quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Pulse" (Kairo, 2001)



Os clássicos são uma daquelas coisas. Como clássicos ficam registados na memória colectiva para a posteridade e alvo de amores e ódios extremos. Até os grandes como o “Ring” e “A Tale of Two Sisters”, são olhados com um esgar de indiferença por muitos. No pior dos casos, serão comparados e considerados inferiores aos remakes ocidentais, embora possa afirmar com relativa segurança que esse é um evento raro.

“Pulse” foi o último dos grandes clássicos do J-horror moderno que vi e digamos que ter assistido a doses massivas de J-horror anteriormente, tem a sua influência. Por outro lado, até o mais leigo dos leigos admitirá que “Pulse” é um dos filmes de terror mais introspectivos e reflexivos da primeira década do século XXI. O que “Ring” fez pela cassete de vídeo, “Pulse” fez pela internet. Nesse aspecto, espero daqui a dez anos, esteja eu neste planeta e consiga olhar para o filme com outros olhos. Claro que “Pulse” pode ser apenas uma grande partida e de crítica social não ter nada. Somos nós os tolos que pensam que sim! Onde “Pulse” não corre tão cedo o risco de ficar desactualizado, infelizmente fará maravilhas pelas insónias. Se ao menos a porcaria do filme fosse mais curto!
E a premissa, para simplificar o complicado, envolve a jovem Michi (Kumiko Aso), que fica preocupada após o colega Taguchi (Kenji Mizuhashi), que estava a trabalhar em casa ao computador nunca mais dar sinais de vida. Quando ele comete suicídio de modo inesperado, reina o choque. Quem podia imaginar? Ele nem era do tipo depressivo… Entretanto Ryosuke (Haruhiko Kato) toma um renovado interesse pelos computadores quando a bela Harue (Koyuke) se sente intrigada pelo facto do seu computador parecer ter vontade própria. Cedo se começa a ouvir falar numa vaga de suicídios, aos quais a visualização de uma imagem perturbadora no computador não é alheia. A resposta óbvia é resistir à tentação de ligar o aparelho, o que no início do milénio nem seria assim tão complicado. Mas a curiosidade, ai a curiosidade...
Onde “Ring” e “Grudge”, se encontram claramente interessados em utilizar a figura da mulher para corporizar todas as coisas demónicas, “Pulse” nunca aponta o dedo a nenhum personagem, preferindo escapar às instigações de uma sociedade patriarcal. Quando os créditos iniciais são apresentados já a maquinaria avança a todo o vapor: os personagens pertencem a uma estória superior a eles. Ao contrário de 99,9% de todos os filmes produzidos, os personagens que vemos no ecrã não são o centro do mundo.  Também não são procuradas respostas no sentido tradicional. Enquanto o retorno ao passado surge como a redenção natural nos filmes anteriores, os personagens de “Pulse” têm o instinto mais apurado para o tempo presente. Infelizmente, a audiência não está alheada da experiência e exige respostas para seu descanso. O ser humano não lida muito bem com ausências e se não tiver as informações que necessita racionaliza. Pois isto é tudo quanto nos resta deste filme do Kiyoshi Kurosawa. Apenas podemos supor quais seriam as suas intenções de aproximação bastante Lynchiana. E Kurosawa é muito mais que um realizador de filmes de terror. Apelidar “Pulse” como um filme somente de terror, não é só redutor como ingénuo. Basta examinar outros esforços do realizador como “Cure”, “Loft” ou “Retribution”. E admitir que a sua visualização não é fácil é um eufemismo. Apesar de se abrir a porta para uma reflexão sobre a solidão e o isolamento da sociedade por influência directa dos equipamentos produzidos pelo ser humano para seu entretenimento, em última análise é a falta de foco que trai “Pulse”. O filme inicia-se com uma vaga de suicídios. Pelo final, nem suicídios nem corpos, apenas uma mancha negra, no sítio onde estariam os desaparecidos. O mais assustador talvez nem seja aquilo que não vemos no ecrã mas as impressões. Onde estão todos? Três estrelas.

Realização: Kiyoshi Kurosawa
Argumento: Kiyoshi Kurosawa
Haruhiko Katô como Ryosuke Kawashima
Kumiko Asô como Michi Kudo
Koyuki como Harue Karasawa
Kenji Mizuhashi como Taguchi
Kurume Arisaka como Junko Sasano

Próximo Filme: "Sex is Zero" (Saekjeuk shigong, 2002)

domingo, 30 de setembro de 2012

Corazon: Ang unang aswang, 2012


No campo dos monstros lendários, o povo filipino não fica atrás dos seus vizinhos do sudeste asiático. Por entre mulheres despeitadas e mortos que regressam à vida, também há monstros que comem criancinhas. Por que não existe nada melhor para convencer o povo a não cometer actos moralmente condenáveis, do que afirmar que um monstro assassino virá atrás deles. O aswang é um monstro genérico, pode ser aplicável a qualquer contexto: “olha que a bruxa te vai apanhar”, “vê lá se o vampiro não vem atrás de ti”…
Por isso, inventar uma qualquer estória para o surgimento do Aswang quase que pode ser inscrita no imaginário popular. Corazon: Ang unang aswang, tem por base uma vila ficcional na qual Corazon (Erich Morales) vive com o marido Daniel (Ramsey). No pós 2ª Guerra Mundial, as pessoas estão amedrontadas e mais supersticiosas que nunca. “Faz aos outros, antes que te façam a ti”, parece ser a mentalidade geral, o que não abona muito a favor deles. Aliás, qualquer um que desafie o pensamento dominante é imediatamente afastado e são-lhe atribuídos os piores defeitos e acções. No meio de tanta insanidade, Corazon vive com Daniel um romance agridoce: por diversas vezes ficou grávida e nenhuma foi até ao fim. Com as pessoas a vê-la como um mau augúrio e praticamente sem apoio que não o marido, Corazon vê no nascimento de um filho o único modo de aplacar a população cada vez mais hostil e refugiar-se no mundo do amor incondicional entre mãe e filho. Desesperada, recorre mesmo a uma mulher tida como bruxa para preencher o vazio.
O que é tida como a última solução torna-se um pesadelo quando Corazon perde mais uma vez o feto. Amargurada com o facto de a população estar cada vez mais unida contra ela e a desilusão de Daniel por perder mais um filho, Corazon vira-se para as trevas dentro de si, seu único consolo. A doce, inocente Corazon passa de bestial a besta. Se Erich Morales é convincente em ambos os papéis, não deixa de ser a transição que mais choca. Como é que alguém se transforma numa besta comedora de criancinhas? Que ela virasse toda a raiva e dor contra os aldeões ignorantes a sua fúria implacável é mais provável e acessível do que magoar a sua descendência. Para os magoar? É capaz de ser um pouco extremo não?
Mais estranha é a incapacidade de Daniel, que durante metade do filme para inteligente e capaz, perceber que a mulher é a causadora do mal que assola a terra. E ainda mais surpreendente é a reacção de Daniel à verdade: aquela é a mulher que ama, daqui até ao fim do mundo. Um sentimento meritório, não fosse ela um monstro! Eis que Corazon: Ang unang aswang que até ao momento era um filme de terror passa a romance dramático e a audiência já não sabe o que fazer. Chorar lágrimas de crocodilo pelos apaixonados amaldiçoados? Clamar por vingança pela perseguição de crianças? Por muito boa vontade que se tenha é difícil não apoiar a segunda facção pelo que o argumento, defensor fervoroso dos amantes não tem senão apoiar-se no ridículo. Apesar de uma cinematografia irrepreensível e de uma dupla cuja química se sente fora do ecrã é impossível ignorar que “Corazon” não mete medo a ninguém. E mesmo quando está despenteada e de andrajos, Erich é daquelas mulheres que não ficam feias de modo nenhum. É nestas alturas em que nem a magia do cinema consegue fazer um dos seus milagres. Uma estrela e meia.
Realização:  Richard Somes
Argumento:  Richard Somes e Jerry Gracio
Erich Morales como Corazon
Derek Ramsay como Daniel
Mark Gil como Matias
Tetchie Agbayani como Melinda
Maria Isabel Lopez como Herminia

Próximo Filme: "Pulse" (Kairo, 2001)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Top 10: Edifícios Assombrados


Acumulei algumas queixas desde a última lista, de que não recorria o suficiente a este tipo de doces à navegação. Na verdade não fizemos muitas listas até ao momento, mas elas tiveram um impacto que não esperava de todo. No nosso top de entradas mais vistas deste blogue figuram algumas dessas sugestões. Se quiserem recordar, por cá figuram:

Top 10: Assassinos Mascarados
Top 5: Monstros do Cinema Asiático 
Top 12: Realizadores de Cinema de Terror Asiático
Top 10: Revelações mais Chocantes
Top 5: Filmes para ver no dia de Halloween 
E uma entrada de que poucos se aperceberam: Top 10: Filmes de Desporto, como bónus escondido da apreciação a “Waterboys” (2001).

Em jeito de recuperação desta tradição “perdida” retoma-se aqui um dos meus conceitos preferidos, francamente sobre explorado e mal explorado pela maioria dos filmes de terror: o edifício assombrado. Se me desse ao trabalho (e tivesse tempo para tal), podia à vontade, enumerar uma centena de títulos com esta característica tão distintiva dos filmes de terror, sendo, que uns 80% seriam porcaria pura. E para demonstrar que esta tendência continua tão viva como antes, basta dizer que este ano no Festival de Terror de Lisboa - MOTELx, dos seis títulos que tive oportunidade de ver, dois tinham por pano de fundo uma casa assombrada! Imaginem então, quantos mais não houve. DISCLAIMER: a lista não se encontra organizada por nenhuma ordem específica. Não me venham cá apedrejar por que referi um em primeiro lugar e o outro está em sétimo.

1) “The Haunting of Hill House” (Reino Unido, E.U.A., 1963) – Para muitos este é o filme sobre edifícios assombrados original. Uma mansão isolada do século XIX, repleta de estórias de miséria e morte já são motivo suficiente para qualquer um desejar permanecer o mais longe possível do lugar. Então, quando um investigador do paranormal decide juntar o único herdeiro sobrevivente da casa e duas mulheres com habilidades para comunicar com o outro mundo, está bem de ver que os fantasmas que lá residem vão despertar… Tem uma das cenas mais memoráveis na criação de terror, recorrendo apenas às expressões dos actores e a duas linhas de diálogo. Existe momento mais assustador do que quando uma Eleonor amedrontada se apercebe que não era a mão confortadora de Theodora que agarrara naquela noite. “Céus! Céus! Que mão estava eu a agarrar?”

2) “Haunted Changi” (Singapura, 2010) – Aparte um cemitério, o hospital é capaz de ser um dos locais mais naturalmente vocacionados para a criação de temor nas mentes das pessoas. O velho Hospital Changi é uma das matérias-primas para o subgénero found footage mais felizes de todas. Este edifício abandonado, com cerca de 80 anos de estória, já foi reconvertido por diversas vezes, foi um quartel militar e também já atravessou dois povos invasores (britânicos e japoneses). Que estórias não escondem aquelas paredes? Em “Haunted Changi” o hospital foi convertido, tal como se apresenta nos dias de hoje, devoluto e vandalizado, no cenário para uma estória de assombração a um grupo de corajosos decidido a desvendar e documentar os segredos do hospital. “Haunted Changi” é na maior parte um fracasso e funciona melhor, quando, sem dramatização, a câmara se limita a documentar as paredes danificadas. Como se elas começassem a falar em qualquer momento.

3) “The Shining” (E.U.A.,1980) – E por falar em imaginação, o prolífico e híper-imaginativo autor de terror, Stephen King, escreveu a matéria para um dos filmes que alguns consideram o melhor de Kubrick. Uma família, um casal e o filho dirigem-se para um hotel isolado durante o Inverno, durante o qual, o pai Jack espera escrever calmamente o seu próximo livro. O filho Danny, um sensível, apercebe-se que residentes no hotel de outros tempos, não estão muito satisfeitos com a presença deles ali. Enquanto isso, o isolamento geográfico e as outras "presenças" começam a afectar a sanidade de Jack e a levá-lo, lentamente, à loucura. Entre os misteriosos habitantes do hotel estão uma velha encarquilhada e o par de gémeas mais creepy de sempre. Se uma já pode parecer assustadora existir um duplicado ainda pior é. Encurralados por um nevão, resta saber quem irá atacar Wendy e o seu filho primeiro, se Jack ou os antigos residentes. Ah e adoro o facto de no meio disto ser a mulher do casal a única com a capacidade de discernimento (vagamente), intacta.

4) “The Grudge” (Japão, 2002) – Um número extraordinário de personagens e uma casa que guarda um ressentimento além morte. Só nos recordamos de um punhado de personagens por altura do final. Este lar contrasta com as típicas mansões vitorianas de inúmeros filmes, dos quais, um dos mais recentes é “The Woman in Black” (2012). Esse tipo de mansões carregam uma aura austera própria da época já de si propicia a causar temor. Por isso, no cenário mais improvável, uma vivenda de arquitectura japonesa, tão pictoresca que só podia fazer parte de quadro. E, no entanto, todos quantos passam da soleira da porta da rua, terão um final agonizante. É a casa, o local do crime é ela que transporta a maldição que afecta todas as personagens que até podem nem ter nenhuma ligação entre si. Com um efeito tão forte e aleatório a questão que se coloca não é “se” mas “quando” e, a julgar pelo “como”, tenham muito, muito medo.

5) “The Others” (Espanha, 2001) – Vá de admitir que não sou a maior fã da Nicole Kidman. Ela adora passar por naïf, quando se sabe que, bem lá no fundo existe uma cabra à espera de vir cá para fora. Por isso, um papel onde a sua personagem é uma fanática do controlo assenta-lhe que nem uma luva. Com o final da IIª Guerra Mundial, Grace encontra-se numa mansão com os dois filhos menores, à espera que o marido combatente se junte a eles. Com uma doença que impede os pequenos de ficar expostos à luz solar ela fecha todos os compartimentos da casa como se de uma prisão se tratasse. Um descuido pode redundar na morte das crianças e ela, como controladora que é, não admite a menor falha. Enquanto “The Haunting of Hill House” assenta no terror baseado na descrição das impressões sentidas pelos actores, “The Others” é claustrofóbico, constituindo a mansão um dos actores principais.

domingo, 23 de setembro de 2012

Sessão Especial MOTELx - parte 2


Dia 3: “The show must go on” – 14 de Setembro

“Livid”, 2011 - França

O 3º dia do festival de cinema de terror de Lisboa foi uma animação. Além da presença do senhor Julien Maury (Inside, 2007), no palco da sala Manoel de Oliveira, ao vivo e a cores, a audiência teve direito a assistir a uma versão de “Livid” que até à época, só era conhecida pelos que frequentaram a sala de montagem. Mas não foi nada tão grave que deixasse a audiência lívida foi antes um momento insólito e divertido e, um momento de alívio tão necessário face à atmosfera tão pesada que por aquela altura envolvia a sala. Depois desta interrupção, a mim, ninguém me apanhou a tremer na cadeira!
Mas passando ao filme, é incrível como as pessoas se transformam quando ouvem falar em dinheiro. São capazes de adoptar as atitudes mais irracionais e perigosas. Podem até ultrapassar os limites da moralidade e da legalidade. No centro da intriga está uma mocinha bem bonita por sinal. Um das curiosidades deste Festival foi que “Livid” não seria o único filme onde a protagonista tem olhos de cor diferente, pese embora, o efeito em Lucie (Chloe Coulloud) seja bastante mais acentuado – um olho castanho e outro verde. No primeiro dia de estágio como enfermeira prestadora de cuidados ao domicílio, acaba por visitar centenária em coma Jessel, em cuja mansão se deverá esconder um tesouro. Entusiasmada com uma estória digna de uma grande aventura, acaba por se descair e revelar a hipótese ao namorado Will e ao melhor amigo de ambos. Acicatados pela possibilidade de uma vida confortável até ao fim dos seus dias eles decidem quebrar todas as regras: vão introduzir-se na casa onde apenas habita a velha em estado vegetativo e vasculhá-la até encontrar o tesouro. Repito: espanta-me a disponibilidade das pessoas para cometer actos imorais. Provavelmente não se conhecem as pessoas assim tão bem. Se calhar até estão dispostas para isso e muito mais. Depois e, outro grande problema, a meu ver é a rapidez com que se passa da conspiração à prática. Talvez se devesse tentar comprovar o rumor, depois talvez investigar as possibilidades quanto à localização do tesouro. Por fim, não sei, se calhar até era mais fácil fazer a caça ao tesouro durante um fim-de-semana. Mas nem tudo é mau. A atmosfera dentro da casa é enervante. Não sei como uma pessoa aguentaria um minuto lá dentro quanto mais uma noite inteira. E a casa não tem, de todo, a aparência de abandono. As paredes estão repletas de quadros e fotografias, o quarto da única filha de Jessel ainda tem os bonecos de brincar e os animais empalhados na sala, parecem seguir-nos com os olhos… Uma piscadela ao “Evil Dead”? O elemento medo está lá, mas chega a uma altura em que as hipóteses apresentadas se tornam cada vez mais remotas e se torna difícil criar um sério comprometimento com este filme. A suspensão da crença é essencial mas até onde consegue uma audiência ir? Por outro lado, dou por mim a reflectir sobre os finais cada vez mais insatisfatórios. É por causa da falta de criatividade generalizada ou um grau de exigência elevadíssimo de quem já viu quase tudo? Três estrelas.

Dia 4: “O Palco foram as ruas de Lisboa” – 15 de Setembro

Creio que a imagem diz tudo. “Emergo” cá me fica, para nova oportunidade.

Dia 5: “Final demasiado rápido” – 16 de Setembro

Apesar de uma primeira sessão lenta devido ao grande envolvimento com o filme, quando dei por ela, já o festival tinha terminado. Embora com aquela sensação de geekyness interna por ora satisfeita, é como se o festival tivesse terminado demasiado rápido. Pode não ter sido o ano perfeito quanto a alguns pormenores técnicos mas houve um crescimento em termos de maturidade. Há dois ou três anos, por exemplo, não conseguia imaginar não fãs de terror a assistir a algumas sessões. Há títulos, dentro do género de terror que são perfeitamente acessíveis a pessoas que têm dúvidas quanto ao género. O terror não foi sempre de carácter pornográfico, explícito, existindo bastante espaço para o comentário social e reflexão durante e pós-visualização. De resto: tremeliques? Visto. Saltos na cadeira? Visto. Risos nervosos? Visto. Sucesso.

“The Pact”, 2012 – E.U.A.

Sejamos directos sim? Este foi o meu filme preferido em todo o festival. Atenção, preferido dos filmes que vi no MOTELx, por que “The Raid: Redemption” (2011) e “Revenge: A Love Story” (2010) assisti antes. “The Pact” não é o filme mais original dos últimos anos. De facto, com sequelas infindáveis de “Paranormal Activity” e famílias que se mudam para mansões assombradas que nunca devem ter visto um filme do género antes, material do género é coisa que abunda por ai. “The Pact” não dispôs de um orçamento de milhões, nem de estrelas com tiques de divas para estragar o resultado final. O melhor foi mesmo a protagonista Caity Lotz cuja beleza gélida, me fez recordar uma das musas do Hitchcock, Tippin Hedren. Comparem as fotografias das senhoras e em seguida, observem a frieza que ambas emanam, quais rainhas de gelo. Apenas a beleza para descongelar uma eventual recepção gelada.
De louvar a coragem de McCarthy logo no inicio, suspense desde os primeiros minutos, quando substitui a personagem principal Nicole (Agnes Bruckner) por Annie (Caity Lotz). Após a morte da mãe de ambas, Nicole pede Annie que regresse à casa da família para a ajudar com os preparativos. Annie hesita mas acaba por retornar para verificar que a irmã desapareceu. Ela é uma mulher martirizada tal como Nicole que se envolveu nas drogas após uma infância traumatizante. A casa onde viviam com uma mãe religiosa austera está repleta de memórias que não a deixa à noite dormir. Antes do pesadelo começar em “tempo real” já elas tiveram uma vida difícil. Nicole revela-se uma mulher inconstante e Annie recusa uma palavra amiga de qualquer um e, de todos, desconfia. Com mentes já de si tão atormentadas e uma casa que já carrega uma forte carga negativa, que mais podem esses recantos esconder, para continuar a senda de destruição de vidas? Para um novato McCarthy demonstra uma direcção de actores bastante competente conseguindo, (imagine-se só que alguma vez faria esta afirmação), que Casper Van Diehn soe minimamente credível. Ele também concretiza uma reviravolta que quando sucede, o filme não perde o rumo nem se torna menos perturbador. Uma dica: atentem às pistas. Quatro estrelas.

“Babycall”, 2011 – Noruega

Não há duvida que a Noomi é a actriz do momento. Mas neste momento não sei se o melhor de Rapace não reside mesmo nas personagens problemáticas. Por que já em Prometheus a sua frágil Shaw não convenceu. Em Babycall a sua personagem é afectada, deglamorizada e um pouco louca a maior parte do tempo, de modo subtil. Desta feita, ela é Anna, uma mulher vítima de violência doméstica que se refugia num bloco de apartamentos com o filho Anders para escapar ao marido abusivo. Para garantir que tem Anders ao seu alcance protector Anna compra um monitor de bebés. Um dia ela ouve o grito de outra criança que não o filho. Sabendo que o filho é tudo quanto lhe resta e o poderá perder a qualquer momento, visto que ela própria tem os seus demónios ela decide investigar um pouco mais… “Babycall” é um daqueles filmes: “eu bem te avisei”, em termos de previsibilidade. As curvas e contracurvas que o argumentista nos atira pelo caminho para despistar, apenas acentuam as sensações iniciais. O problema de “Babycall” nem é sabermos que o final antecipado ocorro mas o facto de o caminho para lá chegar é penoso. Pouco ou nada de terror terá, excepto o psicológico como a possibilidade de perda de um filho ou da nossa própria sanidade. “Babycall”, nada tem de especial para nos oferecer na viagem de 96 minutos que ainda podia ser mais curta. Nem sequer tem algo de reconfortante, uma réstia de esperança para nos oferecer apesar duma vaga imagem de reposição de justiça. Quanto a vós não sei mas o desespero é uma das piores sensações para se ficar quando se sai de uma sala de cinema… Duas estrelas.

Próximo Filme: (?)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sessão Especial MOTELx - parte 1


Dia 1: Genérico Inicial – 12 de Setembro

“The King of Pigs” (Dwae-ji-ui wang, 2011) - Coreia do Sul

Apreciando terror como é do conhecimento geral, ou pelo menos, de quem aqui passa, decerto não passou despercebido como tive vontade de ficar todos os dias, todo o santo o dia, lá dependurada. Infelizmente houve algumas falhas graves que irei tentar colmatar, não digo nos próximos dias mas, talvez, durante os meses seguintes. Ouviram, “Emergo” e “American Mary”? O que se segue é pois o pequeno somatório das experiências cinematográficas que acumulámos (eu e os meus acompanhantes), durante os cinco dias de festival. Refeita de uma sessão pré-festival com direito a piadas sobre tarados que invadem salas de cinema aos tiros e um dos piores filmes de que tenho memória de assistir no São Jorge (“Urban Explorers” - tenham muito, mas muito medo), fiz-me então à primeira sessão que pude com exagerado optimismo. Digo exagerado porque “The King of Pigs” (2011) é capaz de ser um dos filmes mais deprimentes do festival e, aqui, notem que não estou a recorrer à hipérbole. Este filme de animação não é aconselhável a pessoas à beira do suicídio. Admitamos que até uma pessoa já com a corda ao pescoço, enquanto ouve a melodia “Baby join me in death” dos Him, tem menor probabilidade de se matar do que quem assiste, com uma já valente depressão a “The King of Pigs”. Agora, não me entendam mal, eu não disse, em nenhuma altura que “The King of Pigs” é mau, tão-somente não é adequado a pessoas num estado de espírito tão especial. Este filme é um recordar daqueles momentos que a maioria de nós estudantes, sem nenhuma habilidade particularmente boa para repelir rufias preferia enclausurar nos recantos mais distantes do hipocampo. Dois estudantes, Kyung-min (Jung-se Oh) e Jong-suk (Ik-june Yang), que acabaram por nunca fazer nada espantoso na vida adulta, recordam os velhos tempos de escola em que sofriam na pele os abusos dos “cães”. O mal de existirem “cães” é o facto de haver “porquinhos”. E estes passavam pelas sevícias mais cruéis, a pretexto de serem pobres, desengraçados, estarem naquela “idade esquisita” ou, só por que sim. Eles recordam ainda com saudade, o único colega que teve coragem de fazer frente aos agressores e toda a série de consequências que gerou tal afronta. Eles acabaram por nunca ultrapassar por completo aqueles eventos que os fizeram tornar-se homens mais cedo, cicatrizados, a nível psicológico, isto é. “The King of Pigs” é uma animação mas desencante-se quem pense que irá assistir a um filme inofensivo. Afinal de contas, o Motelx sempre é um festival de cinema de terror! “The King of Pigs” é de uma violência brutal, não só pelo que é demonstrado, mas também, pelo que se sugere. E é no poder de sugestão, mais pela via da reflexão, que se desferem os golpes mais profundos. É difícil não nos perguntarmos por que terá passado o argumentista desta animação (Sang-ho Yeon) e, de que lado da cerca se encontrava. Qualquer das hipóteses é aterradora. Quanto à animação em si, o facto de esta ser limitada e, por vezes, aquém dos níveis de qualidade a que estamos habituais no médium comercial, é inócua em termos de análise final. Esta é uma estória com mais conteúdo que outros concorrentes da animação e de live-action e é por ela que deve ser avaliada. Quem quiser deixar os fantasmas do passado dentro do armário deve afastar-se deste filme. Aqueles que quiserem defrontar um passado mal resolvido ou, tão simplesmente se vêem incapazes de levar com seriedade o mundo ficcional, podem e devem submeter-se ao terror de “The King of Pigs”. Três estrelas e meia.

Dia 2: “Vogue Fashion’s Night Out” – 13 de Setembro

Na verdade o título é só para despistar, mas esta noite tão especial coincidiu com o evento de moda mais “street” do ano. Yep. Os streetwalkers eram aos milhares, passe a piadinha ordinária. Na sala de cinema Manoel de Oliveira do São Jorge a estória era outra. Sim, a sala estava à pinha mas o participante era mais tipo pé descalço e não daqueles que veraneiam pelas ruas da baixa lisboeta, procurando a última novidade Prada ou Chanel. Mas não me creiam amargurada. Ver um filme tailandês, em estreia no grande ecrã português, é uma novelty que só um verdadeiro amante de cinema pode apreciar.

“Laddaland” (2011) - Tailândia

“Laddaland”  foi o maior sucesso de bilheteira tailandês o ano passado. Não é de estranhar, ao leme estava Sophon Sukdapisit que só tem créditos em filmes como “Shutter” (2004), “Alone” (2007), “4bia” (2008), “5bia” (2009) e “Coming Soon” (2009), qualquer deles aqui já apreciados. Ora, se à partida ia predisposta a aceitar um bom filme de terror, a verdade é que não esperava, por nada, um bom filme dramático. A isso deve-se o trabalho da argumentista de serviço, Sopana Chaowwiwatkul e a uma boa direção de actores. “Laddaland” é uma versão de um sonho americano desfeito. Thee (Saharat Sangkapreecha) é um pai de família com um único objectivo em vista: juntar toda a sua família numa casa confortável, paga por ele. Na família reina tudo menos o conforto. Sobre a felicidade conjugável paira a suspeita de que Parn (Piyathida Woramuksik) traiu o marido com o anterior patrão. E Nan (Suthatta Udomsilp), além de estar na idade perigosa, da adolescência, não esquece o sentimento de abandono provocado pelo facto de ter sido criada pela avó, já que os pais não tinham capacidade económica para tal. Apenas Nat (Apinya Sakuljaroensuk), como criança que é, está alheio a estes sentimentos e rancores. Por entre uma família cuja coesão é apenas aparente, o condomínio Laddaland esconde bastantes segredos, tais como o assassinato de uma criada birmanesa que nem depois de morta mostra sinais de querer abandonar o local. “Laddaland”, por mais assustador que possa ter sido e, vi muitos homens adultos saltar na cadeira e largar risos nervosos, enquanto as companheiras se aguentavam estoicas, não é um filme sobre o medo. Quer dizer, não sobre o medo do sobrenatural mas antes da desagregação da família, do perder do controlo dos afectos e de estes quebrarem irremediavelmente. Enquanto os familiares insistem para deixar Laddaland, Thee continua agarrado ao sonho. Por mais que as assombrações se tornem regulares e cada vez mais assustadoras, é mais importante manter a casa. A casa é o sonho. Mesmo que o emprego pareça demasiado bom para ser verdade, mesmo que todos os outros fujam. Por que a casa é o símbolo do que Thee foi capaz de fazer pelos seus entes queridos. Sem ela não tem nada para mostrar. Será que ele terá a capacidade de se afastar antes que seja tarde demais? Poderá ele abandoná-la antes que se revele o pior dentro de todos eles? Três estrelas.

“The Tall Man” (2012) - E.U.A.

Claro que nada me poderia preparar para a sessão seguinte. Não posso. Juro que não. Eu tentei com todas as forças deste físico com 58 kg. O senhor “Martyrs” (2008) afastou-se tanto desse filme que por pouco o não reconhecia. A partir da primeira reviravolta, cada músculo do meu corpo se contraia em descrença. Não podia ser assim tão mau. O primeiro problema de “The Tall Man” é a associação ao slenderman ou o homem esguio vá, não sei como se diz em português. Vamos lá desmitificar o pessoal, sim? Este filme não tem nada em comum com o personagem da lenda urbana. O tipo que aparece no meio do mato e nos faz enlouquecer de medo não faz uma única aparição em “The Tall Man”. Ele é, como o nome indica, um homem alto. Ponto. E “The Tall Man”, (também não se deixem enganar por isto), não é um filme de terror. Não, no sentido clássico. É um filme de terror se pensarmos no horror que poderá ser assistir a este filme. Isso e ver a Jessica Biel tentar representar. Como diria um velho amigo, (não é antigo, ele é mesmo velho), “a Biel só tem dois grandes talentos e eles foram bem visíveis no filme com o Sandler” ("I now pronounce you Chuck & Larry", 2007). Ela fala e… grilos. Ou isso ou o discurso que ela faz a dada altura sobre as criancinhas é assim a modos que triste, no sentido em que dá vontade de rir à gargalhada. Até uma miss teria uma actuação melhor. A Biel não deve ter visto muitos discursos de misses sobre a fome e as criancinhas e África. Ela até faz uma bonita feia, assim simples e sem maquilhagem mas isso não é nenhum esticão para qualquer actriz. Enfim, às vezes até parece competente e, assim foi, até à primeira reviravolta, o momento que marca o início do descalabro. Realmente, até ali existia alguma tensão, mistério e os momentos de acção foram bastante sólidos. Aparte talvez a sua personagem Julia ser atirada contra tudo e mais alguma coisa, sofrer um acidente de viação e mesmo assim não partir um osso do corpo. Depois claro, mas isto creio que é um apontamento apenas para os ingénuos, não há qualquer momento de brutalidade tal como em “Martyrs”. Todos os momentos de “violência” são bastante mais estilizados à la Hollywood. Alguém ainda acredita que Hollywood se arriscaria a criar um filme tal, que afugente as camadas mais jovens? Ah, quanto à estória, essa, até já me esquecia, é sobre Cold Rock, uma cidade perdida no interior dos Estados Unidos, atacada pelo flagelo da pobreza, onde as crianças começam a desaparecer misteriosamente. Diz que foi o “Homem Alto” que as levou. Onde há pessoas há sempre teorias parvas e ninguém tem o bom-senso de chamar a cavalaria! Até a Jodelle Ferland (Alessa e Sharon em “Silent Hill”), que interpreta uma pré-adolescente desconectada da realidade, parece penosamente deslocada! Laugier, que foste tu fazer? Uma estrela e meia.

Próximo Filme: “Sessão Especial MOTELx – Parte 2”
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