domingo, 6 de maio de 2018

"A Silent Voice" (Koe no Katachi, 2016)


“A Silent Voice” que também é conhecido internacionalmente como “Shape of Voice” – vi esta animação poucas semanas depois de o “The Shape of Water”, na MONSTRA e acreditem que a minha cabecinha teve de fazer um rewind para não confundir as coisas – foi um dos maiores êxitos de bilheteira no Japão em 2016, baseado, para não variar, numa manga japonesa. O sucesso do filme não será alheio a factores como um certo despudor para o visionamento do cinema de animação por públicos mais adultos e ainda ao tema tão pertinente no país como o “bullying”. Os casos de bullying são transversais à sociedade japonesa. A cultura do pensamento colectivo, do silêncio do desconforto individual produzem vítimas em idades tão jovens desde o jardim-de-infância à universidade, transpondo-se depois para o mercado de trabalho.

“A Silent Voice” tem um início deprimente. Shoya (Miyu Irino) faz os preparativos para a sua morte anunciada e resolvida no seu âmago. É um rapaz calado e anti-social que passa despercebido e também não pretende ser notar. Mais vale evitar conflitos. Não raras vezes, veremos Shoya a olhar para os pés, querendo evitar qualquer contacto visual e rodeado de pessoas com uma cruz sobre os seus semblantes. São as pessoas a ignorar, não conectar, a todo o custo evitar. O seu comportamento transporta-nos para a escola primária. Dir-se-ia que ele tinha sido alvo de bullying ao longo de toda a sua existência. Na verdade ele começou por ser um. Quando Shoko, uma nova aluna surda chegou à sua aula, o então inquieto, barulhento, sem noção e incapaz de transmitir os seus verdadeiros sentimentos Shoya faz dela o alvo principal das suas partidas. Essa história tem um fim quando Shoko acaba por ser transferida para outra escola por não aguentar mais os abusos. Censurado por professores e colegas, Shoya acaba por se tornar vítima do seu próprio veneno, retirando-se para o seu interior, onde tudo é mais suportável até se tornar um jovem adulto. No entanto, o seu caminho volta a cruzar-se com Shoko e a sua família, os velhos amigos que lhe dificultaram a vida e ainda outros que permitem a Shoya encontrar o verdadeiro valor na sua vida e se sempre haverá a possibilidade de expiação de pecados.

Esta animação tem menos de espectáculo que de introspecção. Não me entendam mal, que a animação é tão competente e belíssima quanto costuma ser regra no cinema japonês, a abordagem é que se foca mais na narrativa que na forma. “A Silent Voice” revela-se uma reflexão interessante sobre o bullying pois foca diversos pontos de vista, incluindo um central que não é tão habitual que é o de quem comete bullying, ainda que Shoya seja um bully arrependido. Entre as diversas questões que a animação levanta, estão, por exemplo: até quando se deve carregar o fardo da culpa por eventos cometidos há muitos e muitos anos. Shoya era um miúdo imaturo e parvo quando fez mal a outra criança e acabou por sofrer a vida toda por isso. Contudo, Shoya não era o único a fazê-lo e acabou por ser o único a ser castigado. Mesmo após diversas trocas de argumentos já em jovem adulto com os colegas, esses continuam a não querer aceitar que tiveram um papel activo no bullying de Shoko recriminando-a até pelo seu sofrimento e do de Shoya. Duas vezes vítima. Serão eles melhores que Shoya quando nunca assumiram as suas acções erradas e acabaram depois por fazer o mesmo a Shoya quando este foi “apanhado”? “A Silent Voice” é conducente a uma reflexão ainda mais pessoal do espectador, pela sua própria experiência enquanto vilão ou vítima em situações similares. Será Shoya uma figura trágica digna de empatia ou é ainda e sempre um monstro? Perdoar? Esquecer? Tudo isto é tão mais amplificado quão doce é a sua vítima Shoko. Apesar de tudo quanto lhe aconteceu nunca foi capaz de “lutar” contra Shoya por quem sente carinho.
Em comum entre todos os personagens está o profundo desejo de conexão, aquele que tão desesperadamente se procura durante toda a juventude e até eventualmente pela vida adulta fora. É ainda um retrato muito realista das desventuras da juventude pois a acção nos locais que se identificam com ela, na escola, em casa, na rua, no parque, na feira popular… É muito difícil não apreciar o mérito de reprodução daqueles momentos tão fulcrais na construção da personalidade, de “A Silent Voice” mesmo quando este se torna tão histriónico quanto a vida interior adolescente e até um poucochinho demais delicodoce. Três estrelas e meia.

Realização: Naoko Yamada
Argumento: Reiko Yoshida, Yoshitoki Oima (manga) e Kiyoshi Shigematsu
Miyu Irino voz de Shôya Ishida
Saori Hayami voz de Shoko Nishimiya
Aoi Yûki voz de Yuzuru Nishimiya
Kenshô Ono voz de Tomohiro Nagatsuka
Yûki Kaneko voz de Naoka Ueno
Yui Ishikawa voz de Miyoko Sahara
Megumi Han voz de Miki Kawai
Toshiyuki Toyonaga voz de Satoshi Mashiba
Mayu Matsuoka voz do jovem Shoya Ishida

Próximo filme: "Tracer" (Truy Sat, 2016) 

domingo, 22 de abril de 2018

The Eyes of my Mother, 2016


Francisca (Olivia Bond) vive no campo com o pai (Paul Nazak) e a mãe (Diana Agostini). Bastante mais velhos, eles parecem ter tido a menina fora de tempo, quase como se não esperassem já ter filhos. A mãe tinha sido cirurgiã em Portugal. A dada altura decidiu mudar-se para o mundo rural na sua vertente mais solitária na América profunda. Ataca os problemas dos animais com a mesma abordagem clínica com que tratava os seus doentes e não se escuda de o fazer diante da filha. Francisco tem o conhecimento de coisas como o interior do olho humano ou como decapitar uma vaca, detalhes seriam mórbidos e desadequados para qualquer criança. Um dia Charlie (Will Brill), um forasteiro bate à porta da sua casa isolada e assassina de forma brutal a mãe de Francisca. O pai depara-se com o cenário macabro ainda a desenrolar-se e espanca e acorrenta Charlie no celeiro. Francisca traumatizada, curiosa e sem o calor de um pai cada vez mais desconectado e incapaz de lhe mostrar o mundo, refugia-se no que aprendeu com a mãe pelos seus olhos de criança e inicia a experimentação no prisioneiro.

“The Eyes of my mother” é uma longa-metragem de parcos 79 minutos, a preto e branco, dividida em três capítulos: “Mãe”, “Pai” e “Família”. O primeiro capítulo é o mais importante para a formação de Francisca. Entre o amor da mãe que é a sua única fonte de carinho e os ensinamentos desta que incluem a prática clínica e a religiosidade e o ataque sociopata de que esta é alvo, o interior de Francisca é fraturado. Não é como se ela não pudesse já sofrer de tendências para a sociopatia mas não é como se assistir a um crime fizesse por mitigar um desequilíbrio já presente. Ela aborda a morte com uma abordagem clínica, movida por uma psique infantil. Por outro lado, o “Pai”, como evidenciado nesse capítulo, é uma figura presente apenas na forma física. O trauma afectou-o – prender o criminoso à sua sorte, ao invés de chamar a polícia não é o comportamento mais ajustado e deixar que a filha interaja e da forma como o faz com Charlie, revela no mínimo uma atitude displicente – mas a sua mente prefere esquecer o que sucedeu por completo, deixando a menina, para todos os efeitos, órfã de mãe e de pai. Francisca, na sua versão adulta, interpretada pela portuguesa Kika Magalhães sente uma profunda solidão que a faz querer conectar-se com outros seres a todo o custo, constituir uma “Família”, que a faz agarrar-se ao que tem mais perto de si: o assassino prisioneiro e as memórias de uma mãe amada que estão intimamente ligadas à morte e que nunca conseguiu processar de forma saudável.

Kika Magalhães, na sequência de uma Olivia Bond já de si perturbadora, está excelente. Ela imprime uma vulnerabilidade tal na sua Francisca, que as atitudes mais horrendas e que se vão intensificando até ao final anticlimático, desde a frieza do assassinato à impossibilidade de renunciar às suas vítimas já depois de falecidas ou um comportamento sexual desviante são, em certa medida “perdoadas”. Francisca nunca amadureceu em termos psicológicos. A consciência do que é o bem e o mal e do que é socialmente aceitável está danificada de forma irremediável, mas ela nunca demonstra ser motivada por maldade, apenas solidão. É triste e patética antes de temível ou sádica e no entanto, é todas essas coisas. A esplêndida palete de cores – a película está filmada a preto e branco – acentua a solidão e a confusão que se instala no estado mental de Francisca à medida que esta cresce. Teria sido interessante ter visto a psique de Kika desafiada e o seu comportamento desconstruído e nem sempre é credível a forma como Francisca consegue deixar provocar várias vítimas tendo uma aparência tão frágil. Ainda assim, desconcertante, “The Eyes of My Mother” assemelha-se em aparência talvez à obra de um Hitchcock mas a sensibilidade que a inspira pode ser mais rapidamente encontrada no brutal cinema de terror francês. Isto, sem mostrar uma gota de sangue vermelho. Três estrelas.
Realização: Nicolas Pesce
Argumento: Nicolas Pesce
Kika Magalhães como Francisca
Diana Agostini como Mãe
Paul Nazak como PaiOlivia Bond como jovem Francisca
Will Brill como Charlie
Joey Curtis-Green como António
Flora Diaz como Lucy
Clara Wong como Kimiko

Próximo Filme: "A silent voice" (Koe no Katachi, 2016)

domingo, 15 de abril de 2018

The Ritual (2017)

Cinco amigos reúnem-se para uma noite de copos em nome dos velhos tempos. Já não têm vinte e poucos anos, apenas trabalhos, mulheres e obrigações. A idade também pesa mas não deixam de planear as férias como antigamente. Ir a Ibiza? Noites de loucura? Talvez um destino mais calmo como a Suécia. Fazer porventura um percurso pedestre? Os papéis estão bem definidos: Hutch (Robert James-Collier) é o líder do grupo, resiliente e o problem solver de serviço; Dom (Sam Troughton) é aquele que se odeia ao fim de um dia de viagem mas é agradável durante todo o resto do tempo; Phil (Arsher Ali) é o pacificador, que dá menos nas vistas mas acaba por ser a cola que une o grupo e impede que quaisquer problemas alastrem; Luke (Rafe Spall) que, como em todos os grupos de amigos, é o que mais tenta adiar as responsabilidades de adulto e se vê ainda como o mesmo tipo dos tempos de juventude e, um último, Robert (Paul Reid) que acaba ainda por alinhar com este último colocando alguma moderação nos seus desvarios. Numa nota curiosa, do elenco fazem parte dois actores que participaram na saga “Alien”, Spall em “Prometheus” (2012) e Troughton em “Alien vs. Predator” (2004). A tragédia sucede e de cinco, os amigos de sempre passam a quatro. Um ano depois eles encontram-se na Suécia, em homenagem ao amigo caído. Fazem uma caminhada de culpa e expiação. A dinâmica destas amizades está fragilizada: o passeio irá voltar a uni-los de uma vez por todas ou, demonstrar, que talvez seja impossível recuperar o que se perdeu. Luke, em particular, nunca mais recuperou daquela noite. Carrega, além da mochila, o fardo da culpa. Ele devia ter morrido ou pelo menos morrer a tentar impedir a tragédia. Na floresta desconhecida já cansados de um percurso extenuante e da fraca preparação física tomam a pior das decisões: enveredar por um atalho, acabando por embrenhar-se na floresta onde se esconde um mal antigo.

“The Ritual” tem uma primeira hora de filme de excelência. Acerta em todas as notas. O elenco é apresentado de forma destrinçável, sem se alongar demasiado na sua exposição. Ao contrário do que tem sido padrão nos filmes do género dos últimos anos, os personagens não são todos idiotas detestáveis que merecem morrer das formas mais hediondas. São apenas humanos e o motivo que guia a sua acção – concorde-se ou não – é perceptível.
A fotografia – belíssima, diga-se de passagem –, é um elemento fulcral na construção do ambiente de horror permanente a que não é alheio o cenário da floresta imensa mas inerentemente claustrofóbica que evoca um “Descent” (2005), mas com personagens masculinos, com o tom pagão de “The Blair Witch Project” (1999). A par da cinematografia está o trabalho de sonoplastia. Os sons da floresta, com os seus ruídos naturais, seja de pássaros e de outros animais que não vemos, de ramos a partir-se, ou mesmo a total ausência de som, pode ser tão ou mais eficaz que uma composição musical mais robusta. É uma surpresa agradável tanto mais que se tornou um hábito irritante o surgimento de ruídos desarmónicos provindos de violinos ou pianos, quando se pretende provocar saltos na cadeira de uma audiência que está meio predisposta a assustar-se. Existem depois momentos em que a câmara incide somente sobre a paisagem e descobrimos que esta é tudo menos estática. Algo move-se na imagem e, nem temos de ter percebido o que sucedeu num dos cantos do ecrã, para saber, sentir, que existe ali algo que não é natural e não vem por bem ao encontro dos caminhantes.
Sem querer deslindar o vilão de “The Ritual” que é dos seus grandes motivos de interesse, a par de uma cabana onde, bem, quem viu “The Evil Dead” (1981) está mortinho de saber que não se entram em cabanas abandonadas em florestas no meio de nenhures; admitamos que ele é dos mais originais que têm surgido na sétima arte, se calhar não a despeito do orçamento mas por causa deste, que obrigou a equipa técnica a inovar, apenas comparável à fera de “Annihilation” (2018), que provocou reacções de pasmo e pavor em meio mundo.
“The Ritual” é realizado por David Bruckner, o argumentista e realizador dos segmentos que constituíram os pontos altos de “V/H/S” e “Southbound”. Não lhe conhecendo a obra seria difícil adivinhar a sua experiência limitada dado que acertou em tantas notas onde tanto outros realizadores com currículo mais preenchido falham. “The Ritual” perde algum sentido e direcção aquando da exposição do mal que paira sobre a floresta nórdica mas, para quem prefere um ritmo mais veloz, este acelera bastante no quarto de hora final, entrecortado com flashbacks de um subconsciente culpado. Conclusão? Se calhar deviam ter mesmo ido para os copos. Três estrelas e meia.


Realização: David Bruckner
Argumento: Joe Barton e Adam Nevill (livro)
Rafe Spall como Luke
Arsher Ali como Phil
Robert James-Collier como Hutch
Sam Troughton como Dom
Paul Reid como Robert

Próximo Filme "The Eyes of my Mother", 2016

sábado, 17 de março de 2018

"The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku 2001)


Comédia musical de terror. Se calhar é difícil vender um produto destes. E no entanto, em simultâneo, parece mesmo aquele tipo de produtos que só podiam sair do estranho Japão. “Happiness of the Katakuris” baseia-se na película sul-coreana “The Quiet Family”, realizada apenas três anos antes por Jee-won Kim cuja obra já foi mencionada por diversas vezes (“A Tale of Two Sisters” e “I Saw the Devil”, são alguns bons exemplos). Em “The Quiet Family” uma família proprietária de uma estalagem vê os hóspedes falecer, um após outro, nas circunstâncias mais infelizes. Desta feita, Takashi Miike apresenta os azarados Katakuris que arriscaram todas as finanças da família numa estalagem perto de uma antiga lixeira, com base no rumor da construção de uma estrada ali perto, de caminho para o Monte Fuji, pitadas de animação em stop motion e números musicais inesperados. O boom turístico não se verifica e os poucos hóspedes que por ali passam, acabam por falecer de modo inesperado para a família que decide em conjunto esconder os cadáveres. Se é um morto já é mau para o negócio imaginem dois ou três! Os eventos são narrados por Yurie (Tamaki Miyazaki) o elemento mais novo da família, a neta do patriarca Masao (Kenji Sawada) que observa os seus parentes com o amor inocente de uma criança, sem descurar a evidente excentricidade dos Katakuris. A família é assim composta por Masao, a sua amada esposa e por vezes voz da razão Terue (Keiko Matsuzuka); o filho com um passado de desonestidade Masayuki (Shinji Takeda); a filha divorciada e obcecada pelo amor romântico, a ponto da cegueira infantil Shizue (Naomi Nishida); a sua pequenota Yurie, o avô com acessos ocasionais de mau génio Jinpei (Tetsuro Tanba) e o cão Pochi.

A palavra que melhor descreve “The Happiness of the Katakuris” é: surreal. Inicia-se com uma sequência na qual uma personagem feminina come uma tigela de ramen, da qual sai um querubim em versão demoníaca que a ataca, numa das cenas mais insanas e, curiosamente, terríficas do filme. A cena inicia-se em formato live-action para logo se transformar numa animação stop motion de plasticina, que faz a transição para a vida não tão sossegada e sem intercorrências quanto isso dos Katakuris, a despeito de eles assim o desejarem. A personagem feminina nunca mais volta a aparecer no ecrã mas cedo se percebe que esse não será o acontecimento mais bizarro do filme.
As personagens desatam em cantoria ou prantos desalmados e desafinados nos momentos mais inesperados que ao invés de cómicos parecem desajustados num filme que é ele próprio desajustado dos tempos e das expectativas de quem viu o original coreano. A única constante é o intenso amor entre os membros daquela família apesar de estes serem dotados de uma patologia colectiva que os impede de tomar decisões acertadas. “The Happiness of the Katakuris” quebra algumas regras e Takashi Miike não é inexperiente no que toca à fuga de padrões. A sua carreira é certamente colorida mas “Katakuris” é, no mínimo divisivo. Enquanto posso apreciar o mérito no mix de géneros e de técnicas e sim, a alusão a "The sound of Music" e "Dawn of the Dead" ficam-se pelo fraco a incipiente, acaba por falhar no mais importante: ter sucesso enquanto comédia, quanto mais comédia musical de terror. Duas estrelas.

Realização: Takashi Miike
Argumento: Kikumi Yamaguchi e Ai Kennedy
Kenji Sawada como Masao Katakuri
Keiko Matsuzaka como Terue Katakuri
Shinji Takeda como Masayuki Katakuri
Naomi Nishida como Shizue Katakuri
Kiyoshirô Imawano como Richâdo Sagawa
Tetsurô Tanba como Jinpei Katakuri
Tamaki Miyazaki como Yurie Katakuri

Próximo Filme: "The Ritual", 2017

quinta-feira, 1 de março de 2018

"Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)


“Tale of Tales” é uma película apresentada em estilo mosaico composta por contos tão antigos que precedem os ilustres irmãos Grimm. Essas estórias integram “Il Pentamerone”, obra póstuma do poeta e autor Giambattista Basile do séc. XII, que se situam algures numa Itália imbuída do espírito do estilo Barroco.

“The Queen” – No reino de Longtrellis vive uma rainha (Salma Hayek) infeliz por ser incapaz de gerar um filho. Ao rei (John C. Reilly) basta-lhe o amor de casal mas ela não consegue aquietar aquela dor. Para cumprir o desejo violento de ser mãe, a Rainha convoca uma bruxa que afirma ser capaz de lhe dar o que pretende. No entanto, o preço por perverter as leis da natureza será elevado. Para uma vida nova terá de existir uma morte também.

“The Flea” – Um rei despreocupado (Toby Jones) deixa-se toldar pela obsessão com um animal de estimação invulgar: uma pulga. Esta cresce alimentada com todo o seu afecto e até sangue, ao mesmo tempo que negligencia Violet (Bebe Cave), a sua única filha. Após a morte do bicho o rei decide oferecer a mão de Violet em casamento a quem acertar num enigma. Rei e corte ficam chocados quando um ogre é o único a apresentar a solução correta e a pobre rapariga é forçada a casar com ele.

“The Two Old Women” – Em Strongcliff reside um rei (Vincent Cassel) que não consegue aplacar a sua luxúria constante. Um dia ouve uma voz angelical e fica obcecado por descobrir a quem pertence. A voz é de Dora (Hayley Carmichael) uma velha marcada pelas agruras de uma vida de trabalho duro e que tem por única companhia a tola irmã Imma (Shirley Henderson). Quando o rei bate à sua porta, Dora vê a oportunidade de ter por fim a possibilidade de conhecer o outro lado da sociedade, junto à elite, de paixão, riqueza e sem o esforço do quotidiano.

Se algo não faltou em “Tale of Tales” foi ambição. Cada um dos segmentos tem uma estória original, nunca antes adaptada ao cinema; em cada uma existem pelo menos um ou dois actores de peso e os cenários são tão fantásticos – com as ocasionais bestas míticas pelo meio –, que parecem saídos da fábrica de milhões, mais conhecida por Hollywood. A cinematografia e o design de produção, são o que melhor vende o filme. Os cenários são reconhecíveis, desde castelos italianos a bosques encantados e, ao mesmo tempo, estranhos o suficiente para enquadrar “Tale of Tales” no reino da fantasia. O seu calcanhar de Aquiles reside numa montagem trapalhona. É difícil destrinçar aquando da transição entre segmentos e a escolha por cortar certos segmentos em determinados locais também é duvidosa. Em alguns, a narrativa arrasta-se de tal modo que não fosse a beleza do que se vê no ecrã, seria caso para dormitar. Por outro, quando alguns dos segmentos aceleram o ritmo ou partem momentos de revelação cruciais passamos para a estória seguinte. No terceiro acto, quando todas as estórias são por fim interligadas, esse momento é o oposto de climático e é até desnecessário. Os segmentos ainda que não tivessem uma ligação narrativa tinham em comum o tema das obsessões tão fortes que consomem e dilaceram tudo no seu caminho pelo que a opção de reunir fisicamente os diversos reinos é redundante. Todas as personagens principais à excepção de Elias, em “The Queen” são profundamente imperfeitas ou têm graves falhas de carácter. A Rainha é profundamente egoísta e ciumenta. O rei que oferece a filha a um ogre é vaidoso e irresponsável. A própria princesa, com um destino tão triste, de início não é mais do que uma tolinha superficial. O rei de Strongcliff é incapaz de ver além da satisfação dos seus desejos primitivos. Dora não é mais do que o reflexo do rei, mas sob a perspectiva feminina, velha e pobre. E todos têm muito a perder só que não se apercebem até ser demasiado tarde. A vida tem lições de crueldade e contas a prestar com todos eles.
Em poucas obras é tão explícito o lado sombrio dos contos de fadas, como em “Tale of Tales” que nunca tenta ser subtil a esse respeito. Os temas são escuros e a imagética é opulenta e brutal, mesmo quando sob a forma de metáfora, brilhantemente enquadrados pela composição minimalista e desconcertante de Alexandre Desplat. A narrativa baseia-se em contos menos conhecidos de um compêndio na qual constavam os primórdios de uma “Cinderella” ou de uma “Bela Adormecida” que são agora recordados com a nostalgia de quem viu em pequenino os filmes da Disney. Mas ao investir em “The Queen”, “The Flea” ou “The Two Old Women” nunca surge esse perigo de contágio, podendo ser consideradas demasiado pessimistas ou até uma fraude, por quem viveu uma infância repleta de finais felizes. Três estrelas e meia.


Realização: Matteo Garrone
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso e Giambattista Basile (contos)

Em "The Queen"
Salma Hayek como Rainha de Longtrellis
John C. Reilly como King of Longtrellis
Christian Lees como Elias, Príncipe de Longtrellis
Jonah Lees como Jonah

Em "The Flea"
Toby Jones como Rei de Highhills
Bebe Cave como Violet, Princesa de Highhills
Massimo Ceccherini como Artista de Circo
Alba Rohrwacher como Artista de Circo
Guillaume Delaunay como Ogre

Em "The two Old Women"
Vincent Cassel como Rei de Strongcliff
Shirley Henderson como Imma
Hayley Carmichael como Dora
Stacy Martin como jovem Dora

Estes e outros contos foram repescados e editados já em 2016 sob o nome "Tale of Tales",se quiserem conhecer um pouco mais sobre a mitologia de Giambattista Basile.

Próximo Filme: "The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku, 2001)
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