"Shanghai Fortress" é uma espécie de "Under the Dome" chinês, com um mix de muitos outros exemplares cinematográficos americanos (demasiados para contar mas não quer dizer que não tente!), em que a humanidade, após uma invasão alienígena, sobrevive sob uma espécie de cúpula, um escudo invisível que serve de campo de forças para repelir os aliens, usando como combustível "xiangteng", que foi descoberto e é detido pela população chinesa sobrevivente. A nave-mãe dos aliens, ataca ocasionalmente o escudo e a cada ataque este fica mais fraco e a humanidade mais vulnerável. Num universo em que "Shanghai Fortress" fosse um filme a sério, isto teria a sua piada dado que os alienígenas estão a atacar a humanidade para lhe retirar o recurso que é o que a está a proteger. Porquê insistir no tal combustível? Porque não cedê-lo simplesmente? Não é como se o Homem tivesse muito pudor na utilização de outros materiais fósseis...
De facto, "Shanghai Fortress" é tão inépto que podia ter saído de um daqueles livros da série "Para Totós", intitulado "Como fazer Ficção Científica chinês em poucos passos para totós". É que o filme nem sequer sofre da problemática de falta de material onde se basear. É a adaptação de uma obra de ficção com o mesmo nome, escrita pelo escritor chinês Jiang Nan, também conhecido pelo título altamente original e nunca antes ouvido "Once upon a Time in Shanghai". O orçamento, que se diz por essa internet fora ter custado 400 milhões de yuan, até serviu para contratar um elenco muito jovem (e talento duvidoso), com pelo menos um ou dois ídolos muito famosos para figurar como "eye candy". Destaque-se o ex-membro de uma boysband Luhan aqui como o protagonista Jiang Yang, um militar que além de padecer de dores de amor pela sua superior Lin Lan (Shu Qi), pilota drones, frequenta discotecas nos tempos livros e parece enfadado 100% do tempo e até um pouco inconsciente quanto À INVASÃO ALÍENEGINA E FINAL ANUNCIADO DA HUMANIDADE!
O elenco tenta uma pose séria
As gentes do casting, tiveram pelo menos o bom-senso de contratar pelo menos um bom actor para conferir credibilidade - uma Shu Qi ("The Assassin", 2015) num papel em que a atriz parece contar os minutos para abandonar a rodagem e limpar a lágrimas com os muitos yuan que decerto ganhou para o fazer. Oh, como os grandes caem! "Homenagem" sempre é um nome mais fofinho que cópia descarada, portanto, digamos que esta produção foi buscar inspiração às seguintes obras: "War of the Worlds", recordam-se de referir que os alienígenas estão a atacar o planeta porque querem roubar os recursos da Terra? "Independence Day" (1996) dado que o design da nave-mãe é tirada a papel químico das naves gigantescas do filme americano, porque saem raios destruidores da nave, ou a inclusão do patriotismo que nos impõem pelos olhos adentro, o próprio final do filme... enfim, diria que reviram vezes sem conta esse filme fantástico e piroso, para ver onde o que podiam levar emprestado e como é que podiam "elevar" o material. Também achei curiosa a inserção de actores estrangeiros pelo simples facto de o serem para representar o resto do mundo. Também podemos falar do "Core", "The Day After Tomorrow", entre muitos outros filmes-catástrofe, por causa dos eventos atmosféricos anormais e pelo grau de destruição a que a cidade de Shanghai é votada. Os momentos dedicados a estes acontecimentos são, de forma infeliz, parcos, para um filme com a escala que prometia ter. Num festim de efeitos gerados por computador, esses são muito desiguais mas também os mais fugazes, havendo alturas em que os efeitos estão tão maus que temos, enquanto audiência, de nos questionar, o porquê da sua integração no filme se o resultado é tão misto.
O mundo está em ruínas mas que importa? As discotecas ainda estão abertas!
Depois há o romance. Nada contra. Há quem considere que o romance confere um grau de urgência, de gravidade até, às películas. Por seu turno, as audiências chinesas adoram um bom romance delicodoce entre pessoas bonitas. Para mal de pessoas como eu, venderam-me um filme de ficção científica. A última coisa que quero ver num contexto de invasão alienígena e luta pela sobrevivência da humanidade é um romance que parece deslocado do próprio filme. Não há uma pitada de química entre os protagonistas. Ainda que tivesse algo contra a grande diferença de idades entre os protagonistas (Shu Qi e Luhan) ela uma quarentona e ele na casa dos vinte e poucos e, a diferença nem parece assim tão acentuada - ela está muito bem conservada -, já vimos muito mais creepy: Marlon Brando e Maria Schneider, cof cof. Só que até a porcaria do pseudo-romance está mal cozinhado. Lin Lan nunca dá mostras de corresponder à paixonite quase adolescente do Jiang Yang e, para mais, ela é superior dele. Confraternizar com subalternos?!
Gostava muito de dizer que por muito desmiolado que "Shanghai Fortress" fosse, a experiência de visionamento tinha sido divertida mas não consigo. Com uma hora e quarenta e sete minutos consegue ser demasiado longo e um tédio de atravessar. É tempo das nossas vidas que não recuperamos. Tal como escrever este "texto". Suspiro.
Por fim, como piéce de resistance (se eles podem recorrer a tantos clichés eu também posso seguramente usar esta expressão), ia referir que os criadores deste filme deviam pedir desculpa pela trapalhada que fizeram mas parece que o realizador, o escritor/argumentista e o actor principal também já o fizeram. Depois do sucesso extraordinário de "The Wandering Earth" o género scifi parecia ganhar tracção na China. O estrondoso fracasso de "Shanghai Fortress", meros meses depois, pode ter sido o beijo da morte. Meia estrela.
Realização: Hua-Tao Teng
Argumento: Jinglong Han (argumento), Jiang Nan (autor do livro e argumentista)
As 3 fúrias são 3 figuras da mitologia grega e, mais tarde romana, cuja estória de origem difere mas, no essencial, ligadas ao submundo, que perseguem com um espírito de justiça vingador as pessoas malévolas. Pretende-se, através do temor a estas que as pessoas não tenham atitudes condenáveis a nível moral e societal como o homicídio, ofensas contra os deuses, conduta pouco filial ou perjúrio.
Hai Phuong, interpretada por Veronica Ngo, mais conhecida a nível internacional pelo pequeno mas impactante papel de Paige Tico e, mais recentemente, como Quynn em The Old Guard é a Fúria titular. Algures um executivo considerou que manter o nome da personagem não traduziria bem para as audiências internacionais mas o que é que eu sei de marketing para cinema? Hai Phuong é uma ex-gangster que largou a vida do crime e mudou de cidade após descobrir que estava grávida. Nesta nova encarnação a pobreza e um trabalho legal, mas demasiado próximo para conforto da antiga vida que abandonou - faz a cobrança de dívidas -, valem-lhe a censura da filha Mai (Mai Cát Vi) e a desconfiança dos locais. Num raro momento em que questiona a inocência da filha, acusada de um roubo que não cometeu, esta foge e acaba por ser raptada por bandidos. Para Hai Phuong é impossível assistir de forma impávida e serena, promovendo uma perseguição implacável para reaver a sua filha antes que seja tarde demais.
Se Furie parece familiar é porque já vimos outros filmes de mães-coragem lutando, contra tudo e todos, para reaver a sua prole. Mas e se vos disser que a Veronica Ng já fez este filme antes e melhor? Em 2009, Ng fez o filme "Clash", cuja apreciação podem encontrar neste mesmo blog, com Johnny Tri Nguyen, um actor praticante do Vovinam (arte marcial vietnamita), em que Ng, que também integrava o submundo do crime tentou resgatar a filha das mãos de um barão do crime. As cenas de acção corpo-a-corpo eram pelo menos mais realistas e o final surpreende.
Furie, lamento dizê-lo, aparte uma perseguição de mota ao longo de um rio e da capacidade da actriz de nos bombardear com torrentes de água oriundas dos seus canais lacrimais - juro que pensei que ninguém conseguia fazer concorrência às actrizes coreanas -, é uma desilusão. Sim, há cenas em que o elenco pouco mais que secundário, além de Hai Phuong e de um polícia que decide apoiá-la dá mostras de atleticismo, no entanto, a coreografia fica aquém do que já se fazia em 2009. Com isto, não menosprezo a importância de uma arte marcial menos conhecida ter atenção no palco mundial, à semelhança do que sucedeu em 2011 com "The Raid: Redemption", para mais, quando esta demonstra um nível de realismo longe das encenações graciosas de kung fu de inícios do milénio que já cansam e se aproxima mais do fenómeno John Wick (2014) ou Atomic Blonde (2017). A violência é esperada e quase glamorizada, os golpes são vistos e quase sentidos, o argumento é muitas vezes mínimo, com pequenas pausas para respirar, ao encontro das expectativas das audiências dos novos filmes de acção de 2010 em diante.
O argumento de Furie, não é muito exigente, dando total enfoque à missão de Hai Phuong, sendo pontuado pelos clichés do bandido que surge das brumas de um passado tenebroso para se vingar de ofensa cometida e dos familiares que foram deixados para trás, a quem se pede auxilio em altura de desespero, como se preencher os pontos de uma checklist se tratasse. Por isso, fico também, muito surpreendida com a comoção em torno de Furie. Se a relativamente nova fama de Ngo atrair as atenções para o cinema vietnamita tanto melhor mas, não se enganem pensando que Furie constituirá uma obra superior. Duas estrelas e meia.
Realizador: Le-Van Kiet Argumento: Kay Nguyen Veronica Ngo como Hai Phuong Mai Cát Vi como Mai Thanh Nhien Phan como Capitã Vu Trong Luong Pham Anh Khoa como Truc Kim Long Thach como Huy Khanh Ngoc Mai como Ngoc Hoa Thanh como Thanh Wolf
Não me esqueci que tinha blogue, certamente que não me esqueci da senha para aqui entrar - ainda que tenha tido de pensar um bocadinho antes de a introduzir, não troquei o blogue por um canal de youtube e também não deixei de ver filmes. É só que às vezes... a vida acontece.
A prova de que até escrevi durante o ano de 2019 é a mais recente colaboração, cortesia da página Laxante Cultural que por ocasião do seu 10º aniversário (Ena que estamos velhos!) desafiou velhos conhecidos a dar o seu contributo na rúbrica comemorativa "10 Anos / 20 Escolhas", em que 10 bloguers (essa espécie em vias de extinção), foram convidados a apresentar a sua escolha referente a um ano previamente selecionado pelo Pedro Afonso. Para não variar a minha escolha recaiu sobre um filme de terror. O seu nome "Hereditary" e se calhar até tiveram oportunidade de o ver recentemente no Motelx, onde também esteve presente o realizador Ari Aster a promover "Midsommer", o seu mais recente trabalho. Ao Pedro o meu agradecimento. Quanto a vós, dois leitores do blogue, vemo-nos por aí.