quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Motelx abre com um toquezinho a Coreia*



O Motelx está aí a rebentar (é só em setembro mas quem está a contar os dias?) e os fãs de terror têm razões para ficar contentes. A conferência de imprensa do Motelx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa deixou antever que, entre outros, o cinema São Jorge tem o Teatro Tivoli por companheiro e que os primeiros filmes anunciados deixam água na boca. SÓ na secção Quarto Perdido vamos ter películas como “Life After Beth” que se não reinventa a comédia zombie, pelo menos dará para recordar nostálgico o “Shaun of the Dead” – desculpem qualquer coisinha mas gosto de fingir que o “Warm Bodies” não aconteceu e que vai ser exibido o mais brutal, mais assombroso e menos hiperbólico filme que já se viu na tela desde o “The Raid: Redemption”, o “The Raid 2”. E porque não se diga que as criancinhas não têm a devida atenção, vem aí o Lobo Mau com o “Pinocchio”, “Fantasia” e “Snow White and The Seven Dwarfs”. Tudo clássicos de levar os meninos às lágrimas e recalcamentos tais que só passados muitos anos de terapia é que irão compreender que na base dos seus medos mais profundos se encontra aquele filme inofensivo que os pais os levaram a assistir há tanto tempo atrás. E se a organização quiser fazer mesmo mazelas, pode ser que para o ano exibam “The Rescuers”. Se não gostarem desse filme de animação não têm coração meus queridos. Ai naninanão que não têm. Pobre Penny. Mas já voltamos a esse filme…

E como não estivessem já os cinéfilos com o apetite bem aguçado, eis que o prato principal e sobremesa foi “Snowpiercer” de Joon-ho Bong*. (Sim, eu sei que estão fartos de ler em todo o lado “Bong Joon-ho” mas por uma questão de coerência deste estaminé é nome próprio seguido de apelido, sim?) Num futuro pós-apocalíptico, ou como costuma fazer sentido que se iniciem quaisquer críticas que se refiram a um futuro mais ou menos indistinto onde a humanidade se encontra quase extinta porque esta, sozinha, contribuiu para a destruição do planeta (quem diria?), um super-comboio atravessa o globo ininterruptamente. Porquê? Não é como se importasse, fá-lo e pronto. A terra encontra-se a atravessar uma era glacial e o comboio é a única esperança de sobrevivência da humanidade. Para não variar, o Homem continua no seu melhor. No comboio vigora um “Estado” Totalitário sob o comando do elusivo Wilford e os habitantes nas carruagens inferiores estão reduzidos a meros mendigos. Porcos, feios e quase despojados de humanidade aguentam as piores sevícias até ao mais recente dissabor. Os passageiros da frente reclamam duas pequenas crianças para si (vide “The Rescuers”) – juro que não spoilo mais nada –, e eles decidem enfim, encetar a revolta. O objectivo? Chegar à cúpula. O que farão depois disso logo se verá. “Snowpiercer” não é nenhum “The Host” (2006) ou “Memories of Murder” (2003), mas serve para o efeito e, como vou dizendo, bom seria se todos os realizadores tivessem pelo menos um grande filme no currículo. “Snowpiercer” é um híbrido, criado para apelar um público mais vasto ou não fosse o protagonista um Chris Evans ainda assim, “enfeiado” com um nariz prostético para se parecer de forma vaga com um vagabundo comedor de criancinhas. (Não, desta vez a prótese não dará direito a um Óscar). O elenco é um desfile multiétnico de grandes estrelas e actores consagrados num produto que devia ser o grande filme catástrofe da segunda década do milénio ficando apenas a instantes disso mesmo. Não me entendam mal, “Snowpiercer” é mais cerebral que qualquer cataclismo que tenham visto nos últimos anos: se retirarmos o comboio imparável e as personagens excêntricas (se não soubesse, não conseguia reconhecer a Tilda Swinton!), a ideia base é conhecida, incidindo sobre a luta eterna do homem contra os seus pares. A impossibilidade de colaboração por oposição à competição, a concepção da superioridade de uns sobre outros e a consequente exploração dos subjugados por aqueles que detêm os recursos essenciais à geração de vida são tão reais agora como eram há centenas de anos, com a diferença de que agora utilizamos números para descrever a situação: 99% versus 1%. A tese da novela gráfica em que “Snowpiercer” se baseia causa desconforto e aí poderá residir um dos elos mais fracos para a captação de audiências. Isso, e cortes desnecessários (que levante a mão em que acha que os Weinstein deviam guardar o lápis azul). É dado tantas vezes repetido que o Homem tende a evitar o desconforto e a buscar o prazer. Mas também é verdade que filmes de desastres são muitas vezes ridículos servindo apenas combustível suficiente para a audiência sair da sala de cinema agradada com a mensagem de esperança de final. Pouco espaço é deixado para a reflexão. Então, porque é que Joon-ho Bong fez a aposta controversa de realizar um filme catastrófico, com tão desagradável subtexto social? Duas desgraças num só filme? Venham daí mais que, meus queridos fãs de terror, é este o nosso alimento e o Motelx ainda agora começou... Três estrelas e meia.


Realização: Joon-ho Bong
Argumento: Joon-ho Bong e Kelly Masterson
Chris Evans como Curtis
Kang-ho Song como Min-soo
Ed Harris como Wilford
John Hurt como Gilliam
Tilda Swinton como Mason
Jamie Bell como Edgar
Octavia Spencer como Tanya
Ewen Bremmer como Andrew
Ah-sung Go como Yona

domingo, 20 de Julho de 2014

Chanthaly, 2012


Chanthaly vagueia na própria casa como se de um fantasma se tratasse. Todos os dias ela levanta-se para a lida da casa, a preparação de refeições e observar os poucos que a rodeiam a viver. Ela foi amaldiçoada com um coração fraco que a prende à medicação e à vontade de um pai ultra-protector. Para o homem, que perdeu a esposa quando Chanthaly nasceu, a doença da adolescente é quase uma bênção disfarçada. Saber que Chanthaly não irá viver muitos anos é a desculpa perfeita para a ter perto de si e a proteger de tudo quanto possa constituir uma má influência. Assim, poderá mantê-la pura e intacta do mal exterior. Uma preciosidade congelada no tempo. O que ele não podia prever é que a corrupção começou há muito tempo, logo que Chanthaly nasceu. A ausência de pormenores sobre a morte da mãe que nunca chegou a conhecer e de artefactos desse tempo atormentam-na. A adolescência e a chegada de uma maior percepção de si própria aliadas a uma imaginação viva, que é estimulada pela impossibilidade de ultrapassar o portão de sua casa levam-na a duvidar da estória que lhe foi contada como se de um disco riscado se tratasse. A mãe dela morreu durante o parto. Então que imagens são essas, que lhe pululam a cabeça de uma mulher apertando-a contra si e brincando com ela? Entretanto, perante novos pedidos de repetição da história da sua família e de lembranças desse tempo o coração de Chanthaly começa a demonstrar sinais de fraqueza. O coração dela não consegue conter emoções fortes como o pesar de não saber a mãe perto de si e a suspeita de que não lhe estão a contar toda a verdade. Mas o maior sinal de que a verdade pode estar ao seu alcance é a crença de que se deixar de se medicar isto a permitirá estar mais próxima do mundo dos espíritos e, talvez, ouvir uma mensagem da falecida mãe.
Chanthaly conhece um fantasma
“Chanthaly” é um filme sobre a transição de uma menina para adulta disfarçado de filme de terror. A jovem protagonista inicia a demonstrar clareza sobre o que pretende. Ela sente a falta da mãe e, em última análise, que a estão a privar de algo mais. Os medicamentos ajudam-na a sobreviver mas a sua existência é triste. Ela limpa, cozinha e arruma a casa e para a lavandaria criada pelo pai para ela se ocupar. Todos os dias vê chegar a prima, sofisticada e maquilhada no seu próprio carro, com caixas de roupa para ela lidar. E depois das tarefas realizadas o portão fecha-se atrás dela e ela não vê além dele, mesmo que um amigo de infância espreite através dele. Não é de admirar que a jovem procure conforto noutro plano de existência e que comece a deixar de o destrinçar com o seu. Ela tem todo o apoio familiar que necessita mas encontra-se só. E quando, sozinha com o cão, se apercebe que a casa pode conter uma entidade de outro plano ela entrega-se à curiosidade com consequências devastadoras.
Há uma tendência no género de terror para o desenrolar furioso dos acontecimentos. Ao aparecimento do primeiro resquício de temor surge, os cineastas cedem à tentação de precipitar os acontecimentos. “Chanthaly” tem uma calma com que poucas vezes nos confrontamos.
Neste filme somos introduzidos na vida íntima da rapariga como se fosse um documentário. Cada pormenor lento e tedioso das tarefas domésticas fazem parte da entidade dela. Quando vemos a casa dela, estamos dentro dela, com todas as qualidades e defeitos que lhe estão associados. Sem esta atenção ao pormenor seria difícil compreender o alheamento de Chanthaly. Ela não sofre fisicamente abusos. Não. A violência sobre ela é de outro cariz. Cada pedaço da sua existência é controlado e gerido até ao mais ínfimo pormenor. E não é como se além das grades do portão ela pudesse encontrar conforto, embora o jovem médico Keovisit (Souasath Souvanavong) seja uma pista mas, chega uma altura em que terá de dar o salto e enfrentar os seus próprios receios. O problema é a realização de que as respostas procuradas podem não existir. Quando isto sucede como é que aprendemos a coexistir com essa realidade? “Chanthaly” é um notável primeiro notável esforço da realizadora Mattie Do, que com poucos meios faz milagres. E é também um bom exemplo de um argumento sólido que mesmo sem recursos extrínsecos para melhor o apoiar resistirá o teste do tempo podendo "Chanthaly" orgulhosamente afirmar-se como o formidável primeiro filme de terror do Laos. Três estrelas e meia.

O melhor:
- Fazer-se tanto com tão pouco. Não somos merecedores.
- Calma inquietante
- Violência psicologia e a claustrofobia associadas à realidade de Chanthaly
- Mango (o melhor actor canino da Ásia)

O pior:
- E se... Tivesse tido um orçamento à altura da estória?
- Alguma indefinição no desenlace


Realização: Mattie Do
Argumento: Christopher Larsen e Douangmany Soliphanh
Amphaiphun Phimmapunya como Chanthaly
Douangmany Soliphanh como Pai de Chanthaly
Soukchinda Duangkhamchan como Thong
Khouan Souliyabapha como Bee
Souasath Souvanavong como Keovisit
Mango (actor canino) como Moo


Próximo filme: "Ragnarok", 2013

domingo, 13 de Julho de 2014

"Cyrano Agency" (Sirano: Yeonaejojakdo, 2010)


Cyrano era aquele que se escondia nas sombras e entoava o seu amor para que alguém menos nobre que ele conquistasse a rapariga dos sonhos de ambos. Era alguém que deixava a insegurança advinda da sua fealdade (um nariz proeminente é algo assim tão feio?), disfarçar-se de altruísmo e intrometer-se na sua felicidade. Ele subestimava-se a si próprio e ao objecto da sua afeição. A sua Roxanne iria apaixonar-se por alguém com a bênção de Cyrano e ela iria viver feliz para sempre.


A agência Cyrano foi criada por Byeong-hoon (Tae-woong Uhm) e a trupe de actores Min-yeong (Shin-hye Park), Jae-pil (Ah-min Jeon) e Cheol-bin (Cheol-min Park) que lutam para manter o teatro onde faziam performances aberto. Para o salvar, nada melhor do que utilizar o talento para a representação e formar uma agência para através da decepção unir corações solitários à sua alma gémea. Eles revelam-se talvez melhores nesta linha de negócio do que a anterior e em breve são contactados pelo desajeitado Sang-yang (Daniel Choi) que quer conquistar a belíssima mas ferida Hee-joong (Min-jung Lee). A equipa entra em acção e transformam Sang-yang num solteiro elegível e desejável mas tudo se complica quanto Tae-woong descobre que o alvo do estratagema por ele desenhado é Hee-joong, um antigo amor, por quem ainda nutre sentimentos bem vivos. Byeong-hoon pensa que encontrou a oportunidade perfeita para se reconciliar com Hee-joong e resolver o que ficou por terminar, mas terá de enfrentar a desconfiança da equipa, em particular, da esperta como uma raposa Min-yeong. Entretanto, o cliente mantém-se às escuras relativamente às verdadeiras intenções de Byeong-hoon. “Cyrano Agency” apresenta algumas camadas mais que a estória retratada no cinema, entre outros, por Gérard Depardieu e Steve Martin. Desta feita é Byeong-hoon o Cyrano e Hee-joong a sua Roxane sendo que o fantasma entre ambos não reside em algo tão superficial quanto o nariz dele mas o passado. A relação falhada deixou feridas abertas e tanto Hee-joong como Byeong-hoon não conseguem manter uma relação no presente. É a chegada do novo pretendente que precipita a necessidade de resolução em Byeong-hoon, cujo historial amoroso é desvelado em flashbacks. Ao contrário do material que homenageia Sang-yang não é de modo algum inferior ao seu oponente. Ele é desajeitado sim e talvez não possua a carreira ideal mas os sentimentos por Hee-joong são reais e tenta compensar a ausência de inteligência no plano do amor com os serviços da agência. No entanto, a sua personagem nunca se demonstra pouco mais do que uma peça no jogo de Byeong-hoon. É pois na personagem de Hee-joong que reside a maior surpresa. Pela primeira vez, Roxane é mais do que uma donzela à espera de ser salva. Ela é inteligente e sabe o que quer. Não se deixa enlevar apenas porque criaram as condições para tal, ela deixa-se enlevar porque reconhece algum mérito em Sang-yang e sabe que chegou a altura de voltar a abrir o coração magoado. Min-jung Lee é a verdadeira heroína de “Cyrano Agency”. A sua interpretação fabulosa é uma bofetada para os que colocam a comédia abaixo do género dramático, no que à excelência dos desempenhos diz respeito. Com os olhos conta um milhão de histórias. Eles irradiam curiosidade, dúvida, determinação, enlevo, dor, desilusão e esperança renascida como um feliz arco-íris. Não sobra é muito para os restantes actores trabalhar. De facto Cheol-bin e Jae-pil que constituem peças fundamentais da engrenagem (eles permitem, através dos seus conhecimentos técnicos a montagem das cenas mais improváveis) e Min-yeong (Shin-hye) que tão bem contrapõe Byeong-hoon têm um papel diminuto para o seu potencial.
Pausa dramática de Byeong-hoon
A dada altura, numa espécie de moral antecipada são apresentados os efeitos da interferência dos actores na vida das pessoas e da sua predisposição para aceitar qualquer cliente mas nem assim, é colocada em causa a sua boa-vontade e dedicação. Alguns dos personagens querem salvar o teatro, outros apenas perseguem o amor. Como sentir antipatia por eles? Isto é ainda mais acentuado pela ausência de um verdadeiro vilão. As relações são complicadas, as pessoas podem sair traumatizadas mas ao final, mesmo que fora de cena, todos acabarão por ter um final feliz. Enquanto este não chega, divirtam-se com a encenação dos engenhosos estratagemas de sedução pela equipa. Até Cyrano teve eventualmente sorte. Três estrelas.
O melhor:
- Os planos engenhosos da agência Cyrano;
- Representação de Min-jung Lee e Tae-woong Uhm
- Divertido e comovente em doses equilibradas

O pior:
- A fraca utilização do extenso elenco
- Duração excessiva

Realização: Hyun-seok Kim
Argumento: Hyun-seok Kim
Tae-woong Uhm como Byeong-hoon
Min-jung Lee como Hee-joong
Daniel Choi como Sang-yang
Shin-hye Park como Min-yeong
Ah-min Jeon como Jae-pil
Cheol-min Park como Cheol-bin

Próximo filme: “Chantahly, 2012”


PS: O sucesso de “Cyrano Agency” foi tão grande que até deu origem a uma série com o mesmo nome. Se quiserem ver mais dos engenhosos planos da Agência Cyrano procurem a série televisiva disponível online.

domingo, 6 de Julho de 2014

Jeritan Kuntilanak, 2009

Deliciem-se...

Reina (Garneta Haruni), Ferry (Andrew Ralph Roxburgh), Bimo (Zaki Zimah), Vivin (Joanna Alexandra) e Lila (Furry Citra) são cinco estudantes que decidem aproveitar a ausência dos pais de Reina para passar uns dias de descanso no casarão da família. O ambiente entre eles não é o melhor. A animosidade de Reina para com Lila é evidente, já que ela suspeita que Ferry esteja interessado na rapariga ao contrário dela própria e que o sentimento possa ser recíproco. Se Ferry não tivesse convidado Lila, a viagem podia ter sido uma boa oportunidade para Reina o conquistar em definitivo. Os planos de diversão são arruinados a meio da viagem quando Lila tem um grave ataque de asma e o grupo acaba por levá-la para a única casa que encontram num raio de quilómetros. Escusado será dizer que a coincidência não foi a mais feliz e a casa se encontra mal-assombrada. Lila desaparece e, em pânico os estudantes acabam por fugir deixando para trás a rapariga. Eles firmam um pacto de silêncio sobre o caso mas Yunita (Julia Perez) a irmã da rapariga desaparecida não aceita esta decisão e pressiona-os para que estes a ajudem a encontrar Lila. De volta ao campus e com um segredo terrível dentro de si, eles começam a ser assaltados por visões aterradoras que correm o risco de transitar para o mundo real.

“Jeritan Kuntilanak” apresenta a sintomatologia clássica de “férias correm horrivelmente mal” com “créditos constituem o momento mais assustador do filme”, “Há resmas de Kuntilanaks na Indonésia” e “encontre o pior actor do elenco”. O filme é todo um affair de “não se percebe muito bem o que está a suceder”. Porque é que o carro avaria numa primeira fase levando os estudantes a refugiar-se na casa e depois na fuga este já arranca é um daqueles mistérios que só convêm porque se tratar de um filme de terror, onde tudo é perdoado. Errado. Porque é que os adolescentes não recorrem à polícia ou contam aos familiares que tiveram medo e deixaram Lila lá sozinha, pedindo para a irem socorrer é algo que me ultrapassa. Como eles (quase todos) voltam à vida normal, como se nada se tivesse passado, é muito estranho. Porque é que a meio da película, os personagens que a princípio possuíam o protagonismo quase desaparecem é outra questão. Como é que ainda há quem ache piada a Zacky Zimah e que este com 30 anos ainda faça o papel de um estudante é algo que me ultrapassa. Apenas a irmã e Vivin sofrem com o desaparecimento da rapariga, uma por motivos óbvios, a segunda devido sentimentos de culpa. Haja alguém que tenha algo parecido com empatia! Até Ferry, o potencial interesse amoroso de Lila perde o interesse logo após a excursão fracassada. O mínimo que uma pessoa apaixonada pode fazer é demonstrar preocupação pelo objecto amoroso não?
Onde “Jeritan Kuntilanak” sofre realmente é com a execução infantil. Não é como se a estória fosse fenomenal ou desse para esticar os músculos da representação do limitado elenco. No entanto, a sensação de que as cenas foram concluídas num único take é demasiado forte para negar. Isso e a prevalência de sons que se devem assemelhar a algo de incrivelmente assustador enquanto as actrizes em trajos menores rodopiam sobre si próprias como se de baratas tontas se tratassem. O elenco é assombrado durante o dia, enquanto dormem e, em quase todas as assoalhadas da casa. O ciclo é repetido até à exaustão: uma personagem é ameaçada vezes sem conta e depois passa à seguinte. O enquadramento das cenas chega a ser replicado ao pormenor. Até ao bocejo. “Jeritan Kuntilanak” podia ter ser sido criado por quaisquer maçaricos e se calhar, com melhores resultados. Mais assustador? Apenas pensar que isso produzirá algum efeito nas audiências mais cépticas e/ou habituadas a ver filmes de terror. Meia estrela.



O melhor:
- Esquece-se facilmente
- Noventa minutos de ocupação para quem não tem nada que fazer
- Pode ser bom... Se fingirem que é uma sátira

O pior:
- Não é suficientemente curto
- Execução técnica (a todos os níveis)
- Menção especial aos actores, umas lições de representação se calhar não lhes fazia mal
- Imaginação que é feito de ti?

Realização: Koya Pagayo
Argumento: Shinta Rianasari
Julia Perez como Yunita
Garneta Haruni  como Reina
Andrew Ralph Roxburgh como Ferry
Zaki Zimah como Bimo
Joanna Alexandra como Vivin
Furry Citra como Lila

Próximo filme: “Cyrano Agency” (Sirano; yeonaejojakdo)

domingo, 29 de Junho de 2014

"The Neighbors" (Ee-oot Salam, 2012)


O vizinho na verdadeira acepção da palavra é uma espécie em via de extinção. Longe estão os dias em que se conheciam todos os vizinhos no mesmo prédio ou das vivendas mais próximas. A cultura do indivíduo toma cada vez mais a primazia sobre as relações humanas, impedindo que se formem os laços de entreajuda que valiam aos nossos antepassados. Assim, muitos factos escandalosos escapam até ao olhar atento do vizinho mais atento...

Em “Neighbors” os residentes de um pequeno complexo de apartamentos  vêem a sua existência pacata em perigo quando uma série de homicídios sucedem dentro da sua área de conforto. A mais recente vítima, Yeo-seon (Sae-ron Kim) vivia no seu prédio. A despeito do acontecimento trágico, eles até podiam esquecer o sucedido e prosseguir com a vida normal não fosse o comportamento muito suspeito do novo vizinho Seung-hyuk (Sung-kyun Kim). Quase todos têm alguma interacção estranha com Seung-hyuk e cedo se estabelece que ele deve ser o assassino da criança. Levanta-se pois uma nova questão, com o comportamento cada vez mais descuidado do assassino e com novas vítimas a surgir, quem será capaz de denunciar o vizinho?

“Neighbors” faz recordar um fenómeno que alguns terão estudado em psicologia ou com o qual se terão cruzado se gostam de canais como o “Biography” denominado de Efeito Genovese. Este é assim denominado, após o estudo por psicólogos de um caso que chocou a América nos anos 60, quando Catherine Genovese foi atacada e esfaqueada até à morte, durante meia hora, os seus gritos e ataque inicial testemunhados por cerca de duas dezenas de pessoas. Ninguém foi capaz de a acudir e o telefonema para a polícia também foi realizado tardiamente. Genovese viria a morrer no hospital. “Neighbors” apresenta também uma panóplia de personagens que, por diversas razões se desresponsabilização da decisão que poderá levar à captura do criminoso, transferindo o ónus para qualquer outro que não eles próprios. Decisão ainda mais premente quando a polícia não possui ainda qualquer pista substancial que o leve a uma prisão.
Kyung-hee (Yun-jin Kim) encontra-se à beira da loucura, tal é a culpa que sente por não ter ido buscar a enteada à escola. Nesse dia a criança desaparecia para o seu corpo ser depois encontrado mutilado, numa mala de viagem. Agora, Kyung-hee vê o fantasma da enteada chegar todos os dias a casa. Entretanto, Sang-yoon (Ji-han Do) verifica um padrão peculiar num dos residentes do condomínio. Ele faz uma entrega de pizza na mesma casa sempre que desaparece uma pessoa. Yong-nam Jang (Tae-Seon Ha) é uma mãe com pouco que fazer e passa o tempo todo a fazer planos para o condomínio, mesmo que isso implique envolver o novo vizinho esquisito e reticente. Aliás, ela encontra-se tão ocupada que descura a própria filha, ela que é uma fotocópia da menina que foi encontrada morta (interpretada pela mesma actriz Sae-ron Kim). Quanto a vós não sei mas se fosse minha filha estaria muito preocupada.
Sang-young (Ha-ryong Lim) é o dono de uma loja de malas de viagem da qual um homem misterioso se tornou cliente assíduo. Jong-rok (Ho-jin Cheon) é um dos seguranças do condomínio que pretende passar despercebido. No entanto, ele sente afinidade pela filha da vizinha da associação de condóminos e não vê com bons olhos o interesse que um dos novos vizinhos parece tomar por ela. Hyuk-Mo (Dong-sok Ma) é um gangster e um bruto impiedoso com quem se atravessa nos seus planos, mesmo que isso signifique apenas não saber estacionar um carro. Todos absorvidos pela sua realidade de tal modo que não vêem ou fingem não ver o que é óbvio. Naquele microcosmos, mesmo que se conheçam não se relacionam além do superficial. Nem o desejam. Que quanto menos souberem melhor. O instinto de auto-preservação é superior à solidariedade. A seu tempo, vão formando uma ideia da realidade e entram num estado de dissonância cognitiva. Será que vão agir? Mais, será que vão agir a tempo? Apesar de ser um elenco vasto, os personagens são facilmente identificáveis e o argumento é excelente a veicular as suas motivações. Não querem perder o trabalho, não querem que sejam descobertos os seus segredos, acham que não é o seu papel… A força do elenco perde-se no tempo que demora a interligar as estórias individuais. Também o casting de Sae-ron Kim nas duas personagens menores é duvidoso. A jovem é talentosa e compreende-se o objectivo da parecença da vítima e de um alvo potencial, por um lado o humor instável da mãe e, por outro, despoletar os instintos homicidas do criminoso, mas bastava apenas que fosse uma actriz fisicamente semelhante. Além disso, o fantasma surge em demasia. Se a ideia era enfatizar o assombro de Yoo-jin com a sua própria culpa a ideia foi apresentada e repetida por demais pois que chega um momento em que nos questionamos se é um fantasma das mentes dos culpados ou o espectro é real. Aspectos sobrenaturais à parte, “Neighbors” é um thriller à boa maneira coreana: leva o seu tempo mas é eficaz. Três estrelas.

O melhor:
- Elenco
- Narrativa fragmentada permite ter insight sobre o que se passa na cabeça de cada um dos personagens sem alienar
- Suspense

O Pior:
- Elemento sobrenatural. Quando é que os argumentistas coreanos vão aprender que não precisam de acrescer elementos de outros géneros se estória inicial tem qualidade por si só?
- Demasiado tempo para interligar as estórias individuais


Realização: Hwi Kim
Argumento: Hwi Kim e Pool Kang (banda-desenhada)
Yun-jin Kim como Kyung-hee
Sung-kyun Kim como Seung-hyuk
Ji-han Do como Sang-yoon
Tae-Seon Ha como Yong-nam Jang
Sae-ron Kim como Yeo-Seon/Sooyeon
Ha-ryong Lim como Sang-young
 Ho-jin Cheon como Jong-rok
Dong-sok Ma como Hyuk-Mo

Próximo Filme: Jeritan Kuntilanak, 2009

domingo, 22 de Junho de 2014

"The Forbidden Door" (Pintu Terlarang, 2009)


Vamos lá supor por um momento, que queriam iniciar-se nos caminhos do terror indonésio. A julgar pelos filmes aqui abordados anteriomente, e à excepção dos filmes de artes marciais de São Gareth Evans, é difícil não ficar com a impressão que o cinema de terror oriundo deste país é terrível. E a verdade é... Faça-se suspense… Vá, um pouco mais… É que não estão muito longe da realidade. A produção em série no seu pior encontra-se nos cinemas deste arquipélago. O filme de terror, a comédia e o mix destes dois géneros dominou, durante muitos anos o panorama cinematográfico do país. A fórmula é a mesma: um grupo de jovens estupidamente giros (quase todos), uma conveniente viagem ou visita de estudo, a ausência de adultos e/ou de qualquer sentido de responsabilidade e um monstro baseado numa das muitas lendas locais disponíveis. Acompanhe-se a fórmula por uma péssima execução técnica, incluindo um elenco tão capaz de proferir falas memorizadas como o cidadão normal, argumento que parece ter sido escrito por um estudante de liceu, montagem horrível, banda-sonora que é uma cópia dos 39583957405 filmes anteriores, caracterização e efeitos digitais que mais valia não se terem esforçado. Ainda estão comigo? Agora imagem que “The Forbidden door”, é o oposto do que acabei de descrever.

Gambir (Fachri Albar) é um escultor cuja vida é radicalmente alterada quando a namorada Talyda (Marsha Timothy) engravida. Sem condições de criar um filho e ainda sem a bênção dos pais dela, ela faz um aborto. Enlouquecida pela dor, pede a Gambir que homenageie o filho morto, colocando o corpo numa das suas esculturas. Gambir acede e pouco tempo depois a situação é bem diferente. Eles encontram-se agora casados e as suas esculturas de mulheres grávidas fazem um sucesso tremendo. Mas por baixo da máscara de sucesso, Gambir tem o coração despedaçado. Ele nunca recuperou da perda do filho e isso trouxe-lhe problemas para a intimidade. É invejado por todos pela mulher linda e inteligente, mas impressiona-o a recém-formada frieza dele. Pior, é pressionado pela mãe para que lhe dê um neto. Como se não bastasse, ele começa a ver uma mensagem em todos os lugares de alguém a pedir socorro. Até onde o mistério o irá levar?

“The Forbidden Door” parece saído de um episódio da “Twilight Zone” para maiores de 18. A ajudar estão o décor retro e o ambiente artificial dos anos 50. O protagonista tem a cabeça num caos e age em conformidade. São todos à volta, e sobretudo Talyda, que se sentem demasiado seguros de si próprios. Os personagens instilam uma confiança que ninguém sente no mundo real. E se todos têm os seus problemas e frustrações, em “The Forbidden Door” tudo vai bem naquele aquário. O mundo deles é perfeito. E já que se fala em perfeição, a cinematografia é fora de série. As cores outonais são reminiscentes dos contos de fadas, com a dualidade que lhe é tão presente, de aparência bela mas esconde podridão. E não precisamos de ser confrontados com uma porta intrigante para chegar a essa conclusão. Aí reside um dos maiores pecados de “The Forbidden Door”, a previsibilidade. Curioso que filmes que estrearam em simultâneo que sofriam do mesmo mal obtiveram maior sucesso de bilheteira que “The Forbidden Door”. Outros dos problemas do filme são os vários finais que deixam a ideia de insatisfação ou pelo menos, a necessidade de um corte mais decidido assim como o tempo que demorou até chegar ao gore. Não sou de vender a minha verdade como incontestável e decerto que “The Forbidden Door” não agradará a todos, mas estranho que quando estreia um filme de execução e criatividade superiores seja deixado para trás, quando a qualidade média deixa muito a desejar. Custa mais pensar do que entregar-nos aos velhos vícios não é? Três estrelas.

Realização: Joko Anwar
Argumento: Joko Anwar e Sekar Ayu Asmara (livro)
Fachri Albar como Gambir
Marsha Timothy como Talyda
Ario Bayu como Dandung
Otto Djauhari como Rio
Tio Pakusodewo como Koh Jimmy
Henidar Amroe como Menik Sansongko
Verdi Solaiman como John Wongso
Putri Sukardi como Ibu


O melhor:
O elenco.
Cinematografia. O visual é fantástico.
Cenário.

O pior:
Vários Finais.
Rítmo lento.
Demora algum tempo até às primeiras gotas de sangue.

Próximo Filme: "The Neighbors" (Ee-oot Salam, 2012)

domingo, 15 de Junho de 2014

Pee Mak Phrakanong, 2013


Passaram-se seis anos, desde que estreou “4bia”, uma pequena antologia de terror, que viria a juntar um dos quartetos com a química mais fantástica que já passou pelo ecrã e provou (caso ainda persistissem duvidas), que comédia e terror constituem um casamento mágico. 

“Pee Mak Phrakanong” foca a estória de Mak (Mario Maurer) um soldado que regressa para os braços da mulher que deixou grávida, Nak (Davika Horne) depois de ter sido forçado a ir combater para a guerra. Consigo traz quatro camaradas com quem firmou uma amizade para o resto da vida Ter (Nuttapong Chartpong), Aey (Kantapat Permpoonpatcharasuk), Shin (Wiwat Kongrasri) e Puak (Pongsathorn Jongwilak) respectivamente. (Desafio-vos a ler o nome dos actores em menos de 10 segundos!) Na aldeia o recém-chegado não é recebido da melhor forma: corre o rumor que Nak faleceu durante o nascimento do filho de ambos e assombra agora o local. Nak ignora os avisos e corre para o conforto do lar providenciado por Mak onde esta o recebe como se nada se tivesse passado. Os seus quatro amigos cedo apresentam as mesmas suspeitas que os aldeões mas, como avisar Mak que o amor da sua vida é um fantasma? Pior, como avisar Mak sem atrair a ira de Nak?

A estória baseia-se na lenda de Mae Nak, uma mulher que morre durante o parto mas se recusa a deixar o mundo dos vivos para atender ao marido Mak. Quem se opõe a tal ligação acaba morto até que Mak, por fim, descobre a verdade e foge. Segundo versões diversas da lenda, a alma de Nak é libertada mediante o ritual do exorcismo ou capturada num recipiente. A lenda é especialmente venerada como a prova mais forte do amor conjugal capaz de ultrapassar até a morte. Esta versão cienamtográfica é mais leve e reinventa a estória sem se afastar das linhas gerais e sem se escusar, no entanto, a momentos sinistros. “Pee Mak Phrakanong” ficou em boas mãos, pois tem associados Banjong Pisanthanakun e Chantavit Dhanasevi que colaboraram no argumento das antologias “4bia” e “5bia”, sendo que este último também protagonizou o não menos original “Coming Soon” e o quarteto cómico maravilha participou nas antologias já mencionadas. Todos habituados ao delicado acto de equilibrismo entre comédia e terror.

Confirma-se a falta a gravidade da lenda que inspirou o filme desde o primeiro sorriso, negro, do elenco, (a sério, uma marca de pasta de dentes podia ganhar rios de dinheiro tendo-os por representantes). É que nem a belíssima Davika Horne com a sua tez branca que faz concorrência às marcas de detergente, escapa a um sorriso destroçado! Some-se à dentição podre, penteados extraordinários que alternam entre a mais vulgar poupa, com uma altura que desafia a gravidade ao risco ao meio a terminar em autênticas asas! E para o caso da audiência temer fazer alguma observação sobre o facto, os actores antecipam-se e desdobram-se em piadas sobre o facto. A auto-consciência de um argumento é sempre divertida: “Isto é ridículo. E depois?” Na relação de Mak e Nak que é adorável e credível – despojem os actores de vestes parvas e comédia física e o que sobra é um jovem casal apaixonado –, é que se encontra o foco da estória mas é no quarteto fantástico que reside o segredo do sucesso deste filme. Os actores demonstram o grau de conforto de quem contracena há muitos anos em parceria. Delírio talvez, mas não seria estranho imaginar que existe de facto uma amizade entre eles. Embora o mais provável seja mesmo o talento natural para a comédia, aliado a uma excelente direcção. Com o argumento inteligente, que procura referências populares incluindo o “Rocky” (1976) ou “The Last Samurai” (2003), há espaço para o improviso e é notável o modo como os actores se alimentam da energia mútua para tornar as linhas de diálogo mais vivas. Mais, se conseguem atravessar cenas como a do jogo de mímica “Está um Fantasma entre nós”, a assombração de uma Casa Assombrada (sim, leram bem) e a fuga de canoa mais lenta de sempre que valem sobretudo pela comédia física é recomendável a visita de um médico pois têm um sério problema de falta de humor. Três estrelas e meia.
O melhor:
- A química do elenco
- Cenas de rir à gargalhada
- Comédia física

O Pior:
- A estória é sacrificada em prol da comédia (Isso é mau?)
- Caracterização dos actores. Havia necessidade de ir tão longe para produzir efeito cómico?

Realização: Banjong Pisanthanakun
Argumento: Banjong Pisanthanakun, Chantavit Dhanasevi e Nontra Kumwong
Mario Maurer como Mak
Davika Horne como Nak
Nuttapong Chartpong como Ter
Kantapat Permpoonpatcharasuk como Aey
Wiwat Kongrasri como Shin
Pongsathorn Jongwilak como Puak
Sean Jindachot como Ping


Próximo filme: "The Forbidden Door" (Pintu Terlarang, 2009)

Senhoras e senhores, o quarteto fantástico!

domingo, 8 de Junho de 2014

"Hara-Kiri: Death of a Samurai" (Ichimei, 2011)


A afirmação de que os remakes são desnecessários é quase consensual. Qualquer pessoa com um pouco de senso-comum e, nem sequer me estou a referir a cinéfilos poderá concordar que se um filme é bom, não será indispensável refazê-lo. Mais, se a experiência prévia já não funcionou bem, para quê mexer numa fórmula que há partida já carrega o fardo do fracasso? De vez em quando sucede um pequeno milagre e a nova reincarnação resulta. A maioria das vezes, é apenas um filme terrível e até um insulto ao sentimento nostálgico da audiência. Porque é que alguém achou que refazer o clássico “The Thing” (1982) do John Carpenter é algo que me ultrapassa. Note-se que não mencionei a qualidade do remake de 2011. Também não sou ingénua a ponto de pensar que a onda de remakes se deve a algo mais que a procura desenfreada por cifrões. Quem parece passar incólume a toda esta polémica é Takashi Miike, um dos grandes realizadores japoneses que em 2010 descobriu a paixão pelo que é velho e apostou de uma assentada em apresentar a sua versão dos acontecimentos no próximo do genial “13 Assassins” (2010), a que se seguiu este “Hara Kiri: Death of a Samurai”. Onde a primeira experiência resultou altamente cansativa, ou não fossem as sequências pós-contextualização da narrativa, rápidas e furiosas, a segunda revela-se um affair bem mais calmo e contemplativo. Desengane-se quem espera os habituais laivos de loucura de Miike em “Hara Kiri”. É que a despeito do potencial da estória para o realizador-argumentista libertar os seus demónios é uma das interpretações mais subtis da sua obra.

Hanshiro Tsugumo (Ebizo Ichikawa) é um ronin (samurai sem senhor) que solicita uma audiência com o senhor de uma casa senhorial para efetuar o hara kiri (suícidio ritual). Uma forma habitual, na altura de “forçar” o anfitrião a conceder algum tipo de donativo para o pobre ex-samurai sobreviver. Com o fim da era samurai muitos tiveram dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. Enquanto uns se converteram em artesões, agricultores, comerciantes, homens de Estado, outros, que conheciam no código samurai a sua forma de viver e o seu modo de experienciar o mundo viraram subitamente mendigos que nada mais sabiam fazer. Com vergonha da queda de estatuto e sem modo de garantir a subsistência da família, muitos cometeram suicídio. Outros encontraram na piedade dos outros um modo de ir sobrevivendo. Tsugumo seria apenas um de muitos casos desesperados, mas cedo os homens da casa entendem que as suas intenções não são aquilo que parece. A estória é entrecortada por analepses, do ponto de vista de Tsugumo e dos seus anfitriões que demonstram memórias de uma vida mais feliz por um lado e uma existência miserável, por outra. Enquanto Tsugumo apresenta uma agenda negra, mas ainda assim, com pinceladas felizes que parecem, nos momentos negros em que surgem no ecrã patéticas, os homens, liderados por Kageyu (Koji Yakusho) estão mais apostados em assustá-lo com a estória verídica e terrível de Motome (Eita Nagayama) que ali morreu, antes dele.

A narrativa é de uma morbidez típica de Miike pois é trabalhada de modo que pouco é deixado à imaginação: o sangue, a agressão, cadáveres, a miséria humana são comuns no seu corpo de trabalho. E ainda assim, este é Miike no seu mais contido e subtil. Onde filmes anteriores podiam impressionar pelo modo explícito como apresentar certas temáticas e acções dos personagens na tela, em “Hara Kiri: Death of a Samurai” a audiência é vencida pelo insistir nos pontos de pressão da família e dinheiro (tão penosos para o ser humano comum), conjugados com o brutal tempo de duração. Quando pensamos que a miséria não pode ser maior, eis que surge nova afronta. Adivinhando facilmente o desfecho não podia ser de outra forma e, ao mesmo tempo, não podíamos deixar de o temer. Perto de brilhante. Três estrelas e meia.
O melhor:
- Elenco brilhante mas um destaque particular para o actor de palco Ebizo Ichikawa
- Aspectos técnicos

O Pior:
- 3D?!
- Rítmo.
- Podiam cortar à vontade 30 minutos de miséria.

Realização: Takashi Miike
Argumento: Kikumi Yamagishi e Yasuhiko Takiguchi (livro)
Ebizo Ichikawa XI como Hanshiro Tsugumo
Eita Nagayama como Motome Chijiiwa
Hikari Mitsushima como Miho
Koji Yakusho como Kageyu Saito
Naoto Takenaka como Tajiri
Munetaka Aoki como Hikokuro Omodaka
Hirofumi Arai como Hayatonosho Matsuzaki
Kazuki Namioka como Kawabe Umanosuke
Yoshihisa Amano como Sasaki
Takehiro Hira como Naotaka Ii Kamon-no-kami
Takashi Sasano como Sosuke
Nakamura Baijaku II como Jinnai Chijiiwa

Próximo Filme: Pee Mak Phrakanong, 2013
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