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domingo, 20 de janeiro de 2019

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 – parte cinco (Final)

“Anna & the Apocalypse” (2017) - Alguma vez partilhei aqui um ligeiro desgosto recente com musicais? Musicais como “The Sound of Music” (1965), um “Mary Poppins” ou qualquer filme do Fred Astaire, com aqui a je é à vontadinha. Agora falem-me em “Glees” (2009-2015) ou Chicagos (2002) e mandar-vos-ei lavar os olhos com filmes de terror. Anna & the Apocalypse centra-se na jovem Anna (Ella Hunt) que tem o desejo de iniciar um ano sabático e partir para a Austrália à aventura para se descobrir, ao invés de iniciar de imediato a universidade o que não conjuga bem com as expectativas do pai ultra protector e de John (Malcolm Cumming), o melhor amigo que mantém por ela uma paixão secreta que só a própria não vê. Inicia-se uma luta pela sua afirmação enquanto jovem adulta e as expectativas dos que a rodeiam e o apocalipse zombie que ameaça acabar com os seus sonhos e a vida de todos durante a época da “paz no mundo”, o Natal. “Anna & The Apocalypse” é uma lufada de ar fresco. Faz o género avançar numa fusão inesperada e surpreendentemente coesa com terror e não lhe faltam quilómetros de charme. Enverga a ingenuidade fofinha de um elenco sobretudo desconhecido e não cai no erro das grandes encenações coreográficas que podem tornar o género por vezes plástico. A pouca encenação que existe é naturalmente ancorada num elenco jovem excitável e um excelente timing cómico. “Anna & The Apocalypse” faz também uma homenagem competente ao melhor filme de zombies do milénio “Shaun of the Dead” (2004). A comédia musical natalícia de terror zombie que não sabia que queria. Quatro estrelas.

Realização: John McPhail
Argumento: Alan McDonald e Ryan McHenry
Ella Hunt como Anna
Malcolm Cumming como John
Sarah Swire como Steph
Christopher Leveaux como Chris
Ben Wiggins como Nick
Marli Siu como Lisa
Mark Benton como Tony
Paul Kaye como Savage

“Brothers’ nest” (2018) – Tendo passado despercebido em favor de filmes como “One Cut of the Dead” ou “Anna & the Apocalypse”, “Brothers’ nest” entra no complicado mundo das relações familiares. Os irmãos Jeff (Clayton Jacobson) e Terry (Shane Jacobson) têm tudo planeado: disseram às famílias que vão passar uns tempos a Sidney para mas na verdade estão à espera do padrasto na quinta da família para o matar. A mãe deles tem cancro e Jeff está convencido que quando morrer o marido irá ficar com a quinta que para ele lhes pertence. A melhor forma de solucionar este problema parece a mais extrema de todas e arrastar o irmão para “o que tem de ser feito” não lhe pesa na consciência. Terry é manipulado pelo irmão mais velho e o plano traçado testa a sua fé no irmão e nas crenças que teve toda a vida sobre a sua infância. “Brothers’ Nest” tem sido equipado a uma obra dos irmãos Cohen e é de facto uma obra fraterna. Clayton e Shane são de facto irmãos e muitas vezes as suas interações são tão naturais que o discurso quase inventado na hora, sobretudo nos momentos em que apontam defeitos no outro ou as falhas óbvias no plano maquiavélico. Quase aqueceria o coração não fosse o caso de se terem juntado para matar o padrasto e ferir o coração de uma mãe doente. À boa forma de uns Cohen, o plano não corre exactamente como planeado e o desvelar da situação não é bonito. Os acontecimentos revelam uma série de verdades desconfortáveis e desemboca numa questão fundamental. Quem queremos ser? “Brothers’ Nest” é menos um filme de terror que um thriller mas ainda assim uma boa aposta Motelx para quem prefere dinâmicas mais assentes na realidade. Três estrelas.
Realização: Clayton Jacobson
Argumento: Jaime Browne e  Chris Pahlow
Shane Jacobson como Terry
Clayton Jacobson como Jeff
Kim Gyngell como Rodger
Lynette Curran como Mãe
Sarah Snook como Sandy


Errementari (2017) – Vinha de Espanha com boas expectativas e já alguns prémios, incluindo o prémio da audiência no Festival de San Sebastian. Num título mais pessoal tinha ouvido falar grandes coisas do filme e, bem, o visionamento acabou por redundar numa desilusão. Errementari passa-se num tempo de perseguição de bruxas e de superstição. A antevisão de aldeões com tochas e forquilhas é acertada. Há um ferreiro chamado Patxi que é um proscrito numa aldeia. Muitas estórias se contam sobre os seus tempos na guerra e os aldeões preferem não se cruzar com ele. Quando Usue uma órfã com um comportamento rebelde se cruza com o ferreiro o seu segredo bem ao cimo. Ele fez um pacto com o diabo para se manter vivo mas não quer cumprir a sua parte do negócio e mantém um demónio seu servo como prisioneiro. A pequena Usue deixa-se enganar pelo demónio e Patxi terá de se despachar antes que o diabo e uma população acicatada pelo desaparecimento da menina lhe venham reclamar a sua vida. Errementari é um conto de fadas basco que faz recordar Del Toro mas com um sentido de humor inesperado. É também daí que advém um dos seus maiores problemas. O demónio que Patxi mantém prisioneiro Sartael é um mimo de se ver: a caracterização do personagem é espectacular. Infelizmente e apesar de Eneko Sagardoy fazer um papelão, o humor do seu personagem mata a atmosfera pesada que antecede o seu aparecimento, seguindo-se mais tarde uma descida aos infernos em imagem gerada por computador onde se denota mais as limitações do orçamento. Sartael é a personagem certa no filme errado. O marketing do filme parece concordar, dado que o trailer de Errementari também fazia adivinhar um filme com muito mais teor de terror que de comédia e, para um dos últimos filmes a ser exibidos na edição de 2018 do motelx, não posso se não concordar. Duas estrelas e meia.

Realização: Paul Urkijo Alijo
Argumento: Paul Urkijo Alijo e Asier Guerricaechevarría
Kandido Uranga como Patxi
Uma Bracaglia como Usue
Eneko Sagardoy como Sartael
Ramón Aguirre como Alfredo
José Ramón Argoitia como Mateo
Josean Bengoetxea como Santi
Gotzon Sanchez como Faustino
Aitor Urcelai como Benito
Maite Bastos como Blanca

Próximo Filme: Buppah Rahtree, 2003

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 – parte quatro

The Ranger (2018) – É um retorno ao glorioso slasher dos anos 80, com um pé em finais de anos 70. Um grupo de punks que foge para uma cabana onde Chelsea (Chloe Levigne) passava temporadas em criança após um encontro com as autoridades envolvendo drogas duras que corre muito mal. O namorado dela, Garth (Granit Lahu), um casal amigo e uma rapariga que acaba por se envolver com o grupo de forma acidental não parecem interessados em minimizar o comportamento que os pôs em sarilhos e procedem em espalhar lixo e grafitar tudo quanto podem. Chelsea parece encarnar o espírito “fight the power” dos punks mas o seu exterior duro esconde um trauma e vulnerabilidade intimamente ligado aos verões no Parque Natural. O encontro com um Ranger obcecado com o cumprimento das regras despoleta uma sucessão de eventos trágicos e faz despoletar o instinto de sobrevivência – animal se preferirem –, de Chelsea. Os jovens adolescentes que só pensam em drogas, pinar e serem horríveis entre eles e para todos os que os rodeiam são o arquétipo dos slashers já mencionados e é questionável que alguém sinta algo parecido com um lamento pelos seus destinos à excepção da protagonista, mas Jenn Wexler a realizadora e co-argumentista é inteligente e introduz temas tão em voga e pertinentes quanto uma consciência ambiental ou o “girl power” coroados por um vilão memorável – algo escasso nos últimos anos –, na condução dos trabalhos sangrentos. Quanto às possibilidades de “The Ranger”? Todos são monstros mas uns mais que outros. É escolher. Três estrelas e meia.

Realização: Jenn Wexler
Argumento: Giaco Furino e Jenn Wexler
Chloe Levine como Chelsea
Jeremy Holm como The Ranger
Granit Lahu como Garth
Jeremy Pope como Jerk
Bubba Weiler como Abe
Amanda Grace Benitez como Amber


Gonjiam: Haunted Asylum (Gonjiam, 2018) – Já muito se escreveu sobre o found footage. Por esta altura, acho que toda a gente e a sua mãe tomou uma decisão sobre se o género está morto e enterrado, é um zombie ou as notícias sobre a sua morte foram exageradas. Posto isto, Gonjiam: Haunted Asylum é um found footage que sucede num antigo Hospital Psiquiátrico em ruínas. Sim, é muito possível que tenham tido flashbacks com o “Grave Encounters” mas a justificação para o seu visionamento é similar: por esta altura já sabem se o querem ver ou não, mesmo que não leiam as próximas linhas. Adiante. O dono de um canal de youtube especializado em investigar casas assombradas reúne um grupo de exploradores e a sua equipa de filmagens para fazer um direto da expedição a Gonjiam. O grupo é diversificado: malta gira, impressionável, corajosa, supersticiosa… o habitual. Algum tempo é dedicado à preparação da equipa de filmagens e à história da casa. No entanto, transmite uma aura de modernismo, pós 2015 diria, com o advento e sucesso dos canais de youtube e a sua consequente profissionalização. O dono do canal e promotor do evento não se cansa de repetir a importância dos números e a insistência na exploração de tudo quanto a tecnologia tem para oferecer como por exemplo, as go-pros e a utilização do splitscreen para apresentação de perspetivas diferentes em simultâneo. Quanto ao argumento este não é muito diferente do que se viu no género desde a separação da equipa em momentos-chave a momentos de gritos e correria descontrolada, mas é competente e estaria a mentir se não tivesse sentido a sala gelar ou sobressaltar-se com alguns jumpscares. Duas estrelas e meia.

Director: Beom-sik Jeong
Writers: Beom-sik Jeong e Sang-min Park
Seung-Wook Lee como Seung-wook
Ye-Won Mun como Charlotte
Ah-yeon Oh como Ah-yeon
Ji-Hyun Park como Ji-hyun
Sung-Hoon Park como Sung-hoon
Ha-Joon Wi como Ha-joon

Próximo Filme: Notas de um Filme de Terror - parte cinco

domingo, 11 de novembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte três

Inuyashiki (2018) - A primeira e única incursão pelos caminhos do cinema japonês no Motelx e é um filme sobre super-heróis. Mas temo informar que neste caso, “Inuyashiki” pouco segue da fórmula Marvel. Sim, neste filme, isso é mau. Ichiro Inuyashiki (Noritake Kinashi) é um pai de família rejeitado por todos os que o rodeiam. Porque não comprou uma moradia suficientemente grande para a família; porque falha habitualmente os objetivos mensais na empresa onde trabalha. Ele é aquele parente enjeitado que ninguém quer ainda que seja necessário. Ainda que tenha razão nos argumentos ele perde sempre. Porque não os expõe ou tão-somente porque existe. Ninguém quer saber dele. Ele nem consegue explicar que é afligido por uma doença mortal. Sempre que inicia uma conversa ela muda fatídica para qualquer direção que não a pretendida por ele. Um dia quando ele e um colega de escola da filha Mari, interpretado pelo sempre magnético Takeru Satoh são atingidos por um objecto não identificado, ambos adquirem poderes extraordinários. Onde um aproveita para empregar todo o afecto dentro de si o outro pretende vingar-se da sociedade por uma existência infeliz. “Unbreakable” (2000) e Chronicle (2012) são as referências óbvias e ainda assim fica aquém delas. Tem bons valores de produção mas é demasiado pouco, demasiado tarde e já não há paciência para a narrativa tão japonesa de aguentar estoicamente todas as dores do mundo que corroem por dentro e nunca a extravar para o bem da sociedade. A doença mental individual é uma não questão. Inuyasiki é altruísta para quem nada quer com ele. Com ou sem poderes será sempre um pobre coitado. O sentimento de sofrimento para quem vê o filme é muito similar. Duas estrelas.

Realização: Shinsuke Sato
Argumento: Hiroshi Hashimoto e Hiroya Oku (manga)
Noritake Kinashi como Ichiro Inuyashiki
Nayuta Fukuzaki como Takeshi Inuyashiki
Mari Hamada como Marie Inuyashiki
Takeru Satoh como Hiro Shishigami
Yûsuke Iseya como Detective Hagihara
Ayaka Miyoshi como Mari Inuyashiki
Fumi Nikaidô como Shion Watanabe
Yuki Saitô como Yuko Shishigami

The Field Guide to Evil (2018) – Este filme-mosaico pretende ser “uma exploração global do folclore e mitologia”. Portanto, aqui temos contos mais ou menos conhecidos de países como a Áustria, Turquia, Alemanha, Grécia, E.U.A., Índia, Polónia e Hungria. As narrativas tonalmente mais parecidas são porventura as germânicas que se saem talvez ligeiramente melhor que as que as acompanham. A turca é do já velho conhecido do festival Can Everenol (“Baskin”, 2013 e “Housewife”, 2017). As cultas são sobretudo confusas, desagradáveis, histriónicas... Menção especial pela negativa para a curta americana que podia até confundir-se com uma curta de estudantes o que não abona nada a favor do realizador Calvin Reeder. É que a sua participação merece um prémio para pior argumento, caracterização e representação. Mais parece um “The Field Guide to Bad Movie Making”. Nem sequer estou a recorrer à ironia. É má como um “The Room” (2003) mas sem o carisma insólito de um Tommy Wiseau e podia ser mostrada numa aula de teatro como exemplo do que não fazer. A curta grega e a húngara são as mais interessantes do ponto de vista experimental mas fica essa dúvida: se não serão demasiado experimentais para o projeto. A diferença tonal nota-se em demasia e notem que não são necessariamente as piores da antologia. Um filme mosaico tem a vantagem de não necessitar de concentração excessiva dado que as curtas vêm e vão rapidamente. No entanto, nada há que explique porquê escolher este sobre uma outra antologia. Ganha o prémio de pior escolha pessoal nesta edição. Meia estrela.
Realização:
Ashim Ahluwalia segmento "Palace of Horrors"
Can Evrenol segmento "Al Karisi"
Severin Fiala e Veronika Franz segmento "Die Trud"
Katrin Gebbe segmento "A Nocturnal Breath"
Calvin Reeder segmento "The Melon Heads"
Agnieszka Smoczynska segmento "The Kindler and The Virgin"
Peter Strickland segmento "The Cobblers' Lot"
Yannis Veslemes segmento "What Ever Happened to Panagas the Pagan ?"

Argumento:
Robert Bolesto segmento "The Kindler and The Virgin"
Elif Domanic e Can Evrenol segmento "Al Karisi"
Severin Fiala e Veronika Franz segmento "Die Trud"
Katrin Gebbe segmento "A Nocturnal Breath"
Calvin Reeder segmento "The Melon Heads"
Peter Strickland segmento "The Cobblers' Lot"
Yannis Veslemes segmento "What Ever Happened to Panagas the Pagan?"
Silvia Wolkan segmento "A Nocturnal Breath"

Elenco

Ghost Stories (2017) – Goodman, um homem obcecado por desmascarar estórias de assombração como as encenações elaboradas que acredita que são é contactado pelo homem que o fez seguir aquele percurso profissional para um desafio. Esse ex-inspector do paranormal cruzou-se com o trabalho do Professor Goodman e da arrogância com que trata os casos. Ele apresenta-lhe um desafio: provar que as três estórias que ele próprio não conseguiu em toda a sua vasta experiência desmistificar e que levaram ao abandono da profissão são falsas. Sob as mãos competentes da dupla Andy Nyman e Jeremy Dyson é contado sob a forma de antologia tendo um cruzamento de personagens, lugares e estórias onde a tragédia pessoal acaba por se sobrepôr à assombração ainda que o trailer convide sobretudo a um filme de terror. O segmento sobre o guarda-nocturno e a sua experiência num asilo abandonado é o mais aterrador. O segmento sobre o viúvo pragmático é o mais tocante. “Ghost Stories” dá enfase aos monstros reais que incluem desde problemas mentais a vícios e traumas passados mas nem sempre lhes dá tempo para serem explorados em toda a sua plenitude o que é, no mínimo curioso, dado que “Ghost Stories” se baseia numa peça de teatro de apenas (!) 80 minutos. Momento de terror britânico sólido. Três estrelas e meia.
Realização: Jeremy Dyson e Andy Nyman
Argumento: Jeremy Dyson e Andy Nyman
Andy Nyman como Professor Goodman
Martin Freeman como Mike Priddle
Paul Whitehouse como Tony Matthews
Alex Lawther como Simon Rifkind

Próximo Filme: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte quatro

domingo, 23 de setembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte dois

“The Promise” (Puen… Tee Raluek, 2017) - Do argumentista do clássico “Shutter” (2004) e realizador repetente em diversas edições do Motelx (“Laddaland”, 2011 e “The Swimmers”, 2014), chega este filme sobre uma promessa que se mantém além da morte. Boum e Ib são duas adolescentes que vêem os seus sonhos destruídos após o grande crash financeiro de 1997. Para elas a bancarrota significa o fim da vida como a conhecem e decidem suicidar-se no edifício onde tinham acordado viver juntas durante a universidade. Enquanto Ib prossegue com o plano, Boum acobarda-se e torna-se anos depois uma empresária de sucesso com uma filha adolescente, a doce Bell de 14 anos. Entretanto, Ib mantém o intuito de que a promessa seja cumprida nem que isso signifique levar Bell no lugar da amiga para o outro mundo. Não sendo necessariamente original “The Promise” retoma a premissa de alguns filmes coreanos como “A Blood Pledge”, 2009 da série de filmes “Whispering Corridors”. Tem um dos jump scares mais desavergonhados mas eficazes do festivel. Nunca, garanto, nunca mais, vão olhar para as chamadas das vossas mães da mesma forma. “The Promise” utiliza de forma eficaz a crença buddista do Karma sem recorrer ao expediente habitual de exorcismos mas esquece o contexto económico-social para se convencionalizar numa estória de fantasmas. O elenco é competente e é palpável o seu desaproveitamento decorrente do abandono dessa linha narrativa. Demasiado longo torna-se por fim, quase tão penoso quanto a torrente permanente de lágrimas da actriz principal. Duas estrelas e meia.
Realização: Sophon Sakdaphisit
Argumento: Sopana Chaowiwatkul, Supalerk Ningsanond e Sophon Sakdaphisit
Bee Namthip como Boum
Apichaya Thongkham como Bell
Thunyaphat Pattarateerachaicharoen como jovem Boum
Panisara Rikulsurakan como Ib
Deuntem Salitul como mãe de Ib
Benjamin Joseph Varney como Aof


The Tokoloshe, 2018 – Busi (Petronella Tshuma), oriunda de um meio rural vem sozinha para a cidade de Johanesburgo. Ela está marcada por traumas do passado e a necessidade de ganhar dinheiro para remover a irmã daquele meio. Ela consegue emprego como auxiliar de limpezas no turno da noite num hospital quase deserto onde é observada pelo olhar depravado do diretor e possivelmente do Tokoloshe, um demónio originário do folclore zulu que persegue crianças. No hospital conhece Gracie (Kwande Nkosi) uma menina que é perseguida por uma força invisível decide salvá-la. Apesar de assentar numa mitologia desconhecida por grande parte do público Tokoloshe é mais interessante quando é dada ênfase aos monstros pessoais de Busi. O monstro acaba por ser o calcanhar de Aquiles num filme onde o sofrimento da mulher, em particular o da mulher africana é tão visivel. Em todos os personagens masculinos apenas um não tem um olhar invasivo sobre Busi, mas não há qualquer dúvida: ela é tudo menos fraca, ela persiste. Sabemos que houve um acontecimento traumático na juventude de Busi que a marcou e à irmã para sempre. O abuso não lhe é desconhecido pelo que quando o reconhece em Gracie não hesita em tentar salvá-la, no entanto a ligação entre o seu estado mental e a criatura podia ter sido melhor trabalhada. O acosso do monstro é uma alegoria (frágil) para o trauma e é possível traçar um paralelo entre a situação individual de Busi, uma jovem mulher sul-africana e a mulher africana em geral. Sempre uma lutadora e sempre vista como inferior pelo imaginário masculino. Um esforço ainda incipiente mas muito potencial neste novo realizador. Duas estrelas.
Realizador: Jerome Pikwane
Argumento: Richard Kunzmann e Jerome Pikwane
Petronella Tshuma como Busi
Kwande Nkosi como Gracie
Dawid Minnaar como Ruatomin
Harriet Manamela como Ma Zondi
Mandla Shongwe como Baba Zondi
Yule Masiteng como Abel
Coco Merckel como Jakes
Leiden Colbet como Rosie


Pledge, 2018 – Justin, David e Ethan são três estudantes universitários desesperados por se integrarem numa fraternidade. Com competências sociais reduzidas a nulas, integrar uma fraternidade é a única forma de conseguir miúdas e consumir níveis lendários de álcool nas melhores festas dos anos de universidade. Depois de serem recusados por diversas fraternidades são convidados para uma misteriosa casa com ideais espartanos que os aceita como candidatos. Para passarem à fase seguinte terão de passar por uma série de provas questionáveis.  Até onde estão dispostos a ir para ter os melhores anos das suas vidas? “Pledge” é um híbrido de “American Pie” com fraternidades malévolas que vai beber ao subgénero torture porn na sua vertente mais light. Este filme tenta demonstrar a submissão e até dormência da maioria a uns tantos que têm tudo menos os seus principais interesses em mente. A tortura física e psicológica é aceitável e até dada como adquirida por todos pelo desejo de uma recompensa distante. “Pledge” tenta ser um retrato patético do mundo das praxes e da sociedade em geral. Há grupos de pessoas dispostas a sofrer humilhações gritantes para serem acolhidas por uma minoria dominante que nunca os vai respeitar. E quem decide o que são falhados e casos de sucesso? É ser um falhado ter boas notas mesmo que as competências sociais não sejam as melhores? Invertidos os papéis também não podemos ter a certeza de que os subjugados iam ter pudor em tornar-se agressores. A reflexão é demasiado rápida e termina exactamente onde se inicia: no deboche da carnificina. Fica-se pelas boas intenções e destas está o inferno cheio. Estrela e meia.

Realização: Daniel Robbins
Argumento: Zack Weiner
Zachery Byrd como Justin
Phillip Andre Botello como Ethan
Aaron Dalla Villa como Max
Zack Weiner como David
Erica Boozer como Rachel
Cameron Cowperthwaite como Ricky
Jesse Pimentel como Bret
Jean-Louis Droulers como Sam
Joe Gallagher como Ben

Próximo: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte três

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte um

“Cutterhead”, 2018

Rie foi contratada para documentar escavações do metro de Copenhaga. Este é um projecto de cariz internacional e Rie acompanha os trabalhadores para captar esse lado: a grandiosidade do sonho europeu. As primeiras abordagens encontram-se um pouco aquém d desejado dado que o que encontra são trabalhadores que fazem um trabalho muito duro e perigoso para ganhar dinheiro para alimentar as suas famílias. Durante o decorrer dos trabalhos há um acidente e Rie acaba por ficar presa dentro de uma câmara hiperbárica com os trabalhadores Ivo e Bharan da Croácia e da Eritreia. Juntos terão de ultrapassar o pânico, o espaço confinado, o calor, o desconhecido e tomar as decisões mais importantes das suas vidas.“Cutterhead” é muito possivelmente um dos filmes mais claustrofóbicos desde “The Descent” (2005). Os personagens deste filme dinamarquês conhecem-se mal ou mal foram apresentados não existindo uma camaradagem e o espirito de entreajuda existente naquele clássico. “Cutterhead” não perde demasiado tempo com máscaras. As personagens são imperfeitas e até desagradáveis. A pressão da situação faz sobressair o melhor e o pior dentro de si para que conseguiam sobreviver. Se uma equipa de resgate não chegar a tempo quem merece mais viver? Como aguentar tantas horas com desconhecidos, mantendo a visão optimista de que poderão sobreviver quando nem sequer sabem se a equipa de resgate tem conhecimento de que estão vivos? Exercício muito interessante sobre a natureza humana e o seu espírito de auto-preservação. É uma visão negativa do humano e dos seus pontos de pressão. Em última análise mesmo o mais justo poderá tornar-se um pecador, apenas depende da situação. Traz também algumas implicações como o facto de caso os personagens conseguiam sobreviver terão de lidar com as suas acções naquele período difícil. Duas estrelas e meia.
Realizador: Rasmus Kloster Bro
Argumento: Rasmus Kloster Bro e Mikkel Bak Sørensen
Kresimir Mikic como Ivo
Samson Semere como Bharan
Christine Sønderris como Rie


“One cut of the dead” (Kamera o tomeru na!, 2017)

Produtores de um novo canal de televisão contratam um realizador desconhecido para a dirigir o programa de estreia da grande première do canal. O objectivo é exibir em directo um filme de zombies realizado num único corte. “One cut of the dead” é um filme com diversas camadas. É uma sequência de 37 minutos que consiste na comédia zombie “One Cut of Dead” que é feita num único corte, isto é, um filme dentro do filme e é ainda uma abordagem meta ao mundo do cinema com todas as suas idiossincracias ao acompanhar os bastidores da realização daquela sequência. É muito interessante acompanhar o argumento da estória bem como todos os respetivos acidentes de percurso. Aquela parte invisível que é capaz de ditar o sucesso ou o desastre do filme. Entre estas encontram-se o actor que pensa que é a estrela à volta da qual o filme se desenvolve, actores incapazes de separar a vida pessoal da profissional, o realizador que pretende mostrar ser um profissional sério e criativo mas acaba por ser um capacho tarefeiro dos produtores ou o convencional actor-método. “One cut of the dead” menos sobre zombies do que sobre cinema. Os amantes de cinema vão adorá-lo, mas argumento é inteligente e divertido o suficiente para não só não alienar o resto do público como o atrair. Muito provavelmente - perdoem-me a aposta - o filme mais divertido da edição de 2018 do #motelx e sim, estou a excluir o musical de comédia zombie em pleno Natal que dá pelo nome de “Anna & the Apocalypse” e ainda um dos melhores do certame de 2018. O público concordou tendo-lhe atribuído o seu Prémio para a presente edição. Quatro estrelas e meia.
Realização: Shinichiro Ueda
Argumento: Shinichiro Ueda
Takayuki Hamatsu como Director Higurashi
Yuzuki Akiyama como Chinatsu
Harumi Shuhama como Nao
Kazuaki Nagaya como Ko
Hiroshi Ichihara como Kasahara
Mao como Mao


“Satan’s Slaves” (Pengabdi Setan, 2017)

De Joko Anwar, realizador já conhecido nas lides do Motelx com o seu “Forbidden Door” (2009) é uma incursão nas estórias de fantasmas. Decorre nos anos 80, na pior altura da vida uma família: a morte de uma mãe. Após alguns anos de paralisia e alheamento do mundo Mawarni (Mayu Laksmi) morre deixando o marido, 4 filhos e a sogra. Desde o seu falecimento que os filhos, os mais novos sobretudo têm sentido uma presença estranha, como se a alma inquieta da sua mãe não tivesse chegado a abandonar a casa. O pai toma a decisão de partir durante algum tempo para os sustentar e impedir que percam a casa deixando os filhos entregues a si próprios, sob a liderança da filha mais velha Rini (Tara Basro). É nessa altura de fragilidade extrema que se faz acentuar a suspeita de assombração bem como surgem os fantasmas do passado. Se não totalmente original é pelo menos competente fazendo lembrar em certa medida as sagas “Insidious” e “Annabelle”, nos fortes laços familiares; no lar que seria o local mais seguro como ponto focal da assombração e nos jump scares. Onde os anteriores se apoiam no catolicismo, “Satan’s Slaves” tem um foco claro no islão, uma abordagem refrescante num género saturado pela já por demais conhecida iconografia católica ocidental. Se a dupla de irmãos mais velhos serve o papel de condução de investigação pelos meandros do oculto e do passado negro da família é a dupla menor, Bondi (Nasar Annuz) e Ian (M. Adhiyat) que impressiona na interpretação credível de irmãos, nas sequências mais aterradores, como também no alívio cómico. Precisava porventura de limar algumas arestas, como o corte de cenas desnecessárias como a final e que conta até com uma breve aparição de Fachry Albar, estrela de “Forbidden Door”. Três estrelas.
Realização: Joko Anwar
Argumento: Joko Anwar, Sisworo Gautama Putra, Naryono Prayitno, Subagio S. e Imam Tantowi
Bront Palarae como Pai
Tara Basro como Rini
Endy Arfian como Tony
Dimas Aditya como Hendra
Nasar Annuz como Bondi
M. Adhiyat como Ian
Ayu Laksmi como Mãe
Egy Fedly como Budiman
Arswendi Nasution como Ustadz
Elly D. Luthan como Avó

Próximo: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte dois 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Notas de um Festival de Cinema de Terror” – Parte cinco



Chegados ao último de festival, houve oferta para todos os gostos: "My Friend Dahmer" que é o biopic de um serial killer, "Housewife" que aborda traumas passados e seitas maníacas ou um "Better Watch Out", no ainda não gasto formato do "home invasion". Quanto a este último, fiz batotice, pelo que será disponibilizado no Scifiworld Portugal. Ordens do chefe!

Dia 5

“My Friend Dahmer” (2017)


Quando soube que iam fazer uma película sobre um jovem Jeff Dahmer temi, talvez por não ser fã de assassinos em série (hey, há maluquinhos para tudo!), que estivessem a tentar glamorizar a sua vida. “My Friend Dahmer” baseia-se numa novela gráfica de John “Derf” Backderff que foi colega de turma de Dahmer e descreve o mais possível o comportamento do adolescente que se era perturbado, estava ainda longe do assassino que iria cometer assassinatos grotestos desde finais dos anos 70 e até ao início dos anos 90. “My Friend Dahmer” acompanha o quotidiano de um Dahmer (Ross Lynch) adolescente que não sabe qual é o seu lugar do mundo e tem um comportamento cada vez mais bizarro, à medida que a vida família espirala fora de controlo. A mãe (Anne Heche) parece padecer de graves problemas mentais que quando se manifestam tornam a vida de todos à sua volta um inferno e o pai (Dallas Roberts) é um homem apaziguador mas que em última instância não consegue lidar com os problemas em casa e se desconecta da família. A relação de Jeff com o irmão é inexistente e na escola também não é popular. A maior parte dos miúdos ou não sabem da existência dele ou consideram-no estranho. Dahmer é retratado desde o primeiro momento como um miúdo inadaptado mas que se podia confundir com os seus pares e até chega a ter algo parecido com amigos, mas a ideia de que alguns dos seus circuitos não estão bem ligados está sempre presente. O elenco é muito competente destacando-se Anne Heche e Dallas Roberts, no papel do casal conflituoso que criou Jeff e claro, Ross Lynch na pele do serial killer. A sua interpretação é tanto mais arrepiante por conseguir gerar empatia pelo seu Jeff vítima das circunstâncias e dos seus próprios instintos diametralmente opostos ao que é expectável de uma vida em sociedade. As poucas sequências em que existe um ensejo de conversa entre Jeff e o pai fica patente a dificuldade de expressão de ambos e a frustração que é manifestada de formas extremas: fuga de casa e a fuga para dentro dos pensamentos mais violentos. É impossível não questionar se havia alguém ou se algo que podia ter sido feito para evitar a sequência de acontecimentos que iria desembocar na morte de cerca de uma vintena de homens. “My Friend Dahmer” é um filme com final anunciado, mas o modo como é demonstrada a progressão do comportamento de Jeff, desde o desenvolvimento de fantasias violentas e a dissecação de cadáveres de animais até a um ponto de não retorno, é tratado de modo sério e não explorador. Mais não se podia pedir. Três estrelas e meia.

“Housewife” (2017)


Depois de “Baskin” (2015), se tornar um dos filmes mais badalados da edição de 2016 do Motelx de 2016, a antecipação de “Housewife” era grande. Bem, este filme não é nenhum “Baskin”. “Housewife” segue Holly (Clémentine Poidatz) uma mulher recatada e com um casamento que parece feliz aos olhos de todos, que não consegue ligar com um facto traumático da sua infância. Em criança assistiu ao assassinato do pai e da irmã mais velha, a qual foi afogada numa casa de banho, causando o medo de Holly de sanitas. Tirando este “pormenor”, ela e o marido são convidados a assistir a um seminário de “Umbrella of the Love and Mind”, uma organização que muitos acreditam ser um culto. A chegada àquela cidade de uma amiga da qual também já não sabia com esse grupo, impele Holly ir finalmente ao seminário onde um psíquico (David Sakurai), mergulha nos seus sonhos e a faz confrontar-se com o passado. “Housewife” é um sonho surreal que carrega o peso de diálogos sofríveis, sotaques estranhos, actores péssimos, cenas de sexo gratuitas e a sensação de que o filme repete temas e os aborda de modo previsível. “Housewife” quer chegar a um público internacional através do recurso à língua inglesa mas é muito confuso estar sempre a tentar situar as origens das personagens no espaço. Por outro lado, a cinematografia espectacular e os temas remetem para os filmes Giallo, que é de modo cristalino, ensaiada, superficial. Quando não estamos ocupados a tentar perceber quantas cenas é que já vimos antes ou a comentar que ninguém diria uma coisa daquelas, estamos simplesmente a apanhar uma seca descomunal. E com isto, faço notar que “Housewife” não tem uma narrativa convencional e tem apenas uma hora e vinte e dois minutos. Um confuso desperdício. Uma estrela e meia.

domingo, 8 de outubro de 2017

Notas de um Festival de Cinema de Terror” – Parte quatro


Por esta altura já devem estar a pensar: “ok, isto é tudo muito giro, mas ela nunca mais se cala com isto do #motelx e o que eu queria mesmo era ler só sobre cinema do sudoeste asiático”. Têm toda a razão mas já está mesmo quase - a próxima será a última parte. Yey! E este continua a ser ainda o único de festival internacional de cinema de terror sedeado em Portugal por isso, deixem-me apreciar este momento que apenas sucede uns escassos dias do ano. O próximo filme que vou abordar, será “Red Eye” (2005), que não é o filme do Wes Craven.

Dia 4 (cont. daqui):

“Mayhem” (2017)

Estavamos no sábado, no rescaldo de uma sessão morna e era a primeira sessão que assistia no Tivoli. A sala estava cheia, tinha um esqueleto sentado numa das últimas filas e perguntava-me se o facto de estar ali tanta gente teria alguma coisa que ver com o facto de o pessoal ainda não ter recuperado da morte de “Glenn” (personagem de “The Walking Dead” interpretada por Steven Yeun). Na verdade, como boa fã de cinema de terror, não tinha sequer visto o trailer de “Mayhem” e a decisão de assistir àquele filme foi uma decisão de última hora. Que boa decisão se revelou. “Mayhem” é um thriller de acção cheio de adrenalina que tem por alvo aqueles que mais adoramos detestar: engravatados que estão por trás de cada decisão injusta que a lei não quer ou não pode penalizar. Steven Yen é Derek Cho um advogado desencantado após o encontro com a América corporativa. Aquele é um mundo dominado pelo capitalismo selvagem apenas se safam os mais os mais espertos, os mais rápidos e os que fazem jogo sujo. Ele ainda não se perdeu lado negro da barricada e tem conseguido passar despercebido entre mortos e feridos, tendo por custo muitas horas de trabalho a mais e tempo com a família perdido. Um dia apercebe-se de que alguém cometeu um erro colossal que poderá custar milhões aos cofres da sua empresa e que estão a preparar para o entregar como bode expiatório.
Entretanto, descobrem que o arranha-céus onde trabalham foi exposto a um vírus que faz com que o seu portador perca as inibições e haja sobre todos os impulsos, mesmo aqueles que podia entender como mais censuráveis, se essa parte do cérebro estivesse a funcionar de forma correta. Aliado a Melanie (Samara Weaving) que também é uma vítima da firma incorrem numa corrida contra o tempo até ao topo do edifício e da cadeia alimentar, enquanto este se encontra em quarentena, para alcançar os seus intentos, tentando sobreviver à escalada de violência provocada pelo vírus. Adrenalina é a palavra-chave de “Mayhem”. As personagens são apresentadas em todo o seu esplendor de violência implícita contida e numa fase posterior na sua maior bestialidade, com amplas oportunidades para apreciar momentos sanguinários ou infantilidade. Quem nunca quis dizer umas verdades ao seu colega do lado? Quem nunca quis partir a cara à besta que está sempre a roubar a comida no refeitório? E que tal passar o dia a jogar no computador ao invés de escrever aquele relatório tão chato? Ou então, dar azo ao desejo secreto pela boazona da secretária ao lado? “Mayhem” é sobre o que sucede quando caiem as máscaras e as pessoas são reais, nuns parcos 90 minutos mas que ainda assim conseguem demonstrar personagens tão ricas e díspares, num excelente trabalho de todo o elenco. Permite perceber se o fundo é de bondade ou se esconde algo mais perverso e sobre a ideia de injustiça multissectorial, comum aos países desenvolvidos do século XXI, que foi evidente em movimentos como o “Occupy Wall Street”. “Mayhem” é uma paródia de filmes como “The Big Short” (2015) ou “Margin Call” (2011), que se cruza com a recompensa de filmes como “The Raid: Redemption” (2011) ou “Dredd” (2012). Joe Lynch é sem dúvida um realizador a estar atento. Três estrelas.

“Cult of Chucky” (2017)

Há que ser realista. Quem é que pretende realmente ver a sequela n.º 7, n.º 9 ou sequer a partir de uma 5ª? Só os fãs hardcore de um Jason, um Freddy ou um Chucky é que permanecem. Foi por isso, que até o “Jigsaw” (2017) regressou. Que não restem dúvidas, “Cult of Chucky” é para os fãs. Nunca foi acerca de captar novas audiências. Quem o vê sabe ao que vai.
Este “Cult of Chucky” não pretende reinventar a lenda de Chucky nem traça o caminho meta até às últimas consequências, em que muitos filmes de terror se têm aventurado recentemente. Ao invés foca-se nas personagens que têm dado o mote ao longo dos anos, como um já crescido Andy Barclay (Alex Vincent), a criança que recebeu a bela prenda que é Chucky ou Nica (Fiona Dourif) que está confinada a uma cadeira de rodas num hospício. Na sequência da última iteração do personagem Nica foi acusada de cometer os homicídios perpetrados pelo boneco assassino e, convencida por um psiquiatra pouco escrupuloso de que tem problemas psicológicos que a levaram a cometer aqueles actos horrendos. O cenário apresenta uma oportunidade perfeita para ver Brad Dourif (a voz de Chucky há tantos anos), a trocar galhardetes com os pacientes do hospício (é caso para perguntar quem de entre todos é o mais louco) e com a filha Fiona. Mais importante ainda, um hospício que não fica próximo da civilização com pacientes a viver num regime de internamento, é o último sítio onde o boneco devia ser introduzido, sendo que os seus habitantes não terão para onde fugir ainda que tenham consciência do que se está a passar. “Cult of Chucky” está cheio do humor negro que caracteriza a série sobretudo do lado de Brad Dourif a verdadeira alma da série e de mortes explícitas que, pese embora nem sempre ultrapassarem a barreira da criatividade, constituem um presente para os fãs. Hoje em dia, com rivais mais recentes e assustadores como a boneca de “Annabelle: Creation” (2017) a simples ideia de que o Chucky é assustador é anedótica. Por isso, Don Mancini mentor do conceito e realizador desta sequela, agarrou nos melhores elementos do passado da série para a manter à tona e introduziu humor auto-consciente das suas próprias falhas e elementos da cultura pop atual, onde outras sagas implodiram pela repetição. Foram ainda eliminadas algumas gorduras como o excesso de efeitos gerados por computador, afinal, o primeiro boneco era um fantoche; a manutenção de Brad Dourif e a exploração da química deste com a filha Fiona; a personagem de Nica, muito forte num panorama de scream queens onde os clichés imperam; a revisitação de personagens de filmes anteriores e a confiança para explorar novos cenários. No final de tudo, sobra um filme divertido. Mais não se podia pedir de um filme sobre um boneco de brincar que ganha vida após um ritual de voodoo e pragueja como um marinheiro. Duas estrelas.

“Meatball Machine Kudoku” (2017)

Integrado na sessão dupla, em conjunto com “Cult of Chucky” não se esperava deste uma obra de arte. Antes houve um desfile de absurdo, num filme de Yoshiro Nishimura, responsável por momentos tão emblemáticos do cinema como “Tokyo Gore Police” (2008) ou o segmento “Z is for Zetsumetsu” de “ABC’s of Death” (2012) e, do qual, anos depois, estou ainda a recuperar. “Meatball Machine Koduke” é uma sequela de “Meatball Machine” de cuja descrição no imdb se podem ler coisas tão fantásticas como: “Japanese cyberpunk science fiction/horror”. Acrescentem já agora “exploitation” e comédia. Como ultrapassar isto? Nishimura sabe como.
“Kudoku” parece fazer parte de um concurso do qual não sabemos quem são os outros concorrentes, para saber quem consegue fazer mais impressionante e mais absurdo. Tentar explicar a sinopse é como tentar dar sentido a algo que não o tem mas pronto: Yuji (Yoji Tanaka) é um homem solitário e à beira da ruína financeira que é pisado por todos os que o rodeiam. Ele trabalha na área da cobrança de dívidas mas não tem muito jeito e acaba por ficar ele próprio a dever ao chefe, a mãe só lhe liga para lhe pedir dinheiro e entretanto, descobre que tem cancro terminal. Mas ninguém irá chorar por ele porque ele não é amado por ninguém. Num certo dia, uma garrafa gigante que segue pelo espaço em direcção à terra – e isto nem é o mais absurdo, aguentem –, liberta uns alienígenas que ao aterrar se apoderam do corpo das suas vítimas ao mesmo tempo que as tornam em máquinas de guerra semi-robóticas. Sem nada a perder Yuji é tomado por um dos monstros mas não se transforma na totalidade dado que tem células cancerígenas. Ele aproveita a humanidade retida para combater os alienígenas antes que eles se apoderem de Kaoru (Yuri Kijima), uma mulher por quem se apaixonou. Segue-se uma muito longa cena de perseguição com Kaoru cavalgando o monstro que a rapta com os seios de fora (eu sei), e longas lutas com uma quantidade de sangue muito superior àquela que um individuo consegue albergar e com armas que resultam de uma peculiar fusão com a carne humana. “Meatball Machine Kudoku” é uma orgia ridícula de nudez e carnificina histérica e, bem, os monstros são um espanto, mas, é só por isso que vale. E olhem que são 108 minutos disto! “Meatball Machine Kudoku” é uma obra extremamente polarizadora pelo que o mais certo é já terem feito a vossa escolha sobre se algum dia o irão visionar. Uma estrela e meia.

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