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domingo, 4 de agosto de 2013

3 A.M. 3D (2012)


O que é que faz falta ao cinema de terror asiático? Antologias não são com certeza. Mas perdoe-se 3 A.M. desse pecado e julgue-se pela qualidade. Então o que é que 3 A.M. tem para oferecer? Apenas o artificio para gerar dinheiro mais irritante dos últimos anos? Adivinharam, tecnologia 3D. Acrescenta algo às curtas-metragens? Isso é o que vamos ver a seguir…

“Wig Shop”
May (Focus Jirakul) e Mint (Apinya Sakuljaroensuk) são duas irmãs que, não fosse o facto de pertencerem à mesma família nada teriam em comum. May é calma, modesta e trabalhadora, Mint é a vida da festa, sofisticada e preguiçosa. Rebenta uma discussão séria entre ambas quando Mint leva uns amigos para a loja de perucas dos seus pais e estes se põem a brincar com elas. Conseguirão elas esquecer as divergências quando uma aparente anterior dona do cabelo de uma peruca decide assombrar o grupo de amigos?

“Corpse Bride”
Tod (Tony Rakkaen) é um mortuário novato contratado para velar um jovem casal que faleceu uma semana antes do casamento. Ele deverá efetuar ritos para apaziguar os seus espíritos, não espreitar para dentro dos caixões e não tocar nos pertences do casal até ao seu descanso final. Mas ele não consegue deixar de cometer um erro primordial, ele olha para dentro do caixão da noiva Cherry (Karnklao Duaysianklao). Linda, parece estar viva…

“Overtime”
Karan (Shahkrit Yamnarm) e Tee (Ray MacDonald) são dois chefes brincalhões que adoram pregar partidas aos seus funcionários durante o período da noite. Desta feita Bump (Prachakorn Piyasakulkaew) e Nging (Kanyarin Nithinaparath) são as próximas vítimas mas será que eles não estarão a preparar um contra-ataque.



O fio condutor entre estas curtas-metragens é as três da manhã, o período, no qual sucedem acontecimentos que poderíamos classificar de paranormais. Tradicionalmente, para quem estuda tais eventos, o período entre as três horas da manhã e as quatro considera-se a hora dos mortos. Esta hora está ligada à morte de Jesus Cristo, uma vez que é a hora diametralmente oposta àquela em que o profeta faleceu (três da tarde) e é o período em que será mais fácil estabelecer contacto com o outro mundo. Meninos não tentem isso em casa! Infelizmente para os protagonistas, os contactos com os espíritos no outro lado não são positivos. (Ainda estou para ver um filme em que esses encontros sejam simpáticos). 3 A.M. é um verdadeiro “quem-é-quem” do cinema de terror tailandês. Isara Nadee, realizadora de “Overtime” é dos elementos da equipa de argumentistas “ronin”, notória pelos filmes do gorefest “Art of  the Devil” e ainda do terrível “407 Dark Flight 3D”. Apinya Sakuljaroensuk e Ray MacDonald são presenças recorrentes no cinema local e Shahkrit Yamnarm é a grande estrela do elenco, tendo inclusive contracenado ao lado de Nicolas Cage (sei que hoje em dia não é grande motivo de orgulho), em “Bangkok Dangerous”. Que podia pois correr mal?
A abrir as hostilidades está “Wig Shop” que, para quem viu filmes como o coreano “The Wig” ou o japonês “Exte: Hair Extensions” é um conceito já testado e cansado, para não dizer totalmente exausto. A curta tenta emular em poucos minutos o que os filmes anteriores conseguiram realizar em pleno durante quase duas horas. E se um recorria ao bom velho drama coreano o outro apresentava como grande arma um realizador de peso. “The Wig Shop” vale-se de duas carinhas bonitas que não conseguem salvar um argumento em veloz trajecto descendente.  Ah e alguém reparou na triste ausência de 3D? Não se preocupem que o sua utilização desnecessária ainda agora começou.
Nestes projectos há sempre um momento de insanidade e “Corpse Bride” encarrega-se da bizarria da antologia. “Corpse Bride” é capaz de fazer mais jus ao nome do que a animação de Tim Burton mas é um exemplo clássico de ausência de direcção. Drama? Mistério? Terror? Seria de pensar que com tanta variedade “Corpse Bride” exaltasse algum tipo de entusiasmo mas é tragicamente, o mais aborrecido dos três. Pior ainda, parece uma curta-metragem demasiado longa. Quando os personagens são desprezíveis ou provocam, no mínimo indiferença o que mais desejamos é despachá-los o mais rápido possível e não prolongar a tortura. “Corpse Bride” tem uma reviravolta final mas, por essa altura, já estaremos tão dormentes que não importa. Acabem com a nossa miséria!
“Overtime” é o grande desperdício da antologia. Mesmo que aguentem o visionamento até à última curta-metragem será difícil não ficar com a sensação de que o tom da mesma está totalmente desligado do das anteriores. Curiosamente é o que melhor representa o cinema tailandês. Assim como os sul-coreanos adoram misturar drama e comédia, os tailandeses parecem adorar os seus filmes de terror com um pouco de comédia. Querem melhor exemplo que o estreado este ano “Pee Mak” que se tornou o filme mais rentável da história do cinema tailandês? A grande crítica a “Overtime” é parecer-se mais com um conjunto de gags colados para efeito cómico do que um argumento sólido. No entanto, é a descontração dos actores e o sentimento de que a estória não está a ser levada demasiado a sério que deve conquistar os corações das audiências. Os efeitos digitais são maus? Terríveis, na verdade. Mas questionem-se, onde das películas falharam em assustar uma teve sucesso em divertir. Quem é o vencedor? Duas estrelas.
“Wig Shop”
Realização: Pussanont Tummajira
Focus Jirakul como May
Apinya Sakuljaroensuk como Mint

“Corpse Bride”
Realização: Kirati NakIntanont
Tony Rakkaen como Tod
 Karnklao Duaysianklao como Cherry
Peter Knight como Mike


“Overtime”
Realização: Isara Nadee
Shahkrit Yamnarm como Karan
Ray MacDonald como Tee
Prachakorn Piyasakulkaew como Bump
Kanyarin Nithinaparath como Nging

Próximo Filme: "Swing Girls" (Suwingo Gâruzu, 2004)

domingo, 14 de julho de 2013

"Colic" (Colic: dek hen pee, 2006)


“Colic” atinge as pessoas, sobretudo mães pré-mamãs em todos os pontos certos. Uma mera visualização do poster onde um bebé está sentado perigosamente perto de uma misturadora chega para provocar arrepios. Perigo a pairar sobre criaturas indefesas como bebés sempre foram a última fronteira e, se o resultado não é tão asqueroso como, digamos, um “Art of The Devil” o impacto psicológico é bastante mais vasto.

Quando Phrae (Pimpan Chalaikupp) engravida por acidente, Pong (Vittaya Wasukraipaisan), apesar de não estar preparado para ser pai decide tomar a atitude correcta e casar com a namorada. Esta decisão implica abdicar de uma série de coisas, visto que Phrae deixa de poder trabalhar e sem recursos financeiros para criar um filho, o casal é forçado a mudar-se para a casa da mãe de Pong, longe do centro da cidade, onde ele trabalha como realizador de filmes publicitários. Uma situação temporária, prevêem. Mas mais uma vez, os acontecimentos desenrolam-se contrários aos desejos do casal, já que Pan se revela desde logo um bebé inquieto, sofrendo bastante com ataques de cólicas que não deverão cessar antes de seis meses. O casal terá de depender durante mais algum tempo da boa vontade da mãe de Pong e de Jeen (Kuntheera Sattabongkot), irmã de Phrae. Afinal, o conto-de-fadas apenas teve a duração de uma gravidez pintada de imagens de felicidade conjugal ilusórias. À medida que o choro de Pan se torna cada vez mais incontrolável, Pong afasta-se e Phrae vê-se isolada, provavelmente deprimida e incapaz de lidar com a situação. Será o choro de Pan fruto de uma condição que afecta quase todos os bebés ou há algo mais, algo invisível que perturba o seu primeiro filho?

“Colic” é um longo filme para quem aguarda por momentos de terror visceral. A narrativa arrasta-se uma boa meia hora mais do que o necessário. Entre os episódios em que o bebé é acossado pela maleita há lugar para o drama entre Phrae e Pong. Mesmo que Pan sobreviva às cólicas será que o seu casamento resiste? O nascimento de um filho constitui um motivo suficientemente forte para que duas pessoas que não estão preparadas para o compromisso avançar nesse sentido? “Colic” é pois uma mistela, não se decidindo entre o drama de uma família disfuncional e o terror sobrenatural. As personagens, nomeadamente o casal são fortes o suficiente para carregar o drama aos seus ombros.
 É difícil não nos identificarmos com o seu problema: a criança não para de chorar e, tendo vontade de calar a criaturinha perturbada como não perceber a exaustão e o sofrimento de Phrae e a necessidade de escape de Pong? Os secundários fazem as vezes da audiência, são a família e colegas simpatéticos para com o problema do casal mas que pouco podem fazer para o parar. Thammajira sabe o que faz, construindo uma imagem negra com enquadramentos inteligentes, onde o choro da criança acossada, um quarto solitário cheio de objectos que podem atentar contra a sua integridade física e a existência de pais inexperientes e impotentes, coroam a sensação de que algo muito mau rodeia aquele ser indefeso. A raiz dos problemas de “Colic” reside então no terror sobrenatural, não só uma repetição de eventos de filmes que lhe antecederam como a apresentação de uma proposta dispensável para o desencadear da acção. A somar aos momentos inverosímeis que se sucedem para criar o arrepio fácil (entra a música para assinalar quando nos devemos encolher), são apresentadas sugestões e superstições que ao invés de auxiliar a compreensão da estória, contribuem para uma ainda maior confusão. Afinal, o bebé chora porque tem medo ou porque está a avisar os pais de algo? Está a suceder algo mais entre o casal que nós não sabemos ou os problemas conjugais resultam meramente da falta de preparação? A montagem também não auxilia a resolução destas interrogações pois, se em alturas detém-se demasiado em cenas dispensáveis, no panorama geral a continuidade e lógica são profundamente afectados. Com uma premissa interessante “Colic” é um case-study de película que foi perdida na sala de edição. Os meus pêsames. Duas estrelas e meia.

Realização: Patchanon Thammajira
Pimpan Chalaikupp como Phrae
Vittaya Wasukraipaisan como Pong
Kuntheera Sattabongkot como Jeen

Próximo Filme: “Apartment 1303”, (1303, goshitsu, 2007)

domingo, 12 de maio de 2013

"The Unseeable" (Pen choo kab pee, 2006)




Chega uma altura na carreira de um cineasta tailandês em que ele tem de escolher difícil. Continuar a fazer os filmes que deseja fazer ou apostar num filme de terror para conseguir financiar projectos futuros. Atualmente Pee Mak Phrakanong (Pee significa fantasma), uma comédia de terror ou terror cómico, se preferirem, é o segundo filme mais visto de sempre do cinema tailandês. E a presença de filmes de terror tailandeses no top dos filmes mais vistos de sempre não é um acaso. Já antes, filmes como “Mae Nak”, “Dorm” ou “Shutter” tinham feito as delícias das audiências locais, recolhendo aclamação crítica internacional. Em comum? Realizadores cujo currículo se estende além do género que os deu a conhecer e captou todo o tipo de apoios futuros. “The Unseeable” é um desses infelizes acasos. Wisit Sasanatieng teve de baixar bastante o tom dos filmes anteriores, “Tears of the Black Tiger” e “Citizen Dog”, cuja utilização de cores saturadas podia ser apelidada de sonho Tecnicolor. Isso ou melhor da pop art de Andy Warhol, em especial a evocação do glamour de Hollywood dos anos 30. Com menores recursos e um argumento que não o seu basta dizer que a estória foi escrita por um dos membros da “Equipa Ronin” Kongkiat Khomsiri, que escreveu a tão popular série de filmes “Art of the Devil” e, mais recentemente, o desastroso “Dark Flight 407”. Só filmes de terror denotam um padrão?
A narrativa acompanha Nualjan (Siraphan Wattanajinda), uma rapariga do campo que se apaixona violentamente por um músico que surge na pequena localidade de Cholburi. Ele corteja-a e acabam por casar. Mas ele é um músico e terá de partir por uns dias em trabalho. Nunca mais retorna e uma Nualjan grávida decide procurá-lo. Eis que chega a uma antiga casa senhorial que parece parada no tempo. Entre estórias de terror contadas por uma empregada estranha, uma governanta digna de uma Mrs. Danvers da literatura, um homem que apenas cava buracos sob o olhar atento da lua e uma viúva amarga presa nos bons velhos tempos que não deseja abandonar os aposentos qual rainha de um castelo, o local não parece o ideal para uma grávida em final de termo. Ainda assim, onde é que ela pernoita?
Note-se que ela nem coloca a hipótese do marido estar morto ou de ter fugido para escapar às suas responsabilidades maritais. Pobre inocente. A ação decorre nos anos 30, um dos últimos redutos do realizador de "Tears of the Black Tiger", sendo que um dos poucos pormenores de interesse são a luta de classes. Os mais pobres têm tez mais escura e menos educação. Falta-lhes toda uma maneira de ser e de estar, acentuada por uma pele branca e leitosa qual marca de nascimento que só os da alta possuem, a crer no conservadorismo da época. Talvez por isso, os personagens de um nível inferior da sociedade surjam infinitamente mais acolhedores, "humanos" e, de certo modo, inocentes.
“The Unseeable” é um conjunto de acontecimentos que se vêm a milhas, a começar pelo título. O que aconteceu ao mistério? Ao suspense? Ao ficar nos píncaros? A roer as unhas? A esconder a face atrás das mãos? Nãooooooooo… embora dar um titulo óbvio e um trailer que desvenda os melhores momentos…

Que mania! Se vão mostrar o melhor no trailer é por que há uma tremenda falta de confiança de que conseguem vender o produto. Não. É porque sabem que o produto carece no departamento da qualidade.
Se para os realizadores tailandeses há um momento em que têm de reflectir sobre o caminho a adoptar sob pena de não conseguir fazer mais filmes também existe uma altura em que audiência se questiona se os argumentistas fizeram um pacto secreto sob o qual se comprometem a seguir, com mais ou menos desvios, a mesma narrativa. Primeiro a rapariga do filme vai parar, sabe-se lá por que obra do destino, a um local misterioso. Segundo ela toma a decisão de permanecer no sítio que não inspira assim tanta confiança. Acontece, faz parte dos homens tomar decisões estúpidas. O que não é tão perdoável assim é o que sucede num terceiro momento. A jovem é avisada em diversas ocasiões para não ter certos comportamentos. E o que ela faz é ignorar todos os avisos, quebrar todas as regras. E, em boa verdade, quem é que não sente uma ligeira satisfação pela desgraça que se abate sobre a transgressora? Duas estrelas.

Realização: Wisit Sasanatieng
Argumento: Kongkiat Khomsiri
Siraphan Wattanajinda como Nualjan
Supornthip Choungrangsee como Madame Runjuan
Tassawan Seneewongse como Somchit
Sombatsara Teerasaroch como Choy

Próximo Filme: "Ghost Sweepers" (Jeomjaengyideyl, 2012)

domingo, 21 de abril de 2013

"Secret Sunday" (9 Wat, 2010)


Há qualquer coisa de mágico na câmara de Saranyoo Jiralak que se encontra algures entre o naturalismo digno de um National Geographic e o programa de viagens dedicado ao turismo religioso. A sensação permanente de voyeurismo intruso é o que distingue “Secret Sunday” de um documentário. As cenas de jovens citadinos cheios de estilo a irromper por entre os raios de sol que acariciam as paredes de templos milenares trazem a certeza de arte. Estátuas, fotografias, animais, as árvores de uma floresta, até o pneu de um automóvel… Ajudam a contar a viagem de uma vida para um casal e o monge a quem deram relutantemente boleia.

“Secret Sunday” (não me perguntem a razão de ser do nome porque até ao momento ainda não percebi), cujo título na Tailândia é 9 wat, literalmente, nove templos, narra a estória de Nat (James Alexander Mackie) e a sua namorada Phoon (Siraphan Wattanajinda) que se propõem a a percorrer nove templos em sete dias para expurgar o mau karma de Nat a conselho da mãe deste. A senhora, uma budista devota, acredita que o filho está rodeado de energias negativas e que ele deve procurar o caminho da religião para alcançar a salvação. Nat acede a fazer a viagem mais pelo desejo de férias do que por uma crença profunda nas convicções da mãe. Já Phoon questiona mas não recusa a sugestão pois não é ateísta além de que tem as suas próprias preocupações egoístas. O seu caminho cruza-se com o de Sujitto (Pradon Sirakovit) um monge budista que parece saber algo mais sobre o que está a afligir o casal do que eles próprios e que também está ligado ao passado de Nat... Este podia ser o início perfeito de uma viagem de descoberta para um ateu, uma agnóstica e um crente mas 9 wat, a despeito da óbvia ligação religiosa trilha outros trajectos. “Secret Sunday” é um road-movie com um mix de thriller sobrenatural. Phoon é a protagonista e com razão já que à sua presença magnética, se juntam um styling espectacular, nomeadamente o cabelo curto pintado de louro platinado e roupas saídas da última colecção primavera/verão que a fazem sobressair entre a multidão tailandesa. A sua personagem representa a oportunidade perfeita para apresentar a jovem moderna, independente e um pouco promiscua na tela. Phoon representa uma imagem indesejável para a jovem tailandesa tradicional, escapando à caracterização da maioria das personagens femininas que pululam os ecrãs do país, puras, crentes e respeitáveis. No entanto, é deixado para o julgamento do espectador se Phoon surge como uma manobra arriscada de trazer uma personagem um pouco mais colorida para o grande ecrã ou, se o sofrimento da jovem decorre do seu comportamento pouco convencional.
Nat e Sujitto, até ao último quarto de hora de filme praticamente não apresentam qualquer conflito, com a agravante de que Nat nunca demonstra mais do que um feitio irascível e qualidades de boy toy que explicam o inicio da relação e o seu potencial de fim. Nat recusa terminantemente a existência da divindade enquanto o monge aceita cegamente a sua existência, pelo que a sua maneira de ver o mundo nunca é, até ali, questionada. É Phoon quem se apercebe das nuances e sofre por causa disso. Isto não quer dizer que qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade se aperceba de espíritos a olhar por cima do ombro ou de outras coisas que não existem no plano real. Não, isso já faz parte do filme. E também aí se encontram as maiores fraquezas de “Secret Sunday”. A introdução do sobrenatural é absolutamente desnecessária. Muitas das cenas são assustadoras ou quedam-se lá perto mas era perfeitamente plausível que Phoon e Nat fossem atormentados (apenas), devido ao passado e aos segredos que guardam. As suas motivações e medos também podiam ser conduzidos pela fase de vida em que se encontram. Já estão juntos há algum tempo e pode ter chegado a altura de explorar se a sua relação deverá ter continuidade ou se esta união deixou de fazer sentido. Uma road-trip onde uma série de peripécias os leva a questionar o percurso de vida e o futuro que pretendem seguir. Mas considerando o mercado tailandês o elemento terror possui um tal nível de atracção que leva a que sejam produzidos muitos filmes direccionados para esse tipo de público e, com bastante frequência, sejam produzidos muitos que pecam pela falta de qualidade. É por isso, lamentável, que no meio dessa montanha de obras, gemas como esta permaneçam por descobrir. Três estrelas e meia.
Realização: Saranyoo Jiralak
Argumento: Saranyoo Jiralak
James Alexander Mackie como Nat
Siraphan Wattanajinda como Phoon
Pradon Sirakovit como Sujitto


Próximo Filme: "Forbidden Siren" (Sairen, 2006)

PS: Não fui eu que vos disse que este filme está disponível, na integra, no youtube com legendas em inglês.

domingo, 18 de novembro de 2012

Red Eagle (2010)


Corria o ano de 1970 quando Mitr Chaibancha galã e estrela máxima do cinema tailandês se preparava para finalizar a película “Golden Eagle” (Insee Thong). A última cena envolvia Mitr saltar para a escada de um helicóptero que depois iria desaparecer poeticamente no horizonte… Mitr falhou o salto, agarrou o degrau o errado e o helicóptero, não se apercebendo do erro aumentou de altitude. A dada altura o actor perdeu as forças e caiu desamparado para a sua morte. A realidade chocou os fãs de ficção.
Red Eagle, traduzindo, Águia Vermelha (fãs do Benfica manifestam-se em 3, 2, 1), pode ser comparado aos heróis ocidentais como Batman. Também ele tem um animal como símbolo e tem sérios problemas do foro psiquiátrico. Esteve na guerra onde o seu esquadrão foi todo dizimado. De regresso à sociedade, onde não se consegue integrar por via do stress pós-traumático, Rom (Ananda Everingham), passa os dias entre a injecção de morfina para travar as dores que sente das sequelas de tantas e tantas lutas em que se envolvam, na tentativa de combater a injustiça. Rom é particularmente feroz na luta contra os políticos corruptos e não perdoa. Ao contrário de outros heróis que combatem os criminosos, sofrendo inúmeras mazelas e perdas em termos pessoais, para os entregar às autoridades, Rom não dá segundas oportunidades. Red Eagle apenas encarna a roupagem típica, ele não é comum. Os seus inimigos, inimigos do povo, têm um final rápido e nada fácil. Eles sofrem indignidades, pelas indignidades que cometeram em vida. Eles não têm direito a perdão. A corrupção está enraizada, é recorrente, é o primeiro recurso e o melhor modo de obter o que a ambição pessoal deseja alcançar, nem que seja tornar-se primeiro-ministro, ainda que custe relações e signifique abdicar dos princípios. Então, como não vêem os outros o que o Red Eagle vê? A corrupção é transversal, mas aos corruptos nada sucede. Logo, terá de existir um sistema concebido para os proteger. O que é que o Red Eagle pode fazer quanto a isso? Matá-los a todos? Ainda que Red Eagle livre o mundo de um monstro, muitos virão tomar-lhe o lugar. A mudança só virá quando os títulos de jornais tratarem uniformemente Red Eagle como o herói para um mundo melhor. Por que não há outra hipótese e a morte dos detractores é o único modo de incutir medo aos seus cúmplices e tornar a população mais desafiadora e inquisidora dos seus actos. Talvez o facto de usar uma máscara, o estilo brutal e o cartão-de-visita o tornem demasiado “herói de banda-desenhada” para ser verdade. É aí que entra Wassana (Yarinda Boonnak), é uma menina rica feita activista que tenta transmitir a mensagem de que populações estão a ser alvo de repressão para a construção de uma central nuclear. Mais, o Governo também se lançou numa campanha de contra-informação e repressão física, fazendo os activistas passar por vilões, uma cambada de vândalos sem causa que o que pretende é desestabilizar o Estado e privar o povo tailandês de energia essencial. Wassana é a ex-noiva desencantada do 1º ministro Direk (Pornwut Sarasin), que foi eleito graças à luta anti-nuclar para logo se retratar assim que chegou ao tão desejado cargo. É tão fácil encontrar paralelos noutros países que é vergonhoso. Cedo, Rom se embrenha nesta luta, muito por culpa da bela Wassana com quem tem um passado e é apenas uma questão de tempo até que entre em rota de colisão com o líder político. Entretanto e à melhor maneira dos comics, surge uma associação criminosa denominada Matulee determinada a eliminá-lo.
Em termos de narrativa, afirmar que a estória de “Red Eagle” se baseia na conjuntura política e em conflitos reais é constatar o óbvio. Infelizmente, a mensagem perde-se na tentativa de tornar “Red Eagle” apelativo a gregos e troianos (estive tentada a dizer israelitas e palestinianos mas por estas alturas achei por bem ficar-me pelo politicamente correcto), perdendo a identidade tailandesa pelo meio. O filme é caótico em termos imagéticos. Entre a utilização excessiva do ecrã verde e product placement é impossível considerar seriamente “Red Eagle”. Outro dos problemas do filme é a edição. Temos 130 minutos de filme mas precisávamos assim tanto deles? Não é uma questão de duração mas de edição. Há bastantes cenas dispensáveis e na transição entre estas há uma variação de qualidade. Diria mesmo que há uma desconexão entre o set de filmagens e a sala de edição. A simplicidade inerente à estética do cinema tailandês choca com o ruído das tonalidades hollywoodescas. “Red Eagle” contém inserção de publicidade descarada, desde cigarros a bebidas energéticas. Mas é nos momentos em que parece que o realizador manteve o controlo da obra nas suas mãos que resultam os momentos mais insólitos como uma luta entre o herói e um assassino enviado para o matar sobre um outdoor de uma companhia de seguros de vida ou quando um gangster prestes a assassinar um polícia tropeça e dá um trambolhão! O filme sofre com este conflito interno. O argumento não sabe para onde quer ir e, em termos de imagem a ideia que fica gravada na mente é exactamente essa, da falta de direcção. Esta questão é ainda mais evidente nos actores, mas sobretudo em Ananda Everingham, um bom actor que não tem oportunidade de demonstrar as suas qualidades, num papel muito pouco esmiuçado. No final, um toque comovente, a merecida homenagem a Mitr Chaibancha, mesmo que o filme não o mereça. Duas estrelas.

Realização: Wisit Sasanatieng
Argumento: Kongkiat Khomsiri e Yosapong Polsap
Ananda Everingham como Rom / Red Eagle
Yarinda Boonnak  como Wassana
Pornwut Sarasin como Direk
Wannasingh Prasertkul como Chart

Próximo Filme: A designar

domingo, 11 de novembro de 2012

"Art of the Devil 3" (Long Khong 2, 2008)



Antes dos filmes “Saw” (2004), se tornarem uma instituição e os filmes de tortura, chamem-lhe torture porn se quiserem, a ver se me importo, já a Tailândia fazia as delícias do mercado interno de terror. É apenas natural que, uns meses após a estreia de “Saw”, o país lançasse “Art of the Devil” que se resume a uma sucessão de cenas de tortura e que catapultou a jovem e bela actriz principal para o estrelato. Mais dois filmes se seguiriam e é o terceiro de que hoje se fala. Não existe a problemática da continuidade pois o primeiro filme é independente dos que o seguiram e o filme de 2008 é a prequela de “Art of the Devil 2”. Curiosamente o terceiro filme foi intitulado Long Khong 2. Confusos? Mas a questão da continuidade nunca seria problemática, uma vez que o foco do filme é a tortura e o que interessa é ter carne viva disponível para o efeito. Quem, pouco importa vai tudo a eito.
Panor (Nakpakpapha Nakprasitte) é a professora sexy que desde que chegou à terreola deixou todos em polvorosa, incluindo um homem que para se casar com ela, chega a envenenar a própria esposa Daun (Paweena Chariffsakul). A morte da mãe e o rápido casamento do chefe de família com a intrusa provoca a desconfiança de todos. Cedo, desenham um plano para ressuscitar Daun e fazer desaparecer Panor, que inclui religião, magia negra e bastante tortura. Está-se bem de ver onde isso vai dar, cenas bastante explícitas de sevícias cruéis. Ok, não são tão dolorosas como, digamos, um vídeo do David Guetta com a Rihanna como guest star mas ainda assim bastante más. E caracterização deixa muito a desejar. "Ora deixa-me cá cortar-te a língua que é um óbvio pedaço de plasticina"... Sem pretender desvendar demasiado, deixem-me só deixar bem claro que “Art of the Devil 3” não é de todo aconselhado a mulheres grávidas ou com enorme sensibilidade no que toca ao seu útero. Mais, há uma cena em particular em que (e eu considero-me já bastante dessensibilizada no que a cenas impressionantes diz respeito), me senti fisicamente doente. Não se metam com o útero de uma mulher. Tipo, essa cena é doentia. No que é que estavam a pensar? 
Bem, cumprem o objectivo de provocar o temor nos espectadores, ainda que por alusão a uma qualquer atrocidade cometida contra a nossa pessoa e não propriamente pelo suspense ou poder da sugestão. A saga “Art of the Devil” concretiza um dos maiores problemas dos filmes de terror do novo milénio. Nada é deixado para a imaginação. O triunfo de inúmeros filmes de terror deve-se à sugestão e não ao que de facto mostraram no ecrã. Mais do que devido à mestria da equipa técnica, o ónus é colocado na curiosidade mórbida do espectador. É ele que se questiona sobre o que se passará fora do alcance da lente. Posto isto, de notar que a bruxaria, se não é algo recorrente para aqueles lados, pelo menos parece que em toda a saga, descobrir um bruxo é tão fácil como ligar ao canalizador. E nem um é vigarista. Todos sabem o que fazer no caminho das artes mágicas negras e todos atingem com sucesso as metas que os clientes lhes pedem. E o melhor de tudo é que enquanto praticam actos perfeitamente questionáveis, vão avisando que lidar com a magia negra traz consequências devastadoras para quem invocou tais males. Não me digam? O que mais me surpreende nem é a facilidade com que se contratam bruxos mas o facto de haver tanta maldade no coração que se recorre por motivo nenhum a medidas tão extremas quanto essas. Processar não? Pintar as paredes do malfeitor com graffiti? No máximo, uma bofetada ou uma ameaça de morte? Não? Eles lá sabem. E depois, existindo ofensas tão graves contra a família é assustador que as pessoas não se importem de colocar os seus entes queridos em risco por algo que foi feito contra apenas um indivíduo. Um bocadinho egoístas ou retardados não? O que me leva à questão seguinte: não existe um único personagem digno de piedade! Todos são malvados. Todos merecem um mau fim e não é como se alguém se importasse. Se o objectivo é repugnar-nos, "Art of the Devil 3" sucede em todas as frentes: ele há sangue, vermes, agulhas enfiadas em sítios pouco naturais, orifícios penetrados e castigados de modo extremamente doloroso… Só não há argumento. Mas não é como se alguém fosse procurar as artes do demónio por causa da estória não é? Uma estrela e meia. 


Realização: Equipa Ronin (Pasith Buranajan, Kongkiat Khomsiri, Isara Nadee, Seree Phongnithi, Yosapong Polsap, Putipong Saisikaew e Art Thamthrakul)
Argumento: Kongkiat Khomsiri e Yosapong Polsap
Nakpakpapha Nakprasitte  como Panor
Sukaporn Kitsuwon como Dis
Paweena Chariffsakul como Daun
Kalorin Supaluck Neemayothin como Pan
Sammart Praihirun como Pravet

Próximo Filme: Roman Polanski: A Film Memoir, 2012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"The Victim" (Phii khon Pen, 2006)



Ficai a saber que não sou fã do fenómeno de “inception” dentro de um filme, à excepção do filme “Inception” (2010). Já o vimos antes, no igualmente tailandês (é um padrão?!), “Coming Soon” (2008). “The Victim” apresenta uma jovem aspirante a actriz que não consegue arranjar trabalho além da presença em talk e gameshows até que um dia um polícia a recruta para um papel diferente. Ting (Pitchanart Sakakorn) é contratada para fazer o papel de vítima na reconstituição de crimes. O papel assenta-lhe na perfeição e, nem os cenários mais macabros a assustam, desde que efetue os devidos rituais budistas em respeito pelos mortos e peça a sua bênção. É um trabalho é certo mas é mais fácil se a rapariga se convencer a si própria que o que está a fazer ajuda a apanhar assassinos e apazigua mortos. E à medida que Ting se vai tornando cada vez melhor parece que até os mortos ganham a capacidade de ressuscitar… Alerta reviravolta 50 minutos dentro do filme e a rapariga afinal é May, uma actriz que interpreta o papel de Ting e o cenário onde fazem as filmagens está assombrado por um fantasma que faz anunciar a sua presença através dos guizos que pertencem ao seu fato de interprete de danças tradicionais tailandesas.
A premissa inicial é interessante o suficiente para manter a audiência ligada. Quer-se dizer, uma mocinha que ganha a vida a representar cenas de homicídio no qual interpreta uma vítima? É preciso ter estômago. Não sabia que os tailandeses levavam a arte da reconstituição tão a sério. Talvez não mas a ideia é intrigante. Como se não fosse já suficientemente macabra esta ideia, os espíritos dos mortos começam a inquietar-se. Nesse momento, os cineastas pegam numa audiência já cativa e forçam-na a desligar-se de tudo o que conhece e voltar a apaixonar-se por uma nova estória. E isso não tem piada, a sério que não.

Eis que a pobre Ting vira a modelo rica May e o factor simpatia voa pela janela. Uma gaja boa, actriz de sucesso e ainda por cima rica? Raios e coriscos! Que ela arda no quinto dos infernos. A reviravolta na estória traz também a transição de uma classe pobre e imaginamos trabalhadora para uma classe rica e, fútil? Já viram o preconceito associado? Ora, se a narrativa inicial também era pobre em pormenores, podemos dizer que a última metade traz uma opulência de elementos que mais do que ajudar só confundem. Sou apologista de que a audiência pense um bocadinho e descubra por si própria o significado do filme, através de sugestões subtis. Mas levar à confusão, de tal modo que já não se sabe muito bem o que se está a ver e, muito menos, compreendê-lo é um exagero. Rapidamente, personagens que não conhecíamos e, com as quais, não podíamos sentir simpatia, conhecem um fim horrendo. E não nos podíamos interessar menos. A preparação para os sustos não é das piores e, para quem já viu outros filmes made in Thailand, é capaz de ficar agradavelmente impressionado com os efeitos digitais. Porventura, o elemento mais agradável de toda a assombração é o fato de dançarina tradicional. Será o momento mais genuíno dos 108 minutos. A fotografia, bem, julguem por vocês mesmos.
Are you scared yet?
Porque “The Victim” tenta ser tudo e mais alguma coisa, perde-se na ambição. Durante esses breves momentos, sabemos que não estamos a ver mais um filme de rapariga descabelada que bem podia ter sido criado em qualquer país a este e sudeste asiáticos, mas um filme do país livre (Thai). Como (quase), sempre digo e, já se torna tão repetitivo que qualquer dia torno a frase o lema deste blogue é: "na simplicidade que está o ganho”. Se há filmes que são tão simples que até um zombie conseguia perceber a sinopse outros há tão rebuscados que não havia necessidade. E tenho de admitir que os cineastas tailandeses, não são uns de fugir do risco, da Tailândia têm saído filmes bastante arrojados, mas por cada um que resulta, há três ou quatro que dão um tiro no pé. “The Victim” é mais uma “vítima” desta mentalidade kamikaze que proporciona uma experiência desigual pois, que qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade poderá pensar que está a ver uma colagem de dois filmes diferentes. Cada um deles tem os seus méritos mas como um todo não funciona. Que desperdício. Duas estrelas e meia.

Realização: Monthon Arayangkoon
Argumento: Monthon Arayangkoon, Shi-Geng Jian e Sompope Vejchapipat
Pitchanart Sakakorn como Ting/May
Apasiri Nitibhon como Meen/Oom
Kiradej Ketakinta como Tenente Te
Penpak Sirikul como Fai

Próximo Filme: "Natural City" (2003)


MINI SPOILER

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"Ong Bak: The Thai Warrior" (Ong bak, 2003)



Levar uma cotovela na cabeça não deve ser lá muito agradável. Pensado melhor, uma joelhada no abdómen também não. Mas é assim a meios que espectacular de observar, sobretudo se o realizador recorrer à técnica de “vamos repetir esta cena quatro vezes em slow motion, de ângulos diferentes”. Com estes artifícios existe a forte possibilidade do filme ser equiparado a um “série B” mas e, daí, também pode ser comparado ao John Woo (“Face off” e “Red Cliff”), o que, como podem imaginar, não deve ser lá muito aborrecido.

“Ong Bak: The Thai Warrior” decorre na longínqua Tailândia. Não naquela das praias paradisíacas e vida de reis mas na pobre vida rural onde a devoção pode (acredita-se), fazer toda a diferença. Tal como por terras portuguesas, os pescadores rezam pela santinha para que o mar não os engula e lhes permita trazer sustento para as famílias, na Tailândia, ora-se pelo “Ong Bak”, para que este os abençoe com uma terra fértil. Curioso mundo onde, de uma Europa ocidental a um sudeste asiático, as orações a diferentes divindades revelam a esperança de um destino similar. Tudo depende da bênção dos deuses e, quando a cabeça do Buda (“Ong Bak”) é roubada, a aldeia cai em desgraça. Sem uma divindade a quem prestar o culto os terrenos irão tornar-se inférteis e toda a vida morrerá. Ting (Tony Jaa) um jovem simples e devoto promete seguir os ladrões devolver o “Ong Bak” aos seus legítimos donos. O resto é história, quer dizer, não há grande estória, ele vai para a cidade, tropeça numa rede de tráfico de antiguidades, os ladrões descobrem que se meteram com o homem errado e o mundo (re)descobre o Muay Thai. 
“Ong Bak: The Thai Warrior” surge numa altura de relativa acalmia face ao mundo das artes marciais. Tirando os mais conhecidos como Jet Li e Jackie Chan e, com o desaparecer das velhas glórias dos anos 80, “Ong Bak: The Thai Warrior” surge extraordinário e supera as expectativas dos mais fervorosos fãs do cinema de acção. Tony Jaa é um grande atleta, como atestam as inúmeras cenas de luta e perseguição pelas ruas da cidade de Banguecoque. Ele são corridas desenfreadas, nas quais Jaa faz mortais como quem respira e, vejam só a coincidência, aterra em torneios de luta livre clandestinos. Mas ele não se desvia um milímetro do seu objectivo, nem pensar. Apenas uma questão o motiva: recuperar a cabeça do Buda e trazer de novo a prosperidade para a aldeia. Ele não luta à mínima provocação. Ele evita ao máximo demonstrar as suas habilidades atléticas excepto se vir situações de injustiça. Ele não suporta ver mulheres a ser fisicamente atacadas. Seria até de pensar que ele não fuma, não bebe e evitará até perder a virgindade antes do casamento. Tal é a pureza. Claro que depois dá pontapés, joelhadas, cotoveladas, murros incapacitantes e mortais mas só em último caso. Por muito agradável o pensamento que um homem que domina tal disciplina não é um vicioso. Não se deve estar mais longe da verdade. Ninguém é perfeito e, custa-me, mais uma vez, fazer de um homem tal modo superior em termos físicos, a todos os outros, um puro. É assustador pensar que uma pessoa com tal poder não é boa de coração mas, o inverso seria sempre mais interessante e, uma escapadela aos facilitismos de argumento. E já que menciono facilitismos, Ting tem um número de falas só comparável ao Arnold Schwarzenegger. Para apimentar um pouco a estória, visto que Jaa não prima pelo carisma, o seu personagem reencontra George (Petchtai Wongkamlao), um velho conhecido da aldeia que foi para a cidade ganhar a vida de um modo não tão honesto quanto isso. Ele conhece ainda uma miúda que é capaz de ter a voz mais irritante que já se ouviu em película. Imaginem o som de unhas a riscar um quadro… Agora, imaginem que estão a ouvi-lo num cinema com a melhor qualidade de som… Mas a mocinha, Muay Lek (Pumwaree Yodkamol) é praticamente inofensiva, uma santa de boca fechada. O melhor actor do trio improvável é, provavelmente Wongkamlao, que deve ter o maior número de falas no argumento. Face às limitações de Jaa como actor, hey o homem já é sobrehumano, que mais querem?! E à voz de Yodkamol, nem seria de esperar outra coisa. 
O que a audiência pode esperar são: cenas de acção intensas sem cablagem à vista, muito estremecer pelos pobres duplos e uma perseguição de “Tuk Tuk” (táxis de três rodas), pela cidade. Toma lá John Woo! E ainda um jovem com uma capacidade de reacção explosiva reminiscente (sim, eu atrevo-me a proferi-lo), de um Bruce Lee. Três estrelas.


Realização: Prachya Pinkaew
Argumento: Prachya Pinkaew, Panna Rittikrai e Suphachai Sittiaumponpan
Tony Jaa como Ting
Petchtai Wongkamlao como George
Pumwaree Yodkamol como Muay Lek

Próximo Filme: "Don't be afraid of the Dark", 2010

domingo, 29 de janeiro de 2012

"Alone" (Fad, 2007)

Aviso: Contém spoilers!

Costumo ser bastante crítica em relação às traduções de títulos de filmes que não raras vezes, nada tem que ver com o original. O título tailandês de “Alone” é fad que significa literalmente gémeo. Mas neste caso, pode-se dizer que “Alone” foi um toque de génio. Ser-se gémeo é não ter de estar sozinho. É uma partilha física, mágica, telepática. É um não precisar de espelhos pois que o nosso caminha connosco de mão dada. É uma partilha de dores e amores que poucos seres humanos podem almejar. Até que um dos gémeos desaparece. Aí terminam as brincadeiras, desejos, pensamentos secretos. Conhece-se a solidão.
Pim (Marsha Wattanapanich) está só desde os 15 anos. Ela tinha uma irmã gémea Ploy que estava ligada a ela pelo estômago. A sua morte fez com que a gémea sobrevivente fugisse para a Coreia. Um dia é informada que a sua mãe está muito doente e é obrigada a regressar à Tailândia com o namorado Vee (Vittaya Wasukraipaisan). Mal regressa, Pim começa a ver imagens da falecida irmã por todo o lado. Por mais que tente não consegue provar que o que vê é real e Vee começa a questionar a sanidade da namorada. Quer dizer, é natural não é? O stress de ver a mãe, a única familiar viva internada e regressar à casa onde vivia com a irmã Ploy que faleceu quando era apenas uma adolescente devem arrasar qualquer um. Pim deve estar a experienciar sentimentos de culpa. Mas para ela, é muito mais do que isso. A irmã gémea procura-a para que possam ficar juntas para sempre. Pim não pode quebrar a promessa que fez em menina à irmã de que estariam juntas para sempre. Mas elas tinham entendimentos diferentes. Pim era, em primeiro lugar, uma rapariga, que queria viver um amor profundo e todas as experiências gratificantes que a vida tinha para lhe oferecer. Para ela, estando fisicamente apegada à irmã, é impossível cumprir esse desejo, o que criou um natural foco de tensão sempre crescente, à medida que cresceram. É também esta divergência que permite separar as irmãs em termos de personalidade e identificar o ponto de ruptura no anterior laço forte que partilhavam.
“Alone” é o segundo filme da dupla de realizadores tailandeses Parkpoom Wongpoom e Banjong Pisanthanakun, depois do sucesso estrondoso de "Shutter" (2004). Mais uma vez acertam no alvo. A dupla repesca o hair movie e acrescenta-lhe elementos de originalidade que dão vitalidade a um género sobre explorado. De lamentar talvez o timing pois que o coreano “A Tale of Two Sisters” (2003) estreou uns anos antes, analisando precisamente a relação de duas irmãs com grande aclamação e sucesso comercial. A dupla de cineastas tailandeses levou esta relação a um patamar superior, penetrando a conexão tão especial entre irmãs siamesas. Um dado curioso é que a Tailândia é o antigo Sião, de onde eram dois irmãos gémeos tão famosos que deram origem ao termo "Siamês". "Alone" tem a vantagem de um elenco sólido, encabeçado por Marsha Wattanapanich uma cantora de ascendência tailandesa e alemã, que teve aqui o seu regresso bem-sucedido à celebridade depois de alguns anos de semiobscuridade. A sua personagem é também uma piscadela de olho dos cineastas à audiência já que a alcunha de Marsha é precisamente Pim. Alguém se lembrou do cliché “arte a imitar a vida real”? Não? Eu fui lá, deixem estar.
A banda-sonora é utilizada para provocar sobressaltos na cadeira nas alturas certas. Não que isso fosse preciso. Pelo meio há uma alusão aos filmes "Giallo" com um “lalala” de crianças demasiado conhecido mas sempre eficaz. Além de que a sua utilização em Alone faz todo o sentido: é o retrato da história de duas irmãs e a perda da inocência. Junte-se a uma banda-sonora vulgar mas eficaz, a câmara inteligente da dupla de realizadores que provam ter capacidade para uma carreira repleta de sucessos. O final é uma reviravolta que não será inesperada se observarem com atenção as pistas que os cineastas foram semeando durante a película. Verdade seja dita que só me apercebi da grande revelação a um quarto de hora do final. Dizer que me teria apercebido do final se tenho estado mais atenta é pois um pouco arriscado. Fica a nota. No entanto, fiquei agradavelmente surpreendida com os truques de câmara e jogos de sombra que apontavam para o óbvio se ao menos tivesse visto… “Alone” é menos centrado nos sustos do que nas relações entre as personagens e Marsha reflecte com mestria o tormento da sua personagem, ao mesmo tempo que interpreta duas gémeas, cada uma com uma personalidade muito própria. De enaltecer também a opção por uma actriz madura que soube exactamente o que fazer com a personagem e não uma qualquer starlet acabada de saír da adolescência cujos talentos se cingem a fazer beicinho e usar soutien push-up. Já o Vee de Vittaya Wasukraipaisan é a âncora perfeita para uma Pim que não sabe se está a enlouquecer. Apesar de não considerar  “Alone” um esforço tão bem concretizado como a obra de estreia dos cineastas,verifica-se uma maior maturidade a nível da narrativa e do desenvolvimento das personagens. Vejam “Alone” como um sucedâneo de outro filme ou como uma obra independente ele cumpre a função primordial: assustar. Três estrelas.


Realização: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom
Argumento: Sopon Sukdapisit, Banjong Pisanthanakun, Parkpoom Wongpoom e Aummaraporn Phandintong
Marsha Wattanapanich como Pim / Ploy
Vittaya Wasukraipaisan como Vee
Ratchanoo Bunchootwong como Mãe de Pim e Ploy
Hatairat Egereff como Pim com 15 anos
Rutairat Egereff como Ploy com 15 anos
Namo Tongkumnerd como Vee com 15 anos

Próximo Filme: "Loft" (Rofuto, 2005)

domingo, 25 de dezembro de 2011

"Who are you" (Krai... Nai Hong, 2010)

Quem és tu. Assim de repente não é muito fácil responder pois não? Para Nida (Sinjai Plengpanit) também não será fácil. É uma mulher madura, jovial, trabalhadora, espiritual, espirituosa, mãe. Nida esconde-se por detrás de um sorriso demasiado bem ensaiado, ou se calhar está mesmo, por via do culto em que está envolvida, convencida, de que é feliz. Tem o seu próprio negócio, uma banca de venda de DVDs, uns regulares e uns dos outros. Que mal faz um pouco de pecado? Quase consigo imaginar Nida a dizê-lo com um trejeito nos lábios enquanto pisca um olho, a marota. É esta alegria de viver que a faz revelar o seu segredo mais mal guardado. O filho Ton está fechado no quarto há cinco anos. O único modo de comunicar com ele é passando-lhe bilhetes por baixo da soleira da porta. Ele não sai porquê? Porque é viciado em jogos, porque é anti-social, porque ela é má mãe… Sabe lá ela, o motivo. O facto é que sente uma dor aguda, dor de mãe, que não vê o filho há vários anos.
Um produtor de TV (Pongpit Preechaborisutkhun), seu amigo/cliente ouve a história e considera Ton, o alvo perfeito para a sua próxima reportagem. Ele acredita que Ton sofre da síndrome Hikikomori, um termo japonês que designa um novo fenómeno de isolamento social da juventude. Perante uma sociedade repleta de agressão, seja pelo ruído, estímulos visuais ou a pressão social para sair de casa, trabalhar e enfim, ter filhos, muitos jovens desenvolvem uma fobia social que os leva a fechar-se dentro de casa a coberto de pais, muitas vezes, sobre protectores. O produtor convence Nida a deixá-lo entrar no seu mundo, que ele talvez possa ajudar Ton. Não é como se ela tivesse realmente obtido resultados quanto ao filho nos últimos anos. Ela deve ser afinal conivente e fraca e introduz o estranho na sua casa. O refúgio de Nida está recheado de animais empalhados, uma lembrança constante de um passado distante, a certeza de que a sua vida estagnou. Quem mal a conheça duvidará da existência de Ton. Cinco anos é tempo demais para ele não se dar a conhecer. A história dos bilhetes é demasiado rocambolesca. Será Nida uma mulher doente em busca de atenção? Será Ton, a corporização do seu pedido de ajuda? Afinal, ela anda metida com essas seitas esquisitas. Quem és tu. Alguém que não precisa da ajuda de um culto que provavelmente lhe leva todo o pouco dinheiro da venda de DVDs, a troco de um pouco de estabilidade emocional. No prédio em frente vive Pan (Kanya Rattapetch). Também ela não sai do quarto. E também ela tem uma mãe protectora. Mas ela não pode viver como gostaria por que ela sofre de alergias graves. Ela não chegou a completar a escola e não sai de casa, como o fazem outros, nem para dar um simples passeio. O único motivo de movimentação são as idas ao médico. Será que a sua condição se agravou?
Ao contrário de Ton, Pan vive atormentada pelo facto de não poder conhecer o mundo lá fora. Enquanto a mãe de Pan a vai protegendo no seu ninho, Nida deseja que o seu filho saia das amarras que ele próprio criou e viva a vida. Pan e Ton são dois seres indefesos por motivos distintos. Enquanto um se reclui voluntariamente, o outro anseia por extravasar. “Who are you” retrata com distinção dois dilemas terríveis do crescimento. Devemos ceder ao desejo de ficarmos para sempre numa Terra do Nunca e não crescermos ou efectuarmos o empurrão final para sairmos do ninho e tomarmos o destino pelas nossas próprias mãos? Crescer? Independência? Por outro lado, talvez seja altura de Nida se consciencializar que Ton cresceu e está na altura de o deixar partir. Nada dura para sempre. Podemos empalhar animais mas o que subsiste é o exterior. A essência, o que nos fez sentir afecto por eles, já se mudou para outro lugar. É a vida nunca em permanência, sempre em mutação que merece a nossa reflexão. Resulta pois que “Who are you” é uma peça original mas não totalmente inesperada de Eakasit Thairatana que escreveu a banda desenhada que seria a base de “13 Beloved” (2006), “Body #19” (2007) e o segmento “Tit for Tat” de “4bia” (2008). Tanto melhor, pois que “Who are you” transpira fulgor por todos os poros. Muito longe de ser o filme de terror sobrenatural sobre cabelo, “Who are you” parece mais centrado no desenvolvimento dos personagens, em particular, na actuação de Sinjai. “Who are you” teve uma participação discreta no MoteLx, em Setembro deste ano e como lamento não ter visionado esta pequena gema no grande ecrã. Este filme atesta o potencial que o cinema tailandês pode ter em diversas vertentes: argumento, direcção e representação. O único defeito é mesmo o final. Quando se aposta na reviravolta como um dado adquirido de todos os filmes de terror, o fôlego inicial perde-se. As expectativas que se criaram em torno das representações sólidas da dupla de actrizes e o argumento difícil mas, ainda assim credível, são destruídos quando se recorre ao choque com imagens geradas por computador. Como um lindo laço cujas pontas são mal atadas. Em todo o caso, “Who are you” é manifestamente superior ao cinema de terror tailandês típico. Se este é um pronuncio do cinema tailandês para a segunda década do século XXI, aguardam-nos uns próximos anos bastante excitantes. Três estrelas.

Realização: Pakphum Wonjinda
Argumento: Eakasit Thairatana
Sinjai Plengpanit como Nida
Pongpit Preechaborisutkhun como produtor de televisão
Kanya Rattapech como Pan

Próximo Filme: "13 Assassins" (Jûsan-nin no shikaku, 2010)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Three - Curta #2: The Wheel" (Saam Gaang, 2002)

Pior do que um enredo óbvio só uma narrativa sem direcção. Daquelas que disparam em todas as direcções, a ver se uma cai nas boas graças da audiência. Estão apresentados a “The Wheel”. É a segunda curta-metragem da antologia "Three"e está a cargo de um Nonzee Nimibutr, que teve sucesso com o filme de terror “Nang Nak” (1999). “The Wheel” é um anacronismo, é a peça que não pertence. As outras curtas focam as relações entre os personagens e exploram o sentimento de perda enquanto "The Wheel" é sobre a maldição de uma marioneta... Tem um feel muito diferente das outras curtas-metragens e deita por terra qualquer tipo de transição suave entre as obras de “Three”. Comparativamente, é um trabalho de amadores. “The Wheel” passa-se numa pequena aldeia onde falece um velho mestre criador de marionetas. Diz-nos a narração inicial que as marionetas estão imbuídas com o espírito do seu criador. Este é o único que se pode apropriar delas. Quem quebrar esta regra incorre numa grande maldição. Como é óbvio, há sempre um parvo com a mania que é esperto e ignora o bom senso, sofrendo, por isso, as consequências. 
Contra todos os avisos e conselhos de trabalhadores e família, o mestre Tong (Pongsanart Vinsiri) recusa-se a acreditar na existência de uma maldição e em separar-se dos valiosos bonecos. Guiado pela ganância, Tong vê as marionetas como um modo de melhorar o espectáculo da sua trupe de dança tradicional Khon e trazer-lhe riqueza. À sua volta, começam a haver acidentes e mortes mas nem assim ele se desvia dos seus objectivos. Temos direito a tudo: incêndios, afogamentos, possessões, paixões proibidas, homicídios… Então, os que o rodeiam reúnem-se para travar a maldição e destruir a marioneta. Pois… Era bom. Antes fosse assim. Nimibutr obriga-nos a assistir incrédulos a uma sucessão de acontecimentos evitáveis e ridículos que testam a paciência a um santo. E quando julgamos que a acção não podia piorar eis um balde de água fria, uma reviravolta que ninguém previa mas piora a experiência já de si penosa. Moral? É capaz de algo acerca de nos deixarmos cegar pela ganância e os outros à nossa volta sofrerem com isso, num ciclo vicioso de destruição - the wheel = roda. Lição: é o exemplo perfeito de quando um realizador decide fazer tudo sozinho e dá mau resultado. Pois Nonzee qual mestre de marionetas toma as rédeas da escrita, produção e direcção a seu cargo e o que resulta é uma obra banal, confusa e desinspirada. O tema dos bonecos assassinos não é novidade pelo que ao menos se esperava uma aprendizagem sobre as experiências anteriores. Decerto a experiência cinematográfica seria melhor se Nimibutr se estivesse rodeado por uma equipa competente e não se tivesse deixado guiar pelo narcisismo. A obra cinematográfica é um paralelo da vida real. Não é poético? "The Wheel" não é filme que faça falta numa antologia destas, muito menos em 40 minutos. Uma estrela.
Realização: Nonzee Nimibutr
Argumento: Ek Lemchuen, Nonzee Nimibutr e Nitas Singhamat
Suwinit Panjamawat como Gaan
Komgrich Yuttiyong como mestre Tao
Pongsanart Vinsiri como mestre Tong

Próximo Filme: "Bestseller" (Beseuteu Serreo, 2010) 
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