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domingo, 8 de janeiro de 2017

"Haunted Universities" (Mahalai Sayongkwan 2009)


Da Tailândia chega mais uma antologia de terror. Ênfase no “mais uma” que o país dos sorrisos reproduz antologias como Hollywood sequelas. Como é de senso-comum, quantidade nem sempre significa qualidade e, em comparação com os pares “Haunted Universities” encontra-se na parte inferior da tabela… “Haunted Universities” é composto por quatro segmentos diferentes mas que se encontram interligados através de Muay uma jovem que integra uma equipa de salvamento, que percorre as ruas da cidade de Banguecoque ao longo de uma noite numa ambulância.

“The Toilet” – Um pequeno traficante tenta enganar os seus fornecedores e ficar com as drogas e o lucro para si. Numa festa, é confrontado pelos bandidos e acaba por descobrir da pior maneira que é má ideia enganar pessoas metidas em negócios ilegais. Ele apanha uma grande tareia e a namorada, que não fazia ideia do negócio sujo do namorado, acaba por ser arrastada para a universidade onde ele terá escondido as drogas. É bastante tarde e os jovens impressionáveis demonstram receio ao calcorrear aqueles corredores, sobretudo perto da casa de banho das raparigas no quinto andar que se diz estar assombrada. Um dos bandidos não contente com a tareia e ameaças dirigidas ao casal decide arrastá-los e ao seu parceiro para o local para observar com os próprios olhos a assombração.

“The Elevator” – Caloira na universidade, Noknoi é uma descendente directa de um general ditador brutal. Lá entra em conflito com um líder de estudantes que faz questão de a recordar de uma matança que sucedeu num dos velhos elevadores da universidade, a mando do familiar desta. Para se libertar do assédio Noi aceita o desafio de entrar no infame elevador, cujas paredes estão tingidas de vermelho, para disfarçar o tom do sangue ali derramado.


“The Morgue” – Prasert é um aspirante a dentista que não suporta as aulas de anatomia em face do seu terror perante cadáveres e de assombrações. Tanto que é supersticioso ao ponto de usar um amuleto ao pescoço para se proteger. Em uma tentativa de recuperar pontos junto de uma professora depois de entregar o último trabalho após o prazo estipulado, voluntaria-se para substituir um auxiliar no hospital onde ela trabalha. Os problemas surgem depois de ser destacado para a ala mortuária. O “amigo” Joke tenta pô-lo à vontade e prega-lhe inúmeras partidas para que Prasert descontraia. Para azar de Prasert, durante essa noite, Joke prefere marcar um encontro romântico do que fazer o turno para recuperar as notas perdidas e deixa-o sozinho quando mais necessita.

“Stairway” – Sa (Anna Reese) está cansada depois de falar no chat com um desconhecido que termina dirigindo-lhe ameaças. Muay (Panward Hemmanee) mostra-se receosa mas a amiga tenta deixá-la descansada. Como é que o desconhecido iria saber onde elas moram? Se calhar nem vive no mesmo país… E sai para ir buscar comida. Muay, entretanto, decide ir descansar. Na rua, Sa é assediada por um grupo de homens que acaba por a deixar em paz depois de um homem bem-falante e ar respeitável se interpor entre eles. Sa acaba por aceitar a boleia deste mas as suas intenções podem não ser as melhores.

Os segmentos são bastante diferentes na direcção e no tom. Alguns seguem uma narrativa mais clássica no que diz respeito aos fantasmas e repetem inclusivamente cenas de sustos de filmes anteriores. Surpreendente nesta antologia é a sua crueza. É pouco habitual assistir a cenas com nudez e violência incluindo violência sexual. Apesar de o cinema tailandês não fugir a estes temas, sobretudo nos filmes de terror estes momentos são mais sugeridos do que explícitos e mais curtos, para dar ênfase a outros aspectos. Acaba por ser banal ver-se um cadáver, um fantasma ou um zombie, por exemplo, e não o processo da morte em si. Em “Toilet” o bad boy com aspirações a gangster leva uma tareia que seria caso para estar no mínimo em coma e uma caracterização mais condicente. A insistência da câmara neste momento é desnecessária e insólita. Passados alguns segundos, a persistência dos murros do gangster torna-se mórbida e gratuita. Tipo, acho que percebemos à primeira que o Jimmy (Atis Amornwetch) está a levar a lição da sua vida.
Porventura pretendiam prolongar um pouco mais esta curta? No geral “The Toilet” não convence podendo constituir motivo de desistência bem cedo na antologia. De modo curioso é a sequência que envolve um elevador onde os piores pesadelos dos personagens se tornam realidade, que se revela a mais interessante e assustadora de toda a curta. Tal sequência é até mais impactante que a da curta que se lhe segue e se chama… “The Elevator”. Esta, apresenta uma abordagem mais próxima da audiência tailandesa através do recurso à utilização de elementos históricos, como o confronto de estudantes com uma das ditaduras militares que perpassaram pelo país. Com algum potencial, “The Elevator” acaba por se perder numa estória romântica de que não necessitava. A tragédia da carnificina de estudantes no elevador de uma universidade e o encontro com uma descendente de um dos homens que orquestraram esse infeliz acontecimento deveria bastar. Também a actriz principal neste segmento ultrapassa os limites do aceitável na representação, tendo alguns momentos histriónicos que não deviam ter saído da sala de montagem. Mas como a maioria das curtas aqui presentes, transparece alguma falta de capacidade de edição por parte da realização.
“The Morgue” tem uma premissa insólita mas perde-se ao longo do caminho. Temos um estudante de um ramo da medicina com horror a cadáveres que é destacado para estar de guarda a uma morgue. A agonia de Prasert (Pangsit Piseesotgan) é prolongada em cenas contínuas em que não sucedem eventos que se revelem de facto assustadores. Talvez para Prasert. Estará tudo na cabeça dele? Porque as cenas arrastam-se de tal modo que provocam sonolência até aos mais corajosos. Em seguida, vem a última e mais brutal das curtas que compõem este “Haunted Universities” e serve como uma lição contra os perigos da internet. As duas personagens femininas tomam algumas atitudes que parecem escapar à lógica: num momento uma delas recusa boleia de estranhos para logo a seguir aceitar boleia de um outro estranho! A aparência deve ser mesmo tudo! Noutro momento, um intruso entra no apartamento e após assustar e ameaçar a estudante decide sair. O que faz a estudante que foi interpelada pelo estranho? Volta a dormir. É legítimo mas as prioridades estão um bocadinho trocadas não? Outro ponto que deverá levantar alguns pontos de exclamação é que “The Stairway” apesar de seguir duas estudantes numa noite que mudará as suas vidas para a eternidade, afasta-se, tal como “The Morgue” do tema da universidade assombrada. O título em inglês não faz justiça nem reflecte a realidade da antologia. Também as curtas se encontram interligadas mas em alguns casos, a ligação é no mínimo forçada. A conexão não é de todo orgânica, antes um pretexto, para contar estórias que de outro modo podiam não ver a luz do dia. Talvez tivesse sido melhor assim. Uma estrela e meia.

Realização: Bunjong Sinthanamongkolkul e Sutthiporn Tubtim
Atis Amornwetch como Jimmy
Pantila Fuglin como Pon
Panward Hemmanee como Muay
Prinya Ngamwongwarn como Jok (as Parinya Gamwongwan)
Ashiraya Peerapatkunchaya como Noknoi
Pangsit Piseesotgan como Prasert
Anna Reese como Saa

Próximo Filme: Blair Witch (2016)

domingo, 4 de maio de 2014

"Tales from the Dark - Part I", 2013


Lillian Lee diz-vos algo? Se não, tenham vergonha! Ela é apenas a escritora por trás de filmes como “Farewell My Concubine” (1993) e “Dumplings” (2004) um dos segmentos de antologias de terror (“Three… Extremes”) mais perturbadores de sempre. Desta feita, a obra de Lee teve honras de total destaque em 6 segmentos divididos em duas antologias, com alguns personagens já repetentes na adaptação dos seus trabalhos. Visionado na 5ª Mostra de Cinema de Hong Kong, cuja sala estava, infelizmente, pouco composta, “Tales from the Dark – Part 1” representa Lee na sua vertente mais sombria.

 As curtas:
“Stolen Goods” – Kwan é um biscateiro que acaba de perder o mais recente trabalho. Todo ele, insolência e pavio curto, não é de admirar que seja despedido numa base regular. Os seus valores incidem no enriquecimento rápido ao menor custo pessoal possível. Como se encontra perto de ser expulso do pequeno quarto alugado por ausência de pagamento, não é demasiado penoso a Kwan recorrer ao roubo de urnas para depois chantagear os familiares dos falecidos.


“A Word in The Palm” – O mestre espírita Ho decide abandonar a vida ligada ao oculto para reparar a relação com a mulher céptica e o filho menor. Ele tenta reencaminhar os últimos clientes para a entusiasta colega Lam. No entanto, quando por engano lhes entrega um CD do filho num recital, terá de envolver-se mais do que gostaria. Será muito difícil recuar perante o caso mais complicado da sua carreira e a insistência da colega.

“Jing Zhe” – A velhinha Chu dedica-se à tradição milenar de “bater nos vilões”. Armada de cânticos e a sola dos sapatos bate com força em fotografias e papéis que representam os inimigos daqueles que a ela recolhem. Depois de anos a amaldiçoar pessoas inocentes, pode ter chegado a vez de Chu sofrer na pele a força do seu próprio remédio.

As trevas não tardam a surgir poucos adentro de “Stolen Goods”. Um início intrigante, onde é evidente e até ansiada com fervor alguma forma de retribuição a Kwan, o personagem obnóxio interpretado por Simon Yam dá lugar à perplexidade de uma narrativa ininteligível. Yam provou há muito que é actor para isto e muito mais mas na estreia como realizador revela a fraqueza da inexperiência e pior, ambição superior aos recursos. Pejada de momentos “tcha-ran” acompanhados por música alta e desconcertante. Não, Yam, nunca tínhamos ouvido isso antes… A cinematografia é fantástica só que não cola com a estória. E não se consegue perceber se são as ineficácias do argumento que levaram ao segmento mais insatisfatório de todos se foi a incapacidade de Yam em traduzir o material que lhe foi dado. O percurso de “Stolen Goods” é labiríntico onde podia ser simples: um bandido tem a paga pelos seus crimes. Há demasiados caminhos tanto quanto é dado a perceber, as pontas soltas não vão dar a nenhum lado satisfatório.
“A Word in the Palm” é uma surpresa. Depois de uma introdução sofrível mas sombria no tom, segue-se uma narrativa de aparência mais light, pelo menos pela aposta na comédia. Ho (Tony Leung Ka-fai) é um homem talhado para ler outro plano da realidade que rejeita o seu destino e se alia, relutante, a uma mulher (Kelly Chen) que tudo faria para ter um pouco do talento deste e o persegue feroz. Juntos fazem uma dupla improvável e atractiva. Leia-se, o único duo de personagens que iremos recordar com simpatia depois de “Tales from the Dark – part I” terminar. O desenlace é óbvio, tantas vezes que a mesma estória, com variações foi interpretada no cinema. Há poucos momentos de terror em “A Word in the Palm”, mas quando surgem são bem-vindos. Resulta pois um segmento desigual, original na abordagem, vulgar no conteúdo, ainda assim, superior ao antecessor.
Costuma-se dizer que o melhor fica para o fim e, se não formos excessivamente zelosos com as imagens criadas digitalmente “Jing Zhe” recupera os elementos mais desconcertantes da escrita de Lilian Lee. Realizado por Fruit Chan, o mesmo de “Dumplings”, ele encontra uma ligação com o material como nenhum outro. A sua Chu (Susan Chu) é a personagem mais ambígua e mais interessante destes 112 minutos. É ainda uma estória inerentemente chinesa. Não se podia encontrar estória mais enraizada na cultura que “Jing Zhe”. Se o conceito dos batedores de vilões é intrigante, a sua concretização também parece funcionar. Ou não nos sentíssemos cansados depois de ver o espancamento a que Chu sujeita os bens das vítimas. Não constituirá ainda um momento cinematográfico superior a “Dumplings” mas é um bom prelúdio para o segundo capítulo. Três estrelas.

Curta #1: “Stolen Goods
Realização: Simon Yam
Argumento: Lillian Lee
Simon Yam como Kwan
Maggie Shiu como wok Wing-nei
Feliz Lok como Chu Wing-kit

Curta #2: “A Word in the Palm”
Realização: Chi-Ngai Lee
Argumento: Chi-Ngai Lee
Tony Leung Ka-fai como Mestre Ho
Kelly Chen como Lan
Eileen Tung como Mulher de Ho
Cherry Ngan como Chan Siu-ting
Eddie Li como Cheung Ka-chun
Jeannie chan como Senhor Cheung

Curta #3: “Jing Zhe”
Realização: Fruit Chan
Argumento: Fruit Chan
Susan Shaw como Chu
Josephine Koo como Koo
Dada Chan como cliente


Próximo Filme: "Bad Milo", 2013

domingo, 27 de abril de 2014

"The Ghosts must be crazy", (Gui ye xiao 2011)

Desliguem os telemóveis durante o visionamento por favor

O híbrido de terror e comédia chegou para ficar. A horrédia (por que é a tradução de um neologismo nunca soa tão bem como na língua original?), “The Ghosts must be Crazy” segue-se à não menos louca antologia “Where got Ghost?” (2009) e encontra-se algures entre a comédia negra chico-esperta, para exemplos vide “The Cabin in the Woods” (2012) e a gargalhada de criar dores de barriga de “Tucker & Dale vs. Evil” (2010), mas mais perto desta última.


“The Ghosts must be Crazy” é um jogo de atenção pois quase todos os personagens de “Where got Ghost” regressam com variações das estórias que interpretaram nesta “prequela”, não necessariamente por ordem cronológica ou com alguma conexão lógica sequer. A antologia anterior reunia três segmentos: “Roadside got Ghost”, “Forest got Ghost” e “House got Ghost”, sendo que para “The Ghosts must be Crazy” recuperou estas duas últimas (e muito bem que eram as melhores) com um twist: desta feita Jack Neo limitou-se ao papel de argumentista-produtor e Mark Lee estreia-se como actor e realizador em simultâneo.

As curtas:
“The Day Off” – Dois reservistas preguiçosos estão empenhados em escapar ao penoso exercício anual e tentam convencer o novo Comandante a conceder-lhes baixa médica. Entretanto, um pobre coitado que estava mesmo doente e necessitava de ir para o hospital vê o pedido de internamento recusado pelo Comandante que acredita que todos o querem enganar para escapar ao dever. Quando esta decepção fracassa recorrem a técnicas de guerrilha para sabotar o treino. Mesmo que consigam enganar o seu comandante, as forças do sobrenatural nunca tiram folga…

“The Ghost Bride” – Um homem deseja atrair boa fortuna e decide tentar alcançar o seu objectivo através do jogo, acabando por fazer um pacto com o sobrenatural. Ele fica rico mas despreocupado e esquece-se de cumprir a sua parte do acordo. Os fantasmas não dormem e aquilo que deram podem tão facilmente retirar, isto, se ele fizer a única coisa que lhe pedem: casar com uma noiva fantasmas…

Sobre os filmes:
Desta feita prevaleceu o bom senso de “menos é mais”. Com menos estórias, com certeza as duas narrativas que escaparam ao corte serão mais trabalhadas e cuidadas certo? A resposta é negativa. “The Day Off” recupera a excelente química da dupla de actores John Cheng e Wang Lei que recuperam os papéis de Ah Nan e Ah Lei respectivamente, dois reservistas que não foram fadados para a tropa e utilizam todos os artifícios possíveis para escapar às tarefas duras que lhe são exigidas. Onde as interacções dos actores soavam antes pouco naturais, constituem agora os pontos altos da narrativa, apenas ultrapassados pelas tiradas brilhantes de Encik Muthu (David Bala). As aparições desta personagem nos vários filmes de Jack Neo são tão acarinhadas que Muthu até já virou meme! “I die! You die! Everybody dies!”

“The Ghost Bride” é apenas mais uma variação de crime e castigo. Sejamos sinceros. Quem é que pensava que recorria a métodos muito questionáveis para enriquecer, não fazia o que lhe competia para honrar a sua parte do acordo e não esperava algum tipo de retribuição? É preciso ser um bocadinho condescendente para não pensar que a audiência iria ter o mesmo raciocínio. Mas isso nem é o pior porque, ultrapassando a fraca estória, os efeitos gerados por computador são muito maus, aliás, demasiado maus para a quantidade de vezes que surgem no ecrã. Uma pessoa questiona-se se todo aquele (mau) aparato era necessário para contar uma história tão simples. Além disso, podia sempre alegar que Mark Lee dá uma mulher muito feia, mas isso não basta para ignorar o facto de que a “The Ghosts must be crazy” nada falta de más interpretações (sobretudo de personagens secundaríssimas), argumentos queijo-suíço, edição paupérrima e lições de moral – “Se escolheres tomar a mão do demónio, um grande preço terás de pagar”. Por isso é de estranhar que "The Ghosts must be crazy" seja tão surpreendente, um pequeno pecado mesmo, a contra-gosto que não dá para negar. Duas estrelas.


O melhor:
- Actores principais (com notáveis excepções)
- A primeira curta-metragem
- David Bala como Muthu
- O cabelo de Mark Lee

O pior:
- Argumento
- Os efeitos são “especiais” e não digo isso num bom sentido.

“The Day Off”
Realizador: Boris Boo
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
John Cheng como Ah Nan
Wang Lei como Ah Lei
Chua en Lai como Comandante
David Bala como Encki Muthu

“The Ghost Bride”
Realizador: Mark Lee
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
Henry Thia como Ah Hui
Mark Lee como Ah Hai / Chen Xiaojuan
Tay Yin Yin como ex-namorada de Hui

Próximo Filme: "Tales from the Dark - Part I"


domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Heaven and Hell" (Wong Jorn Pid, 2012)


Parece que ainda ontem “Dumplings” de “Three… Extremes” (2004) e “Phobia” (2008) pareciam recuperar o subgénero através de uma boa dose de arrojo, criatividade e imagens fortes. Esses eram os tempos… Seguiu-se uma sucessão de réplicas com personagens ostensivamente semelhantes, talvez com outros nomes e noutros cenários, essencialmente a mesmas estórias recontadas numa tonalidade diferente. “Heaven and Hell” apresenta tonalidades a preto e branco e às vezes cinzentas. As três estórias apresentadas apresentam uma única característica em comum: as imagens são captadas pelas câmaras de segurança instaladas nos edifícios respectivos. Em “Ghost Legacy” duas irmãs siamesas únicas herdeiras vivas que se conhece de Khun para conhecer a sua última vontade, expressa no testamento. Cedo percebem que o avô Khun, que mal conheciam era obcecado com a sua segurança, tendo instalado um sistema de vigilância em todas as divisões da casa. Enquanto não conhecem os conteúdos do testemunho torna-se óbvio que elas não são desejadas ali e que não é claro quem é que observa e quem está a ser observado. O velho Khun também não se mostra grandemente interessado em deixar que alguém fique com as suas possessões, ainda que já não se encontre neste mundo… “Ghost Legacy” é um enredo demasiado enredado para 20 minutos de filme e, que não abona a favor de quase nenhuma das personagens. As gémeas são demasiado reminiscentes da curta-metragem “Alone”(2007) desde a parecença das jovens actrizes ao pormenor dos acessórios. Uma tem óculos porque aparentemente há sempre uma intelectual num conjunto de gémeas. A diferença maior é pois no estilo, que “Ghost Legacy” é um filme mudo. Apenas não tem um acompanhamento sonoro mais do que esporádico, tornando a curta-metragem num visionamento longo e penoso. Existe ainda um contraste perturbador entre as expressões dos actores e as linhas de diálogo que estampadas no ecrã alimentam alguma esperança de seguimento da estória. Onde um actor deveria emular agressão há um olhar de complacência, onde uma actriz deveria demonstrar medo, surge desafio. Onde a pós-produção devia completar o processo, preencher os buracos, torna-se o seu maior fracasso. Elimina quaisquer propensões artísticas que o realizar pudesse ter.
“Heaven 11” passa-se numa menos glamorosa loja de conveniência. Dois novos empregados relatam como já faleceram ali quatro empregados antes. Uma maldição qualquer assombra aquele lugar e, se não tiverem cuidado eles poderão ser as próximas vítimas. Isso explica o pouco tempo de permanência de cada empregado. Um deles é Jick (Patcharee Tubthong), filha do patrão que se entretém durante as longas horas de plantão, em conversas telefónicas e na internet com as melhores amigas Noo e Sam. O que se segue são invejas e intrigas próprios da idade, que poderão ter consequências muito sérias, sobretudo se empurradas por fantasmas que não pretendem passar a eternidade sozinhos. Temas como romance, amizade, ciúme, bullying formam um compêndio de culpas e troca de acusações que podiam funcionar melhor se se tratasse de um filme independente ao invés de uma curta-metragem. Mas o melhor devem ser mesmo as breves cenas cómicas, como a imagem de um homem másculo que se transforma num medricas perante uma situação de morte iminente e uma empregada vesga pouco esperta que tem tiradas tão fabulosas como “Tenho ar de quem precisa de sexo telefónico?” Tais linhas de diálogo quebram a tensão crescente mas ajudam a elevar uma película que até ali se revelava meramente mediana.
Cara de poucos amigos
“Hell no. 8” foca um elevador assombrado e dois técnicos muito divertidos que se calhar é melhor despacharem-se a fazer a manutenção do dito. Ao que parece uma mulher foi ali esfaqueada pelo ex-companheiro e… ali ficou. É o segmento mais divertido e prova, mais uma vez que no que face a fantasmas de mulheres assassinadas, os homens encontram-se sempre em desvantagem. (Só é pena que elas só façam valer os seus argumentos depois de mortas). Misóginos, pervertidos e um pouco destravados, mas o absurdo torna-os tão divertidos que vê-los vítimas de uma mais uma descabelada parece é um desperdício. Enfase na palavra “parece” porque há mais estória do que as primeiras aparências podiam fazer crer. E sempre tem a vantagem do cameo da personagem mais engraçada do filme anterior. Mais uma antologia desigual, mais uma antologia desnecessária. Duas estrelas e meia.
O melhor:
- Homenagem ao cinema mudo
- Todas as falas da empregada vesga
- Alguém sabe onde foram desencantar os técnicos e a empregada vesga? São hilariantes.

O pior:
- Contraste entre a imagem e a legenda
- Falta de rítmo
- “Homenagem” a “Alone” (2007)
- “Heaven 11” ser uma curta-metragem
- Descabelada vingativa. Bocejo.

Realização: Yuthlert Sippapak e Tiwa Moeithaisong
Argumento: Kiattisak Sriratnonsung, Kosess Chalidtiporn, Taweewat Wantha e Kiradej Ketakinta
Natta Bangkhomnet como Siamesa 1
Nattaya Bangkhomnet como Siamesa 2
Akarin Akaranitimaytharatt
Theeradanai como Pricha
Patcharee Tubthong como Jick
Adirek "Uncle" Wattleela  como policia
Artir Wiboonpanitch
Panita Thumwattana

Próximo Filme: "Neighbour n.º 13" (Rinjin 13-gô, 2004)

domingo, 15 de dezembro de 2013

"V/H/S", 2012


Quem acompanhou o ruído gerado em torno de “V/H/S”, quase poderia pensar que esta antologia de terror trouxe algo de novo ao já testado género. Quase. Outros exemplos podem ser amplamente verificados neste blogue, através da etiqueta criada para o efeito. Quando muito, um estilo amador de câmara no ombro prevalente a todas as curtas e a surpresa por alguém ainda utilizar as bem velhinhas cassetes VHS (Video Home System). O mesmo país que gerou o brilhante “Creepshow” (1982) tem memória curta e é de modas pelo que o mais certo é V/H/S transformar-se noutro milagre da multiplicação de redundâncias à la “Saw” ou “Paranormal Activity”. Podem esperar, no mínimo, por uma terceira e quarta entradas (já existe uma sequela).

“Tape 56”
Um grupo de bandidos que gosta de filmar as façanhas criminosas que incluem o vandalismo e o assédio sexual e disposto a qualquer atividade que lhes dê a ganhar o próximo troco, é agora contratado para entrar numa casa e recuperar uma cassete VHS. Lá encontram um velho morto e em frente um leitor de cassetes. Enquanto o resto do bando se dedica a recolher todas as cassetes que encontra, um deles fica para trás e decide visionar uma delas sozinho…


“Amateur Night”
Shane, Patrick e Clint são três amigos pouco espertos que decidem alugar um quarto de hotel para uma noite de loucuras e filmá-las (claro). O grupo acaba por retornar com duas jovens, Lisa que está demasiado alcoolizada para levar os avanços sexuais de Shane até ao fim e Lily uma estranha rapariga que não faz segredo de admirar Clint. À medida que a noite avança os acontecimentos revelam-se inesperados e perigosos para o grupo de foliões.

“Second Honeymoon”
Sam e Stephanie são um casal que se faz à estrada para uma segunda lua-de-mel. Num parque de atracções Stephanie recebe a previsão astral de que irá brevemente reencontrar um amor perdido. Uma noite, uma estranha bate à porta do motel onde alugaram quarto a pedir boleia. Sam recusa e fecha-a do lado de fora. Nessa noite alguém entra no quarto do jovem casal e além de os roubar, prega-lhes umas partidas muito feias…


“Tuesday, the 17th”
Um grupo de amantes da natureza decide acampar. Apenas Wendy não parece estar muito entusiasmada com a aventura, recordando-se a cada nova atividade que encetam de acidentes ocorridos há algum tempo que vitimaram outros amigos. Então, qual estória saída de um conto de terror Wendy conta-lhes como um assassino matou os seus amigos numa excursão de campismo o ano passado. A ficção torna-se realidade quando alguém começa a persegui-los com intenções malévolas.

“The Sick Thing That Happened to Emily When She Was Younger”
Emily conversa com o namorado James que se encontra noutro país através de webchat. Ela está sozinha e cada vez mais enervada. Barulhos, portas a ranger e a silhueta de uma criança a atravessar corredores levam-na a crer que a casa está assombrada. A somar aos truques de uma mente hiperactiva e assustada juntam-se as memórias de um acontecimento de infância que a deixou traumatizada. À distância James nada pode fazer para a ajudar.

“10/31/98”
Um grupo de amigos veste-se a rigor para uma festa de Halloween. O problema é que não sabem onde é. Sem querer entram numa casa onde pensavam que se ia realizar a festa e exploram-na para encontrar os foliões. Nada os podia preparar para o que iriam encontrar no seu lugar.



domingo, 4 de agosto de 2013

3 A.M. 3D (2012)


O que é que faz falta ao cinema de terror asiático? Antologias não são com certeza. Mas perdoe-se 3 A.M. desse pecado e julgue-se pela qualidade. Então o que é que 3 A.M. tem para oferecer? Apenas o artificio para gerar dinheiro mais irritante dos últimos anos? Adivinharam, tecnologia 3D. Acrescenta algo às curtas-metragens? Isso é o que vamos ver a seguir…

“Wig Shop”
May (Focus Jirakul) e Mint (Apinya Sakuljaroensuk) são duas irmãs que, não fosse o facto de pertencerem à mesma família nada teriam em comum. May é calma, modesta e trabalhadora, Mint é a vida da festa, sofisticada e preguiçosa. Rebenta uma discussão séria entre ambas quando Mint leva uns amigos para a loja de perucas dos seus pais e estes se põem a brincar com elas. Conseguirão elas esquecer as divergências quando uma aparente anterior dona do cabelo de uma peruca decide assombrar o grupo de amigos?

“Corpse Bride”
Tod (Tony Rakkaen) é um mortuário novato contratado para velar um jovem casal que faleceu uma semana antes do casamento. Ele deverá efetuar ritos para apaziguar os seus espíritos, não espreitar para dentro dos caixões e não tocar nos pertences do casal até ao seu descanso final. Mas ele não consegue deixar de cometer um erro primordial, ele olha para dentro do caixão da noiva Cherry (Karnklao Duaysianklao). Linda, parece estar viva…

“Overtime”
Karan (Shahkrit Yamnarm) e Tee (Ray MacDonald) são dois chefes brincalhões que adoram pregar partidas aos seus funcionários durante o período da noite. Desta feita Bump (Prachakorn Piyasakulkaew) e Nging (Kanyarin Nithinaparath) são as próximas vítimas mas será que eles não estarão a preparar um contra-ataque.



O fio condutor entre estas curtas-metragens é as três da manhã, o período, no qual sucedem acontecimentos que poderíamos classificar de paranormais. Tradicionalmente, para quem estuda tais eventos, o período entre as três horas da manhã e as quatro considera-se a hora dos mortos. Esta hora está ligada à morte de Jesus Cristo, uma vez que é a hora diametralmente oposta àquela em que o profeta faleceu (três da tarde) e é o período em que será mais fácil estabelecer contacto com o outro mundo. Meninos não tentem isso em casa! Infelizmente para os protagonistas, os contactos com os espíritos no outro lado não são positivos. (Ainda estou para ver um filme em que esses encontros sejam simpáticos). 3 A.M. é um verdadeiro “quem-é-quem” do cinema de terror tailandês. Isara Nadee, realizadora de “Overtime” é dos elementos da equipa de argumentistas “ronin”, notória pelos filmes do gorefest “Art of  the Devil” e ainda do terrível “407 Dark Flight 3D”. Apinya Sakuljaroensuk e Ray MacDonald são presenças recorrentes no cinema local e Shahkrit Yamnarm é a grande estrela do elenco, tendo inclusive contracenado ao lado de Nicolas Cage (sei que hoje em dia não é grande motivo de orgulho), em “Bangkok Dangerous”. Que podia pois correr mal?
A abrir as hostilidades está “Wig Shop” que, para quem viu filmes como o coreano “The Wig” ou o japonês “Exte: Hair Extensions” é um conceito já testado e cansado, para não dizer totalmente exausto. A curta tenta emular em poucos minutos o que os filmes anteriores conseguiram realizar em pleno durante quase duas horas. E se um recorria ao bom velho drama coreano o outro apresentava como grande arma um realizador de peso. “The Wig Shop” vale-se de duas carinhas bonitas que não conseguem salvar um argumento em veloz trajecto descendente.  Ah e alguém reparou na triste ausência de 3D? Não se preocupem que o sua utilização desnecessária ainda agora começou.
Nestes projectos há sempre um momento de insanidade e “Corpse Bride” encarrega-se da bizarria da antologia. “Corpse Bride” é capaz de fazer mais jus ao nome do que a animação de Tim Burton mas é um exemplo clássico de ausência de direcção. Drama? Mistério? Terror? Seria de pensar que com tanta variedade “Corpse Bride” exaltasse algum tipo de entusiasmo mas é tragicamente, o mais aborrecido dos três. Pior ainda, parece uma curta-metragem demasiado longa. Quando os personagens são desprezíveis ou provocam, no mínimo indiferença o que mais desejamos é despachá-los o mais rápido possível e não prolongar a tortura. “Corpse Bride” tem uma reviravolta final mas, por essa altura, já estaremos tão dormentes que não importa. Acabem com a nossa miséria!
“Overtime” é o grande desperdício da antologia. Mesmo que aguentem o visionamento até à última curta-metragem será difícil não ficar com a sensação de que o tom da mesma está totalmente desligado do das anteriores. Curiosamente é o que melhor representa o cinema tailandês. Assim como os sul-coreanos adoram misturar drama e comédia, os tailandeses parecem adorar os seus filmes de terror com um pouco de comédia. Querem melhor exemplo que o estreado este ano “Pee Mak” que se tornou o filme mais rentável da história do cinema tailandês? A grande crítica a “Overtime” é parecer-se mais com um conjunto de gags colados para efeito cómico do que um argumento sólido. No entanto, é a descontração dos actores e o sentimento de que a estória não está a ser levada demasiado a sério que deve conquistar os corações das audiências. Os efeitos digitais são maus? Terríveis, na verdade. Mas questionem-se, onde das películas falharam em assustar uma teve sucesso em divertir. Quem é o vencedor? Duas estrelas.
“Wig Shop”
Realização: Pussanont Tummajira
Focus Jirakul como May
Apinya Sakuljaroensuk como Mint

“Corpse Bride”
Realização: Kirati NakIntanont
Tony Rakkaen como Tod
 Karnklao Duaysianklao como Cherry
Peter Knight como Mike


“Overtime”
Realização: Isara Nadee
Shahkrit Yamnarm como Karan
Ray MacDonald como Tee
Prachakorn Piyasakulkaew como Bump
Kanyarin Nithinaparath como Nging

Próximo Filme: "Swing Girls" (Suwingo Gâruzu, 2004)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Curta #3: "Unholy Women - The Inheritance" (Uketsugu Mono, 2006)


Sabem quando a imaginação já não dá para mais? Mas têm mesmo que cumprir aquele prazo ou levar aquele projeto até ao fim? Não faz mal, pode-se sempre reciclar ideias. Que interessa que já se tenha visto a mesma estória não sei quantas vezes antes e melhor? “The Inheritance” é apenas isto. Um filme que herda o cinema de terror que lhe antecede e confia na eficácia das curta-metragens anteriores para manter o espetador colocado ao ecrã.
Após um divórcio que a deixou na penúria, Saeko (Maki Meguro), muda-se para a velha casa da família no campo com o jovem filho Michio (Kenta Suga). O ambiente não é propriamente agradável visto que sua a mãe Masahiko (Ruka Ushida) está um pouco louca e trata mal o neto. Mas é altura de “comer e calar” já que de momento Saeko não tem meios para ir para outro lado. O pequeno Mishio, aborrecido naquela terra no meio do nada explora a casa e descobre a existência de um pequeno que devia ter mais ou menos a sua idade. Era o irmão de Saeko que desapareceu quando ainda eram novos. A sua morte deixou desconforto e talvez por isso, o ambiente familiar não se tenha tornado o melhor. Entretanto, também Saeko começa a explorar e descobre que o passado nem sempre permanece onde deveria.
Uma pista: a herança não é um objeto físico…
“The Inheritance” é um “mistériozinho” sobrenatural previsível, no qual não há susto nem deleite. Não desafia o espetador. É seguro. Para quem não apreciar particularmente o género de terror esta é capaz de ser a curta-metragem mais acessível. Toyoshima não leva a estória até ao limite, não pensa outros modos de tornar as suas mulheres impuras. Provavelmente não há maior pecado que aquele que elas cometem mas os motivos fornecidos são no mínimo vagos. Toyoshima podia ter apostado num ritmo mais elevado para construir um argumento mais sólido. A sua estória não é mais que a de um medo de criança mal explorado pelos adultos. Não há nada de original ou que faça refletir. É facilmente associado a filmes como “Dark Water” ou “The Grudge”. E se o final é desconfortável, quase dá vontade de voltar ao início e ver “Rattle Rattle”, que também não é nada de novo mas sempre é mais intenso! Duas estrelas.


Realização:  Keizuke Toyoshima
Argumento:  Keizuke Toyoshima
Maki Meguro como Saeko Hishikawa
Kenta Suga como Michio Hishikawa
Ruka Ushida como Masahiko Hishikawa

Próximo Filme: "Haunted Changi" (2010)

domingo, 20 de maio de 2012

Curta #2: "Unholy Women - Hagane" (2006)

Lá dizia a Capuchinho Vermelho à Avozinha: “Ó avó, mas que grandes olhos tu tens” e “Que orelhas tão grandes”. “Esses braços são grandes! Que boca tão grande tu tens”.  Tudo isto para dizer que se parece com lobo, cheira a lobo e fala como um lobo, provavelmente é! Convenhamos que se uma rapariga tiver umas pernas lindas e um saco na cabeça, isto não augura nada de bom. Mas vamos começar pelo início. Primeiro sinal de alerta, o chefe quer que um subordinado saia à força com a irmã dele, Hagane (Hagane Takahashi). Parem tudo, um chefe a querer que um empregado leve a sua irmãzinha mais nova a sair? Algo não cheira bem. Quer dizer, se pensarmos nas implicações, o pior que pode acontecer é o pobre rapaz ser despedido. Então, por quê? Segundo sinal de alerta, a rapariga surge para o encontro com uma mini-saia e, um saco castanho que a cobre até à cintura. Das duas, uma: ou a moça é feia como a noite dos trovões ou algo de terrivelmente errado se passa. Só que depois o moço vê aquelas pernas e não há como lhe dar a volta. Mikio (Tasuko Emoto) sente um misto de repulsa quando ouve os grunhidos de Hagane e vê coisas estranhas como insectos a sair do saco e, fascinação, acentuada pelas pernas alvas e longas, complementadas por uns apetecíveis saltos altos vermelhos. Um encontro do inferno transforma-se num jogo de sedução estranho, no qual ele corre atrás de algo que o enoja, mas não consegue deixar de perseguir, acicatado pelo desejo de agradar ao chefe. Aliás, que grande mestre do calculismo é o homem que escolhe um jovem virginal que se deseja seduzir por um belo par de gambias e não faz mais perguntas.
É uma crítica engraçada ao homem e à sua capacidade de se deixar levar pelo físico, no caso, apenas da cintura para baixo: “Desde que tenha órgãos sexuais serve”. E no entanto, é contado com seriedade. Não é uma comédia no verdadeiro sentido da palavra. Embora, os momentos em que Hagane desata a correr e choca com objectos ou tropeça e cai no chão sejam hilariantes. Ela sempre tem um saco na cabeça que não a deixa ver nada à frente não é? Mas ela tem um apetite sexual saudável e ele é um moço tímido e educado que não quer desiludir o chefe… Digamos que existe um final feliz, para ambas as partes…
“Hagane” é uma curta bizarra e surpreendente. Suzuki e Yamamoto escreveram um argumento com base na piada urbana do “saco na cabeça”, em alusão às mulheres feias e transformou-a em algo mais. De facto, se calhar existe mais do que uma cara feia por debaixo do saco. E a curta-metragem é tão envolvente que dei por mim a pesquisar para saber se a actriz Nahana era mesmo feia. O cinema tem destas coisas. Confunde-se o imaginário com o real e quando isso sucede, sabemos que estamos perante um bom produto de consumo. Três estrelas e meia.

Realização: Takuji Suzuki
Argumento: Takuji Suzuki e Naoki Yamamoto
Tasuko Emoto como Mikio Sekiguchi
Nahana como Hagane Takahashi
Teruyuki Kagawa como Tetsu Takahashi

Próximo Filme: "Prayer Beads - Episode 7: Echoes" (2004)

Só para que não subsistam duvidas, eis Hagane (Nahana).

domingo, 13 de maio de 2012

Curta #1: "Unholy Women - Rattle Rattle" (Katakata, 2006)



Para um verdadeiro fã de terror a obsessão pouco saudável do povo japonês com o género não é uma grande novidade. E também não é muito difícil adivinhar onde a maioria dos filmes de terror nipónicos vão beber inspiração. É ali mesmo, no Japão, nos mitos e lendas locais que se retratam e reinventam estórias de horror. Muito comum é a utilização do Yurei ou fantasma, nomeadamente, na sua forma vingativa -, o onryo. Mas se mencionarmos nomes como Kayako ou Sadako, mais depressa os vossos cérebros se iluminarão. É então o onryo, o elemento desestabilizador, aquele que nos faz, após uma noite de cinema de j-horror, perscrutar com um olhar mais atento que o costume, todos os cantos de um quarto para verificar se está tudo bem. Isso e acendermos as luzes antes de entrarmos numa nova divisão.
“Rattle Rattle” ou em japonês Kata Kata, parece, devido à sonoridade uma curta-metragem cómica, no entanto, esta primeira impressão não podia estar mais errada. Vide o trailer e apreciai os gritos histéricos de uma das personagens.
Os créditos introduzem um casal, dentro de um carro envolto na noite. Akira (Kousuke Toyohara) e Kanako (Noriko Nakakoshi) conspiram numa aura de pecado. Eles pretendem casar mas persiste um obstáculo à sua inteira felicidade: Akira é casado. Será que a mulher lhes vai levantar problemas? Ou terão de continuar a encontrar-se na noite? É na escuridão que Kanako, regressando a casa ouve um chocalhar. Bem acima de si, um som estranho e enervante. Som desumano. De algo que não é deste mundo? Algo súbito e repentino precipita-se sobre ela e Kanako perde os sentidos. Quando recupera a consciência, com pouco mais do que um corte e atordoada regressa ao apartamento de solteira. Começa então o pesadelo. Uma mulher de vermelho persegue-a e tenta matá-la! Incrivelmente, não existe ninguém naquela cidade. Apesar da moça gritar a plenos pulmões.
Yurei é a desconstrução da mulher a estado primitivo. O monstro de vermelho possui uma única vontade e esta é a de destruição e não há conversa ou tentativa de o fazer reconsiderar que resulte. O Yurei de Keita Amemiya é uma parábola de como a maldade interior se transforma em fealdade exterior, tornando-se pois, cada vez mais horrendo à medida que procede a atacar a inocente Kanako. Embora o objectivo deva estar muito longe de se pretender induzir a tais reflexões. A narrativa é confusa mas nem por isso original. É uma encarnação de truques que já vimos, com algumas imagem gerada por computador e cenários apetecíveis. De resto, é uma aposta sólida em medos que já demonstraram atrair as massas ao cinema e, por isso, a escolha ideal para a introdução a uma antologia de terror. “Rattle Rattle” é a curta mais emblemática de “Unholy Women”. Isto, com especial enfase na palavra “emblemática”, que para assistir ao melhor segmento das três curtas-metragens temos de aguardar por “Hagane”. Três estrelas.

Realização: Keita Amemiya
Argumento: Keita Amemiya
Noriko Nakakoshi como Kanako Yoshizawa
Kousuke Toyohara como Akira Tasaki
Yuuko Kobayashi como Katakata

Próximo Filme: Curta #2: "Unholy Women - Hagane" (2006)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Hong Kong Ghost Stories" (Mag gwai oi ching goo si, 2011)

Que curiosa obsessão com antologias de terror. Por todo o sudeste asiático persiste um gosto especial pela criação deste tipo de cinema, no qual, a audiência paga um bilhete com direito a três ou quatro curtas-metragens de uma só vez. Exemplos destes há muitos: “Visits: Hungry Ghost Anthology” (2004) da Malásia, “Takut: Faces of Fear” (2009) da Indonésia, “Unholy Woman” (2006) do Japão ou “Cinco” (2010) das Filipinas. Mas os melhores exemplares desta mania ainda pouco comum fora de portas continuam a ser “Three” e a respectiva sequela (2002-2004) e “Phobia” 1 e 2 (2008-2009), que já aqui tivemos oportunidade de apreciar. A maior dificuldade que estas antologias levantam é a sua regionalidade. Algumas estão tão agarradas a costumes e superstições internas que se torna difícil a alguém fora desses países compreender determinadas piadas e expressões idiomáticas. Nada disto tem algum mal se o objectivo é, como se supõe, atingir as audiências locais. No entanto, hoje em dia a frase “Pensar Global” está tão embrenhada no vocabulário das empresas relativo ao crescimento que urge reflectir, se a enfase no público interno não será uma oportunidade perdida.
“Hong Kong Ghost Stories” enquadra-se nesse pensamento primitivo e como o nome indica conta-nos duas estórias de fantasmas de Hong Kong. A primeira “Classroom” apresenta Jennifer Tse, irmã de Nicholas Tse que brilhou recentemente em “Shaolin” (2011), ao lado de Andy Lau e Jackie Chan. Ela interpreta a professora Yip, uma mulher que já não estando exactamente nos vinte e poucos anos tem de começar tudo de novo. Maltratada por um namorado abusivo durante anos a fio, ela refugia-se na casa dos pais e arranja trabalho numa nova escola. Chung (Pakho Chow), não desiste de a tentar recuperar, ao mesmo tempo, que a jovem professora tem que lidar com o regresso ao ninho e ao retomar da actividade do ensino junto de uma turma estranha. Os alunos começam por demonstrar um mau comportamento que se vai intensificando até à hostilidade declarada. O que pode a Miss Yip fazer para não perder a sua última oportunidade de independência?
Na senda da fama do irmão mais velho, a bela Jennifer Tse aproveita para demonstrar a sua capacidade de representação. A sua escolha de filmes talvez pudesse ser um pouco mais feliz. Wong Jing, o realizador desta curta-metragem, parece trabalhar numa autêntica linha de montagem em série, pensando porventura que a quantidade é melhor que qualidade. Os seus poucos filmes dignos de nota, nem sequer vão além do medianamente bom. Entretanto, a sua actriz principal faz um verdadeiro one woman show, uma vez que pouco a auxilia na árdua tarefa de defender a professora Yip. Há uma cena numa casa de banho da escola em que ela grita apavorada contra um medo que só ela vê e tem. A câmara não a ajuda, o cenário, a sonoplastia, nada. Está ali ela, a fazer as vezes de um terror que só ela percepciona. A audiência não participa deste medo, é puro voyeur. Ademais, a estória é uma verdadeira bagunça, ora foca os ricos paizinhos da miss Yip, ora até parece que o maldito ex tem alguma importância e a turma, não é propriamente novidade. Salas de aula assombradas não são a ideia mais original que se viu. E certamente, que “Classroom” também não é a melhor concretização da ideia. O prólogo, que nada tem que ver com quaisquer das curtas-metragens é de longe o momento mais insólito e interessante da antologia. Duas marionetas em tamanho real (Sammy Ho e Jeana Ho) preparam-se para filmar as curtas-metragens que iremos ver…
“Travel” ainda menos tem de assustador, o que compensa em comédia. Diga-se que Kong não é um realizador de terror. A sua carreira tem sido construída à volta de comédias românticas menores, com grande parte dos actores que recruta para “Travel”. Isto se compreenderem as alusões a Raymond Lam e a crítica a algumas emissoras de TV. No centro da trama está a falecida Bobo (Chrissie Chau), que devia ser impopular visto só lá estarem quatro raparigas (Charmaine Fong, Jacqueline Chong, Harriet Yeung e Rose Chan) que a conheceram na última viagem que fez. Estas estudantes são o máximo. Viajam desde Hong Kong até à Tailândia para ver as vistas… Homens, entenda-se. Já para não dizer que têm uma obsessão pouco saudável pelo actor/cantor Raymond Lam. Nem o pobre polícia de férias Jack (Timmy Hung) escapa à sua observação lasciva e é empurrado para almoços e outras interacções com as estudantes devassas. Depois, temos uma morte mal explicada e um amante (Him Law) que regressa de nenhures à procura de algo que Bobo deixou para trás. A dada altura começam os flashbacks para percebermos como a pobre Bobo chegou àquele ponto. Afinal, ela de inocente tinha muito pouco e as suas amigas não eram tanto assim. De qualquer modo, está interessante a transição de Hong Kong para a Tailândia com o contraste noite/dia a não ser um acidente na variação de uma estória negra para um humor perverso. “Travel”, não é uma estória muito mais simples que “Classroom” mas proporcionou bons momentos de humor. O quarteto maravilha: Fong, Chong, Chan e, em particular, Yeung, fizeram um trabalho humorístico espantoso. Kong, sem se afastar muito do seu género preferido consegue realizar um trabalho superior ao de Wong Jing. Duas conclusões saltam à vista: dificilmente serão duas curtas-metragens de terror, pois que a primeira falha nos sustos e a segunda prefere a sátira. Além disso, no último filme, a acção passa-se maioritariamente na Tailândia. Contos de Hong Kong? Uma estrela e meia.


“Classroom”
Realização: Wong Jing
Argumento: Wong Jing
Jennifer Tse como Miss Yip
Pakho Chow como Chung
Sammy Ho como Marioneta 1
Jeana Ho como Marioneta 2

“Travel”
Realização: Patrick Kong
Argumento: Patrick Kong
Chrissie Chau como Bobo
Charmaine Fong como Estudante 1
Jacqueline Chong como Estudante2
Harriet Yeung como Estudante 3
Rose Chan como Estudante 4
Timmy Hung como Jack
Him Law como Karl
Stephy Tang como Phoenix

Próximo Filme: "The Man From Nowhere" (Ajeossi, 2010)


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Where got Ghost" (Xia dao xiao, 2009)

Parece um título mal traduzido não é? Pois é mesmo esse o nome. “Where got Ghost” é um tríptico de comédia/terror que ocorre durante o “Mês dos Fantasmas Esfomeados”. Traduzido assim à letra não parece grande coisa, mas é uma celebração levada muito a sério pelas populações do sudeste asiático, nomeadamente, Singapura, Malásia, Taiwan e China. O mês dos fantasmas ocorre durante o sétimo mês do calendário lunar chinês (Agosto) durante o qual a população faz oferendas aos mortos para o seu apaziguamento e obtenção das suas bênçãos (isto numa versão ultra resumida).
O mês dos fantasmas fornece uma ampla fonte de inspiração para o cinema devido às suas imensas ramificações e ritos, consoante as diferentes regiões. “The Maid” (2005) é o filme mais aclamado sobre o tema e até já foi realizado um documentário sobre a época.

As curtas:

“Roadside got Ghost” - Três trafulhas arranjam um novo esquema para sacar dinheiro aos mais incautos. Eles telefonam para vários números da lista telefónica a “dar os números da sorte” para o próximo sorteio da lotaria. Os vencedores são depois convidados a ceder-lhes voluntariamente uma comissão generosa ou a vê-la ser extraída à força! O esquema corre bem até que o chefe dos vigaristas recebe uma chamada em género de imitação do esquema que ele próprio criou. A princípio desvaloriza-a mas aposta os números de qualquer modo. Quando ganha um prémio, começa a ser pressionado para cumprir a sua parte do acordo…

“Forest got Ghost”- Há um exercício militar na floresta. Dois “reservistas” preguiçosos decidem ignorar os repetidos avisos dos seus instrutores e quebram todas as regras. Eles usam dos mais diversos artifícios para chegar ao destino sem grandes convulsões e saem do caminho traçado. Mas nada os podia preparar para a série de eventos que desencadearam sobre si quando desrespeitaram as regras dos  superiores…


“House got Ghost” - Passou um ano desde a morte da sua querida mãe. Três irmãos continuam diligentemente a fazer-lhe pedidos de fortuna mas parece que esta nunca mais chega. Entretanto, um conhecido que exerceu os mesmos rituais de benesse é bafejado pela fortuna. Os três irmãos decidem que chegou a hora de desistir dos ritos e deixar a sua mãe seguir em paz para o outro mundo. O que eles não sabem é que ela não desistiu deles…

Sobre os filmes:
Assim à primeira vista, sobressai uma película no seu todo, muito masculina. Os papéis principais estão todos entregues a Eles. As mulheres, com uma única excepção, são a contraparte, unidimensional diga-se, Deles e quando se espera algo mais delas, são as vilãs. Demonização típica do género feminino. Mas no caso de “Where got Ghost” são maiores os argumentos a favor de um conjunto de curtas-metragens bem-intencionadas, do que resíduos de misoginia pouco disfarçados. “Where got Ghost” é uma realização conjunta de Jack Neo e Boris Boo, que também tiveram uma palavra forte no argumento. Também o vasto elenco é constituído na maioria, por actores que já trabalharam em conjunto ou com o realizador. O próprio Jack Neo protagoniza um dos papéis principais da terceira curta-metragem. Estes cuidados rendem um à-vontade no elenco que é visível no ecrã. Um inside job se preferirem. A moral dos segmentos nunca está muito longe da imaginação ou de um pouco de perspicácia: respeito pelos mortos, o crime não compensa, não atalharmos caminhos, o dinheiro não traz a felicidade e outros jargões do género. Como tal, o mês dos fantasmas acaba nunca se tornar uma realidade distante ou uma tradição demasiado rebuscada aos olhos de um ocidental. Existe sempre uma série de princípios comuns às culturas orientais e ocidentais que permitem seguir as narrativas a despeito dos ritos, rezas e superstições regionais.
A primeira curta é “Roadside got Ghost” onde os três personagens principais, em toda a sua aldrabice e portanto, os vilões, dificilmente não serão os preferidos do público. No meio da tragédia (a primeira e a segunda curta têm finais bastante abruptos), salvam-se os momentos de comédia resultante da dinâmica entre os três "reis". Já “Forest got Ghost” é mais previsível. Que melhor local para plantarmos fantasmas do que uma floresta. Mulher vestida de vermelho. A sério? Existirá referência mais batida no mundo dos fantasmas? O epílogo podia ser mais surpreendente não fosse a curta anterior demonstrar que não há regras. Vale tudo e tudo deverá ser esperado. Mais uma vez a química entre a dupla de actores principais é excelente e os momentos cómicos resultam melhor do que o último terço mais focado no terror. A curta final é a mais distinta. Isto não será difícil de explicar se pensarmos na manobra de marketing genial de Jack Neo. Ele realizou “House got Ghost” como sequela do filme “Money not Enough 2” também por ele realizado um ano antes, com a mesma fórmula de comédia/terror. Com certeza fica a questão se ele decidiu realizar uma antologia de filmes sobre o mês dos fantasmas ou se o utilizou como pretexto para lá enfiar um prelúdio para uma trilogia de “Money not Enough”. Ao contrário das histórias anteriores, onde os prevaricadores acabam por ser punidos pelos seus actos, “House got Ghost” concentra-se na redenção e mais parece um raspanete para levar à mudança de comportamentos que um mero exercício de “crime e castigo”. Se esquecermos algumas deficiências de narrativa e efeitos gerados por computador paupérrimos, “Where got Ghost” é uma obra mais divertida do que assustadora e uma óptima introdução ao mês dos fantasmas esfomeados. Três estrelas.

Realização: Jack Neo e Boris Boo
Argumento: Jack Neo, Sek Yieng Bon, Boris Boo e Hee Ann Ho

Curta #1: “Roadside got Ghost”
Richard Low como Cai

Curta #2: “Forest got Ghost”
John Cheng como Nan
Wang Lei como Lei
Tay Yin Yin como Yin Yin

Curta #3: “House got Ghost”
Henry Thia como Yang Bao Hui (irmão mais velho)
Jack Neo como Bao Qiang (irmão do meio)
Mark Lee como Bao Huang (irmão mais novo)
Mai Ling como Mãe

Próximo filme: "Lake Mungo", 2008
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