domingo, 19 de Outubro de 2014

"Invitation Only" (Jue Ming Pai Dui, 2009)


Wade Chen (Bryant Chang) é o motorista de Yang (Jerry Huang), o presidente de uma grande empresa sediada em Taiwan, o qual inveja com todas as forças. Ele tem tudo o que o preguiçoso Chen gostaria de ter: rios de dinheiro, uma namorada supermodelo e carros de luxo. Um dia, Wade é apanhado a observar Yang a ter relações com Dana (Maria Ozawa) e este responde com um convite insólito. Wade é convidado a participar numa festa exclusiva onde pela primeira vez tem contacto com a vida da elite. Lá, ele explora ao máximo aquilo com que apenas poderia sonhar: jogar as apostas mais altas, conviver com os famosos, uma noite com Dana e até, a oferta de um carro desportivo. Parece bom demais não é? 
Só entra com convite
Wade e outros convidados são atraídos para uma sala onde descobrem que a sua presença ali faz parte de um plano malicioso. Eles foram convidados para constituir a sobremesa (figurativa) dos seus anfitriões. Aquilo é um jogo e eles não são os jogadores. Foram atraídos para a festa para os ricos e poderosos poderem dar azo à suas fantasias mais sádicas.
A senda de Wade encontra eco no próprio filme. “Invitation Only” é um primo invejoso das películas de torture porn. “Saw”, “Hostel” e outros que tais, são a óbvia inspiração de um filme que se apresenta com o slogan de “1.º Slasher Originário de Taiwan”. O engenho complexo de um e a luta de classes do outro são subaproveitados e amalgamados numa única noite de tortura. As classes baixas são humilhadas. Apresentadas como falsas e invejosas, visto que até encarnam entidades falsas para se enquadrar entre os ricos. Como se isso fosse importante. Note-se que é suposto odiarmos os ricos por brincarem com os indesejáveis pobres que são odiados apenas por pertencerem a uma determinada condição social. A qual, se calhar, nem sequer é controlada por eles. Mas tal é o argumento para que a audiência mantenha os níveis de adrenalina elevados. 

“Invitation Only” está cheia dos lugares-comuns do género pelo que afirmar que “Invitation Only” se desenrola na Europa ou na Ásia, é indiferente. No máximo, os actores asiáticos são tão maus ou piores que os actores originais que pretendem emular. Quase nunca algum dos personagens se assemelha a uma pessoa real pois, todos eles parecem, sem excepção, autênticas bestas. Isto leva-nos a questionar se tal não será, de certo modo, uma protecção dos argumentistas. Como se criar sentimentos pelas pessoas que irão morrer de forma horrenda fosse provocar aflicção junto das audiências. O que eles não sabem é que a simpatia pelos personagens pertence à fórmula que nos faz gostar de um filme. O orçamento é diminuto, os diálogos são atrozes, as personagens caricaturas e poucos aparentam saber o que estão a fazer. Apenas os momentos de tortura são eficazes embora, até esses, não sejam nada de original ou brutal por comparação com os procuram imitar. A cena de sexo gratuito com a actriz pornográfica Maria Ozawa também é capaz de agradar a quem gosta do seu terror com um pouco de erotismo. Mas se o motivo for a actriz, não há por que não ver directamente um “filme” dela a sofrer através do primeiro terço de filme para lá chegar. 
“Invitation Only” é como um convite indesejado. À primeira vista, o convite parece aliciante e alinhamos até que percebemos que fizemos asneira e é tarde demais. O filme é um desperdício de tempo e quando olhamos para o relógio chegamos à conclusão que já vimos metade. É impossível desistir agora. O fim? O terror da possibilidade de uma sequela. Uma estrela.

Realização: Kevin Ko
Argumento: Sung In e Carolyn Lin
Bryant Chang como Wade Chen
Maria Ozawa como Dana
Julianne Chu como Hitomi
Kristian Brodie como Warren
Jerry Huang como Presidente Yang
Vivi Ho como Holly

O melhor:
- As cenas de tortura
- Maria Ozawa (quando está calada)

O pior:
- Imita filmes que já não são muito bons e ainda fazer pior
- Argumento é tão ridículo que darão por vós a rir-se da improbabilidade das situações
- Consegue ser um tédio


Próximo Filme: "The Theatre Bizarre", 2011

domingo, 5 de Outubro de 2014

"The Chanting" (Kuntilanak, 2006)


Antes de se tornar a “Hammer Girl”, a assassina icónica dos óculos de sol ultra estilosos que transportava dois martelos mortíferos em “The Raid 2: Berandal” (2014), Julie Estelle era a miúda sensação dos filmes de terror indonésios. Em 2006, ela participou em “Kuntilanak”, um dos dois filmes e meio de cariz sobrenatural cque ostentam uma qualidade razoável e em “Macabre” (2009), onde encarnou a “final girl” capaz de escapar a uma família de canibais sedentos de sangue.

Em “Kuntilanak” Estelle interpreta Samantha, uma rapariga que após a morte da mãe foge de casa para escapar às investidas amorosas do padrasto. Sam recusa-se a aceitar o apoio do namorado Agung (Evan Sanders) que não esteve ao lado dela quando a mãe dela morreu e procura refúgio numa residencial de estudantes. Esta é gerida por Yanti (Lita Soewardi) uma mulher supersticiosa que lhe explica as regras do local e lhe conta como o edifício teve um incêndio há muitos anos, sendo propriedade, nos dias de hoje, da elusiva Madame Mangkujiwo (Alice Iskak). Segundo a tradição local, a árvore em frente à residência é habitada por um demónio, motivo pelo qual, a população evita passar ali, à excepção de jovens estudantes com parcos recursos e desconhecimento da História. A acreditar no folclore local, o monstro pode ser convocado através de um encantamento que procede a entoar. Se ele aparecer e o som parecer próximo é por que na verdade ele encontra-se ainda longe. Se, por outro lado, se ouvir uma gargalhada distante ele encontra-se mais perto do que se poderia pensar. Claro que tudo não passa de um conto de gente supersticiosa. No entanto, após esta interacção Sam nunca mais é a mesma. Ela fica fascinada pelo espelho que possui no seu novo quarto que aparenta possuir poderes místicos e mostra um comportamento irascível crescente. Em simultâneo o corpo dela inicia a demonstrar sequelas físicas. Em breve, aqueles que a maltratam começam a surgir mortos. Será que a dor que sente a está a transformar num monstro? Será tudo obra de uma mente bem mais maléfica ligada ao mundo dos espíritos?

No totoloto que é o cinema de terror indonésio, “Kuntilanak” é uma das experiências mais entusiasmantes e seguras. Uma tendência da indústria e, em particular, no género de terror é a utilização exagerada da técnica da subexposição. Esta serve uma dupla função: utilizar a ausência de luz como modo de acentuar o sentimento de desconforto e, o mais provável, tentar disfarçar na ausência de cor, as deficiências do orçamento que se denotam por demais nos cenários e “efeitos especiais”.  Em “Kuntilanak” são evidentes os dois lados da moeda. Durante o dia é utilizada a sobreexposição que acaba por ter o mesmo efeito de disfarçar eventuais deficiências e de conferir uma atmosfera de desconforto genuíno e não apenas ensaiado. “Kuntilanak” continua a apostar na velha fórmula de jovens na maioria bonitos e um pouco parvos, para quando estes encontrarem o fado, não termos pena excessiva deles. O que lhes acontece é menos importante que os demónios de Samantha. É em Estelle que se encontra o potencial e na tragédia da personagem uma estória mais do que vaga. A morte da mãe dela, a relação péssima com o namorado e a sugestão de abuso por parte do padrasto são material muito mais interessante do que criaturas rastejantes de cabelos compridos. A mente perturbada aliada às estórias contadas para assustar a pequena e adultos em semelhante medida constituem o ingrediente ideal. A ideia de que Sam finalmente quebra perante a pressão e ataca em todas as direcções é tentadora mas ainda assim uma improbabilidade. Só que à época, Julie Estelle era ainda uma actriz verde e o argumento demasiado óbvio. Talvez por isso é que quando Sam entoa o encantamento pela primeira vez a imagem parece ridícula ao invés de desconcertante. Afinal, “Kuntilanak” continua a constituir um mistério sobrenatural. Três estrelas.

Realização: Rizal Mantovani
Argumento: Ve Handojo e Rizal Mantovani
Julie Estelle como Samantha
Evan Sanders como Agung
Ratu Felisha como Dinda
Alice Iskak como Madame Mangkujiwo
Lita Soewardi como Yanti
Ibnu Jamil como Iwank

Próximo Filme: "Invitation Only" (Jue ming pai dui, 2009)

domingo, 28 de Setembro de 2014

"Life After Beth", 2014


Pessoal, o “Shaun of The Dead” aconteceu há dez anos. E, se sim, quase todas as comédias de terror de zombies são comparadas àquele filme, chega um momento em que temos de seguir em frente. As comédias de terror com zombies após o “Shaun of the Dead” não são, nem devem querer ser este último. É o mesmo que os críticos da velha escola, que sempre que vêem um filme de zombies remetem sempre para um certo George E. Romero. São referências é certo, mas estas não se podem substituir às películas que assistimos no presente apenas por que na altura fizeram tanto pelo género.
Quando Beth (Aubrey Plaza) morre após ser picada por uma serpente o seu namorado Zach (Dane DeHaan) fica de rastos. Ele ganha uma obsessão mórbida com todas as questões relacionadas com Beth, começando até a passar longos períodos fora de casa, na companhia dos pais desta, Maury (John C. Reilly) e Geenie (Molly Shannon). Os pais e o irmão Kyle (Mathew Gray Grubler) não compreendem que ele perdeu o amor da sua vida, ainda que a relação estivesse a atravessar problemas. Se calhar até acham que ele está a caminhar para a depressão, envolvido que está nas longas sessões de masoquismo em casa de Beth. Aquilo que foi o modo encontrado por Zach para mitigar a dor que sente no coração é-lhe um dia retirado repentinamente. Os pais de Beth deixam de lhe abrir a porta e de o acolher na sua casa, no seu peito. Está na altura de esquecer Beth. Mas ele não está pronto e o que vê um dia choca-o até à sensatez. Beth está na casa dos pais, não se recorda do que lhe sucedeu e continua ainda bastante apaixonada por ele. Onde os pais dela vêem um milagre, Zach vê uma tragédia prestes a acontecer: Beth é um zombie.

“Life After Beth” aborda uma experiência ainda pouco aflorada nos filmes de zombies. O que sucederia se a pessoa que mais amassemos no mundo se tornasse um zombie? Como tanto se tem assistido, quer no cinema quer em televisão, os protagonistas são rápidos a tomar a decisão definitiva, a da morte irrevogável daqueles com quem partilhavam a vida íntima. Ainda que a decisão seja motivada pela compaixão, isto não significa que o acto seja tomado com facilidade. Aquelas personagens que o argumentista tentou convencer-nos de que estavam a atravessar o apocalipse das suas vidas tornam-se desumanas em segundos. Mas “Life After Beth” nunca chega a ser uma tragédia, pois todas as fases da aceitação da morte de um ente querido estão minadas de piadas. A aceitação cega da “segunda vinda” de Beth pelos pais desta, a apatia dos pais Zach e a obsessão do irmão deste com a autoridade constituem pistas para a conclusão mais improvável de todas, o amante de Beth é o menos louco de entre os loucos. Outra inovação é talvez, o enfoque dos personagens nas suas próprias vidas. Estão tão “casados” com a sua própria realidade que não questionam o que sucede em seu redor. E afinal, o que é que está a acontecer mesmo? “O Zach está com uma depressão porque vê a sua namorada morta? Os mortos voltaram à vida? Desde que não interfira com as nossas vidas”. Talvez a ideia mais poderosa seja essa: a de que o Homem é um ser fundamentalmente egoísta e que aceita quase tudo desde que não mexam com a sua comodidade. Ninguém deseja ser um herói, tirando a dada altura Kyle, mas até este é motivado pelas suas próprias razões lunáticas.
Dane DeHaan, aka sósia do Leonardo DiCaprio continua a dar ares de cochorrinho abandonado mas sem enjoar. A sua personagem é a que apresenta maior densidade emocional: tristeza profunda, descrença, alegria, luxúria, está lá tudo. Já Aubrey Plaza nasceu para ser uma zombie. Há qualquer coisa de pouco convencional nesta actriz que lhe dá um certo sentido de perigo e a torna perfeita para os papéis que, regra geral, não funcionam em mulheres glamorosas que necessitam, no mínimo, de um nariz prostético para se parecerem com algo que não elas próprias. Eles estão rodeados por um grupo de actores com décadas de experiência entre si que interpretam personagens unidimensionais é certo, mas nunca surge a sensação de que alguém está a remar contra a maré. Eles acreditam e fazem crer nas parvoíces que saem da boca daqueles personagens.

Quem espera os comos e os porquês de um apocalipse zombie irá sair muito desiludido de um visionamento de “Life After Beth”. Da herança de sangue e terror resta muito pouco. Promete apenas gargalhadas descomprometidas. Há algum problema com isso? Três estrelas.

Realização: Jeff Baena
Argumento: Jeff Baena
Aubrey Plaza como Beth Slocum
Dane DeHaan como Zach Orfman
John C. Reilly como Maury Slocum
Molly Shannon como Geenie Slocum
Mathew Gray Grubler como Kyle Orfman
Cheryl Hines como Judy Orfman
Paul Reiser como Noah Orfman

Próximo Filme: Kuntilanak, 2006

domingo, 14 de Setembro de 2014

"71 into the fire" (Pohwasogeuro, 2010)


Todos os países padecem de momentos menos felizes, uma espécie de loucura colectiva que leva a que irmãos combatam entre si, traumatizando gerações inteiras. No meio destes eventos surgem histórias de coragem, façanhas enaltecidas pelos que foram favorecidos por elas e cujos pormenores negativos são propositadamente obscurecidos de modo a alimentar um sentimento patriótico nas gerações futuras. “71 into the Fire” é baseado numa estória verídica que decorreu durante o conflito coreano (1950-1953), na qual 71 estudantes com pouca ou nenhuma formação militar aguentaram durante 11 horas, uma escola em Pohang, ponto estratégico fulcral para os invasores norte-coreanos da companhia 766.

A narrativa apresenta Seung-hyeon Choi como Jang-beom Oh, um estafeta aterrorizado que é colocado na posição ingrata de líder dos estudantes que são largados numa pequena escola para raparigas em Pohang. Depois de falhar espetacularmente num primeiro confronto com o inimigo, ele recebe o voto de confiança do Capitão Seok-dae Kang (Seung-woo Kim) para guardar a escola que, à partida não deverá constituir um alvo importante para o exército norte-coreano. As circunstâncias mudam e os 71 jovens mal preparados e com poucas munições encontram-se perante um exército arrogante, numa manifestação de força e sem qualquer apoio dos que os destacaram para aquela posição. “71 into the Fire” foca-se mais na batalha interior de Jang-beom se erguer à altura da situação como convém e inspirar os camaradas para a batalha das suas vidas. Desde o início a sua liderança é questionada pelo delinquente Gap-jo Koo (Sang-woo Kwon) e os que este recruta para o seu lado. Para ele não existe um verdadeiro sentido de causa, o mundo é um lugar aterrador, onde é cada um por si. Não existe lugar para heroísmo ou sentimentalismo. Se calhar é o personagem mais realista em toda a película. Mas felizmente, a história faz-nos recordar que há lugar a milagres quando as pessoas se juntam para combater as forças do mal (o que quer que elas sejam). Gap-jo Koo cai na armadilha de se aproximar dos camaradas que atravessam a mesma situação e nos momentos críticos, revela-se o anti-herói que os setenta companheiros de desventura merecem e a bomba de oxigénio perfeita para Jang-beom descobrir a força que lhe faltava para os liderar.

Se a primeira metade do filme se arrasta, são os últimos momentos antes do embate que melhor demonstram o que aqueles jovens deverão ter sentido antes do embate. Num momento eram crianças, no outro os seus olhos assustados mostravam-nos como homens. A reconstituição histórica sofreu uma influência óbvia de filmes mais realistas como “Saving Private Ryan”(1998) o que certamente o eleva acima do mero instrumento de propaganda baseado em factos reais. O elenco é também competente sendo que o mais conhecido será o cantor pop T.O.P. (Seung-hyeon Choi) que no papel de um introvertido e pouco confiante líder não compromete, demonstrando até que com tempo e experiência terá muito mais a dar no campo do cinema. Uma jogada de mestre, pois atrai as fãs do “cantactor” sem alienar quem procura um filme mais sério. O final é o standard do género com explosões, discursos inflamados e acrobacias de cortar a respiração. O prazer adiado por vezes sabe melhor e no caso em questão, fora ele mais tardio e “71 into the Fire” perdia o motivo de interesse. De facto, as tácticas para ganhar tempo e o confronto directo só pecam por escassez. “71 into the Fire” não é original mas cumpre a promessa de uma estória empolgante que poderá agradar quer a sul-coreanos quer a um público internacional. Três estrelas.

Realização: John H. Lee
Argumento: Man-hee Lee, Dong-woo Kim e John H. Lee
Seung-hyeon Choi como Jeong-beom Oh
Sang-woo Kwon como Gep-jo Koo
Seung-woo Kim como Seuk-dae Kang
Seung-won Cha como Moo-rang Park

Próximo Filme: "Life After Beth" (2014)

domingo, 31 de Agosto de 2014

"The Raid 2: Berandal", 2014


Em 2011 dava-se um dos primeiros momentos "Unicórnio Cor-de-rosa", entenda-se "todos sabem que não existe mas todos esperam secretamente que exista" e estreava "The Raid: Redemption". O melhor de filme de acção da última década disseram alguns, quiçá de sempre, disseram outros. Apresentava uma arte marcial inédita (silat) e adrenalina como há muito não se via. A sinopse era algo tão simples como: uma equipa SWAT que entra num edifício em Jacarta para combater o domínio de um barão da droga acaba encurralada e massacrada pelos mesmos que jurou destruir. Em 2014, surge "The Raid 2: Berandal" e volta a dar-se o fenómeno "Unicórnio Cor-de-rosa", daqueles que só se repetem uma vez em cada ciclo cinematográfico: a sequela ser superior ao filme que a antecede. Se não sentem o mesmo, lamento mas estão em negação que, bem dentro dos vossos corações, sabem que o que estou a dizer é verdade.

Rama (Iko Uwais) o polícia sobrevivente ao massacre do primeiro filme (e, também ele responsável por um) faz um pacto com os superiores: deverá assumir uma nova identidade e infiltrar-se no seio do crime organizado, de modo a chegar ao topo da cadeia e arranjar provas comprometedoras contra os grandes chefes. A alternativa não se avizinha a melhor: se recusar e regressar à família será perseguido pelos criminosos e colocará em perigo a vida de todos. Assim, Rama segue numa odisseia pelo crime que inclui ser preso para se tornar próximo de Uco (Arifin Putra) filho de Bangun (Tio Pakusodewo), um dos pais do crime de Jacarta. O resto é estória e sequências infindáveis de pancada não aconselháveis aos mais sensíveis. Isto, como quem diz, se forem sensíveis e, "The Raid 2: Berandal" não é, em definitivo, para os de estômago fraco fizeram a pior selecção de filme possível. Mas se forem, como eu, entusiastas de bom cinema de acção e de artes marciais sentem-se e apreciem a Mona Lisa do realizador Gareth Evans.
Uma das grandes victórias deste filme improvável é o facto de ser impossível apreciá-lo em silêncio absoluto. Os combates são a cereja no topo do bolo e Gareth, a esse nível, não nos poupou. Há mais e muito bons vilões incluindo o irascível e mimado Uco, a misteriosa “Hammer Girl”, Alicia (Julie Estelle) e o assassino por encomenda Prakoso (Yayan Ruhian). Estas cenas exigem uma tal fisicalidade dos actores e dos duplos que darão por vós a soltar muitos “ahs”,“uis” e até arfar com a falta de fôlego, para o ecrã, tornando a película interactiva de um modo positivamente inesperado. Mais, a audiência não é poupada ao cinema mais visceral: cada golpe é sentido e o sangue não é ocultado. Os actores, para o final parecem sombras de si próprios, como se tivessem sido espancados, física e psicologicamente. Não me tomem por sádica mas sabemos que estamos a assistir a algo especial quando os actores fingem tão complemente que a dor que ostentam parece real. Tais sequências de pancadaria selvática exibem uma graciosidade tal que se assemelham a um bailado. A coreografia é novamente dirigida pelo multifacetado Yayan Ruhian que não só regressa a este papel como volta a interpretar um papel sem qualquer ligação com o do filme anterior, demonstrando mais carisma que muitos actores veteranos. Pelo trabalho técnico, “The Raid 2: Berandal” merece o maior destaque e ser premiado; pela inovação, vagas sucessivas de audiências sem medo de experienciar o verdade cinema de acção. Coloquem de parte o preconceito por “ser um filme de artes marciais”. “The Raid 2: Berandal” é um bom filme e é apenas isso que necessitam saber. E é um filme tão imponente que é capaz de fazer homens adultos questionar a sua masculinidade e por empatia, fazer crescer pêlos no peito às mulheres. Ok, estou a exagerar mas acho que percebem a ideia.
“The Raid 2: Berandal” não está isento de falhas. Além de cenas que desafiam as leis da física, é incrível como certos personagens, com tal desgaste físico se aguentam ainda de pé. Pessoal, não tentem isto em casa, mas estou certa que se levarem um murro bem dado, não sei, digo eu, que perdem os sentidos. Quanto mais levar uma dezena e na cena a seguir estarem frescos como um pêssego. No entanto, onde é competente, é-o de tal modo que os defeitos, reais ou percepcionados quase desaparecem do nosso radar. Quatro estrelas.

O melhor:
- As sequências de combate, nomeadamente, a luta na lama (sem bikinis)
- O retorno de Yayan Ruhian
- Silat.

O pior:
- Improbabilidade de algumas cenas.
-  A estória deixa de fazer sentido para se tornar apenas uma desculpa para inúmeras sequências de confronto.

Realização: Gareth Evans
Argumento: Gareth Evans
Iko Uwais como Rama
Arifin Putra como Uco
Tio Pakusodewo como Bangun
Oka Antara como Eka
Alex Abbad como Bejo
Cecep Arif Rahman como “Assassino”
Julie Estelle como Alicia
Very Tri Yulisman como “Homem do bastão”
Ryuhei Matsuda como Keichi
Kenichi Endo como Goto
Yayan Ruhian como Prakoso

Próximo Filme: "71 into the Fire" (Pohwasogeuro, 2010)

PS: Este filme vai ser exibido no Motelx, dias 10 de setembro pelas 16h00 e 14, às 00h15. Não sejam uns meninos e apareçam!

domingo, 3 de Agosto de 2014

Ragnarok (Gaten Ragnarok, 2013)


Há quanto tempo não assistem a um filme de aventura? Ou melhor, qual foi o último verdadeiro filme de aventura a que assistiram que não envolva robots ou heróis da Marvel e que não seja uma sequela? Foi o que me pareceu.

“Gaten Ragnarok” inicia-se com uma obsessão. Sigurd Svendsen (Pål Sverre Hagen) é um arqueólogo trintão e pai de dois filhos que vive para o trabalho. Desde a morte da mulher (a quantidade de viúvos desgraçados por esse cinema fora), que Sigurd descura a vida a pessoal e busca, de modo compulsivo, uma grande descoberta relacionada com um antigo navio viking. Na sua mente perturbada pela dor, Sigurd crê que a falecida mulher ficaria feliz por ele. Acho que criar os filhos para se tornarem jovens adultos saudáveis faria mais pela felicidade de todos os que ainda vivem mas isso sou eu que sou esquisita. Na verdade Sigurd não está a fazer grande coisa nem pelos filhos nem pela carreira, pois mais não faz senão andar em círculos. Para o director do museu (Terje Strømdahl) onde trabalha é a gota de água, depois de mais um discurso fantasioso de Sigurd perante potenciais patrocinadores que provoca o corte de uma vital bolsa de investigação. Ele experimentou dizer-lhe que seguisse outra linha de trabalho, aconselhou até que acompanhasse mais os filhos e nada. Tudo parece perdido para Sigurd quando desilude a pequena Ragnhild (Maria Annette Tanderød Berglyd) pela enésima vez e vê, perante si, a possibilidade de anos a fio sem aventura, limitado ao papel de mero guia dos visitantes do museu. Quantos não desejariam um simples trabalho de escritório pago? É o colega Allan (Nicolai Cleve Broch) quem vem abalar a realidade monótona que decerto se abateria sobre o homem ainda novo e inconformado. Uma antiga pedra, com runas milenares revela informação fulcral sobre um dos momentos mais obscuros e interessantes da mitologia nórdica, o “Ragnarok”, ou a série de ocorrências que levarão ao fim do mundo como este é conhecido na actualidade. Determinados e empurrados pela informação recém-descoberta Sigurd e Allan partem com as crianças para Finnmark, a região de beleza inóspita mais ao norte da Noruega que faz fronteira com a Rússia. Lá reúnem-se a Elisabeth (Sofia Helin) uma exploradora experiente e a Leif (Bjørn Sundquist) um guia com mau feitio, para encontrar mais artefactos arqueológicos, vestígios da era soviética e algo de que ninguém estava à espera (se não tiverem visto mais do que o 1.º trailer, claro).

Sabem aquele ditado que diz qualquer coisa como não ser o destino que conta mas a viagem que se faz para lá chegar? Não é isto. As paisagens são magníficas e atravessar terras que poucos pisaram tem algo de excitante mas é Sigurd é um completo idiota. Trouxe os filhos a reboque apenas por obrigação e pouco mais que a atenção de Elisabeth o atrai quando não está à procura de pistas para o “maior achado arqueológico nórdico de sempre”.  Está completamente cego quanto ao que tem à sua frente. Por isso, quando finalmente se apercebe do seu erro pode ser tarde demais para salvar os filhos e o novo interesse amoroso.
Esta entrada oriunda da gelada Noruega encontra na sua própria terra e na mitologia escandinava os ingredientes certos para um filme de aventura. Os planos gerais de fiordes noruegueses e montanhas virgens parecem gritar por um grupo de intrépidos exploradores e evoca personagens como Indiana Jones ou James Bond cujo encanto ia além da sua própria persona. A audiência queria saber de que estes personagens eram capazes quando eram inseridos, por vezes inadvertidamente, em ambientes que não eram o seu e se conseguiam testar-se até ao fim das suas forças. Se a “Gaten Ragnarok” falta algo presente nestas narrativas é “O” personagem. Sigurd não inspira simpatia, ainda que a sua demanda desponte a curiosidade, Allan não deixa de ser um sidekick, mas até ele tem os seus defeitos e Elisabeth que se demonstra forte e corajosa, uma mulher alfa, se quiserem, não surge no ecrã tempo suficiente para roubar o estrelato. Mas os problemas não se quedam por aí. O ângulo da mitologia ou da presença soviética tal como o julgávamos, perde-se demasiado rápido e dá lugar a efeitos gerados por computador que deixam muito a desejar. As cartadas do argumento são depois, por demais previsíveis e inofensivas, (digamos que os maus têm o que merecem) deixando até abertura para uma sequela. Mas num deserto de filmes de aventura sem o predicado da originalidade, “Gaten Ragnarok” torna-se quase um “mal” necessário. Pode não ser o filme de aventura que queremos mas o filme de aventura que precisamos. Para ver com os miúdos. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Filme para ver em família
- Factor aventura
- Produto light, refrescante e inofensivo

O pior:
- Efeitos especiais fraquinhos, fraquinhos...
- Sigurd e Allan são capazes de ser os piores arqueólogos de sempre
- Necessitava de mais uns minutos de acção.

Realização: Mikkel Brænne Sandemose
Argumento: John Kåre Raake
Pål Sverre Hagen como Sigurd Svendsen
Nicolai Cleve Broch como Allan
Bjørn Sundquist como Leif
Sofia Helin como Elisabeth
Maria Annette Tanderød Berglyd como Ragnhild
Julian Podolski como Brage
Terje Strømdahl como Director do Museu



Próximo Filme: "The Raid 2: Berandal", 2014

domingo, 27 de Julho de 2014

Colaborações #4

A colaboração mais recente do Not a Film Critic, abre as portas ao segredo mais bem guardado por mim até ao momento: sou uma romântica incurável. Por isso, podem agradecer à Inês Moreira Santos por ter ajudado a desvendar o segredo ou esquecer que este momento alguma vez existiu e, ler de qualquer modo, o artigo no Hoje vi(vi) um filme, como se tivesse sido escrito por outra pessoa. Não se preocupem que a programação manter-se-à horrífica como sempre.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Motelx abre com um toquezinho a Coreia*



O Motelx está aí a rebentar (é só em setembro mas quem está a contar os dias?) e os fãs de terror têm razões para ficar contentes. A conferência de imprensa do Motelx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa deixou antever que, entre outros, o cinema São Jorge tem o Teatro Tivoli por companheiro e que os primeiros filmes anunciados deixam água na boca. SÓ na secção Quarto Perdido vamos ter películas como “Life After Beth” que se não reinventa a comédia zombie, pelo menos dará para recordar nostálgico o “Shaun of the Dead” – desculpem qualquer coisinha mas gosto de fingir que o “Warm Bodies” não aconteceu e que vai ser exibido o mais brutal, mais assombroso e menos hiperbólico filme que já se viu na tela desde o “The Raid: Redemption”, o “The Raid 2”. E porque não se diga que as criancinhas não têm a devida atenção, vem aí o Lobo Mau com o “Pinocchio”, “Fantasia” e “Snow White and The Seven Dwarfs”. Tudo clássicos de levar os meninos às lágrimas e recalcamentos tais que só passados muitos anos de terapia é que irão compreender que na base dos seus medos mais profundos se encontra aquele filme inofensivo que os pais os levaram a assistir há tanto tempo atrás. E se a organização quiser fazer mesmo mazelas, pode ser que para o ano exibam “The Rescuers”. Se não gostarem desse filme de animação não têm coração meus queridos. Ai naninanão que não têm. Pobre Penny. Mas já voltamos a esse filme…

E como não estivessem já os cinéfilos com o apetite bem aguçado, eis que o prato principal e sobremesa foi “Snowpiercer” de Joon-ho Bong*. (Sim, eu sei que estão fartos de ler em todo o lado “Bong Joon-ho” mas por uma questão de coerência deste estaminé é nome próprio seguido de apelido, sim?) Num futuro pós-apocalíptico, ou como costuma fazer sentido que se iniciem quaisquer críticas que se refiram a um futuro mais ou menos indistinto onde a humanidade se encontra quase extinta porque esta, sozinha, contribuiu para a destruição do planeta (quem diria?), um super-comboio atravessa o globo ininterruptamente. Porquê? Não é como se importasse, fá-lo e pronto. A terra encontra-se a atravessar uma era glacial e o comboio é a única esperança de sobrevivência da humanidade. Para não variar, o Homem continua no seu melhor. No comboio vigora um “Estado” Totalitário sob o comando do elusivo Wilford e os habitantes nas carruagens inferiores estão reduzidos a meros mendigos. Porcos, feios e quase despojados de humanidade aguentam as piores sevícias até ao mais recente dissabor. Os passageiros da frente reclamam duas pequenas crianças para si (vide “The Rescuers”) – juro que não spoilo mais nada –, e eles decidem enfim, encetar a revolta. O objectivo? Chegar à cúpula. O que farão depois disso logo se verá. “Snowpiercer” não é nenhum “The Host” (2006) ou “Memories of Murder” (2003), mas serve para o efeito e, como vou dizendo, bom seria se todos os realizadores tivessem pelo menos um grande filme no currículo. “Snowpiercer” é um híbrido, criado para apelar um público mais vasto ou não fosse o protagonista um Chris Evans ainda assim, “enfeiado” com um nariz prostético para se parecer de forma vaga com um vagabundo comedor de criancinhas. (Não, desta vez a prótese não dará direito a um Óscar). O elenco é um desfile multiétnico de grandes estrelas e actores consagrados num produto que devia ser o grande filme catástrofe da segunda década do milénio ficando apenas a instantes disso mesmo. Não me entendam mal, “Snowpiercer” é mais cerebral que qualquer cataclismo que tenham visto nos últimos anos: se retirarmos o comboio imparável e as personagens excêntricas (se não soubesse, não conseguia reconhecer a Tilda Swinton!), a ideia base é conhecida, incidindo sobre a luta eterna do homem contra os seus pares. A impossibilidade de colaboração por oposição à competição, a concepção da superioridade de uns sobre outros e a consequente exploração dos subjugados por aqueles que detêm os recursos essenciais à geração de vida são tão reais agora como eram há centenas de anos, com a diferença de que agora utilizamos números para descrever a situação: 99% versus 1%. A tese da novela gráfica em que “Snowpiercer” se baseia causa desconforto e aí poderá residir um dos elos mais fracos para a captação de audiências. Isso, e cortes desnecessários (que levante a mão em que acha que os Weinstein deviam guardar o lápis azul). É dado tantas vezes repetido que o Homem tende a evitar o desconforto e a buscar o prazer. Mas também é verdade que filmes de desastres são muitas vezes ridículos servindo apenas combustível suficiente para a audiência sair da sala de cinema agradada com a mensagem de esperança de final. Pouco espaço é deixado para a reflexão. Então, porque é que Joon-ho Bong fez a aposta controversa de realizar um filme catastrófico, com tão desagradável subtexto social? Duas desgraças num só filme? Venham daí mais que, meus queridos fãs de terror, é este o nosso alimento e o Motelx ainda agora começou... Três estrelas e meia.


Realização: Joon-ho Bong
Argumento: Joon-ho Bong e Kelly Masterson
Chris Evans como Curtis
Kang-ho Song como Min-soo
Ed Harris como Wilford
John Hurt como Gilliam
Tilda Swinton como Mason
Jamie Bell como Edgar
Octavia Spencer como Tanya
Ewen Bremmer como Andrew
Ah-sung Go como Yona

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