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quinta-feira, 30 de março de 2017

"Spiral" (Uzumaki, 2000)


Kirie (Eriko Hatsune) é uma estudante que vive em aparente felicidade em Kurouzu, numa pequena vila japonesa. Vive uma relação de amor platónico com Shuichi (Fhi Fan) e o pai Yasuo (Tarô Suwa) foi recentemente reconhecido pelo trabalho enquanto escultor. Ela aparenta dividir com positividade o tempo entre a escola e a casa. Que mais podia uma garota querer?
Um dia, Kirie passa na rua pelo pai de Shuichi, Toshio (Ren Ôsugi), que se encontra a filmar um caracol. Ela cumprimenta-o mas ele parece nem se dar conta da presença dele. Entretanto, Shuichi pede-lhe para fugir com ele para a cidade. Passa-se algo de muito estranho. Algo que nem mesmo ele compreende e que está a afectar o pai dele. Obcecado por tudo quanto tenha que ver com espirais, o comportamento de Toshio torna-se cada vez mais bizarro e preocupante. Como se nem a própria família tivesse qualquer importância até se deixar consumir por completo pelas espirais. E ele é apenas uma de muitas vítimas. Os colegas de Kirie e outros habitantes começam a ficar tomados pela loucura das espirais. Uma espécie de possessão colectiva que contamina aos poucos Kurouzu. Os personagens perdem o seu lado funcional, deixam de viver para se concentrar nos padrões em espiral que vêem em todo o lado: num caracol, ou umas escadas, em peças de cerâmica, no céu… Apenas Kirie permanece incólume ao que se passa à sua volta.

“Spiral” é um conto de obsessão. Como tal, Higuchinsky (sim, é este o nome do realizador, de origem ucraniana e japonesa), fez questão de inserir espirais, umas vezes de modo cirúrgico, outras mais explicitamente, com caracter crescente conforme a película avança. O tom esverdeado da película que faz recordar por exemplo, um “The Ring” (2002), é convincente para a construção de uma realidade paralela. A somar à cinematografia soberba na sugestão da ideia de loucura contagiante, estão ainda todo o tipo de truques de câmara que contribuem para tornar não só a atmosfera (do filme) louca, como, indicar ao próprio espectador a insanidade do que está a visionar! Dá ares de experimental e isso é interessante tanto mais que nunca se chega a saber se tal se deve a momentos de genialidade ou sorte. As críticas são na maioria favoráveis e parecem apontar a primeira mas não estou assim tão convencida.

“Spiral” baseia-se numa manga (longa) de Junji Ito. Se já é difícil condensar os eventos de um livro num só filme, supõe-se que será muito mais adaptar uma série de carácter semanal que se estendeu por um ano! Porventura, seria mais complicado explicar uma estória tão complexa ou Higushinsky perdeu-se na forma e esqueceu o conteúdo. Além de interacções forçadas entre o duo de protagonistas e representações hórridas, o filme move-se a passo de caracol. Existem algumas cenas muito interessantes incluindo uma metamorfose num destes moluscos, um incidente com um eletrodoméstico ou até a exibição de um penteado de fazer inveja às principais casas de alta-costura. Há qualquer coisa de em “Spiral” que faz aludir a autores como o David Lynch. No entanto, continua a persistir uma enorme dificuldade em proceder à sua classificação enquanto género. É ainda hoje apresentado como o mais original entre os filmes de terror desse ano, sendo que mais de uma década volvida, continua a não existir muito material que se lhe compare nesses termos. As mortes são sem dúvida peculiares e é capaz de nos fazer olhar em redor e perceber que há muito mais espirais nas nossas vidas do que poderíamos pensar. Mas será mesmo um filme de terror? Duas estrelas.

Realização: Higuchinsky
Argumento: Junji Ito (manga), Kengo Kaji, Takao Nitta e Chika Yasuo
Eriko Hatsune como Kirie Goshima
Fhi Fan como Shuichi Saito
Hinako Saeki como Kyoko Sekino
Eun-Kyung Shin como Chie Marayama
Keiko Takahashi como Yukie Saito
Ren Ôsugi como Toshio Saito
Denden Denden como Officer Futada
Masami Horiuchi como Reporter Ichiro Tamura
Tarô Suwa como Yasuo Goshima
Toru Tezuka como Yokota Ikuo
Sadao Abe como Mitsuru Yamaguchi
Asumi Miwa como Shiho Ishikawa

Próximo filme: "Knock Knock! Who's There?" (2015)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Battle Royale" (Batoru Rowaiaru, 2000)

"Battle Royale" é uma grande batalha pela sobrevivência onde ser o mais forte, não significa necessariamente, ter a maior força física mas a capacidade de se manter fiel aos seus princípios. Num novo milénio com uma velha sociedade quebrada, o Governo faz aprovar uma lei que castiga os mais novos e anima as massas. Assim, é criado o jogo perigoso "Battle Royale", no qual, todos os anos, é escolhida uma turma de alunos do 9º ano, para se matarem uns aos outros até restar apenas um! Este ano, é seleccionada a turma de Shuya (Tatsuya Fujiwara), um órfão que se vê confrontado com um dilema terrível: defrontar os seus amigos numa luta pela sobrevivência ou deixar-se morrer! Instruidos e acicatados pelo professor Kitano (Takeshi Kitano), os adolescentes têm as mais diversas reacções, desde a recusa em combater, a determinar a sua própria sentença, à resignação e outros há que revelam tendências psicóticas. As regras são muito claras: eles são abandonados numa ilha com diversas armas, desde metralhadoras a binócolos?! (querem melhor sentença de morte?), e umas coleiras ao pescoço. São obrigados a manterem-se em movimento senão as coleiras explodem, se as tentarem retirar terão igual sorte e se, no final do jogo, sobreviver mais do que um aluno, as coleiras explodem e morrem todos! Fixe não é?
As duras circunstâncias irão despertar sentimentos outrora ocultos, reforçar as inimizades e fortalecer laços para sempre. Não se deixem enganar pela premissa, apesar de tudo este é um bom filme com algumas jovens revelações no elenco. Surge aqui uma Chiaki Kuryama pré "Kill Bill" (2003), onde interpreta, curiosamente, uma assassina doida varrida. Temos também uma Kô Shibasaki antes de descobrir a maldição dos telemóveis em "One Missed Call" (2003), que interpreta a adolescente psicopata Mitsuko para quem a "Battle Royale" é mais depressa um modo de satisfazer os desejos sádicos do que um pesadelo. Quanto às mortes propriamente ditas, elas são bastantes e algumas muito originais, afinal é uma turma de 42 alunos. No entanto, não é nada como o banho de sangue que se poderia julgar. Há filmes bem piores a esse respeito, o que não lhe retira o mérito em algumas mortes como a de um jovem que é esfaqueado naquela zona tão sensível... Não que não seja merecido.
"Battle" apresenta alguns erros de continuidade. A deslocação de corpos e a troca de adereços de cena para cena sucede umas poucas vezes. Aquando da estreia o filme foi alvo de uma intensa polémica, o que me custa a compreender. Ok, são adolescentes assassinos mas, a sério, em que planeta é que vivem se acreditam que miúdos de 14 anos são inocentes? Se fosse um filme de pancada com um Steven Seagal ou um Chuck Norris, ninguém o levaria a sério. Por que hão-de fazê-lo com "Battle Royale"? É muito simples e directo ao assunto: apresenta as regras e a partir desse ponto a matança é sempre a abrir. Não ofende a matéria cinzenta já que a intenção também não é fazer pensar demasiado. Se nos faz reflectir, por breves instantes, sobre aquilo a que damos valor e sobre o comportamento das pessoas quando estas sabem que têm uma sentença de morte a pairar sobre si, ao fim e ao cabo é uma série de mortes mais ou menos horripilantes que dá para distrair durante um bocado. Como disse, inofensivo. Três estrelas e meia.
Realização: Kinji Fukasaku
Argumento: Koushun Takami e Kenta Fukasaku
Tatsuya Fujiwara como Shuya Nanahara
Aki Maeda como Noriko Nakagawa
Takeshi Kitano como Kitano Sensei
Taro Yamamoto como Shogo Kawada

Ah e já agora, Feliz Natal a todos / Feliz Navidad / Merry Christmas :)

Próximo Filme: "Who are you" (Krai... Nai Hong, 2010)
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