sexta-feira, 12 de junho de 2020

Colaborações #10

Esta não foi certamente uma colaboração no antigo sentido do termo. Fui uma apenas, entre 100 pessoas como atores, realizadores, técnicos, jornalistas, programadores e muitos mais, que foram consultadas para se encontrarem "Os 10 Melhores Filmes Portugueses de Sempre".

Foi uma honra participar neste desafio. Não foi de certeza fácil reunir as opiniões de tantas pessoas e, quando se fala em "melhor", é sempre uma questão delicada. A palavra "melhor" tem um peso muito "definitivo", não acham? E quem sou eu para dizer o que é melhor? Mas foi, como sempre é, divertido pesquisar - entenda-se ver filmes - para poder aferir como iria abordar o desafio. Sobretudo, quer da lista geral e das contribuições individuais, apercebo-me do tanto que ainda me falta ver. Alguns por uma questão de timing, outros dos quais, nem sequer me lembrava. Constato ainda, com algum pesar, a quase total ausência de realizadores como António de Macedo de que o Motelx chegou a fazer, não há muito tempo, um ciclo. É a lista possível mas sem dúvida sólida.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Suores Frios - "Entre a cortina e o WC" - por Pedro Afonso


Quando me foi pedido para escrever sobre a cena/sequência, ou até filme inteiro, que me marcou e modelou a minha relação com o género de terror, eu soube imediatamente sobre que situação iria falar. Isso, só por si, demonstra como aquela experiência foi marcante para mim, mesmo que passem anos sem que me recorde dela, ou consiga nomear alguns outros filmes que foram muito mais marcantes e até modeladores da minha cinéfilia pelo género. Mas, para começar, é preciso contextuar a experiência.

Nasci e cresci em Angra do Heroísmo, e o meu pai dirigia o cinema da Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Desde muito cedo, sendo filho de um cinéfilo e tendo acesso a um cinema de borla, frequentava-o, principalmente nas matinés duplas de domingo à tarde. Era um cinema à antiga, com plateia e balcão, uma sala enorme com 500 e muitos lugares, fosso de orquestra e um pé-direito enorme. As cadeiras eram de madeira, com uma parte almofadada no assento e nas costas, revestidas a napa bordeaux. O chão da plateia era em madeira, sendo que o do balcão era em alcatifa, revestido os degraus que o compunham. Tinha um foyer no rés-do-chão, em L. No canto esquerdo, a porta do escritório do meu pai, depois uma vitrine onde se expunham cartazes de filmes a estrear. Depois haviam umas portas em vidro que davam acesso à plateia e, no topo direito o balcão do bar, ao lado da escadaria que dava acesso ao piso superior. Lá em cima, um enorme foyer e, no canto superior esquerdo, 3 ou 4 degraus e mais umas portas de vidro que davam acesso directo ao balcão.

Depois das portas de vidro do rés-do-chão havia um átrio. Do lado esquerdo, a porta que dava acesso à cabine de projecção. Do lado direito, duas portas, uma para o WC feminino e outra (a da direita) para o masculino. Em frente, uma cortina espessa, pesada e bordeaux que separava o átrio da plateia. Quando estava um filme em exibição, ambas as portas de vidro, no piso inferior e superior, eram fechadas, estando abertas o resto do tempo.

O primeiro filme daquela sessão dupla, que só vale a pena mencionar para efeitos de localização temporal, era “Matilda - O Grande Acontecimento”, de 1978. O filme estreou em Portugal em Setembro de 1979, e como os filmes demoravam alguns meses a serem exibidos em Angra, aquela sessão deve ter acontecido na primeira metade de 1980, tinha eu 6 anos. Deste filme, a única coisa que me lembro é que tinha um canguru que lutava boxe com humanos. Foi um filme banal, quase de certeza, mas divertido para um puto que adorava ir ao cinema e que gostava de todos os filmes que via (até desenvolver consciência crítica).

O filme que me proporcionou a experiência que quero contar, foi o segundo da tarde. Não me lembro onde comecei a vê-lo, mas, naquela altura e tendo eu tenra idade, o meu pai punha-me sempre no lugar D19 do balcão, uma coxia reservada sempre para o chefe da polícia, que curiosamente nunca ia ao cinema (pelo menos às matinés de domingo).

Do filme em questão, lembrava-me apenas do início. Era um casal a namorar e a falar de estrelas cadentes, quando cai um meteoro não muito longe.  Um velhote aproximava-se, tocava-lhe com um pau e sai uma gosma que lhe sobe pelo braço. O casal encontra-o e leva-o a um médico. Soube, uns anos mais tarde e já depois de ver o seu remake de 1988, que se tratava de “The Blob” de 1958, filme de estreia como protagonista de Steve McQueen, e que revi há poucos anos, através do “My Two Thousand Movies” do Francisco Rocha. Quem já o viu, ou ao seu remake, sabe que aquela gosma vai aumentando e arrastando-se pela pequena cidade, engolindo tudo o que encontra à frente.



Não sei a que altura do filme eu não suportei vê-lo. Sei que não consegui sequer ficar na sala, uma vez que o som dos gritos e da música me provocavam um terror enorme. A dada altura, estava no átrio da plateia, escondido atrás da pesada cortina. Ia espreitando o filme quando a acção estava mais ‘calma’, mas correndo para o WC masculino quando se tornava insuportável. Sei que existia também a vergonha de ser apanhado, com medo de um filme, e a casa de banho era uma boa desculpa. Passei a sessão assim, um olho no filme, outro na porta da cabine, para não ser apanhado, e entradas na casa de banho sempre que o som se tornava mais agressivo ou ouvia algum barulho vindo da cabine e estranho à projecção. Lembro-me da ansiedade que senti com tudo isso, o coração acelerado, mas sempre atraído para o que se passava no ecrã, atrás da cortina. No final, quando a cortina se abriu um pouco e pessoas começaram a sair, misturei-me na multidão e saí para o foyer, triunfante por ter resistido e escapado a uma humilhação, mas sobretudo aliviado pelo fim do filme. Virei à direita, entrei no escritório do meu pai e devo ter respondido afirmativamente à pergunta que me fazia sempre: “Gostaste?”

Sei que isto foi um momento definidor para mim por várias razões. É um retrato de uma época interessante, em que se faziam sessões duplas, com um filme com um conceito infantil e outro mais adulto, para maiores de 6 anos (só havia 3 classificações na altura: 6, 13 e 18), e em que tenho as mais gratas e saudosas memórias de tanta porcaria que adorei ver. Mas aquilo que senti naquela sessão preparou-me para futuras sessões com filmes bem mais ‘pesados’ (“An American Werewolf In London” e “John Carpenter’s The Thing” foram dois filmes a que resisti estoicamente poucos anos depois, em sessões noturnas da RTP Açores, quando ficava a dormir em casa dos meus avós). O medo, esse ainda existia, melhor ou pior controlado, mas a atração, o encantamento e a adrenalina dessas sessões viciaram-me para o género.

(Re)vi “The Blob” há poucos anos, e, agora que o medo não existe, pude apreciar o quão insípido o filme é. Os efeitos especiais são fracos e datados, mas a narrativa é eficaz. Quando o vi em 1980 já conhecia o McQueen, “A Torre do Inferno” passava frequentemente nas matinés da Fanfarra (e o meu pai tinha um poster do filme no escritório, que eu passava horas a admirar), mas não tinha qualquer memória dele no filme (o que confirma o quão pouco vi dele). Mas, mais do que analisar o filme friamente, vieram-me memórias, sentimentos e emoções de uma época feliz e formadora, que me deixou marcas eternas.

Pedro Afonso
Blog Laxante Cultural http://www.laxantecultural.com/

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Blog Velho, Rubrica Nova!

Andei para trás e para a frente sem saber por onde começar. O Not a Film Critic encontra-se num estado de semi abandono, com umas teias de aranha aqui e ali. O último texto publicado tem meses e é a anunciar uma colaboração. Podia tê-lo deixado só e partir para outra, mas a ligação afectiva é demasiado forte. Criei-o por amor ao cinema. Nunca por achar que sabia ou sei muito de cinema. Cada vez que alguém me apelida de "especialista" não posso deixar de sorrir por dentro. Juntos atravessámos altos e baixos. Felizmente, mais altos que baixos. Conclui cursos, quebrei o coração, remendei-o logo a seguir, atirei-me ao mercado de trabalho de cabeça, perdi a arrogância própria da juventude, aprendi a lidar com a desilusão, adotei um animal, constitui família e, tão bonita é a minha... Enquanto fazia tudo isso, vi MUITOS filmes, escrevi sobre alguns, assisti a festivais, participei em encontros muito interessantes, troquei impressões com gente fascinante, participei em várias colaborações em formatos vários e fiz ainda mais amigos.

É por perceber a mutabilidade da vida que a morte do blogue é uma inevitabilidade. Os instagrams, podcasts e youtubes desta vida tomarão conta deste deserto, mas ainda não estou disposta a encerrá-lo. Não, enquanto tiver uma réstia de tempo e me der prazer. Até esse momento chegar, mantenho a memória e os textos de filmes bons, menos bons e até horríveis viva através dos textos que compõem. Feliz 9.° aniversário atrasado.

Transitando para um momento mais lúdico e, porque falei em amor ao cinema e as memórias que dele fazem intrínseca parte, dou hoje início à rubrica "Suores Frios".



Os suores frios são uma reacção natural que se desencadeia no nosso corpo para nos proteger de situações perigosas. Eles surgem quando temos falta de ar falta de açúcar mas, também, quando o nosso corpo responde ao medo, à dor, ou ao choque. Para muitos, as suas primeiras memórias de cinema estão interligadas a noites povoadas por pesadelos, esconder-se por baixo de cobertores ou o surgimento de uma qualquer intolerância surgida após o visionamento de um filme. Por que estas reacções estão mais intimamente ligadas a emoções fortes, solicitei a conhecidos bloggers, instagramers, podcasters, etc, para revelar ao mundo, em jeito confessional, o momento que os fez sentir assim pequeninos e modelou indelevelmente a sua relação com o género de terror.

Estou bastante entusiasmada com as participações. Algumas já me chegaram e, de outras, já tenho um "cheirinho". Há ali momentos verdadeiramente surpreendentes e outros que explicam o (des)gosto pelo género. Tenho também um header espectacular, cortesia do Edgar Ascensão. Espero que acompanhem e desfrutem desta viagem nostálgica que se inicia já a 08 de junho, quanto eu. Até já!




quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Colaborações #9

Hello? Is anyone out there?!

Não me esqueci que tinha blogue, certamente que não me esqueci da senha para aqui entrar - ainda que tenha tido de pensar um bocadinho antes de a introduzir, não troquei o blogue por um canal de youtube e também não deixei de ver filmes. É só que às vezes... a vida acontece.

A prova de que até escrevi durante o ano de 2019 é a mais recente colaboração, cortesia da página Laxante Cultural que por ocasião do seu 10º aniversário (Ena que estamos velhos!) desafiou velhos conhecidos a dar o seu contributo na rúbrica comemorativa "10 Anos / 20 Escolhas", em que 10 bloguers (essa espécie em vias de extinção), foram convidados a apresentar a sua escolha referente a um ano previamente selecionado pelo Pedro Afonso. Para não variar a minha escolha recaiu sobre um filme de terror. O seu nome "Hereditary" e se calhar até tiveram oportunidade de o ver recentemente no Motelx, onde também esteve presente o realizador Ari Aster a promover "Midsommer", o seu mais recente trabalho. Ao Pedro o meu agradecimento. Quanto a vós, dois leitores do blogue, vemo-nos por aí.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 – parte cinco (Final)

“Anna & the Apocalypse” (2017) - Alguma vez partilhei aqui um ligeiro desgosto recente com musicais? Musicais como “The Sound of Music” (1965), um “Mary Poppins” ou qualquer filme do Fred Astaire, com aqui a je é à vontadinha. Agora falem-me em “Glees” (2009-2015) ou Chicagos (2002) e mandar-vos-ei lavar os olhos com filmes de terror. Anna & the Apocalypse centra-se na jovem Anna (Ella Hunt) que tem o desejo de iniciar um ano sabático e partir para a Austrália à aventura para se descobrir, ao invés de iniciar de imediato a universidade o que não conjuga bem com as expectativas do pai ultra protector e de John (Malcolm Cumming), o melhor amigo que mantém por ela uma paixão secreta que só a própria não vê. Inicia-se uma luta pela sua afirmação enquanto jovem adulta e as expectativas dos que a rodeiam e o apocalipse zombie que ameaça acabar com os seus sonhos e a vida de todos durante a época da “paz no mundo”, o Natal. “Anna & The Apocalypse” é uma lufada de ar fresco. Faz o género avançar numa fusão inesperada e surpreendentemente coesa com terror e não lhe faltam quilómetros de charme. Enverga a ingenuidade fofinha de um elenco sobretudo desconhecido e não cai no erro das grandes encenações coreográficas que podem tornar o género por vezes plástico. A pouca encenação que existe é naturalmente ancorada num elenco jovem excitável e um excelente timing cómico. “Anna & The Apocalypse” faz também uma homenagem competente ao melhor filme de zombies do milénio “Shaun of the Dead” (2004). A comédia musical natalícia de terror zombie que não sabia que queria. Quatro estrelas.

Realização: John McPhail
Argumento: Alan McDonald e Ryan McHenry
Ella Hunt como Anna
Malcolm Cumming como John
Sarah Swire como Steph
Christopher Leveaux como Chris
Ben Wiggins como Nick
Marli Siu como Lisa
Mark Benton como Tony
Paul Kaye como Savage

“Brothers’ nest” (2018) – Tendo passado despercebido em favor de filmes como “One Cut of the Dead” ou “Anna & the Apocalypse”, “Brothers’ nest” entra no complicado mundo das relações familiares. Os irmãos Jeff (Clayton Jacobson) e Terry (Shane Jacobson) têm tudo planeado: disseram às famílias que vão passar uns tempos a Sidney para mas na verdade estão à espera do padrasto na quinta da família para o matar. A mãe deles tem cancro e Jeff está convencido que quando morrer o marido irá ficar com a quinta que para ele lhes pertence. A melhor forma de solucionar este problema parece a mais extrema de todas e arrastar o irmão para “o que tem de ser feito” não lhe pesa na consciência. Terry é manipulado pelo irmão mais velho e o plano traçado testa a sua fé no irmão e nas crenças que teve toda a vida sobre a sua infância. “Brothers’ Nest” tem sido equipado a uma obra dos irmãos Cohen e é de facto uma obra fraterna. Clayton e Shane são de facto irmãos e muitas vezes as suas interações são tão naturais que o discurso quase inventado na hora, sobretudo nos momentos em que apontam defeitos no outro ou as falhas óbvias no plano maquiavélico. Quase aqueceria o coração não fosse o caso de se terem juntado para matar o padrasto e ferir o coração de uma mãe doente. À boa forma de uns Cohen, o plano não corre exactamente como planeado e o desvelar da situação não é bonito. Os acontecimentos revelam uma série de verdades desconfortáveis e desemboca numa questão fundamental. Quem queremos ser? “Brothers’ Nest” é menos um filme de terror que um thriller mas ainda assim uma boa aposta Motelx para quem prefere dinâmicas mais assentes na realidade. Três estrelas.
Realização: Clayton Jacobson
Argumento: Jaime Browne e  Chris Pahlow
Shane Jacobson como Terry
Clayton Jacobson como Jeff
Kim Gyngell como Rodger
Lynette Curran como Mãe
Sarah Snook como Sandy


Errementari (2017) – Vinha de Espanha com boas expectativas e já alguns prémios, incluindo o prémio da audiência no Festival de San Sebastian. Num título mais pessoal tinha ouvido falar grandes coisas do filme e, bem, o visionamento acabou por redundar numa desilusão. Errementari passa-se num tempo de perseguição de bruxas e de superstição. A antevisão de aldeões com tochas e forquilhas é acertada. Há um ferreiro chamado Patxi que é um proscrito numa aldeia. Muitas estórias se contam sobre os seus tempos na guerra e os aldeões preferem não se cruzar com ele. Quando Usue uma órfã com um comportamento rebelde se cruza com o ferreiro o seu segredo bem ao cimo. Ele fez um pacto com o diabo para se manter vivo mas não quer cumprir a sua parte do negócio e mantém um demónio seu servo como prisioneiro. A pequena Usue deixa-se enganar pelo demónio e Patxi terá de se despachar antes que o diabo e uma população acicatada pelo desaparecimento da menina lhe venham reclamar a sua vida. Errementari é um conto de fadas basco que faz recordar Del Toro mas com um sentido de humor inesperado. É também daí que advém um dos seus maiores problemas. O demónio que Patxi mantém prisioneiro Sartael é um mimo de se ver: a caracterização do personagem é espectacular. Infelizmente e apesar de Eneko Sagardoy fazer um papelão, o humor do seu personagem mata a atmosfera pesada que antecede o seu aparecimento, seguindo-se mais tarde uma descida aos infernos em imagem gerada por computador onde se denota mais as limitações do orçamento. Sartael é a personagem certa no filme errado. O marketing do filme parece concordar, dado que o trailer de Errementari também fazia adivinhar um filme com muito mais teor de terror que de comédia e, para um dos últimos filmes a ser exibidos na edição de 2018 do motelx, não posso se não concordar. Duas estrelas e meia.

Realização: Paul Urkijo Alijo
Argumento: Paul Urkijo Alijo e Asier Guerricaechevarría
Kandido Uranga como Patxi
Uma Bracaglia como Usue
Eneko Sagardoy como Sartael
Ramón Aguirre como Alfredo
José Ramón Argoitia como Mateo
Josean Bengoetxea como Santi
Gotzon Sanchez como Faustino
Aitor Urcelai como Benito
Maite Bastos como Blanca


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