domingo, 14 de abril de 2013

"Gantz" (Gantz: Zenpen, 2010)



Cenário: Acordam numa sala com pessoal que não conhecem de lado nenhum e com uma enorme bola preta onde surge uma mensagem que diz que 1) Existem aliens e 2) têm vinte minutos para matar o alien cuja imagem surge no ecrã. A primeira reacção deve ser qualquer coisa entre um: “tenho de largar as drogas!” e beliscar-se para acordar. Mas e se não acordarem e chegarem à conclusão que o cenário é real, que não é uma brincadeira de mau gosto e que se querem permanecer vivos têm de atirar a matar? Que tal isto para programa de diversão nocturna? Kei Kurono (Ninomyia Kazunaru) e Masaru Kato (Kenichi Matsuyama) são dois amigos que morrem atropelados por um comboio após tentar salvar um homem bêbado que caiu nos carris do metro. A bola negra transporta-os para a sala e dá-lhes uma nova oportunidade mas não está longe de ser um pacto com o diabo. A nova vida tem um preço: têm de matar aliens e a cada nova morte recebem pontos. A recompensa por atingir os 100 pontos é a possibilidade de esquecer o que passaram e não mais voltar àquela sala ou ressuscitar um dos muitos que já morreram antes deles a combater as criaturas invasoras. Aparte o segredo da sala que lhes irá, eventualmente, custar a vida (admitamos que os aliens são cada vez mais rápidos, furiosos e maiores), têm uma vida e entes queridos que não querem deixar sozinhos. Kato tem um irmão mais novo que não quer deixar entregue a assistentes sociais e Kei torna-se alvo das cada vez mais óbvias investidas românticas de Tae Kojima (Yuriko Yoshikata).
Assim a meios que a morte pode ser um impedimento no reatar de ligações familiares e românticas. Sobretudo, no que diz respeito a Kato e Kishimoto (Natsuna) que se conhecem na sala do Gantz.
“Gantz” é um dos melhores filmes resultantes de adaptações de anime e mangá, dos últimos anos. Se não conhecerem a mangá ou o anime, como era o meu caso, mesmo assim irão sentir que não estão a perder informação preciosa. “Gantz” tenta apelar ao máximo número de faixas etárias possível, sacrificando pelo caminho, carradas de nudez e de sexo. Também o protagonista deixa de ser um tarado sexual para passar a ser apenas um sujeitinho arrogante, com manias de grandeza a quem é ensinada uma grande lição. É uma adaptação digna de quem conhece bem o público-alvo.
As cenas de acção, nomeadamente, de perseguição e combate aos extra-terrestres são as mais interessantes e, se quisermos dar largas ao pequeno malvado que existe dentro de nós, pode-se sempre fazer apostas sobre quem chegará ao fim de mais uma caçada. As cenas de acção são tão competentes que a série com actores reais chegar ao pequeno ecrã não seria de menosprezar. Imaginem se a cada novo episódio tivessem um grupo de cidadãos “destacados” para matar o alien du jour? Como é óbvio a perfeição não existe e as cenas iniciais começam por ser irritantes já que os escolhidos são tão incompetentes que cometem todos os erros possíveis para se deixar ferir, matar ou negligentes a ponto de deixar colegas morrer. “Gantz” não está isento de dilemas morais. Matar um ser vivo, mesmo que este não pertença ao mundo como o conhecemos apresenta-se um problema para a maioria dos escolhidos. E não é como se tivessem grande alternativa: se quiserem viver têm de matar ou esconder-se bem. Temo que esta última opção não deixe de acarretar um alto grau de risco. Se calhar poderíamos alegar preocupações humanistas e que a morte seria um fim mais digno mas creio que isso não estaria longe da hipocrisia. Além disso, há pais, irmãos, namoradas…quem consegue resistir ao apelo da vida? E depois há os psicopatas e aqueles cuja ilusão de poder os faz regredir aos estádios mais primários da existência humana: vale tudo para não sobreviver. Mas ao invés de se restringir a uma luta selvática pela sobrevivência “Gantz” “agarra” as personagens principais como Kei e Kato, jovens imaturos e que pouco sabem da vida e fá-los crescer, tornar-se os heróis que nunca quiseram ser e reconhecidos por poucos, até há muito provavelmente breve morte. Nesse sentido, “Gantz” não é apenas um filme sci-fi de acção desmiolado. Obrigada, as audiências do século XXI agradecem. Três estrelas e meia.


Realização: Shinsuke Kato
Argumento: Yosuke Watanabe e Hiroyia Oku (autor da banda-desenhada)
Ninomyia Kazunari como Kei Kurono
Kenichi Matsuyama como Masaru Kato
Yuriko Yoshikata como Tae Kojima
Natsuna como Megumi Kishimoto
Taguchi Tomorowo como Suzuki Yoshikazu
Kensuke Chisaka como Ayumu Kato


Próximo Filme: "Secret Sunday" (9 wat, 2008)

domingo, 7 de abril de 2013

"Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)



Quanto quilómetro é necessário percorrer até se obter perdão? Até onde somos capazes de ir para sermos perdoados? O “para sempre” apenas existe até que uma das partes teimosas em oposição decidir que a dor da inexistência de relacionamento é mais penosa que a existência de uma relação complicada.

Takata (Ken Takakura) é um velho casmurro que apenas põe o orgulho de lado quando a nora Rie (Terajima Shinobu) lhe diz que Kenichi (Kiichi Nakai), o filho dele, se encontra doente. O rancor de muitos anos de desavenças e anos sem qualquer contacto ainda não abandonou Kenichi e este recusa-se a ver o pai que veio de propósito a Tóquio para o ver. Quando Rie diz a Takata que Kenichi sofre de cancro em estado terminal ele agarra-se ao único objecto que tem do filho, um documentário que ele realizou na vila remota de Lijian, na China. Kenichi filmou Li Jiamin, um cantor de ópera local que lhe prometeu que na sua próxima visita lhe cantaria uma obra pela qual tinha especial interesse. Com a vida do filho por um fio, Takata toma a inesperada decisão de viajar pela China rural para encontrar o cantor e filmá-lo a cantar a obra que Kenichi nunca terá oportunidade de assistir em pessoa.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma desilusão para quem espera um filme grandioso de Zhang Yimou. Na verdade ele tornou-se tão conhecido nos últimos dez anos pelos épicos wuxia como “Hero” (2002) ou “The House of the Flying Daggers (2004) que muitos esqueceram obras como “Raise the Red Lantern” (1991), existindo até casos em que há uma cisão declarada entre os preferem a filmografia de cariz mais espectacular e os que preferem a sua câmara mais comedida. A grandiosidade de “Riding Alone for Thousands of Miles” reside nas paisagens de tirar o fôlego e na representação dos actores que envolve longas sequências de momentos “Lost in Translation”. É que Takata chega a uma altura da viagem em que é acompanhado por um guia que sabe muito pouco japonês para o compreender e todos os outros não o compreendem de todo. Por isso, as cenas alternam entre o falar sem ser compreendido ou apenas em parte e as tentativas de explicação ao estranho senhor japonês que veio à China ver um simples cantor rural. Takata é um homem sem tempo e quanto mais se embrenha na paisagem chinesa mais terá de lidar com pessoas que estranham as suas intenções e que se refugiam nas burocracias para não ferir as leis e sensibilidades locais. E os processos atrasam e Takata, sem conseguir fazer-se entender, tem de recorrer à lisonja e ao suborno para conseguir obter algum tipo de consentimento, que ainda há valores universais.
As expressões de incompreensão, frustração e cansaço constituem os momentos mais realistas da película, os viajantes mais do que todos decerto compreenderão. No entanto, Yimou recusa-se a que a população chinesa se aproveite de Takata. A sua viagem não é de roubo ou decepção, é uma viagem de muitos quilómetros na China e no interior de um homem.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma estória intimista, simples. A narrativa conta a aventura de um pai que redescobre um modo de se ligar ao filho e que embarca numa viagem que o faz repensar as acções dos dois e, com a maturidade da idade perdoar e ser perdoado. Yimou escapou ao cliché da “mudança nos sentimentos por causa de um evento grave”. A personalidade não muda. Takata continua tão teimoso como nos instantes iniciais da película, os motivos é que se alteraram grandemente. Enquanto há vida não há urgência e agora, que Kenichi está prestes a desaparecer do mundo dos vivos, Takata dedica-se com o mesmo fervor de quem evitou o filho durante anos, a estabelecer um ligação emocional com ele. Mas esta estória não é apenas a de Takata e de Kenichi, é também a estória de um pai e um filho chineses, cujas vidas são tocadas quando o cidadão senior japonês decide visitar uma aldeia remota, aproximando também os dois países. Três estrelas e meia.

Realização: Zhang Yimou
Argumento: Zhang Yimou, Jingzhi Zou e Bin Wang
Ken Takakura como Takata
Kiichi Nakai como Kenichi (voz)
Terajima Shinobu como Rie
Jiamin Li como Li Jiamin
Jiang Wen como Jasmine
Lin Qiu como Lingo
Zhenbo Yang como Yang Yang

Próximo Filme: "Gantz", 2010

domingo, 31 de março de 2013

"Death Bell 2" (Gosa 2, 2010)



Um dos slogans para este filme podia ser: “adolescentes idiotas continuam sem saber dominar regras básicas de sobrevivência”. Isso, ou então é um universo qualquer em que não vêem filmes de terror. Podiam ver o “The Cabin in the Woods” (2011), por exemplo, a ver se aprendiam algumas coisinhas. Desculpem alguma coisa mas custa-me ver a juventude reduzida a uma cambada de ignorantes sem inteligência ou artificio. Se o futuro se reduz a uma juventude com as capacidades intelectuais equivalente à dos personagens deste filme a Coreia do Sul espera uns próximos anos complicados.
“Death Bell 2: Bloody Camp” trilha o mesmo caminho do antecessor: um slasher onde os alunos de uma escola são carne para canhão, com a promessa de mais sangue e mortes ainda mais elaboradas. A estória deste filme não tem ligação à do filme de 2008, dando apenas uma piscadela de olhos aos eventos anteriores. Tae-yeon (Seung-ah Yoon), a estrela da equipa de natação da escola é encontrada morta na piscina. Suspeitando que a rapariga se atirou da prancha superior, as autoridades declaram a morte acidental. Entretanto, a meia-irmã dela Se-hee (Jiyeon Park), que também frequenta essa escola passa um mau bocado às expensas de Ji-yoon (Ah-jin Choi) e as suas amigas. Após o assassinato da professora de natação, os alunos descobrem que estão encurralados na escola e sem hipótese de ajuda do exterior. A única hipótese de sobrevivência reside em serem capazes de solucionar quem é o assassino e o seu motivo… Como ali parece não haver duas pessoas com mais de dois neurónios entre elas, as mortes sucedem com alguma frequência. Mais por culpa da sua própria inabilidade do que por uma inteligência extraordinária do assassino. Eles dedicam mais tempo às quezílias de miúdos que não têm mais nada que fazer e a tomar atitudes desprovidas de sentido como separar-se e apontar o dedo aos que percepcionam como mais fracos. Do género: “pode ser que o assassino esteja mais interessado em apanhá-lo do que a mim” ou “se o assassino for atrás dela dá-me tempo para fugir”… Não ficam extremamente orgulhosos da humanidade nestas alturas?
“Death Bell 2: Bloody Camp” sofre sobretudo por ser a sequela de um filme francamente superior à maioria dos filmes de terror que andam por aí. Esta sequela é um esforço desleixado. Não aprenderam nada com o primeiro filme que tinha uma estória minimamente compreensível, um par de protagonistas sólidos e com quem se simpatizava com facilidade e encenação das mortes bem construída. Em “Death Bell” sofria-se com antecipação de uma próxima vítima cuja entidade nunca era óbvia. A tensão era crescente e desde que a semente era plantada até ao golpe final era um martírio, não só pelos requintes de malvadez mas pela incapacidade de prever se estudantes e professores seriam capazes de juntar esforços com sucesso para salvar a vítima. “Death Bell 2: Bloody Camp” afasta desde logo a possibilidade de união entre os estudantes, tornando a tarefa de todo em todo mais simples para a mente malévola por detrás dos crimes e menos excitante para os espectadores. O enredo é muito mais intricado e faz ainda menos sentido que o primeiro filme. Só no último quarto de hora é que finalmente se compreendem os porquês da trama. Por essa altura, não só a probabilidade de acreditarmos no que estamos a ver é diminuta como já nem interessa.
Os personagens são em demasia e demasiado desinteressantes, malcriados e insolentes. Jiyeon Park que interpreta a única personagem com quem nos devíamos identificar é terrível no papel de Se-hee. Onde a representação do filme anterior era respeitável, aqui está ao nível de alunos do primeiro ano do curso de representação que foram lá parar por engano. A sua presença não é de todo inocente. Ela é considerada jeitosa na Coreia do sul e é membro do grupo de k-pop T-ara. Se bem se recordam, em “Death Bell”, a companheira de banda Eun-jung Ham era uma personagem-chave. A diferença está em que enquanto esta última é uma boa actriz, Jiyeon, bem… E eu adoro um bom golpe de marketing como o próximo, quando resulta. É um tédio. Um slasher que é um tédio? Sim, leram aqui primeiro. Duas estrelas.
Realização: Seon-dong Yoo
Argumento: Hye-min Park, Jeong-hwa Lee e Gong-ju Lee
Ah-Jin Choi como Ji-yoon
Jeong-eum Hwang como Eun-su Park
Chang-wuk Ji como Soo-il
Su-ro Kim como Seong-sang Cha
Hyeon-sang Kwon como JK
Bo-ra Nam como Hyeon-a
Eun-binPark como Na-rae
Ji-yeon Park como Se-hee
Un-son Ho como Jung-bum
Seung-ah Yoon comoTae-yeon
Shi-yoon Yoon como Kwan-woo

Próximo Filme: "Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)

domingo, 24 de março de 2013

"Dark Water", (Honogurai mizu no soko kara, 2002)



Yoshimi (Hitomi Kuroki) é o retrato de uma mulher aterrorizada. Foi forçada a adquirir o apartamento mais barato que encontrou, numa zona degradada da cidade, com a filha Ikuko (Rio Kanno) e o ex-marido rancoroso não mostra qualquer sinal de abandonar a luta pela menina, apenas pelo prazer de a fazer sofrer. E agora que descobre que o apartamento que conseguiu arranjar herdou bastantes problemas, nem o solicito agente imobiliário que a convenceu a dar esse passo, nem o encarregado do prédio estão interessados em fazer o seu trabalho. É a maldita infiltração no tecto que parece segui-la, são as torneiras que não abrem e quando o fazem parecem espirrar… cabelos? É ainda a estória de uma menina, com a idade da sua Ikuko que desapareceu um ano antes. Nunca mais se sabe dela mas também não há ninguém terrivelmente preocupado apesar de ela ter morado ali…
Em “Dark Water” o realizador Hideo Nakata regressa ao género que o tornou o famoso, o terror. Embora seja bastante discutível se este é um filme de terror. “Dark Water” foi um dos últimos filmes com os onryo (fantasmas vingativos) a conseguir impressionar as audiências europeias. Quanto tempo dura uma moda? Quatro, cinco anos, no máximo? O auge dos slashers americanos, por exemplo, deu-se entre o final dos anos tempo e o início dos anos 80. Em 86 já ninguém queria ver o Jason, o Michael Myers ou o Freddy Krueger. Seria preciso uma década até ao slasher regressar, reformado com sarcasmo por um velho lobo (Wes Craven), entendedor do cinismo das gerações nascidas nos anos 80, os mesmos que ajudou a moldar! Não admira pois que dez anos passados da estreia os “Ringu” e “Ju-on” sejam recebidos pelos novos cinéfilos com escárnio ou a gargalhada. “Dark Water” é um exercício mais moderado de mais do mesmo. Ao invés de apostar na maldição/assombração a todo o gás, só parando no final, apresenta os desafios de “uma mãe solteira” amedrontada pela possibilidade de perder a filha que encontra eco em qualquer nação. E durante a maior parte dos 100 minutos de película é a isso que assistimos. Uma mulher que não sabe muito bem se está a ficar louca, à medida que os problemas do apartamento se amontoam e sem suporte emocional além da filha e uma força se torna demasiado próxima das duas para seu conforto.
Estaria a mentir se não achasse o cenário demasiado conveniente para o clima de assombro crescente. Os fantasmas “farejam” as criaturas mais vulneráveis, sobretudo mulheres e crianças e, ora bolas, se isso não nos deixa arrepios na espinha. Pior do que saber que os seres mais fracos da estória estão sob ataque é ter a certeza de que estão sós no mundo. Yoshimi, interpretada por Hitomi Kuroki é uma personagem multidimensional. Não é difícil imaginar Yoshimi como uma mulher abusada, pelo menos, em termos psicológicos. É uma daquelas pessoas que tenta agradar a todos e a evitar o conflito. Por fim, acaba por ser a principal prejudicada, a vítima das circunstâncias que ela própria ajudou a criar. “Dark Water” também funciona em crescendo como “Ringu” mas com um argumento mais sólido, ainda que isso não signifique grande coisa. O J-horror nunca foi celebrado pelas estórias magníficas mas sim por um conjunto de tecnicismos vários que criaram as cenas de tensão que têm sido celebradas e parodiadas nos últimos anos. Infelizmente, ultimamente, somente o facto de um filme ser rotulado como J-horror pode levar a que este seja recebido com descrédito pelas audiências ocidentais. Enquanto no extremo oriente a população acorre em massa para ver a mais recente reencarnação do onryo, a oeste as populações suspiram só à menção da rapariga de cabelos negros que aparece e desaparece a seu belo prazer. As actuações são boas, em particular a da então criança Rio Kanno que viria depois a protagonizar “Noroi”. De um modo ou de outro, os personagens são todos emprestados de outros filmes de terror ou viriam a ser repescados posteriormente para o efeito. “Dark Water” é um dos últimos exercícios superiores no que diz respeito aos sempre constantes fantasmas ameaçadores antes de a banalização atacar as estórias em proveito do terror pipoca. “Sadako 3D”? Alguém? Três estrelas e meia.

Realização: Hideo Nakata
Argumento: Koji Suzuki, Ken’ichi Suzuki, Yoshihiro Nakamura e Hideo Nakata
Hitomi Kuroki como Yoshimi Matsubara
Rio Kanno como Ikuko Matsubara
Mirei Oguchi como Mitsuko Kawai
Fumiyo Kohinata como Kunio Hamada
Yu Tokui como Ohta
Isao Yatsu como Kamiya
Shigemitsu Ogi como Kishida

PS: Mais ninguém achou a música no inicio do trailer, completamente desconexa da imagem?

Próximo filme: "Death Bell 2" (Gosa 2)

domingo, 17 de março de 2013

"Mad Detective" (San Taam, 2007)



Quando se pensa que o conceito de detective já se esgotou eis que surgem cavalheiros como Johnny To (“Election, 2005), Ka-fai Wai (Fulltime Killer, 2001) e Ching Wan Lau para dar um brutal acordar à minha parva ilusão. Filmpuff Maria, ainda não vistes nada.
“Mad Detective” é um conceito simples: é um detective… que é louco. Ponto. Quer-se dizer, quando o superior se reforma o pessoal vai tomar uns copos com ele, ou prega uma daquelas partidas que nunca mais irá esquecer. Não é assim tão normal cortar-se a orelha e oferecê-la ao chefe como prova de afeição. Digo eu. O infeliz detective Bun (Ching Wan Lau) é forçado a abandonar a carreira até ali brilhante e enclausura-se em casa com a mulher May (Kelly Lin). Até ao dia em que um caso insolúvel bate à porta e Ho (Andy On) o polícia inexperiente recorre ao veterano. O que ele vê é um homem ainda mais desligado da realidade mas que ainda tem os instintos aguçados. Poderá ele forçar Bun a embrenhar-se de novo numa investigação policial a custo da pouca sanidade que lhe resta? O que vos parece?
Como se costuma dizer, há um método para a loucura e a de Bun não parece totalmente desprovida de sentido. Bun entra na pele dos criminosos e replica todos os seus passos de modo a reconstituir os seus crimes mas o mais fascinante é a sua capacidade de ver as personalidades dos que o rodeiam. Imaginem o suspeito rodeado de pessoas que parecem nada ter em comum com ele, excepto o facto de serem uma das partes da sua psique fracturada. Cada atributo forte corresponde a um “corpo” diferente que pode ser desde uma criança a um bruto de 1,90m de altura. Quem sabe se não tenho uma sueca loura e alta dentro de mim? Parvoíces à parte “Mad Detective” é interessante estudo da psique humana. Dos outros e da Bun, sendo que a deste último está muito mais próxima do ponto de ruptura do que a dos “normais”. Apesar dos momentos cómicos gerados por tal improbabilidade, a figura de Bun nunca é alvo de paródia. Piedade talvez mas é impossível rir de Bun. Ele é um homem só. Tem uma capacidade que o torna capaz de grandes feitos, impossíveis para outras pessoas mas que o afastam cada vez mais da humanidade e o torna um recluso da sua própria mente. Como não compreender a tristeza e o sentimento de impotência dos que o amam pela sua inevitável descida à loucura? O foco não é a investigação cuja conclusão linear, apenas o caminho, esse sim, exige atenção redobrada. E o novato que o acompanha tem a complexidade suficiente para não ser abafado de cada vez que Bun surge em cena e esperamos mais um dos seus desvarios. As actuações de ambos são impressionantes, particularmente de Lau que não recorre aos maneirismos habituais de quando se interpreta uma personagem do género. O recurso ao corpo para enfatizar os estados mentais tem por base a realidade mas hoje em dia é um lugar-comum e admitamos que nem todas as pessoais agem desse modo.

To e Wai não trataram “Mad Detective” com abandono, como se “Mad Detective” estivesse destinado a ser mais um daqueles filmes de investigação policial que se perdem no limbo do esquecimento. Não. Permanece bem depois de ter terminado como todos os e se’s que acompanham as questões apresentadas de modo mais ou menos explícito. O nosso comportamento é conduzido pela personalidade que toma conta de nós naquele momento? Existe apenas um “eu” ou o nosso “eu” é constituído por diversas entidades que guerreiam entre si, numa luta constante pelo controlo até à nossa morte? Até que ponto é que devemos controlar as nossas habilidades extraordinárias para nos inserirmos no padrão? Apenas não esqueçamos uma questão: na sua loucura, Bun nunca esquece o motivo pelo qual persegue o criminoso. A despeito do comportamento errático distingue o bem do mal, talvez até melhor que os que não sofrem de maleitas da mente. Três estrelas e meia.
Realização: Johnny To e Ka-fai Wai
Argumento: Ka-fai Wai e Kin-yee Au
Ching Wan Lau como Detective Bun
Andy On como Inspector Ho
Kelly Lin como May
Flora Chan como May
Ka Tung Lam como Ko

Próximo Filme: "Dark Water" (Honogurai mizu no soko kara, 2002)

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Clash" (Bay Rong, 2009)



Caso não saibam o Vietname é uma das pérolas perdidas do oriente. Em mais sentidos do que um. Ainda muitos anos virão antes que este país não seja sinónimo de guerra e de uma muito mal sucedida invasão americana. Mas começa a dar passos importantes, nomeadamente na 7ª Arte, cujos esforços começam a ser reconhecidos como a nova vaga do cinema vietnamita. Ultimamente começam a surgir grandes épicos, enquanto os filmes de artes marciais se vão tornando cada vez mais sofisticados. Ainda não chegaram ao absurdo de Hong Kong que quase já não sabe coreografar sem recurso ao arame e ao ecrã verde. Aqui a acção é bruta e crua. Um dos grandes impulsionadores do género é Johnny Tri Nguyen, duplo, actor, sex symbol e especialista em diversos estilos de artes marciais como o vovinam e lien feng kwon. A acompanhá-lo em “Clash” está a belíssima Veronica Ngo que ostenta um ar de anjo ferido que a torna uma Phoenix (Trinh) perfeita.
Trinh é ameaçada por Dragão Negro (Hoang Phuc Nguyen), o mestre do crime que a retirou do mundo da prostituição infantil para a transformar na assassina perfeita. Isto é, até ela ter uma filha e desejar abandonar o ciclo de morte e destruição. Ele "convida-a" a realizar um último trabalho. Se o cumprir terá a tão desejada liberdade e a filha de volta. O objectivo é resgatar um portátil com informação importante. Não que isso conte muito para a estória, o que interessa são as diversas oportunidades de confronto entre a equipa de mercenários criada pela Phoenix e os vilões que constituem, invariavelmente, estrangeiros tais como franceses e chineses. A maior parte dos actores safa-se nas cenas de luta, a pontaria é que continua um desastre. É preciso disparar várias centenas de tiros até se acertar em alguém? Onde eles foram buscar armas com capacidade para tal carregamento é que gostaria mesmo de saber. Ah e as típicas cenas de confronto a três metros de distância em que sofás e cadeiras continuam a ser bons objectos de protecção contra projécteis...  Melhor mesmo só quando os vilões partem garrafas na cabeça da rapariga e ela nem pestaneja porque ela é assim tão boa. Bem, ninguém disse que “Clash” era perfeito, nem que o desfecho não se visse a milhas mas é divertido. E dá para perceber que os cineastas viram filmes de Hollywood e de Hong Kong, que depois “poliram” e caracterizaram com motivos vietnamitas. A cena entre a Phoenix e Quan (Nguyen) é tão “True Lies” (1994) que dói. Claro que há cenas universais como a boazona a fazer golpes de um qualquer estilo de luta que não sabemos qual é, nem queremos saber porque ela tem um decote que mostra uma parte generosa de pele. Também não se pode acusar os senhores de não saber o que estão a fazer.
O problema é que as cenas entre as lutas não são suficientemente ricas para suster a atenção. Veronica Ngo é boa o suficiente mas o vilão é tão ridiculamente mau e exagerado que as cenas entre os dois nunca ganham a seriedade dramática para dizer que “Clash” é um filme de artes marciais com densidade. O inevitável romance também não tem sumo para pôr a audiência a fazer mais do que suspirar pelo facto de se ter criado um dos casais mais estupidamente atraentes de sempre. Já era hora de um juntarem um homem maravilhoso a uma feia. Já era hora de a mulher mais bonita do escritório se apaixonar pelo careca gordo. Mas não, é impossível. Tudo, desde as relações ao cenário deve ser artificialmente bonito: a Phoenix deve perder tempo para colocar sombra para criar aquele efeito esfumado no olhar e o Quan deve aproveitar a primeira oportunidade para abrir a camisa e nos fazer contar os seus abdominais firmes e rijos. O único aspecto não fabricado de “Clash” consiste no cenário selvagem e virginal vietnamita. Se há coisa que me deixa furiosa é o facto de os artistas terem matéria-prima rica e não a saberem aproveitar, “Clash” deixou a vontade de os ver desbravar mais território, de ir mais além. Os actores não são nulidades, os cenários são maravilhosos e há ali pequenos apontamentos, nomeadamente, naqueles momentos em que a história dos personagens se cruza com a história simultaneamente rica e trágica do país. Isso e as artes marciais mistas. Duas estrelas.

Realização: Le Thanh Son
Argumento: Johnny Nguyen e Le Thanh Son
Thanh Van Ngo (Veronica Ngo) como Trinh/Phoeniz
Johnny Nguyen  como Quan
Hoang Phuc Nguyen como Hac Long
Lam Minh Thang como Cang
Hieu Hien como Phong
Truong The Vinh como Tuan


Próximo Filme: “Mad Detective” (San Taam, 2007)

domingo, 10 de março de 2013

"Death Bell" (Gosa, 2008)


Há poucos cenários com maior potencial para o macabro e tenebroso que uma sala de aulas coreana. A ambição desmedida e alta competitividade são lugar-comum neste sistema educacional. É um lugar onde ser bom não chega. Ser bom não é suficiente para receber um elogio. Ser bom é apenas um motivo para se ser encorajado a fazer mais e melhor. O objectivo é ser o melhor da turma e, depois disso, o melhor da escola. A meta: chegar às universidades mais prestigiadas para aceder aos melhores cargos. Menos que isso é um fracasso. Que tal isto para pressão? “Death Bell” inicia-se num desses períodos extenuantes. Os alunos já se encontram na recta final de exames mas existe ainda um último desafio antes das férias de Verão: um grupo de estudantes ingleses vai visitar a escola e dois professores têm a tarefa de preparar os vinte melhores alunos da escola, uma elite excepcional, para impressionar os visitantes. Eis que quando todos já saíram para aproveitar as férias e os escolhidos iniciam mais uma série de exames toca a campainha da escola e a televisão da sala liga-se. Uma das alunas está num tanque que se está a encher rapidamente de água. Nas paredes do tanque uma equação. Uma voz sobrehumana dita as regras: eles terão de resolver a equação ou a rapariga morre. Se tentarem sair da escola morrerão. E com o desaparecimento dos telemóveis e corte de comunicações estão impossibilitados de contactar o exterior… Parece urgente o suficiente?

“Death Bell” segue a tradição de armadilhas extremamente elaboradas à la franchise “Saw”, onde os protagonistas estão bem cientes das consequências do fracasso em concretizar as “instruções”. Há um enorme engenho por trás das mortes e “Death Bell” é um dos poucos filmes de terror que felizmente não cai no habitual truque do fantasma vingador. Há alguém realmente inteligente e maléfico a planear o esquema tenebroso, o que é capaz de ser, a meu ver ainda mais assustador. De facto, toda a encenação por trás das mortes recorda “Bloody Reunion”, um filme bastante superior em termos de enredo mas não menos importante pelo impacto visual. “Death Bell” foi realizado por um homem do mundo dos videoclipes e é para a imagem que ele tem apetência, não nos iludamos. Por que sim, persiste a tradição de personagens idiotas com ideias completamente descabidas: “embora separar-nos?”, melhor ainda, “estamos todos a morrer, embora virar-nos uns contra os outros?” Mas este filme foi criado para servir um público mais jovem. Uma sala de raparigas pré-adultas em uniforme escolar e rapazes capazes de fazer qualquer uma sucumbir ao seu charme masculino contribuem para uma obra que sabe que vive mais da forma que de conteúdo. Entre os principais motivos de atracção para a audiência jovem encontram-se o jovem actor e modelo Kim Bum (eu não disse que quase não há gente feia naquele sítio?) que faz o papel do rebelde Hyeon e a heroína com um bocadinho mais de cérebro que os génios que a rodeiam I-na (Gyu-ri Nam).
Esta última, tão ou mais conhecida pela polémica confrontação pública que opôs a sua agência de entretenimento e os membros da sua ex-banda a ela própria assim como as inúmeras cirurgias plásticas a que se submetem. Ela é o sonho de qualquer cirurgião plástico e um dos principais argumentos a favor da cirurgia estética. Digamos que a vida dela no espectro público foi bastante beneficiada pelas alterações cosméticas a que se submeteu. De destacar ainda a presença da Eun-jung Ham das T-ara num curto mas importante papel. “Death Bell”, com apenas 88 minutos de duração é altamente eficaz a chegar do ponto A ao ponto B. Não se detém em pinceladas dramáticas como tantas vezes sucede no cinema sul-coreano. Apresenta as personagens importantes, quase todas reduzidas ao estereótipo, foca os ataques não mais do que o tempo necessário e concentra-se na resolução da trama. Ora porquanto o como seja extremamente elaborado é o porquê que mais deixa a desejar. Se o motivo está ao alcance de qualquer pessoa com dois neurónios é o quem que mais intriga. A esse respeito, a intransigência da edição será um dos grandes culpados. Há momentos em que as transições de cena são pouco fluídas e apesar de não se perder o sentido, persiste a ideia que um pouco mais de conteúdo teria ajudado a conferir mais sumo à estória. Mas não podemos ser muito esquisitos. Foi uma hora e vinte minutos de diversão que me prometeram e cumpriram. Três estrelas.
Realização: Hong-Seong Yoon
Argumento: Hong-Seong Yoon e Eun-kyeong Kim
Beom-soo Lee como Chang-wook Hwang
Gyu-ri Nam como  I-na
Kim Bum como Hyeon
Yeo-eun Son como Myong-hyo
Eunjung Ham como Ji-won


Próximo Filme: “Clash” (Bay Rong, 2009) 

quinta-feira, 7 de março de 2013

"Hello Ghost" (Helowoo goseuteu, 2010)


A futurologia não se encontra entre as capacidades fantásticas aqui do burgo mas se apostasse que 8 em cada 10 pessoas que viram este filme gostaram, não estaria muito longe da verdade.
É um filme para chorões, sem margem para dúvidas. Não posso aconselhar a uma pessoa que se diga verdadeiramente sensível a visionar este filme sem uma caixa de lenços em cada um dos lados ou, um braço másculo e um peito quente onde se encostar nos momentos mais críticos, enquanto sussurra “pronto, pronto já passou”. Por que haveria uma pessoa de querer ver um filme que nos faz chorar baba e ranho? Por princípio, talvez muitos não queiram mas “Hello Ghost” sabe dosear na perfeição os momentos de drama e comédia. A dada altura, já não saberão se o sorriso é triste ou se, se deve a um dos muitos momentos adoráveis que permeiam esta comédia dramática sobre o falhado que se deseja matar e acaba com quatro fantasmas “atrelados” a si. A cena inicial não podia retratar uma imagem de maior desespero: um homem só, numa sala como no mundo, tenta matar-se. E falha. E volta a tentar. E não o deixam por que não tomou os comprimidos suficientes ou por que o acudiram a tempo. A partir daí ganha momentum e a esperança começa, paulatina, a crescer. Pois, por que Sang-man (Tae-yun Cha) chega a estar morto durante alguns minutos mas sobrevive graças à intervenção médica.

Com esta nova hipótese de sobrevivência advêm também quatro fantasmas safados que querem utilizar o corpo dele para os seus próprios fins. Isto gera os momentos mais engraçados já que cada vez que um fantasma entra no corpo de Sang-man ele adquire os seus tiques e vícios. No caso do velhote, ele fica com ar de pervertido que gosta de olhar para mocinhas de modo pouco inocente; no caso do fumador, além de ele se iniciar nesse vício pouco saudável, ganha uma franja à Bieber (última vez que menciono o puto rebelde neste blogue, prometo); quando é a vez do miúdo a gula vem ao de cima; enquanto a chorona, bem, é auto-explicativo além de que ganha trejeitos femininos pouco abonatórios da sua maneira de estar. Ah e já disse que o actor principal é o mesmo da grande comédia, mais vezes referida e revisitada do cinema coreano de todos os tempos, “My Sassy Girl” (2001)? Não? Ainda dizem que os relâmpagos não acertam duas vezes no mesmo sítio… Mas havia qualquer coisa que me deixava, não sei, à deriva e descobri bastante tempo depois de ver “Hello Ghost”. Então não é que o mesmo cenário se repete em “Heart and Souls” (1993) com o maravilhoso Robert Downey Junior pré drogas-destroem-a-vida-até-ao-regresso-mais-fantabulástico-de-sempre? A minha opinião quanto à peça coreana não se altera, pelo menos, não em termos de qualidade. O elemento originalidade cai por terra. Felizmente (e eu quis tanto gostar deste filme) há outras características redentoras. Deixam-me afirmar que é uma película com alma sem todos aqueles questionamentos metafísicos que a acompanham? Se calhar é a frase mais vaga e inócua para ajudar alguém a decidir-se a ver um filme mas, quando algo nos faz rir e chorar com sentimento, não se diz que toca a alma?
“Hello Ghost” também é um momento cultural maravilhoso para a Coreia, abordando tantos assuntos como a solidão, a depressão, o suicídio, o colectivismo, a importância da família, a existência de vida depois da morte e, depois, claro, há um breve passeio pela culinária, pelas actividades culturais... Há tanto por descobrir deste país no filme que só por isso, para quem for um apaixonado da cultura coreana ou estiver a frequentar o curso de estudos asiáticos é um encanto. De todos os personagens, mesmo assim, a protagonista é capaz de ser uma das mais desinteressantes. A enfermeira com um coração de ouro que revela uma relação conflituosa com o pai podia ter sido interpretada por qualquer outra actriz. Ela é quase desinteressante por comparação com os fantasmas e o adorável falhado Sang-man. E nem é por considerar que Yen-won Kang é má actriz. Quem consegue competir com personagens exagerados ao cubo?
“Hello Ghost” é tão mas tão adorável que seria capaz de derreter o inferno. Tão adorável que… céus, tenho de ir já a correr ver um filme de terror. Quatro estrelas.

Realização: Young-tak Kim
Argumento: Young-tak Kim
Tae-yun Cha como Sang-man
Yen-won Kang como Yun-soo
Moon-su Lee como o Fantasma velhote
Chang-seok Ko como Fantasma fumador
Young-nam Jam como Fantasma chorona
Bo-geun Cheom como Criança fantasma

Próximo Filme: "Death Bell" (Gosa, 2008)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...