domingo, 14 de dezembro de 2014

"The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)


“Que raio é que acabei de ver?” foi a primeira reacção após o termino do filme. Para meu e vosso mal, esta única frase não serve como crítica de cinema e explica muito pouco pelo que vou forçar-me a tentar extrair um sentido coerente desta película japonesa.
“The Sylvian Experiments” abre com uma cena em que pacientes do que aparenta ser um hospital são submetidos a uma experiência bizarra que envolve brocas, cérebros expostos e choques eléctricos. A cena seguinte revela que afinal estes acontecimentos já sucederam há algum tempo e é agora um casal quem assiste aos eventos sobre a forma de documentário. Talvez seja um daqueles registos históricos um pouco aborrecidos que convém não ser exibidos ao grande público durante muitos e muitos anos, se é que o serão de todo. Eis que Etsuko (Nagisa Takahira), a mulher do casal, se apercebe que as duas filhas menores assistiram (a que parte, não se sabe ainda) ao filme. O que é assim um bocado chato.
Por fim (e calma que não passaram sequer dez minutos), temos um grupo de estanhos que seguem numa carrinha que estaciona num local isolado, junto a uma floresta. O que vão eles fazer perguntam vocês? Snifar umas linhas de coca? Uma orgia? Jogar Trivial Pursuit? Não. Fizeram um pacto suicida. Fixe. Por esta altura já terão dando uma pancada seca na cabeça e estarão a censurar-me pela sobre-exposição. Mas não, ainda não sabem nada. Miyuki (Yuri Nakamura) uma das raparigas que desistiu de vier era uma das crianças que apanharam os pais a ver filmes porcos (sangue e miolos, entenda-se), como tínhamos visto uns minutos antes e agora a outra, Kaori (Mina Fuji) está perturbada com o desaparecimento da irmã e decide armar-se em pseudo detective. Ela fala com a polícia, pernoita na casa dela, contacta com o namorado desta e nos intervalos alucina com luzes brilhantes. A partir daí o significado desvanece-se numa névoa. “The Sylvian Experiments” é pois uma daquelas bestas ambíguas que levantam mais questões do que apresentam respostas e polarizam opiniões. Herdeiro de “Ringu” (1998), “Ju-on” (2000) e outros sucedâneos mais antigos, “The Sylvain Experiments” afirma-se como um animal diferente. A ligação com um objecto como intermediário na ligação entre o mundo espiritual e o dos vivos (uma casa ou um telefone, por exemplo), não é visível mesmo que aborde, como sempre, os temas da vida e sobretudo da morte. Um caminho possível seria a exploração do sulco lateral do cérebro, também conhecido como a fissura de Sylvius, que lhe confere, afinal o titulo anglo-americano mas este território é logo afastado. Entre as piores ideias também não se encontraria o enfoque no sentimento de perda de Kaori trilhando a infância das duas irmãs, a relação difícil com a mãe e o evento que motivou o seu distanciamento. No entanto, até esta linha de pensamento é estéril.
O mais próximo de um vislumbre de significação advém da obsessão de uma médica com a vida após a morte (mini flashback de “Martyrs” de 2008). Se bem que até esta nunca esboça um motivo para a obsessão. O resto do elenco está ainda mais perdido. Miyuki poderá ou não ser uma suicida relutante e Kaori que afirma desejar encontrar a irmã não se parece importar com os avanços amorosos do namorado desta. Como não surgissem respostas, quer do rumo da investigação quer, mediante o recuso à analepse para fornecer algum insight para o desejo mórbido de Miyuki em pôr termo à própria vida, resta uma Kaori apagada. A personagem de Mina Fuji é capaz de ser a personagem feminina mais fraca desde a estreia do primeiro Ringu, já lá vão 16 anos. Isto, a despeito de ela ser apresentada como a única luz num quotidiano cinzento. A realização opta pelos tons cinza no que se refere ao resto do mundo, mas irrompe de cor quando Kaori interage com os outros. Com ela o mundo ganha cor. Mas até aqui os apontamentos de cor são pessimistas, pois a cor privilegiada para enfatizar o contraste é o encarnado, longamente associado em cinema com a morte. Fuji precisa de toda a ajuda que lhe possam dar pois Kaori marca os momentos mais enfadonhos da pelicula. Kaori é uma detective que pouco faz de concreto. Se a início colabora com a polícia, logo se esquece deles perante uma primeira pista. Alia-se de modo cego ao namorado daquela e sem pudor acede às investidas amorosas deste. Ela é ineficaz, ele é ineficaz, a polícia é ineficaz. São todos ineficazes juntos. Um possível drama familiar descamba numa teia difícil de descortinar, com estórias de vampiros, virgens suicidas, recordações de meninice agridoces e alucinações que são atirados a eito para o caldeirão. E o final não é mais que o embuste típico dos cobardes. “The Sylvian Experiments” mais se assemelha à confluência de dois ou 3 argumentos que por si só se calhar tinham mais poder que a amálgama que daí resultou e que carecia de uma edição séria. Lamento não conseguir alcançar na sua total extensão a significação que me era pedida mas confesso que me perdi a meio da aborrecida viagem. Duas estrelas.

Realização: Hiroshi Takahashi
Argumento: Hiroshi Takahashi
Yuri Nakamura como Miyuki
Mina Fuji como Kaori
Nagisa Takahira como Etsuko

Próximo Filme: "The Protector" (Tom Yum Goong, 2005)

domingo, 7 de dezembro de 2014

“NAFF – Not a Film Festival”- parte 1 ou, um GPS dava jeito!



Já tinha dito que queria ir. Mas entre compromissos, chuva, frio, sonos retardados e alguma preguiça vá, fui adiando. Era domingo à noite (21 de novembro) e feita corajosa fiz-me à estrada. Foi ali para os lados de Benfica, num Turim que não é visitado o suficiente e não tem rede telefónica. Quem precisa disso numa sala de cinema?! A chegada foi uma aventura. Na minha melhor demonstração de incompetência em sentido de orientação e apesar de já lá ter passado umas quatro vezes, fui incapaz de chegar à sessão “Not a Film About Us” a tempo. Percorrer a estrada de Benfica à noite e ao frio é uma experiência fascinante mas não tanto quanto teria sido ter assistido às duas sessões a que me propus. Felizmente não ia em trabalho, como uma jornalista a sério, se não levava uma reprimenda do chefe! Assim, quedei-me pel’ “A Máquina”, que apresenta um velho barbudo e engenhocas, grande cientista autodidacta desconhecido do nosso tempo; uma “Emília” que descobre a jovem rebelde e revoltada que há em todos nós (que permanecemos em Portugal), a “Fúria” de miúdos cujos pais deverão pensar algo como “antes levarem nas trombas num ringue” do que andar na rua na vadiagem e “A Remissão Completa” sobre a redenção de um incorrigível.
“A Máquina” é um mix de qualquer coisa cómica com qualquer coisa de desconcertante. Todos têm um “louco” na sua vida. Aquele género de pessoa que é meio exagerada e meio genial e tivesse ela apoio (recursos humanos e materiais – não falemos de dinheiro por aqui), quem sabe que resultados podiam advir daquela loucura metódica? O avô deseja construir uma máquina que crie uma energia eternamente renovável. Ele admite que talvez nunca venha a conseguir alcançar o seu objectivo e que enquanto possuir a faculdade mental e vigor físico a busca incessante irá manter-se. As suas confissões meandram entre a paixão pela verdade e o afastamento da solidão. “A Máquina” revela-se pois o exercício mais forte, mais intimista, afinal é dedicada a um avô, numa sessão onde se esperava que o cenário mais próximo dos corações se encontrasse na desolada “Emília”. Após um documentário melancólico “Emília” não parece procurar a esperança. À semelhança de muitas outras jovens, ela encontra-se desempregada e desesperada com a situação financeira. Com uma mãe doente e com as mais recentes perspectivas de emprego goradas, a independência não passa de uma miragem. A isto não ajudam as estórias de outros mais bem-sucedidos e “amigos” condescendentes. Se ela quisesse podia ter um trabalho, tem é de se sujeitar. Depois surgem os rebeldes com uma causa, que lhe dizem para lutar contra o sistema, por um destino melhor. Porque parecerá toda esta sucessão de acontecimentos uma encenação? Já o vimos demasiadas vezes? Ou é “Emília” a jovem que podia ser anónima mas não é e representa todos esses jovens anónimos desesperados uma película sem alma? Em 15 minutos, Emília encontra dentro si a força para a ruptura. O que a compele para uma marcha lenta, inútil e sem quaisquer efeitos práticos contra forças que auxiliam a manutenção do status quo mas o representam. Lutar contra canhões com uma pena, hã? “Fúria” descreve o quotidiano de miúdos de um bairro pobre que entre as brincadeiras de rua descarregam a energia no boxe. É uma coisa positiva estão a ver? Dá aos miúdos um objectivo e afasta-os da realidade brutal da rua. Praticam um desporto, adquirem disciplina e descarregam a bílis. Está implícito. É um retrato. E ficamo-nos por aí.
 “Remissão Completa” completo com uma alusão ao cancro é uma estória em tons de rosa. Um homem odioso, daqueles que têm tudo menos um coração perde a razão de ser quando perde a mulher para um cancro. Ele retirava tudo a quem tivesse de ser, para seguir as ordens rígidas, cegas do banco para o qual trabalhava. Um dia, uma das suas vítimas diz-lhe algo que ressoa dentro dele. Como umas palavras ecoam dentro de um corpo oco é um enigma mas é o que acaba por suceder depois do Karma fazer das suas. O mal que lançou para mundo é-lhe agora devolvido. Perde a mulher que amava – notem que no inicio ele está numa discoteca a beijar uma mulher que poderá não ser a esposa –, passa a viver num quarto arrendado com uma velha senhoria (pobre coitado) até que um dia encontra a hipótese. Não, o desejo, da redenção numa boa acção. A moral da estória não é a de que “um Homem pode mudar” mas a de que se cometer um acto altruísta resultante de um desejo egoísta: “se eu fizer uma boa acção, eu poderei ser melhor logo, terei uma boa vida novamente”, isso, não é censurável. E para concluir o facto de ele se ter tornado uma pessoa melhor, ele necessita de narrar aquilo por que passou a um amigo de infância. Narcísico no mínimo. A grande vitória do pouco que tive oportunidade de assistir nesta sessão “Not a Film About Us” foram as ideias havidas e não necessariamente o modo como foram retratadas. Duas estrelas e meia.

Curta-metragem #1: “A Máquina”
Realização: Mafalda Marques

Curta-metragem #1: “Emília”
Realização: Diogo M. Borges
Argumento: Diogo M. Borges

Curta-metragem #3: “Fúria”
Realização: Diogo Baldaia
Argumento: Diogo Baldaia e Manuel Rocha da Silva


Curta-metragem #4: “Remissão Completa”
Realização: Carlos Melim
Argumento: Frederico Ferreira

Próximo Filme: "The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)

domingo, 30 de novembro de 2014

"Rigor Mortis" (Geung Si, 2013)

Aviso: O trailer tem spoilers

Chin Siu-ho é um actor acabado que decidiu alugar um apartamento para pôr termo à vida de modo tranquilo. O seu plano é prejudicado quando se apercebe que o apartamento já tem a sua própria assombração e esta tem um plano muito próprio sobre o que fazer com ele. Yau (Anthony Chan) é o dono do restaurante do rés-do-chão cuja fachada descontraída (ele anda a passear pelos corredores de robe), esconde um caçador de vampiros retirado mas ainda atento a manifestações sobrenaturais. A tia Mui (Nina Paw) é uma costureira e boa samaritana, que passados tantos anos de matrimónio continua ainda profundamente apaixonada por Tung (Richard Ng). A sua morte vai obrigá-la a tomar uma decisão que vai contra todos os princípios por que sempre se regeu. Gau (Chung Fat) é um perito no oculto que a despeito dos anos de experiência decidiu enveredar pelo caminho das artes negras de modo subreptício.  Yeung Fang (Kara Hui) é uma vizinha que poderia passar por um fantasma pois vagueia pelo prédio destroçada por uma dor invisível. O seu filho albino Pak (Morris Ho) entra e sai dos vários apartamentos com a aquiescência dos vizinhos que o reconhecem já como parte integral da vida do prédio.

“Rigor Mortis” é uma homenagem aos filmes de fantasia e comédia sobre vampiros saltitantes produzidos em Hong Kong nos anos 80. Juno Mak, se calhar mais conhecido no ocidente pela interpretação arrepiante em “Revenge: A Love Story” estreia-se como realizador e ó, se impressiona. Ele terá aproveitado todos os bons contactos e as excelentes críticas advindas de “Revenge: A Love Story” do qual também foi argumentista e captou grandes artistas dos filmes que homenageia (Chin Shiu-ho e Richard Ng) e ainda lendas como Nina Paw e Kara Hui, esta última se calhar injustamente mais conhecida pela habilidade no Kung Fu do que pelas fortes qualidades dramáticas. Os aspectos técnicos de “Rigor Mortis” são qualquer coisa de fantástico. A fotografia é belíssima, os efeitos digitais idem, a banda-sonora pejada de notas dissonantes (ainda que exageradas uns quantos decibéis) demonstram a inquietação que perpassam aqueles corredores e a câmara e actores parecem unidos no objectivo de comum de fazer daquele prédio um local perturbador. A luz é inexistente. Apenas existem as paredes e as estórias que lá se passam. Qualquer alusão ao mundo lá fora não é mais do que uma memória dolorosa: divórcios, morte, abuso... Ficar ali é a escolha de um falso conforto. Daí os filtros azuis e cinzentos. Mas a “vida” ali assenta num equilíbrio instável. A quebra da falsa ilusão de segurança pode advir da fonte mais improvável. Quando a violência ocorre, quase sempre é sem censura. Ainda assim é mais comedido que outros filmes que têm saído de Hong Kong nos últimos anos como o “Tales from the Dark –Part 1” (2013). As imagens digitais mais parecem composições de artistas que forem eles próprios influenciados pela vaga de filmes tailandeses à semelhança de “Body #19”. Filmes esses que não se transcendendo na qualidade do storytelling ficam na retina pelas imagens fabulosas que geram. Estas similitudes também não são alheias ao facto de Takashi Shimizu (“Ju-on”, 2000) ser produtor do filme. Atente-se às duas irmãs capazes de rivalizar com as gémeas assustadoras de “The Shining” (1980).
O Este encontra o Oeste
Mais adiante, somos brindados com artes marciais, herança dos filmes que Juno tentou homenagear, pondo Kara Hui e Chin siu-ho a mostrar que o tempo não fez esquecer a mestria no kung fu, em breves mas brutais sequências de luta. A dada altura Chin sui-ho e o seu oponente mais parecem soldados de terracota, cobertos que estão por lama e pó. Soldados rígidos, resistentes ao tempo. No entanto, a sensibilidade artística não transborda na estória. “Rigor Mortis” como o corpo cadavérico leva o seu tempo até adoptar uma forma rígida. As estórias não se entrecruzam por completo até transposto metade do filme. Então, fica a sensação de que se tentou fazer demais. Seriam precisos todos aqueles personagens? Algumas das suas estórias não acrescentam nada ao cerne da questão, arrastando-se mais do que o necessário. Em última análise, “Rigor Mortis” reduz-se à admiração pelo espectáculo visual pontuados aqui e ali pelas interpretações fantásticas de uma parte do elenco. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Recuperação dosubgénero esquecido do “Vampiro Saltitante”.
- Fotografia, efeitos gerados por computador
- Interpretação fabulosa de Nina Paw
- O realizador é inexperiente? Não dei por nada.

O pior:
- Ritmo lento
- Desfecho
- Estória demora a arrancar
- Cenas de artes marciais poderão parecer desenquadradas do filme que vinham a acompanhar

Realização: Juno Mak
Argumento: Lai-yin Leung e Philip Yung
Chin Siu-ho como Chin Siu-ho
Anthony Chan como Yau
Kara Hui como Yeung Feng
Nina Paw como Tia Mei
Ricard Ng como Tio Tung
Morris Ho como Pak
Chung Fat como Gau

Próximo Filme: NAFF 2014 (vários)

domingo, 16 de novembro de 2014

"Happy Birthday to Me" (1981)


A blogger que mais amam completou X primaveras em Novembro (não estavam mesmo à espera que dissesse quantos aninhos fiz, pois não?) e decidiu que a melhor forma de comemorar esse grande evento seria procurar um filme retro, de preferência sobre um aniversário – que esta pessoa não tem jeito para metáforas –, e chorar para o ecrã enquanto assiste a algumas mortes originais (à época). Como tal e bem poderão inferir, a semi-ausência desta excelsa pessoa deveu-se a estar a fazer “coisas”, aka há vida além do computador e filmes para ver sobre os quais nunca irão ler uma linha escrita por mim.

De facto, de há uns tempos a esta parte, esta pessoa tem-se entretido a recuperar alguns clássicos americanos (incluindo Canadá), nomeadamente ente o final dos anos 70 e inícios dos anos 80 (“Halloweeen”, Tourist Trap”, “Black Christmas”, The Funhouse”, por aí fora). Enfim, os anos que verdadeiramente importam, no que toca ao subgénero slasher americano e redescobri duas questões: que os filmes eram tão mais divertidos na altura e as mulheres eram ainda olhadas com uma visão ingénua. Talvez uma bomba sexual, talvez uma frágil donzela mas, raramente uma assassina. Insólito para um blog que faz vida da desmontagem do mito da descabelada que sai de aparelhos eléctricos e mata as suas vítimas de susto.

“Happy Birthday to me” segue a fórmula quando esta ainda nem sequer era identificada como tal. Uma heroína frágil, um grupo mais ou menos extenso de jovens que irão sofrer uma morte horrenda e um assassino com requintes de malvadez. Para quem aprecia o género pouco mais se exige, não é? Ginny Wainwright, interpretada por Melissa Sue Anderson que tenta descolar-se da sua personagem em “Little House on the Prairie” (1974-1983) pertence à elite de jovens ricos da Academia Crawford que se auto-denominam “Top Dez”. Ela esteve uns anos afastada devido a um evento traumático no passado. Quando os amigos começam a ser assassinos por um desconhecido, as memórias dolorosas que tinham recalcado são despoletadas. Segue-se um jogo de interrogações: é Ginny a culpada ou não? Se não, quem será? Porque se não, a realização está a fazer um esforço tremendo para que todos os caminhos vão dar a Ginny…

Sendo um clássico “Happy Birthday to me” acerta em todas notas habituais excepto na da nudez. Quase um dado adquirido, nos filmes anteriores e nos que lhe seguirem em “Happy Birthday to me” o expoente máximo de marotice é quando Etienne (Michel-René Labelle) rouba umas cuecas do quarto de Ginny. O cinema americano alimentando o sonho de stalkers desde sempre. O elenco é deliciosamente terrível. Ver adultos a interpretar adolescentes hormonais com as falas mais pirosas de sempre é aquilo de que são feitos os sonhos tecnicolores dos anos 80. É isso e os penteados e roupas datados. E tentar imaginar o que terá acontecido com as carreiras daqueles actores após o filme. Tirando um Matt Craven reconhecível, a obscuridade e a idade ocupou-se de todos eles. Apesar de datado “Happy Birthday to Me” é tudo quanto se poderia esperar de um slasher. O assassino é elusivo e algumas mortes são interessantes. Ter pena de "miúdos" que pertencem a um clube de elite que personifica tudo o que está mal com a sociedade contemporânea é para fracos. De destacar uma morte que faz recordar o incidente mortal infeliz de Isadora Duncan, o pior pesadelo de um halterofilista e ainda a cena icónica que teve direito ao poster clássico do filme, “morte por uma espetada”. A ideia é bastante superior à concretização mas que é inventivo, isso, ninguém pode negar. De referir que, com um bom número de personagens para matar, o filme é sempre abrir. Para os habituados ao género “Happy Birthday to Me” não assustará mais do que as criancinhas que espreitam pela primeira vez por entre a fresta de uma porta para descobrir o que é o “terror” e porque é que os mauzões dos pais não a deixam assistir àquilo. Vale mais pelo jantar diabólico final, onde um plano maléfico é revelado, com o velho crime passional com laivos de complexo de Electra e muito mimo à mistura a constituírem o motivo, enquanto se entoa a solitária canção: “Parabéns a mim”...

O melhor:
- Mortes inventivas
- Segue fórmula slasher à risca (se gostarem disso claro)
- Faz-nos suar para tentar perceber quem é o assassino.

O pior:
- Reviravolta final
- Datado


Realização: J. Lee Thompson
Argumento: John C. W. Saxton, Peter Jobin e Timothy Bond
Melissa Sue Anderson como Virginia “Ginny” Wainwright
Glenn Ford como Dr. David Faraday
Lawrence Dane como Hal Wainwright
Sharon Acker como Estelle Wainwright
Frances Hyland como Mrs. Patterson
Tracey E. Bregmam como Ann Thomerson
Jack Blum como Alfred Morris
Matt Craven como Steve Maxwell
Lenore Zann como Maggie
David Eisner como Rudi
Lisa Langlois como Amelia
Michel-René Labelle como Etienne Vercures
Richard Rebiere como Greg Hellman
Lesleh Donaldson como Bernadette O'Hara

Próximo Filme: "Rigor Mortis" (Geung si, 2013)

domingo, 2 de novembro de 2014

"The Theatre Bizarre", 2011


Em finais do século XIX abriu em Paris o “Grand Guignol”, um teatro dedicado à encenação de experiências de terror naturalistas. À época, os efeitos “especiais” eram tão realistas que provocavam reacções na audiência como o desmaio ou o vómito. Com o advento da Segunda Grande Guerra as audiências começaram a escassear, até que por fim o teatro bizarro fechou as portas de vez. A vida real era afinal mais horrenda que a ousada encenação parisiense. “The Theatre Bizarre” é pois uma homenagem à História do “Grand Guignol”, onde sete realizadores tentam recriar uma noite deste teatro do horror sob o conveniente formato de antologia.

“Enquadramento” - A jovem Enola Penny (Virginia Newcomb) sente-se fascinada com um antigo teatro abandonado. Um dia, ela atreve-se a entrar no edifício devoluto e descobre que os actores estão bem vivos e dispostos a interpretar um último show. O espectáculo conduzido pelo fantoche humano Peg Poett (Udo Kier) apresenta-a a um mundo de bizarrias… Seis estórias: para ser exacto.

“Mother of Toads” – Obcecado com o “Necronomicon”, um livro raro sobre o oculto, um casal percorre o cenário bucólico francês em busca de uma pista deste. Lá, deparam-se com uma idosa demasiado disponível para lhes dar as boas novas que anseiam. Sucedem-se um abandono, um engano e uma traição. Talvez tenham sido as forças mágicas que escondem os segredos do livro que os encontraram.

“I Love You” – Um casal demonstra que do amor ao ódio a distância é pouca. Axel (André Hennicke) começa a enlouquecer à medida que as suas neuroses e paranoias de traição se revelam reais e a esposa cruel o levam a um comportamento destrutivo.

“Wet Dreams” – Um Homem (James Gill) inquieto conta ao psiquiatra os pesadelos recorrentes que o atormentam. No mundo dos sonhos, a sua esposa (Debbie Rochon) é uma sádica que retira prazer da sucessiva mutilação e humilhação do marido. Como se vem, mais tarde a perceber, as causas do sonho podem ter que ver com os seus próprios esqueletos no armário.

“The Accident” – Mãe (Lena Kleine) e filha (Mélodie Simard) têm uma conversa sobre um dos temas que mais aterrorizam um pai: a morte. Em viagem, cruzam-se com o acidente que provocou uma vítima. As questões inevitáveis da menina levam a mãe a contar-lhe de modo franco mas delicado o significado da morte.

“Vision Stains” – Uma toxicodependente (Kaniehtiio Horn) com uma escolha de droga peculiar. Ela está obcecada com as memórias e imagens das outras pessoas e pretende absorvê-las. Descobriu o modo prefeito de as preservar, injectando o fluído ocular das suas vítimas nos seus próprios olhos.

“Sweets” – Se alguma vez houve uma relação disfuncional ela é a de Estelle (Lindsay Goranson) e Greg (Guilford Adams) que vivem para o maior dos pecados: a gula. A sua relação está um caos e Greg continua a humilhar-se, empanturrando-se para a delícia de Estelle. Mas isso não chega para saciar a namorada. A relação só poderá resultar se o já obeso Greg se sacrificar.

Entende-se “Bizarria” por “característica do que é estranho, grotesco ou incomum”. Ora como fãs de terror que somos (se não são, façam-me a vontade), sabemos como é complicado encontrar uma longa-metragem de terror original. Mesmo que se decomponha o género de terror em subgéneros como “gore”, “psicológico” (admito que a definição deste é dúbia), “assassínio”, “monstros” e “paranormal” afirmar a diferença é tarefa difícil se não mesmo impossível. Se tudo já se fez, então o que poderá ser considerado de facto “bizarro”? Pelas propostas de definição apresentadas, “incomum” não será, pelo que resta a possibilidade de “The Theatre Bizarre” se poder identificar com estranho ou grotesco.

sábado, 1 de novembro de 2014

TCN 2014: Nomeados Artigo de Cinema


Somos o chamado nicho. Não apelamos a muitos mas também não é preciso porque não somos todos iguais nem gostamos todos do mesmo. O que vemos, isso sim, é um artigo descontraído, despreocupado até, sobre as heroínas que nos inspiraram a criar este espaço entre Monstros. Cada novo ano, cada novo gosto, cada nova partilha, cada nova menção, demonstram que pequeninos só de tamanho, que devemos ser grandes nos corações de alguns. Obrigada.

NOTA: As votações estão disponíveis no Girl on Film. Não se esqueçam de visitar o nosso artigo e o dos outros nomeados antes de tomar uma decisão. (Mas se escolherem a nossa selecção de scream queens não nos chateamos nada). Poderão ainda encontrar toda a informação sobre nomeados e votações aqui.

domingo, 19 de outubro de 2014

"Invitation Only" (Jue Ming Pai Dui, 2009)


Wade Chen (Bryant Chang) é o motorista de Yang (Jerry Huang), o presidente de uma grande empresa sediada em Taiwan, o qual inveja com todas as forças. Ele tem tudo o que o preguiçoso Chen gostaria de ter: rios de dinheiro, uma namorada supermodelo e carros de luxo. Um dia, Wade é apanhado a observar Yang a ter relações com Dana (Maria Ozawa) e este responde com um convite insólito. Wade é convidado a participar numa festa exclusiva onde pela primeira vez tem contacto com a vida da elite. Lá, ele explora ao máximo aquilo com que apenas poderia sonhar: jogar as apostas mais altas, conviver com os famosos, uma noite com Dana e até, a oferta de um carro desportivo. Parece bom demais não é? 
Só entra com convite
Wade e outros convidados são atraídos para uma sala onde descobrem que a sua presença ali faz parte de um plano malicioso. Eles foram convidados para constituir a sobremesa (figurativa) dos seus anfitriões. Aquilo é um jogo e eles não são os jogadores. Foram atraídos para a festa para os ricos e poderosos poderem dar azo à suas fantasias mais sádicas.
A senda de Wade encontra eco no próprio filme. “Invitation Only” é um primo invejoso das películas de torture porn. “Saw”, “Hostel” e outros que tais, são a óbvia inspiração de um filme que se apresenta com o slogan de “1.º Slasher Originário de Taiwan”. O engenho complexo de um e a luta de classes do outro são subaproveitados e amalgamados numa única noite de tortura. As classes baixas são humilhadas. Apresentadas como falsas e invejosas, visto que até encarnam entidades falsas para se enquadrar entre os ricos. Como se isso fosse importante. Note-se que é suposto odiarmos os ricos por brincarem com os indesejáveis pobres que são odiados apenas por pertencerem a uma determinada condição social. A qual, se calhar, nem sequer é controlada por eles. Mas tal é o argumento para que a audiência mantenha os níveis de adrenalina elevados. 

“Invitation Only” está cheia dos lugares-comuns do género pelo que afirmar que “Invitation Only” se desenrola na Europa ou na Ásia, é indiferente. No máximo, os actores asiáticos são tão maus ou piores que os actores originais que pretendem emular. Quase nunca algum dos personagens se assemelha a uma pessoa real pois, todos eles parecem, sem excepção, autênticas bestas. Isto leva-nos a questionar se tal não será, de certo modo, uma protecção dos argumentistas. Como se criar sentimentos pelas pessoas que irão morrer de forma horrenda fosse provocar aflicção junto das audiências. O que eles não sabem é que a simpatia pelos personagens pertence à fórmula que nos faz gostar de um filme. O orçamento é diminuto, os diálogos são atrozes, as personagens caricaturas e poucos aparentam saber o que estão a fazer. Apenas os momentos de tortura são eficazes embora, até esses, não sejam nada de original ou brutal por comparação com os procuram imitar. A cena de sexo gratuito com a actriz pornográfica Maria Ozawa também é capaz de agradar a quem gosta do seu terror com um pouco de erotismo. Mas se o motivo for a actriz, não há por que não ver directamente um “filme” dela a sofrer através do primeiro terço de filme para lá chegar. 
“Invitation Only” é como um convite indesejado. À primeira vista, o convite parece aliciante e alinhamos até que percebemos que fizemos asneira e é tarde demais. O filme é um desperdício de tempo e quando olhamos para o relógio chegamos à conclusão que já vimos metade. É impossível desistir agora. O fim? O terror da possibilidade de uma sequela. Uma estrela.

Realização: Kevin Ko
Argumento: Sung In e Carolyn Lin
Bryant Chang como Wade Chen
Maria Ozawa como Dana
Julianne Chu como Hitomi
Kristian Brodie como Warren
Jerry Huang como Presidente Yang
Vivi Ho como Holly

O melhor:
- As cenas de tortura
- Maria Ozawa (quando está calada)

O pior:
- Imita filmes que já não são muito bons e ainda faz pior
- Argumento é tão ridículo que darão por vós a rir-se da improbabilidade das situações
- Consegue ser um tédio


Próximo Filme: "The Theatre Bizarre", 2011
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