domingo, 23 de outubro de 2011

"Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

O título inglês "Coming soon" não podia ser mais apropriado, por todas as razões. Só nesta era é que se podia fazer um filme sobre um filme dentro do filme que ultrapassa a ficção e afecta os personagens no mundo real. Confusos? O título original da película é qualquer coisa como "este programa é o espírito vingativo". O tal filme que vai estrear brevemente no cinema onde Shane (Chantavit Dhanasevi) trabalha. Ele deve dinheiro a uns rufias devido ao seu vício de jogo e pensa que a melhor maneira de arranjar dinheiro é piratear o novo filme. O vício custou-lhe a namorada Som (Vookam Rojjanavatchra), está a afectar o seu trabalho e poderá trazer-lhe a morte! "Espírito Vingativo" é a história "baseada em factos reais de Shomba", uma velha decrépita que rapta crianças para substituir os próprios filhos que morreram num incêndio. Louca, esta predadora cega e tortura as crianças dos modos mais horríveis. A sua própria aparência é matéria de pesadelos: cabelo cinzento desgrenhado, olhar maléfico e uma perna aleijada que arrasta, devagar, como o som da morte a aproximar-se... Os pais das crianças mobilizam-se para encontrar as crianças mas quando as encontram deparam-se com um cenário de terror. Horrorizados, eles lincham Shomba. Nasce uma maldição. Ou será que não? Quando "Espírito Vingativo" perpassa a película e os corpos se começam a acumular, Shane alia-se a Som para descobrir o que está por detrás das mortes e como as deter.
O argumento é de Sopon Sukdapisit que emprestou o seu contributo a "Shutter" (2004) e "Alone" (2007) e se estreia pela primeira vez na cadeira de realizador. A narrativa é interessante com alguns dos laivos de originalidade que já lhe são reconhecidos. Infelizmente, "Coming Soon", tem alguns problemas. Para começar, "Espírito Vingativo" é mais assustador do que o filme no qual está inserido. Tem uma envolvência e uma atmosfera que "Coming soon" conseque alcançar apenas em momentos fugazes e nunca ao mesmo nível. Talvez o talento de Sukdapisit surja no trabalho de outros, fazendo-os brilhar e não quando toma as rédeas do projecto. Não é uma crítica afinal, o trabalho de um realizador sempre se baseia num argumento.  Além disso, quando um filme começa com um estrondo, depois abranda e parece que nunca mais recupera o fôlego inicial em 95 minutos de duração é mau sinal. Tudo o resto são truques gastos vistos inúmeras vezes: o personagem ouve um som estranho e vai verificar ou pensa que viu algo pelo canto do olho, etc.
Um pormenor que me dá sempre vontade de rir, à boa maneira dos slashers dos anos 80, é que a nossa assassina é uma velhinha que arrasta uma perna, no entanto, ninguém consegue correr mais do que ela nem superar a sua força. Dá vontade de lhe perguntar que vitaminas é que ela toma, que se chegar àquela idade quero ser rija como ela. De qualquer modo, "Coming soon" não é mau de todo. O cenário é pelo menos original. Fazer um filme de terror num cinema verdadeiro não é totalmente descabido. Salas enormes com duas ou três pessoas, um projeccionista sozinho, corredores escuros e compridos quando se acaba de sair de uma sessão de terror... Houve aí bastante material para explorar e o próprio merchandise do filme "Espírito Vingativo" podia pertencer a um filme verdadeiro em exibição. Por isso, é lamentável que a película não tenha respondido ao hype que se gerou em seu redor, que de resto é justificado com o currículo de Sukdapisit. "Coming Soon" pertence àquele tipo de terror descartável que entretém (mais ou menos), enquanto é visionado e cai no esquecimento horas depois. Duas estrelas.
Realização: Sopon Sukdapisit
Argumento: Sopon Sukdapisit
Elenco:
Chantavit Dhanasevi como Shane
Vookam Rojjanavatchra como Som

Próximo Filme: "Three - Memories" (Saam Gaang, 2002)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

O que se passou neste filme foi mais na linha de "Olha que truque giro" do que propriamente, "Sujei as calças", com o terror, estão a ver? Este thriller sobrenatural de Sung-ho Kim que também escreveu o argumento foi o tal que inspirou não tão vagamente assim o filme "Mirrors" (2008), com Kiefer Sutherland e o inferior "Mirrors" 2. Em "Into the Mirror", o ex-polícia Yeong-min (Ji-tae Yu) é obrigado a pedir ao tio emprego no seu centro comercial, depois ter sido expulso da força no seguimento de uma situação de reféns que terminou com o seu parceiro a ser assassinado à sua frente. Atormentado pelo passado, Yeong-min refugia-se no álcool e numa existência solitária. É um caso óbvio de arte a imitar a vida real no caso de Kiefer Sutherland. Bom casting! Adiante, num cargo claramente inferior às suas capacidades, o agora segurança de centro comercial passa os dias a visualizar as câmaras da loja. Uma noite, uma funcionária deixa-se ficar até tarde para se dedicar a pequenos roubos e na manhã seguinte é encontrada morta. Isto dá origem a uma investigação policial que leva Yeong-min a cruzar-se com um antigo colega que o despreza. Com uma segunda morte a suceder em menos de nada e a pressão do seu tio para reabrir o centro comercial, Yeong-min é obrigado enfrentar as suas inseguranças. Na resolução deste caso, estará a sua redenção e a realização de que afinal, Yeong-min ainda é um bom polícia.
Ah e tal, tudo bastante seguro, prevísivel até, no entanto, há uns pontos que me atormentam deveras. Desculpem lá qualquer coisinha, mas qual é a pessoa que fica num centro comercial, durante a noite, sozinha? Mais, quem é que depois de ver e ouvir vislumbres e sons estranhos ao invés de se dirigir à saída mais estranha ainda fica por lá? Ah e depois de roubar, os ladrões têm algum tipo de fetiche por exibir calmamente os objectos desviados? Pelos vistos... Yeong-min não é melhor. Durante mais de metade do filme, ele não faz nada de útil, excepto andar a sofrer pelos cantos. Ok, o passado atormenta-te, blá, blá, blá, agora recompõe-te e faz alguma coisa, sei lá, vigiar o centro que é para isso que és pago! Mesmo que a Yeong-min estivesse somente destinado o papel de segurança da loja, o seu desempenho é fraquissímo. Depois da segunda morte, Yeong-min devia ter sido logo despedido pelo tio. Se uma morte é má publicidade, duas demonstram uma inépcia gritante. Além disto, Yeong-min começa a mandar bitaites sobre o envolvimento dos espelhos nas mortes. Assumindo, que o absurdo é real, ele não apresenta provas que sustentem os seus argumentos nem faz mais do que deambular pelos corredores deprimido. Como se uma morte não fosse de suma urgência para ele acordar para a vida e ajudar a solucionar o caso. Por contraste, há o tal polícia que o despreza e que é suposto antipatizarmos mas com um herói tão mole é díficil dizer qual dos dois o pior. Atire-se para o meio um mistério sobrenatural e uma conspiração e temos a história do filme em linhas gerais. Infelizmente, os espelhos podiam ter tido um enfoque ainda maior.
Veja-se o titulo, "into the mirror", podia ter sido mais explorada a hipótese da existência de uma outra dimensão ou até uma fragmentação de personalidade. Não se pode dizer que a originalidade do argumento seja o ponto forte da história. O rítmo é lento, e podiam ter sido cortados uns bons 20 minutos de película que não servem para nada. O que o filme faz é deter-se demasiado no pathos de Yeong-min que é algo que se estabelece nos instantes iniciais do filme. Tudo o mais é bater no ceguinho. O melhor da película está nos efeitos criados em torno dos espelhos, com uma série de truques que servem alternamente as vezes de efeitos de infinito, profundidade e ilusões de óptica. Efeitos engraçados? Sim. Assustadores? Nem por isso. Para isso vejam o "Mirrors" com o Sutherland. Duas estrelas.

Realização: Sung-ho Kim
Argumento: Sung-ho Kim
Ji-tae Yu como Yeong-min Woo
Myung-min Kim como Hyeon-su Heo
Hie-na Kim como Ji-hyeon Lee / Jeong-hyeon Lee

Próximo Filme: "Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

domingo, 16 de outubro de 2011

Top 12: Realizadores de cinema de terror asiático

Esta é capaz de não ser a lista mais convidativa se compararmos, por exemplo, com “as cinco melhores mortes” ou “as dez actrizes mais jeitosas”, mas hão-de reparar que de vez em quando existe a menção a um certo realizador, seja por que uma película me recorda o seu trabalho ou por que existe mais do que um registo da sua obra aqui no blog. O "Top 12: Realizadores de cinema de terror asiático", reflecte à semelhança das listas anteriores, o meu gosto pessoal e o conhecimento da obra dos respectivos realizadores. Não sou nem pretendo ser uma enciclopédia pelo que o mais provável é deixar de fora algumas contribuições válidas. Claro está, na caixa de comentários poderão deixar a vossa opinião e outras contribuições possíveis. Também, não pretendo afirmar que conheço a filmografia completa dos realizadores que vos apresento mas quero fazer notar os contributos mais importantes destes realizadores para o género do terror, guiada por críticas, êxito de bilheteira e, obviamente, a opinião de cinéfilos como eu.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"The Lost Bladesman" (Guan Yun Chang, 2011)

Ah, os grandes épicos chineses. Suspiro. Histórias moralistas camufladas por entre cenas de luta e romances melodramáticos. Não é que não sejam visualmente espantosas ou que não entretenham mas no universo das máquina de fazer filmes épicos já escasseia algo que se destaque no meio de todos eles. Desta feita, "The Lost Bladesman" é baseado na figura lendária de Guan Yu descrita no "Romance dos Três Reinos", uma peça literária do século XIV. A adaptação ao cinema foi realizada por Felix Chong e Alan Mak, a dupla que nos trouxe "Infernal Affairs" (2002), que caso não conheçam é apenas o filme que Scorcese copiou no oscarizado "The Departed" (2006), pelo que a expectativa desta reunião era alta. A história começa quando Guan Yu (Donnie Yen), general de Liu Bei é capturado pelo seu inimigo Cao Cao (Wen Jiang). Com uma força tão poderosa em seu poder, Cao Cao tenta convencer Guan Yu a juntar-se a ele oferecendo-lhe Qi Lan (Betty Sun), a terceira esposa de Liu Bei por quem ele está apaixonado. Sendo o herói honrado que é, Guan Yu recusa-se a trair a lealdade de Liu Bei mas aceita lutar por Cao Cao em troca da liberdade de Qi Lan. Cao Cao aceita a sua condição e deixa-o partir. Contudo, os seus generais, com medo de voltar a encontrar o poderio de Guan Yu em batalha decidem mandar matá-lo. É esta acção que desencadeia o rumo dos acontecimentos que levarão à imortalização de Guan Yu.
Com apenas uma arma e escoltando uma mulher indefesa, Guan Yu deixa um rasto de morte e destruição por onde passa, à medida que os seus inimigos conjuram a sua morte e se recusam a dar-lhe passagem segura. Infelizmente, o enredo não é tão interessante como à partida se apresenta. A história é bastante intrincada e só os conhecedores do romance e de filmes anteriores baseados no manuscrito como Red Cliff (2008-2009) é que se sentirão minimente à vontade com o vasto número de personagens e de intrigas. A somar ao desconhecimento da trama os novatos na história têm de lidar com cenas de diálogo fastidioso, filosófico e (por vezes) bonito, mas que nem por isso leva a lado algum. Depois existe um problema fundamental: o personagem de Guan Yu. A começar pelo visual do personagem. Donnie Yen, não tem a estatura nem a presença imponente e real de Guan Yu assinalada no manuscrito original do romance. Nesse aspecto, Donnie Yen não corresponde às expectativas. O próprio guarda-roupa e caracterização ficam aquém do imaginário do herói lendário. A peruca que Yen utiliza durante todo o filme é simplesmente horrível. Não conseguiam mesmo fazer melhor? Adiante, Yen é um excelente lutador de artes marciais e foi ele que esteve a cargo da direcção das cenas de luta. Nesse campo, irrepreensível. Mas ele não é, nem nunca foi, lamento, um grande actor. A sua contenção é frustrante. O seu rol de expressões é equivalente à de um Keanu Reeves e nos poucos momentos em que se lhe era exigido um sorriso, Yen esboçava um sorriso amarelo como quem diz: "ora deixa cá mostrar um pouco os dentes, porque é isso que eles querem". Yen, parece constrangido a todo o momento e o seu desempenho parece forçado. Só corresponde nas cenas de luta. E mesmo aí, verifica-se contenção. Ninguém vê um filme de Donnie Yen, para não o ver arrancar uma demonstração explosiva das suas capacidades atléticas.
Por fim, temos o romance com Qi Lan (Betty Sun), que é o elo mais fraco de filme. Sun está ali apenas para sorrir e parecer bonita como o desejo de afeição proibido de um Guan Yu dividido entre o amor e a lealdade ao seu companheiro de armas Liu Bei. Mas lá está, não existe um verdadeiro dilema por parte do nosso herói pois ele é sempre correcto e leal, acima de tudo. Guan Yu, nunca comete nenhum deslize pelo que temos desde cedo a certeza que ele não irá ceder a impulsos de ordem romântica. Guan Yu é apenas uma pequena peça num grande tabuleiro que os generais manobram a seu belo prazer. Resta-nos pois um herói aborrecido e magníficas cenas de luta que infelizmente são tão breves que não compensam o ritmo lento da história. O actor com mais material com que trabalhar acabou por ser o Cao Cao de Wen Jiang, cujas maquinações fazem mover toda a trama. Esta é uma opção infeliz visto que o actor secundário se superioriza ao principal.
Veredicto: os cenários e paisagens deslumbrantes, o guarda-roupa faustoso e as cenas de luta espectaculares contribuem para tornar “The Lost Bladesman”, uma visão agradável. Mas e daí também os outros épicos pontuam nestes aspectos. Há muito que o cinema de Hong Kong aprendeu essa lição. Então o que traz “The Lost Bladesman” de diferente? Com toda a sinceridade, nada. Vê-se. Duas estrelas.
Realização: Felix Chong e Alan Mak
Argumento: Felix Chong e Alan Mak
Donnie Yen como Guan Yu
Wen Jiang como Cao Cao
Betti Sun como Qi Lan

Próximo Filme: "Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

domingo, 9 de outubro de 2011

"Body #19" (Body sob 19, 2007)

Quando penso em "Body #19", duas palavras vêem-me à mente: espectáculo e grotesco. Espectáculo como em: "Esta cena até está porreira" e grotesco do género: "Que nojo!É horrível, é repugnante!" (digo, enquanto cubro os olhos).

Chonlasit (Arak Amornsupasiri) é um estudante de medicina que começa a ter pesadelos horríficos, nos quais uma mulher é morta e esquartejada. Isto não seria nada demais se os sonhos não se estivessem a transpôr para a realidade e uma versão aviltante da morta não começasse a matar aqueles que Chon contacta. À medida que os eventos se começam a tornar demasiado perigosos, Chon começa a duvidar da sua própria sanidade mental e decide investigar a morte da mulher. Os posters do filme apresentam bons argumentos para se ver o filme: "Body #19" é do mesmo estúdio que nos trouxe Shutter (2004) e Alone (2007) e parece que é baseado no caso real de um médico ginecologista que matou a sua mulher, a esquartejou e mandou os seus restos pela retrete abaixo. Visão bonita, certo? De qualquer modo, a expressão "baseado em factos reais" sempre conseguiu levar muito boa gente a correr aos grandes écrãs. O realizador, Paween Purikitpanya não é nenhum novato aqui para os nossos lados. Ele esteve por detrás dos segmentos "Tit for Tat" e "Novice" em "4bia" (2008) e "5bia" (2009), respectivamente. Já o actor principal é o guitarrista de uma banda rock conhecida lá para os lados da Tailândia.
O grande problema de "Body #19" é o fracasso na concretização. A narrativa é muito complicada de seguir. O desejo de imprimir originalidade a uma velha história ao invés de tornar o filme refrescante só consegue confundir os espectadores. Mesmo com toda a atenção dedicada ao filme é demasiado fácil perder-se o fio à meada. Qual era o objectivo dos argumentistas? Explorar as motivações das personagens ou abordar o terror de modo brutal e sem censuras? Não se consegue perceber. A este problema fundamental acresce o facto de estarmos constantemente a saltar entre dimensões: ora passamos do sonho para o real e vice-versa, ora real e sonho se confundem ou afinal, não é uma coisa nem outra e o que estamos a ver são flasbacks! De resto não existe grande originalidade. É apenas a história do monstro destruidor que nos aponta o caminho para a solução. Em "Body #19", se seguirmos as pistas que nos são apresentadas e retirarmos as reviravoltas, com o que ficamos é um enredo que não tem nada de surpreendente. Mesmo as personagens não são likeable. Nunca se cria uma afinidade com Chon nem existe vontade de torcer por ele. As personagens passeiam-se no écrã, por que sim.
Onde "Body #19" sucede é na apresentação do macabro e do grotesco como o título e o poster desejam adivinhar. Apesar de as imagens geradas por conputador tenderem mais para o artificial do que para o realista, estão bastante fortes. Há cenas deliciosas para quem sabe lidar com o choque e o profundamente repugnante. Mas também fora do elemento digital a equipa técnica dá cartas: a cena do esquartejamento em particular, está maravilhosa em toda a sua glória perturbadoramente realista. A câmara desempenha ainda um papel importante na construção de uma atmosfera atemorizante: sempre que possível há uma perspectiva dos personagens vista de cima ou de baixo. Quando os sustos se aproximam, esta perspectiva ajuda a fortalecer ainda mais a visão do que vai acontecer. Noutras é somente acessória. Enfim, com uma história complicada de seguir, personagens com os quais não se consegue simpatizar e onde apenas sobressaem os méritos técnicos, "Body #19" torna-se dificil de apreciar, mesmo quando aposta no que há de mais perturbador. Duas estrelas.
Realização: Paween Purikitpanya
Argumento: Chukiat Sakveerakul e Paween Purikitpanya
Arak Amornsupasiri como Chonlasit
Ornjira Lamwilai como Ae
Kriteera Inpornwijit como Usa
Patharawarin Timkul como Dararai
Próximo Filme:  "The Lost Bladesman" (Guan Yun Chang, 2011)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...