domingo, 16 de Novembro de 2014

"Happy Birthday to Me" (1981)


A blogger que mais amam completou X primaveras em Novembro (não estavam mesmo à espera que dissesse quantos aninhos fiz, pois não?) e decidiu que a melhor forma de comemorar esse grande evento seria procurar um filme retro, de preferência sobre um aniversário – que esta pessoa não tem jeito para metáforas –, e chorar para o ecrã enquanto assiste a algumas mortes originais (à época). Como tal e bem poderão inferir, a semi-ausência desta excelsa pessoa deveu-se a estar a fazer “coisas”, aka há vida além do computador e filmes para ver sobre os quais nunca irão ler uma linha escrita por mim.

De facto, de há uns tempos a esta parte, esta pessoa tem-se entretido a recuperar alguns clássicos americanos (incluindo Canadá), nomeadamente ente o final dos anos 70 e inícios dos anos 80 (“Halloweeen”, Tourist Trap”, “Black Christmas”, The Funhouse”, por aí fora). Enfim, os anos que verdadeiramente importam, no que toca ao subgénero slasher americano e redescobri duas questões: que os filmes eram tão mais divertidos na altura e as mulheres eram ainda olhadas com uma visão ingénua. Talvez uma bomba sexual, talvez uma frágil donzela mas, raramente uma assassina. Insólito para um blog que faz vida da desmontagem do mito da descabelada que sai de aparelhos eléctricos e mata as suas vítimas de susto.

“Happy Birthday to me” segue a fórmula quando esta ainda nem sequer era identificada como tal. Uma heroína frágil, um grupo mais ou menos extenso de jovens que irão sofrer uma morte horrenda e um assassino com requintes de malvadez. Para quem aprecia o género pouco mais se exige, não é? Ginny Wainwright, interpretada por Melissa Sue Anderson que tenta descolar-se da sua personagem em “Little House on the Prairie” (1974-1983) pertence à elite de jovens ricos da Academia Crawford que se auto-denominam “Top Dez”. Ela esteve uns anos afastada devido a um evento traumático no passado. Quando os amigos começam a ser assassinos por um desconhecido, as memórias dolorosas que tinham recalcado são despoletadas. Segue-se um jogo de interrogações: é Ginny a culpada ou não? Se não, quem será? Porque se não, a realização está a fazer um esforço tremendo para que todos os caminhos vão dar a Ginny…

Sendo um clássico “Happy Birthday to me” acerta em todas notas habituais excepto na da nudez. Quase um dado adquirido, nos filmes anteriores e nos que lhe seguirem em “Happy Birthday to me” o expoente máximo de marotice é quando Etienne (Michel-René Labelle) rouba umas cuecas do quarto de Ginny. O cinema americano alimentando o sonho de stalkers desde sempre. O elenco é deliciosamente terrível. Ver adultos a interpretar adolescentes hormonais com as falas mais pirosas de sempre é aquilo de que são feitos os sonhos tecnicolores dos anos 80. É isso e os penteados e roupas datados. E tentar imaginar o que terá acontecido com as carreiras daqueles actores após o filme. Tirando um Matt Craven reconhecível, a obscuridade e a idade ocupou-se de todos eles. Apesar de datado “Happy Birthday to Me” é tudo quanto se poderia esperar de um slasher. O assassino é elusivo e algumas mortes são interessantes. Ter pena de "miúdos" que pertencem a um clube de elite que personifica tudo o que está mal com a sociedade contemporânea é para fracos. De destacar uma morte que faz recordar o incidente mortal infeliz de Isadora Duncan, o pior pesadelo de um halterofilista e ainda a cena icónica que teve direito ao poster clássico do filme, “morte por uma espetada”. A ideia é bastante superior à concretização mas que é inventivo, isso, ninguém pode negar. De referir que, com um bom número de personagens para matar, o filme é sempre abrir. Para os habituados ao género “Happy Birthday to Me” não assustará mais do que as criancinhas que espreitam pela primeira vez por entre a fresta de uma porta para descobrir o que é o “terror” e porque é que os mauzões dos pais não a deixam assistir àquilo. Vale mais pelo jantar diabólico final, onde um plano maléfico é revelado, com o velho crime passional com laivos de complexo de Electra e muito mimo à mistura a constituírem o motivo, enquanto se entoa a solitária canção: “Parabéns a mim”...

O melhor:
- Mortes inventivas
- Segue fórmula slasher à risca (se gostarem disso claro)
- Faz-nos suar para tentar perceber quem é o assassino.

O pior:
- Reviravolta final
- Datado


Realização: J. Lee Thompson
Argumento: John C. W. Saxton, Peter Jobin e Timothy Bond
Melissa Sue Anderson como Virginia “Ginny” Wainwright
Glenn Ford como Dr. David Faraday
Lawrence Dane como Hal Wainwright
Sharon Acker como Estelle Wainwright
Frances Hyland como Mrs. Patterson
Tracey E. Bregmam como Ann Thomerson
Jack Blum como Alfred Morris
Matt Craven como Steve Maxwell
Lenore Zann como Maggie
David Eisner como Rudi
Lisa Langlois como Amelia
Michel-René Labelle como Etienne Vercures
Richard Rebiere como Greg Hellman
Lesleh Donaldson como Bernadette O'Hara

Próximo Filme: "Rigor Mortis" (Geung si, 2013)

domingo, 2 de Novembro de 2014

"The Theatre Bizarre", 2011


Em finais do século XIX abriu em Paris o “Grand Guignol”, um teatro dedicado à encenação de experiências de terror naturalistas. À época, os efeitos “especiais” eram tão realistas que provocavam reacções na audiência como o desmaio ou o vómito. Com o advento da Segunda Grande Guerra as audiências começaram a escassear, até que por fim o teatro bizarro fechou as portas de vez. A vida real era afinal mais horrenda que a ousada encenação parisiense. “The Theatre Bizarre” é pois uma homenagem à História do “Grand Guignol”, onde sete realizadores tentam recriar uma noite deste teatro do horror sob o conveniente formato de antologia.

“Enquadramento” - A jovem Enola Penny (Virginia Newcomb) sente-se fascinada com um antigo teatro abandonado. Um dia, ela atreve-se a entrar no edifício devoluto e descobre que os actores estão bem vivos e dispostos a interpretar um último show. O espectáculo conduzido pelo fantoche humano Peg Poett (Udo Kier) apresenta-a a um mundo de bizarrias… Seis estórias: para ser exacto.

“Mother of Toads” – Obcecado com o “Necronomicon”, um livro raro sobre o oculto, um casal percorre o cenário bucólico francês em busca de uma pista deste. Lá, deparam-se com uma idosa demasiado disponível para lhes dar as boas novas que anseiam. Sucedem-se um abandono, um engano e uma traição. Talvez tenham sido as forças mágicas que escondem os segredos do livro que os encontraram.

“I Love You” – Um casal demonstra que do amor ao ódio a distância é pouca. Axel (André Hennicke) começa a enlouquecer à medida que as suas neuroses e paranoias de traição se revelam reais e a esposa cruel o levam a um comportamento destrutivo.

“Wet Dreams” – Um Homem (James Gill) inquieto conta ao psiquiatra os pesadelos recorrentes que o atormentam. No mundo dos sonhos, a sua esposa (Debbie Rochon) é uma sádica que retira prazer da sucessiva mutilação e humilhação do marido. Como se vem, mais tarde a perceber, as causas do sonho podem ter que ver com os seus próprios esqueletos no armário.

“The Accident” – Mãe (Lena Kleine) e filha (Mélodie Simard) têm uma conversa sobre um dos temas que mais aterrorizam um pai: a morte. Em viagem, cruzam-se com o acidente que provocou uma vítima. As questões inevitáveis da menina levam a mãe a contar-lhe de modo franco mas delicado o significado da morte.

“Vision Stains” – Uma toxicodependente (Kaniehtiio Horn) com uma escolha de droga peculiar. Ela está obcecada com as memórias e imagens das outras pessoas e pretende absorvê-las. Descobriu o modo prefeito de as preservar, injectando o fluído ocular das suas vítimas nos seus próprios olhos.

“Sweets” – Se alguma vez houve uma relação disfuncional ela é a de Estelle (Lindsay Goranson) e Greg (Guilford Adams) que vivem para o maior dos pecados: a gula. A sua relação está um caos e Greg continua a humilhar-se, empanturrando-se para a delícia de Estelle. Mas isso não chega para saciar a namorada. A relação só poderá resultar se o já obeso Greg se sacrificar.

Entende-se “Bizarria” por “característica do que é estranho, grotesco ou incomum”. Ora como fãs de terror que somos (se não são, façam-me a vontade), sabemos como é complicado encontrar uma longa-metragem de terror original. Mesmo que se decomponha o género de terror em subgéneros como “gore”, “psicológico” (admito que a definição deste é dúbia), “assassínio”, “monstros” e “paranormal” afirmar a diferença é tarefa difícil se não mesmo impossível. Se tudo já se fez, então o que poderá ser considerado de facto “bizarro”? Pelas propostas de definição apresentadas, “incomum” não será, pelo que resta a possibilidade de “The Theatre Bizarre” se poder identificar com estranho ou grotesco.

sábado, 1 de Novembro de 2014

TCN 2014: Nomeados Artigo de Cinema


Somos o chamado nicho. Não apelamos a muitos mas também não é preciso porque não somos todos iguais nem gostamos todos do mesmo. O que vemos, isso sim, é um artigo descontraído, despreocupado até, sobre as heroínas que nos inspiraram a criar este espaço entre Monstros. Cada novo ano, cada novo gosto, cada nova partilha, cada nova menção, demonstram que pequeninos só de tamanho, que devemos ser grandes nos corações de alguns. Obrigada.

NOTA: As votações estão disponíveis no Girl on Film. Não se esqueçam de visitar o nosso artigo e o dos outros nomeados antes de tomar uma decisão. (Mas se escolherem a nossa selecção de scream queens não nos chateamos nada). Poderão ainda encontrar toda a informação sobre nomeados e votações aqui.

domingo, 19 de Outubro de 2014

"Invitation Only" (Jue Ming Pai Dui, 2009)


Wade Chen (Bryant Chang) é o motorista de Yang (Jerry Huang), o presidente de uma grande empresa sediada em Taiwan, o qual inveja com todas as forças. Ele tem tudo o que o preguiçoso Chen gostaria de ter: rios de dinheiro, uma namorada supermodelo e carros de luxo. Um dia, Wade é apanhado a observar Yang a ter relações com Dana (Maria Ozawa) e este responde com um convite insólito. Wade é convidado a participar numa festa exclusiva onde pela primeira vez tem contacto com a vida da elite. Lá, ele explora ao máximo aquilo com que apenas poderia sonhar: jogar as apostas mais altas, conviver com os famosos, uma noite com Dana e até, a oferta de um carro desportivo. Parece bom demais não é? 
Só entra com convite
Wade e outros convidados são atraídos para uma sala onde descobrem que a sua presença ali faz parte de um plano malicioso. Eles foram convidados para constituir a sobremesa (figurativa) dos seus anfitriões. Aquilo é um jogo e eles não são os jogadores. Foram atraídos para a festa para os ricos e poderosos poderem dar azo à suas fantasias mais sádicas.
A senda de Wade encontra eco no próprio filme. “Invitation Only” é um primo invejoso das películas de torture porn. “Saw”, “Hostel” e outros que tais, são a óbvia inspiração de um filme que se apresenta com o slogan de “1.º Slasher Originário de Taiwan”. O engenho complexo de um e a luta de classes do outro são subaproveitados e amalgamados numa única noite de tortura. As classes baixas são humilhadas. Apresentadas como falsas e invejosas, visto que até encarnam entidades falsas para se enquadrar entre os ricos. Como se isso fosse importante. Note-se que é suposto odiarmos os ricos por brincarem com os indesejáveis pobres que são odiados apenas por pertencerem a uma determinada condição social. A qual, se calhar, nem sequer é controlada por eles. Mas tal é o argumento para que a audiência mantenha os níveis de adrenalina elevados. 

“Invitation Only” está cheia dos lugares-comuns do género pelo que afirmar que “Invitation Only” se desenrola na Europa ou na Ásia, é indiferente. No máximo, os actores asiáticos são tão maus ou piores que os actores originais que pretendem emular. Quase nunca algum dos personagens se assemelha a uma pessoa real pois, todos eles parecem, sem excepção, autênticas bestas. Isto leva-nos a questionar se tal não será, de certo modo, uma protecção dos argumentistas. Como se criar sentimentos pelas pessoas que irão morrer de forma horrenda fosse provocar aflicção junto das audiências. O que eles não sabem é que a simpatia pelos personagens pertence à fórmula que nos faz gostar de um filme. O orçamento é diminuto, os diálogos são atrozes, as personagens caricaturas e poucos aparentam saber o que estão a fazer. Apenas os momentos de tortura são eficazes embora, até esses, não sejam nada de original ou brutal por comparação com os procuram imitar. A cena de sexo gratuito com a actriz pornográfica Maria Ozawa também é capaz de agradar a quem gosta do seu terror com um pouco de erotismo. Mas se o motivo for a actriz, não há por que não ver directamente um “filme” dela a sofrer através do primeiro terço de filme para lá chegar. 
“Invitation Only” é como um convite indesejado. À primeira vista, o convite parece aliciante e alinhamos até que percebemos que fizemos asneira e é tarde demais. O filme é um desperdício de tempo e quando olhamos para o relógio chegamos à conclusão que já vimos metade. É impossível desistir agora. O fim? O terror da possibilidade de uma sequela. Uma estrela.

Realização: Kevin Ko
Argumento: Sung In e Carolyn Lin
Bryant Chang como Wade Chen
Maria Ozawa como Dana
Julianne Chu como Hitomi
Kristian Brodie como Warren
Jerry Huang como Presidente Yang
Vivi Ho como Holly

O melhor:
- As cenas de tortura
- Maria Ozawa (quando está calada)

O pior:
- Imita filmes que já não são muito bons e ainda faz pior
- Argumento é tão ridículo que darão por vós a rir-se da improbabilidade das situações
- Consegue ser um tédio


Próximo Filme: "The Theatre Bizarre", 2011

domingo, 5 de Outubro de 2014

"The Chanting" (Kuntilanak, 2006)


Antes de se tornar a “Hammer Girl”, a assassina icónica dos óculos de sol ultra estilosos que transportava dois martelos mortíferos em “The Raid 2: Berandal” (2014), Julie Estelle era a miúda sensação dos filmes de terror indonésios. Em 2006, ela participou em “Kuntilanak”, um dos dois filmes e meio de cariz sobrenatural cque ostentam uma qualidade razoável e em “Macabre” (2009), onde encarnou a “final girl” capaz de escapar a uma família de canibais sedentos de sangue.

Em “Kuntilanak” Estelle interpreta Samantha, uma rapariga que após a morte da mãe foge de casa para escapar às investidas amorosas do padrasto. Sam recusa-se a aceitar o apoio do namorado Agung (Evan Sanders) que não esteve ao lado dela quando a mãe dela morreu e procura refúgio numa residencial de estudantes. Esta é gerida por Yanti (Lita Soewardi) uma mulher supersticiosa que lhe explica as regras do local e lhe conta como o edifício teve um incêndio há muitos anos, sendo propriedade, nos dias de hoje, da elusiva Madame Mangkujiwo (Alice Iskak). Segundo a tradição local, a árvore em frente à residência é habitada por um demónio, motivo pelo qual, a população evita passar ali, à excepção de jovens estudantes com parcos recursos e desconhecimento da História. A acreditar no folclore local, o monstro pode ser convocado através de um encantamento que procede a entoar. Se ele aparecer e o som parecer próximo é por que na verdade ele encontra-se ainda longe. Se, por outro lado, se ouvir uma gargalhada distante ele encontra-se mais perto do que se poderia pensar. Claro que tudo não passa de um conto de gente supersticiosa. No entanto, após esta interacção Sam nunca mais é a mesma. Ela fica fascinada pelo espelho que possui no seu novo quarto que aparenta possuir poderes místicos e mostra um comportamento irascível crescente. Em simultâneo o corpo dela inicia a demonstrar sequelas físicas. Em breve, aqueles que a maltratam começam a surgir mortos. Será que a dor que sente a está a transformar num monstro? Será tudo obra de uma mente bem mais maléfica ligada ao mundo dos espíritos?

No totoloto que é o cinema de terror indonésio, “Kuntilanak” é uma das experiências mais entusiasmantes e seguras. Uma tendência da indústria e, em particular, no género de terror é a utilização exagerada da técnica da subexposição. Esta serve uma dupla função: utilizar a ausência de luz como modo de acentuar o sentimento de desconforto e, o mais provável, tentar disfarçar na ausência de cor, as deficiências do orçamento que se denotam por demais nos cenários e “efeitos especiais”.  Em “Kuntilanak” são evidentes os dois lados da moeda. Durante o dia é utilizada a sobreexposição que acaba por ter o mesmo efeito de disfarçar eventuais deficiências e de conferir uma atmosfera de desconforto genuíno e não apenas ensaiado. “Kuntilanak” continua a apostar na velha fórmula de jovens na maioria bonitos e um pouco parvos, para quando estes encontrarem o fado, não termos pena excessiva deles. O que lhes acontece é menos importante que os demónios de Samantha. É em Estelle que se encontra o potencial e na tragédia da personagem uma estória mais do que vaga. A morte da mãe dela, a relação péssima com o namorado e a sugestão de abuso por parte do padrasto são material muito mais interessante do que criaturas rastejantes de cabelos compridos. A mente perturbada aliada às estórias contadas para assustar a pequena e adultos em semelhante medida constituem o ingrediente ideal. A ideia de que Sam finalmente quebra perante a pressão e ataca em todas as direcções é tentadora mas ainda assim uma improbabilidade. Só que à época, Julie Estelle era ainda uma actriz verde e o argumento demasiado óbvio. Talvez por isso é que quando Sam entoa o encantamento pela primeira vez a imagem parece ridícula ao invés de desconcertante. Afinal, “Kuntilanak” continua a constituir um mistério sobrenatural. Três estrelas.

Realização: Rizal Mantovani
Argumento: Ve Handojo e Rizal Mantovani
Julie Estelle como Samantha
Evan Sanders como Agung
Ratu Felisha como Dinda
Alice Iskak como Madame Mangkujiwo
Lita Soewardi como Yanti
Ibnu Jamil como Iwank

Próximo Filme: "Invitation Only" (Jue ming pai dui, 2009)

domingo, 28 de Setembro de 2014

"Life After Beth", 2014


Pessoal, o “Shaun of The Dead” aconteceu há dez anos. E, se sim, quase todas as comédias de terror de zombies são comparadas àquele filme, chega um momento em que temos de seguir em frente. As comédias de terror com zombies após o “Shaun of the Dead” não são, nem devem querer ser este último. É o mesmo que os críticos da velha escola, que sempre que vêem um filme de zombies remetem sempre para um certo George E. Romero. São referências é certo, mas estas não se podem substituir às películas que assistimos no presente apenas por que na altura fizeram tanto pelo género.
Quando Beth (Aubrey Plaza) morre após ser picada por uma serpente o seu namorado Zach (Dane DeHaan) fica de rastos. Ele ganha uma obsessão mórbida com todas as questões relacionadas com Beth, começando até a passar longos períodos fora de casa, na companhia dos pais desta, Maury (John C. Reilly) e Geenie (Molly Shannon). Os pais e o irmão Kyle (Mathew Gray Grubler) não compreendem que ele perdeu o amor da sua vida, ainda que a relação estivesse a atravessar problemas. Se calhar até acham que ele está a caminhar para a depressão, envolvido que está nas longas sessões de masoquismo em casa de Beth. Aquilo que foi o modo encontrado por Zach para mitigar a dor que sente no coração é-lhe um dia retirado repentinamente. Os pais de Beth deixam de lhe abrir a porta e de o acolher na sua casa, no seu peito. Está na altura de esquecer Beth. Mas ele não está pronto e o que vê um dia choca-o até à sensatez. Beth está na casa dos pais, não se recorda do que lhe sucedeu e continua ainda bastante apaixonada por ele. Onde os pais dela vêem um milagre, Zach vê uma tragédia prestes a acontecer: Beth é um zombie.

“Life After Beth” aborda uma experiência ainda pouco aflorada nos filmes de zombies. O que sucederia se a pessoa que mais amassemos no mundo se tornasse um zombie? Como tanto se tem assistido, quer no cinema quer em televisão, os protagonistas são rápidos a tomar a decisão definitiva, a da morte irrevogável daqueles com quem partilhavam a vida íntima. Ainda que a decisão seja motivada pela compaixão, isto não significa que o acto seja tomado com facilidade. Aquelas personagens que o argumentista tentou convencer-nos de que estavam a atravessar o apocalipse das suas vidas tornam-se desumanas em segundos. Mas “Life After Beth” nunca chega a ser uma tragédia, pois todas as fases da aceitação da morte de um ente querido estão minadas de piadas. A aceitação cega da “segunda vinda” de Beth pelos pais desta, a apatia dos pais Zach e a obsessão do irmão deste com a autoridade constituem pistas para a conclusão mais improvável de todas, o amante de Beth é o menos louco de entre os loucos. Outra inovação é talvez, o enfoque dos personagens nas suas próprias vidas. Estão tão “casados” com a sua própria realidade que não questionam o que sucede em seu redor. E afinal, o que é que está a acontecer mesmo? “O Zach está com uma depressão porque vê a sua namorada morta? Os mortos voltaram à vida? Desde que não interfira com as nossas vidas”. Talvez a ideia mais poderosa seja essa: a de que o Homem é um ser fundamentalmente egoísta e que aceita quase tudo desde que não mexam com a sua comodidade. Ninguém deseja ser um herói, tirando a dada altura Kyle, mas até este é motivado pelas suas próprias razões lunáticas.
Dane DeHaan, aka sósia do Leonardo DiCaprio continua a dar ares de cochorrinho abandonado mas sem enjoar. A sua personagem é a que apresenta maior densidade emocional: tristeza profunda, descrença, alegria, luxúria, está lá tudo. Já Aubrey Plaza nasceu para ser uma zombie. Há qualquer coisa de pouco convencional nesta actriz que lhe dá um certo sentido de perigo e a torna perfeita para os papéis que, regra geral, não funcionam em mulheres glamorosas que necessitam, no mínimo, de um nariz prostético para se parecerem com algo que não elas próprias. Eles estão rodeados por um grupo de actores com décadas de experiência entre si que interpretam personagens unidimensionais é certo, mas nunca surge a sensação de que alguém está a remar contra a maré. Eles acreditam e fazem crer nas parvoíces que saem da boca daqueles personagens.

Quem espera os comos e os porquês de um apocalipse zombie irá sair muito desiludido de um visionamento de “Life After Beth”. Da herança de sangue e terror resta muito pouco. Promete apenas gargalhadas descomprometidas. Há algum problema com isso? Três estrelas.

Realização: Jeff Baena
Argumento: Jeff Baena
Aubrey Plaza como Beth Slocum
Dane DeHaan como Zach Orfman
John C. Reilly como Maury Slocum
Molly Shannon como Geenie Slocum
Mathew Gray Grubler como Kyle Orfman
Cheryl Hines como Judy Orfman
Paul Reiser como Noah Orfman

Próximo Filme: Kuntilanak, 2006

domingo, 14 de Setembro de 2014

"71 into the fire" (Pohwasogeuro, 2010)


Todos os países padecem de momentos menos felizes, uma espécie de loucura colectiva que leva a que irmãos combatam entre si, traumatizando gerações inteiras. No meio destes eventos surgem histórias de coragem, façanhas enaltecidas pelos que foram favorecidos por elas e cujos pormenores negativos são propositadamente obscurecidos de modo a alimentar um sentimento patriótico nas gerações futuras. “71 into the Fire” é baseado numa estória verídica que decorreu durante o conflito coreano (1950-1953), na qual 71 estudantes com pouca ou nenhuma formação militar aguentaram durante 11 horas, uma escola em Pohang, ponto estratégico fulcral para os invasores norte-coreanos da companhia 766.

A narrativa apresenta Seung-hyeon Choi como Jang-beom Oh, um estafeta aterrorizado que é colocado na posição ingrata de líder dos estudantes que são largados numa pequena escola para raparigas em Pohang. Depois de falhar espetacularmente num primeiro confronto com o inimigo, ele recebe o voto de confiança do Capitão Seok-dae Kang (Seung-woo Kim) para guardar a escola que, à partida não deverá constituir um alvo importante para o exército norte-coreano. As circunstâncias mudam e os 71 jovens mal preparados e com poucas munições encontram-se perante um exército arrogante, numa manifestação de força e sem qualquer apoio daqueles que os destacaram para a posição. “71 into the Fire” foca-se mais na batalha interior de Jang-beom se erguer à altura da situação como convém e inspirar os camaradas para a batalha das suas vidas. Desde o início a sua liderança é questionada pelo delinquente Gap-jo Koo (Sang-woo Kwon) e os que este recruta para o seu "lado". Para ele não existe um verdadeiro sentido de causa, o mundo é um lugar aterrador, onde é cada um por si. Não existe lugar para heroísmo ou sentimentalismo. Se calhar é o personagem mais realista em toda a película. Mas felizmente, a história faz-nos recordar que há lugar a milagres quando as pessoas se juntam para combater as forças do mal (o que quer que elas sejam). Gap-jo Koo cai na armadilha de se aproximar dos camaradas que atravessam a mesma situação e nos momentos críticos, revela-se o anti-herói que os setenta companheiros de desventura merecem e a bomba de oxigénio perfeita para Jang-beom descobrir a força que lhe faltava para os liderar.

Se a primeira metade do filme se arrasta, são os últimos momentos antes do embate que melhor demonstram o que aqueles jovens deverão ter sentido antes do embate. Num momento eram crianças, no outro os seus olhos assustados mostravam-nos como Homens. A reconstituição histórica sofreu uma influência óbvia de filmes mais realistas como “Saving Private Ryan”(1998) o que certamente o eleva acima do mero instrumento de propaganda baseado em factos reais. O elenco é também competente sendo que o mais conhecido será o cantor pop T.O.P. (Seung-hyeon Choi) que no papel de um introvertido e pouco confiante líder não compromete, demonstrando até que com tempo e experiência terá muito mais a dar no campo da 7ª Arte. Uma jogada de mestre, pois atrai as fãs do “cantactor” sem alienar quem procura um filme mais sério. O final é o standard do género com explosões, discursos inflamados e acrobacias de cortar a respiração. O prazer adiado por vezes sabe melhor e no caso em questão, fora ele mais tardio e “71 into the Fire” perdia o motivo de interesse. De facto, as tácticas para ganhar tempo e o confronto directo só pecam por escassez. “71 into the Fire” não é original mas cumpre a promessa de uma estória empolgante que poderá agradar quer a sul-coreanos quer a um público internacional. Três estrelas.

Realização: John H. Lee
Argumento: Man-hee Lee, Dong-woo Kim e John H. Lee
Seung-hyeon Choi como Jeong-beom Oh
Sang-woo Kwon como Gep-jo Koo
Seung-woo Kim como Seuk-dae Kang
Seung-won Cha como Moo-rang Park

Próximo Filme: "Life After Beth" (2014)
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