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quinta-feira, 18 de junho de 2020

“Ramen Shop” (Lamen teh, 2018)


Cidade de Takasaki. Um restaurante familiar de ramen. Masato (Takumi Saito) lamenta-se por o pai distante Kazuo (Tsuyoshi Ihara), dedicar-se mais à comida que a ele. Quem lhe dera ser uma taça de ramen. Antes de termos compreendido a complexidade da relação entre pai e filho, Kazuo é encontrado morto. Masato aproveita para abrir uma velha mala de viagem que desbrava caminho ao redescobrir do passado: fotografias da infância e um velho diário da sua mãe singapurense escrito em Mandarim. A correspondência com Miki (Seiko Matsuda), uma blogger de comida japonesa sediada na cidade-estado, precipita o resto. Em menos de nada, Masato está no país que o viu nascer, mas que ficou no passado, com a morte da sua mãe. Lá, descobre um tio com um amor pela comida tão profundo quanto ele e a dor de uma desavença antiga com uma avó que não conhecia.

“Ramen Shop” é uma carta de amor à família e à multiculturalidade. Acompanhamos Masato, numa senda de descoberta de si próprio e dos seus ascendentes, que trilha os caminhos que eles percorreram e experimenta as receitas que ele, como chef, desconhece, apesar da sua dupla etnicidade. Nuns breves 90 minutos aprendemos receitas da comida japonesa e de Singapura, e ainda um pouco da história da cidade-estado, incluindo o doloroso passado de ocupação japonesa. É um mix de “Who do you think who you are?” com um qualquer programa genérico de comida local, em que pessoas e locais se confundem com as receitas que nos apresentam, de modo inofensivo. Mais depressa um programa de comida de um food channel que um programa de conversa desgarrada de um Anthony Bourdain (RIP) e, admita-se, muito menos interessante. As iguarias deliciosas preparadas por Masato e companhia são merecedoras da hashtag #foodporn num qualquer instagram e a passagem pelas paisagens naturais, cidades e monumentos – por vezes senti-me dentro de um documentário –, no Japão e em Singapura são interessantes e mais cativantes que o drama familiar no coração de “Ramen Shop”, mas ilustram bem o fervilhão de ideias, cores e sabores que constituem a identidade do jovem chef.

O título original “Lamen Teh”, que se perde na tradução, é precisamente a fusão do ramen, um prato japonês de origem chinesa, com o prato de Singapura “Bak kut teh” com o qual Masato fica obcecado. De alguma forma, o recriar perfeito deste prato transporta Masato para momentos mais felizes, tempos em que cozinhava com a mãe e o seu pai tinha ainda a capacidade de se conectar com outros seres humanos.
Quis o destino que num destes dias, em que o movimento “Black Lives Matter” faz soar um grito que é ouvido em quase todo o mundo com efeitos que só veremos daqui a uns meses, quiçá anos, – não tenho a ilusão de pensar que 500 anos de opressão possam ser resolvidos num momento de claridade –, visse um filme que celebra as diferenças. “Ramen Shop” é triste mas ótimista, um feel good movie, se quiserem. Pretende deixar aquele sentimento quentinho e felpudo nos corações de quem o vê, designadamente, de apreciar o que temos e a nossa família como se os problemas familiares pudessem ser resolvidos no tempo de preparação de uma receita tradicional. Os diálogos e os flashbacks, que nem sempre são óbvios, inclinam-se de modo vertiginoso para o território da novela mas salvam-se pela característica de quase-documentário que a película tem. A cada momento que vamos apontar uma crítica… “olha aquela paisagem bonita!”, “Aquele ramen está-me a abrir o apetite!”. Truques de prestigidação preparados pela mão hábil do realizador Eric Khoo, natural de Singapura e que sabe, portanto, onde e quando desviar o olhar dos aspectos menos bem conseguidos de “Ramen Shop”. Até ia dizer que não é memorável mas, raios, se não me apetece agora comer um ramen! Duas estrelas e meia.

A Films4You anunciou a estreia de “Ramen Shop” nos cinemas nacionais a 25 de junho. Aproveitem para desconfinar a vista e, se der, por que não, o palato.

Realização: Eric Khoo
Argumento: Fong Cheng Tan e Kim Hoh Wong
Takumi Saito como Masato
Jeanette Aw como Avó
Mark Lee como Wee
Beatrice Chien como Mei Lian
Tsuyoshi Ihara como Kazuo
Tetsuya Bessho como Akio
Seiko Matsuda como Miki

domingo, 25 de janeiro de 2015

"Macabre" (Rumah Darah, 2009)

Grupo de amigos dá uma boleia a uma mocinha. O que poderia correr mal?

Estreado em Portugal por ocasião do MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa em 2009, que se encontrava ainda apenas na 3.ª Edição, “Macabre” apresentou-se como uma das melhores obras saídas do prolífico cinema indonésio nesse ano. 

Em “Macabre” um grupo de amigos segue de carro para Jacarta para se despedir de dois deles: o casal Adjie (Ario Bayu) e Astrid (Sigi Wimala) grávida de 8 meses, que vão começar um novo projecto de vida na Austrália. A meio da viagem efectuam um desvio para convencer Ladya (Julie Estelle) a irmã de Adjie a colocar de parte as suas divergências antes de ele partir em definitivo para um novo país. O plano sofre um revés quando se deparam com Maya (Imelda Therrine) que lhes pede ajuda. Ela diz ter sido roubada e não tem boleia para casa. À chuva e na noite escura, o grupo oferece-se para a levar a casa. Agradecendo a generosidade, a jovem convida-os a tomar uma refeição com a família dela e refugiar-se do mau tempo. Apesar da relutância de alguns, eles acabam por aceitar e entrar. Lá dentro esperam-nos Dara (Shareefa Daanish) a mãe de Maya que parece não ter um dia mais do que 30 anos e os dois irmãos desta. Existe algo de desconcertante naquela família, algo que descobrirão muito em breve. É que a família de Maya gostou tanto deles, em particular da expectante Astrid que não tencionam deixá-los sair de casa… Nunca. Abriu a época de caça e os hóspedes são as presas!

Se “Macabre” parece a repetição de tantos outros slashers é porque não existe qualquer elemento surpresa. Os personagens são conhecidos na maior parte por constituírem os já habituais estereótipos do género como a sobrevivente final, o bom rapaz e o pervertido. Os vilões são maquiavélicos, aterrorizantes e são tão maus quanto seria de esperar de uma família de canibais! Eles gizam um plano para atrair as suas vítimas e quando a mãe Dara, qual chefe de um gangue organizado dá ordem para perseguir, atacar e dominar, vale tudo. A panóplia de armas utilizadas inclui armas como espadas samurai, serras eléctricas (uma homenagem a “The Texas Chainsaw Massacre” de 1974), jarros e tudo o mais que esteja espalhado pela casa que possa ser utilizado como arma mortal. E são ultra-resistentes. Para os eliminar é preciso nada menos que esfaquear, esquartejar, triturar, queimar, enforcar…

O cinema há muito que demonstrou que uma mulher grávida não está livre de perigo, vejam por exemplo “Inside” (2007) ou “Dream Home” (2010) e a pobre Astrid é prova disso mesmo com uma das cenas mais demoradas a deter-se na sua luta para defender a criança por nascer. Já Ladya é uma versão anterior da desenrascada Erin de “You’re Next” (2011), menos eficaz e mais dependente da sorte e dos seus amigos. Tanto ela como Arifin Putra que interpreta o psicopata Adam foram recentemente catapultados para a fama em “The Raid 2: Berandal” (2014) mas é Shareefa Daanish que rouba todas as atenções. Alguns poderão considerar a sua representação exagerada mas não irão ficar indiferentes.
Com olhos grandes, esbugalhados que sugerem a possibilidade de esta penetrar na alma das suas vítimas e extrair os pensamentos e desejos mais profundos da sua vítima e a pronunciação lenta, ponderada das palavras, Dara é inquietante. Aliás, cada aspecto desta personagem soa a uma nota dissonante logo a partir do momento em que a patriarca parece partilhar a idade da prole; vestimenta, cabelo e trejeitos de quem parece anunciar um estilo de vida antiquado; um olhar que não pestaneja e toda uma frieza e atitudes gélidas que sendo suspeitas, fariam visitantes “normais” atalhar caminho assim que tivessem oportunidade. Quando é apresentada a história da família, todos esses elementos desconcertantes encaixam no puzzle, incluindo as mais diversas peças e mobiliário espalhados pela casa.
“Macabre” é um autêntico banho de sangue. Imagino que se aquela casa tivesse sido palco de um massacre real, as pessoas que fazem a limpeza de tais cenários teriam muito trabalho pela frente. “Macabre” vem da Indonésia para provar que a tradição do slasher, ainda que possamos enumerar os lugares-comuns, continua a funcionar. Três estrelas.

Realização: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Argumento: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Shareefa Daanish como Dara
Julie Estelle como Ladya
Ario Bayu como Adjie
Sigi Wimala como Astrid
Arifin Putra como Adam
Daniel Mananta como Jimmy
Dendy Subangil como Eko
Imelda Therinne como Maya
Mike Muliadro como Alam
Ruly Lubis como Arman
Felicia A. Sumarauw como Bebé
Risdo Alaro Martondang como Sersan Syarief
Cansirano como Sony Samba
Roni Kribs como Petrus

Próximo Filme: "Blood Letter" (Thien Menh Anh Hung, 2012)

domingo, 27 de abril de 2014

"The Ghosts must be crazy", (Gui ye xiao 2011)

Desliguem os telemóveis durante o visionamento por favor

O híbrido de terror e comédia chegou para ficar. A horrédia (por que é a tradução de um neologismo nunca soa tão bem como na língua original?), “The Ghosts must be Crazy” segue-se à não menos louca antologia “Where got Ghost?” (2009) e encontra-se algures entre a comédia negra chico-esperta, para exemplos vide “The Cabin in the Woods” (2012) e a gargalhada de criar dores de barriga de “Tucker & Dale vs. Evil” (2010), mas mais perto desta última.


“The Ghosts must be Crazy” é um jogo de atenção pois quase todos os personagens de “Where got Ghost” regressam com variações das estórias que interpretaram nesta “prequela”, não necessariamente por ordem cronológica ou com alguma conexão lógica sequer. A antologia anterior reunia três segmentos: “Roadside got Ghost”, “Forest got Ghost” e “House got Ghost”, sendo que para “The Ghosts must be Crazy” recuperou estas duas últimas (e muito bem que eram as melhores) com um twist: desta feita Jack Neo limitou-se ao papel de argumentista-produtor e Mark Lee estreia-se como actor e realizador em simultâneo.

As curtas:
“The Day Off” – Dois reservistas preguiçosos estão empenhados em escapar ao penoso exercício anual e tentam convencer o novo Comandante a conceder-lhes baixa médica. Entretanto, um pobre coitado que estava mesmo doente e necessitava de ir para o hospital vê o pedido de internamento recusado pelo Comandante que acredita que todos o querem enganar para escapar ao dever. Quando esta decepção fracassa recorrem a técnicas de guerrilha para sabotar o treino. Mesmo que consigam enganar o seu comandante, as forças do sobrenatural nunca tiram folga…

“The Ghost Bride” – Um homem deseja atrair boa fortuna e decide tentar alcançar o seu objectivo através do jogo, acabando por fazer um pacto com o sobrenatural. Ele fica rico mas despreocupado e esquece-se de cumprir a sua parte do acordo. Os fantasmas não dormem e aquilo que deram podem tão facilmente retirar, isto, se ele fizer a única coisa que lhe pedem: casar com uma noiva fantasmas…

Sobre os filmes:
Desta feita prevaleceu o bom senso de “menos é mais”. Com menos estórias, com certeza as duas narrativas que escaparam ao corte serão mais trabalhadas e cuidadas certo? A resposta é negativa. “The Day Off” recupera a excelente química da dupla de actores John Cheng e Wang Lei que recuperam os papéis de Ah Nan e Ah Lei respectivamente, dois reservistas que não foram fadados para a tropa e utilizam todos os artifícios possíveis para escapar às tarefas duras que lhe são exigidas. Onde as interacções dos actores soavam antes pouco naturais, constituem agora os pontos altos da narrativa, apenas ultrapassados pelas tiradas brilhantes de Encik Muthu (David Bala). As aparições desta personagem nos vários filmes de Jack Neo são tão acarinhadas que Muthu até já virou meme! “I die! You die! Everybody dies!”

“The Ghost Bride” é apenas mais uma variação de crime e castigo. Sejamos sinceros. Quem é que pensava que recorria a métodos muito questionáveis para enriquecer, não fazia o que lhe competia para honrar a sua parte do acordo e não esperava algum tipo de retribuição? É preciso ser um bocadinho condescendente para não pensar que a audiência iria ter o mesmo raciocínio. Mas isso nem é o pior porque, ultrapassando a fraca estória, os efeitos gerados por computador são muito maus, aliás, demasiado maus para a quantidade de vezes que surgem no ecrã. Uma pessoa questiona-se se todo aquele (mau) aparato era necessário para contar uma história tão simples. Além disso, podia sempre alegar que Mark Lee dá uma mulher muito feia, mas isso não basta para ignorar o facto de que a “The Ghosts must be crazy” nada falta de más interpretações (sobretudo de personagens secundaríssimas), argumentos queijo-suíço, edição paupérrima e lições de moral – “Se escolheres tomar a mão do demónio, um grande preço terás de pagar”. Por isso é de estranhar que "The Ghosts must be crazy" seja tão surpreendente, um pequeno pecado mesmo, a contra-gosto que não dá para negar. Duas estrelas.


O melhor:
- Actores principais (com notáveis excepções)
- A primeira curta-metragem
- David Bala como Muthu
- O cabelo de Mark Lee

O pior:
- Argumento
- Os efeitos são “especiais” e não digo isso num bom sentido.

“The Day Off”
Realizador: Boris Boo
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
John Cheng como Ah Nan
Wang Lei como Ah Lei
Chua en Lai como Comandante
David Bala como Encki Muthu

“The Ghost Bride”
Realizador: Mark Lee
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
Henry Thia como Ah Hui
Mark Lee como Ah Hai / Chen Xiaojuan
Tay Yin Yin como ex-namorada de Hui

Próximo Filme: "Tales from the Dark - Part I"


domingo, 26 de janeiro de 2014

"23:59", 2011


Em “23:59”, um grupo de recrutas atravessa o “Treino Básico Militar”, obrigatório para qualquer jovem adulto do sexo masculino com 18 primaveras já contadas, residente em Singapura. É brutal, é exigente, é aborrecido e… já disse que era obrigatório? Para se entreter, eles decidem, numa noite em que pouco há para fazer (digo eu, que estariam tão extenuados que só quereriam dormir mas enfim), contar estórias de terror. É aquela cena dos homens de comparar o tamanho do pénis e coisas que tais, ver quem é que consegue contar a estória mais aterradora sem demonstrar receio. Um deles prossegue a relatar uma estória verídica, na qual uma mulher grávida, terá cometido suicídio uns anos antes na ilha onde eles estão a realizar a recruta e terá regressado como um “kuntilanak” (Vampiro), cometendo crueldades às 23:59. Tan (Tedd Chan) revela-se impressionável e infelizmente um medricas no local errado. Os seus sonhos começam a ser invadidos por uma mulher que, julga ele, é a mesma da lenda e o virá reclamar. Além de fraco de espírito é o que mais sofre com a brutal disciplina física pelo que se torna o alvo preferido do rufia de serviço. Tal é a lei da selva, onde quer que se vá, há sempre um estupor decido a rebaixar até quebrar quem percepciona como mais frágil. Ele tem um amigo Jeremy (Henley Hii) que o protege quando pode mas até ele é incapaz de actuar contra forças sobrenaturais.

A noite e a floresta devem ser uma das combinações naturalmente mais indicadas para a concretização de filmes de terror desde que as pessoas são pessoas e são aconselhadas por outras a evitar vaguear por esses locais. Mas se o cenário oferece ínfimas oportunidades e alguns momentos próximos de temor, não se pode dizer que se encontre o mesmo grau de credibilidade nos seus personagens. Tudo é válido, desde um capitão que declara perante uma morte no mínimo suspeita, tratar-se de um acidente, a um sargento bonzinho e supersticioso, passando por soldados que passam aparentemente mais tempo em descanso e convívio do que a treinar. Que um Capitão não queira lidar com esses problemas, não sob o seu comando aceita-se. Que incorra no risco de a sua autoridade ser colocada em causa e alvo de uma investigação já é esticar a corda. Que um sargento não seja como o R. Lee Ermey de “Full Metal Jacket” (1987) é um alívio, mas daí a acreditar no sobrenatural e partilhar essa crença com superiores e os homens que tem a cargo na véspera da marcha mais importante que a companhia terá de realizar…
A indisciplina é manifesta e generalizada. As entradas e saídas da base sem qualquer controlo então são uma verdadeira surpresa. A maioria dos homens entende o treino como uma obrigação da qual se querem libertar o mais rápido possível e negligenciam as regras básicas que lhes foram ensinadas para a sua própria sobrevivência. A marcha a que se vai aludindo em pouco mais de um terço de filme é o momento mais infeliz para qualquer aprendiz de soldado. Entre a distracção, a preguiça e a indiferença total, cometem toda uma série de erros que conduzem à morte de um. Como retrato do exército local é assim ligeiramente humilhante. Nada de grave, portanto. E a cantina do exército é capaz de ter uma das empregadas mais giras de sempre (Stella Chung). Não sei o que é mais improvável: uma rapariga giríssima que podia ser uma modelo-actriz a trabalhar numa cantina ou, que uma mocinha trabalhe numa cantina do exército cheia de homens que não vêem uma mulher há eras. De resto, a revelação nem sequer é surpreendente. Uma pista: mete mulher. “23:59” está repleto de pormenores do género que são difíceis de engolir sobretudo quando tudo está compassado em 78 minutos de filme! Se há película que necessitava de mais tempo para que os personagens se tornassem mais reais e a sua angústia mais envolvente é este. Uma estrela e meia.


Realização: Gilbert Chan
Argumento: Gilbert Chan
Tenaly Hii como Jeremy
Lawrence Koh como Dragão
Tommy Kuan como Lim
Josh Lai como Chester
Mark Lee como Sargento Kuah
Stella Chung como Shirley
Susan Leong como Yi Gu
Benjamin Lim como Capitão Hong

Próximo Filme: "Heaven and Hell" (Wong Jorn Pid, 2012)

domingo, 6 de outubro de 2013

"Ghost Child" (Toyol, 2013)


“Ghost Child” é um bom exemplo de como as fronteiras culturais fazem toda a diferença. Esta película originária de Singapura tem como título original “Toyol”, uma palavra nascida de crenças pagãs que tem um significado muito específico e conhecido em países como Malásia, Indonésia ou Singapura. E em países como a Tailândia, Filipinas, Camboja ou China, apenas possui outro nome. Logo, estes povos ao acorrerem às salas de cinema para assistir a “Ghost Child” sabem o que vão ver. Para os restantes, a ignorância não tem de ser um mal maior pois sempre permite que exista alguma aura de mistério no visionamento do filme. O problema é que se não for o nome do filme a revelar uma narrativa pré-inexistente, a audiência fica totalmente às escuras pois, “Ghost Child” não oferece pistas nenhumas para o que se está a passar no ecrã. Sem prestar grande atenção ao título (muitas vezes a tradução para o inglês não é literal e até mesmo enganadora), a muito custo entendi a acção. Apenas quando fui pesquisar informação adicional sobre o filme e regressei a algumas cenas é que o significado se concretizou na plenitude…
“Toyol” é o espírito de uma criança que é invocado através de magia negra e do recurso a um feto humano. O Toyol é utilizado por pessoas pouco escrupulosas para roubar dinheiro e jóias a outrem ou ter boa fortuna no geral. O Toyol é como uma verdadeira criança, devendo ser alimentado, mimado e ver todas as exigências satisfeitas, que podem incluir sacrifícios. Quando ameaçado, ele torna-se vingativo, podendo atacar até a família do seu senhor. Bem vistas as coisas, não parece que a recompensa de ter um Toyol seja grande mas enfim…
Quando o viúvo Choon (Chen Hanwei) salva Na (Carmen Soo) de uns bandidos que a perseguiam parece que encontrou a pessoa certa para voltar a assentar. Na é misteriosa e de origem indonésia o que não agrada à mãe de Choon e a Kim (Jayley Woo), a filha adolescente. Nunca ninguém gosta de ver a senhora da casa, pelo menos na psique delas, substituída. Sobretudo, quando a decisão é extemporânea e elas nem sequer são questionadas se, se sentem confortáveis com o facto de uma estranha, por muito bonita e simpática que possa ser, ir morar com elas. Além disso, existe ainda um grande preconceito em torno das empregadas domésticas de países mais pobres que acabam por se casar com os antigos patrões. Seja por pertencer a povos inferiores, para muitos é essa a ideia que grassa, seja por destruir casamentos existentes, o que infelizmente também sucede. Por isso é natural que quando os colegas de Kim descobrem que a sua madrasta tenha ascendência indonésia, esta se torne o alvo de piadas cruéis. Kim e a avó não ajudam à sua defesa pois a sua recepção fria a Na apenas demonstra como elas são permeáveis ao preconceito e ao desejo egoísta de que Choon permaneça solteiro. Apenas quando as atividades de Na começam a aparentar grande suspeição é que o seu asco se revela justificado. Acções que não são mais do que pequenos nadas, pistas que apontam para ela somente por exclusão de partes e, admita-se, desejo de que Na não seja uma boa pessoa, justificando assim a sua renitência em aceitá-la. A associação ao Toyol é que é fantasista, no mínimo. Mesmo conhecendo o folclore local, uma pessoa terá de ser bastante supersticiosa para chegar a esse ponto.

A personagem de Na é de longe a mais injustiçada. A despeito de uma breve descrição do seu passado, a câmara quase não se interessa por ela. Como se ela não fosse o elemento que provoca o conflicto familiar. Sofre pois de discriminação dupla: é a estranha que veio introduzir-se numa família “feliz”, provocando, a ruptura da sua paz podre mas não tem direito a tempo de antena suficiente. Choon, surge como uma personagem manipulável, sem qualquer controlo sobre o seu destino, comete o pecado de apaixonar-se depois de perder a primeira mulher mas, depois, não é capaz de gerir as pessoas que tem em casa, falhando na defesa da sua opção de vida.
A narrativa de “Ghost Child” é uma teia de sustos desconexos, ideias subdesenvolvidas e associações fantasistas mais rápidas que a velocidade warp. A concretizar-se a premissa da existência de um Toyol, “Ghost Child” não oferece nada de novo pois o tema já foi abordado noutros filmes da região a ser apenas um engodo para o mistério sobrenatural, restam pois as personagens que tendo potencial, são tão pouco exploradas que tão pouco geram afeição. Duas estrelas.

Realização: Gilbert Chan
Argumento: Gilbert Chan e Tan Fong Cheng
Chen Hanwei como Choon
Carmen Soo como Na
Jayley Woo como Kim
Cecilia Heng como mãe de Choon 
Vanessa Lee como Tiffany

Próximo Filme: "My Wife is a Gangster" (Jopog Manura, 2001)

domingo, 3 de junho de 2012

"Haunted Changi", 2010



Nos anos 30 foi construído um grande edifício em Changi, na Singapura. Na altura, Singapura estava tomada pelos britânicos que consideraram a colina o local ideal para construir um comando militar central. Com a agressão Japonesa, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, o quartel foi desmantelado e acabou por se tornar um hospital de campanha, com muitos militares e civis a serem lá tratados. Diz que não foi só isso que por lá se passou e que muitas pessoas acabaram por ser torturadas e até alvo de experimentação por parte do povo invasor. Após a saída do exército japonês, Changi voltou a tornar-se um hospital e depois quartel militar após o que foi finalmente fechado e deixado ao abandono.
Ultimamente, o hospital no topo da colina, qual filme ou banda-desenhada, recorde-se por exemplo o asilo de Arkham no universo do Batman, tem sido palco de vandalismo por parte de arruaceiros e mendigos, provocando uma maior degradação no já envelhecido edifício.
Com uma estória tão rica e lendas sobre bunkers subterrâneos e câmaras de tortura escondidas, que os locais sabem na ponta da língua como se de uma qualquer coscuvilhice se tratasse Changi é o perfeito cenário para um filme de terror.

Uma equipa de jovem cineastas decide realizar um documentário sobre o Hospital pesquisando bibliografia sobre o tema, entrevistando os locais e… visitando as instalações. Eis, onde a ideia corre mal, a “equipa de filmagens vai filmar edifício assombrado e nunca mais retorna. Por tremenda sorte, o equipamento foi encontrado e, o que estamos a ver são as filmagens do que se passou por lá”. Recordam-se disto de um lado qualquer não é? Refresco-vos a memória: “Blair Witch Project”, “Grave Encounters”, “Haunted House Project”… Portanto já estão a ver onde isto vai dar. O problema é que “Haunted Changi”, ao contrário do desastre “Haunted House Project”, tinha potencial. Os actores são naturais e não houve necessidade de inventar estórias visto que estas são parte integrante do imaginário local. É infinitamente mais difícil tentar convencer um público de estórias de assombro quando não há dados factuais. No caso de Changi, não só as estórias existem, como o medo colectivo, transmitido entre gerações perpetuou a noção deste lugar como malévolo. A completar a moldura está o próprio hospital, metade destruído, metade vandalizado, que não convida à visita dos mais sensíveis.
Ora, Changi podia ter dado o documentário perfeito. Infelizmente, Andew Lau e companhia decidiram que ainda fazia falta mais um falso documentário, na paisagem dos filmes de assombrações.  E de facto, “Haunted Changi” começa numa nota intrigante, com a narração do historial do lugar e das entrevistas aos locais, sempre intercalados com fotografias e filmagens do lugar. É, curiosamente, no exterior do cenário dignos dos sonhos molhados dos cineastas de terror, que ocorrem os melhores momentos do filme. Porque, quando eles entram no hospital, não há dados novos que possam recolher verdadeiramente significativos. Só paredes e soalhos sujos e tectos caídos. As paredes não contam uma história melhor que a de arquivos ou da sabedoria popular e ninguém vai afirmar que, por muitos anos que passaram e inúmeros ocupantes, ainda há segredos por desvendar. Como tal, surge o argumento do fantasma, mais fraco, a cada novo filme. Posto isto, noventa por cento é paisagem e dez por cento, explora os nossos medos mais profundos. Medo do escuro? Labirintos intermináveis? Impressão de outra presença na mesma sala? Medo de ver surgir alguma coisa inumana a cada nova esquina que se dobra? Farid, Sheena e Audi são, a maior parte do tempo credíveis, mas não podemos ansiar pelo que não existe. Retirando duas ou três cenas assustadas nada acontece de importante para nos importarmos. Quanto a Andrew ele devia ter um pouco mais de noção. Sendo realizador e exigindo destes uma performance que lhes é por vezes, impossível, comporta-se com todo o exagero teatral que se pede que um actor de cinema reprima. A sua actuação é desfasada, desconcertante e alucinante. Infelizmente, esta é depois acentuada pelo péssimo trabalho de maquilhagem. Dificilmente teriam feito pior e atendendo ao baixo orçamento, é embaraçoso descobrir que a edição e fotografia, duas áreas-chave em qualquer obra são superiores a uma caracterização simples dos actores. Se retirarmos um certo estado melancólico acentuado pela fotografia, à qual a movimentação do sol não é alheia e, que torna o documentário “real”, Changi sofre com inúmeras falhas estruturais e um número desgastado que o público já conhece de cor. Para os cidadãos de Singapura talvez faça sentido, mas perde-se no vasto mercado internacional onde existem alternativas mais bem concretizadas. Duas estrelas.

Realização:  Andrew Lau
Argumento:  Farid Azlam, Sheena Chung e Audi Khalis
Andrew Lau como Andrew
Farid Azlam como Farid
Sheena Chung como Sheena
Audi Khalis como Audi

Próximo Filme:  "The Yellow sea" (Hwanghae, 2010)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Where got Ghost" (Xia dao xiao, 2009)

Parece um título mal traduzido não é? Pois é mesmo esse o nome. “Where got Ghost” é um tríptico de comédia/terror que ocorre durante o “Mês dos Fantasmas Esfomeados”. Traduzido assim à letra não parece grande coisa, mas é uma celebração levada muito a sério pelas populações do sudeste asiático, nomeadamente, Singapura, Malásia, Taiwan e China. O mês dos fantasmas ocorre durante o sétimo mês do calendário lunar chinês (Agosto) durante o qual a população faz oferendas aos mortos para o seu apaziguamento e obtenção das suas bênçãos (isto numa versão ultra resumida).
O mês dos fantasmas fornece uma ampla fonte de inspiração para o cinema devido às suas imensas ramificações e ritos, consoante as diferentes regiões. “The Maid” (2005) é o filme mais aclamado sobre o tema e até já foi realizado um documentário sobre a época.

As curtas:

“Roadside got Ghost” - Três trafulhas arranjam um novo esquema para sacar dinheiro aos mais incautos. Eles telefonam para vários números da lista telefónica a “dar os números da sorte” para o próximo sorteio da lotaria. Os vencedores são depois convidados a ceder-lhes voluntariamente uma comissão generosa ou a vê-la ser extraída à força! O esquema corre bem até que o chefe dos vigaristas recebe uma chamada em género de imitação do esquema que ele próprio criou. A princípio desvaloriza-a mas aposta os números de qualquer modo. Quando ganha um prémio, começa a ser pressionado para cumprir a sua parte do acordo…

“Forest got Ghost”- Há um exercício militar na floresta. Dois “reservistas” preguiçosos decidem ignorar os repetidos avisos dos seus instrutores e quebram todas as regras. Eles usam dos mais diversos artifícios para chegar ao destino sem grandes convulsões e saem do caminho traçado. Mas nada os podia preparar para a série de eventos que desencadearam sobre si quando desrespeitaram as regras dos  superiores…


“House got Ghost” - Passou um ano desde a morte da sua querida mãe. Três irmãos continuam diligentemente a fazer-lhe pedidos de fortuna mas parece que esta nunca mais chega. Entretanto, um conhecido que exerceu os mesmos rituais de benesse é bafejado pela fortuna. Os três irmãos decidem que chegou a hora de desistir dos ritos e deixar a sua mãe seguir em paz para o outro mundo. O que eles não sabem é que ela não desistiu deles…

Sobre os filmes:
Assim à primeira vista, sobressai uma película no seu todo, muito masculina. Os papéis principais estão todos entregues a Eles. As mulheres, com uma única excepção, são a contraparte, unidimensional diga-se, Deles e quando se espera algo mais delas, são as vilãs. Demonização típica do género feminino. Mas no caso de “Where got Ghost” são maiores os argumentos a favor de um conjunto de curtas-metragens bem-intencionadas, do que resíduos de misoginia pouco disfarçados. “Where got Ghost” é uma realização conjunta de Jack Neo e Boris Boo, que também tiveram uma palavra forte no argumento. Também o vasto elenco é constituído na maioria, por actores que já trabalharam em conjunto ou com o realizador. O próprio Jack Neo protagoniza um dos papéis principais da terceira curta-metragem. Estes cuidados rendem um à-vontade no elenco que é visível no ecrã. Um inside job se preferirem. A moral dos segmentos nunca está muito longe da imaginação ou de um pouco de perspicácia: respeito pelos mortos, o crime não compensa, não atalharmos caminhos, o dinheiro não traz a felicidade e outros jargões do género. Como tal, o mês dos fantasmas acaba nunca se tornar uma realidade distante ou uma tradição demasiado rebuscada aos olhos de um ocidental. Existe sempre uma série de princípios comuns às culturas orientais e ocidentais que permitem seguir as narrativas a despeito dos ritos, rezas e superstições regionais.
A primeira curta é “Roadside got Ghost” onde os três personagens principais, em toda a sua aldrabice e portanto, os vilões, dificilmente não serão os preferidos do público. No meio da tragédia (a primeira e a segunda curta têm finais bastante abruptos), salvam-se os momentos de comédia resultante da dinâmica entre os três "reis". Já “Forest got Ghost” é mais previsível. Que melhor local para plantarmos fantasmas do que uma floresta. Mulher vestida de vermelho. A sério? Existirá referência mais batida no mundo dos fantasmas? O epílogo podia ser mais surpreendente não fosse a curta anterior demonstrar que não há regras. Vale tudo e tudo deverá ser esperado. Mais uma vez a química entre a dupla de actores principais é excelente e os momentos cómicos resultam melhor do que o último terço mais focado no terror. A curta final é a mais distinta. Isto não será difícil de explicar se pensarmos na manobra de marketing genial de Jack Neo. Ele realizou “House got Ghost” como sequela do filme “Money not Enough 2” também por ele realizado um ano antes, com a mesma fórmula de comédia/terror. Com certeza fica a questão se ele decidiu realizar uma antologia de filmes sobre o mês dos fantasmas ou se o utilizou como pretexto para lá enfiar um prelúdio para uma trilogia de “Money not Enough”. Ao contrário das histórias anteriores, onde os prevaricadores acabam por ser punidos pelos seus actos, “House got Ghost” concentra-se na redenção e mais parece um raspanete para levar à mudança de comportamentos que um mero exercício de “crime e castigo”. Se esquecermos algumas deficiências de narrativa e efeitos gerados por computador paupérrimos, “Where got Ghost” é uma obra mais divertida do que assustadora e uma óptima introdução ao mês dos fantasmas esfomeados. Três estrelas.

Realização: Jack Neo e Boris Boo
Argumento: Jack Neo, Sek Yieng Bon, Boris Boo e Hee Ann Ho

Curta #1: “Roadside got Ghost”
Richard Low como Cai

Curta #2: “Forest got Ghost”
John Cheng como Nan
Wang Lei como Lei
Tay Yin Yin como Yin Yin

Curta #3: “House got Ghost”
Henry Thia como Yang Bao Hui (irmão mais velho)
Jack Neo como Bao Qiang (irmão do meio)
Mark Lee como Bao Huang (irmão mais novo)
Mai Ling como Mãe

Próximo filme: "Lake Mungo", 2008

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"The Maid", 2005

Já era tempo de nos chegar uma surpresa agradável de Singapura. O problema é ser também a primeira, que não há termo de comparação. Ainda assim fiquei bem impressionada. "The Maid" representa uma realidade bem mais negra que a ficção. Quantas vezes não se ouve falar de casos de jovens que são atraídas para outros países para trabalhar e acabam nas malhas da escravidão, prostituição e de tráfico de órgãos? Calma, que a película é inspirada no real mas prefere a rota do sobrenatural. Ora, "The Maid", pega precisamente na prática recorrente da contratação de jovens pobres para irem trabalhar como empregadas fora dos seus países de origem. Kelvin Tong mostra, desde logo, a banalidade do processo e da mercantilização de vidas humanas num álbum de fotografias de potenciais candidatas. Beleza, idade, postura corporal, peso... Selecção de gado? Rosa Dimaano (Alessandra de Rossi), de 18 anos é a jovem seleccionada que troca pela primeira vez a tranquilidade da sua localidade rural nas Filipinas pelos edifícios altos e trânsito ruidoso de Singapura. A sua reacção inicial é de fascínio, o que não é para menos, dado o meio de onde veio. Nas suas palavras, aquela é a sua oportunidade de conhecer o mundo. E bem diferente é o mundo em que vai entrar. Rosa será a empregada de um supersticioso casal chinês o que contrasta, profundamente, com a sua crença católica. Para mais, ela chega no primeiro dia do sétimo mês chinês, aquele em que (segundo se diz), os portões do inferno se abrem e os espíritos andam à solta para se vingar das ofensas cometidas contra eles em vida. À sua volta, todos parecem levar muito a sério esta mitologia e fazem oferendas para apaziguar os espíritos e mantê-los longe dos seus lares. Entretanto, Rosa fica a conhecer Ah Soon, o filho do casal, um homem com mente de criança que desde logo se afeiçoa à nova criadita.
"The Maid" é um pouco de "The Sixth Sense" (1999), e de filmes baseados em velhas superstições populares em partes iguais. Assim, dos mais recentes posso nomear o "Tali Pocong Perawan" (2008) da Indonésia e o "Sick Nurses" (2007), da Tailândia. Mas arranja força e originalidade pelo seu próprio mérito. A cinematografia é belíssima: as cores vibrantes das comemorações do sétimo mês chinês e o seu contraste com as cores frias da vida quotidiana de Singapura estão algo de especial. E o melhor é que vemos e sabemos tanto quanto Rosa pois o mundo dos mitos e ritos chineses é novidade para ela! Tanto que Rosa, logo à chegada, comete sem intenção uma grave ofensa aos espíritos, quando pisa a oferenda que o casal chinês tão encarecidamente lhes tinha feito. Rosa atrai sobre si azar e começa a ver coisas que não deveriam estar... O resto é história.
Kelvin Tong, volta a brindar-nos com algumas surpresas. O pormenor da narrativa de Rosa, o olharmos pelos seus próprios olhos inocentes é um toque brilhante. E o modo como esta se transforma mais para o final está um modo original de contar uma história sobre outra perspectiva. Como não podia deixar de ser, o elemento sobrenatural está muito presente e fornece alguns sustos eficazes. Houve alturas em que pulei da cadeira com Rosa e pensei: "eu teria sentido o mesmo". Numa reflexão final e porque tantos filmes insistem nos perigos do oculto, por vezes, urge questionarmos se o mal estará mesmo naquilo que desconhecemos ou no comportamento humano, que pode ser tão imprevisível e perigoso. No meio de tanta coisa igual, Kelvin Tong arrisca e apresenta-nos um final inesperado. Quatro estrelas em cinco.



Realização: Kelvin Tong
Argumento: Kelvin Tong
Elenco:
Alessanda de Rossi como Rosa Dimaano
Huifang Hong como Senhora Teo
Chen Shu Cheng como Senhor Teo
Benny Soh como Ah Soon
Zhenwei Guan como Wati

Próximo Filme: "Blood Rain" (Hyeol-ui nu, 2005)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Rule number 1" (Dai yat gaai, 2008)


*Trailer + Legendas em PT

"Os fantasmas não existem" é a primeira e mais importante regra. Admito que a premissa me enganou. Contudo, pormo-nos a adivinhar, não nos levará a lado nenhum neste filme de Kelvin Tong: o enredo está cheio de reviravoltas e de flashbacks. Por isso, se gostam de filmes sem grandes sobressaltos este é o alvo errado.
"Rule number 1" começa a um ritmo alucinante, com o polícia novato Kwok-Keung Lee (Shawn Yue) a levar mais do que podia contar numa operação de rotina. Lee acaba por ficar gravemente ferido e por testemunhar um evento sobrenatural (ou será que não?) que o afectará para sempre. Ora, acontece que ele tem demasiados escrúpulos e não se coíbe de descrever o evento estranho que presenciou no seu relatório. O seu chefe que (hão-de reparar surge a comer em todas as cenas), não quer nem ouvir falar em "coisas do outro mundo" e vá de o recambiar para um departamento obscuro. Notem, que Lee é destacado para um departamento que se dedica à intervenção em assuntos de origem, no mínimo, curiosa. Portanto, fica a dúvida sobre se este destacamento foi inocente ou não. O departamento é apropriadamente denominado de "MAD - Miscellaneous Affairs Department", assuntos que ninguém da força policial normal quer tratar. Sons estranhos, electrodomésticos com mente própria, alucinações... são o quotidiano do MAD.
Entretanto, Lee que foi desterrado para uma força policial que só tem mais dois homens, cada um com os seus rituais: um é alcoólico, o outro além de viciado em jenga utiliza uma cadeira de rodas para se movimentar quando tem tanta mobilidade como qualquer ser humano saudável, depressa se arrepende dos seus escrúpulos. Isto já para não dizer que o departamento parece uma sala de espera da função pública desactivada há muitos anos. Estão a ver o cenário?
O seu novo chefe é o Inspector Wong (Ekin Cheng), um polícia atarracado, pouco amistoso e acabado que o introduz à regra de ouro do MAD: a regra número um. Foi aqui que surgiu o primeiro equívoco do filme: pensava que ia ver um duelo entre o polícia que acredita vs. o polícia céptico, uma batalha de mentes como um Mulder e Scully. Nada disso. Mais, até determinado ponto interrogamo-nos se os cenários que vão surgindo no decorrer das investigações do MAD, não terão explicações racionais, o que seria perfeitamente aceitável. A frustração de Lee alastra e nem a sua bela mulher May (Fiona Xie), num papel unidimensional e também horizontal, pois que está sempre na cama deitada, lhe consegue aliviar o trauma inicial ou fazer esquecer a tristeza da despromoção. Surgem ainda outras personagens, nomeadamente ligadas à vida íntima dos dois actores principais que são apenas aborrecidas. Será que foram enfiadas à pressa no argumento? Ok, essenciais para compreendermos as suas motivações e background, mas que soam apenas a um prelúdio de algo maior. Afinal, o que interessa é o desvendar do mistério. De bom grado seriam postas de parte e teríamos só um duelo de mentes entre os dois polícias e a sua luta contra o sobrenatural.
Tong fez um filme incoerente em termos de acção: "Rule" inicia-se com um ritmo avassalador, abranda substancialmente e depois levanta voo muito rápido, sem que nada o fizesse prever. Embora, não seja uma grande fã do género de acção e à excepção da cena na piscina, os momentos acelerados são os que melhor funcionam. Quando às reviravoltas do argumento, elas não convencem nem funcionam por aí além. Não me entendam mal, não é um mau filme, nem sequer está mal feito e até se percebe onde Tong pretende chegar. Não sei é se concordo. Mais do que medo, pena, qualquer coisa, o que fica no final da película é um profundo sentimento de frustração. Not bad, just not great. Duas estrelas e meia.


Realização: Kelvin Tong
Argumento: Kelvin Tong
Elenco:
Shawn Yue como Lee Kwok-keung
Ekin Cheng como Inspector Wong
Fiona Xie como May


Próximo Filme: "Three...Extremes - Cut" (Saam Gaang Yi, 2004)
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