domingo, 4 de agosto de 2013

3 A.M. 3D (2012)


O que é que faz falta ao cinema de terror asiático? Antologias não são com certeza. Mas perdoe-se 3 A.M. desse pecado e julgue-se pela qualidade. Então o que é que 3 A.M. tem para oferecer? Apenas o artificio para gerar dinheiro mais irritante dos últimos anos? Adivinharam, tecnologia 3D. Acrescenta algo às curtas-metragens? Isso é o que vamos ver a seguir…

“Wig Shop”
May (Focus Jirakul) e Mint (Apinya Sakuljaroensuk) são duas irmãs que, não fosse o facto de pertencerem à mesma família nada teriam em comum. May é calma, modesta e trabalhadora, Mint é a vida da festa, sofisticada e preguiçosa. Rebenta uma discussão séria entre ambas quando Mint leva uns amigos para a loja de perucas dos seus pais e estes se põem a brincar com elas. Conseguirão elas esquecer as divergências quando uma aparente anterior dona do cabelo de uma peruca decide assombrar o grupo de amigos?

“Corpse Bride”
Tod (Tony Rakkaen) é um mortuário novato contratado para velar um jovem casal que faleceu uma semana antes do casamento. Ele deverá efetuar ritos para apaziguar os seus espíritos, não espreitar para dentro dos caixões e não tocar nos pertences do casal até ao seu descanso final. Mas ele não consegue deixar de cometer um erro primordial, ele olha para dentro do caixão da noiva Cherry (Karnklao Duaysianklao). Linda, parece estar viva…

“Overtime”
Karan (Shahkrit Yamnarm) e Tee (Ray MacDonald) são dois chefes brincalhões que adoram pregar partidas aos seus funcionários durante o período da noite. Desta feita Bump (Prachakorn Piyasakulkaew) e Nging (Kanyarin Nithinaparath) são as próximas vítimas mas será que eles não estarão a preparar um contra-ataque.



O fio condutor entre estas curtas-metragens é as três da manhã, o período, no qual sucedem acontecimentos que poderíamos classificar de paranormais. Tradicionalmente, para quem estuda tais eventos, o período entre as três horas da manhã e as quatro considera-se a hora dos mortos. Esta hora está ligada à morte de Jesus Cristo, uma vez que é a hora diametralmente oposta àquela em que o profeta faleceu (três da tarde) e é o período em que será mais fácil estabelecer contacto com o outro mundo. Meninos não tentem isso em casa! Infelizmente para os protagonistas, os contactos com os espíritos no outro lado não são positivos. (Ainda estou para ver um filme em que esses encontros sejam simpáticos). 3 A.M. é um verdadeiro “quem-é-quem” do cinema de terror tailandês. Isara Nadee, realizadora de “Overtime” é dos elementos da equipa de argumentistas “ronin”, notória pelos filmes do gorefest “Art of  the Devil” e ainda do terrível “407 Dark Flight 3D”. Apinya Sakuljaroensuk e Ray MacDonald são presenças recorrentes no cinema local e Shahkrit Yamnarm é a grande estrela do elenco, tendo inclusive contracenado ao lado de Nicolas Cage (sei que hoje em dia não é grande motivo de orgulho), em “Bangkok Dangerous”. Que podia pois correr mal?
A abrir as hostilidades está “Wig Shop” que, para quem viu filmes como o coreano “The Wig” ou o japonês “Exte: Hair Extensions” é um conceito já testado e cansado, para não dizer totalmente exausto. A curta tenta emular em poucos minutos o que os filmes anteriores conseguiram realizar em pleno durante quase duas horas. E se um recorria ao bom velho drama coreano o outro apresentava como grande arma um realizador de peso. “The Wig Shop” vale-se de duas carinhas bonitas que não conseguem salvar um argumento em veloz trajecto descendente.  Ah e alguém reparou na triste ausência de 3D? Não se preocupem que o sua utilização desnecessária ainda agora começou.
Nestes projectos há sempre um momento de insanidade e “Corpse Bride” encarrega-se da bizarria da antologia. “Corpse Bride” é capaz de fazer mais jus ao nome do que a animação de Tim Burton mas é um exemplo clássico de ausência de direcção. Drama? Mistério? Terror? Seria de pensar que com tanta variedade “Corpse Bride” exaltasse algum tipo de entusiasmo mas é tragicamente, o mais aborrecido dos três. Pior ainda, parece uma curta-metragem demasiado longa. Quando os personagens são desprezíveis ou provocam, no mínimo indiferença o que mais desejamos é despachá-los o mais rápido possível e não prolongar a tortura. “Corpse Bride” tem uma reviravolta final mas, por essa altura, já estaremos tão dormentes que não importa. Acabem com a nossa miséria!
“Overtime” é o grande desperdício da antologia. Mesmo que aguentem o visionamento até à última curta-metragem será difícil não ficar com a sensação de que o tom da mesma está totalmente desligado do das anteriores. Curiosamente é o que melhor representa o cinema tailandês. Assim como os sul-coreanos adoram misturar drama e comédia, os tailandeses parecem adorar os seus filmes de terror com um pouco de comédia. Querem melhor exemplo que o estreado este ano “Pee Mak” que se tornou o filme mais rentável da história do cinema tailandês? A grande crítica a “Overtime” é parecer-se mais com um conjunto de gags colados para efeito cómico do que um argumento sólido. No entanto, é a descontração dos actores e o sentimento de que a estória não está a ser levada demasiado a sério que deve conquistar os corações das audiências. Os efeitos digitais são maus? Terríveis, na verdade. Mas questionem-se, onde das películas falharam em assustar uma teve sucesso em divertir. Quem é o vencedor? Duas estrelas.
“Wig Shop”
Realização: Pussanont Tummajira
Focus Jirakul como May
Apinya Sakuljaroensuk como Mint

“Corpse Bride”
Realização: Kirati NakIntanont
Tony Rakkaen como Tod
 Karnklao Duaysianklao como Cherry
Peter Knight como Mike


“Overtime”
Realização: Isara Nadee
Shahkrit Yamnarm como Karan
Ray MacDonald como Tee
Prachakorn Piyasakulkaew como Bump
Kanyarin Nithinaparath como Nging

Próximo Filme: "Swing Girls" (Suwingo Gâruzu, 2004)

domingo, 28 de julho de 2013

Hideo Nakata no MOTELx

O Hideo Nakata vem ao MOTELx - Festival Internacional de Terror de Lisboa e ouvem-se gritinhos histéricos oriundos de um blogue minúsculo (assobia para o lado). Mas garanto que a sua dona ainda está em recuperação. Afinal de contas, Nakata sempre é um dos pais do J-horror moderno, responsável por filmes como "Ring", "Dark Water", "Kaidan" e, mais recentemente, "The Complex". Aliás, para recuperar até vou ali dentro fazer mais uma maratona de alguns dos seus melhores filmes. Até daqui a uns dias.

domingo, 21 de julho de 2013

"Apartment 1303" (1303-gôshitsu, 2007)


As pessoas têm o direito de saber no que se estão a meter e como já devem ter percebido não sou de intrigas. “Apartment 1303” não é um drama existencialista sobre uma jovem que não consegue lidar com a pressão de sair de casa pela primeira vez. Não. “Apartment 1303” é o típico j-horror mal disfarçado de drama que tenta cavalgar uma tendência que já devia estar morta e enterrada há 10 anos. Podem as meninas japonesas fazer à humanidade o favor de cortar o cabelo e de não o deixar cobrir os olhos?
“Apartment 1303” inicia-se em ambiente de festa: Sayaka festeja com o namorado e os amigos o achado de um apartamento com uma renda muito baixa para passar o período de férias. Em Portugal, a gente avisada costuma utilizar uma expressão que assenta na perfeição no caso: “Quando a esmola é muita, o pobre desconfia”. E de facto, o apartamento era barato demais. Sayaka fica só por momentos e algo tolda-lhe a mente viva e feliz. Num momento fugaz atira-se da varanda do prédio perante o desespero dos que a rodeiam. Segue-se o pranto da família e a descrença. Sayaka era uma rapariga feliz, ela nunca se iria suicidar. Convencida disso mesmo, Mariko (Noriko Nakagoshi) decide investigar as causas da morte da irmã e põe a descoberto uma estória mais antiga ligada ao apartamento e aos seus antigos inquilinos.
A narrativa consiste numa sucessão de improbabilidades. Começa logo pela questão óbvia: como é possível que um apartamento com uma forte atracção pela morte, nunca tenha chamado a atenção das forças policiais ou de outros inquilinos do prédio? Segundo, face ao conjunto de tragédias, talvez fosse melhor fechar o apartamento durante uns tempos não? Parece-me altamente improvável (se calhar é a uma ingenuidade que fala), que os senhorios e companhias imobiliárias, por mais gananciosos que fossem, se quisessem ver associados a um ciclo de morte e destruição.

Eu, amante de terror, aqui me confesso: abominei o pouco que vi da série de filmes “Tomie” (acho que já vai na sequela número 3448563475634), de tal modo, que nunca consegui verter uma linha de texto no Not a Film Critic sobre as películas mas, dentro do género, eram inventivos. E conseguia perceber o apelo, histerismo até, em torno da série. As miúdas eram giras, as estórias absurdas e as mortes sanguinariamente fascinantes. Ataru Oikawa esteve por detrás do filme original e de “Tomie: Beginning” e “Tomie Revenge” por isso, surpreende o facto de ele ter simplesmente “desistido” do cinema. As obras sobre a assassina que não morre e persegue implacavelmente as suas vítimas está bastante longe de ser boa mas tem uma boa dose de inventividade que podia ter sido reaproveitada em “Apartment 1303”.
Uhhhh, “o apartamento tem o número 13, que medo” ou “miúdas giras a ser atacadas por uma força invisível, nunca se viu antes”. Há uma apatia neste filme que me assusta francamente mais que qualquer outro enésimo remake de clássicos do j-horror, o olhar perdido dos actores que se tentam perder nuns personagens em que nem eles acreditam. É mais do mesmo, remastigado e cuspido com outro verniz. “Apartment 1303” não faz carreiras, não para os actores e o mesmo se aplica à equipa técnica. É uma estória confusa, de avanços e retrocessos que não acrescentam nada à estória, a tornam aborrecida e fazem aumentar a confusão sobre o que se está a passar no ecrã. Mais, não se admirem se derem por vós a bocejar e a olhar para o relógio. E pior, o terror, se alguma vez o tiveram, vai desaparecer tão rápido que “Apartment 1303” não é mais do que apenas mais um filme… Apesar do pontual profissionalismo de algum deles, são apenas pinceladas ocasionais num quadro feio, que há muito devia ter sido esquecido numa galeria mixuruca qualquer. Uma estrela e meia.

Realização: Ataru Oikawa
Argumento: Ataru Oikawa, Takamasa Sato e Kei Oshi
Noriko Nakagoshi como Mariko
Arata Furuta como Detective Sakurai
Eriko Hatsune como Sayaka

Próximo Filme: "3 A.M. 3D", 2012

domingo, 14 de julho de 2013

"Colic" (Colic: dek hen pee, 2006)


“Colic” atinge as pessoas, sobretudo mães pré-mamãs em todos os pontos certos. Uma mera visualização do poster onde um bebé está sentado perigosamente perto de uma misturadora chega para provocar arrepios. Perigo a pairar sobre criaturas indefesas como bebés sempre foram a última fronteira e, se o resultado não é tão asqueroso como, digamos, um “Art of The Devil” o impacto psicológico é bastante mais vasto.

Quando Phrae (Pimpan Chalaikupp) engravida por acidente, Pong (Vittaya Wasukraipaisan), apesar de não estar preparado para ser pai decide tomar a atitude correcta e casar com a namorada. Esta decisão implica abdicar de uma série de coisas, visto que Phrae deixa de poder trabalhar e sem recursos financeiros para criar um filho, o casal é forçado a mudar-se para a casa da mãe de Pong, longe do centro da cidade, onde ele trabalha como realizador de filmes publicitários. Uma situação temporária, prevêem. Mas mais uma vez, os acontecimentos desenrolam-se contrários aos desejos do casal, já que Pan se revela desde logo um bebé inquieto, sofrendo bastante com ataques de cólicas que não deverão cessar antes de seis meses. O casal terá de depender durante mais algum tempo da boa vontade da mãe de Pong e de Jeen (Kuntheera Sattabongkot), irmã de Phrae. Afinal, o conto-de-fadas apenas teve a duração de uma gravidez pintada de imagens de felicidade conjugal ilusórias. À medida que o choro de Pan se torna cada vez mais incontrolável, Pong afasta-se e Phrae vê-se isolada, provavelmente deprimida e incapaz de lidar com a situação. Será o choro de Pan fruto de uma condição que afecta quase todos os bebés ou há algo mais, algo invisível que perturba o seu primeiro filho?

“Colic” é um longo filme para quem aguarda por momentos de terror visceral. A narrativa arrasta-se uma boa meia hora mais do que o necessário. Entre os episódios em que o bebé é acossado pela maleita há lugar para o drama entre Phrae e Pong. Mesmo que Pan sobreviva às cólicas será que o seu casamento resiste? O nascimento de um filho constitui um motivo suficientemente forte para que duas pessoas que não estão preparadas para o compromisso avançar nesse sentido? “Colic” é pois uma mistela, não se decidindo entre o drama de uma família disfuncional e o terror sobrenatural. As personagens, nomeadamente o casal são fortes o suficiente para carregar o drama aos seus ombros.
 É difícil não nos identificarmos com o seu problema: a criança não para de chorar e, tendo vontade de calar a criaturinha perturbada como não perceber a exaustão e o sofrimento de Phrae e a necessidade de escape de Pong? Os secundários fazem as vezes da audiência, são a família e colegas simpatéticos para com o problema do casal mas que pouco podem fazer para o parar. Thammajira sabe o que faz, construindo uma imagem negra com enquadramentos inteligentes, onde o choro da criança acossada, um quarto solitário cheio de objectos que podem atentar contra a sua integridade física e a existência de pais inexperientes e impotentes, coroam a sensação de que algo muito mau rodeia aquele ser indefeso. A raiz dos problemas de “Colic” reside então no terror sobrenatural, não só uma repetição de eventos de filmes que lhe antecederam como a apresentação de uma proposta dispensável para o desencadear da acção. A somar aos momentos inverosímeis que se sucedem para criar o arrepio fácil (entra a música para assinalar quando nos devemos encolher), são apresentadas sugestões e superstições que ao invés de auxiliar a compreensão da estória, contribuem para uma ainda maior confusão. Afinal, o bebé chora porque tem medo ou porque está a avisar os pais de algo? Está a suceder algo mais entre o casal que nós não sabemos ou os problemas conjugais resultam meramente da falta de preparação? A montagem também não auxilia a resolução destas interrogações pois, se em alturas detém-se demasiado em cenas dispensáveis, no panorama geral a continuidade e lógica são profundamente afectados. Com uma premissa interessante “Colic” é um case-study de película que foi perdida na sala de edição. Os meus pêsames. Duas estrelas e meia.

Realização: Patchanon Thammajira
Pimpan Chalaikupp como Phrae
Vittaya Wasukraipaisan como Pong
Kuntheera Sattabongkot como Jeen

Próximo Filme: “Apartment 1303”, (1303, goshitsu, 2007)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Blind" (Beul-la-in-deu, 2011)


Soo-ah (Ha-neul Kim) é uma antiga recruta da polícia que cegou há três anos, na sequência de um acidente de viação. Ela ainda tem dias maus, dias em que os nervos lhe toldam a concentração e parece tão desamparada como no dia em que experienciou pela primeira vez a cegueira total e permanente. Soo-ah recusa-se a aceitar a ajuda do orfanato que a acolheu e, não se sabe se o motivo por trás desta atitude é o orgulho ou o facto de achar que não a merece, por não ser alheia à responsabilidade no acidente que a cegou a vitimou o “irmão”. Um dia apanha boleia do táxi errado. O condutor é um assassino em série e Soo-ah está prestes a tornar-se a próxima vítima quando atropelam algo. Soo-ah cedo suspeita que atropelaram uma pessoa e aproveita a confusão do acidente para se escapulir das garras do homem estranho, transformando-se na testemunha improvável do desaparecimento de uma jovem mulher.
Entretanto, surge Gi-seob (Seung-ho Yoo), um jovem desenraizado e extemporâneo que põe em causa as declarações de Soo-ah. Ele semeia a dúvida sobre a credibilidade de uma testemunha já frágil, ao mesmo tempo que faz a própria Soo-ah questionar as suas capacidades. Para o caso é destacado o desajeitado mas bem-intencionado detective Cho (Hie-bong Jo) cujo instinto parece estar a milhas de Soo-ah e do assassino. Estará numa invisual a chave para a captura de um assassino que tem conseguido iludir a polícia? “Blind” é comedido nas personagens mas não se poupa a esforços para as caracterizar. O assassino é calculista, dissimulado, aterrorizante e brutal. A construção da personagem está ligada ao que de pior se pode conceber na existência humana, é conscientemente unidimensional, como se não merecesse mais respeito. Acto consciente é, também, a exploração de Soo-ah como uma mulher que a despeito da incapacidade recém-descoberta explora o melhor dos seus outros sentidos e da sua intuição de polícia. Já Gi-seob utiliza o confronto como modo de escape a situações incómodas e impedir que os que estão à volta o magoem. Ela perdeu o “irmão” com quem foi criada no orfanato e Gi-seob constitui em simultâneo uma recordação penosa e uma nova oportunidade, dando espaço a um laço que poderá ser a fronteira intransponível para um assassino que não conhece o afecto. O detective Cho parece retirado a papel químico da polícia de outros filmes mas revela competência ligeiramente superior. Ele contribui para o mito de que as forças da autoridade sul-coreanas têm um QI bastante inferior ao da população média. Quase como se fosse um requisito para se tornarem polícias. Com uma taxa de crime das mais baixas dos países desenvolvidos é normal que a polícia seja no mínimo, relaxada. Junte-se um sistema penal onde as penas são consideradas leves pela população e o sistema judicial é considerado desclassificado em efeito cascata. O ecrã não é mais do que o reflexo do senso comum da população.

“Blind” é a segunda incursão do realizador Sang-hoon Ahn nas longas-metragens, cuja primeira obra, “Haunted Village” foi um thriller sobrenatural, também tendo por foco uma personagem feminina forte mas com uma narrativa menos coesa e mais improvável. Erm, thriller sobrenatural?! A cena da autópsia improvisada ao cadáver de um cão permanecerá para sempre comigo… Enfim, a julgar pelas duas obras Ahn não deve ter grande impressão do melhor amigo do homem. A personagem de Soo-ah tem ainda algumas idiossincrasias: tão depressa apresenta capacidades sobre-humanas como as alterna com atitudes incoerentes com o treino policial e fraca habituação à condição de invisual. Há deduções demasiado brilhantes para ser reais! O grande problema de "Blind" reside na distribuição desigual de cenas de tensão. Após a primeira metade do filme existe uma cena de perseguição no metropolitano que é uma das mais enervantes (no bom sentido), que vi nos últimos tempos. O final, por contraste é quase anticlimático.
Mas desengane-se quem pensa que “Blind” é mais um thriller genérico. Ou melhor, a indústria cinematográfica sul-coreana alberga um verdadeiro dom que respeita a resgatar uma estória das malhas da vulgaridade e, se a não reinventa, tem pelo menos habilidade para a moldar e polir, sólida como um rochedo. Os sul-coreanos são os melhores contadores de estórias negras, perigosas e envolventes da 7ª arte. Eles não sabem como não fazer um bom thriller de assassinos em série. Devia existir alguma lei científica quanto a isso. É tão certo quanto a existência da gravidade, provas aqui, ali e acolá. Por isso, se tencionam passar ao lado de “Blind” por entender que retrata mais uma mulher desamparada contra um vilão superior, cometem um grande erro. Só não vê quem não quer. Três estrelas.

Realização: Sang-hoon Ahn
Argumento: Min-seok Choi e Andy Yoon
Ha-neul Kim como Soo-ah
Seung-ho Yoo como Gi-seob
Hie-bong Jo como Detective Cho
Yoeng-jo Yang como Myeong-jin

Próximo Filme: “Colic” (Colic: Dek hen pee, 2010

domingo, 30 de junho de 2013

"Toilet 105" (Hantu Toilet 105, 2010)



Sou toda por casas-de-banho assombradas. Porque não? Se nos dizemos fãs do género de terror temos de ser destemidos. Mesmo que isso signifique ver películas para adolescentes indonésios com uma visão de comédia e de terror muito próprias. Como seria de esperar os valores estão bastante arreigados à religião pelo que o facto de uma rapariga andar com as pernas nuas é motivo suficiente para a considerar uma vadia.
A sudeste nada de novo, Marsya (Coralie Gerald) muda-se para uma nova escola onde é recebida com muito entusiasmo pelos rapazes e rejeitada pelas miúdas populares residentes que não estão habituadas a que lhes façam frente. A adaptação não é fácil visto que a pobre Marsya é alvo das partidas das rufias, ao mesmo tempo que é cortejada por Okta (Ricky Harun)o fraco galã de serviço anterior namorado de uma das rufias da escola. Como impedir que a nova miúda se tornasse num alvo? A dificultar a adaptação está ainda o facto de Marsya começar a ter todo o tipo de encontros sobrenaturais sempre que vai ao quarto de banho. Com os encontros a intensificar-se e a notícia de que Adelia, uma antiga aluna desapareceu, Marsya decide investigar o caso.
“Toilet 105” devia vir com um aviso: “Se for da opinião que os adolescentes são criaturinhas irritantes não veja este filme”. E na verdade, é um conjunto de estereótipos universais irritantes. A miúda nova é gira, humilde e reúne toda uma série de qualidades; o engatatão de serviço tenta seduzir a novidade da escola; as miúdas populares são giras e más para os colegas e o mundo dos adultos está quase à margem do dos miúdos. Se conseguirem viver com a convencionalidade dos personagens e da narrativa não será uma experiência demasiado penosa. “Toilet 105” não é das piores experiências de terror a sair da Indonésia. Tem a favor o facto de não ter um orçamento tão baixo como outros conterrâneos. E o elenco está claramente vocacionado para uma audiência mais jovem, com actores ainda com bastantes anos de aprendizagem pela frente e humor local. Uma das críticas mais injustas que se podem fazer após o visionamento de um filme de origem geográfica e cultural longínqua é a de que não tem sentido de humor. Quem é o crítico para julgar, sem qualquer tipo de referência anterior o que apela à gargalhada de outros? O espirito da casa-de-banho 105 é um dos pontos fracos da película. A caracterização deixa bastante a desejar. Ainda assim é exibido em qualquer oportunidade. A subtileza não é o forte dos cineastas mas não é como se cabos de arame estivessem visíveis (Karak, 2011). Este também é um daqueles casos em que o título do filme não deixa margem para duvidas: “Toilet 105” não é para ser levado a sério. Desde a “Moaning Myrtle” da saga Harry Potter, que não se encontra espírito capaz de incutir o receio por fantasmas de casa-de-banho. Quem consegue bater uma adolescente choramingas?

Longe de mim implantar ideias erróneas na cabeça dos meus ricos leitores mas fica a sensação que “Toilet 105” surgiu com o intuito de se fazer um filme sobre uma casa-de-banho assombrada e que a estória veio depois. Já agora, alguém é capaz de me explicar porque é que o espírito parece tão interessado em assombrar casas-de-banho de rapazes e de raparigas? Se, como um dos personagens questiona a dada altura, a aparição está ligada ao local onde faleceu, porque é que esta não se queda por um único sítio? Claro que a casa-de-banho traz algumas ideias de assombração interessantes, digamos que um urinol e uma cena à “Ring” (1998) é muito engraçada. Isto, se pretendermos sorrir. Se a ideia for ficarem aterrorizados irão ficar desiludidos. Mas e daí, não teriam escolhido um filme como o nome “Toilet 105”! Uma estrela e meia.

Realização: Hartawan Triguna
Argumento: Ve Handojo e Melody Mucharansyah
Coralie Gerald como Marsya
Ricky Harun como Okta
Aming Sugandhi como Satpam
Indra Birowo como Senhor Wahyu
Suti Karno como Senhora Endang
Leonil Tikoalu como Ical
Rizki Putra como Rio
Navi Rizki como Viola

Próximo Filme: “Blind” (Beul-la-in-deu, 2010)

domingo, 16 de junho de 2013

"Paranormal Activity 2: Tokyo Night" (Paranômaru akutibiti: Dai-2-shô - Tokyo Night, 2010)


No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima,
que provocou reacções como se fosse uma enzima.
No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão,
depois veio a calma, procura do saber e a satisfação.

Da Weasel in Iniciação A Uma Vida Banal - O Manual 

Perdoem-me se comparo o “Paranormal Activity” a qualquer sensação parecida com prazer e bem-estar (na verdade não peço, não).  Se os da Weasel podem ir beber ao Evangelho de São João, não me parece desproporcional utilizar tais termos para o mais recente fenómeno do cinema de terror. Ele era o “melhor filme de terror da década”, ele era “arrepiante”, ele era a frescura por oposição aos anos de desgaste do subgénero torture porn, ingenuamente conduzida pelos criadores de “Saw” e o Eli Roth. E se acredito fortemente, que o sucesso de “Paranormal Activity” se deveu em parte a reboque do facto de as pessoas estarem sequiosas por uma nova experiência de terror, isto não o torna menos eficaz. A estória de um casal simpático acossado por forças invisíveis, que podia ser nosso vizinho, bebe-se de um trago ao contrário do sadismo exagerado de assassinos temíveis e sociedades secretas que engenham armas de tortura inacreditáveis. Isto, sem mencionar a “nova vaga” do cinema de terror francês (que já é nova há muitos anos) e o cinema japonês que já por aí anda há bastante tempo, sem lhe atribuir nomes sexy.
Eis pois, que o “Paranormal Activity” (2007) tem sucesso e logo surge a sequela japonesa não oficial, “Paranormal Activity: Tokyo Night” (2010). Não fosse estranha a mera colocação da hipótese de realização de uma sequela japonesa, que o percurso costuma ser inverso, Japão/EUA -, temos ainda produção e argumento em tudo similares, ou como diria a minha avozinha, “De boas intenções está o Inferno cheio”.
A pobre Haruka (Noriko Aoyama) regressa a Tóquio depois de umas férias nos EUA, onde teve um acidente de viação que a deixou com as pernas partidas. Sobre para o irmão mais novo Koichi (Aoi Nakamura) que está completamente obcecado com a mais recente aquisição para realizar filmagens tomar conta da convalescente. Assim que se instala para o caminho da recuperação Haruka começa a dar por objectos fora do lugar, barulhos estranhos, o sentimento de que não está só… E quer a sorte que os irmãos habitem um dos países com mais videovigilância do mundo. Estão a ver o mito do japonês com a máquina fotográfica?
Ora, se o ponto de partida é inteligente (o acidente de viação de Haruka tem muito que se lhe diga) é o desenvolvimento que fracassa. Sucede a mesma sequência de acontecimentos que vitimizam Katie e Micah do filme original. Numa análise fria Tokyo Night seria uma versão superior se fosse o primeiro filme na ordem cronológica já que o cineasta Toshikazu Nagae opta por livrar-se dos planos que minavam o ritmo de “Paranormal Activity”, e em que não acontecia nada, sem eliminar a tensão remanescente. Concebem a ironia de um filme japonês tomar a decisão de eliminar excedentes em prol do ritmo? Também a dupla de protagonistas é forte tendo bastante experiência em cinema e televisão e emulam com facilidade a naturalidade dos actores da película americana. Esta coisa de contracenar como se não o estivesse a fazer é o maior achado de sempre. Outro aspecto de nota é os personagens principais serem irmãos. Relembra-me de certo modo do “Jeepers Creepers” (2001) de cujo choque (o Darry não!), até hoje, ainda não recuperei. O foco no ângulo amoroso sobre o de laços familiares acaba por se tornar um elemento de falsidade no cinema. Desde quando é que vemos primos em 2º grau? Ou um tio e sobrinho afastados, por exemplo? Um pormenor técnico remotamente interessante é o recurso ao splitscreen (divisão do ecrã), que por momentos dá a ilusão de sermos voyeurs de uma experiência a decorrer em tempo real. De resto não há um elemento dissonante, um grito de desafio aos antecessores “Paranormal Activity” e “Paranormal Activity 2”, algo que chegue ao âmago das audiências e explique porque é que esta versão era necessária e acrescenta algo sobre o anterior. Ok, o destinatário principal é a população japonesa mas faziam alguma coisa diferente não? É mais do mesmo que conduziu à saturação de sagas anteriores, como o “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “Nightmare in Elm Street”, “Saw”, etc, cujo sucesso inicial redunda sempre num remastigar orgíaco cíclico do pecado original. E a audiência? Amorfa, cansada, que procura algo mais do que a satisfação de encontrar o que reconhece de aventuras anteriores. No princípio era o hype. O fim? Só Deus sabe como termina. Duas estrelas e meia.

Realização: Toshikazu Nagae
Argumento: Toshikazu Nagae e Oren Peli
Noriko Aoyama como Haruka
Aoi Nakamura como Koichi

Próximo Filme: “Toilet 105”, 2010

segunda-feira, 10 de junho de 2013

NAFF - Not a Film Festival: Not a Scary Session - Parte 3

Chegados ao epílogo dos comentários à Not a Scary Session do Not a Film Festival, chega pois a parte mais difícil que é a da despedida. Por aqui vê-se, assumidamente, pouco cinema português e com grandes intervalos de distância. Parte preconceito, que entretanto se tem vindo a desvanecer, parte hábito. É um mea culpa, mas pelo qual assumo total responsabilidade. E a sensação com que fiquei, depois de uma mera sessão de cinema é de que estou a perder imenso e que tenho de me redimir pois, mesmo as curta-metragens menos sólidas demonstram uma técnica, um desejo de aprender e uma vontade de vencer admiráveis. Atestam também aquilo que já se sabe em alguns meios mas alguns parecem não querer acreditar, o cinema nacional está bom e recomenda-se.

“Projecto V”

Sinopse: “Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.” - Sigmund Freud. Quando um predador é movido por sentimentos de vingança, o que poderá a presa fazer dentro de quatro paredes? Deverá aceitar o seu fim?”
Antes de virem para aqui dizer que a je é muito má deixem-me que vos lembre vingança é um dos temas mais explorados em cinema. É extremamente difícil ser original no que a este tema diz respeito. Posto isto, podia-me lembrar para assim de repente de uma centena de referências cinematográficas onde “Projecto V” pode ter ido beber. Se é que não foi mesmo… Logo à primeira e sem ler o titulo, “V”… de Vingança, certo? Pondo de lado o título óbvio, viram o “Buried”? O protagonista está encurralado sem qualquer hipótese de escapatória e é atormentado por uma voz que não consegue identificar. Já se fez tudo isso antes e melhor. E a jovem protagonista precisava de mais uns minutos até ficar no ponto rebuçado: o choro, seguido de histerismo e desespero, passa-se à velocidade da luz. Pouco credível. Uns minutos mais e… Também a câmara é pouco intrusiva, como se existisse medo de penetrar a intimidade da actriz. Mas ela é uma vítima, o espaço íntimo já foi violado, pelo que é de estranhar o receio de aproximação ao corpo de delito. Uma estrela e meia.

Realização: Bernardo Gomes de Almeida
Duração: 11 minutos


“Som do Silêncio”

A Fernanda Serrano desperta emoções estranhas na minha pessoa. Quero gostar dela terrivelmente mas não consigo. E o facto de dar a cara pelo tipo de livros popularuchos que só as donas de casa com pouco que fazer lêem não a ajuda. Mas depois temos 11 minutos onde a Fernanda demonstra que sem falar consegue dizer muito e tudo fica bem no meu mundinho. O “Som do Silêncio” tem uma ideia profundamente provocadora, a de uma realidade onde as pessoas não podem falar (não, em público, pelo menos). Censura sobre a forma de lei. Umas linhas não se podem sobrepor a uma necessidade humana. Ou podem? É um problema de equilibrismo, aquele que opõe a lei à razão. A resposta de Joana ao problema é apenas um tipo de clausura diferente. O cenário é o museu de arte antiga. Local bem a propósito. Durante séculos afim e, ainda hoje, em algumas regiões do globo tentam calar a arte. Três estrelas.

Realização: Paulo Grade e João Lourenço
Duração: 11 minutos

“Utopia”

“Utopia” é difícil de definir. Mas como diria Joana Maria Sousa, que este simpaticamente à conversa com Not a Film Critic nem podia ser de outro modo. Ela é adepta das sessões de cinema partilhadas, com finais em aberto, que geram discussão e especulação. A sua fantasia envolve duas jovens acossadas. Será uma delas a própria Joana. O perseguidor é desconhecido mas hipóteses não escasseiam. As jovens são vítimas dos seus próprios sonhos, são o reflexo de uma vida anterior, um alter-ego? É possível efetuar a distinção mediante o recurso de filtros. A decisão por uma das realidades reside na mente de quem a vê. Duas estrelas e meia.

Realização: Joana Maria Sousa
Duração: 9 minutos


“Still Room”
Um quarto. Uma mulher inquieta. E uma sucessão de imagens que deviam ter sido antecedidas de um aviso a pessoas com fotossensibilidade e/ou epilépticas. Como trabalho de um artista visual tendo por objectivo a contemplação e discussão funciona. Como estória é fraco. Uma mulher revolve na cama, levanta-se para ir à janela e volta a deitar-se. Crise de insónia contada através da fotografia em sucessão, estática. Não da imagem em movimento. Estrela e meia.
Realização: Mafalda Relvas
Duração: 2 minutos

“O Fim do Homem”
Ou o exemplo clássico da magia da pós-produção. Uma jovem possui um amuleto que poderá salvar a Terra do Apocalipse. Mas enquanto uns lutam para a salvar, as forças do mal não se deterão a nada para obter tal fonte de poder. E sabem que mais? Pode já ser tarde demais.
Enquanto a estória não oferece nada de original, com a ratinho de biblioteca a servir de peça central, capangas à la ninjas e a lutadora das forças do bem de ar andrógino, é o trabalho digital o que mais sobressai numa sessão onde os “efeitos especiais” foram poucos e longínquos. Três estrelas.

Realização: Bruno Telésforo e Luís Lobo
Duração: 9 minutos

Próximo Filme: “Paranormal Activity – Tokyo Night”, 2010
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