domingo, 30 de novembro de 2014

"Rigor Mortis" (Geung Si, 2013)

Aviso: O trailer tem spoilers

Chin Siu-ho é um actor acabado que decidiu alugar um apartamento para pôr termo à vida de modo tranquilo. O seu plano é prejudicado quando se apercebe que o apartamento já tem a sua própria assombração e esta tem um plano muito próprio sobre o que fazer com ele. Yau (Anthony Chan) é o dono do restaurante do rés-do-chão cuja fachada descontraída (ele anda a passear pelos corredores de robe), esconde um caçador de vampiros retirado mas ainda atento a manifestações sobrenaturais. A tia Mui (Nina Paw) é uma costureira e boa samaritana, que passados tantos anos de matrimónio continua ainda profundamente apaixonada por Tung (Richard Ng). A sua morte vai obrigá-la a tomar uma decisão que vai contra todos os princípios por que sempre se regeu. Gau (Chung Fat) é um perito no oculto que a despeito dos anos de experiência decidiu enveredar pelo caminho das artes negras de modo subreptício.  Yeung Fang (Kara Hui) é uma vizinha que poderia passar por um fantasma pois vagueia pelo prédio destroçada por uma dor invisível. O seu filho albino Pak (Morris Ho) entra e sai dos vários apartamentos com a aquiescência dos vizinhos que o reconhecem já como parte integral da vida do prédio.

“Rigor Mortis” é uma homenagem aos filmes de fantasia e comédia sobre vampiros saltitantes produzidos em Hong Kong nos anos 80. Juno Mak, se calhar mais conhecido no ocidente pela interpretação arrepiante em “Revenge: A Love Story” estreia-se como realizador e ó, se impressiona. Ele terá aproveitado todos os bons contactos e as excelentes críticas advindas de “Revenge: A Love Story” do qual também foi argumentista e captou grandes artistas dos filmes que homenageia (Chin Shiu-ho e Richard Ng) e ainda lendas como Nina Paw e Kara Hui, esta última se calhar injustamente mais conhecida pela habilidade no Kung Fu do que pelas fortes qualidades dramáticas. Os aspectos técnicos de “Rigor Mortis” são qualquer coisa de fantástico. A fotografia é belíssima, os efeitos digitais idem, a banda-sonora pejada de notas dissonantes (ainda que exageradas uns quantos decibéis) demonstram a inquietação que perpassam aqueles corredores e a câmara e actores parecem unidos no objectivo de comum de fazer daquele prédio um local perturbador. A luz é inexistente. Apenas existem as paredes e as estórias que lá se passam. Qualquer alusão ao mundo lá fora não é mais do que uma memória dolorosa: divórcios, morte, abuso... Ficar ali é a escolha de um falso conforto. Daí os filtros azuis e cinzentos. Mas a “vida” ali assenta num equilíbrio instável. A quebra da falsa ilusão de segurança pode advir da fonte mais improvável. Quando a violência ocorre, quase sempre é sem censura. Ainda assim é mais comedido que outros filmes que têm saído de Hong Kong nos últimos anos como o “Tales from the Dark –Part 1” (2013). As imagens digitais mais parecem composições de artistas que forem eles próprios influenciados pela vaga de filmes tailandeses à semelhança de “Body #19”. Filmes esses que não se transcendendo na qualidade do storytelling ficam na retina pelas imagens fabulosas que geram. Estas similitudes também não são alheias ao facto de Takashi Shimizu (“Ju-on”, 2000) ser produtor do filme. Atente-se às duas irmãs capazes de rivalizar com as gémeas assustadoras de “The Shining” (1980).
O Este encontra o Oeste
Mais adiante, somos brindados com artes marciais, herança dos filmes que Juno tentou homenagear, pondo Kara Hui e Chin siu-ho a mostrar que o tempo não fez esquecer a mestria no kung fu, em breves mas brutais sequências de luta. A dada altura Chin sui-ho e o seu oponente mais parecem soldados de terracota, cobertos que estão por lama e pó. Soldados rígidos, resistentes ao tempo. No entanto, a sensibilidade artística não transborda na estória. “Rigor Mortis” como o corpo cadavérico leva o seu tempo até adoptar uma forma rígida. As estórias não se entrecruzam por completo até transposto metade do filme. Então, fica a sensação de que se tentou fazer demais. Seriam precisos todos aqueles personagens? Algumas das suas estórias não acrescentam nada ao cerne da questão, arrastando-se mais do que o necessário. Em última análise, “Rigor Mortis” reduz-se à admiração pelo espectáculo visual pontuados aqui e ali pelas interpretações fantásticas de uma parte do elenco. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Recuperação dosubgénero esquecido do “Vampiro Saltitante”.
- Fotografia, efeitos gerados por computador
- Interpretação fabulosa de Nina Paw
- O realizador é inexperiente? Não dei por nada.

O pior:
- Ritmo lento
- Desfecho
- Estória demora a arrancar
- Cenas de artes marciais poderão parecer desenquadradas do filme que vinham a acompanhar

Realização: Juno Mak
Argumento: Lai-yin Leung e Philip Yung
Chin Siu-ho como Chin Siu-ho
Anthony Chan como Yau
Kara Hui como Yeung Feng
Nina Paw como Tia Mei
Ricard Ng como Tio Tung
Morris Ho como Pak
Chung Fat como Gau

Próximo Filme: NAFF 2014 (vários)

domingo, 16 de novembro de 2014

"Happy Birthday to Me" (1981)


A blogger que mais amam completou X primaveras em Novembro (não estavam mesmo à espera que dissesse quantos aninhos fiz, pois não?) e decidiu que a melhor forma de comemorar esse grande evento seria procurar um filme retro, de preferência sobre um aniversário – que esta pessoa não tem jeito para metáforas –, e chorar para o ecrã enquanto assiste a algumas mortes originais (à época). Como tal e bem poderão inferir, a semi-ausência desta excelsa pessoa deveu-se a estar a fazer “coisas”, aka há vida além do computador e filmes para ver sobre os quais nunca irão ler uma linha escrita por mim.

De facto, de há uns tempos a esta parte, esta pessoa tem-se entretido a recuperar alguns clássicos americanos (incluindo Canadá), nomeadamente ente o final dos anos 70 e inícios dos anos 80 (“Halloweeen”, Tourist Trap”, “Black Christmas”, The Funhouse”, por aí fora). Enfim, os anos que verdadeiramente importam, no que toca ao subgénero slasher americano e redescobri duas questões: que os filmes eram tão mais divertidos na altura e as mulheres eram ainda olhadas com uma visão ingénua. Talvez uma bomba sexual, talvez uma frágil donzela mas, raramente uma assassina. Insólito para um blog que faz vida da desmontagem do mito da descabelada que sai de aparelhos eléctricos e mata as suas vítimas de susto.

“Happy Birthday to me” segue a fórmula quando esta ainda nem sequer era identificada como tal. Uma heroína frágil, um grupo mais ou menos extenso de jovens que irão sofrer uma morte horrenda e um assassino com requintes de malvadez. Para quem aprecia o género pouco mais se exige, não é? Ginny Wainwright, interpretada por Melissa Sue Anderson que tenta descolar-se da sua personagem em “Little House on the Prairie” (1974-1983) pertence à elite de jovens ricos da Academia Crawford que se auto-denominam “Top Dez”. Ela esteve uns anos afastada devido a um evento traumático no passado. Quando os amigos começam a ser assassinos por um desconhecido, as memórias dolorosas que tinham recalcado são despoletadas. Segue-se um jogo de interrogações: é Ginny a culpada ou não? Se não, quem será? Porque se não, a realização está a fazer um esforço tremendo para que todos os caminhos vão dar a Ginny…

Sendo um clássico “Happy Birthday to me” acerta em todas notas habituais excepto na da nudez. Quase um dado adquirido, nos filmes anteriores e nos que lhe seguirem em “Happy Birthday to me” o expoente máximo de marotice é quando Etienne (Michel-René Labelle) rouba umas cuecas do quarto de Ginny. O cinema americano alimentando o sonho de stalkers desde sempre. O elenco é deliciosamente terrível. Ver adultos a interpretar adolescentes hormonais com as falas mais pirosas de sempre é aquilo de que são feitos os sonhos tecnicolores dos anos 80. É isso e os penteados e roupas datados. E tentar imaginar o que terá acontecido com as carreiras daqueles actores após o filme. Tirando um Matt Craven reconhecível, a obscuridade e a idade ocupou-se de todos eles. Apesar de datado “Happy Birthday to Me” é tudo quanto se poderia esperar de um slasher. O assassino é elusivo e algumas mortes são interessantes. Ter pena de "miúdos" que pertencem a um clube de elite que personifica tudo o que está mal com a sociedade contemporânea é para fracos. De destacar uma morte que faz recordar o incidente mortal infeliz de Isadora Duncan, o pior pesadelo de um halterofilista e ainda a cena icónica que teve direito ao poster clássico do filme, “morte por uma espetada”. A ideia é bastante superior à concretização mas que é inventivo, isso, ninguém pode negar. De referir que, com um bom número de personagens para matar, o filme é sempre abrir. Para os habituados ao género “Happy Birthday to Me” não assustará mais do que as criancinhas que espreitam pela primeira vez por entre a fresta de uma porta para descobrir o que é o “terror” e porque é que os mauzões dos pais não a deixam assistir àquilo. Vale mais pelo jantar diabólico final, onde um plano maléfico é revelado, com o velho crime passional com laivos de complexo de Electra e muito mimo à mistura a constituírem o motivo, enquanto se entoa a solitária canção: “Parabéns a mim”...

O melhor:
- Mortes inventivas
- Segue fórmula slasher à risca (se gostarem disso claro)
- Faz-nos suar para tentar perceber quem é o assassino.

O pior:
- Reviravolta final
- Datado


Realização: J. Lee Thompson
Argumento: John C. W. Saxton, Peter Jobin e Timothy Bond
Melissa Sue Anderson como Virginia “Ginny” Wainwright
Glenn Ford como Dr. David Faraday
Lawrence Dane como Hal Wainwright
Sharon Acker como Estelle Wainwright
Frances Hyland como Mrs. Patterson
Tracey E. Bregmam como Ann Thomerson
Jack Blum como Alfred Morris
Matt Craven como Steve Maxwell
Lenore Zann como Maggie
David Eisner como Rudi
Lisa Langlois como Amelia
Michel-René Labelle como Etienne Vercures
Richard Rebiere como Greg Hellman
Lesleh Donaldson como Bernadette O'Hara

Próximo Filme: "Rigor Mortis" (Geung si, 2013)

domingo, 2 de novembro de 2014

"The Theatre Bizarre", 2011


Em finais do século XIX abriu em Paris o “Grand Guignol”, um teatro dedicado à encenação de experiências de terror naturalistas. À época, os efeitos “especiais” eram tão realistas que provocavam reacções na audiência como o desmaio ou o vómito. Com o advento da Segunda Grande Guerra as audiências começaram a escassear, até que por fim o teatro bizarro fechou as portas de vez. A vida real era afinal mais horrenda que a ousada encenação parisiense. “The Theatre Bizarre” é pois uma homenagem à História do “Grand Guignol”, onde sete realizadores tentam recriar uma noite deste teatro do horror sob o conveniente formato de antologia.

“Enquadramento” - A jovem Enola Penny (Virginia Newcomb) sente-se fascinada com um antigo teatro abandonado. Um dia, ela atreve-se a entrar no edifício devoluto e descobre que os actores estão bem vivos e dispostos a interpretar um último show. O espectáculo conduzido pelo fantoche humano Peg Poett (Udo Kier) apresenta-a a um mundo de bizarrias… Seis estórias para ser exacto.

“Mother of Toads” – Obcecado com o “Necronomicon”, um livro raro sobre o oculto, um casal percorre o cenário bucólico francês em busca de uma pista deste. Lá, deparam-se com uma idosa demasiado disponível para lhes dar as boas novas que anseiam. Sucedem-se um abandono, um engano e uma traição. Talvez tenham sido as forças mágicas que escondem os segredos do livro que os encontraram.

“I Love You” – Um casal demonstra que do amor ao ódio a distância é pouca. Axel (André Hennicke) começa a enlouquecer à medida que as suas neuroses e paranoias de traição se revelam reais e a esposa cruel o conduzem a um comportamento destrutivo.

“Wet Dreams” – Um Homem inquieto (James Gill) conta ao psiquiatra os pesadelos recorrentes que o atormentam. No mundo dos sonhos, a sua esposa (Debbie Rochon) é uma sádica que retira prazer da sucessiva mutilação e humilhação do marido. Como se vem, mais tarde a perceber, as causas do sonho podem ter que ver com esqueletos no seu armário.

“The Accident” – Mãe (Lena Kleine) e filha (Mélodie Simard) têm uma conversa sobre um dos temas que mais aterrorizam um pai: a morte. Em viagem, cruzam-se com o acidente que provocou uma vítima. As questões inevitáveis da menina levam a mãe a contar-lhe de modo franco mas delicado o significado da morte.

“Vision Stains” – Uma toxicodependente (Kaniehtiio Horn) com uma escolha de droga peculiar. Ela está obcecada com as memórias e imagens das outras pessoas e pretende absorvê-las. Descobriu o modo prefeito de as preservar, injectando o fluído ocular das suas vítimas nos seus próprios olhos.

“Sweets” – Se alguma vez houve uma relação disfuncional ela é a de Estelle (Lindsay Goranson) e Greg (Guilford Adams) que vivem para o maior dos pecados: a gula. A sua relação está um caos e Greg continua a humilhar-se, empanturrando-se para a delícia de Estelle. Mas isso não chega para saciar a namorada. A relação só poderá resultar se o já obeso Greg se sacrificar.

Entende-se “Bizarria” por “característica do que é estranho, grotesco ou incomum”. Ora como fãs de terror que somos (se não são, façam-me a vontade), sabemos como é complicado encontrar uma longa-metragem de terror original. Mesmo que se decomponha o género de terror em subgéneros como “gore”, “psicológico” (admito que a definição deste é dúbia), “assassínio”, “monstros” e “paranormal” afirmar a diferença é tarefa difícil se não mesmo impossível. Se tudo já se fez, então o que poderá ser considerado de facto “bizarro”? Pelas propostas de definição apresentadas, “incomum” não será, pelo que resta a possibilidade de “The Theatre Bizarre” se poder identificar com estranho ou grotesco.

sábado, 1 de novembro de 2014

TCN 2014: Nomeados Artigo de Cinema


Somos o chamado nicho. Não apelamos a muitos mas também não é preciso porque não somos todos iguais nem gostamos todos do mesmo. O que vemos, isso sim, é um artigo descontraído, despreocupado até, sobre as heroínas que nos inspiraram a criar este espaço entre Monstros. Cada novo ano, cada novo gosto, cada nova partilha, cada nova menção, demonstram que pequeninos só de tamanho, que devemos ser grandes nos corações de alguns. Obrigada.

NOTA: As votações estão disponíveis no Girl on Film. Não se esqueçam de visitar o nosso artigo e o dos outros nomeados antes de tomar uma decisão. (Mas se escolherem a nossa selecção de scream queens não nos chateamos nada). Poderão ainda encontrar toda a informação sobre nomeados e votações aqui.

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