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sábado, 21 de novembro de 2020

"Shanghai Fortress" (Shang hai bao lei, 2019)



"Shanghai Fortress" é uma espécie de "Under the Dome" chinês, com um mix de muitos outros exemplares cinematográficos americanos (demasiados para contar mas não quer dizer que não tente!), em que a humanidade, após uma invasão alienígena, sobrevive sob uma espécie de cúpula, um escudo invisível que serve de campo de forças para repelir os aliens, usando como combustível "xiangteng", que foi descoberto e é detido pela população chinesa sobrevivente. A nave-mãe dos aliens, ataca ocasionalmente o escudo e a cada ataque este fica mais fraco e a humanidade mais vulnerável. Num universo em que "Shanghai Fortress" fosse um filme a sério, isto teria a sua piada dado que os alienígenas estão a atacar a humanidade para lhe retirar o recurso que é o que a está a proteger. Porquê insistir no tal combustível? Porque não cedê-lo simplesmente? Não é como se o Homem tivesse muito pudor na utilização de outros materiais fósseis...


De facto, "Shanghai Fortress" é tão inépto que podia ter saído de um daqueles livros da série "Para Totós", intitulado "Como fazer Ficção Científica chinês em poucos passos para totós". É que o filme nem sequer sofre da problemática de falta de material onde se basear. É a adaptação de uma obra de ficção com o mesmo nome, escrita pelo escritor chinês Jiang Nan, também conhecido pelo título altamente original e nunca antes ouvido "Once upon a Time in Shanghai". O orçamento, que se diz por essa internet fora ter custado 400 milhões de yuan, até serviu para contratar um elenco muito jovem (e talento duvidoso), com pelo menos um ou dois ídolos muito famosos para figurar como "eye candy". Destaque-se o ex-membro de uma boysband Luhan aqui como o protagonista Jiang Yang, um militar que além de padecer de dores de amor pela sua superior Lin Lan (Shu Qi), pilota drones, frequenta discotecas nos tempos livros e parece enfadado 100% do tempo e até um pouco inconsciente quanto À INVASÃO ALÍENEGINA E FINAL ANUNCIADO DA HUMANIDADE! 
O elenco tenta uma pose séria

As gentes do casting, tiveram pelo menos o bom-senso de contratar pelo menos um bom actor para conferir credibilidade - uma Shu Qi ("The Assassin", 2015) num papel em que a atriz parece contar os minutos para abandonar a rodagem e limpar a lágrimas com os muitos yuan que decerto ganhou para o fazer. Oh, como os grandes caem! 
"Homenagem" sempre é um nome mais fofinho que cópia descarada, portanto, digamos que esta produção foi buscar inspiração às seguintes obras: "War of the Worlds", recordam-se de referir que os alienígenas estão a atacar o planeta porque querem roubar os recursos da Terra? "Independence Day" (1996) dado que o design da nave-mãe é tirada a papel químico das naves gigantescas do filme americano, porque saem raios destruidores da nave, ou a inclusão do patriotismo que nos impõem pelos olhos adentro, o próprio final do filme... enfim, diria que reviram vezes sem conta esse filme fantástico e piroso, para ver onde o que podiam levar emprestado e como é que podiam "elevar" o material. Também achei curiosa a inserção de actores estrangeiros pelo simples facto de o serem para representar o resto do mundo. Também podemos falar do "Core", "The Day After Tomorrow", entre muitos outros filmes-catástrofe, por causa dos eventos atmosféricos anormais e pelo grau de destruição a que a cidade de Shanghai é votada. Os momentos dedicados a estes acontecimentos são, de forma infeliz, parcos, para um filme com a escala que prometia ter. Num festim de efeitos gerados por computador, esses são muito desiguais mas também os mais fugazes, havendo alturas em que os efeitos estão tão maus que temos, enquanto audiência, de nos questionar, o porquê da sua integração no filme se o resultado é tão misto. 
O mundo está em ruínas mas que importa? As discotecas ainda estão abertas!

Depois há o romance. Nada contra. Há quem considere que o romance confere um grau de urgência, de gravidade até, às películas. Por seu turno, as audiências chinesas adoram um bom romance delicodoce entre pessoas bonitas. Para mal de pessoas como eu, venderam-me um filme de ficção científica. A última coisa que quero ver num contexto de invasão alienígena e luta pela sobrevivência da humanidade é um romance que parece deslocado do próprio filme. Não há uma pitada de química entre os protagonistas. Ainda que tivesse algo contra a grande diferença de idades entre os protagonistas (Shu Qi e Luhan) ela uma quarentona e ele na casa dos vinte e poucos e, a diferença nem parece assim tão acentuada - ela está muito bem conservada -, já vimos muito mais creepy: Marlon Brando e Maria Schneider, cof cof. Só que até a porcaria do pseudo-romance está mal cozinhado. Lin Lan nunca dá mostras de corresponder à paixonite quase adolescente do Jiang Yang e, para mais, ela é superior dele. Confraternizar com subalternos?! 
Gostava muito de dizer que por muito desmiolado que "Shanghai Fortress" fosse, a experiência de visionamento tinha sido divertida mas não consigo. Com uma hora e quarenta e sete minutos consegue ser demasiado longo e um tédio de atravessar. É tempo das nossas vidas que não recuperamos. Tal como escrever este "texto". Suspiro.
Por fim, como piéce de resistance (se eles podem recorrer a tantos clichés eu também posso seguramente usar esta expressão), ia referir que os criadores deste filme deviam pedir desculpa pela trapalhada que fizeram mas parece que o realizador, o escritor/argumentista e o actor principal também já o fizeram. Depois do sucesso extraordinário de "The Wandering Earth" o género scifi parecia ganhar tracção na China. O estrondoso fracasso de "Shanghai Fortress", meros meses depois, pode ter sido o beijo da morte. Meia estrela.


Realização: Hua-Tao Teng
Argumento: Jinglong Han (argumento), Jiang Nan (autor do livro e argumentista)
Qi Shu como Lin Lan
Godfrey Gao como Yang Jiannan
Luhan como Jiang Yang
Sen Wang como Pan Hantian
Liang Shi como Shao Yiyun 
Vincent Matile como George Bradley
Jialing Sun como Lu Yiyi



domingo, 8 de julho de 2018

"Annihilation" (2018)


Unsettling. Esta palavra pode ser entendida na língua portuguesa como inquietante ou perturbadora. Ainda assim, perde a força na tradução. Como se as palavras não conseguissem suportar em toda a dimensão o desconforto que se pretende apontar. Unsettling tem sido uma das palavras mais repetidas nas últimas semanas, aqui como na imprensa internacional a respeito do filme “Hereditary”(2018). É a segunda vez que a aplico num espaço de três meses a respeito de um filme, depois de “Annihilation”. Curiosamente, (ou talvez não), estão ambos no meu top 5 de filmes de 2018, sendo que descrever qualquer um deles como um filme de terror é apenas redutor.

“Annihilation” é a adaptação do primeiro capítulo da trilogia literária “Southern Reach” de Jeff Van derMeer, que acompanha uma expedição de cientistas à Área X. Onde antes se encontrava um parque natural está agora uma região isolada envolvida por espécie de campo electromagnético conhecido como “The Shimmer” ou “O Brilho”. Apesar das similitudes com um “The Simpsons Movie” (2007) ou a obra “Under the Dome” de Stephen King mas as referências não se ficam por aqui seja na temática ou no estilo. “Blade Runner” (1982) “Under the Skin” (2013) flutuam à mente. 

Têm sido enviadas sucessivas expedições científicas e militares para explorar uma zona chamada Área X mas até ali nenhuma das missões voltou a comunicar com o exterior. Lena, interpretada por uma fria Natalie Portman, é uma professora de biologia e ex-militar ainda a lidar com a dor do desaparecimento do marido Kane (Oscar Isaac) após este partir numa missão – adivinharam – à Área X. Um dia ele surge como por magia em casa de ambos. A alegria do regresso mistura-se à certeza de que Kane já não é a mesma pessoa que partiu. Determinada a compreender o que sucedeu a Kane e salvar o marido de uma maleita súbita que se abate rápida e furiosa sobre ele, Lena junta-se a uma expedição feminina de cientistas à zona misteriosa. A equipa inclui a Dra. Ventress, (Jennifer Jason Leigh) uma psicóloga pragmática com um segredo; Anya (Gina Rodriguez), Shepard (Tuva Novotny) e Josie (Tessa Thompson), especialistas em diversas áreas do conhecimento com passados sombrios e motivos muito próprios para encetarem uma viagem ao desconhecido da qual poderão não regressar. Escusado será dizer que após entrar em “The Shimmer” já não estão no Kansas. Tudo é igual e em simultâneo diferente. Para citar um cientista: “na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E mesmo as próprias cientistas, cuja percepção do tempo também se encontra difusa sentem a permanente transformação. Imaginem o Brilho como uma grande liquidificadora onde animal, planta ou o minério se misturam e são cuspidos com uma nova forma. A esse respeito refira-se uma das criaturas com um dos designs mais originais e aterradores que surgiram em cinema ultimamente, a par de um “The Ritual”. Ambos com orçamentos muito modestos para os resultados apresentados. Durante vários dias, não se falava de outra coisa nas redes sociais, se não, naquela CENA. Naquela besta. Claro que podemos falar de aberrações mas também podemos falar de evolução. Porque no Brilho é como se estivessem num novo planeta, e numa nova atmosfera há novas regras. Não serão as cientistas, o elemento estranho? Não serão elas as aberrações? A própria banda-sonora acentua a sensação de estranheza à medida que os instrumentos de percussão dão lugar a sintetizadores. O orgânico, natural, dá lugar ao que é artificial, alvo de intervenção externa.

Alex Garland retoma em “Annihilation”, temas que já o obcecavam em “Ex Machina” (2014), como o que significa ser humano e como é que essa humanidade se manifesta. Incidentalmente, as personagens, que identificamos enquanto humanas e sabemos serem humanas, parecem desconectadas de tudo e quando demonstram sinais de humanidade não é bonito o que se vê. Lena em particular representa o Homem com todas as suas idiossincrasias. Ela é profundamente egoísta e é por isso que decide incorrer na Área X. Ela sente uma tremenda culpa e sente que se fizer aquilo, irá expiar o seu pecado e ter um final feliz. Um dos maiores pecados de “Annihilation” encontra-se nas sucessivas analepses e prolepses, com exposição desnecessária sobre os motivos de Lena e o seu apetite por auto-destruição, que nos é repetido e insinuado ínfimas vezes bem como o relato na primeira pessoa dos eventos que ocorreram na Área X a terceiros. Ainda assim, “Annihilation” incorre onde poucos foram antes e tiveram sucesso. Estranho pode ser bom. Quatro estrelas.
Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland e Jeff VanderMeer (Livro)
Natalie Portman como Lena
Benedict Wong como Lomax
Oscar Isaac como Kane
Jennifer Jason Leigh como Dra. Ventress
Gina Rodriguez como Anya Thorensen
Tuva Novotny como Cass Sheppard
Tessa Thompson como Josie Radek

Próximo Filme: "The Lies she Loved" (Uso wo Aisuru Onna, 2017)

domingo, 31 de janeiro de 2016

"Parasyte: Part I" (Kiseijuu, 2014)


Daqui a uns anos, talvez até meros meses, vou negar que alguma vez disse isto mas aqui vai: se há moda que precisa continuar é a adaptação de filmes a partir de mangá; se uma precisa de morrer é a divisão de filmes em duas ou mais partes.

“Parasyte: Part I” é só apenas um dos muitos filmes que nasceram numa banda-desenhada e passaram ao ecrã nos últimos anos com resultados variáveis. “Death Note” é um esforço incongruente e aborrecido; “Rurouni Kenshin” que teve uma estreia intrigante caiu a pique à medida que foram sendo geradas sequelas. Por entre mortos e feridos, “Gantz” e “Assassination Classroom” emergiram como os esforços mais interessantes ou divertidos.

Em “Parasyte: Part 1” a humanidade é alvo de uma invasão invisível a olho nu por alienígenas. Estes seres funcionam quais parasitas e introduzem-se nos corpos de seres humanos, tomando o controlo destes e adaptam os seus comportamentos com vista a passar despercebidos enquanto canibalizam outros homens. Shinichi (Shota Sometani) um aluno vulgar de liceu, torna-se, por acidente, na única esperança para salvar a espécie humana quando um dos parasitas fracassa a conquista do seu cérebro e apenas assume o controlo do seu braço direito. Shinichi atribui-lhe o nome literal de “Migi” e acaba por criar-se uma amizade insólita e inesperada entre o rapaz e o alienígena invasor, movida de início pela curiosidade mútua. Eles não podem sobreviver um sem o outro pelo que acabam por coexistir como um som. Shinichi distancia-se da mãe e da amiga Satomi (Ai Hashimato) após o conhecimento da realidade que afecta todos os seres humanos e Migi, por sua vez, começa a questionar a brutalidade da sua própria espécie parasítica. Entretanto, Ryoko (Eri Fukatsu) que começa a exercer a profissão de docente na mesma escola onde Shinichi estuda é possuída por um alienígena de elevado estatuto que pretende estudar os seres humanos no seu meio ambiente. Conhecimento significa poder. E conhecer o Homem tornará mais fácil a conquista da espécie.

“Parasyte” sucede na apresentação de uma estória absolutamente absurda que agrade aos fiéis seguidores da mangá e às audiências sequiosas de uma experiência diferenciada no que diz respeito às invasões extraterrestres. Pela primeira vez em algum tempo é conhecia a perspetiva do invasor. Não é apenas um ser terrível, impassível e impossível de demover na sua senda destrutiva. Ele é tão ou mais complexo que o Homem. Quer-se uma mente colectiva qual colmeia mas até ele quebra as hostes e questiona. Por seu turno, Shinichi enfrenta um dilema pior que o do adolescente normal. O jovem que nunca nada fez de extraordinário, tem agora um braço alienígena com quem comunica telepaticamente. Seria caso para internamento psiquiátrico se contasse a alguém, não? Também a personagem de Ryoko é intrigante. Não será um exagero assumir que se o Homem encontrasse uma nova forma de vida a iria estudar e dissecar em toda a medida para a conhecer. Chocante é a perspectiva de que quem o faz é um Ser invasor e o Homem é a Cobaia.
Desta feita, os efeitos digitais são um bom complemento da estória. Destacam-se, em particular, as sequências em que as pessoas são atacadas pelos parasitas. Mas nota-se, que estamos por fim chegados ao século XXI. Os valores de produção já não podem ser assim-assim. O argumento, o elenco, a cenografia, a trilha sonora, os efeitos inseridos em pós-produção entre outros aspectos técnicos são de qualidade média a superior. Há a nítida sensação que existe uma preocupação em não apostar no menor denominador de satisfação possível e que iria agradar de qualquer modo aos leitores da mangá. Se isto abre portas a que se considere, finalmente, a adaptação da BD como uma fonte viável e rentável de boas obras cinematográficas e, também abre todo um espaço de possibilidades para a atracção de públicos que à partida não teriam o menor interesse em ver estes produtos de Ficção. Três estrelas.

Realização: Takashi Yamazaki
Argumento: Hitoshi Iwaaki (manga), Ryôta Kosawa e Takashi Yamazaki
Shôta Sometani como Shin'ichi Izumi
Eri Fukatsu como Ryôko Tamiya
Ai Hashimoto como Satomi Murano
Sadao Abe como Migi (voz)
Kazuki Kitamura como Takeshi Hirokawa
Masahiro Higashide como Hideo Shimada
Tadanobu Asano como Goto
Miko Yoki como Nobuko Izumi
Jun Kunimura como Detective Hirama

Próximo Filme: "The Invitation" (2015)

domingo, 2 de agosto de 2015

“Sharknado 3: Oh Hell No!”


O canal SyFy fez dos filmes maus uma forma de arte. Onde outros com parcos recursos tentam fazer o melhor possível, o SyFy contínua convicto e orgulhoso na senda do pior possível para o maior número de gargalhadas. Algures ao longo do ainda curto percurso do canal, alguém decidiu apostar na fórmula fascinante dos “filmes tão maus que se tornam bons”. Por mais películas e séries, live-action ou animadas, que veja, recuso-me a acreditar que apenas com uma conta bancária recheada se conseguem concretizar bons projetos. Se existir uma boa estória, o céu é o limite. Mas também não posso afirmar que o inverso não seja verdade. Com uma narrativa ridícula talvez não se realize o filme do ano, se calhar nem no top 100 dos melhores filmes, mas uma experiência cinematográfica agradável está ao alcance de todos.

Adorava ser mosquinha na sala onde os criadores do primeiro “Sharknado” começaram a dar corpo à ideia. O que é que aterroriza mais as pessoas quando se encontram dentro do grande azul? Tubarões. Que fenómenos meteorológicos mais assustam os americanos? Tornados. Que actores reconhecíveis mas desesperados o suficiente para aceitar qualquer papel é que estão disponíveis? Um tipo do “Beverly Hills: 90210”, a loira gira do “American Pie” que destruiu a carreira à conta do álcool e actores de série C ou icónicos que já ninguém contrata.
Um incidente meteorológico que desafia a lógica da ciência gera um tornado com tubarões de diversas espécies no meio de centros populacionais. Encurralados pela intempérie, Fin (Ian Ziering) e amigos tentam salvar a família deste, incluindo a ex-mulher April (Tara Reid). Todos, incluindo aqueles actores por quem tiveram em algum momento uma certa estima, podem ser atacados e mortos do modo mais inventivo e idiota que possam imaginar: cortados ao meio por um tubarão, engolidos por inteiro ou até esmagados por um tubarão baleia. Melhor só mesmo as armas que os actores encontram para derrotar o peixe, como serras eléctricos, machados, bombas… Tudo é possível. A miscelânea de maus efeitos especiais, com uma estória em que nem uma criança de cinco anos acreditaria e actores que representam como se estivessem a ler um teleponto deviam ser ingredientes para o fracasso. Mas o resultado, absurdo e incrível em partes iguais é um sucesso tão estrondoso que hoje em dia, estrelas de cinema e televisão imploram para fazer um cameo na série. O ridículo vende e “Sharknado” nunca se assumiu como nada mais do que isso. Parte da piada advém do facto de todos os envolvidos no projecto saberem que a acção é absurda. Os actores disparam one-liners como quem respira e as referências à cultura popular são quase inquantificáveis. No universo de “Sharknado 3: Oh Hell No!” os tornados com tubarões surgem a qualquer momento para assassinar a vossa personalidade favorita ou mais detestada (Chris Jericho, Matt Lauer, David Hasselhoff, Kendra Wilkinson…) A trequela não é mais do que a repetição dos gags que funcionaram nos filmes que o antecederam, o primeiro focado nas “origens” do fenómeno e estabelecimento da dinâmica familiar, o segundo a aproveitar tudo o que resultou no anterior, em doses ainda mais elevadas. O terceiro amplifica as situações. Num momento temos Fin em Washington D.C. a ser condecorado pelos serviços prestados ao Estado (assassino de tubarões), no outro está, mais uma vez, a caminho da Flórida, onde está a criar mais um “sharknado” para salvar a família. Os filmes com tubarões do SyFy ficam tão bem numa sala de estar com a família, como as pipocas para as salas de cinema. Por isso para quê mexer no que funciona? Duas estrelas.

O melhor:
- O Ridículo

O pior:
- O Ridículo

Realização: Anthony C. Ferrante
Argumento: Thunder Levin
Ian Ziering como Fin Shepard
Tara Reid como April Shepard
Cassie Scerbo como Nova Clarke
Frankie Muniz como Lucas Stevens
Ryan Newman como Claudia Shepard
David Hasselhoff como Gilbert Grayson Shepard
Mark Cuban como President Marcus Robbins
Bo Derek como May Wexler
Blair Fowler como Jess
Michael Winslow como Brian 'Jonesy' Jones
Jack Griffo como Billy
Michelle Beadle como Agent Argyle
Ne-Yo como Agent Devoreaux
Chris Jericho como Bruce the Ride Attendant
Mark McGrath como Martin Brody
Ann Coulter como Vice President Sonia Buck
Melvin Gregg como Chad
Christopher Judge como Lead Agent Vodel

Próximo Filme: "Cult" (Karuto, 2013)

domingo, 24 de maio de 2015

"Ex Machina" (2015)

A célebre frase de Einstein sobre o Homem e o Universo: “Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana, e eu não tenho a certeza acerca do primeiro”, podia ser proferida acerca do pecado da vaidade. Quão vaidoso pode o Homem ser para pensar que a materialização da ideia de inteligência artificial é controlável? O Homem nunca foi ser para se deixar confinar à biologia e ao espaço em que se encontra. Porquê esperar que as regras não se apliquem a todos os outros?

Ex machina é sobre a concretização do sonho e os seus efeitos sobre os primeiros a lidar com esta realidade. A premissa é simples, o significado, esse, ultrapassa a mera aparência. Caleb (Domhnall Gleeson) foi escolhido de entre sabe-se lá quantos milhões, para passar uma semana com Nathan (Oscar Isaac), o esquivo criador do motor de busca mais utilizado no mundo, o Blue Book. Nathan apresenta a Caleb a oportunidade única de conhecer Ava (Alicia Vikander) um robot humanoide e a concretização do conceito de inteligência artificial, isto é, se ela passar numa prova. Escondido num paraíso natural, o centro de pesquisa de Nathan é idílico e misterioso em doses iguais. Sem hipótese de contacto com o mundo exterior (uma das regras do jogo) Caleb, apenas tem a companhia de Nathan, que quando não desaparece para trabalhar ou exercitar o corpo está a beber até cair e da bela Kyoko (Sonoya Mizuno) que não fala inglês. Paredes nuas e quartos sem janelas encontram-se longe da noção de conforto e ele acaba pois por dedicar a maior parte do seu tempo em sessões com Ava ou a observá-la através das câmaras que se encontram em todas as divisões. Os dias passam e as máscaras começam a cair, a decepção instala-se e a fronteira entre o real e o imaginário começa a esbater-se. Cabin Fever?

Diz que não se conhecem bem as pessoas até se viver com elas. No caso de Caleb, os seus comportamentos podem ser estudados mas há um limite para aquilo que os algoritmos nos conseguem contar. Quanto a Nathan o caso será mais clínico. Vaidoso, narcísico e egocêntrico, ele apresenta-se como um daqueles génios que têm a certeza absoluta que são melhores que os outros. Anti-social, por ser incapaz de aceitar opiniões contrárias utiliza o elogio como arma que apenas lhe serve até descobrirem que ele não é tão escrupuloso como se poderia julgar. Entrega-se ao trabalho e aos vícios com a mesma intensidade sendo incapaz de considerar sequer o fracasso. Este não existe, porque falhar não é uma hipótese. E na sua mente, Caleb é o homem ideal para testar a existência de humanidade na sua criação e provar a sua genialidade. Em última análise, é a sua vaidade que dita o desfecho, que é previsível, admitamos. Caleb é o ratinho de laboratório sobre o qual são testadas hipóteses só que ainda não sabe disso. Ele é susceptível a quaisquer estímulos e não consegue encontrar mecanismos, à semelhança de Nathan, para sobreviver a um ambiente adverso. Inteligente e crédulo, deixa-se manipular por quem souber esgrimir melhores argumentos e envolve-se a nível pessoal com o sujeito. Ava torna-se interessante para Caleb, num misto de fascínio científico com empatia pessoal, por oposição a Nathan que é do género de se cansar rapidamente. Para o seu criador, existirá sempre um projecto “depois de Ava”, mas será que ela tem noção disto?

Para os fãs de espectáculo, deste há muito pouco, até ao último terço deste filme de ficção de científica. O argumento de Alex Garland foca-se mais nas implicações morais da existência de seres como Ava no ambiente que os rodeia, do que quaisquer gadgets divertidos que possam surgir no ecrã. Porque o que está na base do seu desenvolvimento é o modo como o exterior irá reagir a esta. Teria de se ser surdo, mudo ou seriamente incapacitado em termos emocionais como Nathan, para ignorar esta questão. Faz recordar estórias como a dos “X-Men” que demonstra a humanidade no seu pior mas ao mesmo tempo tão ela própria, temendo e odiando aquilo que não consegue compreender. Será isto que espera Ava?
É natural a comparação com filmes anteriores como “Artificial Inteligence: AI” (2001) ou “I, Robot” (2004) pela temática e estética e, de onde decerto, Vikander terá ido buscar apontamentos para a sua Ava. No entanto, estes filmes são mais primos afastados de "Ex Machina" do que qualquer jogo de manipulação Hitchcokiano. Do cenário, à cor, ao som, tudo é cuidadosamente ordenado para provocar a mescla de sentimentos confusos que atravessam Caleb: surpresa, fascínio, confusão, piedade, temor… E depois existe uma “simples” máquina que surge sob a aparência de vulnerabilidade de Ava, sugerindo que não é preciso nada tão complexo como a inteligência para fazer o Homem prevaricar. Afinal, Ele é apenas humano. Quatro estrelas e meia.


O melhor:
- O resultado que se conseguiu alcançar com tão pouco
- O elenco fenomenal.
- Desafiante.

O pior:
- Previsibilidade

Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland
Domhnall Gleeson como Caleb
Oscar Isaac como Nathan
Alicia Vikander como Ava
Sonoya Mizuno como Kyoko

Próximo Filme: "Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)

domingo, 14 de dezembro de 2014

"The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)


“Que raio é que acabei de ver?” foi a primeira reacção após o termino do filme. Para meu e vosso mal, esta única frase não serve como crítica de cinema e explica muito pouco pelo que vou forçar-me a tentar extrair um sentido coerente desta película japonesa.
“The Sylvian Experiments” abre com uma cena em que pacientes do que aparenta ser um hospital são submetidos a uma experiência bizarra que envolve brocas, cérebros expostos e choques eléctricos. A cena seguinte revela que afinal estes acontecimentos já sucederam há algum tempo e é agora um casal quem assiste aos eventos sobre a forma de documentário. Talvez seja um daqueles registos históricos um pouco aborrecidos que convém não ser exibidos ao grande público durante muitos e muitos anos, se é que o serão de todo. Eis que Etsuko (Nagisa Takahira), a mulher do casal, se apercebe que as duas filhas menores assistiram (a que parte, não se sabe ainda) ao filme. O que é assim um bocado chato.
Por fim (e calma que não passaram sequer dez minutos), temos um grupo de estanhos que seguem numa carrinha que estaciona num local isolado, junto a uma floresta. O que vão eles fazer perguntam vocês? Snifar umas linhas de coca? Uma orgia? Jogar Trivial Pursuit? Não. Fizeram um pacto suicida. Fixe. Por esta altura já terão dando uma pancada seca na cabeça e estarão a censurar-me pela sobre-exposição. Mas não, ainda não sabem nada. Miyuki (Yuri Nakamura) uma das raparigas que desistiu de vier era uma das crianças que apanharam os pais a ver filmes porcos (sangue e miolos, entenda-se), como tínhamos visto uns minutos antes e agora a outra, Kaori (Mina Fuji) está perturbada com o desaparecimento da irmã e decide armar-se em pseudo detective. Ela fala com a polícia, pernoita na casa dela, contacta com o namorado desta e nos intervalos alucina com luzes brilhantes. A partir daí o significado desvanece-se numa névoa. “The Sylvian Experiments” é pois uma daquelas bestas ambíguas que levantam mais questões do que apresentam respostas e polarizam opiniões. Herdeiro de “Ringu” (1998), “Ju-on” (2000) e outros sucedâneos mais antigos, “The Sylvain Experiments” afirma-se como um animal diferente. A ligação com um objecto como intermediário na ligação entre o mundo espiritual e o dos vivos (uma casa ou um telefone, por exemplo), não é visível mesmo que aborde, como sempre, os temas da vida e sobretudo da morte. Um caminho possível seria a exploração do sulco lateral do cérebro, também conhecido como a fissura de Sylvius, que lhe confere, afinal o titulo anglo-americano mas este território é logo afastado. Entre as piores ideias também não se encontraria o enfoque no sentimento de perda de Kaori trilhando a infância das duas irmãs, a relação difícil com a mãe e o evento que motivou o seu distanciamento. No entanto, até esta linha de pensamento é estéril.
O mais próximo de um vislumbre de significação advém da obsessão de uma médica com a vida após a morte (mini flashback de “Martyrs” de 2008). Se bem que até esta nunca esboça um motivo para a obsessão. O resto do elenco está ainda mais perdido. Miyuki poderá ou não ser uma suicida relutante e Kaori que afirma desejar encontrar a irmã não se parece importar com os avanços amorosos do namorado desta. Como não surgissem respostas, quer do rumo da investigação quer, mediante o recuso à analepse para fornecer algum insight para o desejo mórbido de Miyuki em pôr termo à própria vida, resta uma Kaori apagada. A personagem de Mina Fuji é capaz de ser a personagem feminina mais fraca desde a estreia do primeiro Ringu, já lá vão 16 anos. Isto, a despeito de ela ser apresentada como a única luz num quotidiano cinzento. A realização opta pelos tons cinza no que se refere ao resto do mundo, mas irrompe de cor quando Kaori interage com os outros. Com ela o mundo ganha cor. Mas até aqui os apontamentos de cor são pessimistas, pois a cor privilegiada para enfatizar o contraste é o encarnado, longamente associado em cinema com a morte. Fuji precisa de toda a ajuda que lhe possam dar pois Kaori marca os momentos mais enfadonhos da pelicula. Kaori é uma detective que pouco faz de concreto. Se a início colabora com a polícia, logo se esquece deles perante uma primeira pista. Alia-se de modo cego ao namorado daquela e sem pudor acede às investidas amorosas deste. Ela é ineficaz, ele é ineficaz, a polícia é ineficaz. São todos ineficazes juntos. Um possível drama familiar descamba numa teia difícil de descortinar, com estórias de vampiros, virgens suicidas, recordações de meninice agridoces e alucinações que são atirados a eito para o caldeirão. E o final não é mais que o embuste típico dos cobardes. “The Sylvian Experiments” mais se assemelha à confluência de dois ou 3 argumentos que por si só se calhar tinham mais poder que a amálgama que daí resultou e que carecia de uma edição séria. Lamento não conseguir alcançar na sua total extensão a significação que me era pedida mas confesso que me perdi a meio da aborrecida viagem. Duas estrelas.

Realização: Hiroshi Takahashi
Argumento: Hiroshi Takahashi
Yuri Nakamura como Miyuki
Mina Fuji como Kaori
Nagisa Takahira como Etsuko

Próximo Filme: "The Protector" (Tom Yum Goong, 2005)

domingo, 1 de junho de 2014

"Dark Skies", 2013


Trágico é o dia em que um casal descobre que os seus filhos se sentem acossados e eles não podem fazer nada para os proteger. 

Lacy (Keri Russel) e Daniel (Josh Hamilton) são em muitos aspectos o casal suburbano típico. Têm dois filhos, uma casa e discutem sobre dinheiro. O mais novo, Sam (Kadan Rockett) ainda aceita cegamente o que os pais lhe dizem. É Jesse (Dakota Goyo), o filho mais velho que começam a perder para a adolescência. O facto de Daniel estar desempregado e de Lacy não conseguir vender casas, começa a fazer mossa na relação. A última coisa de necessitam para aumentar a já forte pressão é os filhos serem também eles vítimas. Nada tão vulgar como serem vítimas da economia. Algo bem mais insólito. Entre estórias de um “sandman” contadas pelo petiz e desenhos perturbadores, o casal começa a notar a mudança de lugar de objectos e mobília. De súbito, o que podia ser vida quase idílica transforma-se com o medo do desconhecido. “Dark Skies” trilha os caminhos de um “Poltergeist” (1982) mas sem a boa disposição associada. Se o filme antigo era atemorizante, mas mantinha a uma distância segura a esperança de uma resolução a contentamento de todos. “Dark Skies” pega na mesma premissa, a de uma força invisível que ataca uma família mas dispara numa direcção diferente e bem mais obscura. Os acontecimentos sucedem sobretudo na noite escura, em que a visão é limitada e a imaginação descontrolada. Eis como um filme modesto se torna em algo bem superior. O desenvolvimento dos personagens, em particular, o sentimento de alarmismo que põe em causa a paz da família soa demasiado real. Se um filme é preditor de atitudes estúpidas e é certo que as há, “Dark Skies” não é excepção, de algum modo conseguimos identificar-nos com o transtorno daqueles pais e as acções mais ou menos sensatas. O terror de um casal que não sabe como explicar aos filhos o que se está a passar, de um lado da barricada uma Lacy numa pilha de nervos e do outro um Daniel que pretende manter a fachada de segurança ancorado num cepticismo que até ele, no seu interior, sabe que não o auxiliará em nada, são espantosos de se ver. É numa frente unida e não na dispersão que reside a maior força para enfrentar a ameaça.

“Dark Skies” segue a fórmula tendo apenas uma pequena reviravolta e, quanto a isso, quanto menos lerem e souberem melhor. De referir que a direcção que a estória é surpreendente pela positiva uma vez que não tem sido comum tal abordagem. Os mais exigentes irão de qualquer modo apelidar “Dark Skies” de medíocre mas vai ser sem duvida um docinho para quem procura algo diferente no género de terror sci fi.
Existe o tal personagem, o contador de estórias, como gosto de lhe chamar, que explica aos protagonistas sem noção o que se está a passar. É capaz de ser este o momento, pessoalmente, que fez o copo transbordar no que toca à credibilidade da estória. No entanto, não era inesperado. Esta personagem é tão verdadeira na Hollywood dos anos 80 [“Poltergeist” (1982)] como na do novo milénio [“Insidious” (2010)] e no cinema asiático [“Premonition” (2004)], a regra também é invariavelmente seguida.
“Dark Skies” é um filme de suspense antes de trilhar o terreno da ficção científica e é no primeiro capítulo que se encontra maior potencial. Com poucos ou nenhuns efeitos especiais, a tensão vai amontoando e quando damos por nós, o filme que até nem é pequeno, foi um bom pedaço de tempo desperdiçado. De tal modo, que fica a sensação que se tivesse havido uma maior aposta do estúdio na sua promoção podia ter tido pelo menos sucesso moderado. Três estrelas.

O melhor:
- Keri Russell percorreu um longo caminho desde “Felicity” (1998)
- Direcção inesperada

O Pior:
- Fraca concretização da ideia
- O baixo orçamento
- O marketing (que aliás “spoila” o filme)

Realização: Scott Andrew
Argumento: Scott Andrew
Keri Russel como Lacy Barrett
Josh Hamilton como Daniel Barrett
Dakota Goyo como Jesse Barrett
Kadan Rockett como Sam
J.K. Simmons como Edwin Pollard

Próximo filme: "Hara-Kiri: Death of a Samurai" (Ichimei, 2011)

sábado, 17 de agosto de 2013

É um filme de monstros, duh!


Quando já todos deram a sua opinião (ainda que indesejada) sobre “Pacific Rim”, eis que o Not a Film Critic, surge atrasado e fora de contexto na luta pela 34959434879 crítica. Na verdade, o que motivou este arranque tardio, bem depois do tiro de partida foi o aparecimento obsessivo de algumas vozes condescentes: “o filme é mau e nós vamos explicar-vos porquê”. Que interessa que o público até pudesse gostar do filme? Mas é a velha história, o papel do crítico é: “traçar a luz sobre”, “indicar”, “encaminhar”, sem se entusiasmar demasiado com isso. Porém há alturas em que os iluminados, inspirados pela raiva do sucesso ou pelo facto de o seu objecto de ódio de estimação, constituir antes um grande amor, se esquecem de tecer grande luz ele. A conformidade e racionalidade sobrepõe-se à necessidade de informar aqueles que procuram as suas palavras para conduzir (nunca substituir), as suas opções de visionamento. Segue-se pois um período de decomposição à unidade mais mínima, mais miserável, para comprovar, a ele e aos outros por que é que “Pacific Rim” é mau. É o criticocêntrismo, misto de enfoque excessivo na crítica com o cepticismo advindo de já ter visto muitas, demasiadas obras. Curiosamente, num site com nome jocoso de que poucos parecem dar-se conta e tido como respeitável, o “Rotten Tomatoes”, apresenta uma taxa de aprovação de 71%. O horror. O crítico especialista Bob Grimm do conhecidíssimo “Reno News and reviews” diz tudo: “It’s stupid but I liked it”. Façamos um momento de silêncio para apreciar a imensidão destas palavras. Aqui, seguindo as tendências da moda, laivo infeliz de criatividade, vamos realizar o mesmo processo mas de uma perspectiva inversa. O Not a Film Critic vai provar que o “Pacific Rim” é um bom filme e que possui um grau de profundidade aceitável para que não o considerem acéfalo e sim digno do pagamento de um bilhete de cinema. Se não gostam de “Pacific Rim” porque é básico, então vamos procurar argumentos para provar que o filme é profundo e por conseguinte gostarem dele. Segue-se pois um conjunto de palavras previamente estudadas para conferir uma pseudo-intelectualidade ao conteúdo, que o torne pois, credível.

Sinopse: Do misterioso oceano Pacífico começa a emergir um conjunto de monstros que invadem em vagas sucessivas as áreas costeiras, deixando atrás de si um rasto de destruição. Depois de toda a artilharia conhecida falhar, a humanidade junta-se para iniciar o programa Jaeger, que visa criar robots à escala dos atacantes que sejam capazes de os neutralizar. À beira da derrota final o Marechal Petecoast (Idris Elba), convoca os últimos robots operacionais para um ataque derradeiro.

A defesa da criatura revelou-se mais difícil que o esperado pois, a cada novo dado, surgiam mais duvidas. Imaginem então, num cenário hipotético (o do filme vá), que as nações costeiras começam a ser atacadas por monstros que saem de uma brecha no Pacífico. Como lá chegaram não se sabe. Como nunca tinha ainda sido detectada ainda menos, mas façamos o esforço de acreditar. Por muito interessante que seja a corporização de um holocausto nuclear num monstro por uma nação traumatizada, à la “Godzilla”, a verdade é que para muitos este filme é ainda apenas sobre um monstro que invade uma cidade e destrói tudo o que lhe aparece à frente. Do mesmo modo “Pacific Rim” identifica um inimigo distante, o alienígena, porque as possibilidades são infinitamente mais interessantes. Além de que não existe o perigo (óbvio?) de o transformar numa metáfora qualquer que ofenda alguma nação do planeta.
Divago. Os monstros crescem em número e poder destrutivo. O poder bélico do Homem não está à altura destes seres. Claro, tantos anos a desenvolver armas químicas e nucleares contra atacantes invisíveis, como poderiam ter algo à altura de um monstro gigante? A ideia brilhante surge na forma de um robot gigante, uma “big, mean, fighting machine”, que consegue distrair, afastar das costas e aniquilar (na melhor das hipóteses), os monstros. O robot é operado por uma dupla que luta corpo-a-corpo com a besta, com a assistência de um centro de apoio distante que lhes fornece instruções de localização e atividade do alvo. Isto levanta logo à partida, uma série de questões. Porque é que o combate não é conduzido à distância? A tecnologia para o efeito já existe. Não me vão dizer que não é possível enviar instruções para a máquina realizar a parte mais simples que é seguir indicações de combate. Mais porque terá o Homem de estar envolvido no processo? Será algum complexo de Super-herói? Recorda-me aquela cena marcante do “Independence Day” (1996), em que os pilotos de aviões vários se sacrificam pela grande causa de combater os alienígenas e mandá-los para seja lá onde for que vieram. Já na altura o envio de aviões sem tripulação era uma impossibilidade… É assim tão insensato deixar a perícia do combate para uma entidade programada para tal? Alguns poderão argumentar que a máquina só iria “agir” dentro do que lhe foi “ensinado”, escapando-lhe a capacidade de improviso. Mesmo que esta se revele estritamente necessária por que não deixar o ónus para uma inteligência artificial? Medo que a máquina se rebelasse contra o criador? Hello?! A humanidade está a ser atacada por monstros gigantes e está a perder. A situação não pode ficar pior do que já está. Mas sim, admitamos que se o Homem tem grande capacidade de improviso, também é verdade que ele tem o talento de tomar decisões irreflectidas nos piores momentos possíveis, com consequências terríveis. O erro humano, esse, é um dado adquirido. Significa morte, a perda do combate, perdas de vidas, danos de milhares, já para não falar da perda irrevogável do robot.

A ligação à máquina é um dos aspectos mais interessantes e polémicos do processo. Por muito que del Toro negue a influência (ele deve julgar que os Geeks são el totós), o anime “Neon Genesis Evangelion” (1995) é estranhamente familiar. Os pilotos estão conectados à máquina mediante um sistema neural que lhes permite, entre outras coisas, aceder às mentes uns dos outros, ver as suas memórias. Eles atingem um nível de sintonia tal, que agem como um só. Isto esclarece, creio eu, leiga nestas coisas de funcionamento do cérebro (e, infelizmente, não tenho aqui um António Damásio ao lado para me explicar), porque é que um dos pilotos comanda as operações. Duas mentes não podem desatar a mandar informações díspares ao mesmo tempo, uma terá forçosamente de liderar. Portanto temos que o Herc Hansen lidera a equipa de pai e filho do robot Stryker Eureka, Yancy Becket a equipa de irmãos do "Gipsy Danger" e assim sucessivamente, numa espécie de mente dominante/mente dominada que, em qualquer dos casos, não abona nada a favor das mentes passivas. Há toda uma série de questões em torno do habitáculo para sobrevivência em ambientes hostis: espaço e oceano. Os robots adaptam-se às duas situações com uma facilidade surpreendente. Não se admirem se no futuro se encontrar um “Pacific Rim 2: Space Invaders” (não me julguem).

domingo, 14 de abril de 2013

"Gantz" (Gantz: Zenpen, 2010)



Cenário: Acordam numa sala com pessoal que não conhecem de lado nenhum e com uma enorme bola preta onde surge uma mensagem que diz que 1) Existem aliens e 2) têm vinte minutos para matar o alien cuja imagem surge no ecrã. A primeira reacção deve ser qualquer coisa entre um: “tenho de largar as drogas!” e beliscar-se para acordar. Mas e se não acordarem e chegarem à conclusão que o cenário é real, que não é uma brincadeira de mau gosto e que se querem permanecer vivos têm de atirar a matar? Que tal isto para programa de diversão nocturna? Kei Kurono (Ninomyia Kazunaru) e Masaru Kato (Kenichi Matsuyama) são dois amigos que morrem atropelados por um comboio após tentar salvar um homem bêbado que caiu nos carris do metro. A bola negra transporta-os para a sala e dá-lhes uma nova oportunidade mas não está longe de ser um pacto com o diabo. A nova vida tem um preço: têm de matar aliens e a cada nova morte recebem pontos. A recompensa por atingir os 100 pontos é a possibilidade de esquecer o que passaram e não mais voltar àquela sala ou ressuscitar um dos muitos que já morreram antes deles a combater as criaturas invasoras. Aparte o segredo da sala que lhes irá, eventualmente, custar a vida (admitamos que os aliens são cada vez mais rápidos, furiosos e maiores), têm uma vida e entes queridos que não querem deixar sozinhos. Kato tem um irmão mais novo que não quer deixar entregue a assistentes sociais e Kei torna-se alvo das cada vez mais óbvias investidas românticas de Tae Kojima (Yuriko Yoshikata).
Assim a meios que a morte pode ser um impedimento no reatar de ligações familiares e românticas. Sobretudo, no que diz respeito a Kato e Kishimoto (Natsuna) que se conhecem na sala do Gantz.
“Gantz” é um dos melhores filmes resultantes de adaptações de anime e mangá, dos últimos anos. Se não conhecerem a mangá ou o anime, como era o meu caso, mesmo assim irão sentir que não estão a perder informação preciosa. “Gantz” tenta apelar ao máximo número de faixas etárias possível, sacrificando pelo caminho, carradas de nudez e de sexo. Também o protagonista deixa de ser um tarado sexual para passar a ser apenas um sujeitinho arrogante, com manias de grandeza a quem é ensinada uma grande lição. É uma adaptação digna de quem conhece bem o público-alvo.
As cenas de acção, nomeadamente, de perseguição e combate aos extra-terrestres são as mais interessantes e, se quisermos dar largas ao pequeno malvado que existe dentro de nós, pode-se sempre fazer apostas sobre quem chegará ao fim de mais uma caçada. As cenas de acção são tão competentes que a série com actores reais chegar ao pequeno ecrã não seria de menosprezar. Imaginem se a cada novo episódio tivessem um grupo de cidadãos “destacados” para matar o alien du jour? Como é óbvio a perfeição não existe e as cenas iniciais começam por ser irritantes já que os escolhidos são tão incompetentes que cometem todos os erros possíveis para se deixar ferir, matar ou negligentes a ponto de deixar colegas morrer. “Gantz” não está isento de dilemas morais. Matar um ser vivo, mesmo que este não pertença ao mundo como o conhecemos apresenta-se um problema para a maioria dos escolhidos. E não é como se tivessem grande alternativa: se quiserem viver têm de matar ou esconder-se bem. Temo que esta última opção não deixe de acarretar um alto grau de risco. Se calhar poderíamos alegar preocupações humanistas e que a morte seria um fim mais digno mas creio que isso não estaria longe da hipocrisia. Além disso, há pais, irmãos, namoradas…quem consegue resistir ao apelo da vida? E depois há os psicopatas e aqueles cuja ilusão de poder os faz regredir aos estádios mais primários da existência humana: vale tudo para não sobreviver. Mas ao invés de se restringir a uma luta selvática pela sobrevivência “Gantz” “agarra” as personagens principais como Kei e Kato, jovens imaturos e que pouco sabem da vida e fá-los crescer, tornar-se os heróis que nunca quiseram ser e reconhecidos por poucos, até há muito provavelmente breve morte. Nesse sentido, “Gantz” não é apenas um filme sci-fi de acção desmiolado. Obrigada, as audiências do século XXI agradecem. Três estrelas e meia.


Realização: Shinsuke Kato
Argumento: Yosuke Watanabe e Hiroyia Oku (autor da banda-desenhada)
Ninomyia Kazunari como Kei Kurono
Kenichi Matsuyama como Masaru Kato
Yuriko Yoshikata como Tae Kojima
Natsuna como Megumi Kishimoto
Taguchi Tomorowo como Suzuki Yoshikazu
Kensuke Chisaka como Ayumu Kato


Próximo Filme: "Secret Sunday" (9 wat, 2008)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

"Casshern" (Kasshan, 2004)


Se sobreviveram aos primeiros minutos de filme, os meus parabéns. Pertencem àquele grupo especial de pessoas com elevado grau de tolerância pelo que é “estranho”. “Casshern” é a adaptação de um anime dos anos 70, que cresce sobre o material original, em suma um super-herói e lhe acrescenta temas modernos como a destruição da biodiversidade pelo ser humano, a espiral de dor e morte como resultados inevitáveis da guerra, a desconfiança pelo que são as experiências laboratoriais em seres vivos e a inteligência artificial. E se isto já não parece pouco, polvilhe-se um pouco de romance para agradar a todos. Definitivamente, as palavras fácil e linear não se aplicam em “Casshern”. Agora, esplendor visual…
Com um orçamento de 6,6 milhões de dólares, Kiriya Kazuaki fez todo o tipo de experiências com o seu rato de laboratório, “Casshern”. Não há um momento aborrecido em termos estéticos nesta película: da cinematográfica, aos cenários e guarda-roupa, há sempre bastante para onde olhar. Ora, se esse truque é capaz de resultar em desviar o foco de atenção dos defeitos, não é menos verdade que tal nível de detalhe não é aconselhável com pessoas com deficit de atenção. Mas passemos à estória… Tetsuya (Yusuke Iseya) é um daqueles homens que não têm grande sorte na vida: o pai enlouqueceu, a mãe foi raptada e, mesmo antes de se casar com a bela Luna (Kumiko Aso) foi morto na guerra. Ah, esqueci-me de mencionar que ele morreu? Sim, o protagonista morre no início do filme. Não têm com que se preocupar, que o pai dele é um génio que criou as “neo células”, que lhe concedem o dom de uma nova vida e uma série de outros poderes. Antes de Tetsuya a experiência é testada em cadáveres cujo regresso à vida assusta os militares e conduz a um massacre da centena de mutantes. Boa. Como se não bastasse a vida no planeta Terra estar assolada por males como a Guerra, a poluição e as máquinas a revoltar-se contra os seus criadores, agora, existem também, mutantes assassinos. Tetsuya pertence a esta nova estirpe mas permanece ligado à Terra pelo mais provável dos sentimentos: o amor pela noiva que deixou. Ele torna-se Casshern, um Tetsuya melhorado que irá salvar a mãe das garras dos seus captores e no final ficar com a rapariga da sua vida. Pelo menos é esse o plano. Ou esboço de plano que o pobre Casshern, durante mais de metade do filme não sabe o que está a fazer. Assim como Luna, que surge sempre bela e um pouco alheada do que se passa à sua volta. Ela passeia-se pelo ecrã, conferindo mais um motivo de apreciação estética que uma personagem mais interessante que, digamos, um mosquito.
“Casshern” é sobretudo a estória do nascimento de um herói. Assistimos a relances de uma vida pré-guerra, à morte, segundo nascimento, a tomada de consciência de um valor sobre-humano completo com uma armadura especial e meia dúzia de vilões com agendas mais ou menos maléficas. E para que não subsistam dúvidas sobre quem são os vilões, a narrativa está pejada de simbologia nazi e da antiga URSS. Porque pronto, há alturas para ser subtil e outras para vago. Se há grande motivo de interesse, este não se encontra na narrativa. As possibilidades que o argumento apresenta são tão descabidas e exigem uma enorme tolerância e uma grande dose de imaginação que a recompensa está mesmo na imagem. Foram utilizadas diversas técnicas incluindo o recurso a técnicas de animação, sendo que os momentos de acção estão relegados, sobretudo para cores como o preto e o branco. Eis que saltamos de cena e temos cores em abundância, verdadeiro atentado aos epilépticos. São camadas e camadas de estilos, que se desdobram em cenas díspares das anteriores, com a coesão a residir sobre os ombros dos actores, cenários e uma banda-sonora que acredito, continuará a ser identificável por muitos anos. “Casshern” é um sonho artístico, uma obra de arte onde o estilo vence sobre o conteúdo. Mas mais do que lamentar uma estória que sofreu em detrimento dos efeitos especiais, urge reflectir sobre as fronteiras do cinema. Se elas praticamente já não existem, se quase tudo é possível por que é que tanto filme sofre uma desinspiração absoluta? Duas estrelas e meia.
Realização: Kiriya Kazuaki
Argumento: Kiriya Kazuaki, Dai Sato e Shotaro Suga
Yusuke Iseya como Tetsuya Azuma/Casshern
Kumiko Aso como Luna
Akira Terao como Kotaro Azuma
Kanako Higuchi como Midori Azuma
Toshiaki Karasawa como Burai

Próximo Filme: "Hello Ghost" (Hellowoo goseuteu, 2010)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Space Battleship Yamato, (Supesu Batorushippu Yamato, 2010)


Ah o espaço, alvo de ínfimas versões que pertencem aos sonhos molhados dos fãs mais ardentes da teoria de que existem seres inteligentes nas estrelas. Em quaisquer versões “eles” são mais inteligentes, embora, seja sempre o Homem que acaba por resolver os conflitos iniciados pelos alienígenas e a ter o ónus da superioridade moral. Vá-se lá perceber porquê. “Space Battleship Yamato” baseia-se na série anime dos anos 70 (74-75), que com apenas 26 episódios, conquistou um espaço no imaginário japonês e mundial, de tal modo, que ao longo dos anos proliferou o mercado de novas séries, filmes para TV, mangá e todo o tipo de merchandising que possam imaginar. Os ocidentais são capazes de reconhecer a série pelo nome “Star Blazers”. Se me pedissem para classificar “Space Battleship Yamato” diria que é um híbrido de “Star Trek”, “Battlestar Galactica” e “Star Wars”.
A versão japonesa possui um elenco fixo de notáveis, uma tripulação facilmente reconhecível e com a qual o fã desenvolve uma relação de quase dependência como sucedia com “Star Trek” e “Battlestar Galactica”. É muito complicado “matar” uma personagem sob pena de sofrerem a fúria dos fãs. Mas as semelhanças não se ficam por aí, focando-se num poderoso comandante, confiante na sua equipa, de raciocínio em tudo superior, side-kicks robóticos e personagens-tipo facilmente identificáveis entre as séries. Onde Susumu Kodai é James T. Kirk (William Shatner), Yuki Mori corresponde a uma Starbuck (Katee Sackoff). E onde o sentimento de aventura é apurado, tendo por pano de fundo paisagens e planos ofegantes, as relações humanas não podiam ser menos exploradas à boa maneira do subgénero de ficção científica tão odiado, space opera, qual “Star Wars”.
“Space Battleship Yamato” apresenta uma humanidade em decadência, forçada a viver debaixo de terra para escapar à radiação, que aposta numa viagem final da única nave de combate que resistiu ao ataque dos gamilas, uma espécie alienígena apostada em levá-la à extinção. A “Yamato”, comandada pela mão de ferro do experiente e respeitado Capitão Okita (Tsutomu Yamazaki), deixa a Terra com uma pista, uma capsula com as coordenadas para o planeta Iskandar, a base da espécie invasora. Quem sabe o que poderão encontrar por lá. Entre a tripulação encontra-se o cabeça-quente Susumu Kodai (Takuya Kimura) que acredita que o Capitão Okita é o culpado pela morte do seu irmão Mamoru e a temperamental Yuki Mori (Meisa Kuroki). Se a perspectiva do que se encontra no final da viagem é fascinante, o caminho para lá chegar é uma estopada. Na ideia de contentar os fãs da série que atravessa várias décadas, o argumentista demonstrou voracidade tremenda no sentido de apresentar todos os personagens queridos. Alguns não possuem mais do que segundos de ecrã e apenas servem para confundir quem não está integrado naquele universo. Meia dúzia de personagens inconsequentes desviam o foco da acção principal e não auxiliam o desenvolvimento dos que realmente conduzem o filme. Isso explica que em pouco mais de 130 minutos de filme, Susumu passe de intempestivo, a moderado e, finalmente, o herói que todos sabiam que ele tinha dentro dele, sem que exista um grande motivo para tal. Pior sorte tem a adorável Meisa Kuroki, cuja personagem parece uma feminista tal como é percepcionada por um machista. Eu explico melhor. Ela é toda fogosa e combativa porque tem falta de sexo. A sério. A partir do momento em que enceta um romance toda ela é cores rosadas e uma ternura que, minutos atrás, não imaginávamos que tivesse.
A acção é o que seria de esperar de um super-orçamento e é nas cenas de combate espacial entre os caças terrestres e as naves Gamilas que se encontram os momentos mais divertidos. Os miúdos, em particular, acharão um mimo. Apenas não esperem um argumento brilhante. O objectivo é agradar aos velhos conhecidos sem alienar novos espectadores. Mas, eu, céptica, aqui me confesso: por regra não apoio a existência de sequelas porque raramente fazem sentido. Em “Space Battleship Yamato”, com qualidade técnica e bons actores que tão-somente tinham papéis subdesenvolvidos, mais valia tem partido a estória em dois ou três filmes para explorar com calma o material que tinham entre mãos. Duas estrelas e meia.

Realização: Takashi Yamazaki
Argumento: Shimako Sato, Yoshinobu Nishizaki (estória) e Leiji Matsumoto (mangá)
Takuya Kimura como Susumu Kodai
Meisa Kuroki  como Yuki Mori
Tsutomu Yamazaki como Capitão Jūzō Okita
Toshirō Yanagiba como Shirō Sanada
Yusuke Santamaria como Yuji Oda
Naoto Ogata como Daisuke Shima, chief navigator
Reiko Takashima como Dra. Sado

PS: Créditos Finais - música pirosa do Steven Tyler. Mau flashback de 1998.


Próximo Filme: "The Road", 2011

domingo, 18 de novembro de 2012

Red Eagle (2010)


Corria o ano de 1970 quando Mitr Chaibancha galã e estrela máxima do cinema tailandês se preparava para finalizar a película “Golden Eagle” (Insee Thong). A última cena envolvia Mitr saltar para a escada de um helicóptero que depois iria desaparecer poeticamente no horizonte… Mitr falhou o salto, agarrou o degrau o errado e o helicóptero, não se apercebendo do erro aumentou de altitude. A dada altura o actor perdeu as forças e caiu desamparado para a sua morte. A realidade chocou os fãs de ficção.
Red Eagle, traduzindo, Águia Vermelha (fãs do Benfica manifestam-se em 3, 2, 1), pode ser comparado aos heróis ocidentais como Batman. Também ele tem um animal como símbolo e tem sérios problemas do foro psiquiátrico. Esteve na guerra onde o seu esquadrão foi todo dizimado. De regresso à sociedade, onde não se consegue integrar por via do stress pós-traumático, Rom (Ananda Everingham), passa os dias entre a injecção de morfina para travar as dores que sente das sequelas de tantas e tantas lutas em que se envolvam, na tentativa de combater a injustiça. Rom é particularmente feroz na luta contra os políticos corruptos e não perdoa. Ao contrário de outros heróis que combatem os criminosos, sofrendo inúmeras mazelas e perdas em termos pessoais, para os entregar às autoridades, Rom não dá segundas oportunidades. Red Eagle apenas encarna a roupagem típica, ele não é comum. Os seus inimigos, inimigos do povo, têm um final rápido e nada fácil. Eles sofrem indignidades, pelas indignidades que cometeram em vida. Eles não têm direito a perdão. A corrupção está enraizada, é recorrente, é o primeiro recurso e o melhor modo de obter o que a ambição pessoal deseja alcançar, nem que seja tornar-se primeiro-ministro, ainda que custe relações e signifique abdicar dos princípios. Então, como não vêem os outros o que o Red Eagle vê? A corrupção é transversal, mas aos corruptos nada sucede. Logo, terá de existir um sistema concebido para os proteger. O que é que o Red Eagle pode fazer quanto a isso? Matá-los a todos? Ainda que Red Eagle livre o mundo de um monstro, muitos virão tomar-lhe o lugar. A mudança só virá quando os títulos de jornais tratarem uniformemente Red Eagle como o herói para um mundo melhor. Por que não há outra hipótese e a morte dos detractores é o único modo de incutir medo aos seus cúmplices e tornar a população mais desafiadora e inquisidora dos seus actos. Talvez o facto de usar uma máscara, o estilo brutal e o cartão-de-visita o tornem demasiado “herói de banda-desenhada” para ser verdade. É aí que entra Wassana (Yarinda Boonnak), é uma menina rica feita activista que tenta transmitir a mensagem de que populações estão a ser alvo de repressão para a construção de uma central nuclear. Mais, o Governo também se lançou numa campanha de contra-informação e repressão física, fazendo os activistas passar por vilões, uma cambada de vândalos sem causa que o que pretende é desestabilizar o Estado e privar o povo tailandês de energia essencial. Wassana é a ex-noiva desencantada do 1º ministro Direk (Pornwut Sarasin), que foi eleito graças à luta anti-nuclar para logo se retratar assim que chegou ao tão desejado cargo. É tão fácil encontrar paralelos noutros países que é vergonhoso. Cedo, Rom se embrenha nesta luta, muito por culpa da bela Wassana com quem tem um passado e é apenas uma questão de tempo até que entre em rota de colisão com o líder político. Entretanto e à melhor maneira dos comics, surge uma associação criminosa denominada Matulee determinada a eliminá-lo.
Em termos de narrativa, afirmar que a estória de “Red Eagle” se baseia na conjuntura política e em conflitos reais é constatar o óbvio. Infelizmente, a mensagem perde-se na tentativa de tornar “Red Eagle” apelativo a gregos e troianos (estive tentada a dizer israelitas e palestinianos mas por estas alturas achei por bem ficar-me pelo politicamente correcto), perdendo a identidade tailandesa pelo meio. O filme é caótico em termos imagéticos. Entre a utilização excessiva do ecrã verde e product placement é impossível considerar seriamente “Red Eagle”. Outro dos problemas do filme é a edição. Temos 130 minutos de filme mas precisávamos assim tanto deles? Não é uma questão de duração mas de edição. Há bastantes cenas dispensáveis e na transição entre estas há uma variação de qualidade. Diria mesmo que há uma desconexão entre o set de filmagens e a sala de edição. A simplicidade inerente à estética do cinema tailandês choca com o ruído das tonalidades hollywoodescas. “Red Eagle” contém inserção de publicidade descarada, desde cigarros a bebidas energéticas. Mas é nos momentos em que parece que o realizador manteve o controlo da obra nas suas mãos que resultam os momentos mais insólitos como uma luta entre o herói e um assassino enviado para o matar sobre um outdoor de uma companhia de seguros de vida ou quando um gangster prestes a assassinar um polícia tropeça e dá um trambolhão! O filme sofre com este conflito interno. O argumento não sabe para onde quer ir e, em termos de imagem a ideia que fica gravada na mente é exactamente essa, da falta de direcção. Esta questão é ainda mais evidente nos actores, mas sobretudo em Ananda Everingham, um bom actor que não tem oportunidade de demonstrar as suas qualidades, num papel muito pouco esmiuçado. No final, um toque comovente, a merecida homenagem a Mitr Chaibancha, mesmo que o filme não o mereça. Duas estrelas.

Realização: Wisit Sasanatieng
Argumento: Kongkiat Khomsiri e Yosapong Polsap
Ananda Everingham como Rom / Red Eagle
Yarinda Boonnak  como Wassana
Pornwut Sarasin como Direk
Wannasingh Prasertkul como Chart

Próximo Filme: A designar

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