domingo, 24 de maio de 2015

"Ex Machina" (2015)

A célebre frase de Einstein sobre o Homem e o Universo: “Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana, e eu não tenho a certeza acerca do primeiro”, podia ser proferida acerca do pecado da vaidade. Quão vaidoso pode o Homem ser para pensar que a materialização da ideia de inteligência artificial é controlável? O Homem nunca foi ser para se deixar confinar à biologia e ao espaço em que se encontra. Porquê esperar que as regras não se apliquem a todos os outros?

Ex machina é sobre a concretização do sonho e os seus efeitos sobre os primeiros a lidar com esta realidade. A premissa é simples, o significado, esse, ultrapassa a mera aparência. Caleb (Domhnall Gleeson) foi escolhido de entre sabe-se lá quantos milhões, para passar uma semana com Nathan (Oscar Isaac), o esquivo criador do motor de busca mais utilizado no mundo, o Blue Book. Nathan apresenta a Caleb a oportunidade única de conhecer Ava (Alicia Vikander) um robot humanoide e a concretização do conceito de inteligência artificial, isto é, se ela passar numa prova. Escondido num paraíso natural, o centro de pesquisa de Nathan é idílico e misterioso em doses iguais. Sem hipótese de contacto com o mundo exterior (uma das regras do jogo) Caleb, apenas tem a companhia de Nathan, que quando não desaparece para trabalhar ou exercitar o corpo está a beber até cair e da bela Kyoko (Sonoya Mizuno) que não fala inglês. Paredes nuas e quartos sem janelas encontram-se longe da noção de conforto e ele acaba pois por dedicar a maior parte do seu tempo em sessões com Ava ou a observá-la através das câmaras que se encontram em todas as divisões. Os dias passam e as máscaras começam a cair, a decepção instala-se e a fronteira entre o real e o imaginário começa a esbater-se. Cabin Fever?

Diz que não se conhecem bem as pessoas até se viver com elas. No caso de Caleb, os seus comportamentos podem ser estudados mas há um limite para aquilo que os algoritmos nos conseguem contar. Quanto a Nathan o caso será mais clínico. Vaidoso, narcísico e egocêntrico, ele apresenta-se como um daqueles génios que têm a certeza absoluta que são melhores que os outros. Anti-social, por ser incapaz de aceitar opiniões contrárias utiliza o elogio como arma que apenas lhe serve até descobrirem que ele não é tão escrupuloso como se poderia julgar. Entrega-se ao trabalho e aos vícios com a mesma intensidade sendo incapaz de considerar sequer o fracasso. Este não existe, porque falhar não é uma hipótese. E na sua mente, Caleb é o homem ideal para testar a existência de humanidade na sua criação e provar a sua genialidade. Em última análise, é a sua vaidade que dita o desfecho, que é previsível, admitamos. Caleb é o ratinho de laboratório sobre o qual são testadas hipóteses só que ainda não sabe disso. Ele é susceptível a quaisquer estímulos e não consegue encontrar mecanismos, à semelhança de Nathan, para sobreviver a um ambiente adverso. Inteligente e crédulo, deixa-se manipular por quem souber esgrimir melhores argumentos e envolve-se a nível pessoal com o sujeito. Ava torna-se interessante para Caleb, num misto de fascínio científico com empatia pessoal, por oposição a Nathan que é do género de se cansar rapidamente. Para o seu criador, existirá sempre um projecto “depois de Ava”, mas será que ela tem noção disto?

Para os fãs de espectáculo, deste há muito pouco, até ao último terço deste filme de ficção de científica. O argumento de Alex Garland foca-se mais nas implicações morais da existência de seres como Ava no ambiente que os rodeia, do que quaisquer gadgets divertidos que possam surgir no ecrã. Porque o que está na base do seu desenvolvimento é o modo como o exterior irá reagir a esta. Teria de se ser surdo, mudo ou seriamente incapacitado em termos emocionais como Nathan, para ignorar esta questão. Faz recordar estórias como a dos “X-Men” que demonstra a humanidade no seu pior mas ao mesmo tempo tão ela própria, temendo e odiando aquilo que não consegue compreender. Será isto que espera Ava?
É natural a comparação com filmes anteriores como “Artificial Inteligence: AI” (2001) ou “I, Robot” (2004) pela temática e estética e, de onde decerto, Vikander terá ido buscar apontamentos para a sua Ava. No entanto, estes filmes são mais primos afastados de "Ex Machina" do que qualquer jogo de manipulação Hitchcokiano. Do cenário, à cor, ao som, tudo é cuidadosamente ordenado para provocar a mescla de sentimentos confusos que atravessam Caleb: surpresa, fascínio, confusão, piedade, temor… E depois existe uma “simples” máquina que surge sob a aparência de vulnerabilidade de Ava, sugerindo que não é preciso nada tão complexo como a inteligência para fazer o Homem prevaricar. Afinal, Ele é apenas humano. Quatro estrelas e meia.


O melhor:
- O resultado que se conseguiu alcançar com tão pouco
- O elenco fenomenal.
- Desafiante.

O pior:
- Previsibilidade

Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland
Domhnall Gleeson como Caleb
Oscar Isaac como Nathan
Alicia Vikander como Ava
Sonoya Mizuno como Kyoko

Próximo Filme: "Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)

domingo, 17 de maio de 2015

"The Inugami Family" (Inugami-ke no ichizoku, 1976)

O trailer não tem legendas mas não deverá ser difícil encontrar o filme com legendas em inglês

Sentados em torno do patriarca às portas da morte, nada faria imaginar as intrigas que assolam o clã. Para os seus momentos finais, mandou juntar as filhas Matsuko (Mieko Tkaamine), Takeko (Miki Sanjo) e Umeko (Mitsuko Kasabue), os respectivos maridos, os seus herdeiros Sukekiyo (Teruhiko Aoi), Suketako (Takeo Chii) e a irmã Sayoko (Akira Kawaguchi) e Suketomo (Hisashi Kawaguchi). Ao grupo junta-se ainda Tamayo Nonomiya (Yoko Shimada) uma jovem por quem o velho criou afecto em final de vida. Terá sido a primeira vez em muitos anos que a família se reuniu. Transpira um desconforto e desconfiança mútuos ocultos sob a aparência do decoro. Apenas têm de aguardar uns momentos mais pela morte de Sahei e logo conhecerão os termos do testamento. O anúncio é chocante para todos. Sahei (Rentaro Mikuni) voltou a ter a última palavra. A fortuna reverte na totalidade para Tamayo se esta aceder a contrair matrimónio com qualquer um dos netos de Sahei.
A fúria e surpresa tomam conta dos presentes. Depois de tantos anos de submissão forçada as irmãs, em especial a calculadora Matsuko, sentem que o mínimo que mereciam era o dinheiro que as manteve prisioneiras na mansão de Sahei e afastou as suas mães biológicas. À intrusa Tamayo acorrem com a ameaça e a lisonja tão inata à família. Ela terá de tomar uma decisão na competição para descortinar quem ganha o prémio. Qual dos filhos pródigos irá assegurar a fortuna de um ramo da família? O previdente advogado que acompanhou os últimos desejos de Sahei teme o pior e manda chamar o detective Kosuke Kindaichi para com o tacto e discrição assegurar que nada de mal ocorre durante a transição. Quando o contractante de Kindaichi é envenenado e vários membros da família começam a surgir assassinados de forma macabra, Kindaichi junta-se às autoridades para descobrir a identidade do assassino e impedir o surgimento de novas vítimas.

O Clã Inugami ou uma família perigosa para pertencer
“The Inugami Family” foi realizado em 1976 e parece tão antiquado e tão moderno quanto um policial de ficção histórica consegue ser pois que a história é universal e tão antiga quanto o próprio tempo. Apenas se nota como é datada, por via dos métodos de investigação policial e a perda de fulgor da figura do detective a favor das forças policiais por oposição à actual obsessão com os avanços tecnológicos disponiveis no século XXI, que se constata por uma oferta excepcional de séries como “CSI”, “Criminal Minds”, “Fringe”, entre muitas outras. Agatha Christie seria a influência óbvia para os amantes do personagem do detective que serpenteia por entre a intriga deixando os suspeitos falar até deixarem escapar informação que eventualmente os condena à prisão. Desvelado e com uma higiene um pouco duvidosa, Kindaichi dá mais ares de Columbo do que Poirot. E também não tem a sua competência. Ele falha numa questão substancial que é prevenir a ocorrência de crimes mas não é como se ele não fizesse mais do que a polícia toda junta. No entanto, os assassinatos não ficam a dever nada ao às novas séries. As mortes engenhosas e cuidadosamente encenadas para representar os emblemas da família: o crisântemo, o koto (harpa japonesa) e o machado são intrigantes o suficiente para atrair e reter o interesse. E uma estória que agarra aquele que a visiona não sai, em definitivo, de moda.

Sem alguma vez surgir no ecrã a interagir com outros personagens, Sahei é uma presença constante. O fantasma da sua presença continua a afectar as filhas ilegítimas mesmo após a sua morte. Elas tiveram uma infância infeliz mas isso não as tornou melhores, apenas maquiavélicas e resilientes… como o pai. O único amor que lhes resta é direccionado para os filhos e até isso alguém lhes quer roubar. Veja-se a exemplo o dilema de Matsuko que quer defender o seu filho que usa uma máscara de latex para esconder a deformidade provocada pela guerra e cuja identidade é questionada a todo o momento pelo resto da família ou Takeko que após um acontecimento que altera toda a sua percepção do mundo deseja quebrar um pacto antigo terrível e revelar a verdade.
Kon Ichikawa conduz as hostilidades com o à-vontade de quem aprecia o conto que tenta emular no cinema e “The Inugami Family” resulta num affair assombroso, tanto pela própria estória como pelo cuidado na direcção. O elenco é sólido e a câmara retira o melhor partido das actrizes veteranas. Ichikawa não foge aos temas negros e retrata-os com igual gravidade. Desde o close-up ao jogo de sombras, o lado negro de cada um dos personagens emerge naturalmente. A estória é pois um híbrido quando podia ser somente um policial para agradar a fãs do género. Quatro estrelas.


O melhor:
- A estória é tão rica que sobra bastante para debater após o seu visionamento
- Elenco
- Passa com honras ao teste do tempo

O pior:

- Efeitos especiais

Realização: Kon Ichikawa
Argumento: Norio Nagata, Shin'ya Hidaka, Kon Ichikawa e Seishi Yokomizo (livro)
Kôji Ishizaka como Kôsuke Kindaichi
Yôko Shimada como Tamayo Nonomiya
Teruhiko Aoi como Sukekiyo Inugami 
Mieko Takamine como Matsuko Inugami
Mitsuko Kusabue como Umeko Inugami
Miki Sanjô como Takeko Inugami
Akira Kawaguchi como Sayoko Inugami
Ryôko Sakaguchi como Haru
Takeo Chii como Suketake Inugami
Hisashi Kawaguchi como Suketomo Inugami
Akiji Kobayashi como Kôkichi Inugami
Minoru Terada como Saruzô
Kazunaga Tsuji como Detective Inoue

Próximo Filme: Ex Machina, 2015

domingo, 3 de maio de 2015

"The Second Sight" (Chit sam phat 3D, 2013)


A criatividade morreu e tudo o que restou foram as sobras de “The Eye”, “Shutter” e “The Sixth Sense” misturados com uma novela de horário nobre no tão temido 3D.

Em miúdo Jate (Nawat Kulrattanarak) sabia quando coisas más iriam suceder. Isso envolvia o karma que significa na sua versão mais simplista “colher o que se semeia” e terminava com mortos e feridos ao seu redor. Por isso, o passo seguinte natural foi tornar-se advogado e defender criminosos empedernidos. Não é como se isto lhe provocasse um dilema moral por aí além já que o Karma se encarrega de punir os malfeitores quando Jate os defende com sucesso (o que sucede com frequência). Para completar a vida perfeita de Jate, ele tem Jum uma namorada gira que passa o dia sentada ao piano do seu apartamento ultra moderno a compor canções.  Após safar da prisão mais um óbvio culpado tem um acidente numa ponte a caminho de casa. Fazendo uso das suas capacidades para prever o futuro ele consegue evitar o despiste e acaba por tornar-se cliente de Kaew (Virapond Jirawetsuntorakul), a causadora do acidente que causa várias mortes. Ele apercebe-se desde muito cedo, que a adolescente problemática tem espíritos vingativos atrás dela que a irão tentar matar à primeira oportunidade e não larga o seu leito no hospital. Entretanto, Jum (Yayaying Rhatha Phongam) começa a suspeitar que o interesse de Jate por Kaew é mais romântico do que profissional.
Um conselho: abordem “The Second Sight” com leveza de espírito e expectativas muito, muito baixas. No livro de terror para iniciados “The Second Sight” pode parecer apelativo mas acreditem que é apenas fogo-de-vista. Os actores são retirados a papel químico de personagens de uma novela. O protagonista encarna o advogado bem-sucedido e rico, modelo de homem ideal por quem toda a mulher anda embeiçada. A namorada é muito bonita mas pouco consciente dos seus encantos e tem uma atitude geral humilde, temendo que o homem lhe seja “roubado” a qualquer momento por uma cabra sofisticada e superior a ela em todos os aspectos. Depois existe a miúda mimada e sem escrúpulos que está habituada a ter tudo aquilo que deseja e que tudo lhe seja entregue de bandeja. Temos triângulo amoroso. Posto isto, entre as cinco pessoas alocadas ao argumento de “The Second Sight” não parece existir uma única ideia original. Num brainstorming devem ter surgido referências a filmes como “Shutter”, “The Coffin” e sucedâneos e o seu tremendo sucesso ditou a inserção nada subtil e muito forçada num argumento que já ao início não demonstrava potencial. Ao projecto foram ainda adicionados efeitos digitais que podiam ter criados por estudantes em estágio para conclusão do curso e, porque o menor factor de atracção não são os actores, um conjunto de homens e mulheres bem-parecidos que não têm de saber representar, embora se conseguirem seja um dado positivo.

Na sua maior parte “The Second Sight” não é muito simpático no retrato da mulher. Elas são apresentadas como donzelas indefesas sendo que Jate lá vai aparecendo para as salvar dos espíritos inquietos e delas próprias. Note-se o absurdo de cenas como aquela em que Jate avisa uma colega mais segura da sua sexualidade para se cobrir e vir trabalhar no dia seguinte com uma camisola de gola alta. Claro que ela acede às indicações do colega sensato e galã. Isto, quando ele não está salvar Kaew de uma cama de hospital com vontade própria ou Jum dos fantasmas que habitam a sua banheira. Nem podia ser de outro modo, já que ele tem uma segunda visão que lhe permite ver além do plano dos vivos. Só que ao invés de esta visão se revelar uma maldição tem sido até à data uma dádiva. Ele faz pleno uso das suas capacidades para atingir o sucesso. Até admira que não esteja num cargo público. Pelo meio lá vai ajudando algumas pessoas fazendo recurso do dom e... às vezes ignora a sua aflicção (veja-se o polícia acossado por cobras). O que nos demonstra que o caminho de Jate até chegar àquele ponto foi sinuoso e, quiçá, não tão orientado para o altruísmo como podia. Empatia não faz afinal parte do vocabulário de Jate e adivinhem, o passado virá para apanhá-lo. Karma. Outro ponto estranho é o facto de aqueles que o rodeiam não se aperceberem que Jate tem tendência a olhar e conversar para o vazio o que devia ser um alerta quanto à sua sanidade mental. Coisa pouca. A reviravolta só não é tão previsível quanto podia porque a montagem é tão má que aos últimos dez minutos mal conseguimos perceber o que se está a passar, o que convenhamos, até dava jeito. Diz que é um filme de terror. Quem sou eu para discordar? Uma estrela e meia.

O melhor:
- Tem piada?

O pior:
- Efeitos especiais
- Argumento, representação…


Realização: Pornchai Hongrattanaporn
Argumento: Sukkosin Akkarapath, Pornchai Hongrattanaporn, Kiatkamon Iamphungporn,
Nattapot Potchumnean e Chanintorn Ulit
Nawat Kulrattanarak como Jet
Yayaying Rhatha Phongam como Joom
Virapond Jirawetsuntorakul como Kaew
Anon Saisangcharn como Inspector
Klaokaew Sinteppadon como Gift
Prakasit Bowsuwan como Niwat

Próximo Filme: "The Inugami Family" (Inugami-ke no ichizoku, 1976)

domingo, 26 de abril de 2015

"Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)


Trailer, poster e créditos iniciais vendem um mistério aquático. Com duas horas em excesso, a verdade revela-se bem menos interessante. 

Num dos mergulhos de rotina ao profundo azul, a Dra. Gao Jing (Angelica Lee) perde-se do amado Dave Chen (Xiaodong Guo). Ela acaba por emergir com Chen Xiao Kai (Isabella Leong), a irmã deste, mas nunca mais volta a vê-lo vivo. Quando um cadáver é recuperado Gao Jing recusa-se a acreditar que o corpo encontrado seja dele. Sem memória do que sucedeu debaixo de água, ela aceita submeter-se a uma sessão de hipnotismo com o Dr. Edward Tong (Tony Ka Fai Leung) para descobrir a verdade. Desesperada com a perspectiva de nunca mais ver Dave, Gao Jing decide deixar-se enredar na aura de mistério que envolve Simon (Chen Chang), um dos seus pacientes, convencido que é assombrado pela namorada morta. Esta descrição é uma súmula rápida e simplificada desta não descomplicada película. Podem agradecer-me mais tarde.

Os créditos iniciais brindam-nos com uma paisagem costeira fabulosa. De facto, se algum elogio é totalmente merecido é o de uma cinematografia maravilhosa. Atente-se à magnífica utilização do azul do oceano. As cenas de mergulho impecáveis parecem saídas de um documentário da National Geographic. Já fora de água e estas cenas estão em maioria, existe com frequência um apontamento de azul para fazer recordar a tragédia que agora se investiga. A paixão pelo mergulho e pela fotografia aquática foi o que uniu Gao Jing e Dave, acabando por ser também, por ironia do destino, aquilo que os separou.
“Missing” descreve na perfeição esta obra de Tsui Hark. Mais do que um desaparecimento, falta-lhe toda uma variedade de decisões que o podiam ter tornado bastante superior. Em primeiro lugar, a decisão da edição. Tsui Hark é enxergado com reverência por filmes como “Once upon a Time in China” (1991) que recuperaram os clássicos de artes marciais com um ainda jovem Jet Li ao leme. E parece ser neste género onde se encontra a sua área de conforto (veja-se “Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame” de 2010) e, com toda a fraqueza, o melhor local para empregar os seus talentos. Quando sai do género parece perder toda a confiança, caindo na armadilha do familiar. “Missing” também não tem problemas com uma linearidade excessiva do argumento. Antes pelo contrário. Peca por querer parecer mais perspicaz e complexo do que na realidade é. Anunciado como um mistério, deambula entre o thriller sobrenatural e o drama romântico até perto das duas horas em que estabiliza, por fim, na opção menos excitante das duas. Extirpado dos inúmeros subenredos que incluem Chen Xiao Kai, do Dr. Tong (Isabella Leong e Tony Leung Ka Fai inutilizados até à infelicidade) e de Simon, “Missing” seria de mais fácil compreensão e não perderia nenhuma qualidade. Fosse um mistério criminal, seria interessante explorar a vertente da amiga com uma paixão proibida, o terapeuta rejeitado ou o paciente com uma visão mais lúcida que a dos que o rodeiam. Faltam ideias, sejam elas quais forem!
 Já para Angelica Lee é mais do mesmo. Ela está habituada a ser a protagonista para as neuroses do marido Oxide Pang Chun em “The Eye” (2002), “Sleepwalker 3D” (2010), entre outros e, faz tudo o que lhe pedem, ainda que isso signifique observar o vazio durante segundos mais que o necessário. O que me leva à constatação óbvia, para quem já visionou quase toda a obra dos irmãos Pang, que “Missing” parece uma cópia descarada, da actriz principal às reviravoltas da dupla. O que em si, se não é completamente ético podia ao menos resultar numa experiência de visionamento agradável. Está presente a devida homenagem com a icónica cena do elevador assombrado (reinventada por Tsui Hark, claro), existe uma Angelica Lee chorosa (quantas lágrimas já ela verteu), o recurso à imagem gerada por computador com uma qualidade tão duvidosa e inesperada que é de bradar aos céus, e mais do que um final… Para quem almejou tanto, “Missing” é de um vazio atroz. A imagem é na maior parte impressionante, desde uns créditos iniciais que passeiam por entre escarpas costeiras ou a calmaria da fauna oceânica. A questão que se coloca é se estão dispostos a perder duas horas de vida para ver uma estória absurda a despeito das imagens bonitas quando há muito melhor oferta. Duas estrelas.

O melhor:
- Cinematografia e as paisagens naturais

O pior:
- O argumento
- Efeitos digitais
- Banda-sonora
- Os três desenlaces diferentes

Realização: Tsui Hark
Argumento: Tsui Hark e Ho Leung Tau
Angelica Lee como Dra. Gao Jing
Isabella Leong como Chen Xiao Kai
Chen Chang como Simon
Xiaodong Guo como Dave Chen Guo Dong
Tony Ka Fai Leung como Dr. Edward Tong

Próximo Filme: "The Second Sight", Chit sam phat 3D (2013)

domingo, 19 de abril de 2015

"Audition" (Ôdishon 1999)


Considerado ainda por muitos a obra superior do aclamado realizador Takashi Miike, “Audition” foi catapultado para a ribalta tendo por pares “Ring” (1998) e “Ju-on – The Grudge” (2002). Representantes de uma nova era de ouro do cinema de terror japonês iriam conduzir a uma revolução do género, atrair audiências a novas paragens e conduzir a uma mudança de paradigma. Volvida mais de uma década, os filmes de terror deixaram de ser máquinas de fazer dinheiro no Japão e quase desapareceram dos cinemas, substituídos por live-action de animes e de mangas que privilegiam o género dramático. Onde é que as coisas correram mal?

Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi), um viúvo de meia-idade é instado pelo filho adolescente Shigehiko (Tetsu Sawaki) a casar-se. Já se passaram sete anos desde a morte da mãe e, tendo pela primeira vez uma namorada, Shigeko consegue compreender a solidão que enche os dias do pai, que vive desde então para ele e para o trabalho. Chegou a altura de alguém cuidar dele. A principio relutante Shigeharu Aoyama, acaba por deixar-se convencer por amor do filho e de Yoshikawa (Jun Kunimura) que engendra um plano audacioso para o amigo encontrar a mulher com quem passar o resto dos seus dias. Aoyama já cumpriu os seus deveres enquanto homem de negócios e pai solteiro. Tem um emprego de sucesso estável e o filho é um adulto a quem pouco falta para se tornar independente e constituir família. Ele é um homem antiquado, que nada sabe do romance, tantos anos depois de perder a amada pelo que é natural a sua relutância quando o amigo lhe propõe organizar um casting para encontrar uma nova esposa. Aoyama encontra a eleita em Asami (Eihi Shiina) uma jovem que aparenta ser a flor delicada que ele procura e começa a cortejá-la de imediato apesar das dúvidas de Yoshikawa acerca da personalidade da rapariga. Este último considera que Aoyama deve explorar outras opções e conhecê-las bem, antes de se atirar para uma relação de cabeça.
Como se vem a verificar Yoshikawa tem motivos para estar preocupado.

O marketing de “Audition” ostenta profusamente Asami com objectos de tortura e num vestuário reminiscente de BDSM que contrasta com a face angelical. À época ela foi de imediato considerada um anjo negro, representando na perfeição a encarnação do perigo da beleza e a confirmação de que nem tudo o que reluz é ouro. Em particular, uma cena de tortura com a duração de dez minutos e um saco enorme com um conteúdo muito desagradável apontam para uma conclusão linear acerca da natureza dela.
Esperando um telefonema
Estão a ver aquelas pessoas que atravessam a dada altura a nossa vida e das quais criamos a sensação de que existe algo de errado com elas, embora, não saibamos apontar a razão por trás de tal sensação? Asami é a sua personificação mas não há como dizê-lo a Aoyama. Pois não há como chamar a atenção de um homem enfeitiçado. E mentiras, elas são contadas por ambos? Em defesa de Asami, não foi ela que montou um esquema baseado em falsidade para se casar. Além de que após alguns encontros com Aoyama ela vai ganhando força para lhe contar a verdade. A sua delicadeza esconde uma mente ferida, insegurança e medos que se passam despercebidos ao pretendente impulsivo, devem ser mais evidentes para um homem vivido como Yoshikawa. É ilegítimo pensar que uma pessoa com um passado negro seja reservada para sua própria protecção? Então e as motivações dos homens? A presença de uma mulher na vida de Aoyama é sugerida por homens a pensar na felicidade de um homem: “uma mulher para cuidar dele”. O viúvo casar com a mulher da sua preferência é um dado adquirido. Persiste a ideia de que tendo bens materiais, a ideia de ele não ser material para casamento não se coloca. Por isso, não é surpreendentemente que Asami seja apresentada através dos olhos de Aoyama. Ele quer uma mulher à moda antiga como ele e acaba por projectar este seu desejo na bonita Asami. Apenas se vê a personalidade dela por escassos momentos e até nesse momento, estamos perante uma recolecção de Aoyama com o viés que lhe está associado. Ademais, Aoyama é mais do que um pobre viúvo solitário que apenas quer uma companheira. Breves instantes demonstram que tem uma colega apaixonada por ele que aguarda, porventura há muito tempo por um momento de atenção, de afecto dele. Mas como ela não possui uma beleza extraordinária e tem uma idade mais próxima da dele…
O que distingue “Audition” dos pares é a forte narrativa e crítica social que supera a mítica cena de tortura. Se o marketing o apresenta como um filme de terror (o que é também é verdade), o género com o qual tem mais afinidade é o dramático. “Audition” fala das relações amorosas, do medo do romance, das expectativas e dos constructos sociais, deixando antever a crítica velada mas forte a uma sociedade patriarcal, na qual a mulher é percepcionada como uma personagem secundária em todos os papéis que desempenha: filha, aluna, companheira… A complexidade da estória é ocultada por uma direcção e montagem fantásticas, que alternam entre o dia-a-dia, o sonho e a memória à medida que se penetram mais profundamente nos desejos e motivações dos personagens. Claro que tudo isto pode passar por um mero filme de terror com uma psicopata que adora brincar com agulhas. O que vos agradar mais. Quatro estrelas.

O melhor:
- Desobrir o conteúdo do saco
- A cena de tortura
- Edição e som
- Eihi Shiina e Ryo Ishibashi

O pior:
- Desenlace demasiado rápido

Realização: Takashi Miike
Argumento: Daisuke Tengan e Ryû Murakami (livro)
Ryo Ishibashi como Shigeharu Aoyama
Eihi Shiina como Asami Yamazaki
Tetsu Sawaki como Shigehiko Aoyama
Jun Kunimura como Yasuhisa Yoshikawa
Renji Ishibashi como Professor de Ballet
Miyuki Matsuda como Ryoko Aoyama

Próximo Filme: "Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Lost on Journey" (Ren zai jiong tu, 2010)


Ano novo, aquela altura maravilhosa em que muitos aproveitam para visitar a santa terrinha e rever os parentes que não viram durante todo o ano. Fruto da preguiça, comodismo ou se preferirem indiferença, há quem considere fazer uns meros 20 km um sacrifício e vá adiando a viagem. Ele há feriados católicos, nacionais, locais, um sem fim de oportunidades para visitar os parentes. Excepto se forem talvez cidadãos chineses. Muitos não se podem dar ao luxo de umas férias, outros não se permitem descansar e apenas resta apenas o período do ano novo. Trabalhar a milhares de quilómetros da terra natal nem sempre é opção e regressar é uma autêntica aventura. Todos os anos as filas de automóveis que ultrapassam inúmeras localidades, contos de viagens de comboio esgotadas fazem as manchetes dos jornais e ilustram o desespero de quem tem uma única chance para retornar a casa. Li Chenggong (Xu Zheng) e Niu Geng (Wang Baoqiang) encontram-se neste fluxo migratório gigantesco e fazem uma parelha improvável. Li é um homem de negócios arrogante que mantém uma vida dupla. Ele tem uma jovem amante perto de si, enquanto a mulher cuida da família na distante província de Hunan. Ele nunca sentiu remorso pelo seu comportamento até à data mas sente que deve regressar a casa nesse ano.  A paciente esposa Meili (Zuo Xiaoqing) começa a acusar o desgaste de um marido que pouco mais faz do que enviar dinheiro para casa e é estranho para a própria filha. Niu Geng é típico bom coração. Um pouco tonto, torna-se amigo de qualquer um e pela sua boa natureza é também de igual forma, enganado. O motivo da sua viagem é menos agradável. Também ele vai a Hunan mas para recuperar  dinheiro de um trabalho que lhe é devido. Dois percursos, um destino. As  suas personagens são as congéneres chinesas dos brilhantes Steve Martin e John Candy, este último e para infelicidade das audiências de todo o mundo já falecido em "Planes, Trains and Automobiles" (1987). O primeiro representa a classe alta, todo o pragmatismo e desafecto  pelas questões emocionais, o segundo possui a humildade descomprometida de uma classe social mais baixa e uma alegria pela vida e crença na sorte inabaláveis. Este último personagem perde algo da tragédia e da solidão tão evidentes no personagem do Candy. É mais indolor ser-se divertido e despreocupado certo? A película continua também presa aos lugares comuns do filme dos anos 80. Porque é que o rico tem de ser presunçoso e até degradável? Qual é o problema de se ter uma vida planeada e de possuir ambição? Por outro lado, custa a crer que ainda no século XXI se associe a pobreza de espírito a uma condição social mais baixa. Por outras palavras, Niu Geng surge como um pobre coitado que tem de ser ajudado pelo mais inteligente Li. No campo do amor e da vida familiar é o último que tem algo a aprender com simplório Niu Geng.

As aventuras por que passam são improváveis e confirmam até à última vírgula a "Lei de Murphy": tudo o que poderá ocorrer de errado irá acontecer. Assim, a parelha improvável consegue perder transportes, enfrentar desastres climatéricos,  encontrar acidentes e ser roubado. Os personagens vivenciam o desespero e impotência que milhões de pessoas atravessam durante o período da maior migração do mundo. Sem ser original, as situações são transportadas para a realidade chinesa de um modo credível e toca apenas ao de leve em alguns problemas sociais de modo a nunca perder a comédia de vista. "Lost on Journey" sobrevive da força da química de Xu Zheng e Wang Baoqiang e para quem recordar com nostalgia o filme de John Hughes. Três estrelas.
O melhor:
- Afinidade com a estória
- Excelente casting da dupla principal
- Factor Nostálgia
- Bom aproveitamento da cultura em que se insere.

O pior:
- Alguns momentos "Lost in Translation"
- Um desvio para ajudar os mais necessitados

Realização: Wai Man Yip
Argumento: Juan Wen
Baoqiang Wang como Geng Niu
Zheng Xu como Chenggong Li
Zuo Xiaoqing como Meili
Li Man como Manni

Próximo Filme: "Audition" (Ôdishon, 1999)

domingo, 29 de março de 2015

“MONSTRA a todo o vapor! – Parte 3”


Depois uma segunda parte de festival morna dediquei-me por completo às longas-metragens. Não cheguei a visionar na grande sala “Only Yesterday”, “The Tale of the Princess Kaguya” ou “The Wind Rises” mas extra-festival. Eles valem cada elogio que lhes é feito e uma ou outra crítica também. “The Wind Rises”, lamento, mas não é a obra-prima de Miyazaki e “Only Yesterday” não é um filme para crianças. “The Tale of The Princess Kaguya” mereceu o Grande Prémio do Festival e uma digna última obra do estúdio Ghibli, aparte “Marnie was There” (2014) o qual também aguardo com a ansiedade típica de um fã do trabalho dos mestres.

A 20 de março rumei ao Cinema City Alvalade para mais uma sessão nocturna. Como decisão de último momento, fui assistir a “Giovanni’s Island” sem ter lido mais do que na diagonal a sinopse ou ver o trailer. Não se iria revelar um erro. Um casal idoso num navio em alto mar, cujo marido perscruta com nostalgia a pequena ilha que se aproxima. Trocam dois dedos de conversa e apercebemo-nos da dor na inflexão de voz e nos olhos tristes do homem. Era uma dessas estórias. Voltamos através do tempo e dois irmãos, Junpei (Kota Yokoyama) e Kanta (Junya Taniai) vivem no mundo de fantasia das crianças. Eles são Giovanni e Campanella, os heróis do livro que levam para todo o livro. Seriam os melhores tempos das suas vidas. Em plena II Guerra Mundial, as forças russas invadem a ilha e, como povo derrotado, tudo o que tomavam por garantido é-lhes retirado. Soberania, casa, as suas vidas até. As crianças são apanhadas nos problemas dos adultos mas são elas quem melhor lhes parecem resistir. Na escola, há meninos russos, loiros, altos e que falam uma língua estranha. Eles conseguem o improvável, afeiçoam-se uns aos outros. No entanto, apesar de disparado o último tiro, a paz encontra-se ainda longínqua.

“Giovanni’s Island” é mais uma prova da sensibilidade da animação japonesa para retratar o horror da guerra, constituindo “Grave of the Fireflies” de Isao Takahata o seu expoente máximo. Ambos retratam momentos obscuros da estória japonesa e sobretudo o horror infligido às crianças. Nenhum dos realizadores se escusa a não quebrar o tabu do sofrimento da pequenada. É seguro afirmar que “Giovanni’s Island”, estória fictícia com bases assentes na realidade foi sem dúvida um dos momentos de superioridade narrativa do festival. Quatro estrelas.



Para o último dia de festival ficou a minha última longa-metragem “Jack & the Cuckoo Clock Heart”. No dia mais gélido do ano nasceu em Edimburgo um bebé com um coração gelado, para o salvar Madeleine, uma bruxa parteira conecta o seu coração a um relógio de cuco para o manter vivo. Ela cria Jack como se de um filho se tratasse. Durante alguns anos não há problemas, desde que o petiz respeite três simples regras: não tocar nos ponteiros do relógio, abster-se de emoções fortes e, acima de tudo, não se apaixonar. Um dia e, passados tantos anos, um Jack já adolescente consegue convencer a mãe adoptiva a deixá-lo abandonar o lar protector e visitar a hostil cidade. Confirmam-se os piores receios de Madeleine. Jack conhece a jovem cigana Acácia e é amor à primeira vista. O seu coração entra em desconcerto. Conseguirá ele dominar a mecânica do seu frágil coração para viver e sobreviver ao amor? “Jack & the Cuckoo Clock Heart” é um tema poderoso e, porventura, demasiado adulto para o público juvenil que a ele assistiu. É que este filme é um drama e o final que Mathias Malzieu concebeu não será feliz. “Jack & the Cuckoo Clock Heart” é um derivado do subgénero steampunk e também a sua estória vai buscar elementos da herança cinematográfica universal, incluindo Méliès e a sua “A Trip to the Moon”. No entanto, os seus curtos 94 minutos parecem muito longos, para a perseguição pela Europa de uma amada com problemas de visão. Estes momentos estendem-se com a ajuda de números musicais proporcionados pela banda Dionysos do próprio Malzieu que é inclusivamente referenciada durante o filme. Fiquei na dúvida se a música era um complemento da imagem ou se, pelo contrário, a imagem foi inserida para constituir um videoclip alongado de um álbum da banda de Malzieu.
No campo da imagem nada a apontar. Os personagens assemelham-se a verdadeiros bonecos de criança com expressões humanas o que para alguns é capaz de ser mais arrepiante do que cativante. Infelizmente, a maior crítica a apontar é externa ao filme. Entre legendas em português e inglês houve cenas sem qualquer tradução e ainda momentos de inexactidão. A tradução não correspondia às falas dos personagens. Isto pesou na avaliação do filme pois que, se os próprios adultos não compreendiam na totalidade o que se estava a passar na estória não podem com certeza esperar que fosse a muita criançada presente a tirar sentido de falas em línguas estrangeiras. Três estrelas e meia.
PS: Para o ano há mais.

domingo, 22 de março de 2015

MONSTRA a todo o vapor! - Parte 2


Gosto de pensar que a minha versão da “MONSTRA” foi parca em quantidade mas rica em termos de qualidade. De uma sexta-feira 13 de documentário, saltei para uma segunda-feira de “Pos-eso”, longa-metragem em stop-motion diretamente inspirada de um “The exorcist” e outros inúmeros filmes indissociáveis da evolução da história de cinema de terror (e não só) sem perder um travo caliente. Desde “Evil Dead” a “A trip to the Moon” de Méliès, passando por “The Omen”, nada escapa a Sam, e realizador e escritor com um sentido de humor caustico e, para mal dos pecados católicos, herege. A melhor bailarina de Flamenco do mundo, Trini (Anabel Alonso) tão fogosa na paixão quanto na dança, tem um casamento relâmpago com o melhor toureiro à face da terra. Uma relação que faz correr tinta pelas revistas cor-de-rosa espanholas que auguram o melhor para Damian (Santiago Segura), o filho de ambos. Após a morte do marido num acidente terrível, qual cruel partida do destino Trini entra numa espiral de depressão que a impede de reconhecer que há algo muito errado com o filho. Cabe pois ao padre Lenin (Josema Yuste) que enfrenta uma grave crise de fé salvar Damian do demo. Podia pôr-me a palrar sobre a falta de originalidade e apego demasiado aos filmes que o inspiraram. No entanto, a animação estava fantástica e nenhuma piada caiu no vazio. Não se ouviram grilos. Quando muito, houve espectadores mais atentos que solicitaram a outros que se calassem. As piadas auto-referênciais tendem a ter esse efeito. Sala cheia, ambiente excelente mas não foi filme para Grande Prémio.



De regresso ao Cinema Ideal e, em dia de “The Tale of The Princess Kaguya” no São Jorge, eis que a Sessão “Terror Anim – Amaldiçoados” esteve quase deserta. Com menos de metade da sala preenchida aparentava estarem presentes apenas os fãs do cinema de terror, ainda que em doses residuais. Sessenta e um minutos de sessão não se assemelha a muito, pois não? “Amaldiçoados” é um festival de curtas-metragens de terror que se realiza anualmente no Brasil. A MONSTRA teve a feliz sorte de apresentar 12 curtas entre prémios do júri e do público do festival da edição de 2014. Os resultados foram… mistos. Entre as melhores propostas as curtíssimas “Super Venus”, “The Zombie Survival Guide” que mais parecem uma crítica aos cânones de beleza do séc. XXI e um panfleto animado sobre como sobreviver ao impensável, respectivamente e “The Taxidermist” em que o homem que dava vida àquilo que morreu encontra ele próprio o Fado. “Unhudo” é um caso estranho, baseado numa lenda que terá merecido o voto mais pela proximidade do que pela estória ou animação e quanto menos se disser sobre ele melhor. Uma curta visualmente impressionante mas que me deixou ambivalente foi “The Obvious Child”. É uma curta espantosa, perturbadora, aquilo de que são feitos os pesadelos e difícil de digerir. Então que sentimento é este que me impede de avançar com algo mais do que um “não sei se gostei”? De entre as diversas sessões foi a que me deixou mais insatisfeita, pela diferença óbvia na qualidade entre as propostas, pela baixa qualidade de algumas, porque queria mais… Uma sessão que não ficará para a história. Já nas longas-metragens seguintes, conseguiria encontrar mais motivos para ficar contente. Mas para isso, terão de esperar.

PS: Entretanto fiquem com os vencedores.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...