domingo, 4 de maio de 2014

"Tales from the Dark - Part I", 2013


Lillian Lee diz-vos algo? Se não, tenham vergonha! Ela é apenas a escritora por trás de filmes como “Farewell My Concubine” (1993) e “Dumplings” (2004) um dos segmentos de antologias de terror (“Three… Extremes”) mais perturbadores de sempre. Desta feita, a obra de Lee teve honras de total destaque em 6 segmentos divididos em duas antologias, com alguns personagens já repetentes na adaptação dos seus trabalhos. Visionado na 5ª Mostra de Cinema de Hong Kong, cuja sala estava, infelizmente, pouco composta, “Tales from the Dark – Part 1” representa Lee na sua vertente mais sombria.

 As curtas:
“Stolen Goods” – Kwan é um biscateiro que acaba de perder o mais recente trabalho. Todo ele, insolência e pavio curto, não é de admirar que seja despedido numa base regular. Os seus valores incidem no enriquecimento rápido ao menor custo pessoal possível. Como se encontra perto de ser expulso do pequeno quarto alugado por ausência de pagamento, não é demasiado penoso a Kwan recorrer ao roubo de urnas para depois chantagear os familiares dos falecidos.


“A Word in The Palm” – O mestre espírita Ho decide abandonar a vida ligada ao oculto para reparar a relação com a mulher céptica e o filho menor. Ele tenta reencaminhar os últimos clientes para a entusiasta colega Lam. No entanto, quando por engano lhes entrega um CD do filho num recital, terá de envolver-se mais do que gostaria. Será muito difícil recuar perante o caso mais complicado da sua carreira e a insistência da colega.

“Jing Zhe” – A velhinha Chu dedica-se à tradição milenar de “bater nos vilões”. Armada de cânticos e a sola dos sapatos bate com força em fotografias e papéis que representam os inimigos daqueles que a ela recolhem. Depois de anos a amaldiçoar pessoas inocentes, pode ter chegado a vez de Chu sofrer na pele a força do seu próprio remédio.

As trevas não tardam a surgir poucos adentro de “Stolen Goods”. Um início intrigante, onde é evidente e até ansiada com fervor alguma forma de retribuição a Kwan, o personagem obnóxio interpretado por Simon Yam dá lugar à perplexidade de uma narrativa ininteligível. Yam provou há muito que é actor para isto e muito mais mas na estreia como realizador revela a fraqueza da inexperiência e pior, ambição superior aos recursos. Pejada de momentos “tcha-ran” acompanhados por música alta e desconcertante. Não, Yam, nunca tínhamos ouvido isso antes… A cinematografia é fantástica só que não cola com a estória. E não se consegue perceber se são as ineficácias do argumento que levaram ao segmento mais insatisfatório de todos se foi a incapacidade de Yam em traduzir o material que lhe foi dado. O percurso de “Stolen Goods” é labiríntico onde podia ser simples: um bandido tem a paga pelos seus crimes. Há demasiados caminhos tanto quanto é dado a perceber, as pontas soltas não vão dar a nenhum lado satisfatório.
“A Word in the Palm” é uma surpresa. Depois de uma introdução sofrível mas sombria no tom, segue-se uma narrativa de aparência mais light, pelo menos pela aposta na comédia. Ho (Tony Leung Ka-fai) é um homem talhado para ler outro plano da realidade que rejeita o seu destino e se alia, relutante, a uma mulher (Kelly Chen) que tudo faria para ter um pouco do talento deste e o persegue feroz. Juntos fazem uma dupla improvável e atractiva. Leia-se, o único duo de personagens que iremos recordar com simpatia depois de “Tales from the Dark – part I” terminar. O desenlace é óbvio, tantas vezes que a mesma estória, com variações foi interpretada no cinema. Há poucos momentos de terror em “A Word in the Palm”, mas quando surgem são bem-vindos. Resulta pois um segmento desigual, original na abordagem, vulgar no conteúdo, ainda assim, superior ao antecessor.
Costuma-se dizer que o melhor fica para o fim e, se não formos excessivamente zelosos com as imagens criadas digitalmente “Jing Zhe” recupera os elementos mais desconcertantes da escrita de Lilian Lee. Realizado por Fruit Chan, o mesmo de “Dumplings”, ele encontra uma ligação com o material como nenhum outro. A sua Chu (Susan Chu) é a personagem mais ambígua e mais interessante destes 112 minutos. É ainda uma estória inerentemente chinesa. Não se podia encontrar estória mais enraizada na cultura que “Jing Zhe”. Se o conceito dos batedores de vilões é intrigante, a sua concretização também parece funcionar. Ou não nos sentíssemos cansados depois de ver o espancamento a que Chu sujeita os bens das vítimas. Não constituirá ainda um momento cinematográfico superior a “Dumplings” mas é um bom prelúdio para o segundo capítulo. Três estrelas.

Curta #1: “Stolen Goods
Realização: Simon Yam
Argumento: Lillian Lee
Simon Yam como Kwan
Maggie Shiu como wok Wing-nei
Feliz Lok como Chu Wing-kit

Curta #2: “A Word in the Palm”
Realização: Chi-Ngai Lee
Argumento: Chi-Ngai Lee
Tony Leung Ka-fai como Mestre Ho
Kelly Chen como Lan
Eileen Tung como Mulher de Ho
Cherry Ngan como Chan Siu-ting
Eddie Li como Cheung Ka-chun
Jeannie chan como Senhor Cheung

Curta #3: “Jing Zhe”
Realização: Fruit Chan
Argumento: Fruit Chan
Susan Shaw como Chu
Josephine Koo como Koo
Dada Chan como cliente


Próximo Filme: "Bad Milo", 2013

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Top 12: Final Girls


Desde os primórdios do terror, que homens pujantes de virilidade e força física ultrapassam os obstáculos mais difíceis que se lhes atravessam no caminho. Mais impressionante só a heroína de aparência frágil mas de força anímica superior que consegue sobreviver ao Homem. Vários realizadores fizeram vida (milhões) de retratar essas mulheres. Chegou pois a vez de o Not a Film Critic homenagear as heroínas dos filmes de terror, leia-se terror terrífico e não terror como em pedaço de trampa que se vê uma vez ao engano e depois se apaga o filme do computador. Disse apagar filme do computador? Desculpem, quis dizer guardar o DVD/bluray numa estante escondida para nunca mais o encontrar, exceptuando talvez, uma limpeza profunda de Verão, daqui a dez anos. Adiante, segue a minha selecção por ordem cronológica e não de preferência (juro que as Neve Campbell e Jennifer Love-Hewitt, estão em minoria).

1) Sally Hardesty (Marilyn Burns): “Texas Chainsaw Massacre” (1974) – Já não terá o impacto de outros tempos, visto que a cada nova década, os cineastas arranjam novas maneiras de aumentar o sangue e o número de mortos! Sobrevive o estereótipo da rapariga de olhos esbugalhados, cujos gritos histéricos fazem gelar qualquer espinha. Ela é Sally, uma rapariga que aprendeu à custa da morte do próprio irmão e dos amigos que não se deve dar boleia a estranhos e encetar viagens pela América rural abandonada. Ela é atacada, capturada, espezinhada, atada e submetida a pressão psicológica brutal e mesmo assim concentra todas as forças em escapar. Sabem quantas raparigas nos slashers, depois de capturadas conseguem escapar? Foi o que pensei.

2) Laurie Strode (Jamie Lee Curtis): “Halloween” (1978) – Falar de Scream Queens e não mencionar a Jamie Lee Curtis é como fazer uma lista de maiores desastres marítimos e esquecer o “Titanic”. Laurie foi apenas a primeira numa série de personagens femininas que conseguem, quase misticamente, escapar impunes aos assassinos mais sádicos e perversos que adoram frequentar os subúrbios e matar adolescentes insuspeitos. Ao contrário das amigas que a seu tempo serão confrontadas com o Fado, a desengonçada Laurie tem o instinto um pouco mais aguçado que lhe diz que algo está muito errado. Corre Laurie! Corre!

3) Ripley (Sigourney Weaver): “Alien” (1979) – O filme é de final dos anos 70 e esta continua a constituir a personagem por excelência no que à resiliência e capacidade de lidar com o desconhecido dizem respeito. Ela é esperta como uma raposa e não aceita tretas de ninguém. Ripley deve ser uma das mulheres menos curiosas da lista, o que não deixa de ser de estranhar uma vez que se encontra a um gazilião de anos de distância da terra, numa nave de transporte de carga espacial rodeada quase só de homens e cyborgs lunáticos. Quando o desastre se abate ela é dos poucos que não perdem a cabeça. Não se costuma dizer que uma pessoa se revela nas alturas mais complicadas?

4) Kirsty Cotton (Ashley Lawrence): “Hellraiser” (1987) – Perante a abertura dos portões do inferno muitos se renderão ao terror mas não Kirsty. Sem mãe e com uma madrasta odiosa ela conhece, de certo modo, o inferno na terra e quando se apercebe de atividades estranhas e extra-humanas na casa do seu pai, será capaz até de fazer um pacto com os cenobitas (anjos demoníacos) para assegurar a sobrevivência. Com maior ênfase no intelecto do que na aparência, Kirsty é calculista e uma mulher de acção que não se apoia em ninguém para resolver os seus problemas. Capaz dos planos mais audazes e pensamento rápido é a pior pessoa que o inferno podia escolher para enfrentar!

5) Sidney Prescott (Neve Campbell): Scream (1996) – A Neve Campbell irrita-me profundamente. O olhar semicerrado que grita que ela é míope ao invés de sexy não funciona para os meus lados. Não, aqui o génio está todo do lado de Wes Craven. A sua Sidney é frágil mas não uma flor delicada e encarna o mais próximo da realidade uma jovem adulta. Não é uma grande beldade ou glamorosa, não é sequer a pessoa mais inteligente do grupo de amigos e apenas tenta sobreviver como qualquer jovem que perdeu recentemente um dos pais. Ela não procura sarilhos, só quer passar despercebida no seu microcosmos, o que no género de terror é sempre de louvar. No entanto, quando a vida real se começa a assemelhar à ficção ela conhece as regras que deve seguir para se safar. Quando acha que o assassino está morto, ela certifica-se que ele está mesmo morto!

6) Julie James (Jennifer Love-Hewitt): “I know what you did last Summer” (1997) – Outra actriz enervante, outra personagem que merecia uma morte, lenta, dolorosa e com requintes de malvadez. Julie James é aquela miúda que todos adoram odiar: gira, com alguns neurónios e que segue as regras à risca. Sim, ela nunca poderia ser apelidada de espontânea mas também não esperem vê-la numa fotografia através das grades. Aqueles que a odeiam ficariam felizes por saber que ela afinal tem esqueletos no armário mas não é como se ser cúmplice de um homicídio fosse algo de que ter inveja. Também tem uma das linhas de diálogo mais estúpidas de sempre: “De que é que estás à espera, hã?” dirigidas a um assassino em série… Além de que esta personagem sobrevive à Buffy (Sarah Michelle Gellar)! Nada fixe Jennifer.

7) Trish Jenner (Gina Phillips): “Jeepers Creepers” (2001) – Num dos poucos filmes onde podemos encontrar Justin Long num papel não irritante é Gina Phillips que sobressai como “Final Girl”. Em “Jeepers Creepers” Trish e o irmão atravessam a América dos milheirais a perder de vista quando se encontram com um ser misterioso. Ela faz aquilo que uma boa irmã faz: acompanha o irmão e tenta zelar pela sua segurança ao invés de ser a típica irmã detestável. Isto não significa que os seus esforços tenham êxito. Mas se há algo que a define como uma das melhores raparigas finais é a autoconsciência pouco comum nos filmes de terror: “Sabes aquela parte nos filmes de terror em que alguém faz algo incrivelmente estúpido? Esta é essa parte!”

8) Sarah Carter (Shauna McDonald) “The Descent” (2005): Ela perdeu num acidente rodoviário provocado por ela, os maiores amores da sua vida, filho e marido. Tem amigas com as melhores intenções do mundo e um espírito de aventura elevado ao extremo. Ainda assim quem não perderia o tino? Como as amigas lhe fazem ver, ela é a maior inimiga dela própria e… se calhar delas também. Os monstros nas profundezas não são superiores aos demónios que lhe crescem na cabeça e durante algum tempo é literalmente carregada às costas pelas amigas. Lapsos momentâneos de lucidez a iluminam para descobrir que aos poucos o grupo vai diminuindo e ela continua, agora e sempre, uma sobrevivente.

9) Yasmine (Karina Testa) “Frontiers” (2007): Haverá pior do que cortar as longas melenas de uma mulher? Ok, pronto, se forem fãs do género de terror encontram 450397570284 formas de tortura muito mais humilhantes e dolorosas mas façam-me a vontade. Grávida e em fuga de uma Paris tumultuosa e de um assalto (ninguém disse que era uma santa), ela, o irmão e os amigos são capturados por uma família de psicopatas. Enquanto eles viram alimentação para minhocas (será?) a pobre Yasmine deverá tornar-se uma máquina reprodutora de bebés para os chanfrados que a capturaram. Ela até faz a sua melhor interpretação de Sally Hardesty num jantar dos diabos mas eles não se compadecem. Se quiser escapar Yasmine terá de matar ou morrer. E matar é o que ela faz…

10) Erin (Sharni Vinson): “You’re next” (2011) – Imaginem que alguém ataca a vossa casa durante um serão familiar e, um por um, os vossos familiares começam a cair mortos. O ataque faz parte de um plano sinistro e não sabem se estarão seguros em qualquer lugar. Erin é a namorada de um dos convivas e, onde outros entram em pânico, ela é expedita e tenta antecipar as movimentações da parte agressora. Ela utiliza todos os instrumentos ao seu alcance para sobreviver ou incapacitar o atacante e acima de tudo não hesita. Ela faz o que tiver de ser feito, quando tem de ser feito. A desenvoltura de Erin não nasce de um qualquer evento traumático, ela não é nenhuma inocente e está tão preparada quanto se deve estar para tais situações. Quando as coisas acontecem ela não fica parada à espera da morte: ela ataca-a com unhas e dentes. Epítome de beleza mortal.

11) Soo-ah Kim (Kim Ha-neul): “Blind” (2011) – Reminiscente de um “Eyes of a stranger” (1981), em que um maníaco que anda por aí a violar e matar jovens mulheres acaba por focar a atenção numa mulher cega mas com um pouco mais de orçamento e de gosto. Soo-ah tinha o sonho de tornar-se polícia em Seul até ao momento em que cometeu um erro de julgamento que lhe custou a visão e a vida de um irmão adoptivo. Apesar de frustrada com a perda do sentido da visão não perdeu a mente inquisitiva e quando se depara com um assassino não se deixa enganar. Ela questiona a todo o momento e em momento de confrontação toma decisões rápidas e eficazes para se colocar em segurança rapidamente. Longe da jovem virginal que toma as rédeas por sorte, ela é capaz de tomar iniciativas que põem o assassino em pé de igualdade com ela e, em última análise anular a vantagem de que este dispõe à partida.

12) I-na (Gyu-ri Nam) “Death bell” (2008) – Um grupo de alunos de elite começa a ser assassinado, um a um, por um assassino altamente inteligente durante um período de clausura para realização de exames. Sem apoio do exterior cabe aos alunos que representam (supostamente) os mais inteligentes da escola e aos professores descobrir quem está por trás das mortes e salvar as suas próprias vidas. Não há motivação como termos um grande alvo nas costas para colocarmos a massa cinzenta a funcionar. No meio de miúdos e graúdos a entrar em pânico e numa onda de acusações que despertam o que há de pior no Homem, é a jovem I-na que mantém a frieza e procura retirar sentido de tudo quanto se está a passar. Minúscula, I-na não tem hipótese contra atacantes com algum vigor físico, pelo que a sua maior arma é a inteligência. Se não fosse ela, o mistério poderia nunca vir a ser desvendado.

Agora a sério, a minha "final girl" favorita se sempre é:

domingo, 27 de abril de 2014

"The Ghosts must be crazy", (Gui ye xiao 2011)

Desliguem os telemóveis durante o visionamento por favor

O híbrido de terror e comédia chegou para ficar. A horrédia (por que é a tradução de um neologismo nunca soa tão bem como na língua original?), “The Ghosts must be Crazy” segue-se à não menos louca antologia “Where got Ghost?” (2009) e encontra-se algures entre a comédia negra chico-esperta, para exemplos vide “The Cabin in the Woods” (2012) e a gargalhada de criar dores de barriga de “Tucker & Dale vs. Evil” (2010), mas mais perto desta última.


“The Ghosts must be Crazy” é um jogo de atenção pois quase todos os personagens de “Where got Ghost” regressam com variações das estórias que interpretaram nesta “prequela”, não necessariamente por ordem cronológica ou com alguma conexão lógica sequer. A antologia anterior reunia três segmentos: “Roadside got Ghost”, “Forest got Ghost” e “House got Ghost”, sendo que para “The Ghosts must be Crazy” recuperou estas duas últimas (e muito bem que eram as melhores) com um twist: desta feita Jack Neo limitou-se ao papel de argumentista-produtor e Mark Lee estreia-se como actor e realizador em simultâneo.

As curtas:
“The Day Off” – Dois reservistas preguiçosos estão empenhados em escapar ao penoso exercício anual e tentam convencer o novo Comandante a conceder-lhes baixa médica. Entretanto, um pobre coitado que estava mesmo doente e necessitava de ir para o hospital vê o pedido de internamento recusado pelo Comandante que acredita que todos o querem enganar para escapar ao dever. Quando esta decepção fracassa recorrem a técnicas de guerrilha para sabotar o treino. Mesmo que consigam enganar o seu comandante, as forças do sobrenatural nunca tiram folga…

“The Ghost Bride” – Um homem deseja atrair boa fortuna e decide tentar alcançar o seu objectivo através do jogo, acabando por fazer um pacto com o sobrenatural. Ele fica rico mas despreocupado e esquece-se de cumprir a sua parte do acordo. Os fantasmas não dormem e aquilo que deram podem tão facilmente retirar, isto, se ele fizer a única coisa que lhe pedem: casar com uma noiva fantasmas…

Sobre os filmes:
Desta feita prevaleceu o bom senso de “menos é mais”. Com menos estórias, com certeza as duas narrativas que escaparam ao corte serão mais trabalhadas e cuidadas certo? A resposta é negativa. “The Day Off” recupera a excelente química da dupla de actores John Cheng e Wang Lei que recuperam os papéis de Ah Nan e Ah Lei respectivamente, dois reservistas que não foram fadados para a tropa e utilizam todos os artifícios possíveis para escapar às tarefas duras que lhe são exigidas. Onde as interacções dos actores soavam antes pouco naturais, constituem agora os pontos altos da narrativa, apenas ultrapassados pelas tiradas brilhantes de Encik Muthu (David Bala). As aparições desta personagem nos vários filmes de Jack Neo são tão acarinhadas que Muthu até já virou meme! “I die! You die! Everybody dies!”

“The Ghost Bride” é apenas mais uma variação de crime e castigo. Sejamos sinceros. Quem é que pensava que recorria a métodos muito questionáveis para enriquecer, não fazia o que lhe competia para honrar a sua parte do acordo e não esperava algum tipo de retribuição? É preciso ser um bocadinho condescendente para não pensar que a audiência iria ter o mesmo raciocínio. Mas isso nem é o pior porque, ultrapassando a fraca estória, os efeitos gerados por computador são muito maus, aliás, demasiado maus para a quantidade de vezes que surgem no ecrã. Uma pessoa questiona-se se todo aquele (mau) aparato era necessário para contar uma história tão simples. Além disso, podia sempre alegar que Mark Lee dá uma mulher muito feia, mas isso não basta para ignorar o facto de que a “The Ghosts must be crazy” nada falta de más interpretações (sobretudo de personagens secundaríssimas), argumentos queijo-suíço, edição paupérrima e lições de moral – “Se escolheres tomar a mão do demónio, um grande preço terás de pagar”. Por isso é de estranhar que "The Ghosts must be crazy" seja tão surpreendente, um pequeno pecado mesmo, a contra-gosto que não dá para negar. Duas estrelas.


O melhor:
- Actores principais (com notáveis excepções)
- A primeira curta-metragem
- David Bala como Muthu
- O cabelo de Mark Lee

O pior:
- Argumento
- Os efeitos são “especiais” e não digo isso num bom sentido.

“The Day Off”
Realizador: Boris Boo
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
John Cheng como Ah Nan
Wang Lei como Ah Lei
Chua en Lai como Comandante
David Bala como Encki Muthu

“The Ghost Bride”
Realizador: Mark Lee
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
Henry Thia como Ah Hui
Mark Lee como Ah Hai / Chen Xiaojuan
Tay Yin Yin como ex-namorada de Hui

Próximo Filme: "Tales from the Dark - Part I"


domingo, 20 de abril de 2014

"Howling", 2012


Se pudesse passava dias inteiros a ver thrillers de suspense. Thrillers nunca são demais e visionar filmes que não ofendam a inteligência, isso então, é um achado. Junte-se-lhe um mistério detectivesco e um pouco de Kang-ho Song e terão um filme melhor que 85% dos filmes autointitulados “thrillers”, sem sequer se esforçar.

“Howling” é uma adaptação do livro “O Caçador” (2006) da escritora japonesa Asa Nonami que foca dois detectives que investigam o estranho caso de uma série de mortes interligadas pelo ataque de um animal selvagem. Eun-young (Na-young Lee) é uma detective recém-promovida que se tenta adaptar ao novo grupo de colegas mais experientes e misóginos que fazem questão de lhe mostrar, desde o início, que ali, não há lugar ela e que mais vale voltar para a polícia de patrulha. Sang-gil (Kang-ho Song) é um detective que se encontra no limiar da competência, mais preocupado com o filho delinquente e espera que os deuses da polícia ouçam a sua prece por casos fáceis e simples. Depois ainda se questiona como é que ainda não progrediu na carreira. Esta dupla é emparelhada à força pelas chefias quando surge um caso banal de suicídio. As perspectivas não podiam ser mais diferentes: Eun-young deseja provar que é mais do que uma cara bonita que subiu demasiado rápido e Sang-gil só quer fechar mais um caso sem atrair atenção negativa sobre si. Em ambos, os casos falham. A pressa de mostrar que é competente levam a detective a cometer alguns erros que apenas confirmam a ideia dos colegas de que ela nunca devia ter sido promovida. Quanto a Sang-gil espera-o um caso que o fará suar muito mais do que alguma o fez. O corpo de um homem, queimado até à impossibilidade de recognição, apresenta mordidelas de uma besta. Um cão? Um lobo? Porquê? O que começam por ser ataques aleatórios transformam-se num padrão com base num plano maléfico orquestrado até ao último pormenor…
Parelha improvável

A investigação instiga a curiosidade tanto do fã de mistérios detectivescos como do cinéfilo mais céptico pelo modo competente como é conduzida. Seguindo a fórmula tradicional, a película é um mix de géneros, que alterna entre o racional e o misticismo mas sem alienar o espectador. Mais notavelmente, “Howling” apresenta o ainda não cansado arquétipo do polícia negligente e mais, em confronto aberto contra a quebra das convenções: uma mulher no papel principal, profissional e inteligente que enfrenta a oposição de colegas comodistas e sexistas.
Admito, com um pouco de orgulho no realizador Yoo Ha, que ele deve ter resistido a uma pressão tremenda em transformar a protagonista feminina numa mulher com problemas por resolver com o paizinho e que, tudo quanto deseja, é ser protegida por um homem. Nada disso. A protagonista é colocada num pedestal, encontra-se num plano superior ao dos seus congéneres e até experiencia, (até me doeu a mim), uma tareia brutal. Na caracterização dos personagens reside pois a força de “Howling” que, despojado dos elementos místicos redundaria (quase) numa investigação tantas vezes visionada em cinema. Três estrelas.



O melhor:
- Kang-ho Song. Mas a sério, até a dormir ele fazia este papel
- Pouco melodrama
- Cinematografia

O pior:
- Se retirássemos o elemento lobo, seria uma investigação pouco mais do que óbvia;
- Tendência dos vilões em complicar.

Realização: Yoo Ha
Argumento: Yoo Ha e Asa Nonami (livro)
Na-young Lee como Eun-young
Kang-ho Song como Sang-gil
Sung-min Lee como Detective Young-cheol
Jung-geun Shin como Detective-chefe
Hyeon-seong Im como Detective
Jeong-jin como Detective

Próximo filme: "The Ghosts must be crazy", 2011

domingo, 6 de abril de 2014

"Noriko's Dinner Table" (Noriko no shokutaku, 2005)


O mundo precisava mesmo de uma sequela de “Suicide Club” (2001)? Quer queiram ou não, ela existe. Desta feita, Shion Sono apresenta um tom mais familiar, centrado na vida de Noriko Shimabara (Kazue Fukushi) uma adolescente sonhadora que ambiciona deixar uma existência banal. Ela vive com o pai Tetsuzo Shimabara (Ken Mitsuishi), a mãe Taeko (Sanae Miyata) e a irmã mais nova Yuko (Yuriko Yoshitaka), todos eles demasiado distraídos para compreender que Noriko é mais do que uma rapariga que deverá cumprir tudo quanto é esperado dela. Na verdade ela encontra-se profundamente deprimida com a possibilidade de nunca abandonar a pequena vila que habita e onde todos, sem excepção, levam vidas sem quaisquer vestígios do Extraordinário. É isso que ela quer, o Excepcional. Quer partir para Tóquio, grande cidade e onde os sonhos são tão grandes quanto a cidade, isto é, maiores do que a maioria. Ela está registada num site onde encontra outras adolescentes tão alienadas quanto ela e, num impulso planeado, foge de casa para se encontrar com “Estação de Ueno 54” ou Kumiko (Tsugumi) que a leva numa viagem pelo mais bizarro de Tóquio, uma “seita” especializada no aluguer de famílias para corações solitários e indivíduos que perderam alguém especial.

Qualquer obra de Sono tem uma sinopse interessante, desde o suicídio em massa de adolescentes a extensões de cabelo assassinas em série, a sua filmografia promete bastante. Quando escreve em parceria ou deixa mesmo a tarefa para outros (evento raro) as películas fluem bastante melhor. Porque o homem, por bem intencionado que seja, é incapaz de editar o seu próprio pensamento resultando, depois, em obras que sentimos serem bem mais longas do que a sua duração real. Bem, “Love Exposure” (2008) tem Quatro! horas de duração. Multipliquem por dois e ficam a duração real de tempo desperdiçado. “Noriko’s Dinner Table” segue essa regra implícita. Desbastando a película em 30 minutos, “Noriko’s Dinner Table” seria mais directa ao assunto, sem perturbar o pensamento de quem o escreveu. O maior problema de Sono é não se conseguir abster de microanalisar a mais pequena expressão facial ou pensamento. Ele diz-nos em que reparar e como processar essa mesma informação. Mais condescendente e com menor fé no espectador é difícil. Essa sensação é depois acentuada pela narração constante. A vida interior dos personagens já é, por isso só, um livro aberto. A necessidade de preencher um espaço vazio percepcionado pelo argumentista-realizador como narração desnecessária é tão-só um preciosismo num filme já pejado de significações. Juventude alienada, sobretudo num país onde os jovens são sobre-estimulados, onde a doença mental ainda é olhada de soslaio, o poder da internet na criação de mundos secretos para mentes inquietas e a sua capacidade de distorcer e criar universos preferíveis àqueles que de facto habitamos, a reflexão sobre o que é a identidade e como esta nos influencia, a possibilidade de romper com o passado e inventar uma nova pessoa… Todos estes temas são abordados por diversas personagens com perspectivas muito diferentes… A fugitiva, aquela que apoiou e até encorajou a fuga, o que procura desesperado aquela que perdeu… E em pano de fundo uma pergunta, repetida até à exaustão, lavagem cerebral, cortesia de Shion Sono: estás conectado a ti próprio? Ao fim de uma hora, se ainda não estivermos conectados com a seca que de facto estamos a apanhar, não, se calhar, não estamos.

“Noriko’s Dinner Table” funciona melhor quando estabelece uma ligação ao predecessor “Suicide Club”, satisfazendo muito do que ficou por explicitar neste último. Talvez por compensação Sono tenha transportado demasiado para este Noriko. A transmissão das suas reflexões mediante a apresentação da tragédia de uma família que, em última análise, não se conhece de todo, é capaz de aproximar mais as audiências. No entanto, quando esta for fim se volta a sentar ao redor de uma mesa, trocando sorrisos e passando comida uns aos outros, este cenário parece estranhamente artificial. Duas estrelas.

O melhor:
- O elenco
- Temas com os quais as sociedades modernas se podem identificar

O pior:
- Duração
- Infantilização do público

Realização: Shion Sono
Argumento: Shion Sono
Kazue Fukushi como Noriko Shimabara
Ken Mitsuishi como Tetsuzo Shimabara
Tsugumi como Kumiko
Sanae Miyata como Taeko
Yuriko Yoshitaka como Yuko

Próximo filme: "Howling", 2012
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