Fui convidada a participar com a proposta de um filme no ciclo de comemoração de dez anos de "My Thousand Movies", que iniciou como "One Thousand Movies", atualmente é o "My Two Thousand Movies" e, desconfio muito, no futuro "My Three Thousand Movies".
Se passeiam pela blogosfera cinéfila desde então, com certeza já conhecem o blogue pelo que dispenso a apresentação e passo diretamente ao filme.
Até finais de Agosto muitos mais filmes passarão por este ciclo pelo que proponho que vão lá fazer uma visita e quiçá, passar uma temporada. Bons filmes!
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
Colaborações #8
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domingo, 8 de julho de 2018
"Annihilation" (2018)
Unsettling. Esta palavra pode ser entendida na língua portuguesa como inquietante ou perturbadora. Ainda assim, perde a força na tradução. Como se as palavras não conseguissem suportar em toda a dimensão o desconforto que se pretende apontar. Unsettling tem sido uma das palavras mais repetidas nas últimas semanas, aqui como na imprensa internacional a respeito do filme “Hereditary”(2018). É a segunda vez que a aplico num espaço de três meses a respeito de um filme, depois de “Annihilation”. Curiosamente, (ou talvez não), estão ambos no meu top 5 de filmes de 2018, sendo que descrever qualquer um deles como um filme de terror é apenas redutor.
“Annihilation” é a adaptação do
primeiro capítulo da trilogia literária “Southern Reach” de Jeff Van derMeer,
que acompanha uma expedição de cientistas à Área X. Onde antes se encontrava um
parque natural está agora uma região isolada envolvida por espécie de campo electromagnético
conhecido como “The Shimmer” ou “O Brilho”. Apesar das similitudes com um “The
Simpsons Movie” (2007) ou a obra “Under the Dome” de Stephen King mas as referências
não se ficam por aqui seja na temática ou no estilo. “Blade Runner” (1982) “Under
the Skin” (2013) flutuam à mente.
Têm sido enviadas sucessivas expedições científicas e
militares para explorar uma zona chamada Área X mas até ali nenhuma das missões voltou a comunicar com o exterior. Lena,
interpretada por uma fria Natalie Portman, é uma professora de biologia e
ex-militar ainda a lidar com a dor do desaparecimento do marido Kane (Oscar
Isaac) após este partir numa missão – adivinharam – à Área X. Um dia ele surge como
por magia em casa de ambos. A alegria do regresso mistura-se à certeza de que
Kane já não é a mesma pessoa que partiu. Determinada a compreender o que
sucedeu a Kane e salvar o marido de uma maleita súbita que se abate rápida e furiosa sobre
ele, Lena junta-se a uma expedição feminina de cientistas à zona misteriosa.
A equipa inclui a Dra. Ventress, (Jennifer Jason Leigh) uma psicóloga
pragmática com um segredo; Anya (Gina Rodriguez), Shepard (Tuva Novotny) e
Josie (Tessa Thompson), especialistas em diversas áreas do conhecimento com
passados sombrios e motivos muito próprios para encetarem uma viagem ao
desconhecido da qual poderão não regressar. Escusado será dizer que após entrar
em “The Shimmer” já não estão no Kansas. Tudo é igual e em simultâneo
diferente. Para citar um cientista: “na Natureza nada se cria, nada se perde,
tudo se transforma”. E mesmo as próprias cientistas, cuja percepção do tempo
também se encontra difusa sentem a permanente transformação. Imaginem o Brilho
como uma grande liquidificadora onde animal, planta ou o minério se misturam e
são cuspidos com uma nova forma. A esse respeito refira-se uma das criaturas
com um dos designs mais originais e aterradores que surgiram em cinema
ultimamente, a par de um “The Ritual”. Ambos com orçamentos muito modestos para
os resultados apresentados. Durante vários dias, não se falava de outra coisa nas
redes sociais, se não, naquela CENA. Naquela besta. Claro que podemos falar de
aberrações mas também podemos falar de evolução. Porque no Brilho é como se
estivessem num novo planeta, e numa nova atmosfera há novas regras. Não serão
as cientistas, o elemento estranho? Não serão elas as aberrações? A própria banda-sonora acentua a sensação de estranheza à medida que os instrumentos de percussão dão lugar a sintetizadores. O orgânico, natural, dá lugar ao que é artificial, alvo de intervenção externa.
Alex Garland retoma em
“Annihilation”, temas que já o obcecavam em “Ex Machina” (2014), como o que
significa ser humano e como é que essa humanidade se manifesta. Incidentalmente,
as personagens, que identificamos enquanto humanas e sabemos serem humanas, parecem
desconectadas de tudo e quando demonstram sinais de humanidade não é bonito o que se vê. Lena em particular representa o Homem com
todas as suas idiossincrasias. Ela é profundamente egoísta e é por isso que
decide incorrer na Área X. Ela sente
uma tremenda culpa e sente que se fizer aquilo, irá expiar o seu pecado e ter
um final feliz. Um dos maiores pecados de “Annihilation” encontra-se nas
sucessivas analepses e prolepses, com exposição
desnecessária sobre os motivos de Lena e o seu apetite por auto-destruição, que nos é repetido e insinuado ínfimas vezes bem como o relato na primeira pessoa dos eventos que ocorreram na Área X a terceiros. Ainda assim, “Annihilation” incorre onde poucos foram antes e tiveram sucesso. Estranho pode ser bom. Quatro estrelas.Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland e Jeff VanderMeer (Livro)
Natalie Portman como Lena
Benedict Wong como Lomax
Oscar Isaac como Kane
Jennifer Jason Leigh como Dra. Ventress
Gina Rodriguez como Anya Thorensen
Tuva Novotny como Cass Sheppard
Tessa Thompson como Josie Radek
Próximo Filme: "The Lies she Loved" (Uso wo Aisuru Onna, 2017)
domingo, 20 de maio de 2018
"Tracer" (Truy Sat, 2016)
“The Tracer” é um filme de acção e artes marciais vietnamita de 2016, que resulta em parte dos fundos bolsos da gigante produtora e distribuidora coreana CJ Entertainment que está cada vez mais interessada no cinema florescente daquele país.
Esta película tem por foco uma agente policial, a Major An (Truong Ngoc Anh), implacável na sua perseguição aos bandidos e consegue manter uma aparência espectacular enquanto o faz. Ela é também irrequieta e irreverente o suficiente para ignorar as ordens do seu superior Minh (Vinh Tuy) e iniciar as hostilidades antes de chegarem reforços. Numa dessas ocasiões, a Major acaba por provocar a morte acidental de um elemento importante do gangue criminoso dos Lobos. O chefe dos criminosos Loc Sui (Lamou Vissay) e a sua irmã e noiva do falecido Phuong Lua (Maria Tran) iniciam então uma persecução a An, que só poderá cessar com a morte ou captura de uma das partes.
Assisti a este filme quando me encontrava a várias milhas de altitude. Encontrei alguns filmes que raramente se encontram por estas paragens e decidi dar-lhe uma hipótese. Quando acabei o visionamento tinha a forte sensação de déjà vu. Regressada a Portugal, fui pesquisar informação adicional sobre o filme e encontrei algumas alusões à qualidade e até inovação de “The Tracer”. Isso surpreendeu-me pois nada podia estar mais longe da verdade. Parecia até conversa de marketing.
Na verdade, tinha visto e escrito há uns anos sobre “Clash” (Bay Rong, 2009), com uma Veronica Ngo que estaria ainda longe de imaginar que iria entrar no Star Wars: Episode VIII - The Last Jedi (2017) e muito pouco mudou desde então. O argumento continua tão incipiente como na iteracção anterior e talvez até pior. A comparação entre os elencos também não deixa margem para dúvidas. Em 2009, existia, apesar de tudo, uma tentativa de elevar o material. “The Tracer” é toda uma série de erros atrás uns dos outros, a começar na personagem principal. Truong Ngoc Anh tenta interpretar uma espécie de agente do bem, fria e inamovível na sua busca por justiça mas provocar mais sensação pela incapacidade de representação enquanto as próprias acções da personagem também a tornam pouco simpática. A Major tem um irmão mais novo portador de deficiência a quem quer a todo o custo proteger mas a isso não a faz ter cuidado com a sua própria vida quando, se ela falecer, o jovem ficará sozinho no mundo. Existem ainda alguns outros agentes do seu lado, por curiosidade, todos homens, sendo que uma boa percentagem destes surge com alguma frequência de tronco nu. Não seria difícil adivinhar que dispõem de uma boa forma física, sendo um filme de artes marciais mas, isso só torna “The Tracer” gratuito. A tudo isto não é alheio o facto de o cinema do país estar sob o escrutínio de censores do regime mas enquanto “The Tracer” pouco terá de ofensivo para o regime tem tudo para as audiências. Para um filme do século XXI, financiado por um conglomerado gigante, a estória parece tirada a papel químico dos filmes de acção série B, dos anos 90. Isto parece deliberado: dá a impressão que o cineasta Cuong Ngo se limitou a seguir as referências que tinha enquanto subestima a audiência que entende por pouco sofisticada e capaz consumir com voracidade tudo o que tiver para lhe apresentar.
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| "Olhem só para a minha cara de acção!" |
Realização: Cuong Ngo
Argumento: Nguyen Thi Nhu Khanh
Truong Ngoc Anh como Major An An
Thien Nguyen como Kien Lang Tu
Lamou Vissay como Loc Soi
Vinh Thuy como Truong Phong Minh
Cuong Seven como Ong Trum
Maria Tran como Phuong Lua
Hieu Nguyen como Dau Bac
Marcus Guilhem como Hai San Quyen
Próximo Filme "Annihilation", 2018
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domingo, 6 de maio de 2018
"A Silent Voice" (Koe no Katachi, 2016)
“A Silent Voice” que também é conhecido internacionalmente como “Shape of Voice” – vi esta animação poucas semanas depois de o “The Shape of Water”, na MONSTRA e acreditem que a minha cabecinha teve de fazer um rewind para não confundir as coisas – foi um dos maiores êxitos de bilheteira no Japão em 2016, baseado, para não variar, numa manga japonesa. O sucesso do filme não será alheio a factores como um certo despudor para o visionamento do cinema de animação por públicos mais adultos e ainda ao tema tão pertinente no país como o “bullying”. Os casos de bullying são transversais à sociedade japonesa. A cultura do pensamento colectivo, do silêncio do desconforto individual produzem vítimas em idades tão jovens desde o jardim-de-infância à universidade, transpondo-se depois para o mercado de trabalho.
“A Silent Voice” tem um início deprimente. Shoya (Miyu Irino) faz os preparativos para a sua morte anunciada e resolvida no seu âmago. É um rapaz calado e anti-social que passa despercebido e também não pretende ser notar. Mais vale evitar conflitos. Não raras vezes, veremos Shoya a olhar para os pés, querendo evitar qualquer contacto visual e rodeado de pessoas com uma cruz sobre os seus semblantes. São as pessoas a ignorar, não conectar, a todo o custo evitar. O seu comportamento transporta-nos para a escola primária. Dir-se-ia que ele tinha sido alvo de bullying ao longo de toda a sua existência. Na verdade ele começou por ser um. Quando Shoko, uma nova aluna surda chegou à sua aula, o então inquieto, barulhento, sem noção e incapaz de transmitir os seus verdadeiros sentimentos Shoya faz dela o alvo principal das suas partidas. Essa história tem um fim quando Shoko acaba por ser transferida para outra escola por não aguentar mais os abusos. Censurado por professores e colegas, Shoya acaba por se tornar vítima do seu próprio veneno, retirando-se para o seu interior, onde tudo é mais suportável até se tornar um jovem adulto. No entanto, o seu caminho volta a cruzar-se com Shoko e a sua família, os velhos amigos que lhe dificultaram a vida e ainda outros que permitem a Shoya encontrar o verdadeiro valor na sua vida e se sempre haverá a possibilidade de expiação de pecados.
Esta animação tem menos de espectáculo que de introspecção. Não me entendam mal, que a animação é tão competente e belíssima quanto costuma ser regra no cinema japonês, a abordagem é que se foca mais na narrativa que na forma. “A Silent Voice” revela-se uma reflexão interessante sobre o bullying pois foca diversos pontos de vista, incluindo um central que não é tão habitual que é o de quem comete bullying, ainda que Shoya seja um bully arrependido. Entre as diversas questões que a animação levanta, estão, por exemplo: até quando se deve carregar o fardo da culpa por eventos cometidos há muitos e muitos anos. Shoya era um miúdo imaturo e parvo quando fez mal a outra criança e acabou por sofrer a vida toda por isso. Contudo, Shoya não era o único a fazê-lo e acabou por ser o único a ser castigado. Mesmo após diversas trocas de argumentos já em jovem adulto com os colegas, esses continuam a não querer aceitar que tiveram um papel activo no bullying de Shoko recriminando-a até pelo seu sofrimento e do de Shoya. Duas vezes vítima. Serão eles melhores que Shoya quando nunca assumiram as suas acções erradas e acabaram depois por fazer o mesmo a Shoya quando este foi “apanhado”? “A Silent Voice” é conducente a uma reflexão ainda mais pessoal do espectador, pela sua própria experiência enquanto vilão ou vítima em situações similares. Será Shoya uma figura trágica digna de empatia ou é ainda e sempre um monstro? Perdoar? Esquecer? Tudo isto é tão mais amplificado quão doce é a sua vítima Shoko. Apesar de tudo quanto lhe aconteceu nunca foi capaz de “lutar” contra Shoya por quem sente carinho.
Em comum entre todos os personagens está o profundo desejo de conexão, aquele que tão desesperadamente se procura durante toda a juventude e até eventualmente pela vida adulta fora. É ainda um retrato muito realista das desventuras da juventude pois a acção nos locais que se identificam com ela, na escola, em casa, na rua, no parque, na feira popular… É muito difícil não apreciar o mérito de reprodução daqueles momentos tão fulcrais na construção da personalidade, de “A Silent Voice” mesmo quando este se torna tão histriónico quanto a vida interior adolescente e até um poucochinho demais delicodoce. Três estrelas e meia.
Realização: Naoko Yamada
Argumento: Reiko Yoshida, Yoshitoki Oima (manga) e Kiyoshi Shigematsu
Miyu Irino voz de Shôya Ishida
Saori Hayami voz de Shoko Nishimiya
Aoi Yûki voz de Yuzuru Nishimiya
Kenshô Ono voz de Tomohiro Nagatsuka
Yûki Kaneko voz de Naoka Ueno
Yui Ishikawa voz de Miyoko Sahara
Megumi Han voz de Miki Kawai
Toshiyuki Toyonaga voz de Satoshi Mashiba
Mayu Matsuoka voz do jovem Shoya Ishida
Próximo filme: "Tracer" (Truy Sat, 2016)
domingo, 22 de abril de 2018
The Eyes of my Mother, 2016
Francisca (Olivia Bond) vive no campo com o pai (Paul Nazak) e a mãe (Diana Agostini). Bastante mais velhos, eles parecem ter tido a menina fora de tempo, quase como se não esperassem já ter filhos. A mãe tinha sido cirurgiã em Portugal. A dada altura decidiu mudar-se para o mundo rural na sua vertente mais solitária na América profunda. Ataca os problemas dos animais com a mesma abordagem clínica com que tratava os seus doentes e não se escuda de o fazer diante da filha. Francisco tem o conhecimento de coisas como o interior do olho humano ou como decapitar uma vaca, detalhes seriam mórbidos e desadequados para qualquer criança. Um dia Charlie (Will Brill), um forasteiro bate à porta da sua casa isolada e assassina de forma brutal a mãe de Francisca. O pai depara-se com o cenário macabro ainda a desenrolar-se e espanca e acorrenta Charlie no celeiro. Francisca traumatizada, curiosa e sem o calor de um pai cada vez mais desconectado e incapaz de lhe mostrar o mundo, refugia-se no que aprendeu com a mãe pelos seus olhos de criança e inicia a experimentação no prisioneiro.
“The Eyes of my mother” é uma longa-metragem de parcos 79 minutos, a preto e branco, dividida em três capítulos: “Mãe”, “Pai” e “Família”. O primeiro capítulo é o mais importante para a formação de Francisca. Entre o amor da mãe que é a sua única fonte de carinho e os ensinamentos desta que incluem a prática clínica e a religiosidade e o ataque sociopata de que esta é alvo, o interior de Francisca é fraturado. Não é como se ela não pudesse já sofrer de tendências para a sociopatia mas não é como se assistir a um crime fizesse por mitigar um desequilíbrio já presente. Ela aborda a morte com uma abordagem clínica, movida por uma psique infantil. Por outro lado, o “Pai”, como evidenciado nesse capítulo, é uma figura presente apenas na forma física. O trauma afectou-o – prender o criminoso à sua sorte, ao invés de chamar a polícia não é o comportamento mais ajustado e deixar que a filha interaja e da forma como o faz com Charlie, revela no mínimo uma atitude displicente – mas a sua mente prefere esquecer o que sucedeu por completo, deixando a menina, para todos os efeitos, órfã de mãe e de pai. Francisca, na sua versão adulta, interpretada pela portuguesa Kika Magalhães sente uma profunda solidão que a faz querer conectar-se com outros seres a todo o custo, constituir uma “Família”, que a faz agarrar-se ao que tem mais perto de si: o assassino prisioneiro e as memórias de uma mãe amada que estão intimamente ligadas à morte e que nunca conseguiu processar de forma saudável.
Kika Magalhães, na sequência de uma Olivia Bond já de si perturbadora, está excelente. Ela imprime uma vulnerabilidade tal na sua Francisca, que as atitudes mais horrendas e que se vão intensificando até ao final anticlimático, desde a frieza do assassinato à impossibilidade de renunciar às suas vítimas já depois de falecidas ou um comportamento sexual desviante são, em certa medida “perdoadas”. Francisca nunca amadureceu em termos psicológicos. A consciência do que é o bem e o mal e do que é socialmente aceitável está danificada de forma irremediável, mas ela nunca demonstra ser motivada por maldade, apenas solidão. É triste e patética antes de temível ou sádica e no entanto, é todas essas coisas. A esplêndida palete de cores – a película está filmada a preto e branco – acentua a solidão e a confusão que se instala no estado mental de Francisca à medida que esta cresce. Teria sido interessante ter visto a psique de Kika desafiada e o seu comportamento desconstruído e nem sempre é credível a forma como Francisca consegue deixar provocar várias vítimas tendo uma aparência tão frágil. Ainda assim, desconcertante, “The Eyes of My Mother” assemelha-se em aparência talvez à obra de um Hitchcock mas a sensibilidade que a inspira pode ser mais rapidamente encontrada no brutal cinema de terror francês. Isto, sem mostrar uma gota de sangue vermelho. Três estrelas.
Realização: Nicolas Pesce
Argumento: Nicolas Pesce
Kika Magalhães como Francisca
Diana Agostini como Mãe
Paul Nazak como PaiOlivia Bond como jovem Francisca
Will Brill como Charlie
Joey Curtis-Green como António
Flora Diaz como Lucy
Clara Wong como Kimiko
Próximo Filme: "A silent voice" (Koe no Katachi, 2016)
domingo, 15 de abril de 2018
The Ritual (2017)
“The Ritual” tem uma primeira hora de filme de excelência. Acerta em todas as notas. O elenco é apresentado de forma destrinçável, sem se alongar demasiado na sua exposição. Ao contrário do que tem sido padrão nos filmes do género dos últimos anos, os personagens não são todos idiotas detestáveis que merecem morrer das formas mais hediondas. São apenas humanos e o motivo que guia a sua acção – concorde-se ou não – é perceptível.
A fotografia – belíssima, diga-se de passagem –, é um elemento fulcral na construção do ambiente de horror permanente a que não é alheio o cenário da floresta imensa mas inerentemente claustrofóbica que evoca um “Descent” (2005), mas com personagens masculinos, com o tom pagão de “The Blair Witch Project” (1999). A par da cinematografia está o trabalho de sonoplastia. Os sons da floresta, com os seus ruídos naturais, seja de pássaros e de outros animais que não vemos, de ramos a partir-se, ou mesmo a total ausência de som, pode ser tão ou mais eficaz que uma composição musical mais robusta. É uma surpresa agradável tanto mais que se tornou um hábito irritante o surgimento de ruídos desarmónicos provindos de violinos ou pianos, quando se pretende provocar saltos na cadeira de uma audiência que está meio predisposta a assustar-se. Existem depois momentos em que a câmara incide somente sobre a paisagem e descobrimos que esta é tudo menos estática. Algo move-se na imagem e, nem temos de ter percebido o que sucedeu num dos cantos do ecrã, para saber, sentir, que existe ali algo que não é natural e não vem por bem ao encontro dos caminhantes.
Sem querer deslindar o vilão de “The Ritual” que é dos seus grandes motivos de interesse, a par de uma cabana onde, bem, quem viu “The Evil Dead” (1981) está mortinho de saber que não se entram em cabanas abandonadas em florestas no meio de nenhures; admitamos que ele é dos mais originais que têm surgido na sétima arte, se calhar não a despeito do orçamento mas por causa deste, que obrigou a equipa técnica a inovar, apenas comparável à fera de “Annihilation” (2018), que provocou reacções de pasmo e pavor em meio mundo.
“The Ritual” é realizado por David Bruckner, o argumentista e realizador dos segmentos que constituíram os pontos altos de “V/H/S” e “Southbound”. Não lhe conhecendo a obra seria difícil adivinhar a sua experiência limitada dado que acertou em tantas notas onde tanto outros realizadores com currículo mais preenchido falham. “The Ritual” perde algum sentido e direcção aquando da exposição do mal que paira sobre a floresta nórdica mas, para quem prefere um ritmo mais veloz, este acelera bastante no quarto de hora final, entrecortado com flashbacks de um subconsciente culpado. Conclusão? Se calhar deviam ter mesmo ido para os copos. Três estrelas e meia.
Realização: David Bruckner
Argumento: Joe Barton e Adam Nevill (livro)
Rafe Spall como Luke
Arsher Ali como Phil
Robert James-Collier como Hutch
Sam Troughton como Dom
Paul Reid como Robert
Próximo Filme "The Eyes of my Mother", 2016
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sábado, 17 de março de 2018
"The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku 2001)
Comédia musical de terror. Se calhar é difícil vender um produto destes. E no entanto, em simultâneo, parece mesmo aquele tipo de produtos que só podiam sair do estranho Japão. “Happiness of the Katakuris” baseia-se na película sul-coreana “The Quiet Family”, realizada apenas três anos antes por Jee-won Kim cuja obra já foi mencionada por diversas vezes (“A Tale of Two Sisters” e “I Saw the Devil”, são alguns bons exemplos). Em “The Quiet Family” uma família proprietária de uma estalagem vê os hóspedes falecer, um após outro, nas circunstâncias mais infelizes. Desta feita, Takashi Miike apresenta os azarados Katakuris que arriscaram todas as finanças da família numa estalagem perto de uma antiga lixeira, com base no rumor da construção de uma estrada ali perto, de caminho para o Monte Fuji, pitadas de animação em stop motion e números musicais inesperados. O boom turístico não se verifica e os poucos hóspedes que por ali passam, acabam por falecer de modo inesperado para a família que decide em conjunto esconder os cadáveres. Se é um morto já é mau para o negócio imaginem dois ou três! Os eventos são narrados por Yurie (Tamaki Miyazaki) o elemento mais novo da família, a neta do patriarca Masao (Kenji Sawada) que observa os seus parentes com o amor inocente de uma criança, sem descurar a evidente excentricidade dos Katakuris. A família é assim composta por Masao, a sua amada esposa e por vezes voz da razão Terue (Keiko Matsuzuka); o filho com um passado de desonestidade Masayuki (Shinji Takeda); a filha divorciada e obcecada pelo amor romântico, a ponto da cegueira infantil Shizue (Naomi Nishida); a sua pequenota Yurie, o avô com acessos ocasionais de mau génio Jinpei (Tetsuro Tanba) e o cão Pochi.
A palavra que melhor descreve “The Happiness of the Katakuris” é: surreal. Inicia-se com uma sequência na qual uma personagem feminina come uma tigela de ramen, da qual sai um querubim em versão demoníaca que a ataca, numa das cenas mais insanas e, curiosamente, terríficas do filme. A cena inicia-se em formato live-action para logo se transformar numa animação stop motion de plasticina, que faz a transição para a vida não tão sossegada e sem intercorrências quanto isso dos Katakuris, a despeito de eles assim o desejarem. A personagem feminina nunca mais volta a aparecer no ecrã mas cedo se percebe que esse não será o acontecimento mais bizarro do filme.
As personagens desatam em cantoria ou prantos desalmados e desafinados nos momentos mais inesperados que ao invés de cómicos parecem desajustados num filme que é ele próprio desajustado dos tempos e das expectativas de quem viu o original coreano. A única constante é o intenso amor entre os membros daquela família apesar de estes serem dotados de uma patologia colectiva que os impede de tomar decisões acertadas. “The Happiness of the Katakuris” quebra algumas regras e Takashi Miike não é inexperiente no que toca à fuga de padrões. A sua carreira é certamente colorida mas “Katakuris” é, no mínimo divisivo. Enquanto posso apreciar o mérito no mix de géneros e de técnicas e sim, a alusão a "The sound of Music" e "Dawn of the Dead" ficam-se pelo fraco a incipiente, acaba por falhar no mais importante: ter sucesso enquanto comédia, quanto mais comédia musical de terror. Duas estrelas.
Realização: Takashi Miike
Argumento: Kikumi Yamaguchi e Ai Kennedy
Kenji Sawada como Masao Katakuri
Keiko Matsuzaka como Terue Katakuri
Shinji Takeda como Masayuki Katakuri
Naomi Nishida como Shizue Katakuri
Kiyoshirô Imawano como Richâdo Sagawa
Tetsurô Tanba como Jinpei Katakuri
Tamaki Miyazaki como Yurie Katakuri
Próximo Filme: "The Ritual", 2017
quinta-feira, 1 de março de 2018
"Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)
“Tale of Tales” é uma película apresentada em estilo mosaico composta por contos tão antigos que precedem os ilustres irmãos Grimm. Essas estórias integram “Il Pentamerone”, obra póstuma do poeta e autor Giambattista Basile do séc. XII, que se situam algures numa Itália imbuída do espírito do estilo Barroco.
“The Queen” – No reino de Longtrellis vive uma rainha (Salma Hayek) infeliz por ser incapaz de gerar um filho. Ao rei (John C. Reilly) basta-lhe o amor de casal mas ela não consegue aquietar aquela dor. Para cumprir o desejo violento de ser mãe, a Rainha convoca uma bruxa que afirma ser capaz de lhe dar o que pretende. No entanto, o preço por perverter as leis da natureza será elevado. Para uma vida nova terá de existir uma morte também.“The Flea” – Um rei despreocupado (Toby Jones) deixa-se toldar pela obsessão com um animal de estimação invulgar: uma pulga. Esta cresce alimentada com todo o seu afecto e até sangue, ao mesmo tempo que negligencia Violet (Bebe Cave), a sua única filha. Após a morte do bicho o rei decide oferecer a mão de Violet em casamento a quem acertar num enigma. Rei e corte ficam chocados quando um ogre é o único a apresentar a solução correta e a pobre rapariga é forçada a casar com ele.
“The Two Old Women” – Em Strongcliff reside um rei (Vincent Cassel) que não consegue aplacar a sua luxúria constante. Um dia ouve uma voz angelical e fica obcecado por descobrir a quem pertence. A voz é de Dora (Hayley Carmichael) uma velha marcada pelas agruras de uma vida de trabalho duro e que tem por única companhia a tola irmã Imma (Shirley Henderson). Quando o rei bate à sua porta, Dora vê a oportunidade de ter por fim a possibilidade de conhecer o outro lado da sociedade, junto à elite, de paixão, riqueza e sem o esforço do quotidiano.
Se algo não faltou em “Tale of Tales” foi ambição. Cada um dos segmentos tem uma estória original, nunca antes adaptada ao cinema; em cada uma existem pelo menos um ou dois actores de peso e os cenários são tão fantásticos – com as ocasionais bestas míticas pelo meio –, que parecem saídos da fábrica de milhões, mais conhecida por Hollywood. A cinematografia e o design de produção, são o que melhor vende o filme. Os cenários são reconhecíveis, desde castelos italianos a bosques encantados e, ao mesmo tempo, estranhos o suficiente para enquadrar “Tale of Tales” no reino da fantasia. O seu calcanhar de Aquiles reside numa montagem trapalhona. É difícil destrinçar aquando da transição entre segmentos e a escolha por cortar certos segmentos em determinados locais também é duvidosa. Em alguns, a narrativa arrasta-se de tal modo que não fosse a beleza do que se vê no ecrã, seria caso para dormitar. Por outro, quando alguns dos segmentos aceleram o ritmo ou partem momentos de revelação cruciais passamos para a estória seguinte. No terceiro acto, quando todas as estórias são por fim interligadas, esse momento é o oposto de climático e é até desnecessário. Os segmentos ainda que não tivessem uma ligação narrativa tinham em comum o tema das obsessões tão fortes que consomem e dilaceram tudo no seu caminho pelo que a opção de reunir fisicamente os diversos reinos é redundante. Todas as personagens principais à excepção de Elias, em “The Queen” são profundamente imperfeitas ou têm graves falhas de carácter. A Rainha é profundamente egoísta e ciumenta. O rei que oferece a filha a um ogre é vaidoso e irresponsável. A própria princesa, com um destino tão triste, de início não é mais do que uma tolinha superficial. O rei de Strongcliff é incapaz de ver além da satisfação dos seus desejos primitivos. Dora não é mais do que o reflexo do rei, mas sob a perspectiva feminina, velha e pobre. E todos têm muito a perder só que não se apercebem até ser demasiado tarde. A vida tem lições de crueldade e contas a prestar com todos eles.
Em poucas obras é tão explícito o lado sombrio dos contos de fadas, como em “Tale of Tales” que nunca tenta ser subtil a esse respeito. Os temas são escuros e a imagética é opulenta e brutal, mesmo quando sob a forma de metáfora, brilhantemente enquadrados pela composição minimalista e desconcertante de Alexandre Desplat. A narrativa baseia-se em contos menos conhecidos de um compêndio na qual constavam os primórdios de uma “Cinderella” ou de uma “Bela Adormecida” que são agora recordados com a nostalgia de quem viu em pequenino os filmes da Disney. Mas ao investir em “The Queen”, “The Flea” ou “The Two Old Women” nunca surge esse perigo de contágio, podendo ser consideradas demasiado pessimistas ou até uma fraude, por quem viveu uma infância repleta de finais felizes. Três estrelas e meia.Realização: Matteo Garrone
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso e Giambattista Basile (contos)
Em "The Queen"
Salma Hayek como Rainha de Longtrellis
John C. Reilly como King of Longtrellis
Christian Lees como Elias, Príncipe de Longtrellis
Jonah Lees como Jonah
Em "The Flea"
Toby Jones como Rei de Highhills
Bebe Cave como Violet, Princesa de Highhills
Massimo Ceccherini como Artista de Circo
Alba Rohrwacher como Artista de Circo
Guillaume Delaunay como Ogre
Em "The two Old Women"
Vincent Cassel como Rei de Strongcliff
Shirley Henderson como Imma
Hayley Carmichael como Dora
Stacy Martin como jovem Dora
Estes e outros contos foram repescados e editados já em 2016 sob o nome "Tale of Tales",se quiserem conhecer um pouco mais sobre a mitologia de Giambattista Basile.
Próximo Filme: "The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku, 2001)
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
"The Tag Along" (Hong yi xiao nu hai, 2015)
Trailer cheio de spoilers. Ver por vossa conta e risco.
Um sucesso estrondoso, na sua nativa Taiwan, “The Tag Along” baseia-se numa história afamada, de final dos anos 90, que se tornou um mito urbano. Segundo reza a história, uma família, assistiu após o funeral de um familiar, a um vídeo no qual viu uma menina de vermelho a seguir o falecido quando este integrava um grupo de caminhantes em passeio por uma montanha. Daí até aos avistamentos se multiplicarem foi um instante, sendo um dos visionamentos mais recentes, se deu quando uma idosa se perdeu numa montanha, tendo sido encontrada cinco dias depois com vida, a contar uma estória delirante sobre uma menina vestida de vermelho.
Em “The Tag Along”, acompanhamos o dia-a-dia de Wei (River Huang) é um agene imobiliário que trabalha duramente para poder casar e constituir família com Yi-chun (Wei-Ning Hsu). Eles são um casal há vários anos, mas chegaram a um ponto crítico da relação. Wei deseja ter uma família tradicional, enquanto Yi-chun parece estar contente com a relação e que esta se mantenha nos termos habituais. Nem o casamento nem a maternidade fazem parte dos seus planos e Shu-Fang (Yin-Shang Liu), a avó de Wei também é fonte de discórdia. Acolher a familiar do namorado seráum obstáculo ao desejo de estilo de vida independente que Yi-chun almeja. O delicado balanço destas relações é colocado em causa quando a avó de Wei desaparece, num paralelismo demasiado evidente com uma lenda local.
“The Tag Along” é um exercício interessante de contenção no retrato da vida “real” dos personagens e de fogo-de-artifício no que respeita à suposta assombração. É-nos permitido perscrutar um pouco mais do que uma espreitadela sobre a vida dos personagens, através da repetição. A avó de Wei de fazer todo o tipo de tarefas que permitam um maior grau de conforto ao neto. Ela acorda-o e prepara-lhe o pequeno-almoço e preocupa-se com ele pois só o quer ver feliz. Sabe que parte da felicidade está em constituir família com Yi-chun. Tenta para isso, provocar oportunidades para os juntar a despeito as reticências desta. Wei tem um horário vai além do que lhe é pedido para conseguir reunir condições para realizar o seu ideário de vida perfeita. Yi-chun é DJ numa rádio e encontra-se com o namorado no final dos turnos que acabou de fazer. Nada de muito excitante para uma classe média tradicional. Estes pedaços de vida são interessantes o para compreender os personagens e criar um elo emocional suficientemente forte para sentirmos a sua falta, quando o meio sobrenatural se introduz nas suas vidas. O elo mais fraco do trio já mencionado ainda assim é capaz de ser o actor River Huang. Wei-Ning Hsu interpreta uma avó capaz de captar a simpatia das avozinhas por esse mundo fora. Já Yin-Shang Liu representa a força vital do filme com um desempenho com camadas suficientes para demonstrar que a sua personagem pode ser mulher forte, independente, feminista e ter os receios de quem já sofreu no passado. A sua personagem perde-se depois no primitivismo do status quo societal tão certo quanto dois mais dois darem a soma de quatro. Sempre, muito bem coadjuvados com uma cinematografia eficaz e incomum entre os seus congéneres. Mas falava de repetições: quando a assombração assola existem variações suficientes no comportamento padrão dos personagens para perceber que algo está errado.
O mal de “The Tag Along” está em que o prelúdio para algo maior é a melhor parte do filme. O primeiro acto que corresponde ao desaparecimento e o segundo que diz respeito à investigação são mais interessantes que o último acto de conflito aberto. A película degenera num melodrama sacarino e efeitos gerados por computador de bradar aos céus. Alguém acha sinceramente que o “Alien” teria metade do encanto se têm mostrado o monstro num CGI manhoso? Porquê é a palavra operativa. Não havia necessidade de abalar o que até ali fora construído, em atmosfera opressiva e mistério de investigação, com efeitos "especiais" para agradar a ensejos de blockbuster. “The Tag Along” tentou, em contraciclo com o recente terror asiático, ser vagamente interessante e, em certa medida, conseguiu.
Realização: Wei-Hao Cheng
Argumento: Shih-Keng Chien
Wei-Ning Hsu como Shen Yi-ChunArgumento: Shih-Keng Chien
River Huang como Ho Chih-Wei
Yin-Shang Liu como Ho Wen Shu-Fang
Po-Chou Chang como Tio Kun
Ming-Hua Pai como Tia Shui
Próximo Filme: "Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
"Exte - Hair Extensions" (Ekusute, 2007)
Trailer dobrado em inglês
Dois guardas portuários japoneses encontram o cadáver de uma jovem estrangeira com o cabelo rapado, num contentor cheio de cabelos humanos destinados à indústria de beleza. Na morgue, a polícia apercebe-se que está perante um caso de tráfico humano, dado que foi feita uma colheita de órgãos da vítima antes da sua morte. Yamazaki (Ren Osugi), um sinistro funcionário da morgue com um fetiche por cabelo, fica fascinado com o mais recente cadáver. Os cabelos da vítima continuam a nascer e brotam das feridas e de outros orifícios do corpo da jovem assassinada! Isto, constitui uma oportunidade para o tricófilo Yamazaki renovar incessantemente o stock de cabelos para satisfazer as suas perversões e de fazer negócio através da venda de extensões para os seus contactos em cabeleireiros. Pelo seu caminho cruza-se Yuko (Chiaki Kuriyama), uma aprendiza no cabeleireiro Gilles de Rais, a quem é imposta a presença da sobrinha Mami (Miku Sato), uma menina que exibe sintomas de abuso, mesmo antes de uma demonstração importante no sítio onde trabalha. A ligação ao cabeleireiro representa amplas oportunidades para os personagens que surgirem no caminho dos cabelos da estrangeira serem afectados pela sua maldição mortal, ainda que a contagem de mortes seja diminuta.
Como já foi tantas vezes retratado no cinema japonês, sendo “Ju-on: The Grudge” (2002), um dos seus expoentes máximos, o rancor de uma morte violenta pode apegar-se a objectos, amaldiçoando-os. Onde entrar na casa desse filme era sinónimo de uma morte breve e violenta, em “Exte” a ira da vítima foi transferida para os cabelos rapados da estrangeira para venda como extensões. Se a vítima não os pode ter, quaisquer outros que os coloquem nos seus escalpes também não!
“Exte: Hair Extensions” é um filme muito desigual. A cena inicial que ocorre durante a noite, na qual é descoberto um corpo mutilado, contrasta por completo com a manhã solarenga e animada que se lhe segue. Após um tom de terror prometedor, eis que os personagens vão debitando informação sobre quem são, as suas motivações e ocupações. A justificação apresentada – também pelas personagens –, para comportamento tão estranho é a imitação de um programa de televisão onde os actores efetuam diálogos expositórios, de forma bastante cómica. Se esses pequenos laivos de comédia são interessantes, também se revelam uma maneira preguiçosa de os argumentistas colocarem toda a informação ao dispôr da audiência, sem se preocupar com coisas tão mesquinhas quanto os comportamentos revelarem, a personalidade das personagens.
Sion Sono é um dos nomes mais bem conhecidos e divisivos do cinema japonês, tendo no currículo obras como “Suicide Club” (2001), “Noriko’s Dinner Table (2005) ou “Love Exposure” (2008) para citar apenas alguns. Diria que desta feita se embrenha totalmente no mundo do J-horror mas, a verdade é que os filmes de Sono têm sempre algo de perturbador pelo que os elementos de horror estão sempre presentes. Note-se por exemplo, o pormenor de o cabeleireiro onde Yuko trabalha se chamar Gilles de Rais. O nome francês pode dar uma aparência chique ao salão mas o nome escolhido corresponde ao de um nobre dos tempos medievais mais conhecido como um assassino em série de crianças. Na mesma linha, existe uma relação tensa e abusiva entre Kiyomi (Tsugumi) e Mami (Miku Sato), a irmã e a sobrinha de Yuko respetivamente. Também existe a sugestão implícita de Kiyomi também maltratava Yuko, maus-tratos que se estendem agora à filha e que porventura, Yuko terá tentado afastar-se da irmã por causa disso. Kiyomi é um monstro, mas não é imediatamente compreensível como é suposto este monstro "real", se encaixa na estória se não para dizer que enquanto Kiyomi tem uma personalidade horrível porque assim o deseja, a desconhecida assim ficou por conta do mal que lhe fizeram. Por seu turno, Yamazaki é um terceiro monstro, não pelo seu fetiche, mas por o colocar acima de tudo, mesmo quando percebe que os cabelos estão na base de mortes horríveis. “Exte: Hair Extensions” perde-se nos muitos hair movies que existem e na própria cabeça de um Sono que não consegue decidir-se por uma narrativa. Vale pelos parcos e inventivos momentos de terror.
Realização: Sion Sono
Argumento: Sion Sono, Masaki Adachi e Makoto Sanada
Chiaki Kuriyama como Yuko Mizushima
Ren Osugi como Gunji Yamazaki
Megumi Sato como Yuki Morita
Tsugumi como Kiyomi Mizushima
Eri Machimoto como Sachi Kondo
Miku Sato como Mami Mizushima
Mayu Sakuma como rapariga estrangeira
PS: Gente gira se quiserem adquirir o DVD deste hair movie clássico ou se tiverem apenas um fetiche com a Chiaki Kuriyama, ebay is your friend.
Próximo Filme: "The Tag Along" (Hong yi xiao nu hai, 2015)
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
"Blade of the Immortal" (Mugen no junin, 2017)
No antigo Japão, durante o shogunato Tokugawa, em que os samurais eram ainda poderosos e respeitados, exercendo uma visão de justiça prisioneira de um código de conduta feudal, surgiu a lenda de um matador de homens amaldiçoado com a imortalidade. Manji (Takuya Kimura) era o samurai mais poderoso de todos e a sua única fonte de humanidade residia apenas na inocente irmã mais nova, que acaba por morrer em face dos pecados de Manji. Ele é amaldiçoado por uma tal de Yaobikuni (Yoko Yamamoto), um ser sagrado que acha que Manji ainda pode ser muito útil dada a capacidade extraordinária com a espada e torna-o imortal através da inserção de vermes no corpo dele. Cada vez que Manji é ferido em combate ou esquartejado, os vermes trabalham em conjunto para juntar os membros separados. Muitos anos depois, cruza-se com Rin (Hana Sugisaki) uma cópia exacta da sua irmã, que viu o pai ser morto por um gangue e a mãe arrastada pelos bandidos para um destino, sem dúvida terrível, mas incerto e lhe pede que a ajude a fazer justiça. A princípio o velho samurai quer que a miúda o deixe em paz, mas a semelhança com a irmã e a terrível injustiça fazem-no pegar novamente na espada para apanhar os bandidos, algo que já não deve fazer há umas boas décadas.
“Blade of the Immortal” é mais uma adaptação live-action de uma mangá japonesa (30 volumes!), por um Miike que é tudo menos estranho no que respeita a adaptações. A narrativa, em torno do tema da vingança é a mais antiga que existe. Miike não reinventa a roda, mantendo-se fiel ao seu estilo. A violência e o gore com umas pinceladas de humor negro nunca o envergonharam e “Blade of the Immortal” não é excepção. Aliás não consigo ver como é que um samurai matador de homens e uma boa senda de vingança não iriam parar ao colo de Miike. A sequência inicial, que termina com milhares de litros de sangue jorrados e que cobrem todo o chão que os personagens pisam é talvez uma das mais marcantes de todo o filme. Não deixa de ficar talvez o sentimento de que Miike apresentou o seu melhor demasiado cedo no filme. Um Manji cego pela raiva, luta com uma paixão e uma destreza que não se voltam a ver! A coreografia certeira e frenética sobretudo dessa sequência faz recordar esforços anteriores de Miike como a louca batalha final de “13 Assassins” (2010).
A partir daí o anti-herói surge apenas enferrujado e trapalhão, a que não é alheia a tendência espectacular de Rin se inserir em situações de perigo sem pensar nas consequências.
Uma ideia interessante ao longo de todo o filme é a de que Manji não é muito diferente de Anotsu (Sota Fukushi), o líder dos vilões que procura. Enquanto, Manji matava indiscriminadamente, Anotsu tem um sentido de direção muito vincado mesmo que tenha uma moral distorcida. Até Rin, supostamente uma criança que Manji não quer com as mãos manchadas de sangue, já pouco de inocente tem, tendo assistido aos actos horrendos cometidos sobre os pais, bem como a morte dos bandidos do gangue. Ela pede a morte de Anotsu e mais nada parece importar do que isso. O seu sentido de missão é imparável tanto que quando Manji hesita, ela insiste em continuar com a vingança mesmo que isso implique que seja ela a empunhar a espada que irá trespassar o coração do monstro. Claro que existe a esperança de redenção mas esse é um caminho que tem de ser sempre trilhado pelo espectador. Ao redor deste trio surgem muitas, demasiadas personagens, com pouco a nada de memorável que servem para desfilar pelo ecrã como vítimas de Manji, quais “camisolas vermelhas” de “Star Trek” e porque são queridas dos fãs da mangá, ainda que ao comum espectador não digam nada. “Blade of the Immortal” pode ser uma adaptação e decerto não é perfeito mas é também Miike igual a si próprio e isso deve bastar. Três estrelas.
Realização: Takeshi Miike
Argumento: Tetsuya Oishi e Hiroaki Samura (mangá)
Takuya Kimura como Manji
Hana Sugisaki como Rin Asano / Machi
Sôta Fukushi como Anotsu Kagehisa
Hayato Ichihara como Shira
Erika Toda como Makie Otono-Tachibana
Kazuki Kitamura como Sabato Kuroi
Chiaki Kuriyama como Hyakurin
Shinnosuke Mitsushima como Taito Magatsu
Próximo Filme: "Exte: Hair Extensions" (Ekusute, 2007)
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
"The Villainess" (Ak-nyeo, 2017)
Conquanto seja um espectáculo visual assistir aos suspeitos do costume desferir golpes em todas as direcções e receber uma centena de pancadas e continuar de pé a despeito dos ferimentos como um Iko Uwais (basicamente toda a sua filmografia) ou, disparar balas em todas as direcções como se fosse um profissional da magia e não da profissão mais violenta deste mundo qual Keanu Reeves, isso já não é tão habitual vindo de uma mulher. De vez em quando necessito de doses de personagens femininas fortes no meu cinema de acção e isso não é assim tão habitual. Os exemplos anteriores masculinos mencionados não serão os melhores actores que a arte da representação já viu mas, nem as mulheres são as flores delicadas que se julgava até não há muito serem. Existem algumas figuras icónicas no género como a eterna Ripley mas esse exemplo é já muito antigo e mesmo a Beatrix Kiddo de “Kill Bill” já remonta a 2003/4). “Salt” não foi além de 2010 e também não se antevê grande história num “Tomb Raider” (2018) com uma Alicia Vikander no seu estilo mais insípido. Eis, que depois de alguns anos de deserto e de um autêntico “Furiosa Show”, onde deixou um Tom Hardy a milhas da sua presença no ecrã, aparece em 2017 uma Theron pronta a tirar partido do ímpeto gerado em “Mad Max: Fury Road” (2015) para se elevar ao estatuto de heroína de acção já que tudo o resto já conseguiu em “Atomic Blonde”.
E como pareceu existir um grito colectivo pelo ressurgimento pelo poder feminino, empurrado pelos novos extremismos de direitas alternativas (revirar de olhos), este teve a concorrência de um “The Villainess” (2017) que surgiu subtil mas foi ganhando tracção por entre cinéfilos além das semelhanças depois encontradas com a congénere ocidental que estreava depois. O chamado “Money shot” parece tirado a papel químico entre os filmes mas não estou aqui a querer acusar ninguém de cópia, até porque “The Villainess” tem muito de emprestado a filmes do próprio país, bem como do próprio género de artes marciais. Enquanto a loura platinada de Theron está fisicamente mais próxima de uma Carly de “The Long Kiss Goodnight” (1996), Ok Bin Kim encarna uma assassina com uma psique mais próxima daquela, enquanto progenitora de uma criança menor mas sem as one liners pirosas. As cenas de acção de “The Villainess” são um híbrido do que melhor se tem feito nos últimos anos no cinema de artes marciais e isso não tem mal nenhum. A sequência inicial, em que uma Sook-hee irrompe por um edifício adentro matando todos e quaisquer que se atravessem no seu caminho, é uma das mais brutais que vi ultimamente e completamente merecedora de todos os prémios pela mestria técnica em particular, o trabalho da equipa de duplos. Se quiserem exemplos, podem remontar a “Oldboy” (2003) ou “The Raid 2” (2014), com um bónus adicional de espectativa na primeira pessoa de um “Hardcore Henry” (2015) que muito mais gente devia ter visto. É de loucos imaginar como alguns daqueles momentos foram capturados pelas câmaras. São dez minutos inteiros de destruição total. Outro momento de acção fantástico envolve uma perseguição de mota que termina com os motoqueiros a esgrimir argumentos… com espadas.
Que tal isto para hype? A narrativa caminha depois para o mais convencional de uma “La femme Nikita” (1990). Jovem e enlouquecida pela morte do seu amado Sook-hee é movida pela sede de vingança até perceber que está grávida do amor que perdeu. Encontrada pela Agência Secreta coreana, a única hipótese de escapar às malhas da justiça (a sua lista de mortes é muito elevada) é tornar-se uma operativa e cumprir escrupulosamente as missões que lhe são apresentadas pela enigmática chefe Kwon (Seo-hyeong Kim), se quiser almejar viver uma vida de liberdade com a filha. É-lhe dada uma nova identidade, uma casa e até surge um novo interesse romântico que lhe dão a aparência de uma vida normal mas em breve o imperativo das missões se tornarão realidade, bem como de uma vingança ainda não sanada. Com pouco mais de duas horas “The Villainess” é traído pela incapacidade genética de não adicionar melodrama que arrasta uma película que tinha iniciado de modo tão promissor mas nada que retire a vontade de assistir a este filme. As analepses que ainda são em número razoável são uma boa adição para a compreensão das motivações da “Vilã”. Falta-lhes, no entanto, a fluidez que se encontra nas cenas de acção, tornando-se difícil distinguir a acção em tempo real dos bocadinhos de história que ajudam a montar o puzzle da personalidade de Sook-hee. Ok-bin Kim está perfeita no papel da assassina rebelde à procura de vingança que se torna uma operacional obediente. Sempre confinada aos papéis que lhe são apresentados e nunca tendo realmente o poder de escolha na sua vida. A única forma de autonomia e de expressão de Sook-hee é apenas na sua forma mais violenta. “The Villainess” é um bichinho complicado e imperfeito com maravilhosas cenas de acção e a sua estrela é uma Ok-bin Kim que já devia estar no radar de todo o mundo. Três estrelas.
Próximo Filme: "Blade of the Immortal" (Mugen no jûnin, 2017
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Better Watch Out, 2016
ALERTA SPOILER: Assistir por conta e risco!
Ashley (Olivia DeJonge) está presa à promessa de tomar conta de Luke (Levi Miller) o filho de doze anos do simpático casal Lerner, uma Virginia Madsen e um Patrick Warburton, nuns papéis secundaríssimos. Ela está quase a partir para a universidade e dão-lhe jeito uns trocos para a nova fase de vida, mesmo que tenha de sacrificar o descanso na época de Natal. Luke tem uma pequena paixonite pela sua babysitter e conta com o apoio de Garrett (Ed Oxenbould) para conquistar Ashley antes de esta partir. Para ela, é apenas mais uma noite de babysitting… Isto é, até se aperceberem que alguém com intenções malévolas está a tentar introduzir-se dentro de casa. Segue-se uma luta contra um inimigo ao início invisível, numa casa da qual não conseguem escapar.
Esta comédia negra revisita grandes clássicos do cinema natalício como “Home Alone” (1990) – este até é mencionado por um dos actores –, não vá alguém não compreender a referência e, acreditem que AQUELA cena não deixará ninguém indiferente, e cruza-o com o tom a tempos perturbador de um “Gremlins” e de um certo outro filme protagonizado por Macauley Culkin que na altura chocou as audiências. Chris Peckover aproveitou ainda a química da dupla de actores DeJonge e Oxenbould que interpretou dois irmãos no também interessante “The Visit” (2015) de um Shyamalan que estava ainda a recuperar a boa forma antes de se sair com o espantoso “Split” (2016).
Numa época em que os cineastas procuram cada vez mais subverter os géneros e conferir originalidade às narrativas, “Better Watch Out” resulta num home invasion atípico. A dada altura os eventos dão uma viragem de 180 graus e o que até ali era uma comédia com toques negros que espicaçavam os limites para a gargalhada, um “espera aí, mas isto tem piada ou já é apenas cruel?”, transita para momentos perturbadores que o enquadram sem sombra de dúvida no género de terror. A mudança foi tão radical que senti o ambiente da sala ficar gélido. Onde antes existiam palmas ou risos nervosos podiam-se ouvir grilos. Para tal, muito contribuiu a interpretação de Levi Miller, com um desempenho natural e by the numbers no primeiro terço de filme, após o que evoluiu para uma capacidade além do que seria de esperar de um jovem daquela idade e com uma carreira ainda relativamente curta, muito bem apoiado por DeJonge e Oxenbould. Seria talvez mais fácil de assistir se os personagens não fossem menores ou se fossem detestáveis mas nem Peckover nem o argumentista Zack Kahn acreditaram que essa fosse a melhor opção e “Better Watch Out” apenas ganha com isso. A película também nunca degenera para a violência gráfica ou gratuita, a que se deve porventura o constrangimento de orçamento, mas o crescendo de tensão e o poder da sugestão fazem um papel mais do que competente a substituir actos de agressão gráficos.
“Better Watch Out” é um dos filmes mais ingratos sobre os quais escrever pois é uma daquelas obras em que queremos gritar aos quatros ventos que vale mesmo a pena assistir sem ceder à tentação de divulgar os detalhes que o tornam tão surpreendente e especial em simultâneo. A minha sugestão? É melhor assistir a “Better Watch Out” com um espírito aberto e, preferencialmente, sem ter visto qualquer trailer. Três estrelas e meia.
Realização: Chris Peckover
Argumento: Zack Kahn e Chris Peckover
Olivia DeJonge como Ashley
Levi Miller como Luke
Ed Oxenbould como Garrett
Aleks Mikic como Ricky
Dacre Montgomery como Jeremy
Patrick Warburton como Robert Lerner
NOTA: Texto publicado originalmente aqui.
domingo, 12 de novembro de 2017
"Deep Trap" (Ham-jeong, 2015)
So-yeon (Kim Min-Kyung) e Joon-sik (Jo Han-seon) são um casal que sofre ainda bastante devido com um aborto espontâneo sofrido anos antes. Joon-sik fechou-se sobre si próprio e passa os dias num martírio diário entre o trabalho e o álcool, deixando So-yeon sozinha. Além do sentimento de abandono, So-yeon ressente-se com a falta de intimidade. Desde o acontecimento traumático que Joon-sik desenvolveu impotência e não dá mostras de a conseguir curar sem apoio. Determinada a salvar a relação ferida e gerar o tão desejado rebento So-yeon decide marcar um dia de férias numa ilha remota de descanso e romance. Lá, encontram um restaurante que é gerido por Seong-cheol, um Ma Dong-seok num papel sinistro e a sua bonita irmã muda Min-hee (Ah jin). Após uma noite de bebidas estranhas e comida gostosa, Seong-cheol faz a proposta indecente a Joon-sik: dormir com Min-hee e recuperar a pujança para ter um filho com So-yeon. Entre os quatro é gerada uma dinâmica desconfortável que é aparente a todos quanto a ela assistem mas, sobretudo para So-yeon e, pela sua parte, quase omissa para um Joon-sik semi-alcoólico.
“Deep Trap” é bastante explícito quanto ao que pretende. O cenário isolado, o par de personagens estranhas que não inspiram total confiança, a série de coincidências que leva a que o casal fique preso no local e propostas inconcebíveis são a mera antecipação do que tantas vezes se viu antes no cinema do género. O filme apresenta algumas cenas de sexo que deixam pouco à imaginação e uma cena de violação brutal a que poderá ser difícil assistir. De igual modo, à boa maneira coreana, há duas ou três sequências de extrema violência e que parecem contrastar com o dramazinho romântico sobre um casal que tenta ultrapassar e reacender a chama da paixão que os minutos iniciais aparentavam prometer. O quarteto de protagonistas, liderado pelo experiente Ma Dong-seok que mais uma vez rouba o protagonismo (vide “Train to Busan”, 2016) e é um dos parcos motivo para que “Deep Trap” não caia na penúria total. Ma Dong-seok encontra nuance suficiente no personagem amoral para ainda assim, encarnar o bronco ignorante que pode ser desculpado pela educação que teve e pouca exposição às boas regras de civilidade. Quase podia ser uma boa pessoa se ao menos tivesse tido acesso às oportunidades que outros têm… isto se conseguirem ignorar os maus-tratos a Min-hee.
O que não será de digestão fácil serão algumas das acções dos personagens. Para sociedades mais liberais comportamentos onde o bem-estar e segurança própria são relegados para segundo lugar em favor de agradar ao “Homem” ou a flor delicada que sofre estoica em silêncio, não são fáceis de entender. No entanto, são elementos indeléveis de culturas patriarcais, como a sul-coreana. Onde os países tendencialmente ocidentais verão fraqueza, os orientais poderão encontrar heroísmo. Mas temo informar que se mantém o padrão tantas vezes visto e iguais vezes criticados em filmes coreanos e japoneses. A síndrome de petrificação e de colagem ao chão continua viva. Onde em situações limite a reacção rápida é essencial, os personagens continuam imóveis, chocados com os acontecimentos. Um exemplo paradigmático sucede quando dois homens combatem corpo a corpo e a mulher de um deles permanece imóvel, sabendo bem que o companheiro poderá perder a luta. É um pressuposto que em filmes de assassinos psicopatas e, como a boa tradição de filmes como um “Friday the 13th” (1980) e suas iterações demonstraram, os personagens devem ter uma boa dose de tontice para que sejam apanhados pelo papão. Gostava contudo, de ver a parte do contrato em que diz que os personagens não devem correr e tropeçar bastante ou mais simplesmente ficar colados ao chão enquanto uma figura malévola se dirige a eles para lhes fazer coisas muito más. Por estes motivos “Deep Trap” torna-se um exercício de concentração para não carregar no botão de stop e para o filme quando os personagens agem de forma tão, mas tão, frustrante, que ficamos a pensar que se o assassino os apanhar não se perde nada ou pior, torcer que o assassino os apanhe para limpar o mundo (do cinema) de tamanha estupidez. “Deep Trap” tem zero de factor surpresa. Um casal de betinhos da cidade fica preso no covil do inimigo e sofre horrores a tentar escapar. Been there done that… and better. Próximo. Duas estrelas.
Realização: Hyeong-jin Kwon
Ji An como Min-hee
Sun-Jo Han como Joon-sik
Dong-seok Ma como Seong-cheol
Min-Kyeong Kim como So-yeon
Próximo Filme: "Better Watch Out", 2016
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