domingo, 16 de março de 2014

"Epitaph" (Gidam, 2007)


Um médico recupera, nostálgico, memórias de quando era apenas um interno no hospital coreano de Ahn Seng que se encontra agora em ruínas, durante a ocupação japonesa dos anos 40.

A estória, contada de modo episódico, revolve, primeiro, em torno de Jung Nam (Goo Jin), um estudante de medicina que fica fascinado pelo cadáver de uma mulher encontrada morta num lago gelado. Como em breve ficará a saber, ela tem uma ligação mais próxima dele do que suspeitava. Porque passadas dezenas, para não dizer centenas de filmes coreanos se torna difícil explicar o que é “normal”, Jung Nam desenvolve uma paixão com contornos de necrofilia pela jovem misteriosa. Em outra instância Asako (Ju-yeon Ko) é internada após um grave acidente rodoviário que vitimou a sua mãe. Acossada por estranhos sonhos e visões, Asako luta por recordar os eventos que levaram ao trágico acidente. Culpa de sobrevivente? Ou o subconsciente de Asako esconde um segredo bem mais terrível? Um soldado japonês é encontrado brutalmente assassino o casal de médicos Dong-won (Tae-woo Kim) e In-young (Bo-kyung Kim) desconfiam que este é o resultado do trabalho de assassino em série. O clima de desconfiança aumenta no hospital, quando Dong-won encontra provas que o levam a suspeitar que alguém de dentro do hospital e, em particular, a sua mulher poderão ter cometido o crime. E aqui têm, mais um filme em que os argumentistas consideraram que a linearidade era o maior dos seus problemas e vai daí desdobram uma estória em três. Isso, ou tinham material mais do que suficiente para três curtas e como pensaram que não teriam outra hipótese para criar, optaram por apresentar as ideias que tinham em carteira de uma só vez.

A complexidade da narrativa torna difícil a identificação dos personagens que transitam entre estórias, para se tornarem meros actores secundários e identificar pontos em comum. A morte, o cenário e quatro dias de vida no hospital são as poucas peças do puzzle que nos são facultadas mas até estas são certezas ambíguas pois analepses e prolepses e a entrada no mundo do sonho são uma constante. De tal modo, que por vezes se torna complicado discernir em que plano se encontram os personagens. Em comum, amores de perdição. “O amor é o beijo da morte”. O argumento alterna entre complexos de édipo, amores proibidos e a incapacidade de ultrapassar a perda da pessoa amada do modo mais belo possível. A imagem é tão cuidada, que a brutalidade se torna inócua. Que é que os cineastas fazem de nós se o sangue se transforma numa visão bonita? Descubra o pequeno mórbido que existe dentro de si! Por outro lado, ao glamorizar a morte, perde-se o elemento de terror. Se a dupla de realizadoras pretendia evidenciar a harmonia do amor com a morte, o marketing que enfatiza os elementos de terror contrasta com o espírito do que pretendiam transmitir.

“Epitaph” (2007) é um híbrido de obras como “A Tale of Two Sisters” e antologias de terror que o antecederam com um sentido estético e cultural da Coreia do Sul e do Japão profusamente desenvolvido. Onde, as relações coreanas e japoneses costumam ser ignoradas ou de um ponto de vista que beneficia grandemente o lado coreano, em “Epitaph”, a coexistência não deixa, apesar do momento histórico, de ser pacífica como até existe um casal nipo-coreano. O amor vence todas as barreiras à excepção da morte. Já como obra de terror original, “Epitaph” não vence a barreira do tempo. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Em termos de imagem, “obra de arte” não parece uma expressão demasiado exagerada para descrever o que vemos no ecrã
- Desempenho de Ju-yeon Ko
- Cenário e época pouco explorados no cinema de terror

O pior:
- A complexidade e repetições da estória
- Parece bastante longo para 100 minutos


Realização: Beom-sik Jung e Sik Jung
Argumento: Beom-sik Jung e Sik Jung
Goo Jin como Jung-Nam Park
Ju-yeon Ko como Asako
Tae-woo Kim como Dong-won
Bo-kyung Kim como In-young
Mu-song Jeon como Jung-Nam Park

Próximo Filme: "Kung Fu Hustle" (Kung Fu, 2004)

domingo, 9 de março de 2014

"Sawako Decides" (Kawa no Soko kara Konnichiwa, 2009)


Antes de “Mitsuko Delivers”(2011) houve “Sawako Decides” (2010), apenas um exemplo numa linha de filmes de Yuya Ishii, sobre mulheres pragmáticas com grandes decisões a tomar nas suas vidas. Uma das primeiras ideias que sobressaem aquando do visionamento de “Sawako Decides” e, para quem está familiarizado com “Mitsuko Delivers”, é que os títulos destas obras podiam ser trocados com facilidade. Enquanto Mitsuko passa uma película inteira a tomar decisões por todos e com implicações nessas mesmas vidas, mesmo quando não lhe é pedida tal ajuda, por entre “cool’s” e “ok’s”, Sawako (Hikari Mitsushima) finalmente apresenta resultados, se calhar, aquilo por que família e amigos esperaram durante 5 anos. Senão, vejamos, Sawako encontra-se no quinto trabalho em part-time em 5 anos, nos quais teve igual número de namorados. A mais recente conquista? Um divorciado com uma filha de 4 anos, que gosta de fazer crochet, recém despedido de um trabalho como designer de brinquedos.
E para fazer Sawako sentir-se ainda melhor, o tio Nobuo (Ryo Iwamatsu) liga-lhe constantemente para regressar à terra natal Kawaminami e tomar conta do negócio da família, já que Tadao (Kotaro Shiga), o pai dela tem uma cirrose em estado terminal. Como ela não tomasse nenhuma decisão, o namorado Kenichi (Endo Masashi) decide que Sawako irá responder ao apelo, independentemente, de quaisquer sentimentos dolorosos associados a esse regresso. Por muito interesseiro ou idiota que o namorado seja, a verdade é que a culpa reside em Sawako, incapaz de se comprometer, nas suas relações, no trabalho. É que ela não se acha nada de especial e, pela maior parte, também não acha ninguém extraordinário, as coisas são o que são e nada se pode fazer contra elas. Se não soubesse, diria que Sawako era portuguesa, tal a atitude de resignação. Tanto que, quando Sawako regressa e todos a acolhem mal, à excepção do tio e um trabalhador (porventura cioso de um trabalho que teme vir a perder), os nervos estão à flor da pele. Como é possível uma pessoa deixar-se espezinhar assim? Que trauma? Que sentimento de culpa?

Algures Sawako foi uma criatura com sonhos, que fugiu da terra natal com o capitão de uma equipa local para a grande cidade, onde a aguardava com toda a certeza a continuidade na fábrica familiar e uma vida rotineira, sem grandes variações ou entusiasmo. Não é imediatamente perceptível, e bem que podemos ficar na ignorância se o que os aldeões sentem é despeito por ter abandonado uma oportunidade segura e ademais a responsabilidade pelo negócio, ou o facto de ela ter tido coragem para largar tudo por uma vida de incerteza. Algo que eles nunca seriam capazes de fazer. Sawako não é capaz de o compreender, pelo menos não no início. O seu destino bem que pode ser aquele que a sua infância augurava, mas tem de ser Sawako a desejá-lo e a lutar por ele. E não os que a rodeiam a forçá-la a isso. Das duas uma, ou todos à sua volta são mestres manipuladores que desejam secretamente que Sawako tome as rédeas da fábrica ou Sawako é afinal, tão teimosa como o pai, do qual se distanciou tantos anos antes e irá tomar uma decisão que afectará toda a sua vida futura, apenas porque pode. A estória é bastante negra e a tempos deprimente. As imagens de uma Sawako no presente a emborcar cervejas encontram paralelo ali mesmo no quarto ao lado, no pai a morrer por causa de um fígado que já não consegue lutar contra os excessos do passado. E se ela é a personagem principal, que dizer do namorado que praticamente a abandona e à própria filha durante parte da película? Em “Sawako Decides” não sucede nada de extraordinário, de facto ficarão surpreendidos com a vulgaridade dos acontecimentos. Mas é esse o fulcro da questão: em que grau é que identificamos com pessoas e situações quotidianas, a tentar sobreviver. E mais perigosa ainda, a realização de que nem todos são especiais e estão destinados a fazer algo incrível. Quatro estrelas.

O melhor:
- Excelentes interpretações
- A vida real no seu pior melhor
- Momentos cómicos numa estória maioritariamente depressiva
- Argumento


O pior:
- Até os caracóis têm um maior sentido de ritmo,
- A ausência de reacção de Sawako pode ser irritante


Realização: Yuya Ishii
Argumento: Yuya Ishii
Hikari Mitsushima como Sawaka
Endo Masashi como Kenichi Arai
Ryo Iwamatsu como Nobuo
Kotaro Shiga como Tadao
Kira Aihara como Koyako Arai


Próximo Filme: "Epitaph" (Gidam, 2007)

domingo, 2 de março de 2014

"Double Vision" (Shuang Tong, 2002)


Huang Huo-tu (Tony Leung Ka Fai) cometeu um pecado capital. Ninguém denuncia corrupção dentro do próprio serviço. É embaraçoso para a entidade, é desconfortável para todos e o mais provável é levar com uma despromoção. A Huo-to os princípios não lhe serviram de muito. Deixou de ser um detective e foi transferido para a unidade que lida com os estrangeiros e fronteiras. Uma das actividades mais pequenas e humilhantes para quem tem a formação de Huo-to e, onde, esperam, que não levante mais a voz. Fica quietinho que estás bem assim. Ah e, junte-se a isto uma esposa insatisfeita que quer o divórcio e uma filha traumatizada para completar o caos que é a vida pós “boa acção vira-se contra o próprio”. O que Huo-to não precisa é de mais complicações. É precisamente isso que sucede quando um serial killer começa a atuar no território e é chamado Kevin Richter (David Morse), um agente do FBI americano no papel de consultor para a resolução do caso. Huo-to é designado como interlocutor entre as duas agências, um papel que na realidade ninguém queria desempenhar. Os colegas não parecem mais interessados em desvendar o caso do que em abafá-lo e Kevin não é visto como mais do que um americano arrogante que foi convocado para fazer figura para os media.

Desconfio fortemente que “Double Vision” tinha como público-alvo o mercado estrangeiro como atestam, quer o trailer com enfoque no actor americano quer por uma narrativa com laivos de filme noir americano. Digo laivos porque a dada altura a narrativa muda numa direcção completamente diferente, com elementos religiosos do Taoísmo e da superstição a tomarem o leme. Um policial para os agarrar, um mistério sobrenatural para os prender. Normalmente, seria tentada a dizer que a mudança radical constituiria o problema do filme mas, neste caso, é o que o torna tão diferente dos demais e até, interessante. “Double Vision” não se demarca de Taiwan, da religião praticada e das suas pessoas, abraçando, antes, a sua cultura. A parelha de polícias não segue a fórmula, já que qualquer dos personagens é inteligente e simpática o suficiente para nos preocuparmos com o que lhes acontece ainda que, estranhamente, Morse sobressaia sobre o actor local Leung Ka Fai. É recomendável que considerem a parelha Chan/Tucker de “Rush Hour” (1998) o oposto do que irão visionar. Aliás, “Double Vision” encontra-se mais próximo de um “Seven”(1995), com o seu ritmo lento e mortes cuidadosamente orquestradas.
As discussões entre o supersticioso Huo-To e o polícia prático que apenas acredita em provas empíricas demonstram que “Double Vision” é tudo menos acéfalo. Em duas linhas de diálogo percebemos quem são os personagens: Huo-to tem demasiada bagagem para não acreditar que tudo acontece por um motivo e Kevin já viu tanto que se recusa a acreditar que o pior na Terra não é o ser humano. Richter é orientado para o resultado e não percebe as nuances culturais que condicionam uma rápida resolução, enquanto Huo-to o tenta fazer compreender este facto sem entrar por território que já não é o seu. Ele é apenas um interlocutor, um interveniente secundário numa sucessão de crimes atrozes e com uma ligação obscura a uni-los. Infelizmente a personagem de Morse não tem história a acompanhar o cinismo manifesto. Apenas podemos supor. E por falar em suposições, de modo algum conseguimos adivinhar o caminho que “Double Vision” irá trilhar desde que surge no ecrã um recém-nascido com duas pupilas no mesmo globo ocular. “Double Vision” alterna entre o visceral e a subtileza a todo o momento que apenas peca pelo ritmo lento e um desfecho inferior ao crescendo que o antecede. Três estrelas.

O melhor:
- David Morse
- Imprevisibilidade da estória
- Cinematografia
- Criatividade das mortes

O pior:
- Complexidade da estória. Demasiados sub-enredos.
- Elemento sobrenatural
- Desfecho


Realização: Kuo-fu Chen
Argumento: Kuo-fu Chen e Chao-bin Su
Tony Leung Ka Fai como Huang Huo-tu
David Morse como Kevin Richter
Rene Liu como Ching-fang
Leon Dai como Li Feng-bo
Wei-hanHuang como Mei-Mei


Próximo filme: "Sawako Decides" (Kawa no soko kara konnichi wa, 2009)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

"Insidious: Chapter 2", 2013


Em cada ano surge um filme querido por uns quantos mas não tão querido que chegue às listas de melhor do ano. “Insidious: Chapter 2” tinha o potencial para entrar nessas listas (as de terror), arrastado pelo sucesso do seu antecessor. 2012 foi um ano difícil. Houve muita e boa oferta, especialmente, no que toca ao território indie “V/H/S 2”, “ABC’s of Death”, You’re next” e “American Mary” outros de investimento mais avultado e ainda assim inesperados como “The Conjuring”, também do realizador de “Insidious” mas não é como se alguém esperasse que o relâmpago atinge o mesmo local pela terceira vez.

Os Lambert recuperaram Dalton das garras do que quer que o prendia no “outro lado”. No entanto, a aflicção está longe do fim. Elise (Lin Shaye) a médium que ajudou Josh (Patrick Wilson) a resgatar Dalton foi assassinada e Renai (Rose Byrne) começa a denotar atitudes peculiares, pouco características no marido. Para quem viu o filme anterior, esta última constatação dificilmente será uma surpresa. Para os restantes, eis um conselho: “Insidious: Chapter 2” é tão sequela quanto uma sequela pode ser e, neste caso, não ter visionado o primeiro filme constitui um obstáculo à sua compreensão. Despender uns bons minutos de filme apenas tentando compreender a estória é capaz de não abonar a favor dessa mesma obra, digo eu. Ainda sim, “Insidious: Chapter 2” sofre de muitos mais problemas que o facto de ser uma continuação. Tendo Elise morrido e com um suspeito mais do que evidente é bastante estranha a atitude descontraída e desleixada da polícia face ao evento. Serve as conveniências de argumento? Sim. É realista? O menos possível. Qualquer agente com dois neurónios conseguiria chegar com facilidade à identidade do culpado. Conseguindo (sobre)viver com tal falha óbvia, conseguem aguentar 100 minutos de filme… “Insidious: Chapter 2” fragmenta-se em várias direcções, incluindo uma Renai que continua assombrada, desta vez a dobrar pois desconfia que a “entidade” que os ensombra ainda permanece com eles e o facto de Josh revelar um comportamento cada vez mais preocupante e Lorraine (Barbara Hershey) parte com os ajudantes de Elise numa senda para descobrir enfim, as raízes do mal que tocou a sua família.

Dita um dos lugares-comuns do cinema de terror que sempre que existe um qualquer fenómeno sobrenatural inexplicável, a dada altura, alguém tem um momento “ideia luminosa” e decide: “se calhar devia investigar por que é que me está a acontecer isto”. Isso sucede com Lorraine que depois de ter visto o filho Josh por uma assombração em criança e o mesmo repetir-se, agora, com o neto, decide, finalmente, que talvez fosse pertinente compreender as causas da assombração. Ei, mais vale tarde que nunca! E se a investigação não é aborrecida, Wan e Whannell apresentam mais do que bons e numerosos motivos para nos mantermos num estado de expectativa e sobressalto constante. Admito, com um misto de prazer e de culpa que os melhores momentos são aqueles em que depois de um rápido crescendo com aproximação da lente e aumento do som da música à mistura, nada sucede. Valem pelo crescendo da tensão e pela brincadeira com os nervos. A cena que antecede o que pode ou não ser um susto é, ela própria, assustadora. Isso é terror. Foi o que sucedeu com “Insidious” e se veria a repetir, com melhor efeito em “The Conjuring”. Esta dupla sabe do seu ofício. Eles sabem o que têm de fazer para colocar a audiência numa pilha de nervos. O que nos leva ao argumento. Enquanto cada momento brilha por si próprio, enquanto cena ou sequência do mais puro terror, estas peças, em conjunto, não funcionam como um puzzle, como um todo coerente. Há momentos que precisavam de ser afinados para melhor encaixarem no filme global. A exemplo disto, refira-se a dupla Specks (Leig Whannell)/Tucker (Angus Sampson) que apresentam os  poucos momentos de comédia do filme. Ou melhor, tentam, porque a comédia é forçada e no máximo só gera mais momentos de riso nervoso. Lá está, a incongruência, numa obra onde todos se encontram ultra-sensíveis, à espera de algo que os faça quebrar. E depois há todo um recurso a analepses e prolepses, tão recorrente que leva ao questionamento sobre afinal, que raio é que se está a passar no presente? Quanto à direcção assumida apenas posso traçar um breve paralelo a “The Pact” (2012), cuja racionalidade soa, apesar de tudo, mais credível que qualquer outra explicação que fosse apresentada. Três estrelas.


O melhor:
- O terror!
- Sentimento de nostalgia (cenário, adereços, cenas reminiscentes de clássicos)
- Enfoque em Barbara Hershey

O pior:
- A dupla Tucker/Specks
- Qual estória?
- Continuidade


Realização: James Wan
Argumento: James Wan e Leigh Whannell
Patrick Wilson como Josh Lambert
Rose Byrne como Renai Lambert
Ty Simpkins como Dalton Lambert
Lin Shaye como Elise Rainier
Barbara Hershey como Lorraine Lambert
Steve Coulter como Carl
Leigh Whannell como Specs
Angus Sampson  como Tucker

Próximo Filme: "Double Vision" (Shuang Tong, 2002)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

"Neighbour n.º 13" (Rinjin 13-go, 2005)


Todos conhecem alguém que sofreu de “bullying” durante os anos de escola, ou foram eles próprios vítimas. É quase um ritual de passagem, uma realidade da vida, que magoa enquanto dura e depois se vai embora, tão rápido quanto surgiu. Uma mera mancha numa vida que se prevê de sucesso e produtiva. É coisa de canalha, não mata ninguém. Aos agressores passa-lhes, às vítimas, essas têm é de ser fortes e aguentar. Não é? Este é o tipo de discurso mais comum e que peca por ainda não ter sido erradicado das mentes comezinhas dos idiotas que, suspeito, se encontravam no lado dos agressores ou dos indiferentes, e não sofriam na pele tal abuso.
“Neighbor no.13” foca a estória de Juzo Murasaki (Shun Oguri) um jovem que durante os tempos de escola era sistematicamente perseguido, atormentado e vítima de sevícias várias por Toru Akai (Hirofumi Arai) e o seu gangue de rufias. Ele é aquele tipo de miúdo introvertido que nunca irá contar a ninguém os abusos de que é alvo e faz, portanto, as delícias de miúdos com a malícia em mente. Anos mais tarde, Juzo continua a ser um adulto calado, levando uma existência benigna e muito aquém de extraordinária. Até ao dia em que se muda para o mesmo edifício onde mora o seu antigo atormentador Toru, agora casado e com um filho. Quer também o destino, (ou é demasiada coincidência?), que Juzo comece a trabalhar na mesma empresa de construção civil que Toru. Tantos anos passados e nada mudou, Toru continua um cretino da pior espécie e inicia a fazer de Juzo a nova cobaia para todo o tipo de maus-tratos no local de trabalho. A pior ofensa? Toru nem sequer se recorda de Murasaki. O que podia tornar-se uma repetição dos tempos de escola, indicia tornar-se em algo completamente diferente. É que todos aqueles anos atrás, algo se quebrou dentro de Murasaki. A sua mente fragmentou-se, criando uma personalidade distinta da sua (Shidô Nakamura) que ostenta as suas cicatrizes, qual Jekyll e Hyde. Ele vive numa luta constante entre manter a fachada de vulnerabilidade e libertar o monstro sedento de vingança que se encontra dentro dele. “Neighbor no.13” resulta pois num estudo sobre os efeitos psicológicos do abuso.

Murasaki é um capacho, disso não restam dúvidas, mas a personagem criada pelo ódio retido na sua carapaça frágil é o oposto dele. Nem este Jekyll é uma personagem que inspire respeito nem o seu Hyde possui algo mais do que perversidade, o erotismo da maldade do personagem de Mary Shelley. O único momento de sugestão de volúpia sucede numa breve interacção entre Juzo e Nozomi (Yumi Yoshimura), a bela mulher de Toru que, vá-se lá perceber porquê, acha boa ideia que o vizinho, que não conhece de lado nenhum, tome conta do filho enquanto vai numa saída romântica com o marido. Mas até ela representa algo de amoral, como demonstra uma sequência que não interessa particularmente à construção do enredo que não a de declarar que qualquer personagem possui pelo menos um aspecto da personalidade duvidoso em “Neighbor no.13”. Até o puto, que ainda agora começou a andar, já ameaça tornar-se um pequeno terrorista à semelhança do pai!
Ao longo de toda a película, há uma sensação crescente de tensão e desconforto pois nunca se sabe quando é que Murasaki irá finalmente explodir. Será que ele irá finalmente confrontar o seu agressor? Haverá possibilidade de paz ou foram, já, ultrapassadas quaisquer hipóteses de perdão? A estas perguntas são dadas várias respostas revelando ou receio do argumentista em comprometer-se com uma solução ou o desejo de agradar a gregos e a troianos. A hipótese de vingança é possível e expectável desde os primeiros minutos do filme mas levanta a questão do incentivo à justiça pelas próprias mãos numa sociedade colectivista. Outra perspectiva é uma de inactividade que não acalma os desejos de punição dos agressores. É a possibilidade mais usual mas pode assemelhar-se a concordância implícita com os actos realizados se não menos o minimizar da questão. A decisão é sempre um imbróglio mas a não-decisão do argumentista redunda em cobardia. Note-se que “Neighbor no.13” é uma obra tão mais relevante porque, no Japão, o “bullying” é um fenómeno persistente, sendo que miúdos desde a pré-adolescência continuam a suicidar-se e a auto mutilar-se na sequência das humilhações a que foram sujeitos, sem consequências práticas para os que motivam tais actos desesperados. Realizado em 2005, “Neighbor no. 13” mantém-se actual, mas perde toda uma série de oportunidades, desde personagens unidimensionais a soluções que evitam a verdadeira reflexão sobre o problema e propostas para a sua resolução. A manutenção do “status quo” é conveniente mas não faz um bom filme. Duas estrelas.


O melhor:
- A tensão!
- A sequência de animação que surge de nenhures
- O cameo de Takashi Miike

O pior:
- Amo o actor Shidô Nakamura aos molhos mas este não é o seu melhor papel.
- Um cacto tem mais personalidade que o Shun Oguri.
- Desenlace teatral que já vimos 294738347 vezes antes.
- O à-vontade de Nozomi em deixar um filho com um estranho.
- A falta de coragem em assumir tudo o que se passou durante 100 minutos.


Realização: Yasuo Inoue
Argumento: Hajime Kado e Santa Inoue (Mangá)
Shun Oguri como Juzo Murasaki
Hirofumi Arai como Toru Akai
Shidô Nakamura como Vizinho n.º 13
Yumi Yoshimura como Nozomi Akai
Takashi Miike como Kaneda

Próximo Filme: "Insidious: Chapter 2", 2013
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