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domingo, 16 de abril de 2017

"Knock Knock! Who's There?" (2015)


Hong Kong não parece querer abrandar a produção massiva de filmes de terror. Como se costuma dizer quantidade não é sinónimo e qualidade. E “Knock Knock! Who’s There?” não apresenta qualquer pretensão em ascender à parte superior da tabela.

Carrie Ng é uma actriz veterana de Hong Kong que conseguiu emergir de uma sucessão de maus filmes de categoria III e efetuar com sucesso a transição para o cinema destinado ao grande público. Mas se o tempo foi seu amigo e lhe trouxe respeito e reconhecimento internacional não lhe trouxe jeitinho nenhum para a realização… Entre outros pecados cai no erro da antologia. Ao invés de se focar em retratar uma boa estória foca-se em três, cada uma mais desfocada que a anterior. 
Em “Missing” Isabella (Annie Liu) morre num acidente rodoviário aparatoso ao tentar escapar dos paparazzi que a perseguem e ao seu noivo Harry (Carlos Chan). Inquieto, o seu espírito permanece na casa mortuária onde trabalha Roy (Babyjohn Choi), uma velha paixão. Diz que se reacende a acendalha do amor, que é impossível de concretizar dado… bem, dado o facto de ela estar morta e assim mas pronto, diz que o amor é cego e pelos vistos também imortal.

Segue-se-lhe “Karma” e Carrie Ng interpreta Ngo uma agente funerária viciada no jogo que ouve falar de uma susperstição, segundo a qual, se ela enterrar um gato vivo, será bafejada com grandes riquezas. Na sua ganância, ela comete o erro de matar o gato da sua sobrinha Shou (Kate Tsui). Tímida e quieta, ela recusa ignorar o acto atroz cometido pela tia e vai rebelar-se.
Em “Smell” Yan (Jennifer Tse) é uma artista especialista em tornar os mortos apresentáveis para as exéquias fúnebres que não larga o telemóvel. Um dia recebe uma mensagem de Mei-Mei (Nicola Tsang), alguém que não conhece mas com quem simpatiza de imediato. Mei-mei pede-lhe para ir buscar algo por ela e Yan decide ajudá-la, enfiando-se num bairro pouco recomendável da cidade…
“Knock Knock! Who’s There?” é uma miscelânea de estórias com um tom desigual e emprestado a tantos outros que lhe sucederam. Em casos pontuais, que podem ser encontrados em Eric Kwok e Jennifer Tse e, dada a sua experiência afigura-se uma rara tentativa de elevar o material mas o esforço é insuficiente para apagar o meu gosto deixado pelo mau argumento e direcção.

À excepção da sequência inicial, na qual Isabella sofre uma morte violenta que envolve paparazzi sem escrúpulos e um camião do lixo, “Missing” podia ser ignorado quase na totalidade. Para uma antologia que é vendida como sendo de terror, este primeiro segmento é romântico e enfadonho. Está também repleto de cenas inconsequentes. Isabella torna-se um fantasma dado ter assuntos por resolver, assuntos do coração entenda-se, um pouco como “Ghost” (1990). Entre outras descobertas percebemos que o noivo que deixa vivo não lhe desperta interesse além de um velho amor, terminado de forma precoce e absurda devido à interferência da família dela. O que resulta desta revelação? Nada. E a ameaça de espíritos maus nesta terra a Isabella também desaparece tão rapidamente quanto surge.“Karma” é uma velha estória de crime e castigo e embora Carrie Ng sobressaia no papel de vilã, isto não é necessariamente positivo. “Karma” assemelha-se mais a um produto feito para televisão –meia hora de distracção –, do que uma película para televisão. Apesar de algumas ideias interessantes e com potencial inovador, tais como a possessão por um gato e algum mau CGI, o segmento nunca se consegue elevar como algo mais do que medíocre. “Smell” é um título alusivo ao cheiro de cadáveres em decomposição e o que acompanhamos é a viagem de uma mulher (Jennifer Tse) que trabalha no ramo da morte até ao seu encontro. “Smell” é o segmento mais brutal da antologia, no entanto, pouco mais tem do que isso e surge em quantidades muito pequenas, demasiado tarde. Considerando o constrangimento do orçamento os maus efeitos visuais podiam ser perdoados se mais alguma coisa, o que quer que fosse, tivesse um nível superior. Mas isso nunca sucede e, acreditem, para quem acreditou até ao fim por algum tipo de retorno a espera é penosa. “Knock Knock” é o tipo de filme que faz questionar se vale a pena insistir com o visionamento de filmes de terror made in Hong Kong. É que este filme já nem é só formulaico, é horrível e uma perda de tempo. Mais valia não ter aberto a porta a esta sugestão. Uma estrela e meia.


Realização: Carrie Ng Ka-Lai                      
Argumento: Carrie Ng Ka-Lai, Frankie Tam e Yip Ming-Ho           
Segmento: “Missing”
Annie Liu como Isabella
Carlos Chan como Harry
Babyjohn Choi como Roy

Segmento: “Karma”
Kate Tsui como Shou Yun
Carrie Ng como Ngo
Simon Lui como Tong

Segmento: “Smell”
Jennifer Tse como Yan
Nicola Tsang como Mei-Mei

Eric Kwok como “Assassino”


Próximo Filme: Headshot, 2016

domingo, 22 de novembro de 2015

"Diary" (Mon seung, 2006)


Winnie (Charlene Choi) encontra-se deprimida depois de mais uma relação falhada. Após Seth (Shawn Yue) a abandonar, Winnie passa os dias a fazer bonecos, a tratar da lida da casa e escrever no seu diário. A sua vida dá uma volta inesperada quando encontra Ray que é exactamente igual ao ex-namorado. Ela dá uma nova oportunidade ao amor e acaba por conquistar Ray que rapidamente se muda para a casa da nova namorada. Winnie dá por si a cometer erros do passado com o novo amor ou será que o ciclo vicioso nunca chegou a terminar?

“Diary” é uma viagem desorientadora e aborrecida pela mente de uma personagem que poderá ou não estar no pleno das suas faculdades mentais. A viagem desorienta devido às muitas repetições e mudanças de perspectiva mas também aborrece porque, afinal, quantas vezes é que tem de mostrar a mesma cena até ao público acusar cansaço?! Todos os sinais apontam para que Winnie não seja a pessoa mais estável em termos psicológicos. Entre os vários afazeres mundanos, apercebemo-nos que Seth fez as malas e deixou-a só. Outro indício bastante óbvio é o facto de Winnie procurar criar um relacionamento com um sósia do homem que lhe partiu o coração. A sério que não havia ali ninguém para lhe dizer: “Querida, esta é capaz de não ser uma das melhores ideias de já tiveste?” Por que se o homem é igual, a personalidade pode ser em tudo diferente. Aliás, a maior parte do tempo, Ray aparenta possuir uma personalidade submissa se não, como aguentaria suportar que Winnie o tratasse por inúmeras, demasiadas vezes, pelo nome do anterior namorado. Também Winnie se contenta com pouco. As suas relações chegam sempre a um ponto em que os companheiros não se dão à tão árdua tarefa de lhe responder ou sequer reconhecer a presença dela, na sua própria casa. Mas a câmara de Oxide Pang parece querer contar uma estória distinta. Eles podem não estar ali, podem nunca ter estado ali. Se calhar é tudo uma grande partida da mente de uma Winnie que tem visões e por vezes apresenta dificuldade em discernir o que é real e o que é sonho. Charlene Choi, uma estrela da cena cantopop prova que não é apenas uma carinha laroca e mostra que possui capacidades para a representação mais do que suficientes para a interpretação de uma mulher que poderá ou não ser desequilibrada. A Shawn Yue pouco mais é dado que fazer do que se assemelhar a um vegetal, enquanto Isabella Leong, num papel fulcral para o desenlace da trama não surge em quantidade suficiente para não ser eclipsada por Choi. O enredo é um puzzle complexo cuja revelação poderá escapar a alguns ou ainda conduzir a interpretações dissemelhantes. Uma dica: a profusão de cor ou a aposta na simples cinza pode ajudar a despistar o sonho do quotidiano. Mas a despeito de uma execução técnica exemplar o fracasso reside num argumento pobre. Choi parece arrastar-se pelo ecrã a todo momento, levando com ela a pouca atenção que ainda lhe é concedida após a realização de que “Diary” não é tanto um filme de terror como um thriller dramático. Pang cai na armadilha habitual no seu currículo cinematográfico, das reviravoltas e desenlaces que… não eram necessários e mais, dão a sensação de que só existem para aumentar o tempo de duração de um filme que ainda assim só tem uns meros 85 minutos.

“Diary” é um excelente recordatório das capacidades de Oxide Pang em criar películas espantosas em termos visuais e igualmente fracas em termos narrativos. Esta constante, desde inícios do milénio até ao final da primeira década do século XXI, comprova a incapacidade de qualquer dos manos Pang e, em particular, do mais talentoso Oxide, em aprimorar a sua arte. Isto é capaz de ter algo a ver com a quantidade de filmes que já criaram até ao momento e, como é por demais sabido, a quantidade costuma ser inimiga da qualidade. Duas estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Charlene Choi como Leung Wing-na (Winnie)
Isabella Leong como Yee
Shawn Yue como Seth/Ray
Hin-Wai Au como Detective

Próximo Filme: "The House at the End of Time" (La casa del fin de los tiempos, 2013)

domingo, 26 de abril de 2015

"Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)


Trailer, poster e créditos iniciais vendem um mistério aquático. Com duas horas em excesso, a verdade revela-se bem menos interessante. 

Num dos mergulhos de rotina ao profundo azul, a Dra. Gao Jing (Angelica Lee) perde-se do amado Dave Chen (Xiaodong Guo). Ela acaba por emergir com Chen Xiao Kai (Isabella Leong), a irmã deste, mas nunca mais volta a vê-lo vivo. Quando um cadáver é recuperado Gao Jing recusa-se a acreditar que o corpo encontrado seja dele. Sem memória do que sucedeu debaixo de água, ela aceita submeter-se a uma sessão de hipnotismo com o Dr. Edward Tong (Tony Ka Fai Leung) para descobrir a verdade. Desesperada com a perspectiva de nunca mais ver Dave, Gao Jing decide deixar-se enredar na aura de mistério que envolve Simon (Chen Chang), um dos seus pacientes, convencido que é assombrado pela namorada morta. Esta descrição é uma súmula rápida e simplificada desta não descomplicada película. Podem agradecer-me mais tarde.

Os créditos iniciais brindam-nos com uma paisagem costeira fabulosa. De facto, se algum elogio é totalmente merecido é o de uma cinematografia maravilhosa. Atente-se à magnífica utilização do azul do oceano. As cenas de mergulho impecáveis parecem saídas de um documentário da National Geographic. Já fora de água e estas cenas estão em maioria, existe com frequência um apontamento de azul para fazer recordar a tragédia que agora se investiga. A paixão pelo mergulho e pela fotografia aquática foi o que uniu Gao Jing e Dave, acabando por ser também, por ironia do destino, aquilo que os separou.
“Missing” descreve na perfeição esta obra de Tsui Hark. Mais do que um desaparecimento, falta-lhe toda uma variedade de decisões que o podiam ter tornado bastante superior. Em primeiro lugar, a decisão da edição. Tsui Hark é enxergado com reverência por filmes como “Once upon a Time in China” (1991) que recuperaram os clássicos de artes marciais com um ainda jovem Jet Li ao leme. E parece ser neste género onde se encontra a sua área de conforto (veja-se “Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame” de 2010) e, com toda a fraqueza, o melhor local para empregar os seus talentos. Quando sai do género parece perder toda a confiança, caindo na armadilha do familiar. “Missing” também não tem problemas com uma linearidade excessiva do argumento. Antes pelo contrário. Peca por querer parecer mais perspicaz e complexo do que na realidade é. Anunciado como um mistério, deambula entre o thriller sobrenatural e o drama romântico até perto das duas horas em que estabiliza, por fim, na opção menos excitante das duas. Extirpado dos inúmeros subenredos que incluem Chen Xiao Kai, do Dr. Tong (Isabella Leong e Tony Leung Ka Fai inutilizados até à infelicidade) e de Simon, “Missing” seria de mais fácil compreensão e não perderia nenhuma qualidade. Fosse um mistério criminal, seria interessante explorar a vertente da amiga com uma paixão proibida, o terapeuta rejeitado ou o paciente com uma visão mais lúcida que a dos que o rodeiam. Faltam ideias, sejam elas quais forem!
 Já para Angelica Lee é mais do mesmo. Ela está habituada a ser a protagonista para as neuroses do marido Oxide Pang Chun em “The Eye” (2002), “Sleepwalker 3D” (2010), entre outros e, faz tudo o que lhe pedem, ainda que isso signifique observar o vazio durante segundos mais que o necessário. O que me leva à constatação óbvia, para quem já visionou quase toda a obra dos irmãos Pang, que “Missing” parece uma cópia descarada, da actriz principal às reviravoltas da dupla. O que em si, se não é completamente ético podia ao menos resultar numa experiência de visionamento agradável. Está presente a devida homenagem com a icónica cena do elevador assombrado (reinventada por Tsui Hark, claro), existe uma Angelica Lee chorosa (quantas lágrimas já ela verteu), o recurso à imagem gerada por computador com uma qualidade tão duvidosa e inesperada que é de bradar aos céus, e mais do que um final… Para quem almejou tanto, “Missing” é de um vazio atroz. A imagem é na maior parte impressionante, desde uns créditos iniciais que passeiam por entre escarpas costeiras ou a calmaria da fauna oceânica. A questão que se coloca é se estão dispostos a perder duas horas de vida para ver uma estória absurda a despeito das imagens bonitas quando há muito melhor oferta. Duas estrelas.

O melhor:
- Cinematografia e as paisagens naturais

O pior:
- O argumento
- Efeitos digitais
- Banda-sonora
- Os três desenlaces diferentes

Realização: Tsui Hark
Argumento: Tsui Hark e Ho Leung Tau
Angelica Lee como Dra. Gao Jing
Isabella Leong como Chen Xiao Kai
Chen Chang como Simon
Xiaodong Guo como Dave Chen Guo Dong
Tony Ka Fai Leung como Dr. Edward Tong

Próximo Filme: "The Second Sight", Chit sam phat 3D (2013)

domingo, 30 de novembro de 2014

"Rigor Mortis" (Geung Si, 2013)

Aviso: O trailer tem spoilers

Chin Siu-ho é um actor acabado que decidiu alugar um apartamento para pôr termo à vida de modo tranquilo. O seu plano é prejudicado quando se apercebe que o apartamento já tem a sua própria assombração e esta tem um plano muito próprio sobre o que fazer com ele. Yau (Anthony Chan) é o dono do restaurante do rés-do-chão cuja fachada descontraída (ele anda a passear pelos corredores de robe), esconde um caçador de vampiros retirado mas ainda atento a manifestações sobrenaturais. A tia Mui (Nina Paw) é uma costureira e boa samaritana, que passados tantos anos de matrimónio continua ainda profundamente apaixonada por Tung (Richard Ng). A sua morte vai obrigá-la a tomar uma decisão que vai contra todos os princípios por que sempre se regeu. Gau (Chung Fat) é um perito no oculto que a despeito dos anos de experiência decidiu enveredar pelo caminho das artes negras de modo subreptício.  Yeung Fang (Kara Hui) é uma vizinha que poderia passar por um fantasma pois vagueia pelo prédio destroçada por uma dor invisível. O seu filho albino Pak (Morris Ho) entra e sai dos vários apartamentos com a aquiescência dos vizinhos que o reconhecem já como parte integral da vida do prédio.

“Rigor Mortis” é uma homenagem aos filmes de fantasia e comédia sobre vampiros saltitantes produzidos em Hong Kong nos anos 80. Juno Mak, se calhar mais conhecido no ocidente pela interpretação arrepiante em “Revenge: A Love Story” estreia-se como realizador e ó, se impressiona. Ele terá aproveitado todos os bons contactos e as excelentes críticas advindas de “Revenge: A Love Story” do qual também foi argumentista e captou grandes artistas dos filmes que homenageia (Chin Shiu-ho e Richard Ng) e ainda lendas como Nina Paw e Kara Hui, esta última se calhar injustamente mais conhecida pela habilidade no Kung Fu do que pelas fortes qualidades dramáticas. Os aspectos técnicos de “Rigor Mortis” são qualquer coisa de fantástico. A fotografia é belíssima, os efeitos digitais idem, a banda-sonora pejada de notas dissonantes (ainda que exageradas uns quantos decibéis) demonstram a inquietação que perpassam aqueles corredores e a câmara e actores parecem unidos no objectivo de comum de fazer daquele prédio um local perturbador. A luz é inexistente. Apenas existem as paredes e as estórias que lá se passam. Qualquer alusão ao mundo lá fora não é mais do que uma memória dolorosa: divórcios, morte, abuso... Ficar ali é a escolha de um falso conforto. Daí os filtros azuis e cinzentos. Mas a “vida” ali assenta num equilíbrio instável. A quebra da falsa ilusão de segurança pode advir da fonte mais improvável. Quando a violência ocorre, quase sempre é sem censura. Ainda assim é mais comedido que outros filmes que têm saído de Hong Kong nos últimos anos como o “Tales from the Dark –Part 1” (2013). As imagens digitais mais parecem composições de artistas que forem eles próprios influenciados pela vaga de filmes tailandeses à semelhança de “Body #19”. Filmes esses que não se transcendendo na qualidade do storytelling ficam na retina pelas imagens fabulosas que geram. Estas similitudes também não são alheias ao facto de Takashi Shimizu (“Ju-on”, 2000) ser produtor do filme. Atente-se às duas irmãs capazes de rivalizar com as gémeas assustadoras de “The Shining” (1980).
O Este encontra o Oeste
Mais adiante, somos brindados com artes marciais, herança dos filmes que Juno tentou homenagear, pondo Kara Hui e Chin siu-ho a mostrar que o tempo não fez esquecer a mestria no kung fu, em breves mas brutais sequências de luta. A dada altura Chin sui-ho e o seu oponente mais parecem soldados de terracota, cobertos que estão por lama e pó. Soldados rígidos, resistentes ao tempo. No entanto, a sensibilidade artística não transborda na estória. “Rigor Mortis” como o corpo cadavérico leva o seu tempo até adoptar uma forma rígida. As estórias não se entrecruzam por completo até transposto metade do filme. Então, fica a sensação de que se tentou fazer demais. Seriam precisos todos aqueles personagens? Algumas das suas estórias não acrescentam nada ao cerne da questão, arrastando-se mais do que o necessário. Em última análise, “Rigor Mortis” reduz-se à admiração pelo espectáculo visual pontuados aqui e ali pelas interpretações fantásticas de uma parte do elenco. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Recuperação dosubgénero esquecido do “Vampiro Saltitante”.
- Fotografia, efeitos gerados por computador
- Interpretação fabulosa de Nina Paw
- O realizador é inexperiente? Não dei por nada.

O pior:
- Ritmo lento
- Desfecho
- Estória demora a arrancar
- Cenas de artes marciais poderão parecer desenquadradas do filme que vinham a acompanhar

Realização: Juno Mak
Argumento: Lai-yin Leung e Philip Yung
Chin Siu-ho como Chin Siu-ho
Anthony Chan como Yau
Kara Hui como Yeung Feng
Nina Paw como Tia Mei
Ricard Ng como Tio Tung
Morris Ho como Pak
Chung Fat como Gau

Próximo Filme: NAFF 2014 (vários)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"The Eye" (Gin Gwai, 2002)


Os olhos devem ser um dos órgãos mais importantes, subestimados e maltratados em todo o corpo humano. É que nem temos noção. Passamos horas a forçá-los à frente de monitores, insistimos em mantê-los abertos muito depois do cérebro gritar de cansaço e, nem sequer, os utilizamos como deve ser. Não fossem os vossos olhos e, não podiam ler estas linhas sobre um dos grandes filmes de terror do século XXI. E, se os olhos são tão pouco considerados pelos poucos dotados com uma visão perfeita, imaginem como será uma lembrança preciosa por quem um dia a possuiu. O caso aplica-se como uma luva a Mun (Angelica Lee), uma rapariga de 24 anos que após duas décadas de escuridão, recupera a visão num novo procedimento cirurgico. O processo de recuperação é assustador. Não só devido à ansiedade de conhecer um mundo além dos outros quatros sentidos mas também pelo facto de ser como uma criança novamente. Tem de aprender a redescobrir o mundo e a relacionar-se com ele e distinguir o real do ilusório. Entre os vários desafios estão a distrinça das superfícies e o reconhecimento da própria imagem. E quão solitária deve ser esta jornada quando Mun tem uma família que não se pode identificar com a sua situação e a orquestra de invisuais na qual tocava, já não a considera como uma deles.
Mun, por entre a profusão de imagens que inundam incessantemente o seu espectro de visão, não se apercebe de imediato que vê algo mais, algo que os restantes seres vivos não vêem. E, não sabe, por isso, reconhecê-lo. Enquanto a maioria dos que a rodeiam atribui a nova atitude de introversão de Mun ao processo de transição que está a atravessar, apenas o seu psicólogo, Dr. Wah (Lawrence Chou) a parece compreender. Perante imagens de natureza tão perturbadora ela isola-se, retira-se do mundo social. Existe uma resposta racional para o que lhe está a suceder ou o fenómeno pertence mesmo ao campo do sobrenatural? Ao contrário de outros grandes clássicos do cinema asiático como “Ringu”, “Ju-on” ou “A Tale of Two Sisters”, “The Eye”, baseia-se num problema fisico, algo que tocará mais perto do coração e da racionalidade do Homem. Qualquer um se pode identificar com o receio de perder a visão, ou de ver algo que não quer, o tal “monstro debaixo da cama”.Por outro lado, há sempre o medo mais primitivo da provocação de danos sobre o globo ocular. “Un chien Andalou”, o nome, se calhar, não vos dirá nada mas se referir a cena da senhora cujo globo é perfurado por uma faca, a referência talvez não seja tão estranha...
De resto a narrativa não será totalmente original, sendo desaproveitadas algumas oportunidades como a possibilidade da loucura de Mun. Nunca surge a mais remota hipótese de que está tudo na sua cabeça, a causa é exterior. Também Angelica Lee, que após este filme se viria a tornar mulher de um dos realizadores, o Oxide Pang Chun, é a maior força do filme. É o seu desempenho que carrega todo o filme sendo que com um retrato menos realista de Lee, “The Eye”, não teria metade do impacto. A maior fraqueza encontra-se no Dr. Wah, um Lawrence Chou demasiado imberbe para interpretar um psicólogo experiente e conceitado. Tanto ele como Angelica viriam a fazer carreira com os irmãos Pang, acertando algumas vezes (“Re-cycle”) e falhando redondamente noutras ocasiões (“Sleepwalker 3D”). Outra questão que poderá afugentar os espectadores de “The Eye” nada tem que ver com o filme mas com o remake americano com Jessica Alba. É certo que ela não é o pior do filme mas ajuda muito. Essa versão, além de já não possuir o factor novidade, não é tão aterradora. Para não alienar o publico e chegar a um publico mais jovem, suavizaram de tal modo certas cenas icónicas que ver Alba a estremecer de medo não assusta, incomoda. Mais do que isso, “The Eye” é um caso de estudo de imitação e replicação de cenas que, hoje em dia se tornaram banais mas, não neste filme, que dez anos volvidos envelheceu bem. Atentem bem a “The Eye”, e observem bem o material de que são feitos os grandes clássicos de terror. Quatro estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun e Danny Pang
Argumento: Yuet-Jan Hui, Oxide Pang Chun e Danny Pang
Angelica Lee como Wong Kar Mun
Lawrence Chou como Dr. Wah
Yut Lai So como Yingying
Edmund Chen como Dr. Lo
Candy Lo como Yee

Próximo Filme: "Misteri Jalan Lama", 2011

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Hong Kong Ghost Stories" (Mag gwai oi ching goo si, 2011)

Que curiosa obsessão com antologias de terror. Por todo o sudeste asiático persiste um gosto especial pela criação deste tipo de cinema, no qual, a audiência paga um bilhete com direito a três ou quatro curtas-metragens de uma só vez. Exemplos destes há muitos: “Visits: Hungry Ghost Anthology” (2004) da Malásia, “Takut: Faces of Fear” (2009) da Indonésia, “Unholy Woman” (2006) do Japão ou “Cinco” (2010) das Filipinas. Mas os melhores exemplares desta mania ainda pouco comum fora de portas continuam a ser “Three” e a respectiva sequela (2002-2004) e “Phobia” 1 e 2 (2008-2009), que já aqui tivemos oportunidade de apreciar. A maior dificuldade que estas antologias levantam é a sua regionalidade. Algumas estão tão agarradas a costumes e superstições internas que se torna difícil a alguém fora desses países compreender determinadas piadas e expressões idiomáticas. Nada disto tem algum mal se o objectivo é, como se supõe, atingir as audiências locais. No entanto, hoje em dia a frase “Pensar Global” está tão embrenhada no vocabulário das empresas relativo ao crescimento que urge reflectir, se a enfase no público interno não será uma oportunidade perdida.
“Hong Kong Ghost Stories” enquadra-se nesse pensamento primitivo e como o nome indica conta-nos duas estórias de fantasmas de Hong Kong. A primeira “Classroom” apresenta Jennifer Tse, irmã de Nicholas Tse que brilhou recentemente em “Shaolin” (2011), ao lado de Andy Lau e Jackie Chan. Ela interpreta a professora Yip, uma mulher que já não estando exactamente nos vinte e poucos anos tem de começar tudo de novo. Maltratada por um namorado abusivo durante anos a fio, ela refugia-se na casa dos pais e arranja trabalho numa nova escola. Chung (Pakho Chow), não desiste de a tentar recuperar, ao mesmo tempo, que a jovem professora tem que lidar com o regresso ao ninho e ao retomar da actividade do ensino junto de uma turma estranha. Os alunos começam por demonstrar um mau comportamento que se vai intensificando até à hostilidade declarada. O que pode a Miss Yip fazer para não perder a sua última oportunidade de independência?
Na senda da fama do irmão mais velho, a bela Jennifer Tse aproveita para demonstrar a sua capacidade de representação. A sua escolha de filmes talvez pudesse ser um pouco mais feliz. Wong Jing, o realizador desta curta-metragem, parece trabalhar numa autêntica linha de montagem em série, pensando porventura que a quantidade é melhor que qualidade. Os seus poucos filmes dignos de nota, nem sequer vão além do medianamente bom. Entretanto, a sua actriz principal faz um verdadeiro one woman show, uma vez que pouco a auxilia na árdua tarefa de defender a professora Yip. Há uma cena numa casa de banho da escola em que ela grita apavorada contra um medo que só ela vê e tem. A câmara não a ajuda, o cenário, a sonoplastia, nada. Está ali ela, a fazer as vezes de um terror que só ela percepciona. A audiência não participa deste medo, é puro voyeur. Ademais, a estória é uma verdadeira bagunça, ora foca os ricos paizinhos da miss Yip, ora até parece que o maldito ex tem alguma importância e a turma, não é propriamente novidade. Salas de aula assombradas não são a ideia mais original que se viu. E certamente, que “Classroom” também não é a melhor concretização da ideia. O prólogo, que nada tem que ver com quaisquer das curtas-metragens é de longe o momento mais insólito e interessante da antologia. Duas marionetas em tamanho real (Sammy Ho e Jeana Ho) preparam-se para filmar as curtas-metragens que iremos ver…
“Travel” ainda menos tem de assustador, o que compensa em comédia. Diga-se que Kong não é um realizador de terror. A sua carreira tem sido construída à volta de comédias românticas menores, com grande parte dos actores que recruta para “Travel”. Isto se compreenderem as alusões a Raymond Lam e a crítica a algumas emissoras de TV. No centro da trama está a falecida Bobo (Chrissie Chau), que devia ser impopular visto só lá estarem quatro raparigas (Charmaine Fong, Jacqueline Chong, Harriet Yeung e Rose Chan) que a conheceram na última viagem que fez. Estas estudantes são o máximo. Viajam desde Hong Kong até à Tailândia para ver as vistas… Homens, entenda-se. Já para não dizer que têm uma obsessão pouco saudável pelo actor/cantor Raymond Lam. Nem o pobre polícia de férias Jack (Timmy Hung) escapa à sua observação lasciva e é empurrado para almoços e outras interacções com as estudantes devassas. Depois, temos uma morte mal explicada e um amante (Him Law) que regressa de nenhures à procura de algo que Bobo deixou para trás. A dada altura começam os flashbacks para percebermos como a pobre Bobo chegou àquele ponto. Afinal, ela de inocente tinha muito pouco e as suas amigas não eram tanto assim. De qualquer modo, está interessante a transição de Hong Kong para a Tailândia com o contraste noite/dia a não ser um acidente na variação de uma estória negra para um humor perverso. “Travel”, não é uma estória muito mais simples que “Classroom” mas proporcionou bons momentos de humor. O quarteto maravilha: Fong, Chong, Chan e, em particular, Yeung, fizeram um trabalho humorístico espantoso. Kong, sem se afastar muito do seu género preferido consegue realizar um trabalho superior ao de Wong Jing. Duas conclusões saltam à vista: dificilmente serão duas curtas-metragens de terror, pois que a primeira falha nos sustos e a segunda prefere a sátira. Além disso, no último filme, a acção passa-se maioritariamente na Tailândia. Contos de Hong Kong? Uma estrela e meia.


“Classroom”
Realização: Wong Jing
Argumento: Wong Jing
Jennifer Tse como Miss Yip
Pakho Chow como Chung
Sammy Ho como Marioneta 1
Jeana Ho como Marioneta 2

“Travel”
Realização: Patrick Kong
Argumento: Patrick Kong
Chrissie Chau como Bobo
Charmaine Fong como Estudante 1
Jacqueline Chong como Estudante2
Harriet Yeung como Estudante 3
Rose Chan como Estudante 4
Timmy Hung como Jack
Him Law como Karl
Stephy Tang como Phoenix

Próximo Filme: "The Man From Nowhere" (Ajeossi, 2010)


domingo, 8 de janeiro de 2012

"Re-cycle" (Gwai Wik, 2006)

O cérebro é uma coisa fascinante. Não nos deixa esquecer as memórias que mais teimamos em abandonar e é implacável com aquelas que nos são preciosas. Ting-yin (Sinjie Lee) é uma escritora que está finalmente pronta a abandonar o passado. Um romance falhado deu-lhe material para quatro livros de grande sucesso mas enquanto a sua vida profissional floresce, a sentimental é inexistente. Ting-yin decide fazer o corte do modo mais radical: escrever um livro sobre o sobrenatural. Fiel ao seu método que melhor conhece, o de vivenciar aquilo que escreve, Ting-yin anseia por ter uma experiência sobrenatural.
O antigo amor, aquele que lhe deu inspiração para uma vida inteira de romances trágicos de sucesso ressurge disposto a comprometer-se. Entretanto, também o seu manager Lawrence (Lawrence Chow), anuncia o título do novo livro de Ting-yi sem esta ter ainda escrito uma linha. Perturbada com o regresso do que lhe provocou tanta dor e a pressão de escrever um novo livro, a tarefa é-lhe mais difícil do que nunca. Escreve, apaga, reescreve, desiste e deita fora o papel. Este ritual repete-se até que as suas linhas principiam a transpor para a realidade. Os aparelhos começam a tomar vida própria e as torneiras abrem-se sozinhas. Ting-yi sente-se assombrada. É real ou está tudo na sua cabeça? Não era afinal o que Ting-yin queria? Apostada em compreender o que se está a passar, Ting-yin entra numa dimensão paralela, onde os seus medos se tornam realidade. Dificilmente se encontrarão dois capítulos mais distintos numa película. Os primeiros quarenta minutos são típicos dos irmãos Pang, onde se podem vislumbrar truques ou variações das técnicas presentes na série de filmes “The Eye” (2002). A segunda metade do filme também é típica dos Pang com a ligeira diferença de que a dupla aposta tudo nos aspectos visuais em detrimento do desenvolvimento da narrativa. E que festim para a vista: temos um parque de diversões made in hell, um batalhão de zombies, uma gruta de fetos abortados… Sim, eles foram lá. E mais não digo para não furtar a surpresa à experiência visual. “Re-cycle” apresenta uma confluência de fontes de inspiração que não são assim tão difíceis de encontrar. Temos desde a entrada de Tyng-yi na nova realidade paralela qual “Alice no País das Maravilhas” do Lewis Carrol, passando pelo imaginário de Tarsem Singh [“The Cell”(2000) e “The Fall” (2006)] e pela obra extraordinária do Terry Gilliam até ao universo dos jogos de vídeo e computador com “Sillent Hill” (2006). A homenagem, não se sabe se intencional ou não, é inócua e está ao nível dos exemplos anteriormente citados. É onde o cinema e a arte se encontram de mãos dadas, discorrendo livre, sem interferências explícitas do estúdio. “Re-cycle” é sobre a perda e a mudança, sobre como podemos passar a vida real para o papel e lhe podemos dar um final feliz. “Re-cycle” é também a lembrança de tudo o que descartámos ou deixámos para trás: sonhos, pensamentos, desejos e acções, seguindo um caminho diferente na estrada sinuosa da vida. Mas toda esta reflexão é abandonada para dar lugar ao espectáculo visual.
Os temas são abordados superficialmente, por um ancião e uma pequenina que acabam por se tornar os guardiões de Ting-yi na dimensão. Mas parece não existir um esforço consciente para dar continuidade às temáticas. Nem Ting-yin está interessada em buscar um significado para a experiência simultaneamente fantástica e assombrosa que está a viver, nem retomadas as questões levantadas logo de início pelos novos personagens. Ting-yin sobressai como uma mulher vulnerável que só quer fugir do pesadelo onde se enfiou por desejo próprio. Explorar a sua própria psique e encontrar a resposta tão óbvia para a sua presença ali é a sua última preocupação. A recém-descoberta vulnerabilidade de Ting-yin contrasta com a personagem quase glacial a que fomos apresentados pelos Pang. Tivesse Sinjie Lee um pouco de argumento e seriamos brindados com uma representação digna do seu talento. Sinjie Lee é na verdade Angelica Lee actriz preferida dos Pang desde que contracenou em “The Eye” (2001) e comprova mais uma vez por que é a musa perfeita para as obras focadas no sobrenatural da dupla de realizadores. E o seu próximo esforço também está quase ai, “Sleepwalker” (2011), no qual é dirigida pelo marido, nada mais, nada menos, que Oxide Pang Chun. A ela junta-se também Lawrence Chow, outro habitué nos filmes dos cineastas. Um passeio no parque para os Pang. Estes irmãos não são consensuais e têm obras bastante questionáveis, mas depois de obras com a mestria de “Re-cycle” uma pessoa começa a questionar-se se os problemas de concretização estão no talento da realização ou nas pressões dos estúdios. Outro ponto controverso será a forte mensagem pró-vida do filme que certamente provocará uns risos nervosos nos defensores mais fervorosos do aborto. Visualmente perfeito e a gritar por uns óculos 3D, “Re-cycle” é uma película imperfeita que pede mais do que uma visualização até que o olhar humano consiga apurar todos os pormenores magníficos da obra desta dupla de Hong Kong. Três estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun e Danny Pang
Argumento: Cub Chin, Sam Lung, Oxide Pang Chun, Danny Pang e Thomas Pang
Sinje Lee como Ting-yin
Ekin cheng como Jeong Man
Lawrence Chow como Manager de Ting-yin
Siu Ming-Lau como Velho
Yaqi Zheng como Ting-yu
Próximo Filme: "Ju-on: The Grudge" (Ju-on, 2003)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Three - Curta #3: Going Home" (Saam Gaang, 2002)

Depois da recepção gelada que as primeiras curtas-metragens da antologia de terror "Three" obtiveram, a vontade de visionar "Going Home" encontrava-se poucos graus abaixo de zero. Não fosse a companhia e teria ficado "satisfeita" por ter visto duas em três o que constituiria um grande erro. Como se costuma dizer: "o melhor fica para o fim". "Going Home" é uma peça tocante sobre Wai (Eric Tseng) que se muda com o filho Cheung (Ting-Fung Li), para um antigo complexo de apartamentos que irá ser demolido dentro de pouco tempo. Não é pois de estranhar que o seu filho impressionável pense que o edifício está assombrado. Um dia, este segue uma rapariguita de vermelho que costuma brincar no complexo e desaparece. Inquieto com o desaparecimento do filho, Wai bate à porta do seu único vizinho Yu (Leon Lai) e tropeça numa história rocambolesca. Yu tem dedicado a sua vida a cuidar da sua mulher Hai’er (Eugenia Yuan) que matou há três anos! E agora, acreditem nisto, Yu continua a banhar, cortar o cabelo e as unhas da mulher, a passeá-la e a falar-lhe ternamente como se estivesse viva. Só num filme certo? Mas Yu nada tem de psicopata, ele é digno de compaixão, envolvido na ilusão que ele próprio criou de que a esposa irá acordar dentro de dias. A grande força de “Going Home” reside na subtileza do desempenho de Lai e na sua força comedida que fazem questionar se ele estará mesmo louco, ou se realmente encontrou uma solução mágica para a vida depois da morte. Por contraposição, temos um Eric Tseng quebrado perante a sua própria impotência face à ausência inexplicável do filho. Dois modos interessantes de lidar com a perda que podiam ser ainda melhor explorados não fosse esta uma curta. Apesar de eficaz, “Going Home” não está isenta de falhas. O desaparecimento de Cheung despoleta a acção mas, durante mais de metade do filme, não voltamos a ele. É como se o seu desaparecimento fosse apenas uma desculpa para nos introduzir à vida de um vizinho louco. E por muito interessante que seja explorar a "relação unidireccional" de Yu com a mulher, temos sempre presente que uma criança está desaparecida e queremos uma resposta para o mistério. O início também é enganador, com as pistas de que vamos assistir a um thriller sobrenatural a revelarem-se infundadas. Tanto melhor, o mistério sobrenatural como o conhecemos já há muito devia ter caído em desuso. “Going Home” é a obra mais compensadora de “Three” e aquela que podia (devia!) ter sido perscrutada mais profundamente numa longa-metragem. O lirismo da narração e da cinematografia de Christopher Doyle que foi responsável por algumas das obras mais belas na sétima arte como “Hero” (2002) e vários filmes de Wong Kar Wai, a par dos bons desempenhos dos actores, merecem que vejam com a maior urgência esta curta-metragem! É daquelas pequenas pérolas que fazem uma pessoa apaixonar-se de novo pelo cinema. Imperdível. Quatro estrelas.


Realização: Peter Chan
Argumento: Peter Chan, Matt Chow, Jo Jo Yuet-chun Hui e Chao-Bin Su
Leon Lai como Yu
Eric Tseng como Wai
Eugenia Yuan como Hai'er
Ting-Fung Li como Cheung

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

domingo, 28 de agosto de 2011

"The Matrimony" (Xin zhong you qui, 2007)

Are you “in a mood for love”? Pois que eu estou e não, este filme não é do Wong Kar Wai, foi apenas menção aleatória que me ocorreu para vos despertar a atenção. Bem, a referência não é assim tão disparatada pois que vos trago uma história de amor. Uma história bela, trágica e quase assustadora de Hua-Tao Teng. Passada na China nos anos 30, a história gira em torno da desventura amorosa do cinematógrafo Shen Junchu (Leon Lai) que vê morrer à sua frente a sua amada Xu Manli (Fan Bing Bing). Destroçado, Shen fecha-se sobre si próprio e aceita fazer um casamento arranjado pela sua mãe com Sansan (Rene Liu) apenas para a descansar. Sansan é a típica rapariguinha apaixonada que tudo faz para agradar ao marido, mas que falha a todos os níveis. Rejeitada, ela não desiste de tentar obter as suas boas graças. Porquê? Não se percebe visto que na primeira meia hora de filme, Shen é taciturno e desagradável, roçando o odioso. Um dia Sansan encontra a chave para uma sala onde Shen a proibiu de entrar e não resiste à curiosidade. Lá, dá de caras com o fantasma de Manli que lhe sugere fazerem um pacto aparentemente satisfatório para ambas as partes. Se Sansan deixar Manli possuir o seu corpo esta poderá tocar novamente em Shen e Sansan poderá ser finalmente aceite. Claro que se estão à espera um filme de miúdas a formarem uma amizade além das fronteiras metafísicas, estão muito enganados. Manli é um espírito e se prestarem atenção aos filmes de fantasmas, os espíritos vestidos de vermelho, normalmente, não são os entes mais agradáveis deste mundo e do outro (“Rattle, Rattle” 2006, pessoal?). Além disso, elas partilham o mesmo objecto e amoroso e sejamos honestos, são mulheres. Onde é que alguma vez as mulheres se deram bem? “The Matrimony” recorda-me a novela “Rebecca” da Daphne Du Maurier também passada nos anos 30, na qual mesmo depois da morte, o fantasma de uma mulher persiste em não desaparecer da memória e em marcar a vida daqueles que lhe sobrevivem.
Quem me conhece saberá que não gosto de dramalhões nem de romances dignos de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Sou da opinião que quem quer verdadeiro entretenimento vai ao cinema e quem quer chorar tem a vida real. Ora, como não sou fã de ir pagar 5 euros para chorar no cinema, evito as demonstrações melodramáticas ao máximo. Atenção, que concedo (quando o vejo), o mérito nos desempenhos dramáticos, ou não fossem a esses que 99,9999999999999% das vezes, aquela grande instituição que é a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas atribui os Óscares. Acontece que “The Matrimony” é um casamento feliz entre drama e o horror, sem se inclinar em demasia para um dos lados da balança. Segue o manual dos filmes de terror com “jovens de longo cabelo negro vingativas e/ou injustiçadas em vida” à risca. Mas tem qualquer coisa de original. Para começar, o suspense não é o prato forte da película. Hua-Tao Teng poupa-nos a um crescendo de tensão até à grande revelação do fantasma e ao invés, tira essa sugestão do caminho o mais cedo possível. Também, admitamos que a Fan Bing Bing tem uma carinha laroca, não faz lá muito sentido estar a escondê-la.
Adiante, a primeira cena em que se nota a magia do computador, durante a morte de Manli, é das coisinhas mais amadoras que andam por aí, o que 1) reforça a necessidade de se afastarem da utilização dos efeitos especiais apenas porque sim e 2) estabelece um triste contraste com a qualidade geral da película. De resto, o filme é tão envolvente e com uma atmosfera muito bem conseguida. Nomeadamente, a cinematografia, (uma grande vénia a Mark Lee), a recriação dos anos 30 e a palete de cores está bem apelativa. Visualmente está catita.
Quanto à narrativa, tem momentos de originalidade entre os habituais lugares-comuns do filme de fantasmas. Dá um pouco mais que fazer aos actores e permite um desenvolvimento das personagens. Não há uma procura do susto fácil, este apenas surge como desenvolvimento natural da narrativa. Quanto às actuações, Liu está excelente tendo direito a um background decente conquanto, de início, não seja mais do que uma peça de imobiliário que se intromete na história de amor de Shen e Manli. Quanto a esta última, encarna um espírito com motivações que vão além da superfície, afastando-se do habitual espírito unidimensional. Talvez a grande diferença entre este e outros filmes de fantasmas é que aqui o espectro não é uma mera coisa inserida para provocar o próximo susto, antes tem sentimentos e emoções com as quais sentimos empatia. Já Shen, é uma florzinha de estufa muito magoada, muito sofrida e deprimida, cujos encantos, tirando breves flashbacks, dificilmente se encontram para explicar o amor das duas mulheres. O que poderá ser considerada a maior fraqueza do filme é mesmo o final. Pode ser encarado de dois modos: se gostam de finais que fujam a clichés e que exijam reflexão deverão gostar se, pelo contrário, procuram uma solução satisfatória, o habitual final feliz que não dê que pensar é melhor apostarem noutro registo. “The Matrimony” não assusta muito, mas assusta bonito. Três estrelas e meia.
Realização: Hua-Tao Teng
Argumento: Qianling Yang e Jialu Zhang
Elenco:
Leon Lai como Shen Junchu
Fan Bing Bing como Xu Man li
Rene Liu como Sansan
Songzi Xu como Rong Ma

Próximo Filme: "5bia" aka "Phobia 2" (ห้าแพร่ง ou Ha Phrang, 2009)

domingo, 22 de maio de 2011

"Three...Extremes - Curta #1: Dumplings" (Saam Gaang Yi, 2004)

"Dumplings" é a contribuição chinesa para a trilogia de curtas de horror "Three...Extremes" sequela de "Three" (Saam Gaang, 2002). Esta experiência do horror asiático junta os realizadores Fruit Chan, (Hong Kong - China),  Park Chan-Wook (Coreia do Sul) e Takashi Miike (Japão) que apresentam entre os três, obras como "Don't Look Up" (2009), "Thirst" (2009) e "13 Assassins" (2010). Uma colaboração de sonho portanto. Ou se preferirem, um grande pesadelo assustador.


Bem, que podiam tirar do título "Extremes", que com estes realizadores acaba por se tornar redundante. O primeiro filme da trilogia é "Dumplings" que não deixa margem para dúvidas. Marca desde logo um tom brutal e divide a audiência. Este é um filme que se ama ou se odeia, de extremos, a bem dizer. É provocador, obsceno, repugnante, perturbador, desconcertante, chocante e outros tantos adjectivos na mesma linha. A premissa é simples: Li (Miriam Yeung Chin Wah), uma senhora de meia idade visita a "Tia" Mei (Bai Ling) para que esta lhe faça um dos seus famosos "dumplings", uns bolinhos de massa, que supostamente têm propriedades rejuvenescedoras. Estes bolinhos são muito famosos na China sendo confeccionados com carne, peixe, legumes, o que quiserem, a massa é a base. Inicialmente, Mei pergunta a Li quantos anos lhe dá, ao que esta responde 30. É muito mais velha e como ela diz e bem, ela é a melhor publicidade dela própria. Mei, mete-se na cozinha e começa a fazer os seus bolinhos mágicos: tritura, pica, amassa, coze como uma verdadeira fada do lar. Claro que a higiene é muito má, mas é cozinha caseira. Os produtos de fumeiro e os queijos não são feitos nos ambientes mais assépticos, no entanto, são bons que se farta não são? O pior é mesmo o ingrediente secreto de Mei (que não vou revelar) embora, ela não faça questão de o esconder, até faz gala disso. Afinal, não se trata aquilo de atingir a suprema beleza? Não é apenas uma transacção comercial? À mera menção do ingrediente alguns hão-de estremecer na cadeira, outros mesmo hão-de parar o visionamento do filme. Muitos, não olharão para bolinhos de massa cujo conteúdo desconhecem com os mesmos olhos... Mas o que me impressiona mesmo é a reacção, ou melhor ausência de reacção de Li, perante os bolinhos de cor rosa bebé. A sua indiferença é perturbadora. Nem mesmo o nojo de meter os bolinhos na boca sabendo aquilo que são a detém. Vêmo-la mastigar, ouvimos o conteúdo a estalar nos seus dentes e a ser sorvido... Criaturinha amoral. Faz pensar sobre a sanidade mental da personagem. A beleza vale perder a alma? E quando voltamos a vê-la, Li parece resplandecente, sem qualquer exagero de maquilhagem, apenas uma abordagem brilhante da câmara e a capacidade de representação de Chin Wah. Quanto à "Tia" Mei é refrescante, parece indiferente ao problema moral que os seus bolinhos acarretam e vai angariar os seus ingredientes como uma comum dona de casa vai à mercearia. O horror de Chan funciona muito melhor pela via da psique do que pela demonstração. Tem algumas imagens terríveis mas o que a audiência adivinha e antevê, por si só, é bem capaz de mexer com os seus sentimentos e estômagos. Ele semeia e instala desde logo uma sensação de desconforto para as curtas seguintes. E por isso, vale ouro. Quatro estrelas.



Realizador: Fruit Chan
Argumento: Lilian Lee (Pik Wah Li)
Elenco:
Bai Ling como Mei
Miriam Yeung Chin Wah como Senhora Li
Tony Leung Ka Fai como Senhor Li

Próximo Filme: "Noroi -The Curse" (Noroi, 2005)

terça-feira, 12 de abril de 2011

"The Child's Eye" (Tungngaan, 2010)

Ah, os irmãos Pang. Por onde começar? Esta dupla de Hong Kong é a responsável pelo sucesso de "The Eye" (Gin Gwai, 2002) e consequente franchise "The Eye 2" (Gin Gwai 2, 2004) , "The Eye 10 (Gin Gwai 10, 2005)" e o mais recente: "The Child's Eye 3D" (Tungngaan, 2010). Uma série de filmes sofríveis a maus, excepto o original, esse é bom e apresentou, na altura, uns sustos originais. Hollywood até fez um remake do filme com Jessica Alba no papel principal. Suspiro. "The Child's Eye", deveria ser uma brincadeira de criança para quem já fez três filmes da série, mas em vez de aprimorarem, os irmãos Pang parecem afundar-se cada vez mais no absurdo. A acção passa-se na Tailândia, (um olhar rápido pela filmografia dos realizadores confirmará a familiaridade com o terreno), numa altura de plena convulsão social e política. Desta vez, tentaram imprimir alguma seriedade ao filme, com o cenário bem real das manifestações anti-regime que a Tailândia atravessa. No entanto, ficam-se por aí. Esta nota introdutória apenas contribui para explicar a permanência dos heróis num hotel misterioso até poderem viajar em segurança.
Os personagens são três casais, oriundos de Hong Kong que vieram passar umas férias à Tailândia e quando tentam regressar encontram o aeroporto fechado. Como estão demasiado longe para regressar ao hotel onde ficaram, inicialmente, o creepy hotel é a the next best thing.  A nossa heroína Rainie (Rainie Yang) está desavinda com o namorado Lok (Shawn Yue), não se percebe bem porquê mas ele mostra uma personalidade tão desagradável, que a relação terminar, não seria a pior coisa que lhes poderia acontecer. Entretanto, ela tem algo para lhe contar... Até que ele e os outros dois rapazes desaparecem. Cabe-lhe a ela e às suas duas BFFs (best friends forever) encontrarem-nos e escaparem à ameaça que paira sobre os ocupantes do hotel. Ora, se o início não é auspicioso a qualidade vai sempre a descer, produzindo-se momentos de comédia num filme que se pretende de horror.

Para começar as duas amigas de Rainie passam o filme todo nuns calções perigosamente curtos. Deve ser para nos distrair da representação. Embora, a Ling (Elanne Kwong), pareça, a espaços, ter mais potencial como actriz do que Rainie. A culpa é dos calções pah! Quanto a Rainie, passa o filme a fazer uns olhares lânguidos para a câmara por entre a sua franja sexy. Dos rapazes, só o namorado de Rainie é que tem direito a uma personalidade, que como já se viu não é agradável. Os outros dois só servem para momentos de comédia e um ou outro susto. Não lhes queria chamar peças de mobiliário mas têm a profundidade artística de um móvel. Yep, as personagens estão assim tão pouco desenvolvidas. Depois, a narrativa é muito confusa, ficando, a sensação de que há ali muitos pormenores, muitos quase sub-enredos que poderiam ter sido cortados pela raíz. Um ghost movie puro seria sempre mais do mesmo mas ao menos compreenderiamos para onde é que os irmãos Pang pretendem ir. É que temos um cão (espírita?!), três orfãos, um dono de hotel comprometidissimo com o que se está a passar, uma suposta mulher que foi assassinada, um estranho ser que passeia nos corredores, possessões, mitos urbanos sobre mulheres grávidas numa mini-alusão ao "The Eye 2"... Enfim, são demasiadas micro-histórias, que podem não ser o que parecem e mesmo que se desvendem por completo, para que é que precisávamos de saber aquilo? Por exemplo, quando se vêem os três orfãos sentimos que a história vai tomar uma dada direcção que acaba por não se concretizar. É assim até meio do filme: irmãos Pang, já se decidiam!
O filme também é responsável pelas piores cenas de tensão que tenho visto. Tudo em nome do 3D. Não tenho dúvidas que a história foi sacrificada para provocar uns bons momentos de: "agora vês-me, agora já não, agora apareço de repente e apanhas um cagaço que até cais da cadeira". A cena de Rainie com o cão é estúpida, ponto. Uma estranha criatura com o olfacto muito desenvolvido, não consegue encontrar Rainie e um cão que tremem que nem varas verdes ali ao lado dela. Noutra cena, Rainie, num "confronto do outro mundo" faz olhinhos melados à criatura que lhe quer fazer mal, derretendo-lhe o coração... Verosímil não é? Acabei por forçar-me a ver o filme até ao fim apenas para fazer esta apreciação. O próprio final, também é fraquíssimo, se bem que se não prestarem atenção a alguns detalhes não irão entender a última cena. A imagem também não é nada que justifique o 3D. Pronto, eu disse-o. A grande maioria dos filmes não justificam a utilização da imagem a três dimensões. Contudo, o filme é um sucesso de bilheteira, o que decerto não irá limitar os irmãos Pang, na sua exploração do "horror" em 3D. Resta-nos esperar, por dó de nós, que eles vejam o "The Eye" em repeat e vejam onde é que erraram, vezes sem conta, nos filmes seguintes. Meia estrela, sem mais comentários.
Próximo Filme: "I Saw The Devil" (Akmareul Boatda, 2010)

sábado, 2 de abril de 2011

"Dream Home" (Wai dor lei ah yut ho, 2010)


Dream Home é um filme que joga com o desejo que, mais tarde ou mais cedo, todos sentem de possuir casa própria e o explora obsessivamente. O filme, originário de Hong Kong, é realizado por Pang Ho-cheung que também co-escreveu o guião. A actriz principal é nada mais nada menos que Josie Ho, filha do magnata dos casinos Stanley Ho, que produziu o filme através da sua própria companhia, a 852 Films.
É dos poucos filmes asiáticos em que consigo antever uma versão hollywoodesca. Muitos dos filmes Made in U.S.A. pecam por pegar em conceitos e lendas urbanas com os quais os ocidentais não estão familiarizados. No entanto, o filme insere-se no contexto da crise imobiliária, o que me parece, perfeitamente, adequado à realidade norte-americana.
A premissa é muito simples: a jovem Cheng Lai-sheung (Josie Ho) sempre quis ter um apartamento com vista para o mar e tenta por todos os meios conseguir a casa que sempre desejou. O filme apresenta uma série de contratempos e de obstáculos que teimam em atravessar-se entre ela e o seu destino testando a sua paciência até ao ponto de ruptura. Numa cidade poluida, feia e furiosa o apartamento à beira do rio, o nº1 em Victoria parece um corte com toda a podridão que a rodeia e a salvação que ela almeja.
Embora, se descubra bem cedo na história, o plano tenebroso traçado por Cheng para atingir o seu derradeiro objectivo, o guião insiste em remeter-nos para épocas distantes, em que Cheng era apenas uma criança inocente cheia de sonhos e de como o mundo pode ser cruel para quem não possui meios financeiros. A esse propósito vão surgindo diversos papões: mafiosos que atiram cobras para casa das pessoas para as expulsar de casa e as companhias de seguros, com as suas cláusulas mais do que dúbias.
Mas todas as personagens são secundaríssimas, e não são mais do que peões num jogo, que procuram impedir, mais do que ajudar Cheng a atingir um fim. O guião não deixa grande espaço para empatizarmos com elas tirando talvez a mulher grávida devido à sua condição e mesmo assim, se esquecessemos esta questão não gostariamos muito dela. Talvez seja um meio que os cineastas encontraram de nos induzir a principiarmos algum tipo de empatia com Cheng.
Para quem procura gore, há mais do que suficiente. Tem uma das mortes mais originais que tenho visto nos últimos tempos, estrado da cama anyone? e as próprias mortes, que as há e bastantes, servem de pretexto aos poucos momentos de comédia existentes.

Chegado o fim do filme não simpatizamos com Cheng, a mulher é amoral, mas percebemos as suas motivações. O guião é competente e original no modo como aborda a crise imobiliária e a extensão em que a personagem principal se move para conseguir comprar o apartamento. O filme foi relativamente bem acolhido pela crítica e eu admito que se fosse ontem, talvez mesmo há dois dias atrás, lhe atribuiria quatro estrelas. Há medida que os dias passam, "Dream Home" perde a qualidade inicial que lhe apreciei. Os filmes excelentes não diminuem de qualidade, os bons sim. Por isso, hoje só leva 3 estrelas e meia.

Próximo: "Shutter", 2004
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