ofensas a So-young, deixando o caminho aberto para a sequela que, até hoje, não se materializou. E como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio. Duas estrelas.


Realização: Sang-hoon Ahn
Argumento: Sang-hoon Ahn, Seon-ju Jeong, Jeong-seob Lee e Yun-kyung Sin
Yun-ah Song como So-young
Dong-wook Lee como Hyun-ki


Próximo Filme:  "Doll Master" (Inhyeongsa, 2004) 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Lake Mungo", 2008

A querida, precoce Alice de 16 anos era a princesinha dos olhos dos seus pais. Ela foi abençoada com todas as qualidades que os pais extremosos vêem nos filhos. Linda, estudiosa, sociável e até já tinha namorado. Ela não seguia ninguém, ela é que era a rapariga popular, uma líder natural. Um dia, durante um piquenique familiar, foi nadar e não voltou mais. Assim, começa o pesadelo de qualquer pai. Mas a morte é apenas o início. Meses depois da sua morte, Alice parece tão presente como quando estava viva. Os Palmer estão numa profunda depressão e os indícios de Alice nos vislumbres, nos cheiros e nas impressões em tudo quanto tocou em vida, são demasiado fortes para ignorar. Os pais estão por demais fragilizados e mandam exumar o corpo. “É Alice. Ela morreu. Ela ainda está connosco.” Matthew (Martin Sharpe), o único filho sobrevivente dos Palmer, decide montar câmaras na casa e captar o que acreditam ser as manifestações de Alice, além-vida. O que descobrem deixa-os chocados. Eles irão descobrir que Alice, a sua querida Alice, escondia segredos e podia não ser a menina que todos julgavam.
Está dado o mote para o falso documentário de Joel Anderson. Insisto que suspendam por um momento as evidentes associações mentais a “Blair Witch Project” (1999) e “Paranormal Activity”(2007) e entrem neste esquema de mente aberta. A obra de Anderson está mais perto de Lynch em “Twin Peaks” (90-91) do que dos filmes de found footage anteriormente mencionados. Não é por acaso que a família se chama Palmer e muito menos coincidência será que acompanhemos o rumo dos que a rodeavam, como forma de obter o retrato psicológico de Alice. Ela não é nenhuma Laura mas estava tão perdida quanto ela. Do mesmo modo se pode encontrar semelhanças em “Shutter” (2004), com o mesmo fervor da esperança de “um fantasma dentro da máquina”. Em última análise, são estas duas fontes de inspiração, simultaneamente, as suas maiores forças e fraquezas. “Lake Mungo” deseja ser um filme de fantasmas ou um drama familiar sobre a perda?
 “Lake Mungo” não é um filme feito a partir de um vídeo que foi encontrado relatando fenómenos do paranormal que afectaram todos os envolvidos para nunca mais serem encontrados… Esse tema já era, por favor. A narrativa de “Lake Mungo” foca-se nos que sobrevivem a Alice e ao modo de lidar com a sua morte. Filmado estilo documentário para televisão, assistimos ao desmoronar e tentativa de reconstrução de uma família que sofreu uma perda inimaginável. São efectuadas entrevistas aos pais, irmão, amigos e conhecidos de Alice que vão descrevendo os seus últimos passos e estado de espírito antes do acidente. Estes momentos sérios, emocionais até, sobretudo após as declarações da mãe June (Rosie Traynor), são intercalados com os vídeos caseiros onde se vê uma Alice alegre. Existe mais do que uma reviravolta no argumento, incluindo a entrada em cena de um médium com um papel mais relevante do que à partida se supunha. Steve (Ray Kemeny) é capaz de ser o médium mais realista alguma vez retratado em tela. E ele ajuda a desvendar o mistério que envolve Alice do modo mais terreno possível. Mas tudo isto é tolerável. Noutro filme, o cineasta podia cair na tentação de exagerar mas, Joel Anderson, não se afasta um milímetro do estilo documentário, por oposição a um qualquer pretensiosismo cinematográfico. O elenco, composto sobretudo por desconhecidos é globalmente bom. Todos eles desempenham os papéis mais difíceis para um actor: representar que não estão a actuar. A naturalidade dos desempenhos surge tão fácil que qualquer pessoa que não saiba que “Lake Mungo” é um filme, julgará estar a ver um documentário real. Rosie Traynor é a maior força do filme, por todas as reviravoltas e subenredos cada vez menos credíveis, a sua June Palmer, que alterna entre aturdida e dormente é um grande retrato de uma mãe em sofrimento. Evita todos os tiques e os lugares-comuns associados a tão grande emoção. Traynor transmite uma calma e, por vezes, uma ausência, aquela de quem se perde no horizonte e não consegue, ainda hoje, retirar sentido do que sucedeu. E por fim, a tragédia, por realizar que não conhecia a filha como julgava, que a sua menina se sentia perdida e por ter falhado na sua protecção. Todas aquelas falhas e todos os “e se” com que nos deparamos quando já é tarde demais.
A acompanhar o elenco sólido está um trabalho magnífico de sonoplastia e do compositor Dai Peterson, cuja subtileza contribui grandemente para a construção da tragédia.Esta é apenas acentuada pela sugestão de assombração, embora a película reúna, durante os 87 minutos de duração, uma aura misto de assustador e desconcerto. “Lake Mungo” não é um filme fácil. A morte de uma adolescente assombrada pelos seus próprios demónios, não é nenhuma matiné da tarde. O epílogo pode mesmo provocar o ressentimento ou até revolta da audiência perante as opções do cineasta. Um conselho: façam uma introspecção sobre o que valorizam em cinema. Desejam finais felizes ou finais que vos façam reflectir? Quatro estrelas.

Realização: Joel Anderson
Argumento: Joel Anderson
Rosie Traynor como June Palmer
David Pledger como Russel Palmer
Martin Sharpe como Matthew Palmer
Thalia Zucker como Alice Palmer
Steve Jodrell como Ray Kemeny

Próximo Filme: "The Cut" (Haebuhak-gyosil, 2007)

domingo, 22 de janeiro de 2012

"Ring" (Ringu, 1998)

Atmosfera é com toda a certeza, uma das palavras mais utilizadas pelos críticos de cinema. Serve para descrever uma indefinição, neste caso, algo que se sente. Lembro-me de o crítico de cinema Scott Weinberg (Twitch Film, Fear.net, etc.) discorrer numa rede social, sobre o facto da palavra atmosfera se ter entranhado de tal modo no léxico dos críticos que qualquer acontecimento serve para a utilizar. Certamente, já viram os famosos one-liners de publicações mais ou menos conhecidas nas capas dos posters e DVD’s que apregoam: “Uma Atmosfera Pesada” ou uma “Atmosfera Atemorizante!” Como se nunca tivéssemos lido aquilo antes ou constituísse um argumento para se visionar a obra em causa. Conheço bem a questão, contribuo para a banalização da palavra, para a propagação da ideia… Textos anteriores são a prova disso. No entanto, por vezes, surgem filmes nos quais as palavras mais banais são as mais correctas. Nem sei como começar por vos explicar como “Ring” (1998) (sobre)vive tanto da atmosfera…
Desde o início dos créditos iniciais, até ao momento em que surgem duas adolescentes na tela, que algo nos diz, o instinto se desejarem, que algo não está bem. O sentimento de opressão não é reduzido pelo facto de vermos duas jovens a rir e a partilhar mexericos. Uma delas principia a contar um rumor, daqueles que se ouvem na escola, contados por terceiros, que também não sabem quem contou a história inicial. Supostamente existe uma cassete VHS, cujo conteúdo mata quem a vê, dentro de 7 dias. Por entre sorrisos, a contadora de histórias admite que já a viu. Elas trocam um olhar perscrutador. O telefone toca.
Reiko Asakawa (Nanako) entra em acção. Ela é uma repórter. A curiosidade está-lhe no sangue e este ferve quando descobre que a sobrinha Tomoko (Yuko Takeuchi), que faleceu recentemente em circunstâncias suspeitas terá visto o vídeo. Ela entra no mundo dos jovens, onde os mitos urbanos e as superstições são um lugar-comum.  Em paralelo com a sexualidade, são explorados os mistérios da vida e da morte e predomina uma vontade de impressionar os amigos com histórias de arrojo. E nessa senda de ser o “puto mais fixe” do grupo adoptam atitudes perigosas, irresponsáveis e irreflectidas. Desafiam-se a fazer o jogo do copo (tábua ouija), incitam-se a olhar ao espelho e invocar espíritos, desafiam-se a visualizar cassetes amaldiçoadas… Reiko, não quer ficar de fora, o desejo de saber é mais forte que ela e a investigação leva-a a um hotel na província onde encontra a dita cassete. O que vê é desconcertante. Depois o telefone toca e a realização de que a maldição é verdadeira. O medo instala-se e recruta o ex-marido Ryuji (Hiroyuki Sanada) para a ajudar a quebrar a maldição. Quando Reiko surge pela primeira vez no ecrã transmite uma aura de despreocupação e desprendimento face ao filho Yoshi (Rikiya Otaka). Assim, que se apercebe da sua iminente mortalidade e, por que os pais não conseguem controlar o que os filhos fazem, Yoshi vê a cassete, a fachada cai. Agora, desvendar o mistério deixa de ser imprescindível, é vital. Seguimos Reiko e Ryuji numa investigação cujas conclusões não são necessariamente as mais lógicas, até esbarrarem na história de uma médium poderosa que habitava uma comunidade piscatória.
Em toda a honestidade, dificilmente se encontra uma sinopse mais estúpida: uma cassete que a mata quem a vê em 7 dias? Além de que por estes dias, está desactualizada, já ninguém possui cassetes VHS. O número de vítimas mortais é, na melhor das hipóteses, diminuto. Por isso, estime-se a capacidade de Hiroshi Takahashi em adaptar o livro de Koji Suzuki e a mestria do realizador Hideo Nakata para tornar um absurdo no filme de terror japonês mais rentável de sempre.
Ao voltar a ver “Ring” descobri que confundia alguns conceitos do original e o remake “The Ring” (2000), de Verbinski. O vídeo amaldiçoado da versão americana é claramente mais assustador e permite retirar mais pistas sobre a origem do fenómeno do que o vídeo original. Mas é na atmosfera (lá está a palavra), que a nova versão perde. No remake é possível destrinçar os momentos de alívio dos aterradores. Em “Ring” a atmosfera é singularmente opressiva. Mesmo numa cena banal, na qual Reiko perscruta o horizonte de uma janela, permanece a sensação de que se vai precipitar um acontecimento qualquer conducente a um grande susto. A acompanhar está a banda-sonora subtil, do veterano Kenji Kawai ["Ghost in the Shell" (1995), "Ip Man" (2008)], que se distingue dos habituais momentos “Tcharan” de uma nota grave de piano desconcertado.Outra força do filme original é a dinâmica entre Reiko e Ryuji. Ele é a força dominante, pragmático, sempre seguro, o porto de abrigo perfeito para a frágil Reiko. Esta dupla sempre é mais plausível do que a “The Ring”, onde me custa a acreditar que o pai de uma criança nascida de uma relação casual se oferecesse para se tornar um cavaleiro andante. O mais provável seria à vista da mãe da criança fugir para não lhe acenarem com as despesas do puto e coisas que tais. “Ring” também trouxe um interesse renovado sobre a tecnologia e os seus perigos para o ser humano. Claro que sempre num sentido figurado: muitas horas na TV deixa-nos tipo zombies, atrasa o desenvolvimento, impede a socialização, etc. Até então, pouco se tinha reflectido no ecrã como interveniente no mundo físico e transmissor da morte. Esta é encarnada na figura mais improvável: Sadako, uma rapariga frágil, um “onryo” japonês. Independentemente, da opinião que se tenha de “Ring”, ele tem um lugar na história e os seus méritos ainda se irão propagar no tempo. O filme teve um efeito propagador e reprodutor dos medos provenientes do folclore japonês, com inúmeras sequelas, remakes e filmes nele inspirados e séries lucrativas a surgir apenas devido à sua influência. Isto significa que ainda teremos de ver muitas rapariguinhas de cabelo desalinhado e aparelhos tecnológicos amaldiçoados, até o interesse desvanecer. O efeito “Ring” propaga-se no futuro mas no imediato reside uma questão bem mais importante. Assusta? Vi “Ring” à noite na escuridão. E conseguir arranjar coragem para acender a luz depois de o ver? Quatro estrelas.

Realização: Hideo Nakata
Argumento: Hiroshi Takahashi e Koji Suzuki
Nanako Matsushima como Reiko Asakawa
Hiroyuki Sanada como Ryuji
Rikiya Otaka como Yoshi
Yuko Takeuchi como Tomoko

Próximo Filme: "Echoes of the Rainbow" (Sui yuet san tau, 2010)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Three - Curta #3: Going Home" (Saam Gaang, 2002)

Depois da recepção gelada que as primeiras curtas-metragens da antologia de terror "Three" obtiveram, a vontade de visionar "Going Home" encontrava-se poucos graus abaixo de zero. Não fosse a companhia e teria ficado "satisfeita" por ter visto duas em três o que constituiria um grande erro. Como se costuma dizer: "o melhor fica para o fim". "Going Home" é uma peça tocante sobre Wai (Eric Tseng) que se muda com o filho Cheung (Ting-Fung Li), para um antigo complexo de apartamentos que irá ser demolido dentro de pouco tempo. Não é pois de estranhar que o seu filho impressionável pense que o edifício está assombrado. Um dia, este segue uma rapariguita de vermelho que costuma brincar no complexo e desaparece. Inquieto com o desaparecimento do filho, Wai bate à porta do seu único vizinho Yu (Leon Lai) e tropeça numa história rocambolesca. Yu tem dedicado a sua vida a cuidar da sua mulher Hai’er (Eugenia Yuan) que matou há três anos! E agora, acreditem nisto, Yu continua a banhar, cortar o cabelo e as unhas da mulher, a passeá-la e a falar-lhe ternamente como se estivesse viva. Só num filme certo? Mas Yu nada tem de psicopata, ele é digno de compaixão, envolvido na ilusão que ele próprio criou de que a esposa irá acordar dentro de dias. A grande força de “Going Home” reside na subtileza do desempenho de Lai e na sua força comedida que fazem questionar se ele estará mesmo louco, ou se realmente encontrou uma solução mágica para a vida depois da morte. Por contraposição, temos um Eric Tseng quebrado perante a sua própria impotência face à ausência inexplicável do filho. Dois modos interessantes de lidar com a perda que podiam ser ainda melhor explorados não fosse esta uma curta. Apesar de eficaz, “Going Home” não está isenta de falhas. O desaparecimento de Cheung despoleta a acção mas, durante mais de metade do filme, não voltamos a ele. É como se o seu desaparecimento fosse apenas uma desculpa para nos introduzir à vida de um vizinho louco. E por muito interessante que seja explorar a "relação unidireccional" de Yu com a mulher, temos sempre presente que uma criança está desaparecida e queremos uma resposta para o mistério. O início também é enganador, com as pistas de que vamos assistir a um thriller sobrenatural a revelarem-se infundadas. Tanto melhor, o mistério sobrenatural como o conhecemos já há muito devia ter caído em desuso. “Going Home” é a obra mais compensadora de “Three” e aquela que podia (devia!) ter sido perscrutada mais profundamente numa longa-metragem. O lirismo da narração e da cinematografia de Christopher Doyle que foi responsável por algumas das obras mais belas na sétima arte como “Hero” (2002) e vários filmes de Wong Kar Wai, a par dos bons desempenhos dos actores, merecem que vejam com a maior urgência esta curta-metragem! É daquelas pequenas pérolas que fazem uma pessoa apaixonar-se de novo pelo cinema. Imperdível. Quatro estrelas.


Realização: Peter Chan
Argumento: Peter Chan, Matt Chow, Jo Jo Yuet-chun Hui e Chao-Bin Su
Leon Lai como Yu
Eric Tseng como Wai
Eugenia Yuan como Hai'er
Ting-Fung Li como Cheung

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Three - Curta #1: Memories" (Saam Gaang, 2002)

“Three” é a colaboração internacional de terror que deu origem à bem mais conhecida sequela “Three…Extremes” (2004). A ideia para a antologia adveio de Peter Chan do cinema de Hong Kong que convidou Nonzee Nimibutr da Tailândia e o sul-coreano Jee-woon Kim a emprestarem os seus dotes de realização ao esforço colectivo. A atenção internacional por “Three” veio quando “Three…Extremes” estourou nos cinemas por todo o mundo e renovou o interesse no primeiro filme que seria depois, estupidamente, denominado na América de “Three… Extremes II”  por estrear após a sequela. Resolvi ignorar este absurdo e manter a denominação original.
Se há curtas que podiam ser sumarizadas num tweet é “Memories”, a primeira curta-metragem realizada por Jee-woon Kim. Como não sou fã de spoilers, fico-me por um sumário da história: um homem (Bo-seok Jeong) consulta um psiquiatra (Jeong-Won Choi) relativamente ao desaparecimento da mulher uns dias antes. Ele não tem nenhuma recordação dos momentos que antecederam o evento. Entretanto, ela (Hye-su Kim), acorda amnésica noutro lado da cidade e tenta lembrar-se como poderá regressar a casa onde quer ela seja. Aos poucos, ambos começam a recordar os acontecimentos que os levaram àquele ponto… Jee-woon Kim, não é um ilustre desconhecido. É "apenas" o realizador de um marco no cinema de terror coreano: "A Tale of Two Sisters", rodado um ano depois desta curta. E a julgar por este esforço não posso dizer que alguém conseguisse antever o sucesso deste realizador. "Memories" sofre de males como a previsibilidade do enredo e duração excessiva. Se passados dois minutos ainda não tiverem tecido uma hipótese (a mais provável), sobre o que sucedeu aconselho-vos a lerem mais vezes as notícias. A duração está totalmente errada, visto que em cinco minutos a história seria facilmente contada. Não estou a brincar, o enredo é assim tão básico. Suponho que a conversa com Peter Chan se deve ter desenrolado nesta linha: "Consegues desenrascar-me uns 40 minutos de filme?" E pronto. Temos a perspectiva dos dois personagens, o homem e a mulher, ambos a tentar recordar os dias anteriores, uma série de flashbacks, algumas interacções que não contribuem para grande coisa excepto para preencher o tempo e uma tentativa falhada de levar a história para o campo do sobrenatural. Divertem-me as longas sequências de acção zero, qual Manuel de Oliveira. Dois, três minutos a focar a ausência de acção não é artístico, é aborrecido. "Memories" podia ter sido denominada "Insónia", por que os seus longos 40 minutos soam a duas horas de um programa zen. Uma cena de perseguição (alguém me explica o sentido daquilo por favor?) e a cena em que a mulher enfia o dedo na cabeça são as únicas emoções fortes a que a audiência tem direito. A nível visual, "Memories" é a experiência mais interessante da antologia. Mas num mundo ideal, as obras são sustentadas por pouco mais do que apenas os aspectos visuais. Muita parra, pouco sumo. Uma estrela e meia.
Realização: Jee-woon Kim
Argumento: Jee-woon Kim
Elenco:
Bo-seok Jeong como Homem
Hye-su Kim como Mulher
Jeong-Won Choi como Psiquiatra

PS: Quero aproveitar para fazer um pequeno lembrete. Na barra lateral direita, por debaixo da caixa de pesquisa há uma caixa com o título "Inscrever-se". Experimentem. É simples, rápido e a subscrição permite receber um aviso com as novas actualizações do blogue. Se não houver novidades este não aparece e escusam de perder tempo de navegação.

Próximo Filme: "Karak" 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

O que se passou neste filme foi mais na linha de "Olha que truque giro" do que propriamente, "Sujei as calças", com o terror, estão a ver? Este thriller sobrenatural de Sung-ho Kim que também escreveu o argumento foi o tal que inspirou não tão vagamente assim o filme "Mirrors" (2008), com Kiefer Sutherland e o inferior "Mirrors" 2. Em "Into the Mirror", o ex-polícia Yeong-min (Ji-tae Yu) é obrigado a pedir ao tio emprego no seu centro comercial, depois ter sido expulso da força no seguimento de uma situação de reféns que terminou com o seu parceiro a ser assassinado à sua frente. Atormentado pelo passado, Yeong-min refugia-se no álcool e numa existência solitária. É um caso óbvio de arte a imitar a vida real no caso de Kiefer Sutherland. Bom casting! Adiante, num cargo claramente inferior às suas capacidades, o agora segurança de centro comercial passa os dias a visualizar as câmaras da loja. Uma noite, uma funcionária deixa-se ficar até tarde para se dedicar a pequenos roubos e na manhã seguinte é encontrada morta. Isto dá origem a uma investigação policial que leva Yeong-min a cruzar-se com um antigo colega que o despreza. Com uma segunda morte a suceder em menos de nada e a pressão do seu tio para reabrir o centro comercial, Yeong-min é obrigado enfrentar as suas inseguranças. Na resolução deste caso, estará a sua redenção e a realização de que afinal, Yeong-min ainda é um bom polícia.
Ah e tal, tudo bastante seguro, prevísivel até, no entanto, há uns pontos que me atormentam deveras. Desculpem lá qualquer coisinha, mas qual é a pessoa que fica num centro comercial, durante a noite, sozinha? Mais, quem é que depois de ver e ouvir vislumbres e sons estranhos ao invés de se dirigir à saída mais estranha ainda fica por lá? Ah e depois de roubar, os ladrões têm algum tipo de fetiche por exibir calmamente os objectos desviados? Pelos vistos... Yeong-min não é melhor. Durante mais de metade do filme, ele não faz nada de útil, excepto andar a sofrer pelos cantos. Ok, o passado atormenta-te, blá, blá, blá, agora recompõe-te e faz alguma coisa, sei lá, vigiar o centro que é para isso que és pago! Mesmo que a Yeong-min estivesse somente destinado o papel de segurança da loja, o seu desempenho é fraquissímo. Depois da segunda morte, Yeong-min devia ter sido logo despedido pelo tio. Se uma morte é má publicidade, duas demonstram uma inépcia gritante. Além disto, Yeong-min começa a mandar bitaites sobre o envolvimento dos espelhos nas mortes. Assumindo, que o absurdo é real, ele não apresenta provas que sustentem os seus argumentos nem faz mais do que deambular pelos corredores deprimido. Como se uma morte não fosse de suma urgência para ele acordar para a vida e ajudar a solucionar o caso. Por contraste, há o tal polícia que o despreza e que é suposto antipatizarmos mas com um herói tão mole é díficil dizer qual dos dois o pior. Atire-se para o meio um mistério sobrenatural e uma conspiração e temos a história do filme em linhas gerais. Infelizmente, os espelhos podiam ter tido um enfoque ainda maior.
Veja-se o titulo, "into the mirror", podia ter sido mais explorada a hipótese da existência de uma outra dimensão ou até uma fragmentação de personalidade. Não se pode dizer que a originalidade do argumento seja o ponto forte da história. O rítmo é lento, e podiam ter sido cortados uns bons 20 minutos de película que não servem para nada. O que o filme faz é deter-se demasiado no pathos de Yeong-min que é algo que se estabelece nos instantes iniciais do filme. Tudo o mais é bater no ceguinho. O melhor da película está nos efeitos criados em torno dos espelhos, com uma série de truques que servem alternamente as vezes de efeitos de infinito, profundidade e ilusões de óptica. Efeitos engraçados? Sim. Assustadores? Nem por isso. Para isso vejam o "Mirrors" com o Sutherland. Duas estrelas.

Realização: Sung-ho Kim
Argumento: Sung-ho Kim
Ji-tae Yu como Yeong-min Woo
Myung-min Kim como Hyeon-su Heo
Hie-na Kim como Ji-hyeon Lee / Jeong-hyeon Lee

Próximo Filme: "Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

domingo, 9 de outubro de 2011

"Body #19" (Body sob 19, 2007)

Quando penso em "Body #19", duas palavras vêem-me à mente: espectáculo e grotesco. Espectáculo como em: "Esta cena até está porreira" e grotesco do género: "Que nojo!É horrível, é repugnante!" (digo, enquanto cubro os olhos).

Chonlasit (Arak Amornsupasiri) é um estudante de medicina que começa a ter pesadelos horríficos, nos quais uma mulher é morta e esquartejada. Isto não seria nada demais se os sonhos não se estivessem a transpôr para a realidade e uma versão aviltante da morta não começasse a matar aqueles que Chon contacta. À medida que os eventos se começam a tornar demasiado perigosos, Chon começa a duvidar da sua própria sanidade mental e decide investigar a morte da mulher. Os posters do filme apresentam bons argumentos para se ver o filme: "Body #19" é do mesmo estúdio que nos trouxe Shutter (2004) e Alone (2007) e parece que é baseado no caso real de um médico ginecologista que matou a sua mulher, a esquartejou e mandou os seus restos pela retrete abaixo. Visão bonita, certo? De qualquer modo, a expressão "baseado em factos reais" sempre conseguiu levar muito boa gente a correr aos grandes écrãs. O realizador, Paween Purikitpanya não é nenhum novato aqui para os nossos lados. Ele esteve por detrás dos segmentos "Tit for Tat" e "Novice" em "4bia" (2008) e "5bia" (2009), respectivamente. Já o actor principal é o guitarrista de uma banda rock conhecida lá para os lados da Tailândia.
O grande problema de "Body #19" é o fracasso na concretização. A narrativa é muito complicada de seguir. O desejo de imprimir originalidade a uma velha história ao invés de tornar o filme refrescante só consegue confundir os espectadores. Mesmo com toda a atenção dedicada ao filme é demasiado fácil perder-se o fio à meada. Qual era o objectivo dos argumentistas? Explorar as motivações das personagens ou abordar o terror de modo brutal e sem censuras? Não se consegue perceber. A este problema fundamental acresce o facto de estarmos constantemente a saltar entre dimensões: ora passamos do sonho para o real e vice-versa, ora real e sonho se confundem ou afinal, não é uma coisa nem outra e o que estamos a ver são flasbacks! De resto não existe grande originalidade. É apenas a história do monstro destruidor que nos aponta o caminho para a solução. Em "Body #19", se seguirmos as pistas que nos são apresentadas e retirarmos as reviravoltas, com o que ficamos é um enredo que não tem nada de surpreendente. Mesmo as personagens não são likeable. Nunca se cria uma afinidade com Chon nem existe vontade de torcer por ele. As personagens passeiam-se no écrã, por que sim.
Onde "Body #19" sucede é na apresentação do macabro e do grotesco como o título e o poster desejam adivinhar. Apesar de as imagens geradas por conputador tenderem mais para o artificial do que para o realista, estão bastante fortes. Há cenas deliciosas para quem sabe lidar com o choque e o profundamente repugnante. Mas também fora do elemento digital a equipa técnica dá cartas: a cena do esquartejamento em particular, está maravilhosa em toda a sua glória perturbadoramente realista. A câmara desempenha ainda um papel importante na construção de uma atmosfera atemorizante: sempre que possível há uma perspectiva dos personagens vista de cima ou de baixo. Quando os sustos se aproximam, esta perspectiva ajuda a fortalecer ainda mais a visão do que vai acontecer. Noutras é somente acessória. Enfim, com uma história complicada de seguir, personagens com os quais não se consegue simpatizar e onde apenas sobressaem os méritos técnicos, "Body #19" torna-se dificil de apreciar, mesmo quando aposta no que há de mais perturbador. Duas estrelas.
Realização: Paween Purikitpanya
Argumento: Chukiat Sakveerakul e Paween Purikitpanya
Arak Amornsupasiri como Chonlasit
Ornjira Lamwilai como Ae
Kriteera Inpornwijit como Usa
Patharawarin Timkul como Dararai
Próximo Filme:  "The Lost Bladesman" (Guan Yun Chang, 2011)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"The Detective" (C+ jing taam, 2007)

Não faço a mínima ideia sobre o que é "Me Panda" e se forem ver o videoclip, como eu fiz, o mais provável é ficarem tão confusos quanto eu mas a música é infecciosa e fica no ouvido. É assim que começa "The Detective", (em cantonês qualquer coisa como detective de baixa categoria), com uma pequena música viciante e uma breve perspectiva das ruas de Banguecoque. Oxide Pang, mais conhecido por ser metade da dupla famosa dos irmãos Pang responsáveis por filmes tão bons quanto maus, situa a acção num cenário comum a muitos dos seus filmes, em Banguecoque, neste caso, no bairro chinês de Chinatown. Somos rapidamente apresentados a Tam (Aaron Kwok), um detective com um gosto muito, mas mesmo muito duvidoso, no que toca a camisas que mais parecem ter sido emprestadas por alguém dos anos 70. Ele dedica-se à investigação de pequenos casos de adultério que não rendem o suficiente para sobreviver durante muito tempo. Se não tivesse uma visão tão limitada, como diz o seu amigo polícia Chak (Kai Chi Liu), Tam teria sido polícia e não estaria com constantes problemas financeiros. Não concordo, se há coisa que Tam demonstra é iniciativa e uma excelente capacidade para o bom velho desenrascanço que pode não ser a atitude mais correcta a todo o momento mas traz resultados. Num dia igual a muitos outros, Tam é confrontado com Lung (Shing Fui-On), um homem convencido que uma mulher chamada Sum (Natthasinee Pinyopiyavid) o está a perseguir e o quer matar. Após uma oferta generosa de Lung, Tam aceita reluntantemente o caso. O que seria um caso fácil à partida torna-se um denso mistério, à medida que Tam se começa a deparar com mortos e mais mortos. A sério, Tam mais parece um Doutor Morte. É que tem o condão de aparecer sempre nos locais onde alguém morreu ou irá morrer.
Desta vez não me vou pôr a barafustar com Oxide Pang e em como ele, mais uma vez falhou o alvo por que de fracasso, "The Detective" não tem nada. Começa à boa maneira noir de um filme de detectives, com o habitual cliente a entrar pela porta e a trazer consigo um grande mistério. Não aqui nada de original mas a história é envolvente. Já tinha dito como adoro um bom thriller detectivesco? Ora aí está. Aaron Kwok está convincente no papel de detective pouco perspicaz, o que lá está, não concordo nada já que ele guarda uma série de truques giros e uma capacidade de dedução bastante razoável. Em toda a honestidade, "The Detective" é um veículo para lançar a carreira de Kwok. Ele demonstra a sua capacidade dramática através de um breve e pouco desenvolvido subenredo sobre o desaparecimento dos seus pais. E mais, likeable como é, deixa a porta aberta para se fazerem uma série de aventuras do detective Tam.
Pois que já vamos em 2011 e Pang acabou de completar o segundo filme que, ao que parece, tem tido críticas razoáveis pelo que não há razão para pensar que não possa existir um terceiro filme. (Estou tão entusiasmada com a possibilidade de ver a sequela que não caibo em mim de contente, a sério). Quanto a este, o argumento não é nada de extraordinário embora, tenha os habituais twists de um dos manos Pang, que acabam por ser compensadores. Achei apenas o epílogo longo e desnecessário. A audiência não é tão pouco perspicaz que necessite de uma longa explicação para compreender o rumo dos acontecimentos, nem o argumento é confuso na apresentação de soluções.
Também a atmosfera é envolvente. Entre momentos frenéticos, filtros amarelos e as ruas densas e sinuosas da Tailândia, temos caso. Faz sentido, o trabalho de um detective não é glamoroso e Oxide transporta os poucos momentos de verdadeira acção para as ruas sujas e ruídosas de Banguecoque com uma supreendente atenção para os detalhes. Depois, se não temos acção temos o trabalho intelectual, com Tam a captar todos os lugares e momentos na sua câmara fotográfica (publicidade descarada à Nokia para a qual, já agora, estou a contribuir e nem sequer recebo por isso!) e escreve no seu quadro a giz, todas as pistas que vai recolhendo. Se gostam de ver filmes de detectives ondem competem com o herói para ver quem descobre primeiro a solução, só essa razão chega perfeitamente para ver "The Detective". Se não, vejam na mesma porque o produto final é empolgante e envolvente. Três estrelas e meia, sem peso na consciência e sem discussão.

Realização: Oxide Pang
Argumento: Oxide Pang e Thomas Pang
Aaron Kwok como detective Tam Chan
Kai Chi Liu como polícia Fung Chak
Siu Ming Lau como Tio Cheung
Natthasinee Pinyopiyavid como Sum
Shing Fui-On como Lung/Choi

Próximo Filme: "Visit" (Dalaw, 2010)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

"4bia" aka "Phobia" (สี่แพร่ง ou See Phrang, 2008)



Seis anos depois de "Three" (2002) um esforço colectivo internacional que nos apresentou três das melhores curtas-metragens que o cinema de terror já viu, chega-nos a resposta tailandesa. "4bia" é uma antologia de quatro filmes de terror realizada pelos autores de "Shutter" (2004), "Alone" (2007) e de Body #19 (2007). Não podia ter ficado mais satisfeita com a vossa escolha na votação do ínicio do mês de Julho. Não conhecia quaisquer dos filmes sugeridos pelo que a descoberta de "4bia" foi uma novidade para mim tal como será para vocês.


As curtas:
"Happiness" [título tailandês - "Loneliness" (Ngao)]
Uma jovem está condenada a pasar os dias em casa a recuperar da perna partida num acidente de táxi. Com amigos e família fora, o seu único modo de comunicar com o mundo é o telemóvel. Na sua solidão Pin começa a receber mensagens de um estranho que a deseja conhecer. A sua hesitação inicial é ultrapassada à medida que o aborrecimento toma conta dela. Com o passar dos dias, o estranho simpático começa a mandar mensagens cada vez mais perturbadoras e Pin assusta-se quando ele lhe diz que vai passar lá por casa...

"Tit for Tat" [título tailandês - "Deadly Charm" (Yan Sang Tai)]
Apanhados com erva pelo director da escola e face à possibilidade de expulsão, um grupo de jovens descarrega a toda a sua raiva no jovem delator Ngit. Depois de um último espancamento brutal, Ngit implora que o deixem ir em paz mas a barbárie não pára. Um dia, um Ngit alterado encontra os autores do seu sofrimento e decide lançar-lhes uma maldição...

"In The Middle" (Kon Klang)
Quatro jovens numa tenda contam histórias para se assustarem. No meio da brincadeira, Aye diz aos amigos que se ele morresse, o primeiro a quem iria assombrar seria a pessoa do meio. Eles riem-se e não o levam a sério. No dia seguinte, o barco onde faziam rafting vira-se e Aye desaparece no meio dos rápidos. Desesperados, os seus amigos procuram-no por toda a parte mas não o encontram. Nessa mesma noite um gelado Aye aparece na sua tenda mas aparenta estar diferente. Cedo os seus amigos percebem que algo não está bem e viram-se para Ter, era ele que na última noite tinha dormido no meio...


"The Last Flight" [título tailandês - Flight 244 (Teaw Bin 244)]
Uma hospedeira é obrigada a fazer parte da tripulação no voo 244, no qual segue a princesa Sophia do Kurquistão. Esta assedia-a e maltrata-a durante todo o voo até que finalmente se sente indisposta. A princesa acaba por morrer e a hospedeira Pim é obrigada a seguir no próximo voo e assegurar que nada acontece ao corpo...


Sobre os filmes:
"4bia" começa logo bem com o genérico. Marca posição e ali ficamos a saber que o que vamos ver é terror. A primeira curta é de Youngyooth Thongkonthun, mais conhecido pelas comédias e o underdog do colectivo, quanto ao género de terror. Mas abre as hostilidades e de que maneira, com uma actuação solitária, brilhante de Maneerat Kham-uan (Pin) e um crescendo de terror que culmina num grande susto digno de sujar a roupa interior. Pin surge na maioria das cenas bored to death, a lutar contra a solidão com a ajuda do telemóvel e a ceder às suas reacções. Na verdade, age como qualquer rapariga na vida real. Sentimos a sua ansiedade pela próxima mensagem, o gosto pelo flirt e a perturbação com o sentimento de invasão de privacidade que admitamos, numa altura ou outra já sentimos. Acresce o facto de nos sentirmos tão presos como Pin no seu apartamento e temos filme. "Happiness" é subtil, gradual e não cansa. Perfeito para uma curta. "Tit for Tat" é o oposto da primeira. É sempre a abrir, frenético no género de terror in your face. Não será a curta mais original das quatro pelas semelhanças com "Final Destination" (2000) mas cumpre em 25 minutos. É também o segmento com mais gore e mais distintivo. A edição, as cores gritantes, o constante jogar de ângulos contrastam com a "monotonia" da antologia. Só os efeitos especiais me parecem um pouco exagerados e enfiados à pressa o que, em última análise, não afecta por aí além o produto final. Para quem prefere um ritmo mais acelerado, verão em "Tit for Tat", um doce. "In The Middle", está lá no meio, literalmente, mas é tudo menos mediano. Com um mix de comédia e de horror que funcionam muito bem, Banjong Pisanthanakun apresenta-nos quatro rapazes que ao fim de cinco minutos conseguimos distinguir claramente. Temos aqui personagens com mais personalidade do que muitas longas-metragens conseguem alcançar. De todas as curtas, "In The Middle" é o que melhor imagino como filme de longa duração. O timing cómico está óptimo, a representação está boa, a interacção entre os personagens muito bem conseguida e as referências a diversos filmes, como Shutter demonstram uma boa dose de humor e a capacidade de Banjong de brincar com o seu próprio trabalho. É refrescante e, na minha humilde opinião, a curta mais bem conseguida das três. Quanto a "The Last Flight", digamos que a história não será a coisa mais imprevisível que já se viu mas agarra-nos de tal forma que queremos, de qualquer modo, chegar ao fim. A hospedeira Pim (sem desmerecer as suas capacidades de representação), é um show de beleza e as suas interacções com a princesa Sophia são as melhores do filme. A troca de olhares gélidos e violência de sentimentos latente, por breves que sejam, é sublime. "The Last Flight" é um final digno desta antologia de terror. "4bia" é refrescante e não comparável a "Three" (2002) e a sua sequela. Semelhanças só no conceito, em termos de terror não podiam estar mais distantes. "4bia" nada tem da terrível sugestão perturbadora de "Dumplings" ou do surrealismo de "Box". E há uma subtil ligação entre as curtas-metragens, que dão a sensação de não estarmos a ver quatro filmes totalmente diferentes. Pontos para quem conseguir juntar o puzzle ou, se preferirem e não conseguirem encontrar as pistas no filme, a seguir à ficha técnica podem encontrar um spoiler*. Não há nenhuma dúvida por estes lados. "4bia" é uma obra boa e coesa e por isso merece quatro estrelas e meia.
Curta #1: "Happiness"
Realização: Youngyooth Thongkonthun
Argumento: Youngyooth Thongkonthun
Elenco:
Maneerat Kham-uan como Pin
Wirot Ngaoumphanphaitoon como Ton

Curta #2: "Tit for Tat"
Realização: Paween Purikitpanya
Argumento: Paween Purikitpanya,Vanridee Pongsittisak, Amornthep Sukumanont e Eakasit Thairaat
Elenco:
Apinya Sakuljaroensuk como Pink
Nattapol Pohphay como Ngit
Witawat Singlampong como Diaw
Chon Wachananon como Yo
Shindanai Kanoksrithaworn como Ball
Nottapon Boonprakob como Toot
Teerapon Panyayuttakarn como Ace

Curta #3: "In The Middle"
Realização: Banjong Pisanthanakun
Argumento: Banjong Pisanthanakun
Elenco:
Nattapong Chartpong como Ter
Kantapat Permpoonpatcharasuk como Aey
Pongsatorn Jongwilat como Phueak
Wiwat Kongrasri como Shin

Curta #4: "The Last Flight"
Realização: Parkpoom Wongpoon
Argumento: Parkpoom Wongpoon e Sopon Sukdapisit
Elenco:
Laila Boonyasak como Pim
Nada Lesongan como Princesa Sophia
Plai Paramej como Capitão

Próximo Filme: "14 Blades" (Jin yi wei, 2010)

PS: Se gostaram deste filme, terão uma agradável surpresa no final do mês.

Spoiler*

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Blood Rain" (Hyeol-ui nu, 2005)

Confesso que sou fã de mistérios de época. Nada como desvendar um crime à moda antiga. Não há cá pós de perlimpimpim para se encontrar impressões digitais nem testes de ADN à CSI. Aqui usa-se o velho amigo cérebro. "Blood Rain" passa-se no início do século XIX, durante a dinastia Joseon, na ilha Dongwha, onde se prepara o tributo anual de papel ao rei. Uma shaman é chamada para abençoar a oferenda e fazer com que esta chegue, literalmente, a bom porto, quando é possuída pelo espírito de um homem injustamente acusado de traição 7 anos antes. Entretanto, o barco incendeia-se com a carga e a população fica desesperada com a possibilidade de não entregar o tributo a tempo e recair sobre si a mão pesada do rei. Won-kyu Lee é designado para investigar o caso mas o que seria uma investigação quase banal complica-se quando os habitantes da ilha começam a aparecer mortos das maneiras mais horrendas.

"Blood Rain" recorda-me o já aqui publicado "Shadows in the Palace" (Goongnyeo, 2007) em diversos aspectos: mortes inexplicáveis, um mix de mistério criminal com elementos do sobrenatural e um elenco muito vasto com a excepção que em "Blood Rain" é predominantemente masculino. A shaman é só para disfarçar. Ah e para dar um alívio de tanta testosterona. Também o argumento é muito menos confuso e não é tão excessivo na alusão ao oculto. Infelizmente, Won-kyu é menos competente que a sua congénere feminina em "Shadows". O pathos, quando Won-kyu tem uma revelação sobre a sua própria vida é quando muito sofrível. Ele parece mesmo estar com prisão de ventre. Desculpem lá qualquer coisinha. Aparte isso, o seu vocabulário facial não é muito mais variado que o de um Keanu Reeves, se é que me entendem. Com isto, não pretendo dizer que Won-kyu não é uma personagem simpática mas que tinha potencial para mais lá isso tinha. As outras actuações estão dentro do espírito do filme que se impõe de medo e de suspeição. Quanto à shaman continuo a achá-la pouco mais que um bibelô. É para continuar a insistir no oculto e não nos esquecermos disso. Certíssimo.
À primeira vista, a solução do mistério não é previsível e com tantas personagens é uma verdadeira roleta russa descobrir quem é o assassino ou a próxima vítima. Tanto, que a dado momento o argumento insiste num certo sentido e afinal é o contrário. Ah, malandros! Um "pormenor" adorável é a música da película. Frequentemente, os filmes mais sombrios utilizam a música ao mínimo e um ou outro som mais intenso para provocar determinadas reacções na audiência. Aqui, temos o que podemos chamar de banda sonora, cujos trechos acertam de forma perfeita nos momentos críticos da narrativa. O clímax está um must. Sentimos tudo aquilo que devemos sentir, quando e como o devemos sentir. Só questiono o uso de uma banda sonora semi-ocidental. "Blood Rain" é um daqueles filmes de época que pedia o uso e abuso de sons tradicionais.Teria sido óptimo para penetrarmos no drama / mistério histórico.
Apenas os minutos finais provocam alguma frustração numa trama de outro modo envolvente. "Blood Rain" tem algumas mortes entusiasmantes para quem é fã de gore, o enredo cativa e aborda temas tão interessantes desde a luta de classes à religião. E tem chapéus. Muitos e giros. Três estrelas e meia.



Realização: Dae-seung Kim
Argumento: Won-jae Lee, Seong-jae Lim
Elenco:
Seong-won Cha  como Won-kyu Lee
Yong-woo Park como In-kwon Kim
Ji seong como Doo-ho
Ji-na Choi como Man-shin (Shaman)
Ho-jin Jeon como Comissário Kang

Próximo Filme: "My Ex" (Fan Kao, 2006)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"The Maid", 2005

Já era tempo de nos chegar uma surpresa agradável de Singapura. O problema é ser também a primeira, que não há termo de comparação. Ainda assim fiquei bem impressionada. "The Maid" representa uma realidade bem mais negra que a ficção. Quantas vezes não se ouve falar de casos de jovens que são atraídas para outros países para trabalhar e acabam nas malhas da escravidão, prostituição e de tráfico de órgãos? Calma, que a película é inspirada no real mas prefere a rota do sobrenatural. Ora, "The Maid", pega precisamente na prática recorrente da contratação de jovens pobres para irem trabalhar como empregadas fora dos seus países de origem. Kelvin Tong mostra, desde logo, a banalidade do processo e da mercantilização de vidas humanas num álbum de fotografias de potenciais candidatas. Beleza, idade, postura corporal, peso... Selecção de gado? Rosa Dimaano (Alessandra de Rossi), de 18 anos é a jovem seleccionada que troca pela primeira vez a tranquilidade da sua localidade rural nas Filipinas pelos edifícios altos e trânsito ruidoso de Singapura. A sua reacção inicial é de fascínio, o que não é para menos, dado o meio de onde veio. Nas suas palavras, aquela é a sua oportunidade de conhecer o mundo. E bem diferente é o mundo em que vai entrar. Rosa será a empregada de um supersticioso casal chinês o que contrasta, profundamente, com a sua crença católica. Para mais, ela chega no primeiro dia do sétimo mês chinês, aquele em que (segundo se diz), os portões do inferno se abrem e os espíritos andam à solta para se vingar das ofensas cometidas contra eles em vida. À sua volta, todos parecem levar muito a sério esta mitologia e fazem oferendas para apaziguar os espíritos e mantê-los longe dos seus lares. Entretanto, Rosa fica a conhecer Ah Soon, o filho do casal, um homem com mente de criança que desde logo se afeiçoa à nova criadita.
"The Maid" é um pouco de "The Sixth Sense" (1999), e de filmes baseados em velhas superstições populares em partes iguais. Assim, dos mais recentes posso nomear o "Tali Pocong Perawan" (2008) da Indonésia e o "Sick Nurses" (2007), da Tailândia. Mas arranja força e originalidade pelo seu próprio mérito. A cinematografia é belíssima: as cores vibrantes das comemorações do sétimo mês chinês e o seu contraste com as cores frias da vida quotidiana de Singapura estão algo de especial. E o melhor é que vemos e sabemos tanto quanto Rosa pois o mundo dos mitos e ritos chineses é novidade para ela! Tanto que Rosa, logo à chegada, comete sem intenção uma grave ofensa aos espíritos, quando pisa a oferenda que o casal chinês tão encarecidamente lhes tinha feito. Rosa atrai sobre si azar e começa a ver coisas que não deveriam estar... O resto é história.
Kelvin Tong, volta a brindar-nos com algumas surpresas. O pormenor da narrativa de Rosa, o olharmos pelos seus próprios olhos inocentes é um toque brilhante. E o modo como esta se transforma mais para o final está um modo original de contar uma história sobre outra perspectiva. Como não podia deixar de ser, o elemento sobrenatural está muito presente e fornece alguns sustos eficazes. Houve alturas em que pulei da cadeira com Rosa e pensei: "eu teria sentido o mesmo". Numa reflexão final e porque tantos filmes insistem nos perigos do oculto, por vezes, urge questionarmos se o mal estará mesmo naquilo que desconhecemos ou no comportamento humano, que pode ser tão imprevisível e perigoso. No meio de tanta coisa igual, Kelvin Tong arrisca e apresenta-nos um final inesperado. Quatro estrelas em cinco.



Realização: Kelvin Tong
Argumento: Kelvin Tong
Elenco:
Alessanda de Rossi como Rosa Dimaano
Huifang Hong como Senhora Teo
Chen Shu Cheng como Senhor Teo
Benny Soh como Ah Soon
Zhenwei Guan como Wati

Próximo Filme: "Blood Rain" (Hyeol-ui nu, 2005)

domingo, 24 de abril de 2011

"Shadows in the Palace" (Goongnyeo, 2007)

*Trailer + Legendas em PT

Como as mulheres podem ser umas cabras para as outras. Tanto melhor se têm a liberdade para o serem a coberto das regras da corte, "fecha os olhos, tapa os ouvidos, não fales". "Shadows in the Palace" é um retrato ficcional das mulheres da corte durante a dinastia Joseon, no qual o guarda-roupa e cenários sumptuosos contrastam com um estilo de vida marcado sempre e em primeiro lugar, pela hierarquia e rigidez no comportamento. No entanto, à medida que a acção de "Shadows in the Palace" se desenrola, o comportamento palaciano revela-se paradoxal. Estas mulheres sujeitas a uma conduta regrada pelo silêncio, num cinismo interminável, para não abalar a estrutura vigente, acabam por tudo saber umas das outras. O palácio tem paredes de papel, não há segredos nenhuns! Viver no palácio significa ainda devotar a vida inteira ao serviço da realeza, abdicar da individualidade e dos prazeres carnais. O não cumprimento destes requisitos, traz duras penas, como o filme nos lembrará aliás, com frequência.
A película quase poderia ser um docu-movie, numa incursão pelo que poderão ter sido as vidas das mulheres do palácio, vidas que a História esqueceu, meras sombras que lá passaram. O filme é reminiscente de uma boa história de Agatha Christie, com o seu Hercule Poirot a ser desempenhado por Jin-hie Park que representa Chun-ryung, uma teimosa médica da corte. Chun-ryung é chamada após Wol-ryung (Yeong-hie Seo), aia de uma das concubinas do rei, Hee-Bin (Se-ah Yun) ser encontrada enforcada no seu quarto. A sua morte levanta, desde logo, suspeições, tanto mais que logo se erguem manobras políticas com o intuito de declarar a morte de Wol-ryung suícidio. Contudo, a nossa heroína não se deixa deter na sua persecução da verdade, mesmo que isso signifique colocar em causa todas as mulheres da corte, incluindo ela. É nas intrigas palacianas que o filme melhor funciona, em passo rápido, rico em acontecimentos que não deverão ser ignorados para a compreensão do filme. Existem tantas reviravoltas que podemos perder-nos facilmente a meio do caminho. É o filme ideal para quem gosta de apreciar uma história com calma, de comando na mão pronto a carregar no play, pause e repeat. Mas não se iludam. "Shadows in The Palace" é tudo menos um chick flick, não haverão longas sequências de conversas sobre os sentimentos das protagonistas. Há um sentido de pragmatismo em toda a história. Estas mulheres não se coibem de proceder às práticas de tortura mais horrendas para obterem respostas rápidas. Aviso: não é para os fracos de estômago. Ah e também existe a execução punitiva como modo de fazer das transgressoras um exemplo e plantar a semente do medo nas mentes das mais novas serventes.

Os desempenhos são na generalidade, muito bons. Por fim, a película introduz, já tarde, elementos do sobrenatural que são o verdadeiro calcanhar de Aquiles do filme. A audiência ficaria mais do que satisfeita com um thriller detectivesco na corte. Além destes elementos adicionais não convencerem não acrescentam grande coisa ao desenlace. As pistas acabam por levar a uma conclusão de certo modo óbvia.
Kim Mi-jeong, na sua primeira incursão na cadeira de realizador apresenta um filme que apesar de ter potencial para ser muito melhor não deixa de estar muito bem conseguido. Por isso, "Shadows" recebe umas merecidas três estrelas e meia em cinco.

Realização: Mee-jeung Kim
Argumento: Seok-Hwan Choi, Mee-jeung Kim
Elenco:
Jin-hie Park como Chun-ryung
Se-ah Yun como Hee-Bin
Yeong-hie Seo como Wol-ryung
Próximo Filme: "World Invasion: Battle Los Angeles", 2011
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