“O que é isto? Uma cópia do meu querido “Shall we dance?” com o eterno galã Richard Gere e a Jennifer Lopez?” Antes que comecem a hiperventilar, deixem-me que vos diga, com toda a seriedade, que o filme original é japonês e que se o remake americano não chega a igualar o primeiro é uma homenagem bastante respeitável. Há motivos que não se conseguem replicar e a primeira nota é a de que não há como traduzir o tradicionalismo japonês, num país liberal. Tímido, mas liberal. À velha maneira dos contadores de estórias, diz-nos uma introdução que o Japão é um país muito tradicional. Os japoneses não têm por hábito demonstrar intimidade em público é embaraço, humilhante até. Assim, se uma carícia pode ser severamente reprovada pelos olhares mais conservadores da sociedade, as danças de salão constituem um escândalo. Homens a abanar as ancas? E uma mulher que permite que o seu parceiro que nem é o seu o par romântico encoste o seu corpo ao delas é impensável.
Refeito da convulsão que a beleza lhe provocou, Shohei enche-se de coragem para conhecer a jovem. A sua busca leva-o ao lugar mais improvável de todos, uma escola de danças de salão. Com dois pés esquerdos, timidez e embaraço quanto baste, Shohei aventura-se no mundo da dança esperando conhecer Mai (Tamyio Kusakari). E quando a conhece percebe que ela está dedicada à arte da dança, sendo impossível qualquer tipo de aproximação. Mas Shohei não desiste, algo lá dentro se quebrou e ele descobre um conforto que não conhecia há muito. A aventura ainda agora começou. Poderá esta aventura resistir ao preconceito? À desaprovação dos seus pares?
“Shall we Dance?” encontra uma doçura que muitos filmes perderam. É honesto, inocente e escapa ao lugar-comum do drama-romântico. Por que terão todos os filmes de desembocar num rapaz mais rapariga é igual a “e viveram felizes para sempre”? Não pode a mãe, com uns quilitos a mais, amorosa e dedicada vestir o papel de heroína? E Shohei é o homem de meia-idade imperfeito que não é nem herói de acção nem um personagem secundário. O actor principal está muito bem rodeado pelos secundários como Tomio, interpretado pelo sempre exagerado e teatral Naoto Takenaka. Neste caso, o exagero resulta na perfeição sendo que os momentos de comédia estão quase sempre a cargo dele. Ainda mais curiosa é a dualidade do seu papel, um funcionário de escritório que se esforça por ser comedido durante o dia e é um bailarino de danças latinas com uma peruca espalhafatosa durante a noite. Tomio já aprendeu como se divertir. Torna-se de certo modo, um segundo professor para Shohei que poderá assim descontrair e divertir-se. O que é mais importante afinal? Uma imagem recatada ou a felicidade? Talvez um pouco longo para os padrões ocidentais, “Shall we Dance” é fluído, como o são os movimentos das danças de salão apresentadas pelos melhores profissionais. E o enredo não tem nada de distante da realidade, com personagens com que nos podemos identificar, pessoas que fazem os possíveis por ultrapassar a monotonia e melhorar a sua qualidade de vida. Absolutamente delicioso. Dançam? Três estrelas e meia.
Realização: Masayuki Suo
Argumento: Masayuki Suo
Koji Yakusho como Shohei Sugiyama
Tamyio Kusakari como Mai Kushikawa
Naoto Takenaka como Tomio Aoki
Próximo Filme: "The Detective 2" (B+ jing taam, 2011)