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domingo, 3 de janeiro de 2016

"Blind Detective", (Man tam, 2013)


Johnston Chong See-tun (Andy Lau) é forçado a abandonar a polícia após ficar cego. Considerado o melhor entre os seus pares pela extraordinária capacidade de dedução, a sua perda é um duro golpe para o departamento. Mas ele é incapaz de parar na sua senda de justiça e dedica-se agora aos casos para os quais a polícia não tem tempo: os casos antigos e aparentemente insolúveis, recolhendo as recompensas. Numa das suas mais recentes investigações cruza-se com a inspectora Goldie Ho Ka-tung (Sammi Cheng), incansável mas ainda um pouco “verde” que se revela o contraponto ideal para o seu estilo mais sóbrio. A nova dupla dedica-se a resolver casos em conjunto, incluindo um que afecta Goldie desde miúda, o desaparecimento da sua melhor amiga Minnie (Cheng Ho-lam) e que a fez tornar-se polícia. Pois que o mundo está cheio de gente mal-ajustada e Goldie tornou-se polícia por causa do trauma de infância. Alguma vez se viu alguém tornar-se agente polícia por genuína devoção à justiça?

Johnnie To está para os thrillers policiais/mafia como, bem… é o que ele faz de melhor (“Election”, 2005; “Mad Detective”, 2007, etc.). No entanto, não se pode dizer o mesmo de “Blind Detective”. A ideia de um agente da polícia/detective cego não é a mais original, temo dizê-lo mas, ainda que aceitemos a premissa absurda, o filme sobrevive mais da química entre Lau e Cheng do que das inúmeras investigações enfiadas à força num filme que já tem muita tralha. Parece que a tragédia da perda de visão de Johnston se arrastou ao longo de vários anos até ficar invisual. Johnston sente ainda os efeitos da solidão, o que pretende sugerir por um lado, o motivo pelo qual ele é incapaz de deixar de dedicar por completo ao trabalho policial e, por outro, a conveniência do aparecimento de uma certa detective. Pelo meio, é ainda apresentado um potencial interesse amoroso para Johnston para insinuar um triângulo romântico que não chega a ter pernas para andar (entenda-se que ainda assim “Blind Detective” tem 130 minutos de duração) e Johnston tem tempo para resolver diversos casos com o do maníaco que atira ácido sobre inocentes até finalmente, se debruçar sobre o caso que desola Goldie há mais de uma década. Adicionalmente, enquanto Johnston foi perdendo um dos sentidos, ele foi apurando outros, conferindo-lhe entre outros, um olfacto extraordinário e que o auxilia a resolver casos que seriam, para outros complicados. Não deixa de me espantar, a facilidade com que o cinema asiático e, o coreano em particular, chama às suas forças policiais uma anedota. Por entre polícias com os instintos de um calhau, chefias mais preocupadas com a manutenção do status quo e políticos que apenas querem ficar bem na fotografia, tem de aparecer um individuo especial para salvar o dia.
“Blind Detective” também não parece ter a certeza daquilo que quer ser. Os personagens alternam entre interpretações mais subtis e o exagero cómico. Lau, a despeito de ter ganho um prémio (surpreendente) pela sua interpretação nesta película, sai algumas vezes, demais da personagem. Ele “esquece-se” de que é suposto ser um invisual, o que é uma franca distracção. Os “casos” nem sempre interessantes que surgem para querer demonstrar vezes sem conta as capacidades fantásticas de Johnston assim como um pretexto para divertir, não duram o tempo suficiente para entreter e acabam por roubar tempo à resolução da investigação principal. Mas até a solução desta peca pela falta de investimento numa direcção clara e uma montagem cuidada. As sequências de acção estão impecáveis, ou não fosse a sua coreografia um dos pontos mais fortes de um filme do Johnnie To. Se ao menos houvesse a mesma atenção para o remanescente… Duas estrelas e meia.

Realização: Johnnie To
Argumento: Ryker Chan, Ka-Fai Wai, Nai-Hoi Yau e Xi Yu
Andy Lau como Johnston Chong See-tun
Sammi Cheng como Goldie Ho Ka-tung
Guo Tao como Szeto Fat-bo
Gao Yuanyuan como Tingting
Zi Yi como Joe
Lang Yueting como Minnie Lee
Cheng Ho-lam como Minnie (adolescente)
Lam Suet como Lee Tak-shing
Philip Keung como Chan Kwong
Lo Hoi-pang como Pang

Próximo Filme: "Parasyte: Part 1" (Kiseijuu, 2014)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"The House at the End of Time" (La casa del fin de los tiempos, 2013)


Dulce (Ruddy Rodriguez) retorna a casa após trinta anos, depois de ser libertada por motivos humanitários, para cumprir o resto da sentença por homicídio. A opinião pública não tem quaisquer dúvidas sobre a culpabilidade de Dulce. É apenas a velhice que dita que ela possa cumprir o remanescente da pena, no local onde aconteceram acontecimentos trágicos. Na verdade, a realidade é bem mais assustadora do que a percepção do público. Dulce odeia a casa na qual a “libertaram”. A memória dilacera-a. As paredes respiram o ar da família que então perdeu e o chão ecoa os passinhos dos filhos Leopoldo (Rosmel Bustamante) e Rodrigo (Héctor Mercado), mas também permanecem as marcas de assombração que então a aterrorizaram. Vivendo um dia de cada vez, contando cada tostão, a família de Dulce mudou-se para cidade, aproveitando uma oportunidade do Governo para ocupar casas a baixo custo na cidade. Ali, Juan José deverá encontrar mais hipóteses de trabalho. Dulce aceitou esta mudança de vida a contragosto. No campo sempre estariam perto da família. A casa, grande mas delapidada não lhe inspira confiança e até Juan José rápido se perde nos caminhos do alcoolismo. Os indícios de que a casa tem mais ocupantes do que a família de Dulce são enormes mas ela nada pode fazer quanto a isso. Presa numa casa de onde não pode sair a versão mais velha de Dulce não tem alternativa a não ser enfrentar os fantasmas de passado, figurativos e literais. Ela recebe a vista de um padre (Guillermo García) que a tenta trazer de novo para o caminho da religião mas Dulce não está disposta a isso. Não, depois do que passou.


Se “The House at the End of Time” soa à enésima variação da estória da casa assombrada é porque assim Alejandro Hidalgo, argumentista e realizador, o pretende fazer crer. No entanto, a direção que a estória toma, apesar de gradual, é inesperada. Uma opção de respeito, seja para um filme passado nos E.U.A ou numa Venezuela, que esta pessoa que já viu de tudo, mais vezes do que menos, está habituada à repetição de estórias e a um quociente de originalidade bastante limitado.
 Ele brinca com os géneros resultando num híbrido que não sendo de puro terror, tem ainda assim cenas assustadoras em quantidade suficiente para cativar os amantes de emoções fortes. A ação movimenta-se fluída entre o passado e o presente, sempre na perspectiva de Dulce, até à grande revelação final, que tenta retirar sentido das memórias e dos acontecimentos que agora se repetem para compreender o que se passou, onde é que errou ou o que podia ter efeito para impedir a desintegração da sua família. A interpretação de Rodriguez é impecável. Dulce é uma personagem difícil por apresentar tantas facetas e ela encarna-as na perfeição. Ela interpreta uma mãe devotada, crente em Deus, determinada a fazer o melhor para criar os filhos com os parcos recursos de que dispõe e, a despeito dos seus muitos medos, seja por prever um futuro negro para a prole, a cada vez maior instabilidade do marido ou a casa que ganha vida própria, é temerária do que diz respeito à sua protecção, qual mãe leoa. A caracterização de Ruddy Rodriguez para aparentar ter envelhecido 30 anos é bastante discutível e, na generalidade, é o período temporal menos forte. Dulce capta alguma simpatia na qualidade de senhora de meia-idade indefesa, face a um possível ataque sobrenatural mas é muito mais difícil levá-la a sério debaixo das camadas de maquilhagem. Ainda assim, a aposta em Rodriguez continua a ser bastante corajosa, se tivermos em conta que a maior parte das protagonistas de filmes de terror variam entre ser engraçada ou giríssima. A entrada em cena de uma médium é um factor passível de provocar um esgar de desdém. No cinema é sempre fácil encontrar alguém com capacidades divinatórias ou que consegue contactar com entidades do âmbito do sobrenatural. Há sempre alguém que tem uma qualquer prima em 2.º grau que é vizinha de alguém que é neto de uma pessoa com capacidades de contactar o paranormal. Fantástico. Mas se passarem clichés do género e a óbvia limitação de orçamento à frente, o resultado continua a ser surpreendente. Duas estrelas e meia.


Realização: Alejandro Hidalgo
Argumento: Alejandro Hidalgo
Ruddy Rodriguez como Dulce
Rosmel Bustamante como Leopoldo
Adriana Calzadilla como Vidente Adriana
Simona Chirinos como Madame Victoria
Gonzalo Cubero como Juan José
Miguel Flores como Inspector
Guillermo García como Padre
Héctor Mercado como Rodrigo
Yucemar Morales como Saraí

Próximo Filme: "Krampus", 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

"Long Weekend" (Thongsook 13, 2013)


Um grupo de jovens estudantes decide passar um fim-de-semana prolongado numa ilha remota. Dele fazem parte Nam (Cheeranat Yusanon), Jack (Acharanat Ariyaritwikol), Boi (Sean Jindachot) e o casal de raparigas Beam (Busarin Yokpraipan) e Pui (Gitlapat Garasutraiwan). Eles decidem esconder os seus planos de Thongsook (Chinawut Indracusin), um colega com claros problemas de desenvolvimento que tem um fraco por Nam que tem o condão de aparecer sem ser convidado. Não é que o considerem uma má pessoa, a maioria tolera-o por amizade a Nam, mas ele não é como eles e a sua presença revela-se inconveniente. Assim, quando ele se junta ao grupo em viagem é natural que alguns fiquem exasperados. Entretanto, ele oferece o seu amuleto que lhe confere protecção contra forças maléficas sobrenaturais. Até parece que estava a adivinhar pois o grupo “escolheu” a noite de uma lua de sangue, em que os espíritos se encontram mais perto dos humanos e se estes não tiverem cuidado poderão ser alvo de possessão. Os locais advertem-nos para este facto mas são ignorados e ainda mais rapidamente esquecidos. Entretanto, alguns deles decidem que é uma boa ideia pregar uma partida a Thongsook e acabam por fechá-lo num antigo túmulo. O que poderia correr mal? Thongsook desaparece e um a um, começam a ser caçados por um mal invisível.

“Long Weekend” é mais do mesmo. Os arquétipos estão bem definidos, por entre machos alfa, a rapariga bondosa e o rapaz que é alvo das sevícias de rufias. A novidade encontra-se no refrescante casal lésbico mas até este tem pouco que fazer até aos acontecimentos se precipitarem furiosos. Também Thongsook surge como uma personagem afável e por quem torcer considerando, por um lado o infortúnio que se abateu sobre ele e por outro o amor platónico no qual nunca encontrará correspondência. Tudo se resume a um conjunto de amigos que lutam contra forças sobrenaturais e apenas dependem de si próprios para sobreviver pois não terão qualquer auxílio do mundo exterior. Este último ponto em particular puxa pelos meus nervos e olhem que eles não são de papel. Com as ideias idiotas que pululam por aí, com o imperativo de acreditar no inacreditável, acreditem que muitas vezes fecho os olhos às muitas inconsistências que daí advêm mas estamos no século XXI. A não ser que os personagens se encontram no país subdesenvolvido, não é aceitável a explicação de que “é impossível fazer chamadas” seja por um número fixo ou por telemóvel; que os locais não tenham, se não transportes públicos, pelo menos um transporte qualquer que lhes permita sair do local onde se encontram. Não. Uma tempestade não faz um corte de electricidade por artes mágicas. Sim, é possível mas nunca na quantidade de vezes que se vêem nos filmes. E, a despeito do que se possa pensar, aquelas pessoas têm famílias e outros amigos que se preocupam com eles que a dada altura se vão questionar por que estes não lhes disseram nada nas últimas horas. Ao pé disto, a utilização gratuita de efeitos gerados por computador de qualidade média constituem o menor dos males. Também Chinawut Indracusin no seu filme de estreia sobressai pela sua competência e demostra potencial para mais altos voos.
Com momentos de humor como os que são gerados pela troca de farpas entre os membros do grupo, a queixa de morte em excesso por um cadáver e dois ou três momentos inspirados por clássicos como “The Exorcist” (1973) “Long Weekend” nunca ascende a um patamar superior ao do habitual slasher de terror. Não é como se estivesse a tentar fazê-lo mas de um país que nos trouxe “Shutter” (2004), “Phobia” (2008) ou “Pee Mak” (2013) é muito pouco. Duas estrelas.

Realização: Taweewat Wantha
Argumento: Sommai Lertulan, Eakasit Thairaat, Taweewat Wantha, Adirek Wattaleela
Sheranut Yusananda como Nam
Acharanat Ariyaritwikol como Jack
Chinawut Indracusin como Thongsook
Sean Jindachot como Boi
Kitlapat Korasudraiwon como Pui
Butsarin Yokpraipan como Beam

Próximo Filme: "Diary" (Mon seung, 2006)

domingo, 30 de agosto de 2015

"Cult" (Karuto, 2013)


Kôji Shiraishi, um dos melhores realizadores japoneses a impulsionar o género “Found Footage”, continua no estilo onde foi mais feliz. Shiraishi é apenas o realizador de obras como “The Curse” (Noroi, 2005), “Occult”(Okaruto, 2009) ou “White Eyes” (Shirome, 2010). Se os filmes mais recentes não possuem o brilhantismo de “The Curse”, não podemos censurá-lo por insistir num género de onde tem extraído os maiores êxitos.

Em "Cult" um programa de televisão sobre eventos paranormais contrata três actrizes para acompanhar um mestre no oculto para acompanhar a família Kaneda cuja casa se suspeita estar sob o efeito de influências malignas sobrenaturais.

“Cult” inicia-se de modo convencional, o que ajuda a vender este falso documentário como se de um documentário real se tratasse. As primeiras cenas seguem as três actrizes e as conversas banais de quem ainda está a criar uma primeira impressão das colegas e as expectativas partilhadas, do mais recente trabalho em televisão. Como seria natural, elas têm diferentes sensibilidades, sendo que algumas temem mais o oculto do que outras mas este é apenas mais um trabalho. O salário e o profissionalismo sobrepõem-se a uma emoção tão “superficial” quanto o medo. As apresentações iniciais, a suas reacções a um vídeo realizado na casa Kaneda que põe a descoberto fenómenos sobrenaturais e a visita à família que demonstra necessitar de auxílio urgente conferem o toque de realismo que resulta tão bem em “The Curse”. A existência de câmaras em quase todos os cantos da casa e no exterior contribuem para um sentido de voyeurismo típico do género mas que só funciona numa percentagem ínfima de casos. É suposto a câmara direccionar a atenção para os eventos e não ser ela própria o foco de interesse. Este não é um dos problemas de "Cult" e sim, "Paranormal Activity" é um dos que falham nesse aspecto. Processem-me. Em última análise, será o início tão forte que salva “Cult” do desastre total. Também esta característica faz suspeitar, tendo por base a remanescente carreira do realizador, que ele é um excelente introdutor de estórias mas um mau finalizador.

A primeira tentativa de exorcismo corre mal, à semelhança de qualquer outro filme do género (e desafio alguém a provar-me o contrário), pelo que Unsui, o mestre-de-cerimónias é forçado a procurar alguém ainda mais especializado que ele para salvar a filha da família Kaneda de um destino terrível. Daí em diante a estória dá algumas piruetas, incluindo a introdução de um exorcista excêntrico (onde é que já se viu isto antes?), possessões e a suspeição de que uma seita se encontra no centro do mistério. Esta revelação até podia ser considerada um spoiler, não fosse o simples facto de a película ter sido intitulada de “Cult” (Culto). É nesta altura que a premissa resvala do improvável para o absurdo e ridículo. Na cultura popular sobressaem a Sra. Barrons (Zelda Rubinston) de “Poltergeist”(1982) e mais recentemente, a Elise (Lin Shaye) de “Insidious” (2010) como o modelo de espírita a seguir. Elas que resultam tão bem que quase não ver uma mulher de meia-idade ou superior tomar conta da situação toda ela maternal e inteligente é uma desilusão. O Neo (Ryosuke Miura) de “Cult” encontra-se no espectro oposto. Ele próprio quer ser chamado pelo nome da personagem de “Matrix” (1999), o que logo aí faz suspeitar de ilusões de grandeza e uma desconexão com a realidade até ali fomentada. A sua entrada em cena representa uma viragem de 180º na direcção semi-séria mantida até ao momento para um registo cartoonesco. Os efeitos digitais são tão fracos quanto seria de esperar para uma produção com um óbvio problema de orçamento. Se por vezes é possível disfarçar a ausência de qualidade dos mesmos com a desculpa da visão nocturna ou problemas na captação de imagem, outras é mesmo impossível não esboçar uma expressão de desapontamento. Ainda assim, a parte mais ofensiva de “Cult” é pretender terminar com a sugestão de uma sequela (não merecida). Adivinhem? Não existe. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- O estilo documental

O pior:
- Estória torna-se crescente e desnecessariamente complicada
- Efeitos digitais
- Personagem Neo

Realização: Kôji Shiraishi
Argumento: Kôji Shiraishi
Yû Abiru como Yû Abiru
Mari Iriki como Mari Iriki
Mayuko Iwasa como Mayuko Iwasa
Ryosuke Miura como Neo
Natsuki Okamoto
Sayuri Oyamada

Próximo Filme: "Long Weekend" (Thongsook 13, 2013)

domingo, 3 de maio de 2015

"The Second Sight" (Chit sam phat 3D, 2013)


A criatividade morreu e tudo o que restou foram as sobras de “The Eye”, “Shutter” e “The Sixth Sense” misturados com uma novela de horário nobre no tão temido 3D.

Em miúdo Jate (Nawat Kulrattanarak) sabia quando coisas más iriam suceder. Isso envolvia o karma que significa na sua versão mais simplista “colher o que se semeia” e terminava com mortos e feridos ao seu redor. Por isso, o passo seguinte natural foi tornar-se advogado e defender criminosos empedernidos. Não é como se isto lhe provocasse um dilema moral por aí além já que o Karma se encarrega de punir os malfeitores quando Jate os defende com sucesso (o que sucede com frequência). Para completar a vida perfeita de Jate, ele tem Jum uma namorada gira que passa o dia sentada ao piano do seu apartamento ultra moderno a compor canções.  Após safar da prisão mais um óbvio culpado tem um acidente numa ponte a caminho de casa. Fazendo uso das suas capacidades para prever o futuro ele consegue evitar o despiste e acaba por tornar-se cliente de Kaew (Virapond Jirawetsuntorakul), a causadora do acidente que causa várias mortes. Ele apercebe-se desde muito cedo, que a adolescente problemática tem espíritos vingativos atrás dela que a irão tentar matar à primeira oportunidade e não larga o seu leito no hospital. Entretanto, Jum (Yayaying Rhatha Phongam) começa a suspeitar que o interesse de Jate por Kaew é mais romântico do que profissional.
Um conselho: abordem “The Second Sight” com leveza de espírito e expectativas muito, muito baixas. No livro de terror para iniciados “The Second Sight” pode parecer apelativo mas acreditem que é apenas fogo-de-vista. Os actores são retirados a papel químico de personagens de uma novela. O protagonista encarna o advogado bem-sucedido e rico, modelo de homem ideal por quem toda a mulher anda embeiçada. A namorada é muito bonita mas pouco consciente dos seus encantos e tem uma atitude geral humilde, temendo que o homem lhe seja “roubado” a qualquer momento por uma cabra sofisticada e superior a ela em todos os aspectos. Depois existe a miúda mimada e sem escrúpulos que está habituada a ter tudo aquilo que deseja e que tudo lhe seja entregue de bandeja. Temos triângulo amoroso. Posto isto, entre as cinco pessoas alocadas ao argumento de “The Second Sight” não parece existir uma única ideia original. Num brainstorming devem ter surgido referências a filmes como “Shutter”, “The Coffin” e sucedâneos e o seu tremendo sucesso ditou a inserção nada subtil e muito forçada num argumento que já ao início não demonstrava potencial. Ao projecto foram ainda adicionados efeitos digitais que podiam ter criados por estudantes em estágio para conclusão do curso e, porque o menor factor de atracção não são os actores, um conjunto de homens e mulheres bem-parecidos que não têm de saber representar, embora se conseguirem seja um dado positivo.

Na sua maior parte “The Second Sight” não é muito simpático no retrato da mulher. Elas são apresentadas como donzelas indefesas sendo que Jate lá vai aparecendo para as salvar dos espíritos inquietos e delas próprias. Note-se o absurdo de cenas como aquela em que Jate avisa uma colega mais segura da sua sexualidade para se cobrir e vir trabalhar no dia seguinte com uma camisola de gola alta. Claro que ela acede às indicações do colega sensato e galã. Isto, quando ele não está salvar Kaew de uma cama de hospital com vontade própria ou Jum dos fantasmas que habitam a sua banheira. Nem podia ser de outro modo, já que ele tem uma segunda visão que lhe permite ver além do plano dos vivos. Só que ao invés de esta visão se revelar uma maldição tem sido até à data uma dádiva. Ele faz pleno uso das suas capacidades para atingir o sucesso. Até admira que não esteja num cargo público. Pelo meio lá vai ajudando algumas pessoas fazendo recurso do dom e... às vezes ignora a sua aflicção (veja-se o polícia acossado por cobras). O que nos demonstra que o caminho de Jate até chegar àquele ponto foi sinuoso e, quiçá, não tão orientado para o altruísmo como podia. Empatia não faz afinal parte do vocabulário de Jate e adivinhem, o passado virá para apanhá-lo. Karma. Outro ponto estranho é o facto de aqueles que o rodeiam não se aperceberem que Jate tem tendência a olhar e conversar para o vazio o que devia ser um alerta quanto à sua sanidade mental. Coisa pouca. A reviravolta só não é tão previsível quanto podia porque a montagem é tão má que aos últimos dez minutos mal conseguimos perceber o que se está a passar, o que convenhamos, até dava jeito. Diz que é um filme de terror. Quem sou eu para discordar? Uma estrela e meia.

O melhor:
- Tem piada?

O pior:
- Efeitos especiais
- Argumento, representação…


Realização: Pornchai Hongrattanaporn
Argumento: Sukkosin Akkarapath, Pornchai Hongrattanaporn, Kiatkamon Iamphungporn,
Nattapot Potchumnean e Chanintorn Ulit
Nawat Kulrattanarak como Jet
Yayaying Rhatha Phongam como Joom
Virapond Jirawetsuntorakul como Kaew
Anon Saisangcharn como Inspector
Klaokaew Sinteppadon como Gift
Prakasit Bowsuwan como Niwat

Próximo Filme: "The Inugami Family" (Inugami-ke no ichizoku, 1976)

domingo, 30 de novembro de 2014

"Rigor Mortis" (Geung Si, 2013)

Aviso: O trailer tem spoilers

Chin Siu-ho é um actor acabado que decidiu alugar um apartamento para pôr termo à vida de modo tranquilo. O seu plano é prejudicado quando se apercebe que o apartamento já tem a sua própria assombração e esta tem um plano muito próprio sobre o que fazer com ele. Yau (Anthony Chan) é o dono do restaurante do rés-do-chão cuja fachada descontraída (ele anda a passear pelos corredores de robe), esconde um caçador de vampiros retirado mas ainda atento a manifestações sobrenaturais. A tia Mui (Nina Paw) é uma costureira e boa samaritana, que passados tantos anos de matrimónio continua ainda profundamente apaixonada por Tung (Richard Ng). A sua morte vai obrigá-la a tomar uma decisão que vai contra todos os princípios por que sempre se regeu. Gau (Chung Fat) é um perito no oculto que a despeito dos anos de experiência decidiu enveredar pelo caminho das artes negras de modo subreptício.  Yeung Fang (Kara Hui) é uma vizinha que poderia passar por um fantasma pois vagueia pelo prédio destroçada por uma dor invisível. O seu filho albino Pak (Morris Ho) entra e sai dos vários apartamentos com a aquiescência dos vizinhos que o reconhecem já como parte integral da vida do prédio.

“Rigor Mortis” é uma homenagem aos filmes de fantasia e comédia sobre vampiros saltitantes produzidos em Hong Kong nos anos 80. Juno Mak, se calhar mais conhecido no ocidente pela interpretação arrepiante em “Revenge: A Love Story” estreia-se como realizador e ó, se impressiona. Ele terá aproveitado todos os bons contactos e as excelentes críticas advindas de “Revenge: A Love Story” do qual também foi argumentista e captou grandes artistas dos filmes que homenageia (Chin Shiu-ho e Richard Ng) e ainda lendas como Nina Paw e Kara Hui, esta última se calhar injustamente mais conhecida pela habilidade no Kung Fu do que pelas fortes qualidades dramáticas. Os aspectos técnicos de “Rigor Mortis” são qualquer coisa de fantástico. A fotografia é belíssima, os efeitos digitais idem, a banda-sonora pejada de notas dissonantes (ainda que exageradas uns quantos decibéis) demonstram a inquietação que perpassam aqueles corredores e a câmara e actores parecem unidos no objectivo de comum de fazer daquele prédio um local perturbador. A luz é inexistente. Apenas existem as paredes e as estórias que lá se passam. Qualquer alusão ao mundo lá fora não é mais do que uma memória dolorosa: divórcios, morte, abuso... Ficar ali é a escolha de um falso conforto. Daí os filtros azuis e cinzentos. Mas a “vida” ali assenta num equilíbrio instável. A quebra da falsa ilusão de segurança pode advir da fonte mais improvável. Quando a violência ocorre, quase sempre é sem censura. Ainda assim é mais comedido que outros filmes que têm saído de Hong Kong nos últimos anos como o “Tales from the Dark –Part 1” (2013). As imagens digitais mais parecem composições de artistas que forem eles próprios influenciados pela vaga de filmes tailandeses à semelhança de “Body #19”. Filmes esses que não se transcendendo na qualidade do storytelling ficam na retina pelas imagens fabulosas que geram. Estas similitudes também não são alheias ao facto de Takashi Shimizu (“Ju-on”, 2000) ser produtor do filme. Atente-se às duas irmãs capazes de rivalizar com as gémeas assustadoras de “The Shining” (1980).
O Este encontra o Oeste
Mais adiante, somos brindados com artes marciais, herança dos filmes que Juno tentou homenagear, pondo Kara Hui e Chin siu-ho a mostrar que o tempo não fez esquecer a mestria no kung fu, em breves mas brutais sequências de luta. A dada altura Chin sui-ho e o seu oponente mais parecem soldados de terracota, cobertos que estão por lama e pó. Soldados rígidos, resistentes ao tempo. No entanto, a sensibilidade artística não transborda na estória. “Rigor Mortis” como o corpo cadavérico leva o seu tempo até adoptar uma forma rígida. As estórias não se entrecruzam por completo até transposto metade do filme. Então, fica a sensação de que se tentou fazer demais. Seriam precisos todos aqueles personagens? Algumas das suas estórias não acrescentam nada ao cerne da questão, arrastando-se mais do que o necessário. Em última análise, “Rigor Mortis” reduz-se à admiração pelo espectáculo visual pontuados aqui e ali pelas interpretações fantásticas de uma parte do elenco. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Recuperação dosubgénero esquecido do “Vampiro Saltitante”.
- Fotografia, efeitos gerados por computador
- Interpretação fabulosa de Nina Paw
- O realizador é inexperiente? Não dei por nada.

O pior:
- Ritmo lento
- Desfecho
- Estória demora a arrancar
- Cenas de artes marciais poderão parecer desenquadradas do filme que vinham a acompanhar

Realização: Juno Mak
Argumento: Lai-yin Leung e Philip Yung
Chin Siu-ho como Chin Siu-ho
Anthony Chan como Yau
Kara Hui como Yeung Feng
Nina Paw como Tia Mei
Ricard Ng como Tio Tung
Morris Ho como Pak
Chung Fat como Gau

Próximo Filme: NAFF 2014 (vários)

domingo, 3 de agosto de 2014

Ragnarok (Gaten Ragnarok, 2013)


Há quanto tempo não assistem a um filme de aventura? Ou melhor, qual foi o último verdadeiro filme de aventura a que assistiram que não envolva robots ou heróis da Marvel e que não seja uma sequela? Foi o que me pareceu.

“Gaten Ragnarok” inicia-se com uma obsessão. Sigurd Svendsen (Pål Sverre Hagen) é um arqueólogo trintão e pai de dois filhos que vive para o trabalho. Desde a morte da mulher (a quantidade de viúvos desgraçados por esse cinema fora), que Sigurd descura a vida a pessoal e busca, de modo compulsivo, uma grande descoberta relacionada com um antigo navio viking. Na sua mente perturbada pela dor, Sigurd crê que a falecida mulher ficaria feliz por ele. Acho que criar os filhos para se tornarem jovens adultos saudáveis faria mais pela felicidade de todos os que ainda vivem mas isso sou eu que sou esquisita. Na verdade Sigurd não está a fazer grande coisa nem pelos filhos nem pela carreira, pois mais não faz senão andar em círculos. Para o director do museu (Terje Strømdahl) onde trabalha é a gota de água, depois de mais um discurso fantasioso de Sigurd perante potenciais patrocinadores que provoca o corte de uma vital bolsa de investigação. Ele experimentou dizer-lhe que seguisse outra linha de trabalho, aconselhou até que acompanhasse mais os filhos e nada. Tudo parece perdido para Sigurd quando desilude a pequena Ragnhild (Maria Annette Tanderød Berglyd) pela enésima vez e vê, perante si, a possibilidade de anos a fio sem aventura, limitado ao papel de mero guia dos visitantes do museu. Quantos não desejariam um simples trabalho de escritório pago? É o colega Allan (Nicolai Cleve Broch) quem vem abalar a realidade monótona que decerto se abateria sobre o homem ainda novo e inconformado. Uma antiga pedra, com runas milenares revela informação fulcral sobre um dos momentos mais obscuros e interessantes da mitologia nórdica, o “Ragnarok”, ou a série de ocorrências que levarão ao fim do mundo como este é conhecido na actualidade. Determinados e empurrados pela informação recém-descoberta Sigurd e Allan partem com as crianças para Finnmark, a região de beleza inóspita mais ao norte da Noruega que faz fronteira com a Rússia. Lá reúnem-se a Elisabeth (Sofia Helin) uma exploradora experiente e a Leif (Bjørn Sundquist) um guia com mau feitio, para encontrar mais artefactos arqueológicos, vestígios da era soviética e algo de que ninguém estava à espera (se não tiverem visto mais do que o 1.º trailer, claro).

Sabem aquele ditado que diz qualquer coisa como não ser o destino que conta mas a viagem que se faz para lá chegar? Não é isto. As paisagens são magníficas e atravessar terras que poucos pisaram tem algo de excitante mas é Sigurd é um completo idiota. Trouxe os filhos a reboque apenas por obrigação e pouco mais que a atenção de Elisabeth o atrai quando não está à procura de pistas para o “maior achado arqueológico nórdico de sempre”.  Está completamente cego quanto ao que tem à sua frente. Por isso, quando finalmente se apercebe do seu erro pode ser tarde demais para salvar os filhos e o novo interesse amoroso.
Esta entrada oriunda da gelada Noruega encontra na sua própria terra e na mitologia escandinava os ingredientes certos para um filme de aventura. Os planos gerais de fiordes noruegueses e montanhas virgens parecem gritar por um grupo de intrépidos exploradores e evoca personagens como Indiana Jones ou James Bond cujo encanto ia além da sua própria persona. A audiência queria saber de que estes personagens eram capazes quando eram inseridos, por vezes inadvertidamente, em ambientes que não eram o seu e se conseguiam testar-se até ao fim das suas forças. Se a “Gaten Ragnarok” falta algo presente nestas narrativas é “O” personagem. Sigurd não inspira simpatia, ainda que a sua demanda desponte a curiosidade, Allan não deixa de ser um sidekick, mas até ele tem os seus defeitos e Elisabeth que se demonstra forte e corajosa, uma mulher alfa, se quiserem, não surge no ecrã tempo suficiente para roubar o estrelato. Mas os problemas não se quedam por aí. O ângulo da mitologia ou da presença soviética tal como o julgávamos, perde-se demasiado rápido e dá lugar a efeitos gerados por computador que deixam muito a desejar. As cartadas do argumento são depois, por demais previsíveis e inofensivas, (digamos que os maus têm o que merecem) deixando até abertura para uma sequela. Mas num deserto de filmes de aventura sem o predicado da originalidade, “Gaten Ragnarok” torna-se quase um “mal” necessário. Pode não ser o filme de aventura que queremos mas o filme de aventura que precisamos. Para ver com os miúdos. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Filme para ver em família
- Factor aventura
- Produto light, refrescante e inofensivo

O pior:
- Efeitos especiais fraquinhos, fraquinhos...
- Sigurd e Allan são capazes de ser os piores arqueólogos de sempre
- Sigurd também não é exactamente o pai do ano
- Necessitava de mais uns minutos de acção.

Realização: Mikkel Brænne Sandemose
Argumento: John Kåre Raake
Pål Sverre Hagen como Sigurd Svendsen
Nicolai Cleve Broch como Allan
Bjørn Sundquist como Leif
Sofia Helin como Elisabeth
Maria Annette Tanderød Berglyd como Ragnhild
Julian Podolski como Brage
Terje Strømdahl como Director do Museu



Próximo Filme: "The Raid 2: Berandal", 2014

domingo, 15 de junho de 2014

Pee Mak Phrakanong, 2013


Passaram-se seis anos, desde que estreou “4bia”, uma pequena antologia de terror, que viria a juntar um dos quartetos com a química mais fantástica que já passou pelo ecrã e provou (caso ainda persistissem duvidas), que comédia e terror constituem um casamento mágico. 

“Pee Mak Phrakanong” foca a estória de Mak (Mario Maurer) um soldado que regressa para os braços da mulher que deixou grávida, Nak (Davika Horne) depois de ter sido forçado a ir combater para a guerra. Consigo traz quatro camaradas com quem firmou uma amizade para o resto da vida Ter (Nuttapong Chartpong), Aey (Kantapat Permpoonpatcharasuk), Shin (Wiwat Kongrasri) e Puak (Pongsathorn Jongwilak) respectivamente. (Desafio-vos a ler o nome dos actores em menos de 10 segundos!) Na aldeia o recém-chegado não é recebido da melhor forma: corre o rumor que Nak faleceu durante o nascimento do filho de ambos e assombra agora o local. Nak ignora os avisos e corre para o conforto do lar providenciado por Mak onde esta o recebe como se nada se tivesse passado. Os seus quatro amigos cedo apresentam as mesmas suspeitas que os aldeões mas, como avisar Mak que o amor da sua vida é um fantasma? Pior, como avisar Mak sem atrair a ira de Nak?

A estória baseia-se na lenda de Mae Nak, uma mulher que morre durante o parto mas se recusa a deixar o mundo dos vivos para atender ao marido Mak. Quem se opõe a tal ligação acaba morto até que Mak, por fim, descobre a verdade e foge. Segundo versões diversas da lenda, a alma de Nak é libertada mediante o ritual do exorcismo ou capturada num recipiente. A lenda é especialmente venerada como a prova mais forte do amor conjugal capaz de ultrapassar até a morte. Esta versão cienamtográfica é mais leve e reinventa a estória sem se afastar das linhas gerais e sem se escusar, no entanto, a momentos sinistros. “Pee Mak Phrakanong” ficou em boas mãos, pois tem associados Banjong Pisanthanakun e Chantavit Dhanasevi que colaboraram no argumento das antologias “4bia” e “5bia”, sendo que este último também protagonizou o não menos original “Coming Soon” e o quarteto cómico maravilha participou nas antologias já mencionadas. Todos habituados ao delicado acto de equilibrismo entre comédia e terror.

Confirma-se a falta a gravidade da lenda que inspirou o filme desde o primeiro sorriso, negro, do elenco, (a sério, uma marca de pasta de dentes podia ganhar rios de dinheiro tendo-os por representantes). É que nem a belíssima Davika Horne com a sua tez branca que faz concorrência às marcas de detergente, escapa a um sorriso destroçado! Some-se à dentição podre, penteados extraordinários que alternam entre a mais vulgar poupa, com uma altura que desafia a gravidade ao risco ao meio a terminar em autênticas asas! E para o caso da audiência temer fazer alguma observação sobre o facto, os actores antecipam-se e desdobram-se em piadas sobre o facto. A auto-consciência de um argumento é sempre divertida: “Isto é ridículo. E depois?” Na relação de Mak e Nak que é adorável e credível – despojem os actores de vestes parvas e comédia física e o que sobra é um jovem casal apaixonado –, é que se encontra o foco da estória mas é no quarteto fantástico que reside o segredo do sucesso deste filme. Os actores demonstram o grau de conforto de quem contracena há muitos anos em parceria. Delírio talvez, mas não seria estranho imaginar que existe de facto uma amizade entre eles. Embora o mais provável seja mesmo o talento natural para a comédia, aliado a uma excelente direcção. Com o argumento inteligente, que procura referências populares incluindo o “Rocky” (1976) ou “The Last Samurai” (2003), há espaço para o improviso e é notável o modo como os actores se alimentam da energia mútua para tornar as linhas de diálogo mais vivas. Mais, se conseguem atravessar cenas como a do jogo de mímica “Está um Fantasma entre nós”, a assombração de uma Casa Assombrada (sim, leram bem) e a fuga de canoa mais lenta de sempre que valem sobretudo pela comédia física é recomendável a visita de um médico pois têm um sério problema de falta de humor. Três estrelas e meia.
O melhor:
- A química do elenco
- Cenas de rir à gargalhada
- Comédia física

O Pior:
- A estória é sacrificada em prol da comédia (Isso é mau?)
- Caracterização dos actores. Havia necessidade de ir tão longe para produzir efeito cómico?

Realização: Banjong Pisanthanakun
Argumento: Banjong Pisanthanakun, Chantavit Dhanasevi e Nontra Kumwong
Mario Maurer como Mak
Davika Horne como Nak
Nuttapong Chartpong como Ter
Kantapat Permpoonpatcharasuk como Aey
Wiwat Kongrasri como Shin
Pongsathorn Jongwilak como Puak
Sean Jindachot como Ping


Próximo filme: "The Forbidden Door" (Pintu Terlarang, 2009)

Senhoras e senhores, o quarteto fantástico!

domingo, 1 de junho de 2014

"Dark Skies", 2013


Trágico é o dia em que um casal descobre que os seus filhos se sentem acossados e eles não podem fazer nada para os proteger. 

Lacy (Keri Russel) e Daniel (Josh Hamilton) são em muitos aspectos o casal suburbano típico. Têm dois filhos, uma casa e discutem sobre dinheiro. O mais novo, Sam (Kadan Rockett) ainda aceita cegamente o que os pais lhe dizem. É Jesse (Dakota Goyo), o filho mais velho que começam a perder para a adolescência. O facto de Daniel estar desempregado e de Lacy não conseguir vender casas, começa a fazer mossa na relação. A última coisa de necessitam para aumentar a já forte pressão é os filhos serem também eles vítimas. Nada tão vulgar como serem vítimas da economia. Algo bem mais insólito. Entre estórias de um “sandman” contadas pelo petiz e desenhos perturbadores, o casal começa a notar a mudança de lugar de objectos e mobília. De súbito, o que podia ser vida quase idílica transforma-se com o medo do desconhecido. “Dark Skies” trilha os caminhos de um “Poltergeist” (1982) mas sem a boa disposição associada. Se o filme antigo era atemorizante, mas mantinha a uma distância segura a esperança de uma resolução a contentamento de todos. “Dark Skies” pega na mesma premissa, a de uma força invisível que ataca uma família mas dispara numa direcção diferente e bem mais obscura. Os acontecimentos sucedem sobretudo na noite escura, em que a visão é limitada e a imaginação descontrolada. Eis como um filme modesto se torna em algo bem superior. O desenvolvimento dos personagens, em particular, o sentimento de alarmismo que põe em causa a paz da família soa demasiado real. Se um filme é preditor de atitudes estúpidas e é certo que as há, “Dark Skies” não é excepção, de algum modo conseguimos identificar-nos com o transtorno daqueles pais e as acções mais ou menos sensatas. O terror de um casal que não sabe como explicar aos filhos o que se está a passar, de um lado da barricada uma Lacy numa pilha de nervos e do outro um Daniel que pretende manter a fachada de segurança ancorado num cepticismo que até ele, no seu interior, sabe que não o auxiliará em nada, são espantosos de se ver. É numa frente unida e não na dispersão que reside a maior força para enfrentar a ameaça.

“Dark Skies” segue a fórmula tendo apenas uma pequena reviravolta e, quanto a isso, quanto menos lerem e souberem melhor. De referir que a direcção que a estória é surpreendente pela positiva uma vez que não tem sido comum tal abordagem. Os mais exigentes irão de qualquer modo apelidar “Dark Skies” de medíocre mas vai ser sem duvida um docinho para quem procura algo diferente no género de terror sci fi.
Existe o tal personagem, o contador de estórias, como gosto de lhe chamar, que explica aos protagonistas sem noção o que se está a passar. É capaz de ser este o momento, pessoalmente, que fez o copo transbordar no que toca à credibilidade da estória. No entanto, não era inesperado. Esta personagem é tão verdadeira na Hollywood dos anos 80 [“Poltergeist” (1982)] como na do novo milénio [“Insidious” (2010)] e no cinema asiático [“Premonition” (2004)], a regra também é invariavelmente seguida.
“Dark Skies” é um filme de suspense antes de trilhar o terreno da ficção científica e é no primeiro capítulo que se encontra maior potencial. Com poucos ou nenhuns efeitos especiais, a tensão vai amontoando e quando damos por nós, o filme que até nem é pequeno, foi um bom pedaço de tempo desperdiçado. De tal modo, que fica a sensação que se tivesse havido uma maior aposta do estúdio na sua promoção podia ter tido pelo menos sucesso moderado. Três estrelas.

O melhor:
- Keri Russell percorreu um longo caminho desde “Felicity” (1998)
- Direcção inesperada

O Pior:
- Fraca concretização da ideia
- O baixo orçamento
- O marketing (que aliás “spoila” o filme)

Realização: Scott Andrew
Argumento: Scott Andrew
Keri Russel como Lacy Barrett
Josh Hamilton como Daniel Barrett
Dakota Goyo como Jesse Barrett
Kadan Rockett como Sam
J.K. Simmons como Edwin Pollard

Próximo filme: "Hara-Kiri: Death of a Samurai" (Ichimei, 2011)

domingo, 18 de maio de 2014

"Bad Milo", 2013


O Milo não é um cão fiel (por favor não confundir com Milu). E mais depressa nos arranca a mão do que a lambe. O conceito de “Bad Milo!” encontra-se mais próximo de um filme pornográfico com triplo X do que a comédia de terror mediana. Apenas não esperem ver uma estrela porno com o rabo destruído. Não, isso é o Ken Marino…

Duncan (Ken Marino) é um tipo simpático, com o qual todos, em certa medida se podem identificar já que trabalha mais horas do que as que devia e em condições cada vez piores, o chefe é um parvalhão sem escrúpulos (que levante a mão quem nunca teve um chefe assim) e em casa, não está muito melhor, já que a mãe aproveita cada oportunidade para lhe perguntar porque é que ainda não lhe deu um neto e a esposa sente-se ansiosa com a possibilidade de não conseguir engravidar. Com tantos problemas a avolumar-se, não é de admirar que Duncan sinta dores abdominais crescentes. O desconforto é aliás, tão grande que apenas depois de visitas especialmente dolorosas e amnésicas à casa de banho, Duncan se sente aliviado. É aí que ele descobre dois factos peculiares sobre si próprio: 1) tem um demónio aka hemorroida assassino no intestino e 2) ele persegue com fervor homicida as causas de stress do seu “pai”. Com a ajuda de Highsmith (Peter Stormare), um terapeuta pouco convencional, Duncan vai tentar impedir que o demónio ataque novamente.

Tem uma premissa incrivelmente parva? Com certeza. “Bad Milo!” é como que um filme dos anos 80, que foi enfiado numa capsula no tempo e só agora foi (re)descoberto, ganhando o estatuto de culto. Tem um orçamento minúsculo, diálogo à altura daquela década, desempenhos descontraídos mas uma genica e uma vontade de abraçar o absurdo como há muito não se via. Tem uma imaginação como se tem observado apenas ultimamente no cinema independente [vide “Proxy” (2013) e “Contracted” (2013)] e o monstro é de borracha e não uma imagem gerada pelo computador de um geek qualquer! Coisa que a malta nascida nos anos 90 não deve conhecer. Exemplos como “The Thing” (2011) vêm à mente. Por trás da máscara do humor/terror de casa de banho, a ideia base de “Bad Milo!” é brilhante. É um facto científico que o stress tem sérios efeitos no corpo humano. Tem-se acidentes vasculares cerebrais, ataques cardíacos, tromboses, esgotamentos nervosos, uma lista infindável de efeitos nefastos no corpo humano... E são todas manifestações do nosso interior.

Os criadores de Milo foram apenas um pouco mais perversos ao insinuar que Duncan conseguiu aglomerar todo o stress que sentia num monstro vingativo. E se quisermos ser ainda mais provocadores, a ideia de alguém que não nós próprios punir quem nos causa angústia é deliciosa. O nosso apetite pela destruição é retratado numa situação implausível, podendo, para os mais atentos, passar despercebido. É aí que “Bad Milo!” é um pouco mais cerebral que o slasher médio saído dos anos 80. Refira-se no entanto, que Duncan é um homem de família e o seu “assassino” apenas escolhe como vítimas quem cometeu o erro de interacções infelizes para com ele. Apesar de Milo consistir numa manifestação é a Duncan que cabe a decisão final sobre o seu futuro: se vai continuar a internalizar o que sente ou se vai aceitar e procurar resolver os problemas que o afligem para uma existência futura mais saudável. Além disso “Milo” é assim apelidado pelo seu hospedeiro e tem um ar adorável (para uma hemorroida). Milo é fofinho e mesmo enquanto assassino é difícil não simpatizar com os seus grandes olhos à la “Puss in boots” do "Shrek 2" (2004). Desta vez ganha o vilão! Três estrelas.

Realização: Jacob Vaughan
Argumento: Benjamin Hayes e Jacob Vaughan
Ken Marino como Duncan
Gilian Jacobs como Sarah
Mary Kay Place como Beatrice
Toby Huss como Dr. Yeager
Peter Stormare como Highsmith

Próximo Filme: "Just another pandora's box" (Yuet gwong bo hup, 2010)

domingo, 4 de maio de 2014

"Tales from the Dark - Part I", 2013


Lillian Lee diz-vos algo? Se não, tenham vergonha! Ela é apenas a escritora por trás de filmes como “Farewell My Concubine” (1993) e “Dumplings” (2004) um dos segmentos de antologias de terror (“Three… Extremes”) mais perturbadores de sempre. Desta feita, a obra de Lee teve honras de total destaque em 6 segmentos divididos em duas antologias, com alguns personagens já repetentes na adaptação dos seus trabalhos. Visionado na 5ª Mostra de Cinema de Hong Kong, cuja sala estava, infelizmente, pouco composta, “Tales from the Dark – Part 1” representa Lee na sua vertente mais sombria.

 As curtas:
“Stolen Goods” – Kwan é um biscateiro que acaba de perder o mais recente trabalho. Todo ele, insolência e pavio curto, não é de admirar que seja despedido numa base regular. Os seus valores incidem no enriquecimento rápido ao menor custo pessoal possível. Como se encontra perto de ser expulso do pequeno quarto alugado por ausência de pagamento, não é demasiado penoso a Kwan recorrer ao roubo de urnas para depois chantagear os familiares dos falecidos.


“A Word in The Palm” – O mestre espírita Ho decide abandonar a vida ligada ao oculto para reparar a relação com a mulher céptica e o filho menor. Ele tenta reencaminhar os últimos clientes para a entusiasta colega Lam. No entanto, quando por engano lhes entrega um CD do filho num recital, terá de envolver-se mais do que gostaria. Será muito difícil recuar perante o caso mais complicado da sua carreira e a insistência da colega.

“Jing Zhe” – A velhinha Chu dedica-se à tradição milenar de “bater nos vilões”. Armada de cânticos e a sola dos sapatos bate com força em fotografias e papéis que representam os inimigos daqueles que a ela recolhem. Depois de anos a amaldiçoar pessoas inocentes, pode ter chegado a vez de Chu sofrer na pele a força do seu próprio remédio.

As trevas não tardam a surgir poucos adentro de “Stolen Goods”. Um início intrigante, onde é evidente e até ansiada com fervor alguma forma de retribuição a Kwan, o personagem obnóxio interpretado por Simon Yam dá lugar à perplexidade de uma narrativa ininteligível. Yam provou há muito que é actor para isto e muito mais mas na estreia como realizador revela a fraqueza da inexperiência e pior, ambição superior aos recursos. Pejada de momentos “tcha-ran” acompanhados por música alta e desconcertante. Não, Yam, nunca tínhamos ouvido isso antes… A cinematografia é fantástica só que não cola com a estória. E não se consegue perceber se são as ineficácias do argumento que levaram ao segmento mais insatisfatório de todos se foi a incapacidade de Yam em traduzir o material que lhe foi dado. O percurso de “Stolen Goods” é labiríntico onde podia ser simples: um bandido tem a paga pelos seus crimes. Há demasiados caminhos tanto quanto é dado a perceber, as pontas soltas não vão dar a nenhum lado satisfatório.
“A Word in the Palm” é uma surpresa. Depois de uma introdução sofrível mas sombria no tom, segue-se uma narrativa de aparência mais light, pelo menos pela aposta na comédia. Ho (Tony Leung Ka-fai) é um homem talhado para ler outro plano da realidade que rejeita o seu destino e se alia, relutante, a uma mulher (Kelly Chen) que tudo faria para ter um pouco do talento deste e o persegue feroz. Juntos fazem uma dupla improvável e atractiva. Leia-se, o único duo de personagens que iremos recordar com simpatia depois de “Tales from the Dark – part I” terminar. O desenlace é óbvio, tantas vezes que a mesma estória, com variações foi interpretada no cinema. Há poucos momentos de terror em “A Word in the Palm”, mas quando surgem são bem-vindos. Resulta pois um segmento desigual, original na abordagem, vulgar no conteúdo, ainda assim, superior ao antecessor.
Costuma-se dizer que o melhor fica para o fim e, se não formos excessivamente zelosos com as imagens criadas digitalmente “Jing Zhe” recupera os elementos mais desconcertantes da escrita de Lilian Lee. Realizado por Fruit Chan, o mesmo de “Dumplings”, ele encontra uma ligação com o material como nenhum outro. A sua Chu (Susan Chu) é a personagem mais ambígua e mais interessante destes 112 minutos. É ainda uma estória inerentemente chinesa. Não se podia encontrar estória mais enraizada na cultura que “Jing Zhe”. Se o conceito dos batedores de vilões é intrigante, a sua concretização também parece funcionar. Ou não nos sentíssemos cansados depois de ver o espancamento a que Chu sujeita os bens das vítimas. Não constituirá ainda um momento cinematográfico superior a “Dumplings” mas é um bom prelúdio para o segundo capítulo. Três estrelas.

Curta #1: “Stolen Goods
Realização: Simon Yam
Argumento: Lillian Lee
Simon Yam como Kwan
Maggie Shiu como wok Wing-nei
Feliz Lok como Chu Wing-kit

Curta #2: “A Word in the Palm”
Realização: Chi-Ngai Lee
Argumento: Chi-Ngai Lee
Tony Leung Ka-fai como Mestre Ho
Kelly Chen como Lan
Eileen Tung como Mulher de Ho
Cherry Ngan como Chan Siu-ting
Eddie Li como Cheung Ka-chun
Jeannie chan como Senhor Cheung

Curta #3: “Jing Zhe”
Realização: Fruit Chan
Argumento: Fruit Chan
Susan Shaw como Chu
Josephine Koo como Koo
Dada Chan como cliente


Próximo Filme: "Bad Milo", 2013

domingo, 16 de fevereiro de 2014

"Insidious: Chapter 2", 2013


Em cada ano surge um filme querido por uns quantos mas não tão querido que chegue às listas de melhor do ano. “Insidious: Chapter 2” tinha o potencial para entrar nessas listas (as de terror), arrastado pelo sucesso do seu antecessor. 2012 foi um ano difícil. Houve muita e boa oferta, especialmente, no que toca ao território indie “V/H/S 2”, “ABC’s of Death”, You’re next” e “American Mary” outros de investimento mais avultado e ainda assim inesperados como “The Conjuring”, também do realizador de “Insidious” mas não é como se alguém esperasse que o relâmpago atinge o mesmo local pela terceira vez.

Os Lambert recuperaram Dalton das garras do que quer que o prendia no “outro lado”. No entanto, a aflicção está longe do fim. Elise (Lin Shaye) a médium que ajudou Josh (Patrick Wilson) a resgatar Dalton foi assassinada e Renai (Rose Byrne) começa a denotar atitudes peculiares, pouco características no marido. Para quem viu o filme anterior, esta última constatação dificilmente será uma surpresa. Para os restantes, eis um conselho: “Insidious: Chapter 2” é tão sequela quanto uma sequela pode ser e, neste caso, não ter visionado o primeiro filme constitui um obstáculo à sua compreensão. Despender uns bons minutos de filme apenas tentando compreender a estória é capaz de não abonar a favor dessa mesma obra, digo eu. Ainda sim, “Insidious: Chapter 2” sofre de muitos mais problemas que o facto de ser uma continuação. Tendo Elise morrido e com um suspeito mais do que evidente é bastante estranha a atitude descontraída e desleixada da polícia face ao evento. Serve as conveniências de argumento? Sim. É realista? O menos possível. Qualquer agente com dois neurónios conseguiria chegar com facilidade à identidade do culpado. Conseguindo (sobre)viver com tal falha óbvia, conseguem aguentar 100 minutos de filme… “Insidious: Chapter 2” fragmenta-se em várias direcções, incluindo uma Renai que continua assombrada, desta vez a dobrar pois desconfia que a “entidade” que os ensombra ainda permanece com eles e o facto de Josh revelar um comportamento cada vez mais preocupante e Lorraine (Barbara Hershey) parte com os ajudantes de Elise numa senda para descobrir enfim, as raízes do mal que tocou a sua família.

Dita um dos lugares-comuns do cinema de terror que sempre que existe um qualquer fenómeno sobrenatural inexplicável, a dada altura, alguém tem um momento “ideia luminosa” e decide: “se calhar devia investigar por que é que me está a acontecer isto”. Isso sucede com Lorraine que depois de ter visto o filho Josh por uma assombração em criança e o mesmo repetir-se, agora, com o neto, decide, finalmente, que talvez fosse pertinente compreender as causas da assombração. Ei, mais vale tarde que nunca! E se a investigação não é aborrecida, Wan e Whannell apresentam mais do que bons e numerosos motivos para nos mantermos num estado de expectativa e sobressalto constante. Admito, com um misto de prazer e de culpa que os melhores momentos são aqueles em que depois de um rápido crescendo com aproximação da lente e aumento do som da música à mistura, nada sucede. Valem pelo crescendo da tensão e pela brincadeira com os nervos. A cena que antecede o que pode ou não ser um susto é, ela própria, assustadora. Isso é terror. Foi o que sucedeu com “Insidious” e se veria a repetir, com melhor efeito em “The Conjuring”. Esta dupla sabe do seu ofício. Eles sabem o que têm de fazer para colocar a audiência numa pilha de nervos. O que nos leva ao argumento. Enquanto cada momento brilha por si próprio, enquanto cena ou sequência do mais puro terror, estas peças, em conjunto, não funcionam como um puzzle, como um todo coerente. Há momentos que precisavam de ser afinados para melhor encaixarem no filme global. A exemplo disto, refira-se a dupla Specks (Leig Whannell)/Tucker (Angus Sampson) que apresentam os  poucos momentos de comédia do filme. Ou melhor, tentam, porque a comédia é forçada e no máximo só gera mais momentos de riso nervoso. Lá está, a incongruência, numa obra onde todos se encontram ultra-sensíveis, à espera de algo que os faça quebrar. E depois há todo um recurso a analepses e prolepses, tão recorrente que leva ao questionamento sobre afinal, que raio é que se está a passar no presente? Quanto à direcção assumida apenas posso traçar um breve paralelo a “The Pact” (2012), cuja racionalidade soa, apesar de tudo, mais credível que qualquer outra explicação que fosse apresentada. Três estrelas.


O melhor:
- O terror!
- Sentimento de nostalgia (cenário, adereços, cenas reminiscentes de clássicos)
- Enfoque em Barbara Hershey

O pior:
- A dupla Tucker/Specks
- Qual estória?
- Continuidade


Realização: James Wan
Argumento: James Wan e Leigh Whannell
Patrick Wilson como Josh Lambert
Rose Byrne como Renai Lambert
Ty Simpkins como Dalton Lambert
Lin Shaye como Elise Rainier
Barbara Hershey como Lorraine Lambert
Steve Coulter como Carl
Leigh Whannell como Specs
Angus Sampson  como Tucker

Próximo Filme: "Double Vision" (Shuang Tong, 2002)

domingo, 22 de dezembro de 2013

TCN Blog Awards 2013 - My Take

Pelo terceiro ano consecutivo o Not a Film Critic esteve representado nos “TCN Blog Awards” (21 de dezembro, Centro Cultural Casapiano), o que é curioso visto que não consigo manter esse compromisso com festivais de cinema. Mas como tenho dito, trabalhar sobre o cinema não é para quem quer, é para quem pode. Um privilégio.
Este ano foi admirável pois não só alguém se lembrou que o Not a Film Critic existia, como se lembrou quatro vezes! As nomeações correspondiam a: “Melhor Reportagem: NAFF – Not a Film Festival” (cuja visita continuo a recomendar vivamente a outros bloggers); “Melhor Blogue Colectivo: Scifiworld PT (a je também escreve no colectivo e, amanhã, poderão contar com novo texto da minha autoria – se é que isso é importante); “Melhor Blog Individual – Not a Film Critic” e “Melhor Blogger – esta que vos escreve). E sou capaz de jurar que quatro pessoas bateram palmas! Estão a ver a cara de surpresa da Anne Hathaway quando ganhou o óscar de melhor actriz secundária em “Les Misérables”? Pois, a minha reacção, quando li as nomeações foi de surpresa verdadeira e sem a humildade mete-nojo (perdoem a tirada maquiavélica, ou então não). Estas somam-se às nomeações anteriores para “Melhor Novo Blogue” (2011) e “Melhor Artigo de Cinema” (2012). Podia tentar encher uma parede de “quases” mas um escritor, seja do que for, com ou sem talento, não se deve apegar demasiado às suas conquistas. O próprio acto de escrever é, em si, masturbatório. Qualquer coisa que permita um prazer maior e partilhado é infinitamente mais saudável e menos egocêntrico. É também por isso que apoio iniciativas como os TCN.
As pessoas por trás do nome ou da alcunha (este ano apresentei-me como Rita Santos mas descansai, que o meu amor pelas PowerPuff Girls é tão grande como antes pelo que tão cedo o FilmPuff não irá caír) têm a oportunidade de se conhecer e surgem novas ideias, novas parcerias, novos projetos de rubrica e de blogue muito interessantes, provando a riqueza inexcedível do meio online. Além disso, os “TCN” começam a tornar-se a sua própria marca. Sem passadeiras vermelhas, com guião, mas ainda com aqueles momentos de improviso que trazem gargalhadas mil (filhos da Rita Marrafa de Carvalho, cutxi cutxi), vídeos com uma montagem fantástica e gags que só podiam vir daquela equipa, os TCN reúnem-se em torno daqueles que são criticados por criticar. É o único dia em que podemos dar e receber palmadinhas nas nossas costas.
Aos vencedores, as minhas felicitações, sendo que entre estas não posso se não, nomear, o Aníbal Santiago que ganhou o prémio de melhor blogger individual que encapsula mais do que qualquer das outras nomeações poderia fazer, o ano fantástico e todo o trabalho que tem realizado. Dormes à noite? Quase que estou tentada a afirmar que é quem mais trabalha em toda a blogosfera em ex-aequo com o Nuno Reis (Antestreia, Sicifiworld PT e sabe-se lá o que mais). E ainda a iniciativa “Um Filme: Uma Mulher” que ganhou o prémio de “Melhor Iniciativa” e engloba duas questões que me são muito queridas: uma mulher ter ganho um prémio num mundo claramente dominado por homens, corrijam-me se estiver enganada, mas acho que apenas duas mulheres foram ao palco individualmente, receber um prémio e a necessidade de se falar de cinema no feminino. Se há poucas mulheres realizadoras, imaginem então a sua presença no género de terror. Na Ásia então…
Para finalizar e, porque não sou de intrigas deixo algumas sugestões para o futuro: uma pausa de 15 minutos para os xixizinhos (como diria o Manuel Reis estou a canalizar o João Baião), porque QUASE TODAS AS PESSOAS DA MINHA FILA a dada altura, tiveram de se levantar para ir tratar do chamado da natureza. Já pensaram o que seria se fosse anunciada a sua categoria, elas ganhassem e estivessem ainda a terminar o serviço?! Ah e já agora, que a pausa permita ir comer uma bucha, para não haver desfalecimentos aquando do anúncio de boas notícias. Quanto aos vídeos, que achei muito bons, (quem fez a selecção de música é um génio!) deixo uma reflexão: se tirarem o som e as legendas, conseguem perceber qual é a categoria e quais são os nomeados? Vou indo que já me alonguei demasiado. Até para o ano.

PS: Não sei como, nem por que arte mágica mas conseguiram que estivessem lá a Edite Estrela e a Lenka do Preço Certo. A sério. Podem acreditar em mim.
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