domingo, 3 de maio de 2015

"The Second Sight" (Chit sam phat 3D, 2013)


A criatividade morreu e tudo o que restou foram as sobras de “The Eye”, “Shutter” e “The Sixth Sense” misturados com uma novela de horário nobre no tão temido 3D.

Em miúdo Jate (Nawat Kulrattanarak) sabia quando coisas más iriam suceder. Isso envolvia o karma que significa na sua versão mais simplista “colher o que se semeia” e terminava com mortos e feridos ao seu redor. Por isso, o passo seguinte natural foi tornar-se advogado e defender criminosos empedernidos. Não é como se isto lhe provocasse um dilema moral por aí além já que o Karma se encarrega de punir os malfeitores quando Jate os defende com sucesso (o que sucede com frequência). Para completar a vida perfeita de Jate, ele tem Jum uma namorada gira que passa o dia sentada ao piano do seu apartamento ultra moderno a compor canções.  Após safar da prisão mais um óbvio culpado tem um acidente numa ponte a caminho de casa. Fazendo uso das suas capacidades para prever o futuro ele consegue evitar o despiste e acaba por tornar-se cliente de Kaew (Virapond Jirawetsuntorakul), a causadora do acidente que causa várias mortes. Ele apercebe-se desde muito cedo, que a adolescente problemática tem espíritos vingativos atrás dela que a irão tentar matar à primeira oportunidade e não larga o seu leito no hospital. Entretanto, Jum (Yayaying Rhatha Phongam) começa a suspeitar que o interesse de Jate por Kaew é mais romântico do que profissional.
Um conselho: abordem “The Second Sight” com leveza de espírito e expectativas muito, muito baixas. No livro de terror para iniciados “The Second Sight” pode parecer apelativo mas acreditem que é apenas fogo-de-vista. Os actores são retirados a papel químico de personagens de uma novela. O protagonista encarna o advogado bem-sucedido e rico, modelo de homem ideal por quem toda a mulher anda embeiçada. A namorada é muito bonita mas pouco consciente dos seus encantos e tem uma atitude geral humilde, temendo que o homem lhe seja “roubado” a qualquer momento por uma cabra sofisticada e superior a ela em todos os aspectos. Depois existe a miúda mimada e sem escrúpulos que está habituada a ter tudo aquilo que deseja e que tudo lhe seja entregue de bandeja. Temos triângulo amoroso. Posto isto, entre as cinco pessoas alocadas ao argumento de “The Second Sight” não parece existir uma única ideia original. Num brainstorming devem ter surgido referências a filmes como “Shutter”, “The Coffin” e sucedâneos e o seu tremendo sucesso ditou a inserção nada subtil e muito forçada num argumento que já ao início não demonstrava potencial. Ao projecto foram ainda adicionados efeitos digitais que podiam ter criados por estudantes em estágio para conclusão do curso e, porque o menor factor de atracção não são os actores, um conjunto de homens e mulheres bem-parecidos que não têm de saber representar, embora se conseguirem seja um dado positivo.

Na sua maior parte “The Second Sight” não é muito simpático no retrato da mulher. Elas são apresentadas como donzelas indefesas sendo que Jate lá vai aparecendo para as salvar dos espíritos inquietos e delas próprias. Note-se o absurdo de cenas como aquela em que Jate avisa uma colega mais segura da sua sexualidade para se cobrir e vir trabalhar no dia seguinte com uma camisola de gola alta. Claro que ela acede às indicações do colega sensato e galã. Isto, quando ele não está salvar Kaew de uma cama de hospital com vontade própria ou Jum dos fantasmas que habitam a sua banheira. Nem podia ser de outro modo, já que ele tem uma segunda visão que lhe permite ver além do plano dos vivos. Só que ao invés de esta visão se revelar uma maldição tem sido até à data uma dádiva. Ele faz pleno uso das suas capacidades para atingir o sucesso. Até admira que não esteja num cargo público. Pelo meio lá vai ajudando algumas pessoas fazendo recurso do dom e... às vezes ignora a sua aflicção (veja-se o polícia acossado por cobras). O que nos demonstra que o caminho de Jate até chegar àquele ponto foi sinuoso e, quiçá, não tão orientado para o altruísmo como podia. Empatia não faz afinal parte do vocabulário de Jate e adivinhem, o passado virá para apanhá-lo. Karma. Outro ponto estranho é o facto de aqueles que o rodeiam não se aperceberem que Jate tem tendência a olhar e conversar para o vazio o que devia ser um alerta quanto à sua sanidade mental. Coisa pouca. A reviravolta só não é tão previsível quanto podia porque a montagem é tão má que aos últimos dez minutos mal conseguimos perceber o que se está a passar, o que convenhamos, até dava jeito. Diz que é um filme de terror. Quem sou eu para discordar? Uma estrela e meia.

O melhor:
- Tem piada?

O pior:
- Efeitos especiais
- Argumento, representação…


Realização: Pornchai Hongrattanaporn
Argumento: Sukkosin Akkarapath, Pornchai Hongrattanaporn, Kiatkamon Iamphungporn,
Nattapot Potchumnean e Chanintorn Ulit
Nawat Kulrattanarak como Jet
Yayaying Rhatha Phongam como Joom
Virapond Jirawetsuntorakul como Kaew
Anon Saisangcharn como Inspector
Klaokaew Sinteppadon como Gift
Prakasit Bowsuwan como Niwat

Próximo Filme: "The Inugami Family" (Inugami-ke no ichizoku, 1976)

domingo, 26 de abril de 2015

"Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)


Trailer, poster e créditos iniciais vendem um mistério aquático. Com duas horas em excesso, a verdade revela-se bem menos interessante. 

Num dos mergulhos de rotina ao profundo azul, a Dra. Gao Jing (Angelica Lee) perde-se do amado Dave Chen (Xiaodong Guo). Ela acaba por emergir com Chen Xiao Kai (Isabella Leong), a irmã deste, mas nunca mais volta a vê-lo vivo. Quando um cadáver é recuperado Gao Jing recusa-se a acreditar que o corpo encontrado seja dele. Sem memória do que sucedeu debaixo de água, ela aceita submeter-se a uma sessão de hipnotismo com o Dr. Edward Tong (Tony Ka Fai Leung) para descobrir a verdade. Desesperada com a perspectiva de nunca mais ver Dave, Gao Jing decide deixar-se enredar na aura de mistério que envolve Simon (Chen Chang), um dos seus pacientes, convencido que é assombrado pela namorada morta. Esta descrição é uma súmula rápida e simplificada desta não descomplicada película. Podem agradecer-me mais tarde.

Os créditos iniciais brindam-nos com uma paisagem costeira fabulosa. De facto, se algum elogio é totalmente merecido é o de uma cinematografia maravilhosa. Atente-se à magnífica utilização do azul do oceano. As cenas de mergulho impecáveis parecem saídas de um documentário da National Geographic. Já fora de água e estas cenas estão em maioria, existe com frequência um apontamento de azul para fazer recordar a tragédia que agora se investiga. A paixão pelo mergulho e pela fotografia aquática foi o que uniu Gao Jing e Dave, acabando por ser também, por ironia do destino, aquilo que os separou.
“Missing” descreve na perfeição esta obra de Tsui Hark. Mais do que um desaparecimento, falta-lhe toda uma variedade de decisões que o podiam ter tornado bastante superior. Em primeiro lugar, a decisão da edição. Tsui Hark é enxergado com reverência por filmes como “Once upon a Time in China” (1991) que recuperaram os clássicos de artes marciais com um ainda jovem Jet Li ao leme. E parece ser neste género onde se encontra a sua área de conforto (veja-se “Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame” de 2010) e, com toda a fraqueza, o melhor local para empregar os seus talentos. Quando sai do género parece perder toda a confiança, caindo na armadilha do familiar. “Missing” também não tem problemas com uma linearidade excessiva do argumento. Antes pelo contrário. Peca por querer parecer mais perspicaz e complexo do que na realidade é. Anunciado como um mistério, deambula entre o thriller sobrenatural e o drama romântico até perto das duas horas em que estabiliza, por fim, na opção menos excitante das duas. Extirpado dos inúmeros subenredos que incluem Chen Xiao Kai, do Dr. Tong (Isabella Leong e Tony Leung Ka Fai inutilizados até à infelicidade) e de Simon, “Missing” seria de mais fácil compreensão e não perderia nenhuma qualidade. Fosse um mistério criminal, seria interessante explorar a vertente da amiga com uma paixão proibida, o terapeuta rejeitado ou o paciente com uma visão mais lúcida que a dos que o rodeiam. Faltam ideias, sejam elas quais forem!
 Já para Angelica Lee é mais do mesmo. Ela está habituada a ser a protagonista para as neuroses do marido Oxide Pang Chun em “The Eye” (2002), “Sleepwalker 3D” (2010), entre outros e, faz tudo o que lhe pedem, ainda que isso signifique observar o vazio durante segundos mais que o necessário. O que me leva à constatação óbvia, para quem já visionou quase toda a obra dos irmãos Pang, que “Missing” parece uma cópia descarada, da actriz principal às reviravoltas da dupla. O que em si, se não é completamente ético podia ao menos resultar numa experiência de visionamento agradável. Está presente a devida homenagem com a icónica cena do elevador assombrado (reinventada por Tsui Hark, claro), existe uma Angelica Lee chorosa (quantas lágrimas já ela verteu), o recurso à imagem gerada por computador com uma qualidade tão duvidosa e inesperada que é de bradar aos céus, e mais do que um final… Para quem almejou tanto, “Missing” é de um vazio atroz. A imagem é na maior parte impressionante, desde uns créditos iniciais que passeiam por entre escarpas costeiras ou a calmaria da fauna oceânica. A questão que se coloca é se estão dispostos a perder duas horas de vida para ver uma estória absurda a despeito das imagens bonitas quando há muito melhor oferta. Duas estrelas.

O melhor:
- Cinematografia e as paisagens naturais

O pior:
- O argumento
- Efeitos digitais
- Banda-sonora
- Os três desenlaces diferentes

Realização: Tsui Hark
Argumento: Tsui Hark e Ho Leung Tau
Angelica Lee como Dra. Gao Jing
Isabella Leong como Chen Xiao Kai
Chen Chang como Simon
Xiaodong Guo como Dave Chen Guo Dong
Tony Ka Fai Leung como Dr. Edward Tong

Próximo Filme: "The Second Sight", Chit sam phat 3D (2013)

domingo, 19 de abril de 2015

"Audition" (Ôdishon 1999)


Considerado ainda por muitos a obra superior do aclamado realizador Takashi Miike, “Audition” foi catapultado para a ribalta tendo por pares “Ring” (1998) e “Ju-on – The Grudge” (2002). Representantes de uma nova era de ouro do cinema de terror japonês iriam conduzir a uma revolução do género, atrair audiências a novas paragens e conduzir a uma mudança de paradigma. Volvida mais de uma década, os filmes de terror deixaram de ser máquinas de fazer dinheiro no Japão e quase desapareceram dos cinemas, substituídos por live-action de animes e de mangas que privilegiam o género dramático. Onde é que as coisas correram mal?

Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi), um viúvo de meia-idade é instado pelo filho adolescente Shigehiko (Tetsu Sawaki) a casar-se. Já se passaram sete anos desde a morte da mãe e, tendo pela primeira vez uma namorada, Shigeko consegue compreender a solidão que enche os dias do pai, que vive desde então para ele e para o trabalho. Chegou a altura de alguém cuidar dele. A principio relutante Shigeharu Aoyama, acaba por deixar-se convencer por amor do filho e de Yoshikawa (Jun Kunimura) que engendra um plano audacioso para o amigo encontrar a mulher com quem passar o resto dos seus dias. Aoyama já cumpriu os seus deveres enquanto homem de negócios e pai solteiro. Tem um emprego de sucesso estável e o filho é um adulto a quem pouco falta para se tornar independente e constituir família. Ele é um homem antiquado, que nada sabe do romance, tantos anos depois de perder a amada pelo que é natural a sua relutância quando o amigo lhe propõe organizar um casting para encontrar uma nova esposa. Aoyama encontra a eleita em Asami (Eihi Shiina) uma jovem que aparenta ser a flor delicada que ele procura e começa a cortejá-la de imediato apesar das dúvidas de Yoshikawa acerca da personalidade da rapariga. Este último considera que Aoyama deve explorar outras opções e conhecê-las bem, antes de se atirar para uma relação de cabeça.
Como se vem a verificar Yoshikawa tem motivos para estar preocupado.

O marketing de “Audition” ostenta profusamente Asami com objectos de tortura e num vestuário reminiscente de BDSM que contrasta com a face angelical. À época ela foi de imediato considerada um anjo negro, representando na perfeição a encarnação do perigo da beleza e a confirmação de que nem tudo o que reluz é ouro. Em particular, uma cena de tortura com a duração de dez minutos e um saco enorme com um conteúdo muito desagradável apontam para uma conclusão linear acerca da natureza dela.
Esperando um telefonema
Estão a ver aquelas pessoas que atravessam a dada altura a nossa vida e das quais criamos a sensação de que existe algo de errado com elas, embora, não saibamos apontar a razão por trás de tal sensação? Asami é a sua personificação mas não há como dizê-lo a Aoyama. Pois não há como chamar a atenção de um homem enfeitiçado. E mentiras, elas são contadas por ambos? Em defesa de Asami, não foi ela que montou um esquema baseado em falsidade para se casar. Além de que após alguns encontros com Aoyama ela vai ganhando força para lhe contar a verdade. A sua delicadeza esconde uma mente ferida, insegurança e medos que se passam despercebidos ao pretendente impulsivo, devem ser mais evidentes para um homem vivido como Yoshikawa. É ilegítimo pensar que uma pessoa com um passado negro seja reservada para sua própria protecção? Então e as motivações dos homens? A presença de uma mulher na vida de Aoyama é sugerida por homens a pensar na felicidade de um homem: “uma mulher para cuidar dele”. O viúvo casar com a mulher da sua preferência é um dado adquirido. Persiste a ideia de que tendo bens materiais, a ideia de ele não ser material para casamento não se coloca. Por isso, não é surpreendentemente que Asami seja apresentada através dos olhos de Aoyama. Ele quer uma mulher à moda antiga como ele e acaba por projectar este seu desejo na bonita Asami. Apenas se vê a personalidade dela por escassos momentos e até nesse momento, estamos perante uma recolecção de Aoyama com o viés que lhe está associado. Ademais, Aoyama é mais do que um pobre viúvo solitário que apenas quer uma companheira. Breves instantes demonstram que tem uma colega apaixonada por ele que aguarda, porventura há muito tempo por um momento de atenção, de afecto dele. Mas como ela não possui uma beleza extraordinária e tem uma idade mais próxima da dele…
O que distingue “Audition” dos pares é a forte narrativa e crítica social que supera a mítica cena de tortura. Se o marketing o apresenta como um filme de terror (o que é também é verdade), o género com o qual tem mais afinidade é o dramático. “Audition” fala das relações amorosas, do medo do romance, das expectativas e dos constructos sociais, deixando antever a crítica velada mas forte a uma sociedade patriarcal, na qual a mulher é percepcionada como uma personagem secundária em todos os papéis que desempenha: filha, aluna, companheira… A complexidade da estória é ocultada por uma direcção e montagem fantásticas, que alternam entre o dia-a-dia, o sonho e a memória à medida que se penetram mais profundamente nos desejos e motivações dos personagens. Claro que tudo isto pode passar por um mero filme de terror com uma psicopata que adora brincar com agulhas. O que vos agradar mais. Quatro estrelas.

O melhor:
- Desobrir o conteúdo do saco
- A cena de tortura
- Edição e som
- Eihi Shiina e Ryo Ishibashi

O pior:
- Desenlace demasiado rápido

Realização: Takashi Miike
Argumento: Daisuke Tengan e Ryû Murakami (livro)
Ryo Ishibashi como Shigeharu Aoyama
Eihi Shiina como Asami Yamazaki
Tetsu Sawaki como Shigehiko Aoyama
Jun Kunimura como Yasuhisa Yoshikawa
Renji Ishibashi como Professor de Ballet
Miyuki Matsuda como Ryoko Aoyama

Próximo Filme: "Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Lost on Journey" (Ren zai jiong tu, 2010)


Ano novo, aquela altura maravilhosa em que muitos aproveitam para visitar a santa terrinha e rever os parentes que não viram durante todo o ano. Fruto da preguiça, comodismo ou se preferirem indiferença, há quem considere fazer uns meros 20 km um sacrifício e vá adiando a viagem. Ele há feriados católicos, nacionais, locais, um sem fim de oportunidades para visitar os parentes. Excepto se forem talvez cidadãos chineses. Muitos não se podem dar ao luxo de umas férias, outros não se permitem descansar e apenas resta apenas o período do ano novo. Trabalhar a milhares de quilómetros da terra natal nem sempre é opção e regressar é uma autêntica aventura. Todos os anos as filas de automóveis que ultrapassam inúmeras localidades, contos de viagens de comboio esgotadas fazem as manchetes dos jornais e ilustram o desespero de quem tem uma única chance para retornar a casa. Li Chenggong (Xu Zheng) e Niu Geng (Wang Baoqiang) encontram-se neste fluxo migratório gigantesco e fazem uma parelha improvável. Li é um homem de negócios arrogante que mantém uma vida dupla. Ele tem uma jovem amante perto de si, enquanto a mulher cuida da família na distante província de Hunan. Ele nunca sentiu remorso pelo seu comportamento até à data mas sente que deve regressar a casa nesse ano.  A paciente esposa Meili (Zuo Xiaoqing) começa a acusar o desgaste de um marido que pouco mais faz do que enviar dinheiro para casa e é estranho para a própria filha. Niu Geng é típico bom coração. Um pouco tonto, torna-se amigo de qualquer um e pela sua boa natureza é também de igual forma, enganado. O motivo da sua viagem é menos agradável. Também ele vai a Hunan mas para recuperar  dinheiro de um trabalho que lhe é devido. Dois percursos, um destino. As  suas personagens são as congéneres chinesas dos brilhantes Steve Martin e John Candy, este último e para infelicidade das audiências de todo o mundo já falecido em "Planes, Trains and Automobiles" (1987). O primeiro representa a classe alta, todo o pragmatismo e desafecto  pelas questões emocionais, o segundo possui a humildade descomprometida de uma classe social mais baixa e uma alegria pela vida e crença na sorte inabaláveis. Este último personagem perde algo da tragédia e da solidão tão evidentes no personagem do Candy. É mais indolor ser-se divertido e despreocupado certo? A película continua também presa aos lugares comuns do filme dos anos 80. Porque é que o rico tem de ser presunçoso e até degradável? Qual é o problema de se ter uma vida planeada e de possuir ambição? Por outro lado, custa a crer que ainda no século XXI se associe a pobreza de espírito a uma condição social mais baixa. Por outras palavras, Niu Geng surge como um pobre coitado que tem de ser ajudado pelo mais inteligente Li. No campo do amor e da vida familiar é o último que tem algo a aprender com simplório Niu Geng.

As aventuras por que passam são improváveis e confirmam até à última vírgula a "Lei de Murphy": tudo o que poderá ocorrer de errado irá acontecer. Assim, a parelha improvável consegue perder transportes, enfrentar desastres climatéricos,  encontrar acidentes e ser roubado. Os personagens vivenciam o desespero e impotência que milhões de pessoas atravessam durante o período da maior migração do mundo. Sem ser original, as situações são transportadas para a realidade chinesa de um modo credível e toca apenas ao de leve em alguns problemas sociais de modo a nunca perder a comédia de vista. "Lost on Journey" sobrevive da força da química de Xu Zheng e Wang Baoqiang e para quem recordar com nostalgia o filme de John Hughes. Três estrelas.
O melhor:
- Afinidade com a estória
- Excelente casting da dupla principal
- Factor Nostálgia
- Bom aproveitamento da cultura em que se insere.

O pior:
- Alguns momentos "Lost in Translation"
- Um desvio para ajudar os mais necessitados

Realização: Wai Man Yip
Argumento: Juan Wen
Baoqiang Wang como Geng Niu
Zheng Xu como Chenggong Li
Zuo Xiaoqing como Meili
Li Man como Manni

Próximo Filme: "Audition" (Ôdishon, 1999)

domingo, 29 de março de 2015

“MONSTRA a todo o vapor! – Parte 3”


Depois uma segunda parte de festival morna dediquei-me por completo às longas-metragens. Não cheguei a visionar na grande sala “Only Yesterday”, “The Tale of the Princess Kaguya” ou “The Wind Rises” mas extra-festival. Eles valem cada elogio que lhes é feito e uma ou outra crítica também. “The Wind Rises”, lamento, mas não é a obra-prima de Miyazaki e “Only Yesterday” não é um filme para crianças. “The Tale of The Princess Kaguya” mereceu o Grande Prémio do Festival e uma digna última obra do estúdio Ghibli, aparte “Marnie was There” (2014) o qual também aguardo com a ansiedade típica de um fã do trabalho dos mestres.

A 20 de março rumei ao Cinema City Alvalade para mais uma sessão nocturna. Como decisão de último momento, fui assistir a “Giovanni’s Island” sem ter lido mais do que na diagonal a sinopse ou ver o trailer. Não se iria revelar um erro. Um casal idoso num navio em alto mar, cujo marido perscruta com nostalgia a pequena ilha que se aproxima. Trocam dois dedos de conversa e apercebemo-nos da dor na inflexão de voz e nos olhos tristes do homem. Era uma dessas estórias. Voltamos através do tempo e dois irmãos, Junpei (Kota Yokoyama) e Kanta (Junya Taniai) vivem no mundo de fantasia das crianças. Eles são Giovanni e Campanella, os heróis do livro que levam para todo o livro. Seriam os melhores tempos das suas vidas. Em plena II Guerra Mundial, as forças russas invadem a ilha e, como povo derrotado, tudo o que tomavam por garantido é-lhes retirado. Soberania, casa, as suas vidas até. As crianças são apanhadas nos problemas dos adultos mas são elas quem melhor lhes parecem resistir. Na escola, há meninos russos, loiros, altos e que falam uma língua estranha. Eles conseguem o improvável, afeiçoam-se uns aos outros. No entanto, apesar de disparado o último tiro, a paz encontra-se ainda longínqua.

“Giovanni’s Island” é mais uma prova da sensibilidade da animação japonesa para retratar o horror da guerra, constituindo “Grave of the Fireflies” de Isao Takahata o seu expoente máximo. Ambos retratam momentos obscuros da estória japonesa e sobretudo o horror infligido às crianças. Nenhum dos realizadores se escusa a não quebrar o tabu do sofrimento da pequenada. É seguro afirmar que “Giovanni’s Island”, estória fictícia com bases assentes na realidade foi sem dúvida um dos momentos de superioridade narrativa do festival. Quatro estrelas.



Para o último dia de festival ficou a minha última longa-metragem “Jack & the Cuckoo Clock Heart”. No dia mais gélido do ano nasceu em Edimburgo um bebé com um coração gelado, para o salvar Madeleine, uma bruxa parteira conecta o seu coração a um relógio de cuco para o manter vivo. Ela cria Jack como se de um filho se tratasse. Durante alguns anos não há problemas, desde que o petiz respeite três simples regras: não tocar nos ponteiros do relógio, abster-se de emoções fortes e, acima de tudo, não se apaixonar. Um dia e, passados tantos anos, um Jack já adolescente consegue convencer a mãe adoptiva a deixá-lo abandonar o lar protector e visitar a hostil cidade. Confirmam-se os piores receios de Madeleine. Jack conhece a jovem cigana Acácia e é amor à primeira vista. O seu coração entra em desconcerto. Conseguirá ele dominar a mecânica do seu frágil coração para viver e sobreviver ao amor? “Jack & the Cuckoo Clock Heart” é um tema poderoso e, porventura, demasiado adulto para o público juvenil que a ele assistiu. É que este filme é um drama e o final que Mathias Malzieu concebeu não será feliz. “Jack & the Cuckoo Clock Heart” é um derivado do subgénero steampunk e também a sua estória vai buscar elementos da herança cinematográfica universal, incluindo Méliès e a sua “A Trip to the Moon”. No entanto, os seus curtos 94 minutos parecem muito longos, para a perseguição pela Europa de uma amada com problemas de visão. Estes momentos estendem-se com a ajuda de números musicais proporcionados pela banda Dionysos do próprio Malzieu que é inclusivamente referenciada durante o filme. Fiquei na dúvida se a música era um complemento da imagem ou se, pelo contrário, a imagem foi inserida para constituir um videoclip alongado de um álbum da banda de Malzieu.
No campo da imagem nada a apontar. Os personagens assemelham-se a verdadeiros bonecos de criança com expressões humanas o que para alguns é capaz de ser mais arrepiante do que cativante. Infelizmente, a maior crítica a apontar é externa ao filme. Entre legendas em português e inglês houve cenas sem qualquer tradução e ainda momentos de inexactidão. A tradução não correspondia às falas dos personagens. Isto pesou na avaliação do filme pois que, se os próprios adultos não compreendiam na totalidade o que se estava a passar na estória não podem com certeza esperar que fosse a muita criançada presente a tirar sentido de falas em línguas estrangeiras. Três estrelas e meia.
PS: Para o ano há mais.

domingo, 22 de março de 2015

MONSTRA a todo o vapor! - Parte 2


Gosto de pensar que a minha versão da “MONSTRA” foi parca em quantidade mas rica em termos de qualidade. De uma sexta-feira 13 de documentário, saltei para uma segunda-feira de “Pos-eso”, longa-metragem em stop-motion diretamente inspirada de um “The exorcist” e outros inúmeros filmes indissociáveis da evolução da história de cinema de terror (e não só) sem perder um travo caliente. Desde “Evil Dead” a “A trip to the Moon” de Méliès, passando por “The Omen”, nada escapa a Sam, e realizador e escritor com um sentido de humor caustico e, para mal dos pecados católicos, herege. A melhor bailarina de Flamenco do mundo, Trini (Anabel Alonso) tão fogosa na paixão quanto na dança, tem um casamento relâmpago com o melhor toureiro à face da terra. Uma relação que faz correr tinta pelas revistas cor-de-rosa espanholas que auguram o melhor para Damian (Santiago Segura), o filho de ambos. Após a morte do marido num acidente terrível, qual cruel partida do destino Trini entra numa espiral de depressão que a impede de reconhecer que há algo muito errado com o filho. Cabe pois ao padre Lenin (Josema Yuste) que enfrenta uma grave crise de fé salvar Damian do demo. Podia pôr-me a palrar sobre a falta de originalidade e apego demasiado aos filmes que o inspiraram. No entanto, a animação estava fantástica e nenhuma piada caiu no vazio. Não se ouviram grilos. Quando muito, houve espectadores mais atentos que solicitaram a outros que se calassem. As piadas auto-referênciais tendem a ter esse efeito. Sala cheia, ambiente excelente mas não foi filme para Grande Prémio.



De regresso ao Cinema Ideal e, em dia de “The Tale of The Princess Kaguya” no São Jorge, eis que a Sessão “Terror Anim – Amaldiçoados” esteve quase deserta. Com menos de metade da sala preenchida aparentava estarem presentes apenas os fãs do cinema de terror, ainda que em doses residuais. Sessenta e um minutos de sessão não se assemelha a muito, pois não? “Amaldiçoados” é um festival de curtas-metragens de terror que se realiza anualmente no Brasil. A MONSTRA teve a feliz sorte de apresentar 12 curtas entre prémios do júri e do público do festival da edição de 2014. Os resultados foram… mistos. Entre as melhores propostas as curtíssimas “Super Venus”, “The Zombie Survival Guide” que mais parecem uma crítica aos cânones de beleza do séc. XXI e um panfleto animado sobre como sobreviver ao impensável, respectivamente e “The Taxidermist” em que o homem que dava vida àquilo que morreu encontra ele próprio o Fado. “Unhudo” é um caso estranho, baseado numa lenda que terá merecido o voto mais pela proximidade do que pela estória ou animação e quanto menos se disser sobre ele melhor. Uma curta visualmente impressionante mas que me deixou ambivalente foi “The Obvious Child”. É uma curta espantosa, perturbadora, aquilo de que são feitos os pesadelos e difícil de digerir. Então que sentimento é este que me impede de avançar com algo mais do que um “não sei se gostei”? De entre as diversas sessões foi a que me deixou mais insatisfeita, pela diferença óbvia na qualidade entre as propostas, pela baixa qualidade de algumas, porque queria mais… Uma sessão que não ficará para a história. Já nas longas-metragens seguintes, conseguiria encontrar mais motivos para ficar contente. Mas para isso, terão de esperar.

PS: Entretanto fiquem com os vencedores.


sábado, 14 de março de 2015

MONSTRA a todo o vapor!


O certame arrancou dia 12 e, lá estava o Not a Film Critic, na sessão de abertura lotada da Sala Manoel de Oliveira no São Jorge, para fazer a sua cobertura completa e seríssima – not really. Houve mais do mesmo: “este ano vai ser mais melhor bom que o anterior”, momentos musicais de altíssima qualidade (fiquei fã da Mariana Abrunheiro e da Jacqueline Mercado) e algumas personalidades foram convidadas a ir ao palco, incluindo EGEACs, ICAs e realizadores estrangeiros, por entre muitos abraços e beijinhos e o Fernando Galrito (Director Artístico do Festival) falou, falou um pouco mais, falou bastante e por fim, lá se calou, deixando a sensação de que 10 dias são uma gota de água num oceano de cinema animado.

Entre as tantas, demasiadas novidades, destaca-se o separador giríssimo “Rayuela – Jogo da Macaca” criado por Nico Guedes e pela Miss Suzie, dotada de uma brutal energia positiva, que contagiou sala inteira com o som dos seus passinhos rápidos e alegria nervosa. Made in Portugal, pois com certeza. Seguiram-se propostas da América Latina como um “La Gran Carrera” (1935), “Quinoscopio” (1987), “Hasta los Huesos” (2001) e “Llluvia en los Ojos” (2014), pois que este ano, o festival de cinema de animação de Lisboa homenageia a América Latina. Foi uma verdadeira viagem no tempo e pelas diferentes técnicas de animação, que fizeram recordar alguns “Grandes” como o Quino, mais conhecido pela eterna chica-esperta Mafalda; rir de “caixão à cova” ou provocar chuva nos olhos… A retrospectiva dedicada ao Japão quase passaria despercebida, não estivessem uns certos Isao Takahata e Hayao Miyazaki na programação. O único outsider é Mizuho Nishikubo com o seu “Giovanni’s Island (2014), na Competição Oficial de longas-metragens. As propostas remanescentes destes autores são: “The Wind Rises” (2013), “Pom Poko” (1994), “Only Yesterday” (1991), “My Neighours the Yamadas” (1999) e “The Tale of the Princess Kaguya” (2014) e que me levam ao documentário “The Kingdom of Madness and Dream” (2013).

Exibido no Cinema Ideal, na minha estreia nesta sala íntima (é mais bonito do que chamar-lhe pequena), e com lotação quase cheia, tinha as expectativas sem dúvida, por demais, elevadas.

domingo, 8 de março de 2015

"Ghost House" (Gwishini sanda, 2004)


Entramos naquela casa e é amor à primeira-vista. Esquecemos o que penámos, ao procurar em casas excessivamente pequenas, excessivamente caras, distantes da família e do trabalho a que pudéssemos chamar lar. É aquela. Todos os defeitos parecem menores ou de resolução fácil e as paredes falam connosco: “compra-me, compra-me”. Alguns dias depois da mudança ou ainda durante as inevitáveis obras chegamos à conclusão que existe uma infiltração ou a madeira tem bicho. A casa enganou-nos bem.
Pil-gi (Seung-won Cha) tem um problema parecido… mas com um fantasma! Depois de anos de itinerância que lhe tomaram toda a juventude, Pil-gi consegue cumprir a promessa de ser dono da sua própria casa, no leito de morte do pai. Esta é também uma boa notícia para a namorada Soo-kyung (Tae-young Son) que está ansiosa por oficializar a relação e quiçá viver para cuidar do lar de ambos. Quem não fica nada satisfeita com o assunto é Yeon-hwa (Seo-hee Jang) a anterior inquilina que não quer deixar um pormenor insignificante como a morte a impedir de expulsar o novo proprietário. Se a premissa soar a um filme que já viram é porque este existe. “Just Like Heaven” (2005) é a película americana com uma Reese Withersoon mais açucarada que o costume, que junta os elementos ainda mais saudosos de “Il Mare” (2000). O primeiro é uma comédia, o segundo é uma comédia dramática, o terceiro é um dramalhão e vale a pena assistir a qualquer um deles desde que aceitem a sua improbabilidade. Em “Ghost House” a situação insólita é aproveitada para gerar comédia situacional. Yeon-hwa tenta por exemplo, sabotar a organização da nova casa e Pil-gi responde com cerimónias religiosas para tentar expulsar o poltergeist. Todas as tentativas falham de forma miserável. Ele recorre até à ajuda de um psíquico. Fantástico como é sempre tão fácil encontrar alguém com um conhecimento tão… especializado. Além de que, como é habitual neste tipo de filmes, há toda uma série de ataques que geram reacções igualmente agressivas até que por fim, as partes se reúnem para discutir umas tréguas e descobrir que é bem mais o que os une que aquilo que os separa. Mais adiante, surge ainda um interesse pouco escrupuloso que está até acima dos proprietários para que se avance com a construção de um hotel naquele local. Que original.

“Ghost House” funciona num registo muito leve, tanto que poucos minutos após o filme todo o seu conteúdo já se terá evaporado da memória. Seung-won Cha está perfeito no papel de rapaz com bom coração que só quer que as coisas corram bem mas está sempre no lugar errado à hora errada. É, no entanto, perfeito para o fantasma que lhe advém pois é o seu coração de manteiga que irá permitir ao fantasma encontrar algum tipo de resolução. Apesar de um prólogo que demonstra as tribulações de Pil-gi e o pai, uma equipa unida contra o mundo não nos é dada a conhecer a luta de Pil-gi para comprar a casa. De súbito, ele é um homem com uma vida amorosa e trabalho bem-resolvidos. Então por que não haveria de ser dono da sua própria casa? Além disso, teria sido simpático perceber como Pil-gi se apaixonou por aquela casa em particular. Não escolhesse aquela habitação não teria de lidar com fantasmas inconvenientes. Quanto a Seo-hee Jang, ela não lhe fica atrás no que respeita a despertar sentimentos de empatia embora não tenha talvez tanto com que trabalhar, pois a sua presença gira em torno da sua preciosa casa e do amor que lhe está associado. A estória estende-se uns bons vinte minutos mais do que seria desejável. Se os gags funcionam bem na primeira metade do filme, passado o receio do fantasma o desfecho devia ter sido antecipado para evitar o cansaço. Duas estrelas.

O melhor:
- As tentativas da fantasma para expulsar Pil-gi da casa
- As galinhas

O pior:
- Longa Duração
- Os mauzões que querem destruir a casa com o objectivo de ali construir um empreendimento
- Efeitos especiais de qualidade duvidosa

Realização: Sang-jin Kim
Argumento: Hang-jun Jang e Jae-yeong Jang
Seung-won Cha como Pil-gi
Seo-hee Jang como Yeon-hwa
Hang-Seon Jang como Jang Kil-bog
Tae-yeong Son como Soo-kyung
Moo-sik Yun como pai de Pil-gi

Próximo Filme: "Lost on Journey" (Ren zai jiong tu, 2010)
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