domingo, 23 de setembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte dois

“The Promise” (Puen… Tee Raluek, 2017) - Do argumentista do clássico “Shutter” (2004) e realizador repetente em diversas edições do Motelx (“Laddaland”, 2011 e “The Swimmers”, 2014), chega este filme sobre uma promessa que se mantém além da morte. Boum e Ib são duas adolescentes que vêem os seus sonhos destruídos após o grande crash financeiro de 1997. Para elas a bancarrota significa o fim da vida como a conhecem e decidem suicidar-se no edifício onde tinham acordado viver juntas durante a universidade. Enquanto Ib prossegue com o plano, Boum acobarda-se e torna-se anos depois uma empresária de sucesso com uma filha adolescente, a doce Bell de 14 anos. Entretanto, Ib mantém o intuito de que a promessa seja cumprida nem que isso signifique levar Bell no lugar da amiga para o outro mundo. Não sendo necessariamente original “The Promise” retoma a premissa de alguns filmes coreanos como “A Blood Pledge”, 2009 da série de filmes “Whispering Corridors”. Tem um dos jump scares mais desavergonhados mas eficazes do festivel. Nunca, garanto, nunca mais, vão olhar para as chamadas das vossas mães da mesma forma. “The Promise” utiliza de forma eficaz a crença buddista do Karma sem recorrer ao expediente habitual de exorcismos mas esquece o contexto económico-social para se convencionalizar numa estória de fantasmas. O elenco é competente e é palpável o seu desaproveitamento decorrente do abandono dessa linha narrativa. Demasiado longo torna-se por fim, quase tão penoso quanto a torrente permanente de lágrimas da actriz principal. Duas estrelas e meia.
Realização: Sophon Sakdaphisit
Argumento: Sopana Chaowiwatkul, Supalerk Ningsanond e Sophon Sakdaphisit
Bee Namthip como Boum
Apichaya Thongkham como Bell
Thunyaphat Pattarateerachaicharoen como jovem Boum
Panisara Rikulsurakan como Ib
Deuntem Salitul como mãe de Ib
Benjamin Joseph Varney como Aof


The Tokoloshe, 2018 – Busi (Petronella Tshuma), oriunda de um meio rural vem sozinha para a cidade de Johanesburgo. Ela está marcada por traumas do passado e a necessidade de ganhar dinheiro para remover a irmã daquele meio. Ela consegue emprego como auxiliar de limpezas no turno da noite num hospital quase deserto onde é observada pelo olhar depravado do diretor e possivelmente do Tokoloshe, um demónio originário do folclore zulu que persegue crianças. No hospital conhece Gracie (Kwande Nkosi) uma menina que é perseguida por uma força invisível decide salvá-la. Apesar de assentar numa mitologia desconhecida por grande parte do público Tokoloshe é mais interessante quando é dada ênfase aos monstros pessoais de Busi. O monstro acaba por ser o calcanhar de Aquiles num filme onde o sofrimento da mulher, em particular o da mulher africana é tão visivel. Em todos os personagens masculinos apenas um não tem um olhar invasivo sobre Busi, mas não há qualquer dúvida: ela é tudo menos fraca, ela persiste. Sabemos que houve um acontecimento traumático na juventude de Busi que a marcou e à irmã para sempre. O abuso não lhe é desconhecido pelo que quando o reconhece em Gracie não hesita em tentar salvá-la, no entanto a ligação entre o seu estado mental e a criatura podia ter sido melhor trabalhada. O acosso do monstro é uma alegoria (frágil) para o trauma e é possível traçar um paralelo entre a situação individual de Busi, uma jovem mulher sul-africana e a mulher africana em geral. Sempre uma lutadora e sempre vista como inferior pelo imaginário masculino. Um esforço ainda incipiente mas muito potencial neste novo realizador. Duas estrelas.
Realizador: Jerome Pikwane
Argumento: Richard Kunzmann e Jerome Pikwane
Petronella Tshuma como Busi
Kwande Nkosi como Gracie
Dawid Minnaar como Ruatomin
Harriet Manamela como Ma Zondi
Mandla Shongwe como Baba Zondi
Yule Masiteng como Abel
Coco Merckel como Jakes
Leiden Colbet como Rosie


Pledge, 2018 – Justin, David e Ethan são três estudantes universitários desesperados por se integrarem numa fraternidade. Com competências sociais reduzidas a nulas, integrar uma fraternidade é a única forma de conseguir miúdas e consumir níveis lendários de álcool nas melhores festas dos anos de universidade. Depois de serem recusados por diversas fraternidades são convidados para uma misteriosa casa com ideais espartanos que os aceita como candidatos. Para passarem à fase seguinte terão de passar por uma série de provas questionáveis.  Até onde estão dispostos a ir para ter os melhores anos das suas vidas? “Pledge” é um híbrido de “American Pie” com fraternidades malévolas que vai beber ao subgénero torture porn na sua vertente mais light. Este filme tenta demonstrar a submissão e até dormência da maioria a uns tantos que têm tudo menos os seus principais interesses em mente. A tortura física e psicológica é aceitável e até dada como adquirida por todos pelo desejo de uma recompensa distante. “Pledge” tenta ser um retrato patético do mundo das praxes e da sociedade em geral. Há grupos de pessoas dispostas a sofrer humilhações gritantes para serem acolhidas por uma minoria dominante que nunca os vai respeitar. E quem decide o que são falhados e casos de sucesso? É ser um falhado ter boas notas mesmo que as competências sociais não sejam as melhores? Invertidos os papéis também não podemos ter a certeza de que os subjugados iam ter pudor em tornar-se agressores. A reflexão é demasiado rápida e termina exactamente onde se inicia: no deboche da carnificina. Fica-se pelas boas intenções e destas está o inferno cheio. Estrela e meia.

Realização: Daniel Robbins
Argumento: Zack Weiner
Zachery Byrd como Justin
Phillip Andre Botello como Ethan
Aaron Dalla Villa como Max
Zack Weiner como David
Erica Boozer como Rachel
Cameron Cowperthwaite como Ricky
Jesse Pimentel como Bret
Jean-Louis Droulers como Sam
Joe Gallagher como Ben

Próximo: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte três

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte um

“Cutterhead”, 2018

Rie foi contratada para documentar escavações do metro de Copenhaga. Este é um projecto de cariz internacional e Rie acompanha os trabalhadores para captar esse lado: a grandiosidade do sonho europeu. As primeiras abordagens encontram-se um pouco aquém d desejado dado que o que encontra são trabalhadores que fazem um trabalho muito duro e perigoso para ganhar dinheiro para alimentar as suas famílias. Durante o decorrer dos trabalhos há um acidente e Rie acaba por ficar presa dentro de uma câmara hiperbárica com os trabalhadores Ivo e Bharan da Croácia e da Eritreia. Juntos terão de ultrapassar o pânico, o espaço confinado, o calor, o desconhecido e tomar as decisões mais importantes das suas vidas.“Cutterhead” é muito possivelmente um dos filmes mais claustrofóbicos desde “The Descent” (2005). Os personagens deste filme dinamarquês conhecem-se mal ou mal foram apresentados não existindo uma camaradagem e o espirito de entreajuda existente naquele clássico. “Cutterhead” não perde demasiado tempo com máscaras. As personagens são imperfeitas e até desagradáveis. A pressão da situação faz sobressair o melhor e o pior dentro de si para que conseguiam sobreviver. Se uma equipa de resgate não chegar a tempo quem merece mais viver? Como aguentar tantas horas com desconhecidos, mantendo a visão optimista de que poderão sobreviver quando nem sequer sabem se a equipa de resgate tem conhecimento de que estão vivos? Exercício muito interessante sobre a natureza humana e o seu espírito de auto-preservação. É uma visão negativa do humano e dos seus pontos de pressão. Em última análise mesmo o mais justo poderá tornar-se um pecador, apenas depende da situação. Traz também algumas implicações como o facto de caso os personagens conseguiam sobreviver terão de lidar com as suas acções naquele período difícil. Duas estrelas e meia.
Realizador: Rasmus Kloster Bro
Argumento: Rasmus Kloster Bro e Mikkel Bak Sørensen
Kresimir Mikic como Ivo
Samson Semere como Bharan
Christine Sønderris como Rie


“One cut of the dead” (Kamera o tomeru na!, 2017)

Produtores de um novo canal de televisão contratam um realizador desconhecido para a dirigir o programa de estreia da grande première do canal. O objectivo é exibir em directo um filme de zombies realizado num único corte. “One cut of the dead” é um filme com diversas camadas. É uma sequência de 37 minutos que consiste na comédia zombie “One Cut of Dead” que é feita num único corte, isto é, um filme dentro do filme e é ainda uma abordagem meta ao mundo do cinema com todas as suas idiossincracias ao acompanhar os bastidores da realização daquela sequência. É muito interessante acompanhar o argumento da estória bem como todos os respetivos acidentes de percurso. Aquela parte invisível que é capaz de ditar o sucesso ou o desastre do filme. Entre estas encontram-se o actor que pensa que é a estrela à volta da qual o filme se desenvolve, actores incapazes de separar a vida pessoal da profissional, o realizador que pretende mostrar ser um profissional sério e criativo mas acaba por ser um capacho tarefeiro dos produtores ou o convencional actor-método. “One cut of the dead” menos sobre zombies do que sobre cinema. Os amantes de cinema vão adorá-lo, mas argumento é inteligente e divertido o suficiente para não só não alienar o resto do público como o atrair. Muito provavelmente - perdoem-me a aposta - o filme mais divertido da edição de 2018 do #motelx e sim, estou a excluir o musical de comédia zombie em pleno Natal que dá pelo nome de “Anna & the Apocalypse” e ainda um dos melhores do certame de 2018. O público concordou tendo-lhe atribuído o seu Prémio para a presente edição. Quatro estrelas e meia.
Realização: Shinichiro Ueda
Argumento: Shinichiro Ueda
Takayuki Hamatsu como Director Higurashi
Yuzuki Akiyama como Chinatsu
Harumi Shuhama como Nao
Kazuaki Nagaya como Ko
Hiroshi Ichihara como Kasahara
Mao como Mao


“Satan’s Slaves” (Pengabdi Setan, 2017)

De Joko Anwar, realizador já conhecido nas lides do Motelx com o seu “Forbidden Door” (2009) é uma incursão nas estórias de fantasmas. Decorre nos anos 80, na pior altura da vida uma família: a morte de uma mãe. Após alguns anos de paralisia e alheamento do mundo Mawarni (Mayu Laksmi) morre deixando o marido, 4 filhos e a sogra. Desde o seu falecimento que os filhos, os mais novos sobretudo têm sentido uma presença estranha, como se a alma inquieta da sua mãe não tivesse chegado a abandonar a casa. O pai toma a decisão de partir durante algum tempo para os sustentar e impedir que percam a casa deixando os filhos entregues a si próprios, sob a liderança da filha mais velha Rini (Tara Basro). É nessa altura de fragilidade extrema que se faz acentuar a suspeita de assombração bem como surgem os fantasmas do passado. Se não totalmente original é pelo menos competente fazendo lembrar em certa medida as sagas “Insidious” e “Annabelle”, nos fortes laços familiares; no lar que seria o local mais seguro como ponto focal da assombração e nos jump scares. Onde os anteriores se apoiam no catolicismo, “Satan’s Slaves” tem um foco claro no islão, uma abordagem refrescante num género saturado pela já por demais conhecida iconografia católica ocidental. Se a dupla de irmãos mais velhos serve o papel de condução de investigação pelos meandros do oculto e do passado negro da família é a dupla menor, Bondi (Nasar Annuz) e Ian (M. Adhiyat) que impressiona na interpretação credível de irmãos, nas sequências mais aterradores, como também no alívio cómico. Precisava porventura de limar algumas arestas, como o corte de cenas desnecessárias como a final e que conta até com uma breve aparição de Fachry Albar, estrela de “Forbidden Door”. Três estrelas.
Realização: Joko Anwar
Argumento: Joko Anwar, Sisworo Gautama Putra, Naryono Prayitno, Subagio S. e Imam Tantowi
Bront Palarae como Pai
Tara Basro como Rini
Endy Arfian como Tony
Dimas Aditya como Hendra
Nasar Annuz como Bondi
M. Adhiyat como Ian
Ayu Laksmi como Mãe
Egy Fedly como Budiman
Arswendi Nasution como Ustadz
Elly D. Luthan como Avó

Próximo: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 - parte dois 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"Blood Curse" (Coisa Ruim, 2006)



Ah, como é bom o sonho de ter uma grande casa no campo e viver o resto dos dias na paz e no sossego em comunhão com a natureza. Para a família Monteiro esta premissa não é inteiramente verdade nem é, se calhar, verdade para a maioria dos seus elementos. Xavier (Adriano Luz) um professor universitário decide mudar-se com a mulher, os filhos e um neto, para uma aldeia, no município português de Seia, após descobrir ser o único herdeiro de um tio afastado. Esta mudança constitui para ele uma oportunidade já a pensar na reforma e de se libertar da azafama da capital lisboeta. A mulher Helena (Manuela Couto) apoia-o com algumas reservas. Os filhos é que não parecem estar muito contentes com a falta de acesso ao mundo exterior, em particular, o filho mais velho Rui (José Afonso Pimentel). Sofia (Sara Carinhas), a filha adolescente é já mãe de um bebé, do qual recusa identificar a identidade paternal e aparenta uma maior resignação, preferindo passar despercebida.


A família Monteiro descobre com alguma rapidez que ao herdar a casa estão a herdar também os seus fantasmas, que as gentes da terra alimentam com o habitual mix de folclore com religião temente a Deus. Isto é uma delícia para a mente cientifica de Xavier que apesar de céptica deseja sorver todas as histórias a seu redor. Já Helena começa a ficar cada vez mais reticente quanto à mudança dado que as histórias, sobretudo as que são contadas pelos caçadores e pelo padre da terra começam a confundir-se com eventos estranhos na casa que agora habitam. Esses eventos consistem sobretudo ruídos e outros indícios que podem ter explicações mais terrenas pelo que a aceitação de uma assombração pela família é um pouco complicada de aceitar. Necessitavam sem dúvida mais uma ou duas sequências dessa natureza para reforçar a crença do sobrenatural.
“Blood Curse” aborda motivos comuns nas histórias de casas assombradas, o pai que arrasta uma família relutante para um local para onde não quer ir; uma atitude estranha por parte dos locais; acontecimentos estranhos que dividem a família; a profunda divisão no que toca a permanecer no local em que se investiu ou regressar à proveniência; a dicotomia ciência vs. folclore/religião, entre outros. As interações desta família disfuncional são talvez um pouco mais cuidadas e escapam aos vícios da escrita-preguiça, como a existência de um trauma relacionado com uma morte na família ou um divórcio. A família Monteiro tem isso sim, um grave problema de comunicação. Existe um pacto de silêncio implícito no que se refere à gravidez da filha do meio, fazendo aparentar a quem esteja no exterior a observá-los que reina a paz no seu seio. Existe uma alusão à possibilidade de incesto, mas esta é rápida e nunca volta a surgir deixando a resposta para a nossa imaginação embora, em certos casos é preferível deixar algumas pedras por revirar.
O filme tem uma qualidade onírica que é enfatizada pela câmara desfocada umas quantas vezes a mais para ser mero descuido, tentando talvez significar o cruzamento da realidade com a história da casa e, na verdade, daquela localidade. Essa qualidade é depois desfeita sem cerimónia num final apressado e, a bem dizer, atabalhoado, onde é gritante o parco orçamento. Além disso, volta a reforçar o filme junto dos seus conterrâneos com todos os clichés que isso implica. Mais uma vez o drama humano é relegado para segundo plano dando lugar a um final insatisfatório, mas mais convencional.
As maiores virtudes de “Blood Curse” residem em deixar a natureza da assombração deliberadamente vaga quase até ao final dos seus parcos 97 minutos e no facto de não insistir nos sustos de sobressaltos repentinos. No entanto, o percurso sinuoso deixa adivinhar que o argumentista Rodrigo Guedes de Carvalho não sabia como chegar ao final ou não tinha a real certeza do que queria fazer com ele, o que é uma pena dado o caminho trilhado até ali. Duas estrelas e meia.

Realização: Tiago Guedes e Frederico Serra
Argumento: Rodrigo Guedes de Carvalho
Adriano Luz como Xavier Oliveira Monteiro
Manuela Couto como Helena Oliveira Monteiro
Sara Carinhas como Sofia
José Afonso Pimentel como Rui
João Santos como Ricardo
José Pinto como padre Vicente
João Pedro Vaz como padre Cruz
Miguel Borges como Ismael

Próximo Filme: Buppa Rahtree, 2003

domingo, 19 de agosto de 2018

"The Lies she Loved" (Uso wo aisuru onna, 2017)


Com uma carreira de sucesso invejável numa empresa de desenvolvimento de refrigerantes e um namorado gentil que trabalhava na área da pesquisa médica e acomodava todos os seus caprichos, ela tinha tudo. Depois deixou de ter.
Cinco anos antes Yukari Kawahara (Masami Nagasawa) conheceu Kippei Koide (Issey Takahashi) após uma situação de emergência que obrigou à evacuação do metropolitano em que ambos seguiam. Ela estava a ter uma crise de ansiedade e ele sobressaiu da multidão anónima para a ajudar. A mulher dedicada à carreira abriu o coração e não olhou para trás até ao dia em que a polícia lhe bate à porta, pedindo informações sobre o namorado. Kippei teve uma hemorragia cerebral e encontra-se em coma mas tiveram grande dificuldade em chegar a Yukari pois, como descobriram, a identidade de Kippei é falsa. Yukari Kawahara entra numa rota descendente. À negação, ao sentimento de que tudo não passa de um terrível engano passa à resignação de saber que Kippei – será mesmo esse o nome dele? –, a pessoa com quem partilhou cinco anos de intimidade, lhe mentiu, até chegar por fim, à revolta. O facto de a polícia não ter resposta para as muitas perguntas que tem e, enfim, assumirem apenas que Kippei é uma fraude que utilizou Yukari para ter comida e um tecto dado que era ela que pagava as contas, leva-a a contratar um detective privado Takumi Kaibara (Kotaro Yoshida), para desvendar a verdadeira identidade de Kippei.
Masami Nagasawa é a estrela de “The Lies she loved”. Ela interpreta um papel para qual flui naturalmente simpatia. “A mulher enganada”; “a pobre mulher ingénua que deu tudo de si numa relação para ser traída por um traste”; são as primeiras e óbvias linhas de pensamento mas Masami foge a isso. Ela interpreta uma mulher vitimizada pela revelação no entanto, não intrinsecamente uma vítima. A sua personagem não é perfeita. Naqueles cinco anos Yukari foi tudo menos a namorada exemplar o que não quer dizer que não seja digna de respostas. Ela recusa-se ceder à dor e aposta na fuga para a frente. Quer saber a verdade aconteça o que acontecer e custe a quem custar, mesmo sabendo que Kippei pode nunca vir a acordar ou poderá ter sequelas muito graves.
O argumento de Kazuhito Nakae é inteligente e maduro. As personagens são tridimensionais e os seus motivos são bem trabalhados. Nada é tão simples quanto um: “ele enganou, ela é enganada, ela confronta-o, cada um segue o seu caminho e todos são felizes para sempre”. Em primeiro lugar porque a personagem de Yukari é uma feminista com a opção de vida muito clara de ter uma carreira de sucesso e uma relação romântica. Se calhar tem até algum medo do compromisso, o que vai sendo desvendado através de decisões dúbias que toma ao longo da relação. Estas personagens, pelo menos no cinema japonês são mais tipicamente associadas aos intérpretes masculinos. Onde é que já se viu uma mulher segura de si própria que tem um trabalho de sucesso e uma relação e o cônjuge é que trata da lida da casa? Por outro lado, Kippei Koide sobressai como mais do que uma alma ferida que um aldrabão com um coração de pedra. Ele é votado de uma sensibilidade extrema que advém de um passado misterioso mas não é nenhum capacho. É como se através das analepses, que são bastantes, Nakae quisesse demonstrar que a fotografia é tão simples como é apresentada. Nem Yukari é um anjo e ela até surge como um bocado egoísta – por vezes a personagem parece mais interessada em manter o retrato mental que tem da sua relação do que em melhorá-la de facto. O argumento dá espaço a outras personagens como o detective Kaibara, um pouco distraído e desorganizado como um Colombo japonês que tem direito a um subenredo aquém do esperado e que se desenlaça de forma bonitinha ou a lolita Kokoha (Rena Kawaei) com uma paixão por Kippei mas tão limitada que nunca representa um verdadeiro obstáculo. O objectivo e a meta está na relação romântica de duas pessoas como o cenário intimista não se cansa de mostrar.
Vai soar a cliché mas o mais importante em “The Lies she loved” é o caminho e não o destino. A recompensa reside em acompanhar a viagem de Yukari na vida real, pelo Japão para trazer para a luz do dia os segredos que a polícia não colocou a descoberto e a sua viagem interior que a faz perceber quem é enquanto pessoa, mulher e parceira e o que pretende para a sua vida. Três estrelas.
Realização: Kazuhito Nakae
Argumento: Kazuhito Nakae
Masami Nagasawa como Yukari Kawahara
Issey Takahashi como Kippei Koide
Kôtarô Yoshida como Takumi Kaibara
Daigo como Kimura
Rina Kawaei como Kokoha

Próximo filme: "Blood Curse" (Coisa Ruim, 2006)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Colaborações #8

Fui convidada a participar com a proposta de um filme no ciclo de comemoração de dez anos de "My Thousand Movies", que iniciou como "One Thousand Movies", atualmente é o "My Two Thousand Movies" e, desconfio muito, no futuro "My Three Thousand Movies".

Se passeiam pela blogosfera cinéfila desde então, com certeza já conhecem o blogue pelo que dispenso a apresentação e passo diretamente ao filme.

Até finais de Agosto muitos mais filmes passarão por este ciclo pelo que proponho que vão lá fazer uma visita e quiçá, passar uma temporada. Bons filmes!

domingo, 8 de julho de 2018

"Annihilation" (2018)


Unsettling. Esta palavra pode ser entendida na língua portuguesa como inquietante ou perturbadora. Ainda assim, perde a força na tradução. Como se as palavras não conseguissem suportar em toda a dimensão o desconforto que se pretende apontar. Unsettling tem sido uma das palavras mais repetidas nas últimas semanas, aqui como na imprensa internacional a respeito do filme “Hereditary”(2018). É a segunda vez que a aplico num espaço de três meses a respeito de um filme, depois de “Annihilation”. Curiosamente, (ou talvez não), estão ambos no meu top 5 de filmes de 2018, sendo que descrever qualquer um deles como um filme de terror é apenas redutor.

“Annihilation” é a adaptação do primeiro capítulo da trilogia literária “Southern Reach” de Jeff Van derMeer, que acompanha uma expedição de cientistas à Área X. Onde antes se encontrava um parque natural está agora uma região isolada envolvida por espécie de campo electromagnético conhecido como “The Shimmer” ou “O Brilho”. Apesar das similitudes com um “The Simpsons Movie” (2007) ou a obra “Under the Dome” de Stephen King mas as referências não se ficam por aqui seja na temática ou no estilo. “Blade Runner” (1982) “Under the Skin” (2013) flutuam à mente. 

Têm sido enviadas sucessivas expedições científicas e militares para explorar uma zona chamada Área X mas até ali nenhuma das missões voltou a comunicar com o exterior. Lena, interpretada por uma fria Natalie Portman, é uma professora de biologia e ex-militar ainda a lidar com a dor do desaparecimento do marido Kane (Oscar Isaac) após este partir numa missão – adivinharam – à Área X. Um dia ele surge como por magia em casa de ambos. A alegria do regresso mistura-se à certeza de que Kane já não é a mesma pessoa que partiu. Determinada a compreender o que sucedeu a Kane e salvar o marido de uma maleita súbita que se abate rápida e furiosa sobre ele, Lena junta-se a uma expedição feminina de cientistas à zona misteriosa. A equipa inclui a Dra. Ventress, (Jennifer Jason Leigh) uma psicóloga pragmática com um segredo; Anya (Gina Rodriguez), Shepard (Tuva Novotny) e Josie (Tessa Thompson), especialistas em diversas áreas do conhecimento com passados sombrios e motivos muito próprios para encetarem uma viagem ao desconhecido da qual poderão não regressar. Escusado será dizer que após entrar em “The Shimmer” já não estão no Kansas. Tudo é igual e em simultâneo diferente. Para citar um cientista: “na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E mesmo as próprias cientistas, cuja percepção do tempo também se encontra difusa sentem a permanente transformação. Imaginem o Brilho como uma grande liquidificadora onde animal, planta ou o minério se misturam e são cuspidos com uma nova forma. A esse respeito refira-se uma das criaturas com um dos designs mais originais e aterradores que surgiram em cinema ultimamente, a par de um “The Ritual”. Ambos com orçamentos muito modestos para os resultados apresentados. Durante vários dias, não se falava de outra coisa nas redes sociais, se não, naquela CENA. Naquela besta. Claro que podemos falar de aberrações mas também podemos falar de evolução. Porque no Brilho é como se estivessem num novo planeta, e numa nova atmosfera há novas regras. Não serão as cientistas, o elemento estranho? Não serão elas as aberrações? A própria banda-sonora acentua a sensação de estranheza à medida que os instrumentos de percussão dão lugar a sintetizadores. O orgânico, natural, dá lugar ao que é artificial, alvo de intervenção externa.

Alex Garland retoma em “Annihilation”, temas que já o obcecavam em “Ex Machina” (2014), como o que significa ser humano e como é que essa humanidade se manifesta. Incidentalmente, as personagens, que identificamos enquanto humanas e sabemos serem humanas, parecem desconectadas de tudo e quando demonstram sinais de humanidade não é bonito o que se vê. Lena em particular representa o Homem com todas as suas idiossincrasias. Ela é profundamente egoísta e é por isso que decide incorrer na Área X. Ela sente uma tremenda culpa e sente que se fizer aquilo, irá expiar o seu pecado e ter um final feliz. Um dos maiores pecados de “Annihilation” encontra-se nas sucessivas analepses e prolepses, com exposição desnecessária sobre os motivos de Lena e o seu apetite por auto-destruição, que nos é repetido e insinuado ínfimas vezes bem como o relato na primeira pessoa dos eventos que ocorreram na Área X a terceiros. Ainda assim, “Annihilation” incorre onde poucos foram antes e tiveram sucesso. Estranho pode ser bom. Quatro estrelas.
Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland e Jeff VanderMeer (Livro)
Natalie Portman como Lena
Benedict Wong como Lomax
Oscar Isaac como Kane
Jennifer Jason Leigh como Dra. Ventress
Gina Rodriguez como Anya Thorensen
Tuva Novotny como Cass Sheppard
Tessa Thompson como Josie Radek

Próximo Filme: "The Lies she Loved" (Uso wo Aisuru Onna, 2017)

domingo, 20 de maio de 2018

"Tracer" (Truy Sat, 2016)


“The Tracer” é um filme de acção e artes marciais vietnamita de 2016, que resulta em parte dos fundos bolsos da gigante produtora e distribuidora coreana CJ Entertainment que está cada vez mais interessada no cinema florescente daquele país. 
Esta película tem por foco uma agente policial, a Major An (Truong Ngoc Anh), implacável na sua perseguição aos bandidos e consegue manter uma aparência espectacular enquanto o faz. Ela é também irrequieta e irreverente o suficiente para ignorar as ordens do seu superior Minh (Vinh Tuy) e iniciar as hostilidades antes de chegarem reforços. Numa dessas ocasiões, a Major acaba por provocar a morte acidental de um elemento importante do gangue criminoso dos Lobos. O chefe dos criminosos Loc Sui (Lamou Vissay) e a sua irmã e noiva do falecido Phuong Lua (Maria Tran) iniciam então uma persecução a An, que só poderá cessar com a morte ou captura de uma das partes.
Assisti a este filme quando me encontrava a várias milhas de altitude. Encontrei alguns filmes que raramente se encontram por estas paragens e decidi dar-lhe uma hipótese. Quando acabei o visionamento tinha a forte sensação de déjà vu. Regressada a Portugal, fui pesquisar informação adicional sobre o filme e encontrei algumas alusões à qualidade e até inovação de “The Tracer”. Isso surpreendeu-me pois nada podia estar mais longe da verdade. Parecia até conversa de marketing.
Na verdade, tinha visto e escrito há uns anos sobre “Clash” (Bay Rong, 2009), com uma Veronica Ngo que estaria ainda longe de imaginar que iria entrar no Star Wars: Episode VIII - The Last Jedi (2017) e muito pouco mudou desde então. O argumento continua tão incipiente como na iteracção anterior e talvez até pior. A comparação entre os elencos também não deixa margem para dúvidas. Em 2009, existia, apesar de tudo, uma tentativa de elevar o material. “The Tracer” é toda uma série de erros atrás uns dos outros, a começar na personagem principal. Truong Ngoc Anh tenta interpretar uma espécie de agente do bem, fria e inamovível na sua busca por justiça mas provocar mais sensação pela incapacidade de representação enquanto as próprias acções da personagem também a tornam pouco simpática. A Major tem um irmão mais novo portador de deficiência a quem quer a todo o custo proteger mas a isso não a faz ter cuidado com a sua própria vida quando, se ela falecer, o jovem ficará sozinho no mundo. Existem ainda alguns outros agentes do seu lado, por curiosidade, todos homens, sendo que uma boa percentagem destes surge com alguma frequência de tronco nu. Não seria difícil adivinhar que dispõem de uma boa forma física, sendo um filme de artes marciais mas, isso só torna “The Tracer” gratuito. A tudo isto não é alheio o facto de o cinema do país estar sob o escrutínio de censores do regime mas enquanto “The Tracer” pouco terá de ofensivo para o regime tem tudo para as audiências. Para um filme do século XXI, financiado por um conglomerado gigante, a estória parece tirada a papel químico dos filmes de acção série B, dos anos 90. Isto parece deliberado: dá a impressão que o cineasta Cuong Ngo se limitou a seguir as referências que tinha enquanto subestima a audiência que entende por pouco sofisticada e capaz consumir com voracidade tudo o que tiver para lhe apresentar.
"Olhem só para a minha cara de acção!"
Os vilões continuam a ter a capacidade fantástica de disparar uma quantidade infindável de tiros sem acertar em ninguém – excepto na pontual perna ou braço dos heróis – para demonstrar que eles são de carne e osso e cenas. Há perseguições com motorizadas, lutas corpo a corpo com chapéus-de-chuva (bem giras até), combate entre mulheres com roupas sexy e alguma destruição de mobiliário. E mesmo assim, é uma grande seca. Desculpem o lapso de julgamento. Para a próxima tentarei selecionar melhor o cinema de alta altitude. Uma estrela e meia.
Realização: Cuong Ngo
Argumento: Nguyen Thi Nhu Khanh
Truong Ngoc Anh como Major An An
Thien Nguyen como Kien Lang Tu
Lamou Vissay como Loc Soi
Vinh Thuy como Truong Phong Minh
Cuong Seven como Ong Trum
Maria Tran como Phuong Lua
Hieu Nguyen como Dau Bac
Marcus Guilhem como Hai San Quyen

Próximo Filme "Annihilation", 2018

domingo, 6 de maio de 2018

"A Silent Voice" (Koe no Katachi, 2016)


“A Silent Voice” que também é conhecido internacionalmente como “Shape of Voice” – vi esta animação poucas semanas depois de o “The Shape of Water”, na MONSTRA e acreditem que a minha cabecinha teve de fazer um rewind para não confundir as coisas – foi um dos maiores êxitos de bilheteira no Japão em 2016, baseado, para não variar, numa manga japonesa. O sucesso do filme não será alheio a factores como um certo despudor para o visionamento do cinema de animação por públicos mais adultos e ainda ao tema tão pertinente no país como o “bullying”. Os casos de bullying são transversais à sociedade japonesa. A cultura do pensamento colectivo, do silêncio do desconforto individual produzem vítimas em idades tão jovens desde o jardim-de-infância à universidade, transpondo-se depois para o mercado de trabalho.

“A Silent Voice” tem um início deprimente. Shoya (Miyu Irino) faz os preparativos para a sua morte anunciada e resolvida no seu âmago. É um rapaz calado e anti-social que passa despercebido e também não pretende ser notar. Mais vale evitar conflitos. Não raras vezes, veremos Shoya a olhar para os pés, querendo evitar qualquer contacto visual e rodeado de pessoas com uma cruz sobre os seus semblantes. São as pessoas a ignorar, não conectar, a todo o custo evitar. O seu comportamento transporta-nos para a escola primária. Dir-se-ia que ele tinha sido alvo de bullying ao longo de toda a sua existência. Na verdade ele começou por ser um. Quando Shoko, uma nova aluna surda chegou à sua aula, o então inquieto, barulhento, sem noção e incapaz de transmitir os seus verdadeiros sentimentos Shoya faz dela o alvo principal das suas partidas. Essa história tem um fim quando Shoko acaba por ser transferida para outra escola por não aguentar mais os abusos. Censurado por professores e colegas, Shoya acaba por se tornar vítima do seu próprio veneno, retirando-se para o seu interior, onde tudo é mais suportável até se tornar um jovem adulto. No entanto, o seu caminho volta a cruzar-se com Shoko e a sua família, os velhos amigos que lhe dificultaram a vida e ainda outros que permitem a Shoya encontrar o verdadeiro valor na sua vida e se sempre haverá a possibilidade de expiação de pecados.

Esta animação tem menos de espectáculo que de introspecção. Não me entendam mal, que a animação é tão competente e belíssima quanto costuma ser regra no cinema japonês, a abordagem é que se foca mais na narrativa que na forma. “A Silent Voice” revela-se uma reflexão interessante sobre o bullying pois foca diversos pontos de vista, incluindo um central que não é tão habitual que é o de quem comete bullying, ainda que Shoya seja um bully arrependido. Entre as diversas questões que a animação levanta, estão, por exemplo: até quando se deve carregar o fardo da culpa por eventos cometidos há muitos e muitos anos. Shoya era um miúdo imaturo e parvo quando fez mal a outra criança e acabou por sofrer a vida toda por isso. Contudo, Shoya não era o único a fazê-lo e acabou por ser o único a ser castigado. Mesmo após diversas trocas de argumentos já em jovem adulto com os colegas, esses continuam a não querer aceitar que tiveram um papel activo no bullying de Shoko recriminando-a até pelo seu sofrimento e do de Shoya. Duas vezes vítima. Serão eles melhores que Shoya quando nunca assumiram as suas acções erradas e acabaram depois por fazer o mesmo a Shoya quando este foi “apanhado”? “A Silent Voice” é conducente a uma reflexão ainda mais pessoal do espectador, pela sua própria experiência enquanto vilão ou vítima em situações similares. Será Shoya uma figura trágica digna de empatia ou é ainda e sempre um monstro? Perdoar? Esquecer? Tudo isto é tão mais amplificado quão doce é a sua vítima Shoko. Apesar de tudo quanto lhe aconteceu nunca foi capaz de “lutar” contra Shoya por quem sente carinho.
Em comum entre todos os personagens está o profundo desejo de conexão, aquele que tão desesperadamente se procura durante toda a juventude e até eventualmente pela vida adulta fora. É ainda um retrato muito realista das desventuras da juventude pois a acção nos locais que se identificam com ela, na escola, em casa, na rua, no parque, na feira popular… É muito difícil não apreciar o mérito de reprodução daqueles momentos tão fulcrais na construção da personalidade, de “A Silent Voice” mesmo quando este se torna tão histriónico quanto a vida interior adolescente e até um poucochinho demais delicodoce. Três estrelas e meia.

Realização: Naoko Yamada
Argumento: Reiko Yoshida, Yoshitoki Oima (manga) e Kiyoshi Shigematsu
Miyu Irino voz de Shôya Ishida
Saori Hayami voz de Shoko Nishimiya
Aoi Yûki voz de Yuzuru Nishimiya
Kenshô Ono voz de Tomohiro Nagatsuka
Yûki Kaneko voz de Naoka Ueno
Yui Ishikawa voz de Miyoko Sahara
Megumi Han voz de Miki Kawai
Toshiyuki Toyonaga voz de Satoshi Mashiba
Mayu Matsuoka voz do jovem Shoya Ishida

Próximo filme: "Tracer" (Truy Sat, 2016) 
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