domingo, 25 de janeiro de 2015

"Macabre" (Rumah Darah, 2009)

Grupo de amigos dá uma boleia a uma mocinha. O que poderia correr mal?

Estreado em Portugal por ocasião do MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa em 2009, que se encontrava ainda apenas na 3.ª Edição, “Macabre” apresentou-se como uma das melhores obras saídas do prolífico cinema indonésio nesse ano. 

Em “Macabre” um grupo de amigos segue de carro para Jacarta para se despedir de dois deles: o casal Adjie (Ario Bayu) e Astrid (Sigi Wimala) grávida de 8 meses, que vão começar um novo projecto de vida na Austrália. A meio da viagem efectuam um desvio para convencer Ladya (Julie Estelle) a irmã de Adjie a colocar de parte as suas divergências antes de ele partir em definitivo para um novo país. O plano sofre um revés quando se deparam com Maya (Imelda Therrine) que lhes pede ajuda. Ela diz ter sido roubada e não tem boleia para casa. À chuva e na noite escura, o grupo oferece-se para a levar a casa. Agradecendo a generosidade, a jovem convida-os a tomar uma refeição com a família dela e refugiar-se do mau tempo. Apesar da relutância de alguns, eles acabam por aceitar e entrar. Lá dentro esperam-nos Dara (Shareefa Daanish) a mãe de Maya que parece não ter um dia mais do que 30 anos e os dois irmãos desta. Existe algo de desconcertante naquela família, algo que descobrirão muito em breve. É que a família de Maya gostou tanto deles, em particular da expectante Astrid que não tencionam deixá-los sair de casa… Nunca. Abriu a época de caça e os hóspedes são as presas!

Se “Macabre” parece a repetição de tantos outros slashers é porque não existe qualquer elemento surpresa. Os personagens são conhecidos na maior parte por constituírem os já habituais estereótipos do género como a sobrevivente final, o bom rapaz e o pervertido. Os vilões são maquiavélicos, aterrorizantes e são tão maus quanto seria de esperar de uma família de canibais! Eles gizam um plano para atrair as suas vítimas e quando a mãe Dara, qual chefe de um gangue organizado dá ordem para perseguir, atacar e dominar, vale tudo. A panóplia de armas utilizadas inclui armas como espadas samurai, serras eléctricas (uma homenagem a “The Texas Chainsaw Massacre” de 1974), jarros e tudo o mais que esteja espalhado pela casa que possa ser utilizado como arma mortal. E são ultra-resistentes. Para os eliminar é preciso nada menos que esfaquear, esquartejar, triturar, queimar, enforcar…

O cinema há muito que demonstrou que uma mulher grávida não está livre de perigo, vejam por exemplo “Inside” (2007) ou “Dream Home” (2010) e a pobre Astrid é prova disso mesmo com uma das cenas mais demoradas a deter-se na sua luta para defender a criança por nascer. Já Ladya é uma versão anterior da desenrascada Erin de “You’re Next” (2011), menos eficaz e mais dependente da sorte e dos seus amigos. Tanto ela como Arifin Putra que interpreta o psicopata Adam foram recentemente catapultados para a fama em “The Raid 2: Berandal” (2014) mas é Shareefa Daanish que rouba todas as atenções. Alguns poderão considerar a sua representação exagerada mas não irão ficar indiferentes.
Com olhos grandes, esbugalhados que sugerem a possibilidade de esta penetrar na alma das suas vítimas e extrair os pensamentos e desejos mais profundos da sua vítima e a pronunciação lenta, ponderada das palavras, Dara é inquietante. Aliás, cada aspecto desta personagem soa a uma nota dissonante logo a partir do momento em que a patriarca parece partilhar a idade da prole; vestimenta, cabelo e trejeitos de quem parece anunciar um estilo de vida antiquado; um olhar que não pestaneja e toda uma frieza e atitudes gélidas que sendo suspeitas, fariam visitantes “normais” atalhar caminho assim que tivessem oportunidade. Quando é apresentada a história da família, todos esses elementos desconcertantes encaixam no puzzle, incluindo as mais diversas peças e mobiliário espalhados pela casa.
“Macabre” é um autêntico banho de sangue. Imagino que se aquela casa tivesse sido palco de um massacre real, as pessoas que fazem a limpeza de tais cenários teriam muito trabalho pela frente. “Macabre” vem da Indonésia para provar que a tradição do slasher, ainda que possamos enumerar os lugares-comuns, continua a funcionar. Três estrelas.

Realização: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Argumento: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Shareefa Daanish como Dara
Julie Estelle como Ladya
Ario Bayu como Adjie
Sigi Wimala como Astrid
Arifin Putra como Adam
Daniel Mananta como Jimmy
Dendy Subangil como Eko
Imelda Therinne como Maya
Mike Muliadro como Alam
Ruly Lubis como Arman
Felicia A. Sumarauw como Bebé
Risdo Alaro Martondang como Sersan Syarief
Cansirano como Sony Samba
Roni Kribs como Petrus

Próximo Filme: "Blood Letter" (Thien Menh Anh Hung, 2012)

domingo, 18 de janeiro de 2015

"Body of Water" (Syvälle salattu, 2011)

Boa sorte para conseguir encontrar um trailer decente com legendas, pelo menos, em inglês.
Era uma vez um pobre moleiro que ao encontrar o rei exagera as qualidades da filha de modo a captar o interesse deste e chega a contar uma estória fantasiosa em como a moça consegue transformar palha em oiro. Decidido a dar uma lição ao moleiro, o rei manda fechar a jovem num quarto cheio de palha que terá de transformar em oiro, como declarado pelo pai, ou será executada. Durante a noite, a rapariga desesperada pela insensatez do pai e a expectativa de morte iminente, é visitada por uma criatura mágica que lhe propõe uma troca: ele fará a tarefa por esta, desde que ela lhe dê o seu colar. No dia seguinte, o rei fascinado perante a boa execução da tarefa dá-lhe ainda mais palha para fiar em oiro. À noite e perante novo apelo da rapariga chorosa o visitante continua o trabalho a troco de um anel. Pela manhã, o rei promete casar-se com ela, se esta transformar uma quantidade ainda maior de palha em oiro. Nessa noite, a rapariga, em pânico e sem mais nada com que negociar com o pequeno ser, acede a entregar-lhe o seu primeiro primogénito se ele a auxiliar uma última vez. Como bem saberão, a rapariga desta estória de encantar torna-se rainha e dona de grandes riquezas e o ser com quem firmou o pacto, Rumpelstilskin. Neste conto com final feliz, a rapariga aprende um ensinamento antigo mas sempre actual: ter cuidado com quem se faz um negócio e a não prometer aquilo que não se pretende dar em troca! “Body of Water” alia parte do imaginário dos irmãos Grimm ao folclore finlandês, em particular, do Nakki um espírito que atrai as crianças que se debruçam em parapeitos e margens demasiado próximas da água para a morte. Apenas mais uma estória criada como advertência para os perigos em que incorrem as crianças marotas que desobedecem aos pais.

Julia Mannerla (Krista Kosonen) é uma advogada que foi contratada para deter a destruição de um lago que deverá dar lugar a uma central de energia. Há muitos anos Julia morou naquele local com os pais antes de se mudar para Helsínquia. As memórias de infância não são agradáveis pois coincidem com o período em que a mãe adoeceu, dando lugar a uma mulher instável que nem reconhece os familiares a melhor parte do tempo. Julia tem ainda uma relação difícil com o pai mas ela é obrigada a apoiar-se neste pois está a divorciar-se e o filho Niko (Viljami Nojonen) ainda não tomou real consciência das consequências da separação dos pais. Como é de imaginar, o timing para a defesa de uma causa ambiental, num sítio que lhe traz memórias de eventos tristes, em pleno Verão e a braços com um filho menor não poderia ser pior. Ademais, a recepção dos habitantes do lago Hallow é hostil. Eles recordam-se de uma antiga família Mannerla que morou ali antes e da qual não guardam nem saudades nem simpatia mas se calhar, a chegada de uma advogada da capital que vem de repente dizer-lhes como viver, quando o lago nunca constituiu uma fonte de riqueza é demasiado atrevimento. Quanto a eles o lago pode desaparecer para todo o sempre, a protecção do ambiente é totalmente secundária perante a possibilidade de uma indemnização e um emprego estável. Para aumentar o stress de Julia, o local onde está alojada de modo temporário com o filho é a antiga escola primária, agora degradada e cuja canalização tem vontade própria. Entre o risco de uma inundação e infiltrações que colocam em causa a própria qualidade do ar que respiram, o lago não faz muito pela sua defesa. Niko encontra-se no seu estado mais desobediente e desafiante e insiste em aproximar-se dele, a despeito das ordens da mãe.
As semelhanças de “Body of Water” com o mais recente “The Babadook” (2014) quedam-se pelo desespero de um mãe cujo mundo ruiu à sua volta, com ela a assistir e sem nada poder fazer para o deter. A maior riqueza, a única que lhe resta é o filho. E a sua perda fará desabar o que resta das suas forças e sanidade. “Body of Water” tem um desenlace cuja explicação só é possível se considerarmos o receio dos argumentistas de que a audiência pudesse ficar de algum modo angustiada e, por outro lado, a manutenção do status quo da “existência de uma reviravolta” somente porque hoje em dia, já não é cinematograficamente aceitável que a narrativa seja linear. Como se a existência de uma reviravolta garantisse o efeito choque. Além disso, “Body of Water” sofre com uma personagem principal que tem uma história de fundo muito bem desenvolvida mas depois toma as decisões mais idiotas que se possam imaginar. Quando se realiza o teste da empatia, na pele de Julia poucos tomariam as decisões desta personagem. Restam os aplausos para a cinematografia que apoia a hipótese fantástica que é colocada em cima da mesa sem nunca esquecer as agruras da vida real. Duas estrelas e meia.

Realização: Joona Tena
Argumento: Pekka Lehtosaari, Joona Tena e Mikko Tenhunen
Krista Kosonen como Julia
Kai Lehtinen como Leo
Viljami Nojonen como Niko
Peter Franzén como Elias
Risto Aaltonen como Lantto
Kari Hietalahti como Koskela
Terhi Panula como Saara

O melhor:
- A personagem de Júlia
- Inspiração no folclore local
- A banda-sonora


O pior:
- Previsibilidade da estória mata o potencial e a possível excitação da audiência

Próximo Filme: "Macabre" (Rumah Darah, 2009)

domingo, 11 de janeiro de 2015

TCN Blog Awards 2014: A tradição ainda é o que era


Esta pessoa nunca irá escrever uma das primeiras reacções aos prémios mais badalados da blogosfera de cinema nacional. Elas desmultiplicam-se pore com superior qualidade mas a “cobertura” dos TCN Blog Awards constitui a única tradição anual no mundo da 7.ª Arte que não posso falhar. Nem com os Óscares, indiscutível maior evento cinematográfico mundial, consigo manter tal compromisso (desculpem lá qualquer coisa, mas essa cerimónia de entrega de prémios é uma seca). Também se diga de passagem, que é o único dia do ano em que me posso reunir com a maioria dos meus heróis escritores de cinema e dizer-lhes qual groupie maníaca, que sou sua fã e continuarei a seguir muito atentamente os seus blogues pelo que, por favor, não parem, enquanto aproveito para cravar um ou dois autógrafos. Também ainda não perdi a esperança de um dia, um fã vir ter comigo pedir-me um autógrafo, para depois se apoiar no meu ombro e chorar copiosamente porque era fã do “Alien” e ainda hoje está a tentar retirar sentido do “Prometheus”. Isso, ou vir ter comigo e dar-me um abraço porque, coitada, não sei o que escrevo e mais vale dar-me coragem para um dia vir a escrever alguma coisa de jeito. Não sou esquisita. Além disso, já descobri que sou verdadeiramente importante e que a minha opinião importa pelo que aproveito desde já para dar a conhecer que no próximo ano conto ter uma passadeira vermelha e paparazzi à minha espera… Quanto à cerimónia propriamente dita, este ano descobri que estou velha. Além dos recém-descobertos papos, rugas e cabelos brancos que um penteado alternativo já não é capaz de esconder, descobri que a média de idades dos nossos bloggers desceu drasticamente. Alguns até podem ter surgido em anos anteriores mas só este ano é que dei pela coisa. Não é um ponto negativo, nem poderia ser. Sou apologista de sangue novo, tal como eu própria já o fui, ainda que tenha ainda poucos anos disto em comparação com alguns dinossauros – o Not a Film Critic faz apenas 4 primaveras a 31 de março! E não podia, à altura, ter-me sentido melhor acolhida. Mas se houve muito cara nova, chocou-me talvez a quantidade de ausências de alguns bloggers mais antigos. Faltou o Jorge, o Samuel, o Pirata, a Inês, o Tiago, o Aníbal e o Hugo, (etc.), alguns dos quais, justificam a mera existência destes prémios. Outra novidade foi a mudança do local da cerimónia de uma sala de cinema/auditório para o Deliart Caffé, sendo que se, se lamenta a perda do cenário onde a magia acontece, se podem acomodar algumas das necessidades identificadas em anos anteriores. A cerimónia deste ano foi ainda mais criativa que o ano anterior, se é que tal era possível e o Manuel Reis esteve na sua melhor interpretação de Neil Patrick Harris (aquele tipo que a maioria das pessoas não consegue detestar) duns prémios. Este presente a celebérrima Tuxa; o Francisco Oliveira que irá ser daqui a 15 anos o maior galã das televisões portuguesas e quicá, oscarizado; o Brain Mixer que disponibilizou os seus “Posters Caseiros” que ganharam vida própria e o TCN para Melhor Rúbrica de 2014 para o leilão mais divertido (e único) da estória dos prémios, tendo havido até lugar a copos partidos e mousse espalhada pelo chão, tal era o entusiasmo do licitador e, essa lenda viva do cinema xunga que é o Pedro Cinemaxunga! Quanto aos momentos mais especiais tenho de dar destaque à primeira exibição em directo para a plateia dos TCN Blog Awards, dos podcasts do VHS e do TVdependente e a estreia exclusiva e mundial de “Um Conto de Natal na Trafaria”. E que não nos falte o humor que vimos a descobrir que um certo blogger fica mais inspirado na semana antes da submissão das candidaturas aos prémios; que alguém queria mesmo MUITO que um poster do Crime do Padre Amaro com uma erecção figurasse sobre a sua lareira; que a falta de bateria na câmara de filmar é lixada; que alguém tem uns olhos provocadores e boca de apito (alguém me explique o que é!); que o debate cinema/televisão se mantém mas agora o que está a dar é “atacar” a malta da banda-desenhada (alguém se acusa?)... E agora, aquilo que sei que todos vós estavam mortinhos por saber: não, não foi desta que o Not a Film Critic arrecadou um Prémio, no caso, na categoria de “Melhor Artigo de Cinema” com o  "Top 12: Final Girls". Mas asseguro que o Prémio ficou em boas mãos. Quero ainda referir que o Prémio de Melhor Iniciativa foi atribuído a “Já vi(vi) este Filme” do blogue Hoje Vi(vi) um Filme na qual tive o prazer de participar e deixo uma curiosidade para quem mais passe por aqui. Desde 2012, que este Prémio tem sido entregue às iniciativas nas quais o Not a Film Critic participou. Fixolas. É claro que se falássemos em desejos pessoais, gostaria que mais algumas das minhas páginas favoritas tivessem sido reconhecidas mas as coisas são o que são e, ainda bem que as vontades da maioria se sobrepõem às do individuo. Alguém ficaria muito satisfeito mas o conceito de justiça sairia prejudicado. Como digo ano após ano, para os meus 3 leitores, um evento que é organizado por e em prol de bloggers, quando estes 99% das vezes não obtêm qualquer vantagem financeira ou reconhecimento, com a susceptibilidade de verem o seu trabalho a ser repescado ou copiado por outrem deve constituir uma festa e um momento de partilha de experiências e criação de mais e melhores projectos. A todos os vencedores felicitações. Da minha parte, enquanto escrever continuar a ser divertido, por aqui continuarei. E porque a tradição também é importante, até para o ano.

domingo, 4 de janeiro de 2015

"Marshland" (La isla Mínima, 2014)


Os créditos vêm como uma bomba: um take contínuo percorre a paisagem natural, paradisíaca do sul de Espanha enquanto ecoa o choro de uma guitarra. A paisagem é verde e azul, laranja e castanho, em alternância, o terreno incerto, os sulcos a fazer recordar o próprio cérebro humano, ora digam-me se a película a que vou assistir não é inquietante.

Juan (Javier Gutiérrez) e Pedro (Raúl Arévalo) aguardam à beira da estrada sob o calor abrasador que os venham socorrer. Acabados de chegar sul de Espanha, advindos de Madrid para investigar o desaparecimento de duas irmãs, já dão a imagem de uns inúteis a necessitar de ajuda. Na pensão onde irão pernoitar houve um equívoco: terão de passar a primeira noite no mesmo quarto. Deverá ser pouco tempo, acreditam os locais. As irmãs desaparecidas têm uma má reputação e nem os habitantes, nem o pai destas demonstram grande interesse em fornecer pistas para a resolução do caso. Apenas a mãe Rocío (Nerea Barrios), atormentada pela dor colabora com o pouco que tem para lhes dar, o negativo de fotografias lascivas que o fogo da lareira não conseguiu queimar na totalidade. Esta é sem dúvida uma localidade mínima. Na Espanha abaixo do Guadalquivir pós-Franco, a ditadura apenas findou em termos políticos. A cruz do ditador permanece firme nas paredes das casas. Estado, Família e Igreja governam a mente colectiva. Não existe ainda espaço para a emancipação ou uma sexualidade liberta de preconceitos: aquilo que aquelas adolescentes perigosamente representam. Eis que surgem corpos no meio do terreno pantanoso e aquilo que parecia uma fuga ao tédio, matrimónio em terra idade e aos constrangimentos de uma localidade onde os rumores são difundidos ao sabor do vento, se transformam numa caça a um assassino em série.
“Marshland” é um regresso aos thrillers policiais, um género em decadência, talvez pela sobreexposição, nos últimos anos. Uma das óbvias excepções tem sido o cinema coreano que apresenta de modo sistemático, anualmente, pelo menos um thriller de qualidade para saciar um público que ainda não acusa o cansaço do género. Mas as coincidências de “Marshland” com o cinema coreano não se ficam por aqui. “Marshland” é fantasticamente similar a “Memories of Murder” (2003), de Joon-ho Bong. Ambos ocorrem durante os anos 80, o primeiro pós-ditadura militar, o segundo decorre ainda durante uma no último fôlego, com o surgimento de cadáveres femininos mutilados em campos de arroz. Ambos os casos requerem a visita de um ou mais polícias da cidade, dominantes de novas técnicas, que contrastam com os saberes e desconfiança locais. “Marshland” também mantém a combinação típica do polícia moderno mais subtil e do polícia mais vivido, com métodos mais questionáveis, pelo menos para os padrões actuais. Mas não tenta dizer-nos qual o melhor, deixa as ilações para quem o vê ou, se preferirem, a interpretação estará sujeita à época em que nos inserimos. Gutiérrez e Arévalo estão fantásticos nos papéis convencionais que lhes foram atribuídos. No entanto, as fronteiras entre o polícia bom e o polícia são, no mínimo, nebulosas. Cada um tenta demonstrar o seu caminho ao outro sem criticar abertamente as opções deste. Algures, conseguem manter a cabeça fria ou dão azo à bestialidade quando não o fariam antes. Deles, é Juan o que possui a moralidade mais dúbia e o que parece mais atormentado pelos anos mais de experiência do que Pedro e um passado misterioso. Por isso, encontra maior facilidade em mover-se nos terrenos pantanosos, de segredos obscuros, terríveis e de mostrar as garras sem hesitação ou receio dos locais. Ele conhece as regras implícitas daquelas terras. Juntos, cruzam-se com uma série de personagens, cada uma com uma informação importante a fornecer, mesmo que não o saibam. A cinematografia fabulosa de Alex Catalán completa o cenário de desintegração daquela sociedade. Se não podem sequer confiar nas pessoas que pertencem àquela “ilha”, então em quem? É um sinal dos tempos, terão de reajustar-se se quiserem sobreviver além das próximas colheitas e das mudanças políticas de Madrid. Quatro Estrelas.


Realização: Alberto Rodríguez
Argumento: Rafael Cobos e Alberto Rodríguez
Javier Gutiérrez como Juan
Raúl Arévalo como Pedro
Nerea Barros como Rocío
Jesús Castro como Quini
Antonio de la Torre como Rodrigo
Salva Reina como Jesús
Manolo Solo como Periodista
Cecilia Villanueva como María
Juan Carlos Villanueva como Juez Andrade

O melhor:
- A cinematografia é soberba. Alex Catalán tem motivos para estar satisfeito
- A banda-sonora completa na perfeição as imagens
- Não podiam ter escolhido melhor dupla de actores, em particular, Javier Gutiérrez no papel de um polícia atormentado com esqueletos no armário

O pior:
- Alguma ambiguidade no desenlace

Próximo Filme: "Body of Water" (Syvälle salattu, 2011)

domingo, 28 de dezembro de 2014

"The Thieves" (Dodookdeul, 2012)


“The Thieves” faz-nos recuar ao formato antiquado do grupo de ladrões que se reúne para realizar um furto único esgueirar-se debaixo dos olhares de todos. É uma estória tantas vezes recontada que desperta ódios e paixões em igual medida. A cada novo ano aparece uma nova variação da fórmula que justifica a realização de sequelas (“Ocean’s Eleven”, 2001) e o surgimento de novos franchises (“Now you see me”, 2013). Para os amantes do género “The Thieves” será uma obra incontornável, apetite ainda mais aguçado por ter sido o maior sucesso de bilheteira na Coreia do sul do ano de 2012. “The Thieves” junta um elenco internacional (Coreia do sul, China e Malásia) de reconhecido talento e estrelato capaz de atrair as massas ao cinema e um realizador que já por duas vezes dirigiu projetos sob a mesma matéria sem perder o toque de midas. Os argumentos para o seu visionamento poderão significar muito pouco para desconhecedores do cinema sul-coreano mas quando enquadrados no devido contexto demonstram ser uma estratégia de marketing genial.

Popeye (Jung-jae Lee) é o líder de um grupo de ladrões especializados na realização de furtos de alta complexidade. O seu gangue reúne a sexy mas perigosa Yenicall, a veterana Chewingum (Hae-suk Kim) e o aprendiz da arte Zampano (Soo-yun Kim) Eles juntam-se, planeiam, realizam e desaparecem durante algum tempo. Quando após a última operação a polícia se aproxima demais, eles retiram-se para Hong Kong para deixar as pistas esfriar. Lá, Popeye é seduzido a juntar-se ao antigo chefe e associado Macao Park (Yun-seok Kim) para aquele que será o golpe mais lucrativo e intrincado da carreira de todos, o roubo do diamante "Lágrima do Sol". O trabalho exige um maior número de participantes, que inclui o gangue chinês liderado por Chen (Simon Yam). Como não bastasse o número de jogadores ser elevado, o que por si já significa a diminuição do quinhão de cada um e a desconfiança gerada pelo facto das equipas nunca terem trabalhado em conjunto, Popeye faz questão de adicionar ao grupo Pepsee (Hye-soo Kim) recém-libertada da prisão, depois do último trabalho que realizaram em conjunto com Macao ter corrido mal.
A cinematografia e as personagens ecoam as opções estilísticas e os estereótipos de filmes anteriores mas “The Thieves” encontra-se mais longe do esquema estudado e ensaiado ao pormenor de “Ocean’s Eleven” e antecessores, das reviravoltas dramáticas de “Mission Impossible” (1996). Dong-hoon Choi joga com a ambiguidade da moral dos seus personagens a todo o instante. Como grupo funcionam para atingir o seu objectivo questionável – eles não são nenhuns Robin dos Bosques –, procuram o lucro através de métodos ilegais para ganho próprio. Enquanto indivíduos examinados a um pormenor microscópico, compreende-se como o equilíbrio que os une é instável. Pepsee, Macao Park e Popeye estão unidos numa teia amorosa e de traições da qual nenhum quer sair a perder. Especialmente Pepsee pagou por isso com a prisão e tem agora em mente não só uma recompensa pelo tempo que perdeu encarcerada, como o motor da vingança. Yenicall que alia capacidades acrobáticas e raciocínio rápido ao sex-appeal não está feliz por ter perdido o foco de atenção para Pepsee que é de certo modo uma versão mais madura dela própria e de ter de repartir a sua parte com mais intervenientes. Chewingum já acusa o cansaço de tantos anos na corda bamba e deseja, aliás anseia uma reforma, se não tão rica, pelo menos feliz. Chen é outro veterano que alinha com os coreanos para a condução do golpe mas apenas até certo ponto e nos seus termos. Zampano não consegue resistir aos encantos da perigosa Yenicall, pondo até a sua sobrevivência no jogo em perigo. Em última análise, quando as coisas correm mal e, acreditem que vão correr muito mal, as máscaras caem e cada um actua de modo a salvaguardar aquilo que é mais importante para si. Com um grupo de actores tão talentoso a expectativa é a de que a luta pelo tempo de écrã levasse a melhor sobre a estória que se iria desintegrar à frente dos nossos olhos. O que sucede é o oposto. Cada subenredo permite aos personagens envolvidos brilhar. Por cada poucos minutos a mais concedidos, maior é o impacto do destino daqueles personagens. Como os seus personagens, a dupla de argumentistas é brutal. Todos têm um alvo nas costas e ninguém está livre de ser morto a qualquer instante. Subitamente é menos importante saber quem é que fica com o diamante do que quem sobrevive para gozar a recém-encontrada abastança. Três estrelas e meia.

Realização: Dong-hoon Choi
Argumento: Dong-hoon Choi e Gi-cheol lee
Yun-seok Kim como Macao Park
Jung-Jae Lee como Popeye
Hye-soo Kim como Pepsee
Ji-hun Jun como Yenicall
Simon Yam como Chen
Hae-suk Kim como Chewingum 
Dal-su Oh como Andrew 
Soo-hyun Kim como Zampano
Derek Tsang como Jonny 
Soo-jeong Ye como Tiffany 
Angelica Lee como Julie

O melhor:
- As cenas de acção
- O elenco sólido

O pior:
- Sensação de que é pouco tempo para tamanha exposição. Exploração das ideias em formato de série não seria um desperdício
- A velha estória... Se não gostam do género não é este que vos vai fazer mudar de ideias




Próximo Filme: "Marshland" (La Isla Mínima, 2014)

domingo, 21 de dezembro de 2014

"The Protector" (Tom Yum Goong, 2005)


Sejamos honestos, o Tony Jaa é um péssimo protector. No “Ong Bak” (2003) foi incapaz de evitar que roubassem a cabeça da estátua de um Buda apesar de esta ser tipo enorme, em “The Protector” ele consegue, não sei como, perder uma cria de elefante que era tarefa sua proteger. Mas se um vilão ofender o vosso irmãozinho pequenino ou raptar o vosso gato bebé ele é a pessoa certa para a tarefa. Para uma referência mais actual, considerem-no um Liam Neeson mais inepto nas palavras mas que executa na perfeição alguns dos espancamentos mais brutais a que já tiveram oportunidade assistir.

Tony Jaa é Kham, o último descendente numa linha de guardiões dos elefantes da família real Tailandesa. Durante as comemorações de um festival e aproveitando a confusão do grande afluxo de gente, uns malfeitores, com a conivência de um ilustre cidadão local aproveitam para roubar o membro mais novo da família de elefantes e atingem o pai de Kham com um tiro. Como podem imaginar o Tony Jaa fica muito zangado. Ao ponto de viajar até ao outro lado do mundo para ir resgatar o seu elefantezinho e vingar o ataque ao pai. Ele não viaja efectivamente até ao outro lado do mundo, até porque a Austrália é logo ali, mesmo ao pé da Tailândia (vá, quase), mas é bonito pensarmos que sim. Lá, ele depara-se com um estranho mundo novo, não só porque parece um peixe fora de água – ele fazia flexões nos dentes de um elefante afinal de contas –, mas é um país onde a língua é estranha e a confluência de novos estímulos é avassaladora. Para sua “alegria”, o mundo do crime mantém a conexão com a cultura que conhece ou não fosse o bandido, dono do restaurante “Tom Yum Goong” (um prato tradicional tailandês) e quem lhe dá guarida é Pla (Bongkoj Khongmalai) uma tailandesa atraída para as malhas da prostituição no exterior.

“The Protector” toca em tudo quanto são assuntos mas não se foca em nenhum: o tráfico de seres vivos e de arte; as dificuldades de adaptação dos imigrantes a uma nova cultura, sistema de justiça e religião; a prostituição forçada de mulheres estrangeiras… Kham apenas quer o seu elefante. Mas não se preocupem que a ligação de ambos é mais forte do que possam imaginar. É histórica e espiritual. Por isso, Kham encontra-se disposto a espalhar mortos e feridos por toda a Austrália se tal for necessário para chegar até ele. À boa maneira deste tipo de filmes, os bandidos não têm uma grande apetência para as armas de fogo se não, ao fim de dez minutos já não haveria estória para contar. É que Kham é um incómodo daqueles que mais valia recorrer a uma metralhadora do que ir contratar os lutadores mais brutamontes (e incompetentes e caricaturais) que já se viu. Na maior parte e a despeito de pontualmente se deparar com uns quantos adversários de valor, eles são francamente ineficazes contra o muay thai quebra articulações de Kham. Nm dos momentos mais fascinantes e brutais, para quem vê e para os duplos, Kham atravessa um edifício inteiro e, em particular, sobe uma escadaria num impulso decisivo e destruidor. Tudo quanto se atravessa no seu caminho é empurrado, esborrachado e, enfim, trucidado. Eu não queria ser um daqueles duplos! Esta cena providencia um instante espantoso se pensarmos na perfeição da coreografia que envolveu dezenas de intervenientes e a mestria de Prachya Pinkaew que optou por captar a cena num único take. O que pensando bem, poderá até ter constituído um dos momentos cinematográficos inspiradores do não menos superior “The Raid 2: Berandal” (2014). “The Protector” é igual a todos os filmes de artes de marciais remanescentes na medida em que temos de nos convencer com todas as nossas forças que o que estamos a assistir podia acontecer. No entato, é um deslumbramento admirar a destreza, o portento físico dos seus intervenientes. Denota-se um esforço real por parte da equipa em mostrar um produto excitante. Não é a acção chapa 5 de um “Kickboxer 33” ou um “Bloodsport 15”. Pretendem mesmo que apreciemos um filme onde o prato principal é pancada até mais não. Três estrelas.

Realização: Prachya Pinkaew
Argumento: Napalee, Piyaros Thongdee, Joe Wannapin, Kongdej Jaturanrasameee Prachya Pinkaew
Tony Jaa como Kham
Mum Jokmok como Inspector Mark
Xing Jing como Madam Rose
Johnny Tri Nguyen como Johnny
Bongkoj Khongmalai como Pla
Sotorn Rungruaeng como pai de Kham
David Asavanond como Rick

O melhor:
- Se gostam e esperam brutalidade no seu modo mais cru, da oferta moderna pouco existe de superior a “The Protector”
- Coreografia das cenas de artes marciais no seu melhor

O pior:
- A versão Weinstein conseguiu comprimir um bom filme de 110 minutos num de 85. A evitar.
- Mortos e feridos por um elefante poderá custar a engolir a alguns
- Tony Jaa não é propriamente um actor Shakespeariano. Encontra-se mais próximo do Arnie acabadinho de chegar aos EUA, oriundo da Áustria.

Próximo Filme: "The Thieves" (Dodookdeul, 2012)

domingo, 14 de dezembro de 2014

"The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)


“Que raio é que acabei de ver?” foi a primeira reacção após o termino do filme. Para meu e vosso mal, esta única frase não serve como crítica de cinema e explica muito pouco pelo que vou forçar-me a tentar extrair um sentido coerente desta película japonesa.
“The Sylvian Experiments” abre com uma cena em que pacientes do que aparenta ser um hospital são submetidos a uma experiência bizarra que envolve brocas, cérebros expostos e choques eléctricos. A cena seguinte revela que afinal estes acontecimentos já sucederam há algum tempo e é agora um casal quem assiste aos eventos sobre a forma de documentário. Talvez seja um daqueles registos históricos um pouco aborrecidos que convém não ser exibidos ao grande público durante muitos e muitos anos, se é que o serão de todo. Eis que Etsuko (Nagisa Takahira), a mulher do casal, se apercebe que as duas filhas menores assistiram (a que parte, não se sabe ainda) ao filme. O que é assim um bocado chato.
Por fim (e calma que não passaram sequer dez minutos), temos um grupo de estanhos que seguem numa carrinha que estaciona num local isolado, junto a uma floresta. O que vão eles fazer perguntam vocês? Snifar umas linhas de coca? Uma orgia? Jogar Trivial Pursuit? Não. Fizeram um pacto suicida. Fixe. Por esta altura já terão dando uma pancada seca na cabeça e estarão a censurar-me pela sobre-exposição. Mas não, ainda não sabem nada. Miyuki (Yuri Nakamura) uma das raparigas que desistiu de vier era uma das crianças que apanharam os pais a ver filmes porcos (sangue e miolos, entenda-se), como tínhamos visto uns minutos antes e agora a outra, Kaori (Mina Fuji) está perturbada com o desaparecimento da irmã e decide armar-se em pseudo detective. Ela fala com a polícia, pernoita na casa dela, contacta com o namorado desta e nos intervalos alucina com luzes brilhantes. A partir daí o significado desvanece-se numa névoa. “The Sylvian Experiments” é pois uma daquelas bestas ambíguas que levantam mais questões do que apresentam respostas e polarizam opiniões. Herdeiro de “Ringu” (1998), “Ju-on” (2000) e outros sucedâneos mais antigos, “The Sylvain Experiments” afirma-se como um animal diferente. A ligação com um objecto como intermediário na ligação entre o mundo espiritual e o dos vivos (uma casa ou um telefone, por exemplo), não é visível mesmo que aborde, como sempre, os temas da vida e sobretudo da morte. Um caminho possível seria a exploração do sulco lateral do cérebro, também conhecido como a fissura de Sylvius, que lhe confere, afinal o titulo anglo-americano mas este território é logo afastado. Entre as piores ideias também não se encontraria o enfoque no sentimento de perda de Kaori trilhando a infância das duas irmãs, a relação difícil com a mãe e o evento que motivou o seu distanciamento. No entanto, até esta linha de pensamento é estéril.
O mais próximo de um vislumbre de significação advém da obsessão de uma médica com a vida após a morte (mini flashback de “Martyrs” de 2008). Se bem que até esta nunca esboça um motivo para a obsessão. O resto do elenco está ainda mais perdido. Miyuki poderá ou não ser uma suicida relutante e Kaori que afirma desejar encontrar a irmã não se parece importar com os avanços amorosos do namorado desta. Como não surgissem respostas, quer do rumo da investigação quer, mediante o recuso à analepse para fornecer algum insight para o desejo mórbido de Miyuki em pôr termo à própria vida, resta uma Kaori apagada. A personagem de Mina Fuji é capaz de ser a personagem feminina mais fraca desde a estreia do primeiro Ringu, já lá vão 16 anos. Isto, a despeito de ela ser apresentada como a única luz num quotidiano cinzento. A realização opta pelos tons cinza no que se refere ao resto do mundo, mas irrompe de cor quando Kaori interage com os outros. Com ela o mundo ganha cor. Mas até aqui os apontamentos de cor são pessimistas, pois a cor privilegiada para enfatizar o contraste é o encarnado, longamente associado em cinema com a morte. Fuji precisa de toda a ajuda que lhe possam dar pois Kaori marca os momentos mais enfadonhos da pelicula. Kaori é uma detective que pouco faz de concreto. Se a início colabora com a polícia, logo se esquece deles perante uma primeira pista. Alia-se de modo cego ao namorado daquela e sem pudor acede às investidas amorosas deste. Ela é ineficaz, ele é ineficaz, a polícia é ineficaz. São todos ineficazes juntos. Um possível drama familiar descamba numa teia difícil de descortinar, com estórias de vampiros, virgens suicidas, recordações de meninice agridoces e alucinações que são atirados a eito para o caldeirão. E o final não é mais que o embuste típico dos cobardes. “The Sylvian Experiments” mais se assemelha à confluência de dois ou 3 argumentos que por si só se calhar tinham mais poder que a amálgama que daí resultou e que carecia de uma edição séria. Lamento não conseguir alcançar na sua total extensão a significação que me era pedida mas confesso que me perdi a meio da aborrecida viagem. Duas estrelas.

Realização: Hiroshi Takahashi
Argumento: Hiroshi Takahashi
Yuri Nakamura como Miyuki
Mina Fuji como Kaori
Nagisa Takahira como Etsuko

Próximo Filme: "The Protector" (Tom Yum Goong, 2005)

domingo, 7 de dezembro de 2014

“NAFF – Not a Film Festival”- parte 1 ou, um GPS dava jeito!



Já tinha dito que queria ir. Mas entre compromissos, chuva, frio, sonos retardados e alguma preguiça vá, fui adiando. Era domingo à noite (21 de novembro) e feita corajosa fiz-me à estrada. Foi ali para os lados de Benfica, num Turim que não é visitado o suficiente e não tem rede telefónica. Quem precisa disso numa sala de cinema?! A chegada foi uma aventura. Na minha melhor demonstração de incompetência em sentido de orientação e apesar de já lá ter passado umas quatro vezes, fui incapaz de chegar à sessão “Not a Film About Us” a tempo. Percorrer a estrada de Benfica à noite e ao frio é uma experiência fascinante mas não tanto quanto teria sido ter assistido às duas sessões a que me propus. Felizmente não ia em trabalho, como uma jornalista a sério, se não levava uma reprimenda do chefe! Assim, quedei-me pel’ “A Máquina”, que apresenta um velho barbudo e engenhocas, grande cientista autodidacta desconhecido do nosso tempo; uma “Emília” que descobre a jovem rebelde e revoltada que há em todos nós (que permanecemos em Portugal), a “Fúria” de miúdos cujos pais deverão pensar algo como “antes levarem nas trombas num ringue” do que andar na rua na vadiagem e “A Remissão Completa” sobre a redenção de um incorrigível.
“A Máquina” é um mix de qualquer coisa cómica com qualquer coisa de desconcertante. Todos têm um “louco” na sua vida. Aquele género de pessoa que é meio exagerada e meio genial e tivesse ela apoio (recursos humanos e materiais – não falemos de dinheiro por aqui), quem sabe que resultados podiam advir daquela loucura metódica? O avô deseja construir uma máquina que crie uma energia eternamente renovável. Ele admite que talvez nunca venha a conseguir alcançar o seu objectivo e que enquanto possuir a faculdade mental e vigor físico a busca incessante irá manter-se. As suas confissões meandram entre a paixão pela verdade e o afastamento da solidão. “A Máquina” revela-se pois o exercício mais forte, mais intimista, afinal é dedicada a um avô, numa sessão onde se esperava que o cenário mais próximo dos corações se encontrasse na desolada “Emília”. Após um documentário melancólico “Emília” não parece procurar a esperança. À semelhança de muitas outras jovens, ela encontra-se desempregada e desesperada com a situação financeira. Com uma mãe doente e com as mais recentes perspectivas de emprego goradas, a independência não passa de uma miragem. A isto não ajudam as estórias de outros mais bem-sucedidos e “amigos” condescendentes. Se ela quisesse podia ter um trabalho, tem é de se sujeitar. Depois surgem os rebeldes com uma causa, que lhe dizem para lutar contra o sistema, por um destino melhor. Porque parecerá toda esta sucessão de acontecimentos uma encenação? Já o vimos demasiadas vezes? Ou é “Emília” a jovem que podia ser anónima mas não é e representa todos esses jovens anónimos desesperados uma película sem alma? Em 15 minutos, Emília encontra dentro si a força para a ruptura. O que a compele para uma marcha lenta, inútil e sem quaisquer efeitos práticos contra forças que auxiliam a manutenção do status quo mas o representam. Lutar contra canhões com uma pena, hã? “Fúria” descreve o quotidiano de miúdos de um bairro pobre que entre as brincadeiras de rua descarregam a energia no boxe. É uma coisa positiva estão a ver? Dá aos miúdos um objectivo e afasta-os da realidade brutal da rua. Praticam um desporto, adquirem disciplina e descarregam a bílis. Está implícito. É um retrato. E ficamo-nos por aí.
 “Remissão Completa” completo com uma alusão ao cancro é uma estória em tons de rosa. Um homem odioso, daqueles que têm tudo menos um coração perde a razão de ser quando perde a mulher para um cancro. Ele retirava tudo a quem tivesse de ser, para seguir as ordens rígidas, cegas do banco para o qual trabalhava. Um dia, uma das suas vítimas diz-lhe algo que ressoa dentro dele. Como umas palavras ecoam dentro de um corpo oco é um enigma mas é o que acaba por suceder depois do Karma fazer das suas. O mal que lançou para mundo é-lhe agora devolvido. Perde a mulher que amava – notem que no inicio ele está numa discoteca a beijar uma mulher que poderá não ser a esposa –, passa a viver num quarto arrendado com uma velha senhoria (pobre coitado) até que um dia encontra a hipótese. Não, o desejo, da redenção numa boa acção. A moral da estória não é a de que “um Homem pode mudar” mas a de que se cometer um acto altruísta resultante de um desejo egoísta: “se eu fizer uma boa acção, eu poderei ser melhor logo, terei uma boa vida novamente”, isso, não é censurável. E para concluir o facto de ele se ter tornado uma pessoa melhor, ele necessita de narrar aquilo por que passou a um amigo de infância. Narcísico no mínimo. A grande vitória do pouco que tive oportunidade de assistir nesta sessão “Not a Film About Us” foram as ideias havidas e não necessariamente o modo como foram retratadas. Duas estrelas e meia.

Curta-metragem #1: “A Máquina”
Realização: Mafalda Marques

Curta-metragem #1: “Emília”
Realização: Diogo M. Borges
Argumento: Diogo M. Borges

Curta-metragem #3: “Fúria”
Realização: Diogo Baldaia
Argumento: Diogo Baldaia e Manuel Rocha da Silva


Curta-metragem #4: “Remissão Completa”
Realização: Carlos Melim
Argumento: Frederico Ferreira

Próximo Filme: "The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...