domingo, 23 de agosto de 2015

Colaborações #5


Férias pá! Distraem qualquer um. Por isso desculpem lá o esquecimento em avisar que participei no 1.º episódio do podcast do Manuel Reis “O que quer que isto seja” sobre o filme de tubarões e tornados mais fixe de sempre: o “Sharknado” pois claro. Já agora, visitem e vão ficando porque se prevê muita coisa gira para aqueles lados.

domingo, 2 de agosto de 2015

“Sharknado 3: Oh Hell No!”


O canal SyFy fez dos filmes maus uma forma de arte. Onde outros com parcos recursos tentam fazer o melhor possível, o SyFy contínua convicto e orgulhoso na senda do pior possível para o maior número de gargalhadas. Algures ao longo do ainda curto percurso do canal, alguém decidiu apostar na fórmula fascinante dos “filmes tão maus que se tornam bons”. Por mais películas e séries, live-action ou animadas, que veja, recuso-me a acreditar que apenas com uma conta bancária recheada se conseguem concretizar bons projetos. Se existir uma boa estória, o céu é o limite. Mas também não posso afirmar que o inverso não seja verdade. Com uma narrativa ridícula talvez não se realize o filme do ano, se calhar nem no top 100 dos melhores filmes, mas uma experiência cinematográfica agradável está ao alcance de todos.

Adorava ser mosquinha na sala onde os criadores do primeiro “Sharknado” começaram a dar corpo à ideia. O que é que aterroriza mais as pessoas quando se encontram dentro do grande azul? Tubarões. Que fenómenos meteorológicos mais assustam os americanos? Tornados. Que actores reconhecíveis mas desesperados o suficiente para aceitar qualquer papel é que estão disponíveis? Um tipo do “Beverly Hills: 90210”, a loira gira do “American Pie” que destruiu a carreira à conta do álcool e actores de série C ou icónicos que já ninguém contrata.
Um incidente meteorológico que desafia a lógica da ciência gera um tornado com tubarões de diversas espécies no meio de centros populacionais. Encurralados pela intempérie, Fin (Ian Ziering) e amigos tentam salvar a família deste, incluindo a ex-mulher April (Tara Reid). Todos, incluindo aqueles actores por quem tiveram em algum momento uma certa estima, podem ser atacados e mortos do modo mais inventivo e idiota que possam imaginar: cortados ao meio por um tubarão, engolidos por inteiro ou até esmagados por um tubarão baleia. Melhor só mesmo as armas que os actores encontram para derrotar o peixe, como serras eléctricos, machados, bombas… Tudo é possível. A miscelânea de maus efeitos especiais, com uma estória em que nem uma criança de cinco anos acreditaria e actores que representam como se estivessem a ler um teleponto deviam ser ingredientes para o fracasso. Mas o resultado, absurdo e incrível em partes iguais é um sucesso tão estrondoso que hoje em dia, estrelas de cinema e televisão imploram para fazer um cameo na série. O ridículo vende e “Sharknado” nunca se assumiu como nada mais do que isso. Parte da piada advém do facto de todos os envolvidos no projecto saberem que a acção é absurda. Os actores disparam one-liners como quem respira e as referências à cultura popular são quase inquantificáveis. No universo de “Sharknado 3: Oh Hell No!” os tornados com tubarões surgem a qualquer momento para assassinar a vossa personalidade favorita ou mais detestada (Chris Jericho, Matt Lauer, David Hasselhoff, Kendra Wilkinson…) A trequela não é mais do que a repetição dos gags que funcionaram nos filmes que o antecederam, o primeiro focado nas “origens” do fenómeno e estabelecimento da dinâmica familiar, o segundo a aproveitar tudo o que resultou no anterior, em doses ainda mais elevadas. O terceiro amplifica as situações. Num momento temos Fin em Washington D.C. a ser condecorado pelos serviços prestados ao Estado (assassino de tubarões), no outro está, mais uma vez, a caminho da Flórida, onde está a criar mais um “sharknado” para salvar a família. Os filmes com tubarões do SyFy ficam tão bem numa sala de estar com a família, como as pipocas para as salas de cinema. Por isso para quê mexer no que funciona? Duas estrelas.

O melhor:
- O Ridículo

O pior:
- O Ridículo

Realização: Anthony C. Ferrante
Argumento: Thunder Levin
Ian Ziering como Fin Shepard
Tara Reid como April Shepard
Cassie Scerbo como Nova Clarke
Frankie Muniz como Lucas Stevens
Ryan Newman como Claudia Shepard
David Hasselhoff como Gilbert Grayson Shepard
Mark Cuban como President Marcus Robbins
Bo Derek como May Wexler
Blair Fowler como Jess
Michael Winslow como Brian 'Jonesy' Jones
Jack Griffo como Billy
Michelle Beadle como Agent Argyle
Ne-Yo como Agent Devoreaux
Chris Jericho como Bruce the Ride Attendant
Mark McGrath como Martin Brody
Ann Coulter como Vice President Sonia Buck
Melvin Gregg como Chad
Christopher Judge como Lead Agent Vodel

Próximo Filme: "Cult" (Karuto, 2013)

domingo, 19 de julho de 2015

"The Girl who leapt trough time" (Toki o kakeru shôjo, 2006)



"O tempo não espera por ninguém".

O Verão de uma vida. Amigos que ficam para sempre guardados nas mais doces memórias. Aqueles momentos que são mais vezes resgatados ao baú das recordações na mente, quando se refere a palavra “felicidade”. Ser jovem e despreocupado… pela última vez.

Makoto Konno (Riisa Naka) vive o sonho de qualquer adolescente. Passou um Verão fantástico a jogar baseball com os seus melhores amigos: o sempre bem-disposto Kosuke Tsuda (Mitsutaka Itakura) e o misterioso Chiaki Mamiya (Takuya Ishida). Por ela duraria para sempre mas o que é bom tem curta duração. A maria-rapaz descobre, ao recomeçar as aulas que continua tão desatenta e tão desastrada como sempre. Por algum motivo as pessoas se referem aos anos da adolescência como embaraçosos. Ela não consegue corresponder à pressão de um teste surpresa e consegue a proeza de provocar um incêndio durante uma aula de cozinha. Depois, já na descontracção misturada com a irritação daquele dia para esquecer, perde os travões da bicicleta durante uma descida ingreme e atravessa-se na frente de um comboio que a mata. Bem, mais ou menos. Nesse mesmo dia, Makoto entrou numa sala e para não variar, a moça desastrada cai em cima de qualquer coisa que despoleta um processo insólito. Qual “Groundhog Day” (1993), ela vê-se a repetir aquele mesmo dia e a verificar que pode alterar os acontecimentos de modo a lhe serem benéficos. A única pessoa em quem confidencia esta descoberta é Kazuko (Sachie Hara) a tia que trabalha num museu como restauradora de quadros que reserva ainda alguma juventude sonhadora e com certeza não a julgará pelas inúmeras indiscrições resultantes da sua imaturidade. Com o advento e percepção de tão grande poder seria expectável que Makoto o utilizasse para o bem comum, certo? Nada podia estar mais longe do pensamento da adolescente. A cultura popular e, em particular o cinema, desde heróis da banda-desenhada às forças policiais, não consegue exaltar com mais convicção do que aquela que já transmite que, quem se encontra numa posição de poder o deve utilizar de forma ponderada, comedida e até com alguma humildade para o bem de todos. O problema nesta linha de raciocínio é que pressupõe que qualquer herói, participante e relutante em igual medida, possui uma visão do todo, integrada. A realidade dita o oposto. Muitas vezes, mais do que seria desejável, o poder cai em mãos indesejadas que não vêem além dos seus próprios desejos fúteis e também destruidores. Makoto adquire um poder que nunca desejou e dedica-se com um toque de ingenuidade, sem egoísmo e com alguma ausência de experiências transformadoras, a melhorar aos poucos a sua própria vida. Melhores notas nos testes? Um pouco mais de tempo de diversão? Evitamento de tarefas aborrecidas? Ela satisfaz todos os caprichos. Quando descobre que uma colega nutre sentimentos por Kosuke, o que poderá ditar o afastamento do amigo do grupo, tudo o que ela terá de fazer é evitar o acontecimento. Se lhe é sugerido que Chiaki poderá estar apaixonado por ela própria, consegue adiar o confronto. Antecipar e prolongar o prazer e adiar o sofrimento é possível. Eis que a realidade a atinge dura como a reprimenda de um pai zangado. As suas acções têm consequências. E a despeito de conseguir melhorar a experiência dela enquanto amiga, filha ou estudante, qual efeito borboleta, os outros à sua volta sofrem pelas falhas que ela não cometeu. Ela tem de tomar a decisão de arcar com as consequências e sofrer ou acolher a ideia de que terá de crescer e aprender a enfrentar as situações complicadas que daí advirão. “The Girl Who Leapt Trough Time” é sobre a jornada de uma rapariga banal e de um momento extraordinário na sua existência e que ressoa com pessoas de qualquer idade: uma criança porque gosta de animação, um adolescente porque se revê nas dores de crescimento ou até um adulto pela doce melancolia.

A animação não é a mais luxuriante que já se viu no cinema do género japonês ainda que a estória, brilhante, seja baseada na obra de Yasukata Tsutsui que escreveu o fenómeno “Paprika” (2006). Tanto a animação como o piano que patua a banda-sonora, servem de complemento à estória, não se pretendendo substituir a ela, como tantas vezes acaba por suceder. No entanto, existem alguns momentos fantásticos, seja nos momentos de quietude como o enfoque num “simples” crepúsculo ou uma Makoto numa corrida alucinada a não conseguir chegar a tempo – imagem forte de um ecrã a avançar cidade adentro, com a rapariga a ficar para trás. Escapa-se-lhe o tempo. Essa frase, descartada no início e inúmeras vezes repetida, ganha maior projecção até ao total (re)conhecimento por altura dos créditos. Vejam o quanto antes, afinal, “o tempo não espera por ninguém”. Quatro estrelas e meia.

O melhor:
- A animação, a narrativa, composição musical.
- Cinematografia
- A voz de Riisa Naka assenta na perfeição na extrovertida Makoto
- Mensagem transgeracional

Realização: Mamoru Hosoda
Argumento: Satoko Okudera e Yasukata Tsutsui (obra)
Riisa Naka como Makoto Konno
Takuya Ishida como Chiaki Mamiya
Mitsutaka Itakura como Kosuke Tsuda
Ayami Kakiuchi como Yuri Hayakawa
Sachie Hara como Kazuko Yoshiyama
Mitsuki Tanimura como Kaho Fujitani
Yuki Sekido como Miyuki Konno (irmã de Makoto)
Utawaka Katsura como pai de Makoto
Midori Ando como mãe de Makoto
Fumihiko Tachiki como Fukushima-sensei
Keiko Yamamoto como Obasan
Shiori Yokohari como Noriko Uesugi
Sonoka Matsuoka como Sekimi Nowake
Takayuki Handa como Kato

Próximo Filme: ?

domingo, 5 de julho de 2015

"Cold Prey" (Fritt Vilt, 2006)


Por mais anos que passem e, por mais dessensibilizados que fiquem, ainda existem slashers que conseguem, se não surpreender, pelo menos não insultar a nossa inteligência.

Um grupo de amantes de desportos radicais decide praticar snowboard nas remotas montanhas norueguesas, onde poderão divertir-se sem ser incomodados. O que poderia correr mal? A lei de Murphy entra em efeito. Morten Tobias (Rolf Larsen) tem um acidente aparatoso e parte a perna como se um galho se tratasse. Nesse momento que daria jeito que a civilização os acudisse, dão por eles a demasiadas horas de uma localidade e sem sinal de rede no telemóvel. Jannicke (Ingrid Berdal), Eirik (Tomas Larsen), Mikal (Endre Midstigen) e Ingunn (Viktoria Winge) vêem-se obrigados a arrastar o amigo até um velho hotel abandonado ali próximo antes que escureça para poderem tentar pedir auxílio pela manhã. Mal sabem eles que estão acompanhados e que o seu anfitrião mal pode esperar por lhes apresentar a sua picareta.

Até aqui nada de novo e… Daí em diante também não. O assassino de serviço é tão parco nas palavras como os que lhe antecederam mas não é adepto de disfarces. Não deve ter visto o “Halloween” (1978) ou qualquer coisa que o valha. A explicação mais simples é, tão-somente, que é indiferente usar um disfarce. A identidade dele não é importante e as suas vítimas ficam aterrorizadas com alguma rapidez. Com temperaturas negativas e sem populações num raio de vários quilómetros não é como se tivessem para onde fugir. De resto, o psicopata faz uso das convenientes ferramentas para a prática de desportos na neve. A necessidade de “fogo-de-artifício” é nula. A maior “novidade” de “Cold Prey” é que, pela primeira vez em muito, muito tempo, os personagens são simpáticos. Não escapam na totalidade aos estereótipos, (achavam que não ia haver pelo menos uma boazona seminua?), mas desta feita não é como instilassem instintos assassinos por parte do público. Podiam ser o vosso grupo de amigos. Outro toque de frescura, a que não é alheia a cultura nórdica é o facto de o líder natural do grupo ser Jannicke. Ao invés da mulher vulnerável que se revela numa altura de grande pressão ela demonstra ser forte e determinada a todo o momento. Não chega aos calcanhares da esquiva e calculista Erin de “You’re Next” (2011) mas faz tudo o que está ao seu alcance para levar a melhor sobre o seu caçador. A seu lado tem Eirik, um namorado que acha que está na altura de tomar o passo seguinte: viver juntos. Na congénere americana o passo seguinte seria evidentemente dormir juntos (revirar de olhos). Os restantes amigos variam entre o comediante e o melhor amigo, mas sem se excederem nos retratos.

“Cold Prey” não é um blockbuster mas é tão eficaz como qualquer produto massificado. Não abusando, porque não pode, nas cenas que evocam a emoção de repugnância, a construção de um ambiente atemorizante é a sua maior força. Sem se aperceberem passará a marca da meia hora com o grupo ainda intacto. “Cold Prey” toma o seu tempo a apresentar as personagens e a situação desconfortável em que se encontram. Isto, acompanhado pelas paisagens ofegantes das montanhas silenciosas da Noruega revisitadas inúmeras vezes para não nos esquecermos que ninguém os pode ajudar. O perigo, real encontra-se dentro das paredes de um hotel isolado e lá fora, no exterior gélido. Onde iam tentar a vossa sorte? Três estrelas.

O melhor:
- Um grupo de personagens com o qual nos conseguimos identificar
- Cinematografia
- Elenco sólido

O pior:
- A identidade do assassino. Anti-climático!
- Não tenta ser original

Realização: Roar Uthaug
Argumento: Thomas Moldestad, Martin Sundland e Roar Uthaug
Ingrid Bolsø Berdal como Jannicke
Rolf Kristian Larsen como Morten Tobias
Tomas Alf Larsen como Eirik
Endre Martin Midtstigen como Mikal
Viktoria Winge como Ingunn
Rune Melby como Fjellmannen
Erik Skjeggedal como Gutten
Tonie Lunde como Mor
Hallvard Holmen como Far

Próximo Filme: "The Girl who Leapt Through Time" (Toki o kakeru shôjo, 2006)

domingo, 21 de junho de 2015

"13: Game of Death" (13 Game Sayong, 2006)


Bem-vindos ao século XXI, era em que a dignidade humana passou em definitivo para segundo plano e a religião mais importante é a do dinheiro. O Homem não pode viver sem dinheiro e aquele que não lhe aceder contenta-se em observar o outro humilhar-se para o conseguir, porque nada é grátis.

Phuchit Puengnathong (Krissada Sukosol) é a mais recente vítima da conspiração universal para ver mais um Homem cair em desgraça. Enganado num esquema de um colega sem escrúpulos e sem alcançar os duros objectivos que lhe são impostos pela empresa é despedido. A somar à sua infelicidade, a mãe continua a gastar o dinheiro que ele acumulou com dificuldade e a namorada troca-o pela ambição de se tornar uma estrela pop. Desesperado e a acumular dívidas, Puchit alinha de imediato quando recebe uma proposta para ganhar 100 milhões de baht. Mas há um senão. Há sempre um senão. Ele terá de cumprir 13 missões. A primeira é simples: matar uma mosca. A segunda é comê-la e já deixa antever o que estará por vir. A escalada é brutal e a cada passo Puchit fica cada vez mais longe do que é bom e puro e mais perto do monstruoso. Não sendo desinteressado, Puchit também se apercebe que, tomando determinadas decisões não poderá voltar atrás. A ex-colega e amiga Tong (Achita Sikamana) é a única que tenta lutar por Puchit mas conseguirá ela salvá-lo?
A noção de transformar a vida dos personagens num jogo mortal não é propriamente nova: “Cube” (1997), “Saw” (2004), “Incite Mill” (2010), etc. Apenas varia o grau de conhecimento dos seus participantes e da audiência, que alterna entre a inexistência de informação e a exposição total. Puchit é um participante activo e tem perfeita consciência dos efeitos das suas acções sendo que apenas ignora a sua proeminência no grande esquema das coisas. A psicologia desta personagem é o que de melhor e mais intrigante “13: Game of Death” tem para nos apresentar. As armadilhas que lhe são apresentadas são brutais, repugnantes e assustadoras e constituem uma delícia para os fãs deste subgénero. É um parente interessante dos filmes anteriormente mencionados pelas sequências impressionantes, ainda que com efeitos digitais duvidosos. Apresenta também uma das reviravoltas mais espantosas dos seus congéneres que dita a convicção entre o ódio e o amor pela estória. Mas nunca foi tão interessante explorar o paradoxo de uma personagem que está disposta tudo para salvar a vida em ruínas, a mesma que destrói enquanto joga! Onde muitos hesitariam, Puchit não hesita em seguir em frente até à destruição total. O personagem não só não tem nada a perder como não se considera especial o suficiente para despoletar mecanismos de auto-defesa. “13: Game of Death” é inteligente em explorar a herança étnica de Puchit, filho de uma tailandesa e um cidadão americano, que nunca sentiu que pertencia a um local, já que os outros fizeram questão de o relembrar disso. Desde o pai, considerado o intruso que é capaz de pouco mais que violência e crueldade, passando pela mãe fraca que faz questão de o recordar da sua inferioridade, através das exigências pouco razoáveis e a criançada que ataca Puchit apenas por ele ser diferente.
Persistente, ele aguentou e aguardou sempre à sempre do pote de ouro no fim do arco-íris. Pelo que quando ele surge, Puchit não quer deixá-lo escapar, ainda que seja um presente envenenado. Três estrelas.

O melhor:
- O conceito
- A falência moral em que o personagem principal incorre
- Sequências muito impressionantes em termos visuais

O pior:
- Chega a um momento em que se torna impossível continuar a apoiar o personagem principal
- O desenlace

Realização: Chookiat Sakveerakul
Argumento: Eakasit Thairatana (estória) e Chookiat Sakveerakul
Krissada Sukosol como Phuchit Puengnathong
Achita Sikamana como Tong
Sarunyu Wongkrachang como Surachai
Nattapong Arunnate como Mik
Namfon Pakdee como Maew
Piyapan Choopech como Chalerm
Philip Wilson como pai de Phuchit
Sukanya Kongkawong como Mãe de Phuchit

O Próximo Filme: "Cold Prey" (Fritt Vilt, 2006)

domingo, 7 de junho de 2015

"Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)


A morte é gira, anda de fato, faz incursões pela Terra para ir buscar as suas vítimas e não, não se chama “Joe Black”. Esse é o filme de 1998. No caso presente, a personagem da Morte (e ele encarna-a tão bem), pertence a Takeshi Kaneshiro numa versão ingénua e doce.
Ele é conhecido por Chiba e é um dos enviados especiais para os assuntos da Terra relacionados com vida e morte. O procedimento é tão eficiente quanto simples. Abre-se um portal para o deixar transitar para o mundo dos vivos, introduz-se na vida da pessoa que lhe foi indicada e, em pouco tempo, terá de tomar uma decisão sobre a sua existência. O seu único companheiro, nesta tarefa solitária a maior parte do tempo é um cão negro que comunica com ele através da telepatia e sabe, e viu, muito mais do que ele. Ele faz de juiz e carrasco das pessoas que lhe são indicadas até que conhece Kazue Fujiki (Manami Konishi), uma jovem mulher triste que abraçaria com prazer uma morte precoce. Passam alguns anos Chiba é inserido numa estória sórdida que envolve um órfão que perdeu o norte e a máfia japonesa (yakuza). A sua terceira missão, mais calma, revolve uma cabeleireira que pretende cumprir um último desejo antes de transitar para o outro lado.

O questionamento sobre o sentido da vida não é a ideia mais brilhante ou mais original que já perpassou pelo cinema. A abordagem à temática já batida é o mais interessante. Doce como indica o título. Ao contrário de “Meet Joe Black”, “Sweet Rain” não se detém numa estória e tenta espremer todo o melodrama patente na realização de um romance impossível. “Sweet Rain” foca-se nas nuances, na sugestão ténue de um amor e apontamentos cómicos que não destoam com a seriedade da morte. Conhecido pela sua eficácia, Chiba questiona pela primeira vez a facilidade com que aceita o destino tal qual este lhe é apresentado. Perante uma situação de desespero, ao invés de aceitar com facilidade a morte como a única opção possível, sente um pesar pela incapacidade de realização do potencial da vítima. Sentimento que lhe era até então estranho. Caracterizado como convém a cada missão (atente-se ao vestuário questionável e penteando chunga na segunda missão ou a aparência de membro de uma boyband na última), ajudado pela sua boa parecença (pois que as pessoas estão mais predispostas a confiar em quem consideram bonito) e uma inocência que é mal julgada como humor, os personagens acabam por confiar com facilidade no estranho.

Chiba é intemporal mas é uma criança. Como se a existência como mensageiro da morte, fosse ela própria uma aprendizagem. Chiba atravessa três épocas diferentes e, a cada uma delas, as suas decisões vão se tornando menos extemporâneas, à medida que a sua compreensão das suas acções se aproxima de algo cada vez mais parecido com clareza. Também é comum o sentimento de melancolia a que não é alheia a selecção musical e que impacta ela própria as personagens. Para Chiba é uma das maiores criações da humanidade, para outras personagens significa dor, nostalgia ou catarse. Em simultâneo, Chiba lamenta o facto de as suas missões serem sempre acompanhadas de chuva. Irá ele ver um dia de sol?
“Sweet Rain” é bem carregado pelos ombros experientes de Takeshi Kaneshiro. À semelhança de outras grandes estrelas de Hollywood ele foi abençoado e amaldiçoado por uma aparência que faria pensar que é pouco mais uma face gira que será ultrapassada em breve pelas gerações mais novas e, tão parcas em talento quanto ele. Nada podia encontrar-se mais longe da verdade. “Sweet Rain” é como um calmo dia de chuva. Possui vários acontecimentos de elevada gravidade, no entanto, estes nunca são capazes de provocar reacções de choque. No final, permanece a sensação de que ar ficou mais leve, acompanhado de um aroma doce. Tal doçura pode ser atribuída ao desempenho sólido, mas subtil de Kaneshiro e de Manami Konishi e Sumiko Fuji em curtas aparições, que parecem querer dizer para a audiência olhar ao todo e não a cada uma das partes. Três estrelas e meia.

O melhor:
- O desempenho do elenco
- Uma nova abordagem a um tema muito explorado

O pior:
- Inexistência do factor uau que pode provocar algum aborrecimento
- Sentimento de que “Sweet Rain” nunca pretende ser pouco mais do que bom

Takeshi Kaneshiro como Chiba
Manami Konishi como Kazue Fujiki
Sumiko Fuji como Junko Fuji
Mitsuru Fukikoshi como Kentaro Oomachi
Takuya Ishida como Shinji Akutsu
Ken Mitsuishi como Toshiyuki Fujita
Jun Murakami como Aoyama
Erika Okuda como Takeko

Próximo filme: "13 Beloved" (13 game sayawng, 2006)

domingo, 24 de maio de 2015

"Ex Machina" (2015)

A célebre frase de Einstein sobre o Homem e o Universo: “Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana, e eu não tenho a certeza acerca do primeiro”, podia ser proferida acerca do pecado da vaidade. Quão vaidoso pode o Homem ser para pensar que a materialização da ideia de inteligência artificial é controlável? O Homem nunca foi ser para se deixar confinar à biologia e ao espaço em que se encontra. Porquê esperar que as regras não se apliquem a todos os outros?

Ex machina é sobre a concretização do sonho e os seus efeitos sobre os primeiros a lidar com esta realidade. A premissa é simples, o significado, esse, ultrapassa a mera aparência. Caleb (Domhnall Gleeson) foi escolhido de entre sabe-se lá quantos milhões, para passar uma semana com Nathan (Oscar Isaac), o esquivo criador do motor de busca mais utilizado no mundo, o Blue Book. Nathan apresenta a Caleb a oportunidade única de conhecer Ava (Alicia Vikander) um robot humanoide e a concretização do conceito de inteligência artificial, isto é, se ela passar numa prova. Escondido num paraíso natural, o centro de pesquisa de Nathan é idílico e misterioso em doses iguais. Sem hipótese de contacto com o mundo exterior (uma das regras do jogo) Caleb, apenas tem a companhia de Nathan, que quando não desaparece para trabalhar ou exercitar o corpo está a beber até cair e da bela Kyoko (Sonoya Mizuno) que não fala inglês. Paredes nuas e quartos sem janelas encontram-se longe da noção de conforto e ele acaba pois por dedicar a maior parte do seu tempo em sessões com Ava ou a observá-la através das câmaras que se encontram em todas as divisões. Os dias passam e as máscaras começam a cair, a decepção instala-se e a fronteira entre o real e o imaginário começa a esbater-se. Cabin Fever?

Diz que não se conhecem bem as pessoas até se viver com elas. No caso de Caleb, os seus comportamentos podem ser estudados mas há um limite para aquilo que os algoritmos nos conseguem contar. Quanto a Nathan o caso será mais clínico. Vaidoso, narcísico e egocêntrico, ele apresenta-se como um daqueles génios que têm a certeza absoluta que são melhores que os outros. Anti-social, por ser incapaz de aceitar opiniões contrárias utiliza o elogio como arma que apenas lhe serve até descobrirem que ele não é tão escrupuloso como se poderia julgar. Entrega-se ao trabalho e aos vícios com a mesma intensidade sendo incapaz de considerar sequer o fracasso. Este não existe, porque falhar não é uma hipótese. E na sua mente, Caleb é o homem ideal para testar a existência de humanidade na sua criação e provar a sua genialidade. Em última análise, é a sua vaidade que dita o desfecho, que é previsível, admitamos. Caleb é o ratinho de laboratório sobre o qual são testadas hipóteses só que ainda não sabe disso. Ele é susceptível a quaisquer estímulos e não consegue encontrar mecanismos, à semelhança de Nathan, para sobreviver a um ambiente adverso. Inteligente e crédulo, deixa-se manipular por quem souber esgrimir melhores argumentos e envolve-se a nível pessoal com o sujeito. Ava torna-se interessante para Caleb, num misto de fascínio científico com empatia pessoal, por oposição a Nathan que é do género de se cansar rapidamente. Para o seu criador, existirá sempre um projecto “depois de Ava”, mas será que ela tem noção disto?

Para os fãs de espectáculo, deste há muito pouco, até ao último terço deste filme de ficção de científica. O argumento de Alex Garland foca-se mais nas implicações morais da existência de seres como Ava no ambiente que os rodeia, do que quaisquer gadgets divertidos que possam surgir no ecrã. Porque o que está na base do seu desenvolvimento é o modo como o exterior irá reagir a esta. Teria de se ser surdo, mudo ou seriamente incapacitado em termos emocionais como Nathan, para ignorar esta questão. Faz recordar estórias como a dos “X-Men” que demonstra a humanidade no seu pior mas ao mesmo tempo tão ela própria, temendo e odiando aquilo que não consegue compreender. Será isto que espera Ava?
É natural a comparação com filmes anteriores como “Artificial Inteligence: AI” (2001) ou “I, Robot” (2004) pela temática e estética e, de onde decerto, Vikander terá ido buscar apontamentos para a sua Ava. No entanto, estes filmes são mais primos afastados de "Ex Machina" do que qualquer jogo de manipulação Hitchcokiano. Do cenário, à cor, ao som, tudo é cuidadosamente ordenado para provocar a mescla de sentimentos confusos que atravessam Caleb: surpresa, fascínio, confusão, piedade, temor… E depois existe uma “simples” máquina que surge sob a aparência de vulnerabilidade de Ava, sugerindo que não é preciso nada tão complexo como a inteligência para fazer o Homem prevaricar. Afinal, Ele é apenas humano. Quatro estrelas e meia.


O melhor:
- O resultado que se conseguiu alcançar com tão pouco
- O elenco fenomenal.
- Desafiante.

O pior:
- Previsibilidade

Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland
Domhnall Gleeson como Caleb
Oscar Isaac como Nathan
Alicia Vikander como Ava
Sonoya Mizuno como Kyoko

Próximo Filme: "Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)

domingo, 17 de maio de 2015

"The Inugami Family" (Inugami-ke no ichizoku, 1976)

O trailer não tem legendas mas não deverá ser difícil encontrar o filme com legendas em inglês

Sentados em torno do patriarca às portas da morte, nada faria imaginar as intrigas que assolam o clã. Para os seus momentos finais, mandou juntar as filhas Matsuko (Mieko Tkaamine), Takeko (Miki Sanjo) e Umeko (Mitsuko Kasabue), os respectivos maridos, os seus herdeiros Sukekiyo (Teruhiko Aoi), Suketako (Takeo Chii) e a irmã Sayoko (Akira Kawaguchi) e Suketomo (Hisashi Kawaguchi). Ao grupo junta-se ainda Tamayo Nonomiya (Yoko Shimada) uma jovem por quem o velho criou afecto em final de vida. Terá sido a primeira vez em muitos anos que a família se reuniu. Transpira um desconforto e desconfiança mútuos ocultos sob a aparência do decoro. Apenas têm de aguardar uns momentos mais pela morte de Sahei e logo conhecerão os termos do testamento. O anúncio é chocante para todos. Sahei (Rentaro Mikuni) voltou a ter a última palavra. A fortuna reverte na totalidade para Tamayo se esta aceder a contrair matrimónio com qualquer um dos netos de Sahei.
A fúria e surpresa tomam conta dos presentes. Depois de tantos anos de submissão forçada as irmãs, em especial a calculadora Matsuko, sentem que o mínimo que mereciam era o dinheiro que as manteve prisioneiras na mansão de Sahei e afastou as suas mães biológicas. À intrusa Tamayo acorrem com a ameaça e a lisonja tão inata à família. Ela terá de tomar uma decisão na competição para descortinar quem ganha o prémio. Qual dos filhos pródigos irá assegurar a fortuna de um ramo da família? O previdente advogado que acompanhou os últimos desejos de Sahei teme o pior e manda chamar o detective Kosuke Kindaichi para com o tacto e discrição assegurar que nada de mal ocorre durante a transição. Quando o contractante de Kindaichi é envenenado e vários membros da família começam a surgir assassinados de forma macabra, Kindaichi junta-se às autoridades para descobrir a identidade do assassino e impedir o surgimento de novas vítimas.

O Clã Inugami ou uma família perigosa para pertencer
“The Inugami Family” foi realizado em 1976 e parece tão antiquado e tão moderno quanto um policial de ficção histórica consegue ser pois que a história é universal e tão antiga quanto o próprio tempo. Apenas se nota como é datada, por via dos métodos de investigação policial e a perda de fulgor da figura do detective a favor das forças policiais por oposição à actual obsessão com os avanços tecnológicos disponiveis no século XXI, que se constata por uma oferta excepcional de séries como “CSI”, “Criminal Minds”, “Fringe”, entre muitas outras. Agatha Christie seria a influência óbvia para os amantes do personagem do detective que serpenteia por entre a intriga deixando os suspeitos falar até deixarem escapar informação que eventualmente os condena à prisão. Desvelado e com uma higiene um pouco duvidosa, Kindaichi dá mais ares de Columbo do que Poirot. E também não tem a sua competência. Ele falha numa questão substancial que é prevenir a ocorrência de crimes mas não é como se ele não fizesse mais do que a polícia toda junta. No entanto, os assassinatos não ficam a dever nada ao às novas séries. As mortes engenhosas e cuidadosamente encenadas para representar os emblemas da família: o crisântemo, o koto (harpa japonesa) e o machado são intrigantes o suficiente para atrair e reter o interesse. E uma estória que agarra aquele que a visiona não sai, em definitivo, de moda.

Sem alguma vez surgir no ecrã a interagir com outros personagens, Sahei é uma presença constante. O fantasma da sua presença continua a afectar as filhas ilegítimas mesmo após a sua morte. Elas tiveram uma infância infeliz mas isso não as tornou melhores, apenas maquiavélicas e resilientes… como o pai. O único amor que lhes resta é direccionado para os filhos e até isso alguém lhes quer roubar. Veja-se a exemplo o dilema de Matsuko que quer defender o seu filho que usa uma máscara de latex para esconder a deformidade provocada pela guerra e cuja identidade é questionada a todo o momento pelo resto da família ou Takeko que após um acontecimento que altera toda a sua percepção do mundo deseja quebrar um pacto antigo terrível e revelar a verdade.
Kon Ichikawa conduz as hostilidades com o à-vontade de quem aprecia o conto que tenta emular no cinema e “The Inugami Family” resulta num affair assombroso, tanto pela própria estória como pelo cuidado na direcção. O elenco é sólido e a câmara retira o melhor partido das actrizes veteranas. Ichikawa não foge aos temas negros e retrata-os com igual gravidade. Desde o close-up ao jogo de sombras, o lado negro de cada um dos personagens emerge naturalmente. A estória é pois um híbrido quando podia ser somente um policial para agradar a fãs do género. Quatro estrelas.


O melhor:
- A estória é tão rica que sobra bastante para debater após o seu visionamento
- Elenco
- Passa com honras ao teste do tempo

O pior:

- Efeitos especiais

Realização: Kon Ichikawa
Argumento: Norio Nagata, Shin'ya Hidaka, Kon Ichikawa e Seishi Yokomizo (livro)
Kôji Ishizaka como Kôsuke Kindaichi
Yôko Shimada como Tamayo Nonomiya
Teruhiko Aoi como Sukekiyo Inugami 
Mieko Takamine como Matsuko Inugami
Mitsuko Kusabue como Umeko Inugami
Miki Sanjô como Takeko Inugami
Akira Kawaguchi como Sayoko Inugami
Ryôko Sakaguchi como Haru
Takeo Chii como Suketake Inugami
Hisashi Kawaguchi como Suketomo Inugami
Akiji Kobayashi como Kôkichi Inugami
Minoru Terada como Saruzô
Kazunaga Tsuji como Detective Inoue

Próximo Filme: Ex Machina, 2015

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