domingo, 16 de abril de 2017

"Knock Knock! Who's There?" (2015)


Hong Kong não parece querer abrandar a produção massiva de filmes de terror. Como se costuma dizer quantidade não é sinónimo e qualidade. E “Knock Knock! Who’s There?” não apresenta qualquer pretensão em ascender à parte superior da tabela.

Carrie Ng é uma actriz veterana de Hong Kong que conseguiu emergir de uma sucessão de maus filmes de categoria III e efetuar com sucesso a transição para o cinema destinado ao grande público. Mas se o tempo foi seu amigo e lhe trouxe respeito e reconhecimento internacional não lhe trouxe jeitinho nenhum para a realização… Entre outros pecados cai no erro da antologia. Ao invés de se focar em retratar uma boa estória foca-se em três, cada uma mais desfocada que a anterior. 
Em “Missing” Isabella (Annie Liu) morre num acidente rodoviário aparatoso ao tentar escapar dos paparazzi que a perseguem e ao seu noivo Harry (Carlos Chan). Inquieto, o seu espírito permanece na casa mortuária onde trabalha Roy (Babyjohn Choi), uma velha paixão. Diz que se reacende a acendalha do amor, que é impossível de concretizar dado… bem, dado o facto de ela estar morta e assim mas pronto, diz que o amor é cego e pelos vistos também imortal.

Segue-se-lhe “Karma” e Carrie Ng interpreta Ngo uma agente funerária viciada no jogo que ouve falar de uma susperstição, segundo a qual, se ela enterrar um gato vivo, será bafejada com grandes riquezas. Na sua ganância, ela comete o erro de matar o gato da sua sobrinha Shou (Kate Tsui). Tímida e quieta, ela recusa ignorar o acto atroz cometido pela tia e vai rebelar-se.
Em “Smell” Yan (Jennifer Tse) é uma artista especialista em tornar os mortos apresentáveis para as exéquias fúnebres que não larga o telemóvel. Um dia recebe uma mensagem de Mei-Mei (Nicola Tsang), alguém que não conhece mas com quem simpatiza de imediato. Mei-mei pede-lhe para ir buscar algo por ela e Yan decide ajudá-la, enfiando-se num bairro pouco recomendável da cidade…
“Knock Knock! Who’s There?” é uma miscelânea de estórias com um tom desigual e emprestado a tantos outros que lhe sucederam. Em casos pontuais, que podem ser encontrados em Eric Kwok e Jennifer Tse e, dada a sua experiência afigura-se uma rara tentativa de elevar o material mas o esforço é insuficiente para apagar o meu gosto deixado pelo mau argumento e direcção.

À excepção da sequência inicial, na qual Isabella sofre uma morte violenta que envolve paparazzi sem escrúpulos e um camião do lixo, “Missing” podia ser ignorado quase na totalidade. Para uma antologia que é vendida como sendo de terror, este primeiro segmento é romântico e enfadonho. Está também repleto de cenas inconsequentes. Isabella torna-se um fantasma dado ter assuntos por resolver, assuntos do coração entenda-se, um pouco como “Ghost” (1990). Entre outras descobertas percebemos que o noivo que deixa vivo não lhe desperta interesse além de um velho amor, terminado de forma precoce e absurda devido à interferência da família dela. O que resulta desta revelação? Nada. E a ameaça de espíritos maus nesta terra a Isabella também desaparece tão rapidamente quanto surge.“Karma” é uma velha estória de crime e castigo e embora Carrie Ng sobressaia no papel de vilã, isto não é necessariamente positivo. “Karma” assemelha-se mais a um produto feito para televisão –meia hora de distracção –, do que uma película para televisão. Apesar de algumas ideias interessantes e com potencial inovador, tais como a possessão por um gato e algum mau CGI, o segmento nunca se consegue elevar como algo mais do que medíocre. “Smell” é um título alusivo ao cheiro de cadáveres em decomposição e o que acompanhamos é a viagem de uma mulher (Jennifer Tse) que trabalha no ramo da morte até ao seu encontro. “Smell” é o segmento mais brutal da antologia, no entanto, pouco mais tem do que isso e surge em quantidades muito pequenas, demasiado tarde. Considerando o constrangimento do orçamento os maus efeitos visuais podiam ser perdoados se mais alguma coisa, o que quer que fosse, tivesse um nível superior. Mas isso nunca sucede e, acreditem, para quem acreditou até ao fim por algum tipo de retorno a espera é penosa. “Knock Knock” é o tipo de filme que faz questionar se vale a pena insistir com o visionamento de filmes de terror made in Hong Kong. É que este filme já nem é só formulaico, é horrível e uma perda de tempo. Mais valia não ter aberto a porta a esta sugestão. Uma estrela e meia.


Realização: Carrie Ng Ka-Lai                      
Argumento: Carrie Ng Ka-Lai, Frankie Tam e Yip Ming-Ho           
Segmento: “Missing”
Annie Liu como Isabella
Carlos Chan como Harry
Babyjohn Choi como Roy

Segmento: “Karma”
Kate Tsui como Shou Yun
Carrie Ng como Ngo
Simon Lui como Tong

Segmento: “Smell”
Jennifer Tse como Yan
Nicola Tsang como Mei-Mei

Eric Kwok como “Assassino”


Próximo Filme: Headshot, 2016

quinta-feira, 30 de março de 2017

"Spiral" (Uzumaki, 2000)


Kirie (Eriko Hatsune) é uma estudante que vive em aparente felicidade em Kurouzu, numa pequena vila japonesa. Vive uma relação de amor platónico com Shuichi (Fhi Fan) e o pai Yasuo (Tarô Suwa) foi recentemente reconhecido pelo trabalho enquanto escultor. Ela aparenta dividir com positividade o tempo entre a escola e a casa. Que mais podia uma garota querer?
Um dia, Kirie passa na rua pelo pai de Shuichi, Toshio (Ren Ôsugi), que se encontra a filmar um caracol. Ela cumprimenta-o mas ele parece nem se dar conta da presença dele. Entretanto, Shuichi pede-lhe para fugir com ele para a cidade. Passa-se algo de muito estranho. Algo que nem mesmo ele compreende e que está a afectar o pai dele. Obcecado por tudo quanto tenha que ver com espirais, o comportamento de Toshio torna-se cada vez mais bizarro e preocupante. Como se nem a própria família tivesse qualquer importância até se deixar consumir por completo pelas espirais. E ele é apenas uma de muitas vítimas. Os colegas de Kirie e outros habitantes começam a ficar tomados pela loucura das espirais. Uma espécie de possessão colectiva que contamina aos poucos Kurouzu. Os personagens perdem o seu lado funcional, deixam de viver para se concentrar nos padrões em espiral que vêem em todo o lado: num caracol, ou umas escadas, em peças de cerâmica, no céu… Apenas Kirie permanece incólume ao que se passa à sua volta.

“Spiral” é um conto de obsessão. Como tal, Higuchinsky (sim, é este o nome do realizador, de origem ucraniana e japonesa), fez questão de inserir espirais, umas vezes de modo cirúrgico, outras mais explicitamente, com caracter crescente conforme a película avança. O tom esverdeado da película que faz recordar por exemplo, um “The Ring” (2002), é convincente para a construção de uma realidade paralela. A somar à cinematografia soberba na sugestão da ideia de loucura contagiante, estão ainda todo o tipo de truques de câmara que contribuem para tornar não só a atmosfera (do filme) louca, como, indicar ao próprio espectador a insanidade do que está a visionar! Dá ares de experimental e isso é interessante tanto mais que nunca se chega a saber se tal se deve a momentos de genialidade ou sorte. As críticas são na maioria favoráveis e parecem apontar a primeira mas não estou assim tão convencida.

“Spiral” baseia-se numa manga (longa) de Junji Ito. Se já é difícil condensar os eventos de um livro num só filme, supõe-se que será muito mais adaptar uma série de carácter semanal que se estendeu por um ano! Porventura, seria mais complicado explicar uma estória tão complexa ou Higushinsky perdeu-se na forma e esqueceu o conteúdo. Além de interacções forçadas entre o duo de protagonistas e representações hórridas, o filme move-se a passo de caracol. Existem algumas cenas muito interessantes incluindo uma metamorfose num destes moluscos, um incidente com um eletrodoméstico ou até a exibição de um penteado de fazer inveja às principais casas de alta-costura. Há qualquer coisa de em “Spiral” que faz aludir a autores como o David Lynch. No entanto, continua a persistir uma enorme dificuldade em proceder à sua classificação enquanto género. É ainda hoje apresentado como o mais original entre os filmes de terror desse ano, sendo que mais de uma década volvida, continua a não existir muito material que se lhe compare nesses termos. As mortes são sem dúvida peculiares e é capaz de nos fazer olhar em redor e perceber que há muito mais espirais nas nossas vidas do que poderíamos pensar. Mas será mesmo um filme de terror? Duas estrelas.

Realização: Higuchinsky
Argumento: Junji Ito (manga), Kengo Kaji, Takao Nitta e Chika Yasuo
Eriko Hatsune como Kirie Goshima
Fhi Fan como Shuichi Saito
Hinako Saeki como Kyoko Sekino
Eun-Kyung Shin como Chie Marayama
Keiko Takahashi como Yukie Saito
Ren Ôsugi como Toshio Saito
Denden Denden como Officer Futada
Masami Horiuchi como Reporter Ichiro Tamura
Tarô Suwa como Yasuo Goshima
Toru Tezuka como Yokota Ikuo
Sadao Abe como Mitsuru Yamaguchi
Asumi Miwa como Shiho Ishikawa

Próximo filme: "Knock Knock! Who's There?" (2015)

quinta-feira, 23 de março de 2017

"House" (Hausu, 1977)


Segundo reza a história, estávamos nos loucos anos 70, quando o estúdio Toho – sim, esse mesmo do Godzilla (1954) –, impressionado pelo sucesso de “Jaws” (1975) encomendou a Nobuhiko Obayashi um filme similar. Sem inspiração e, confiando que a veia artística é de família, Obayashi foi buscar ideias à fértil imaginação de Chigumi, a sua filha então menor. O resultado foi tão pouco convencional que durante anos ninguém quis pegar no argumento incompreendido de Obayashi. Finalmente, o estúdio cedeu o total (des)controlo criativo ao argumentista e assim nasceu um filme que se diria ter sido influenciado pelas tão mal-afamadas drogas dos anos 70. E que viagem “House” se revelou.

Angel (Kimiko Ikegami) rebela-se após o seu pai revelar que encontrou uma nova namorada após anos de viuvez. Angel não gostou de Ryoko (Haruko Hanibucho) apesar da abordagem afectuosa desta e, decide, por despeito, passar as férias de Verão com as amigas e a tia (Yoko Minamida), irmã de sua mãe, que apenas viu em pequena. A tia acolhe-a de braços abertos no casarão onde habita sozinha, no meio de uma floresta. E mal pode estar por estar rodeada de juventude, ela, que se queixa de já não haver jovens na sua localidade. Ainda nos primeiros instantes da introdução da tia, professora de piano, é-nos dado a conhecer uma vida trágica. O noivo partiu para a Guerra mas nunca retornou e ela, nunca desistiu de esperar pelo seu regresso.

Desde os créditos iniciais que é transmitida a ideia de que “House” é uma experiência cinematográfica um pouco diferente. Mas podem referir-se a “House” apenas como uma experiência. O filme tem muito mais de captura dos excessos e defeitos dos anos 70, do que produto cinematográfico. O estúdio desistiu de “House” e deixou Obayashi fazer o que desejasse e isso nota-se. Mais do que a imaginação de uma criança, por incoerente que esta possa assemelhar-se, sobressai todo um look louco, repleto de objectos animados, animais malditos e muito amadorismo que se torna divertido se, (e isto é um grande se), for visionado com bastante distanciamento.
As garotas que dão nome a algumas personagens tão estereotipadas como Angel, Kunfû (Kung Fu), Fanta (Fantasy), Makku (Mac) ou Merodî (Melody), entre outras, são actrizes amadoras que não foram, decerto, selecionadas pelas suas excelentes capacidades dramáticas. De facto, várias actrizes nos mais variados momentos surgem desnudas. Longe de mim imaginar que a popularidade do género exploitation teve algo a ver com isso… Mas quem fala da falta de aptidão dramática das meninas não pode deixar de esquecer personagens como o vendedor de melancias, o próprio Obayashi num momento Hitchcockiano e que aparece para dar pistas de que o casarão esconde algo do outro mundo… E o que de lá vem não é tão macambúzio quanto o cinema de terror de finais dos anos 90 e novo milénio fariam crer. Quem disse que os fantasmas/poltergeists ou seja lá o que for, não têm sentido de humor? Os elementos de terror baseiam-se em momentos de profundo exagero musical, que funcionam como berros aos ouvidos ou até a repetição vezes sem conta de uma composição em particular, tal como as crianças costumam fazer. Além disso, temos alguns efeitos especiais sui generis, seja pelo enquadramento criativo da câmara, dos efeitos dignos de um estudante no primeiro ano do curso de cinema ou efeitos animados dissonantes do contexto que os envolvem. Por mais incrível que pareça, por baixo das camadas de maus efeitos especiais e gargalhadas involuntárias Obayashi faz algumas alusões à tragédia maior da História do Japão seja mediante a estória de um noivo desaparecido na guerra ou de uma personagem que arde até nada mais restar no seu lugar. Temos, por outro lado, as bases para o género da comédia de terror e das estórias de casas assombradas que por um motivo ou por outro entram em casarões e… nem sempre saem com vida. Duas estrelas.

Realização: Nobuhiko Obayashi
Argumento: Chigumi Obayashi
Kimiko Ikegami como Angel
Miki Jinbo como Kunfû
Kumiko Ohba como Fanta
Ai Matsubara como Gari
Mieko Satô como Makku
Eriko Tanaka como Merodî
Masayo Miyako como Suîto

Próximo Filme: "Spiral" (Uzumaki, 2000)

domingo, 5 de março de 2017

"The Handmaiden" (Agassi, 2016)


Chan-wook Park, realizador de filmes tão brilhantes e brutais como a trilogia da Vingança (2002-2005), um dos melhores segmentos da antologia de terror “Three… Extremes” (2004) ou ainda o injustamente ignorado “Snowpiercer” (2013) ainda não encontrou um desafio que não pudesse superar. Desta feita adaptou um romance gótico-vitoriano “Fingersmith” de Sarah Waters escrito em 2002 e transportou-o para a Coreia dos anos 40, ocupada pelo invasor Japão. Tanto quanto me foi dado a perceber (obrigada Google!), a essência e a motivação das personagens permanece a mesma contudo, elas seguem o rumo que Chan-wook Park lhes quis dar. Este thriller erótico-dramático foi escrito por uma romancista mas as personagens são tão familiares, tão intrinsecamente ligadas à obra de Chan-wook que quem não saiba dirá com facilidade que “The Handmaiden” é 100% fruto do seu imaginário.


Hideko (Min-hee Kim) é uma órfã japonesa prisioneira numa relação inquietante com Kouzuki (Jin-woong Jo) um coreano que se casou com uma tia dela para ascender socialmente e usufruir do dinheiro da herdeira para dar azo à sua derradeira paixão: a literatura. A fortuna da jovem japonesa capta as atenções de um vigarista que se apresenta como um Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) tomado de ardores de amor e paixão, herói que a irá resgatar da clausura. Para tal, ele capta a ajuda da pequena ladra Sok-hee (Tae-ri Kim), uma servente que deverá influenciar e colocar Hideko no caminho do sedutor.
Um plano que parecia simples complexifica-se quando Hideko e Sook-hee forjam uma forte ligação. Elas são mais iguais do que seria expectável. Presas às circunstâncias do nascimento, elas parecem fadadas à impossibilidade de escapar aos destinos que lhes foram prescritos há muito, muito tempo. Por dinheiro, ambas são joguetes nas mãos dos homens. Até que surge num plano maquiavélico uma hipótese derradeira de liberdade. As relações entre as personagens são intrincadas e a duplicidade é uma constante. Esta percepção do estado de coisas e das relações entre personagens instala-se pela apresentação de uma narrativa menos comum, divida em capítulos, como se tratasse do livro que lhe deu origem. Cada capítulo é apresentado do ponto de vista das diversas personagens e gera-se mesmo o efeito “Rashômon” até que os motivos são desvelados e confrontados para uma verdade dos “factos” sobressair.

“The Handmaiden” é vastamente superior a muitos equivalentes do género e sim, o recente “Crimson Peak” (2015) vem à mente. As representações do quarteto principal são todas dignas de prémios e a acção move-se devagar, à excepção da última meia hora mas em momento algum se torna insípida como a abordagem de Del Toro. Aqui há beleza à superfície e em profundidade. A cinematografia é esplêndida, o que é aliás comum nos filmes de Park Chan-wook. Existe um forte sentido de transmissão das ideias de clausura física e das barreiras psicológicas que separam as personagens. Sobretudo a relação entre Sook-hee e Hideko é explorada de modo hábil pela câmara curiosa, intrusa, em todos os pequenos momentos, mesmo aqueles em que duas mulheres cúmplices se encontram a brincar aos vestidos. Momentos de comédia transitam para outros de elevada tensão com uma fluidez natural. Por outro lado, existem ainda pequenos momentos de homenagem e referência a trabalhos anteriores, designadamente, uma cena de tortura reminiscente do segmento “Cut” em “Three Extremes” e “Oldboy”. “The Handmaiden” é ainda um thriller erótico com cenas capazes de fazer corar o cinéfilo mais liberal. A despeito do cuidado na direção destas sequências estas prolongam-se sem necessidade, fazendo com que a película perca o ritmo, ou quebre mesmo alguma tensão que lhe antecedeu. Talvez seja este o mal menor num filme onde as personagens são tão violentadas que algo que se assemelhe a um breve momento de prazer saiba a uma pequena recompensa. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Seo-kyeong Jeong e Chan-wook Park
Min-hee Kim como Hideko
Tae-ri Kim como Sook-Hee
Jung-woo Ha como Conde Fujiwara
Jin-woong Jo como Tio Kouzuki
Hae-suk Kim como Miss Sasaki
So-ri Moon como Tia de Hideko

Próximo Filme: "House" (Hausu, 1977)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"The Autopsy of Jane Doe" (2016)


Dois Homens, um cadáver. Podia ter saído de um daqueles vídeos esquisitos que circulam por aí mas revela-se afinal uma das películas de terror mais competentes de 2016. Uma morgue, cadáveres engavetados, uma família a recuperar ainda de uma tragédia pessoal e o corpo de uma jovem cuja mera existência é um anacronismo é tudo quanto basta para uma das experiências mais marcantes do género do ano.

Tommy (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch) são a dupla de pai e filho médicos-legistas, mais competentes do ramo. Tommy vive para o trabalho. Pouco existe que ele não tenha visto e têm ainda bastantes truques para ensinar ao talentoso filho. Já Austin é um apaixonado pelo “negócio” de família mas não se quer deixar consumir por ele. Pensa numa vida além da morgue e esta encontra-se em Emma (Ophelia Lovibond). Mas enquanto não encontra coragem para deixar o desgostoso pai aprender a lidar com as agruras da vida, dedica-se aos mistérios do corpo. Eles encontram o maior de todos em “Jane Doe” (Olwen Catherine Kelly), o cadáver de jovem desconhecida, encontrado pelo familiar Xerife Sheldon (Michael McElhatton) na cena de um massacre que envolve várias caras conhecidas da região.

O prazo é apertado. Numa noite terão de descobrir a causa da morte da desconhecida e a sua ligação às outras mortes mas em como tudo o resto em Jane, ela é um elemento estranho. Tudo na sua presença indica não se encaixar na sequência de eventos. O corpo não aparenta sinais de violência ou… de qualquer outra coisa na verdade. De que é que morreu a desconhecida?
“The Autopsy of Jane Doe” pertence à ainda curta carreira de André Ovredal, realizador norueguês que se notabilizou com uma das raras boas incursões no género de found footage (“Blair Witch” é uma treta cof, cof) com “Trollhunter” que ademais foi beber à própria mitologia do seu país. No entanto, ninguém o pode acusar de amadorismo. “The Autopsy of Jane Doe” parece um dos melhores episódios de "CSI" com uns resquícios de “Six Feet Under” em formato longa-metragem. É impossível não ficar absorvido pela dupla Cox/Hirsch enquanto esta retalha o corpo de Jane, ao mesmo tempo que levanta as hipóteses mais fantásticas e pavorosas. A abordagem fria e clínica da dupla não afugenta, antes torna as actuações mais realistas. Por seu turno, sem dizer nada, a linda e misteriosa Jane Doe marca o tom cada vez mais sinistro do filme. Sem nada dizer ou mover-se – o cadáver! –, comanda o filme. Um excelente exercício de body horror, mas sem o sensacionalismo de outros. A empurrar a narrativa está a sua investigação. A cada novo indício do que poderá ter sucedido, surge uma nova pista desconcertante para o ultra experiente Tommy e o mais novo mas não menos perspicaz Austin. Entretanto, começam a suceder episódios insólitos na cave onde se encontram e que parecem querer indicar que os factos são bem mais complexos e perversos do que se podia à partida supor. Na verdade o contínuo enfoque em Jane Doe traz mais perguntas que respostas. Este enfase não é voyeurista. Pelo menos não numa perspectiva sexual, a despeito de Jane ser belíssima. A obsessão é clínica, como a de um médico que procura de modo furioso descobrir a causa da maleita de um seu doente. A dada altura “Jane Doe” muda para uma direção não totalmente inesperada mas porventura desnecessária, ainda assim competente. No entanto, se o espectador decide prosseguir com o visionamento confiante ou ficar indignado esta é uma decisão subjectiva. Brian Cox e Emile Hirsch continuam tão convincentes, enquanto mentes inquisitivas e na relação de pai e filho, enquanto o mundo à sua volta ameaça ruir.  A despeito de na última metade de “The Autopsy of Jane Doe” existir uma mudança precipitada de direção, a primeira parte é tão impactante que não é possível não permanecer fascinado por este novo estranho monstro recriado por Ovredal. Quatro estrelas.
Realização: André Øvredal
Argumento: Ian B. Goldberg e Richard Naing
Emile Hirsch como Austin Tilden
Brian Cox como Tommy Tilden
Ophelia Lovibond como Emma
Michael McElhatton como Xerife Sheldon
Olwen Catherine Kelly como Jane Doe
Jane Perry como Tenente Wade

Próximo Filme: "The Handmaiden (Agassi, 2016)
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