segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Por uma definição justa de pirataria


A pirataria é um mal que paira sobre a Humanidade. Todas as semanas, navios de praticamente todas as nacionalidades correm grandes riscos de serem abordados por piratas somalis nos Mares Arábico e Índico. Enquanto isso é um atentado à integridade física de pessoas e um roubo de produtos físicos - e a também antiga contrafacção de artigos coloca em risco a vida ou a saúde das pessoas - os governos e entidades mais ou menos oficiais preocupam-se principalmente com um tipo de pirataria bem mais ofensivo ou perigoso: a democratização do conhecimento cultural, através da partilha de conteúdos digitais.

Os conteúdos digitais foram uma invenção da indústria. Dando variedade de formatos e portabilidade, tencionavam vender mais, mais depressa e com maior lucro. E tal como no tempo dos gravadores de VHS, os consumidores contornaram as regras. Se há vinte anos as revistas apoiavam o consumidor fornecendo capas e códigos para gravar à hora certa, agora são os próprios fornecedores de serviços televisivos a permitir a gravação e visionamento posterior com um mínimo de esforço. E isso é legal porque, apesar de os fabricantes de conteúdo não gostarem, como são empresas que o fazem pagam impostos, continua a ser negócio. Os consumidores agradecem o serviço prestado.

Vender DVD contrafeitos é ilegal. Porque nesse cenário não ganha quem faz o conteúdo, nem quem o vende paga impostos sobre o seu trabalho. O consumidor agradece pagar menos do que por um bilhete de cinema ou uma cópia oficial e, como os tempos estão difíceis, já sente que é justo cortar numa despesa “supérflua” como é o entretenimento.

Disponibilizar conteúdos online equivale ao anterior porque, atingindo determinada escala, começa a arrecadar quantias consideráveis de dinheiro com a publicidade.

E se quem os coloca online não estiver a ter lucro, nem a roubar a ninguém? Esse era o caso do blog My One Thousand Movies. Os três mil filmes que tinha eram clássicos que não se encontram à venda nem passam na televisão. Pretendiam dar a conhecer o património cinematográfico da humanidade. Serviam para descobrir cineastas esquecidos e obras de culto, mas com pouca resolução para que ninguém se sentisse tentado a ficar com essa versão em vez de se dedicar a procurar no mercado convencional de importação uma versão melhor. Outra vantagem é que no My One Thousand Movies todos os filmes tinham legendas em português ou numa língua mais ou menos compreensível. Na importação não.


Dia 16 de Dezembro foi fechado pela Google sem qualquer aviso por incentivo à pirataria. Estamos a falar de filmes quase impossíveis de encontrar no mercado, que em nada rivalizavam com a versão comprada, se existisse uma, e que tinham no máximo uma centena de downloads provenientes de todo o mundo, não apenas de Portugal.

O que o My One Thousand Movies fazia era complementar (ou substituir) a missão da deficiente televisão pública de educar cinéfilos. Muitos bloggers recorreram a este repositório para rever um título acarinhado, ou, a partir do filme e da pequena resenha que o acompanhava, fazerem publicações com as quais muitas outras centenas de pessoas ficaram com vontade de descobrir um cinema marginal e esquecido.
Isto não é pirataria, é serviço público, e é preciso (re)definir o enquadramento legal adequado.

Se alguém errou no meio disto tudo foram as distribuidoras que não viram interesse em comercializar os filmes. Ninguém o pode ver porque não compensa comprar os direitos e fabricar para pouca gente? Sugeríamos que houvesse um videoclube online no qual, por um valor simbólico, se pudesse ver o filme contribuindo para a distribuidora. A distribuidora não teria encargos com a manufactura de cópias físicas que ficariam a ocupar espaço em armazém.Os consumidores exigentes encontrariam o que queriam imediatamente sem remexer em caixotes de promoções nas superfícies comerciais.

Os retalhistas não estão interessados em ter uma cópia única de milhares de filmes que poderão nunca vir a comercializar, mas estariam interessados em vender cartões pré-pagos de acesso a esse serviço, como fazem para as consolas.Se o preço fosse suficientemente baixo toda a gente poderia espreitar e talvez descobrir algo único.

Enquanto este tipo de serviço não existir, estaremos sempre dependentes da boa vontade, dedicação e cultura de pessoas como o autor do MOTM. Mesmo que achem que isso vai contra a lei. De todos nós, obrigado.

Signatários
Ana Sofia Santos Cine31 / Girl on Film
André Azevedo BD no Sótão
André Marques Blockbusters
António Tavares de Figueiredo Matinée Portuense
Armindo Paulo Ferreira Ecos Imprevistos
David Martins Cine31
Eduardo Luís Rodrigues EddyR Corner
Francisco Rocha My Two Thousand Movies
Gabriel Martins Alternative Prison
Johnny Kino O Desconhecido do Norte Expresso
Inês Moreira Santos Hoje Vi(vi) um filme / Espalha-Factos
Jorge Rodrigues Dial P for Popcorn
Jorge Teixeira Caminho Largo
Luís Mendonça CINEdrio
Manuel Reis Cenas Aleatórias / TV Dependente
Miguel Lourenço Pereira Cinema
Miguel Reis Cinema Notebook
Nuno Reis Antestreia
Pedro Afonso Laxante Cultural
Rita Santos Not a Film Critic
Samuel Andrade Keyzer Soze's Place / O Síndroma do Vinagre
Victor Afonso O Homem que Sabia Demasiado






quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

“Zombie 108”, (Z-108 qi chen, 2012)


Diz que é o primeiro filme de zombies a sair de Taiwan. Diz que nunca de lá devia ter saído.

Sabem aqueles filmes que, passados 15 minutos de visionamento nos questionamos sobre o nosso juízo quando decidimos ver aquilo? Este é um desses infelizes casos. Oitenta e oito minutos de sofrimento atroz. E nem é como se estivesse a tentar ter piada. “Ah e tal mas ele não é nenhum Romero!” - realizador de praticamente todos os grandes filmes de zombies do século XX. Pois não. Mas infelizmente também não chega aos calcanhares de um Edgar Wright (“Shaun of the Dead”, 2004). A melhor descrição que encontrei desta trapalhada foi “AVISO: PODE PROVOCAR DISSONÂNCIA COGNITIVA, à medida que começam a surgir pessoas do nada, sem qualquer tipo de contextualização. Os efeitos secundários incluem desconforto, cefaleias, o vómito, diarreia, convulsões, breves episódios psicóticos ou ódio extremo por este filme.” – Tradução de excerto da crítica do site Quiet Earth.
Podia e provavelmente devia quedar-me por aqui mas não sou pessoa de dar a outra face. E se este filme me deu um bofetão, daqueles com direito a deixar os dedos bem marcados por umas horas na cara, não me deixo abandonar o barco sem vos explicar porque deverão evitar esta desculpa de filme.
Instantes iniciais, cena típica: uma mulher acorda após um acidente de carro, o companheiro morto ao lado e a filha desaparecida. Após vaguear pelo Carrefour local ( uma das várias marcas infelizmente contempladas com o foco especial da lente do Chien), Linda (Yvone Yao) chega à conclusão que está rodeada de zombies. E a audiência chega à conclusão que ela não sabe correr. Assim que sai do hipermercado encontra logo a filha Chloe. A partir desta cena mais ou menos com poucos recursos, que copia todos os lugares-comuns existentes, incluindo os tais mamilos proeminentes (até sugeria que a pobrezinha estava com frio mas se estava com uns calções ultra curtos...) “Zombie 108” é sempre a decair.
Não há nada que descreva com justiça aquilo que vi. Apenas posso fazer uma tentativa débil. "Zombie 108" é uma sequência orgíaca de lesbianismo, sexo, apalpões, longos close-ups de mamas e rabos, mais alguma acção, entrada e saída de actores vários, estrangeiros; depois gangsters e polícias, lutam todos entre si, algures lá se decidem a combater os zombies, seguem-se mais personagens aleatórias, morrem personagens aleatórias, entra tarado sexual que inicia uma sucessão de violações, humilhações e sevícias com animais vivos (polvo?), todos os caminhos vão dar ao covil do tarado, entra serial killer, mais escaramuça, depois é a vez de entrar em cena um monstro. E, acreditem que por essa altura já me encontro num estado de estupefacção. Pelos vistos o orçamento do filme foi suportado por cerca de 900 pessoas demasiado generosas. Tipo, eu bater à porta da produção exigindo que me devolvessem o dinheiro. Com que argumentos é que enganaram essa pobre gente? Ah, o realizador e o produtor interpretam respectivamente os papéis de tarado sexual e gangster. É uma desculpa para abusarem e apalparem repetidamente as actrizes que obviamente são todas modelos? É que não há nenhuma gorda no filme. Nem sequer surge uma actriz com uma aparência “vulgar”. É bruto, feio, sujo e misógino. Os zombies? Um pretexto para se rodearem de mulheres lindas das quais tirar partido por que isto é arte estão a ver? Mas estou em crer que eles, os homens, se divertiram muito. Já agora, alguém me explica os actores americanos? Ou melhor, os péssimos actores americanos? Sendo que um deles, de raça africana, a dada altura larga o fato por uma aparência mais gueto e a atitude a condizer. Alguém disse a palavra estereótipo? Um dos muitos problemas neste filme de acção/terror/sexploitation é não ter uma identidade claramente definida. É uma mixórdia de ideias, todas as que tiveram provavelmente, que foram agrupadas de modo caótico. Se alguém me dissesse que “Zombie 108” era uma comédia ficava surpreendida. Mais depressa me punha a chorar baba e ranho, de tão mau. Até os zombies, que dão nome ao filme, deixam muito a desejar. Por entre a péssima caracterização, alguns dos zombies são corredores natos enquanto outros se ficam pelo cambalear típico. Decidam-se! E os efeitos são ridículos. Órgãos arrancados, sangue e tripas a escorrer que nunca estão em demasia são, a melhor dizer, escassos. E depois há as tretas patrióticas e a exploração das imagens da inocente criancinha. Deve ter daqueles pais que querem que os filhos se tornem famosos embora, “Zombie 108” mais depressa destrua a possibilidade de ela algum dia ter uma carreira do que a construir. A não ser que, que lhe queiram dar mais uns 20 anos e a coloquem num filme de Chien para ele e companheiros abusarem do seu corpo nu como fizeram com as restantes actrizes. Inqualificável. Meia estrela.

Realização: Joe Chien
Argumento: Joe Chien
Yvonne Yao como Linda
Joe Chien  como Tarado Sexual
Jack Kao como Comandante SWAT
Chloe Lin como Chloe
Kevin Lee como Gangster


Próximo Filme: “Zatoichi", 2003


domingo, 30 de dezembro de 2012

4ª Mostra de Cinema de Hong Kong



Ano novo, nova Mostra de Cinema de Hong Kong. Entre os dias 9 e 13 de Janeiro, os lisboetas terão oportunidade de assistir a alguns exemplos do que melhor se tem feito em Hong Kong, no Cinema City Classic Alvalade. Com géneros como acção, drama, comédia, wuxia, é difícil não encontrar pelo menos um título que seja do vosso agrado. Se bem se recordam foi lá que tive oportunidade de ver o excelente "Echoes of the Rainbow", que conseguiu deixar-me em lágrimas. Para já os títulos que me atraem mais são o aclamado e ultra-premiado "A Simple Life" (2011) e "Overheard 2" da dupla maravilha Alan Mak e Felix Chong ("Infernal Affairs", 2002). Também aconselho "The Detective 2", ainda que inferior ao título original. E se forem fãs da Elanne Kwong e do Aaron Kwok então podem esfregar as mãos de contentes pois que apresentam dois filmes cada.

Preço dos bilhetes: 4€
Descontos: 3,5 € (grupos, parcerias, jovens, seniores)
Voucher para todas as (8) sessões 24 €

(Legendas em português e inglês)

PS: Acham que é boa ideia transmitir sequelas, quando provavelmente a maioria da população não teve oportunidade de visionar antes os originais?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goblin Cat”, (Ayakashi – Bakeneko, 2006)


“Bakeneko” pode ser entendido de forma literal como Gato Monstro e pertence à classe dos “yokai” ou monstros sobrenaturais do folclore japonês. Ao contrário dos antigos egípcios, que veneravam o gato, personificado pela deusa Bastet, uma entidade feminina associada à protecção do lar e das mulheres expectantes, o "bakeneko" é o oposto, assombrando e ameaçando a paz do lar. Os seus poderes incluem a capacidade de falar, voar, se transfigurar e devorar humanos. Os seus actos devem ser sempre observados com desconfiança pois, o seu feitio é irascível e nem sempre se move por motivos altruístas e de bondade. Depois de traído torna-se vingativo e poderá consumir aquele que o feriu.
Em “Bakeneko”, durante o período Tokugawa (séc. XVII até meio do séc. XIX), uma família comemora o casamento da única filha que irá permitir saldar as dívidas que anos despesismo e irresponsabilidade incorreram sobre o lar. Com os preparativos do evento, eles deixam a casa desprotegida dando espaço a que um curandeiro que esconde mais segredos do que a aparência humilde deixa antever, se introduza na zona servil, junto da crédula Kayo. Introduz-se ele e, algo mais. Assim que a jovem noiva tenta passar o limiar da casa cai fulminada acometida por uma doença súbita. A família vira-se logo para o curandeiro e prende-o mas, após a morte de outro serve a realidade mostra-se bastante mais negra! O estranho desconhecido sugere que estão a ser assombrados por um bakeneko e que para os proteger eles terão de enfrentar os segredos que despertaram a raiva da besta.
“Bakeneko” é o conto pelo qual os fãs de animação e terror aguardavam. Façamos um exercício: visualizem o grande mestre do terror para vós. Não interessa o nome, apenas, aquele, cujas obras, conseguem, instilar em vós o terror. Aquele que, não interessa o tema ou a época, consegue provocar, invariavelmente, um arrepio na espinha e tornar o mundo dos sonhos um pouco mais aterrador. Agora imaginem que é ele quem está por trás de “Bakeneko”. Compreendem agora que estão perante um conto especial?
Inicialmente, a família permanece incrédula face à suspeição de ataque sobrenatural e paira um clima de suspeição sobre o curandeiro. Tudo indica que são um aglomerado normal apesar das complicadas relações entre os membros da família, servos e conselheiros. Eles vão sendo alvo de ataques sucessivos que vão provocando cada vez maior número de vítimas e dá-se uma revolução no seu mundo interior. Ficam nervosos, temerosos, loucos e começam a falar. Começam a questionar comportamentos passados, a desculpar-se de actos ignóbeis e a culpabilizar-se uns aos outros. É isto mesmo que o curandeiro pretende saber: a “katachi” (forma), “makoto” (verdade) e o “kotowari” (razão) para o demónio os atacar e a informação que poderá ajudá-lo a exorcizá-lo. Há um momento de tensão extraordinária quando o curandeiro coloca balanças com guizos para apurar onde se encontra o demónio. Os guizos começam, um a um, a tocar, em todo o redor da sala e as pessoas que lá estão, até ali descrentes da assombração são incapazes de se movimentar, geladas que estão de medo… A estrutura narrativa não é linear e classificação mais aproximada que consigo encontrar para identificar “Bakeneko” é a de um conto detectivesco/thriller sobrenatural de suspense.
A animação de Takashi Hashimoto também é a mais interessante de toda a série. A despeito da impressão de que estamos perante uma série de gatafunhos antiquados, “Bakeneko” apresenta influências tão notórias e tão distantes como gravuras japonesas dos últimos 100 anos arte moderna ocidental, influências religiosas, motivos asiáticos e africanos, em conjunção com as novas técnicas de animação moderna. Esta massa aglomerada, num só bolo, poderia ser apelidada de pesadelo de um unicórnio, visto que as cores, ao invés de remeterem para uma aura de felicidade açucarada gritam desconforto e inspiram o pesadelo sobrenatural.
“Ayakashi – Samurai Horror Tales” é uma obra desigual que vale apenas pelo último conto. A animação intrigante, a narrativa adulta que provocam um misto de tristeza e fascinação face às suas diferentes tonalidades, merecem ser exploradas. Aconselho os fãs a explorar igualmente a série “Mononoke” de 2007, que surgiu como "spin-off" de “Bakeneko”, dando seguimento às aventuras do curandeiro caçador de demónios. Quatro estrelas.

Realização: Kenji Nakamura
Argumento: Michiko Yokote
Designer de animação: Takashi Hashimoto
Takahiro Sakurai (Japonês), Andrew Francis (Inglês) voz do Curandeiro
Yukana (Japonês), Kelly Sheridan (Inglês) voz de Kayo
Tetsu Inada (Japonês), Trevor Devall (Inglês) voz de Odajima

PS: O sucesso deste episódio foi de tal modo grande que podem encontrar imensos exemplos de fan art por essa internet fora (sobretudo na deviantart) e até cosplay. Numa nota adicional e já depois de ter escrito esta apreciação chamaram-me a atenção para "Gankutsuou", uma outra série de 2004 que terá inspirado o estilo da animação de "Bakeneko".

Próximo Filme: “Zombie 108”, (Z-108 qi chen, 2012)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goddess of the Dark Tower”, (Ayakashi – Tenshu Monogatari, 2006)


Basta irem seguindo os links

“Goddess of the Dark Tower” é o segundo capítulo da mini-série de animação “Ayakashi – Samurai Horror Tales” e estende-se por quatro episódios. À semelhança de “Yatsuya Ghost Story”, a primeira estória da série, “Goddess of the Dark Tower” baseia-se numa peça de teatro que foca o amor proibido entre um humano e uma deusa.

Zushonosuke é encarregado pelo tolo Lorde Harima a recuperar Kojiro, um falcão precioso e inadvertidamente cruza-se com a deusa Tomihime por quem se apaixona à primeira vista. Perdidos de amores entregam-se a um amor proibido e perigoso, à medida que a fronteira entre os reinos se esbate e os samurais a mando do Lorde Harima, invadem o castelo dos deuses para recuperar o falcão.
“Goddess of the Dark Tower” apresenta a narrativa mais convencional da série, é apenas a velha estória do amor que encontra bastantes obstáculos mas no final acaba por vencer (será?). Além dos diferentes planos de existência humanidade vs. Espirito não há grandes objecções a que Zushonosuke e que Tomi permaneçam juntos a não ser, talvez de cariz moral. Está bem que ela é uma deusa lindíssima mas ele já tinha uma companheira e é sempre difícil (a população feminina deve concordar comigo) apoiar um traidor. Quais amores, qual quê? Se já estás comprometido não tens nada que invadir seara alheia. Ele também não demonstra grande conflito com o facto de ela e as outras deusas que habitam o castelo, todas belíssimas por sinal, serem comedoras de homens. Não admira que as suas existências não se devam cruzar. Se fosse ele, também não achava grande piada. Eles podiam chatear-se à séria e ela comia-o por vingança. Infelizmente, para os que os rodeiam este é um caso de estar no sítio errado à hora errada. Por causa de um falcão, o castelo é invadido e o confronto entre deusas e o exército samurai é inevitável.
O samurai, personagem histórica japonesa é fascinante não apenas em termos estéticos mas no que diz respeito ao seu código de conduta. É comovente uma dedicação que até à morte é total e ilimitada. Ao mesmo tempo é desconcertante uma dedicação cega ao serviço de homens que personificam o pior da espécie, sobretudo quando a maldade se alia à tolice.  Por isso, apesar de resultar em imagens incríveis, a morte indiscriminada movida por motivos fúteis é de difícil compreensão. No meio de uma chacina descabida há ideias soltas que fornecem brilho pontual a um episódio, de outro modo, desinteressante. A transformação da deusa, do seu invólucro humano para toda a sua glória divina e as diversas habilidades das deusas para destruir o inimigo comum constituem os momentos altos. Não há limites para o que os deuses podem fazer. De resto, o romance proibido nunca é suficientemente convincente. Abdicar da humanidade ou divindade por um amor rápido e perigoso parece demasiado forçado. Redunda no dramazeco romântico e não no conto de terror que o título pretende fazer crer. É uma entrada que não traz valor acrescentado à série, sendo direccionado para um público mais calmo, fã de romance com alguns salpicos de acção e avesso ao terror. Quando muito contribui para a descida da qualidade média da série. E, até aqui, posso afirmar que estava desiludida com “Samurai Horror Tales”. Teria de esperar por “Goblin Cat” para ficar impressionada… Duas estrelas.
  Realização: Hidehiko Kadota
Argumento: Yuuji Sakamoto
Designer de animação: Yasuhiro Nakura
Hikaru Midorikawa (Japonês) e Kirby Morrow (Inglês) voz de Zoshonosuke Himekawa
Houko Kuwashima (Japonês), Willow Johnson (Inglês) voz de Tomihime
Saeko Chiba (Japonês), Tracey Power (Inglês) voz de Oshizu
Yui Kano (Japonês), Anna Cummer (Inglês) voz de Ominaeshi
Kappei Yamaguchi (Japonês), Alec Willows (Inglês) voz de Kaikaimaru
Masaya Onosaka (Japonês), Samuel Vincent (Inglês) voz de Kikimaru




Próximo Filme: “Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Goblin Cat, (Ayakashi – Bake Neko, 2006)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Yotsuya Ghost Story, (Ayakashi – Yotsuya Kaidan, 2006)


Ainda no segmento televisão (devo estar para apanhar alguma doença), virei todas as atenções para uma série de animação de terror. Isto é, antes da inevitável apreciação ao “Hobbit”. Bem, ainda não decidi se a faço ou não mas parece que é o que todos vão fazer por estes dias. Não sei se não acaba por se tornar redundante. É o grande acontecimento cinematográfico do ano mas há mais cinema. Mas ainda sou capaz de dar uma de Maria-vai-com-as-outras, e vou atrás. Não se preocupem, que trarei o meu habitual charme e poder de observação brilhante como expectável, (FilmPuff Maria, mais humildade, MAIS humildade). Divago. Depois de uma série televisiva de terror sul-coreana longe de estelar, viro-me ainda mais a oriente, no Japão, onde “Yotsuya Kaidan”, uma das estórias mais adaptadas para cinema e televisão é a primeira da antologia “Ayakashi” e aborda os temas imortais do amor, traição e vingança. A narrativa original, escrita no séc. XIX por Nanboku Tsuruya IV para uma peça de teatro kabuki, é uma das estórias de fantasmas mais famosas de sempre. É exemplificativo de como uma estória, não baseada em factos verídicos por via da repetição se torna parte da identidade nacional.
Tamyia Iemon é um ronin, com feitio irascível que mata o sogro após uma zanga. Naosuke é um samurai obcecado por Osode, uma mulher casada. Após esta rejeitar os seus avanços acaba, num acesso de ciúmes por assassinar o marido dela. Os assassinos, na sua vilanagem, decidem fazer um pacto para encobrir o que fizeram. Após a morte do sogro Iemon desinteressa-se da esposa Oiwa e, eventualmente surge uma nova pretendente em Oume, mais bonita e rica. Com a conivência de uma criada e do potencial sogro, Iemon conspira para se livrar do único obstáculo: a esposa. Envenenada pelos conspiradores Oiwa é primeiro desfigurada e, depois de um acesso de loucura, suicida-se. Antes da morte, a promessa de se vingar dos que lhe fizeram mal e todos sabem que não há maior fúria que a de mulher traída. Entretanto Naosuke força Osode a casar-se com ele através da promessa de vingar a morte da sua irmã.
Nanboku surge como parte integrante da estória, o velho contador de estórias, um pouco como o avozinho que conta um conto ao neto, com a excepção que “Yotsuya Kaidan” não é aconselhável a menores de 16. No entanto é mais um brilhante exemplo da empresa Toei, por trás de grandes êxitos da animação em Portugal como “Dragon Ball”, “One Piece”, “Digimon” e muitas séries e filmes de que nunca ouvimos falar e só podemos lamentar nunca terem cá chegado. A Toei não merece uma busca menos que intensiva e tem material suficiente para ocupar os próximos anos em sessões contínuas. A exemplo da qualidade da animação, os personagens chegam a ser mais humanos que os actores reais. Cada olhar, cada expressão tem um significado e assenta na perfeição na narrativa. Façam o teste. Assistam a “Yotsuya Kaidan” sem som durante uns minutos. Através da paralinguagem conseguem decifrar as emoções das personagens e, por conseguinte uma interpretação da narrativa de modo geral. É um dos maiores elogios que se podem fazer a um criador de animação.
Deverão desvalorizar os créditos iniciais que reúnem a utilização de instrumentos tradicionais com o moderno rap. É um anacronismo já que contrasta com as estórias clássicas que se seguem. De resto, a narrativa de “Yotsuya Kaidan” pode soar familiar e antiquada mas é adulta, com temas com os quais os mais velhos se podem identificar e assistir sem sentimento de culpa associado estarem a ver um filme de animação. Poderão encontrar alguns problemas em identificar-se com o facto de uma das personagens ser forçada a contrair matrimónio para ter alguém que vingue a sua irmã e a necessidade imperiosa de manter a face a tudo custo mas este já não é “defeito” da estória, antes uma questão cultural. Normal, portanto. Se quisermos simplificar, o conto recorre a temas que remontam à verdade universal de que o Homem, máquina fantástica como é, é imprevisível e não se lhe pode atribuir demasiada confiança sob pena de uma promessa de sofrimento atroz. Três estrelas e meia.
Realização: Tetsuo Imazawa
Argumento: Chiaki J. Konaka
Designer de animação: Yoshitaka Amano
Hiroaki Hirata (Japonês) e Brian Dobson (inglês) voz de Iemon Tamiya
Mami Koyama (Japonês), Nicole Oliver (inglês) voz de Oiwa Tamiya
Yuko Nagashima (Japonês), Rebecca Shoichet (inglês) voz de Osode Yotsuya
Keiichi Sonobe (Japonês), Samuel Vincent (inglês) voz de Gonbei Naosuke
Ryou Hirohashi (Japonês), Lalainia Lindbjerg (inglês) voz de Oume Ito
Wataru Takagi (Japonês), Michael Adamthwaite (inglês) voz de Yomoshichi Sato


PS: Deixo link para a versão disponível no youtube com dobragem em inglês. Com certeza haverá sempre algo de "lost in translation" e nunca alcança o nível de qualidade do original, mas não deixa de ser um brinde de Natal.

Próximo Filme: “Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Goddess of the Dark Tower, (Ayakashi – Tenshu Monogatari, 2006)

domingo, 16 de dezembro de 2012

TCN Blog Awards 2012


Mais um ano, mais uma cerimónia de entrega dos TCN Blog Awards, prémios destinados a distinguir o que de melhor se faz na blogosfera de cinema nacional. E, pessoalmente, o 2.º ano consecutivo em que o Not a Film Critic esteve nomeado. O ano 2012 brindou-nos com uma imagem mais madura, um crescente à-vontade do apresentador de serviço, o Manuel Reis está como peixe na água, momentos de humor cada vez mais e melhor pensados e até tivemos direito a alguns VIPs. Pronto, a Daniela Ruah recusou o convite mas o dia irá chegar! A cerimónia teve alguns problemas, não posso mentir, mas que evento não os tem? Nesse sentido, sugiro que procurem as curtas-metragens "Assim-assim" do Sérgio Graciano e "Black Mask" do Filipe Coutinho , também ele blogger (Cinema is my Life). Mais do que focar-nos nos problemas acho que devemos concentrar-nos na descontracção em admiti-los e a promessa de que para o ano se tentará fazer ainda melhor (Carlos Reis). Quanto aos premiados foi uma tarde de grandes surpresas, sendo que categorias que podíamos pensar à partida, estarem "ganhas", acabaram por revelar talentos menos conhecidos. Apesar das reservas que alguns terão demonstrado, não me poderia sentir mais em paz com os resultados. O júri (mix academia + voto público), não será perfeito mas foi o melhor dadas as circunstâncias. Margem de manobra há sempre e, se poderem e quiserem, sugiro que apresentem as vossas sugestões no Cinema Notebook. Quanto aos vencedores destaco a Inês Moreira Santos que ganhou o prémio de Melhor Novo Blogue e ao Nuno Reis que continua a ser, para mim, a pessoa que mais trabalha para a blogosfera. Tipo, já recebias por isso não?! Mas se o Nuno Reis é a pessoa que mais trabalha na blogosfera o Aníbal Santiago é o mais prolífico e um grande favorito desde a primeira vez que me cruzei com o Rick's Cinema. Vê uma quantidade infindável de filmes, dos mais diversos estilos e, algures, encontra sempre a capacidade de discernimento necessária para uma reflexão séria sobre a obra - o número de nomeações atesta (se tal fosse necessário), a qualidade. Por fim, o anuncio de que possivelmente, os Prémios poderão ser organizados noutra cidade do país em 2013. Um desafio importante e interessante para espalhar ainda mais os TCN e estar mais perto de outros bloggers, que o país não é apenas Lisboa. Vamos ver como corre. Acima tudo, quis aqui deixar uma mensagem positiva, porque, para muitos de nós, isto de escrever cinema é um hobby. Não recebemos nada por isso, dedicamos horas de trabalho onde poderíamos estar a descansar ou a socializar mais e, se for preciso, ainda somos criticados por isso. Por isso, se os TCN são uma iniciativa pouco visível noutros meios, acabam por ser um modo de reconhecer e valorizar esse trabalho, proporcionar momentos de humor e um bom momento de convívio entre pessoas que de outro modo não teriam oportunidade de trocar palavras além comentários do blogue e redes sociais. Para o ano há mais. Obrigada!

PS: O poster foi criado por este senhor.

domingo, 9 de dezembro de 2012

"City Horror - Song of the Dead"


O terceiro capítulo da série sul-coreana realizada para televisão tenta demarcar-se das estórias anteriores através de um regresso ao passado. Enfase, no tentar por que, para todos os efeitos, um filme sobre espíritos continua a ser um filme sobre uma assombração, seja ontem ou hoje. Algures no ano 500, a General Bai Lan conduziu o seu exército contra uma pesada derrota face a Sun Law. A sua fama de impiedosa e o medo de que pudesse regressar além campa faz com que uma bruxa lance um feitiço sobre ela. Nos tempos actuais, Wai Lai e o produtor Wing encontram num antigo estúdio a melhor opção para as suas carreiras deslocar. Entre os velhos papéis do local, Wing encontra uma canção inacabada e decide completá-la. Entretanto, Wai começa a ter visões de uma mulher de vermelho e procura o apoio de Wing mas ele está demasiado envolvido com o seu mundo interior, como se estivesse possuído. Qual a ligação entre a aparição e a canção misteriosa? Se a conexão entre estórias não fosse por demais óbvia… Mas esse ainda é o menor entre os problemas (demasiados), que “Song of the Dead” apresenta.
A canção dos mortos surge do nada e para lá regressa. Qual é o significado da canção? Por que é tão especial que se torna a ponte entre o passado e o presente? Além disso, alguém me consegue explicar, se Bai Lan é que foi amaldiçoada e viu o seu espírito prisioneiro, o que faz um dos seus soldados nos dias de hoje? Isto, só em termos de argumento, já que no que se refere à sonoplastia e cenografia, “Song of the Dead” fica uns bons furos abaixo de um trabalho aceitável efetuado por alunos do 3º ano do curso de cinema. Parece que o orçamento explodiu nas cenas de batalha e respectivos figurinos, o que fez com que as cenas, na atualidade e no próprio estúdio sofressem bastante. É de aplaudir a utilização em determinados momentos da luz e da sombra para esconder a escassez de meios. Nem o elenco completa o cenário, passeiam-se pelo ecrã como sombras, como se fossem artigo secundário de um evento principal que nos escapa a todos.  Recordam-se daquele ditado do senhor Wilde no qual ele dizia: “falem bem, falem mal, mas falem de mim”? Quer-me parecer, volvida uma década que não há memória desta canção dos mortos. Uma estrela.


Realização: Gyu Hwan Lee
Argumento: Alex Garland, Carlos Ezquerra e John Wagner
Ri-su Ha, Hyun-jin Kim, Tae-hwa Seo e Ga-yeon Kim


Próximo Filme: “The Good, the Bad, The Weird” (Joheunnom nabbeunnom isanghannom, 2008)


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