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domingo, 11 de junho de 2017

Headshot, 2016


O cinema indonésio tem estado sobre a mira do público internacional, tendo conseguido exportar – com algum sucesso admita-se –, actores como Iko Uwais, Yayan Ruhian, Julie Estelle ou Joe Taslim. Também a dupla Stamboel/Tjahjanto, mais conhecida como os “Irmãos Mo”, não são novatos nestas lides desde que chamaram a atenção pelo fantástico “Macabre” (2009), uma espécie de “The Texas Chain saw Massacre” (1973) dos tempos modernos, tendo-se destacado por terem criado algumas das intervenções mais criativas e interessantes em antologias de cinema a oeste, da 2ª década do novo milénio (“ABC’s of Death”, 2012 e “V/H/S/2”, 2013). A pressão para gerar novos sucessos de bilheteira deve ser tão grande quanto a sentida por Ishmael (Iko Uwais), o personagem principal de “Headshot” que encontra mauzões em cada esquina, os quais chacina com brutalidade, minuto após minuto de acção frenética e um pouco louca. A movê-lo está um dos clichés mais utilizados, irritantes e cansativos em cinema ou telenovela. O pobrezinho sofre de amnésia. Encontrado numa praia como morto, ele é assistido pela Dra. Ailin (Chelsea Islan), a personagem mais desesperada por afeição que tenho visto nos últimos tempos. Que importa que ele tenha uma bala na cabeça? Qual é o mal de alguém ter tentado assassiná-lo? Pelos vistos o desconhecido misterioso é atraente e, se for bonzinho, como aparenta, uma vez que depende da boa vontade de estranhos já que não se recorda do próprio nome, deverá ser fácil amestrá-lo até se tornar o namorado perfeito. Ela até lhe dá o nome do personagem principal do livro que está a ler naquele instante: Ishmael um marinheiro resgatado com vida após o encontro funesto do seu barco com a baleia Moby Dick. Tão romântico. Até que ele é visto pelos mauzões que lhe espetaram com uma bala na cabeça. Eles pertencem a uma seita secreta de assassinos e gostariam que desta vez ele ficasse morto. Ailin acaba por ser raptada e Ishmael toma a decisão de a resgatar, mesmo que isso implique descobrir factos menos abonatórios sobre o seu caracter pré-amnésia.

Para este filme os irmãos Mo vão reciclam estórias clássicas do cinema de acção e vão repescar estórias do próprio corpo de trabalho, de que “Killers” (2014) ou “V/H/S/2” constituem um bom exemplo. Existe um entendimento perfeito de que o argumento é secundário. “Heashot” poderá afugentar alguns cinéfilos devido à sua matriz base que é repetitiva. As suas qualidades encontram-se antes nos momentos de combate corpo a corpo, coreografados pelo próprio Uwais e intercalados com acção bélica que faz recordar “The Raid 2” (2014). A título de exemplo, um dos instantes que ficarão para a estória envolvem um autocarro cheio de inocentes e armas. Muitas Armas. O filme tem ainda alguns repetentes tais como Julie Estelle e Very Tri Yulisman que retomam os papéis de “The Raid 2” “Rapariga do Martelo” e “Rapaz do Taco de Baseball”, perdão, como “Femme fatale do facalhão” e o “Assassino Hipster”. Quem pode julgar os “manos Mo” por estas brincadeiras? Eles sabem o que o público quer ver? Os actores é que poderão se cansar de interpretar o mesmo saco de pancada vezes sem conta. As cenas de luta são longas e extenuantes, exageradas e irrealistas mas que ninguém diga que não têm estilo ou não ficam na memória. Morte por facalhão, catana, metralhadora são o pouco nosso de cada dia. Apenas o estilo shaky cam acaba por confundir mais em alguns momentos do que a compreender a acção dura que se vê no ecrã.

O cinema de acção indonésio apresenta-se como a solução para colmatar o vazio entre a acção ultra-violenta mas estilizada do cinema coreano e o wire fu de uma Hong Kong que parece ter-se esquecido dos seus “Hard Boiled” ou “A Better Tomorrow”. Falta apenas encontrar um meio-termo entre a sofreguidão das cenas de acção e a exigência de um argumento que apresente uma estória nova que valha a pena contar através deste estilo tão peculiar. Duas estrelas.

Realização: Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto
Argumento: Timo Tjahjanto
Iko Uwais como Ishmael
Chelsea Islan como Ailin
Sunny Pang como Lee
Very Tri Yulisman como Besi
Julie Estelle como Rika
Yayu A.W. Unru como Romli

Próximo filme: Get Out, 2017

domingo, 25 de janeiro de 2015

"Macabre" (Rumah Darah, 2009)

Grupo de amigos dá uma boleia a uma mocinha. O que poderia correr mal?

Estreado em Portugal por ocasião do MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa em 2009, que se encontrava ainda apenas na 3.ª Edição, “Macabre” apresentou-se como uma das melhores obras saídas do prolífico cinema indonésio nesse ano. 

Em “Macabre” um grupo de amigos segue de carro para Jacarta para se despedir de dois deles: o casal Adjie (Ario Bayu) e Astrid (Sigi Wimala) grávida de 8 meses, que vão começar um novo projecto de vida na Austrália. A meio da viagem efectuam um desvio para convencer Ladya (Julie Estelle) a irmã de Adjie a colocar de parte as suas divergências antes de ele partir em definitivo para um novo país. O plano sofre um revés quando se deparam com Maya (Imelda Therrine) que lhes pede ajuda. Ela diz ter sido roubada e não tem boleia para casa. À chuva e na noite escura, o grupo oferece-se para a levar a casa. Agradecendo a generosidade, a jovem convida-os a tomar uma refeição com a família dela e refugiar-se do mau tempo. Apesar da relutância de alguns, eles acabam por aceitar e entrar. Lá dentro esperam-nos Dara (Shareefa Daanish) a mãe de Maya que parece não ter um dia mais do que 30 anos e os dois irmãos desta. Existe algo de desconcertante naquela família, algo que descobrirão muito em breve. É que a família de Maya gostou tanto deles, em particular da expectante Astrid que não tencionam deixá-los sair de casa… Nunca. Abriu a época de caça e os hóspedes são as presas!

Se “Macabre” parece a repetição de tantos outros slashers é porque não existe qualquer elemento surpresa. Os personagens são conhecidos na maior parte por constituírem os já habituais estereótipos do género como a sobrevivente final, o bom rapaz e o pervertido. Os vilões são maquiavélicos, aterrorizantes e são tão maus quanto seria de esperar de uma família de canibais! Eles gizam um plano para atrair as suas vítimas e quando a mãe Dara, qual chefe de um gangue organizado dá ordem para perseguir, atacar e dominar, vale tudo. A panóplia de armas utilizadas inclui armas como espadas samurai, serras eléctricas (uma homenagem a “The Texas Chainsaw Massacre” de 1974), jarros e tudo o mais que esteja espalhado pela casa que possa ser utilizado como arma mortal. E são ultra-resistentes. Para os eliminar é preciso nada menos que esfaquear, esquartejar, triturar, queimar, enforcar…

O cinema há muito que demonstrou que uma mulher grávida não está livre de perigo, vejam por exemplo “Inside” (2007) ou “Dream Home” (2010) e a pobre Astrid é prova disso mesmo com uma das cenas mais demoradas a deter-se na sua luta para defender a criança por nascer. Já Ladya é uma versão anterior da desenrascada Erin de “You’re Next” (2011), menos eficaz e mais dependente da sorte e dos seus amigos. Tanto ela como Arifin Putra que interpreta o psicopata Adam foram recentemente catapultados para a fama em “The Raid 2: Berandal” (2014) mas é Shareefa Daanish que rouba todas as atenções. Alguns poderão considerar a sua representação exagerada mas não irão ficar indiferentes.
Com olhos grandes, esbugalhados que sugerem a possibilidade de esta penetrar na alma das suas vítimas e extrair os pensamentos e desejos mais profundos da sua vítima e a pronunciação lenta, ponderada das palavras, Dara é inquietante. Aliás, cada aspecto desta personagem soa a uma nota dissonante logo a partir do momento em que a patriarca parece partilhar a idade da prole; vestimenta, cabelo e trejeitos de quem parece anunciar um estilo de vida antiquado; um olhar que não pestaneja e toda uma frieza e atitudes gélidas que sendo suspeitas, fariam visitantes “normais” atalhar caminho assim que tivessem oportunidade. Quando é apresentada a história da família, todos esses elementos desconcertantes encaixam no puzzle, incluindo as mais diversas peças e mobiliário espalhados pela casa.
“Macabre” é um autêntico banho de sangue. Imagino que se aquela casa tivesse sido palco de um massacre real, as pessoas que fazem a limpeza de tais cenários teriam muito trabalho pela frente. “Macabre” vem da Indonésia para provar que a tradição do slasher, ainda que possamos enumerar os lugares-comuns, continua a funcionar. Três estrelas.

Realização: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Argumento: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Shareefa Daanish como Dara
Julie Estelle como Ladya
Ario Bayu como Adjie
Sigi Wimala como Astrid
Arifin Putra como Adam
Daniel Mananta como Jimmy
Dendy Subangil como Eko
Imelda Therinne como Maya
Mike Muliadro como Alam
Ruly Lubis como Arman
Felicia A. Sumarauw como Bebé
Risdo Alaro Martondang como Sersan Syarief
Cansirano como Sony Samba
Roni Kribs como Petrus

Próximo Filme: "Blood Letter" (Thien Menh Anh Hung, 2012)

domingo, 5 de outubro de 2014

"The Chanting" (Kuntilanak, 2006)


Antes de se tornar a “Hammer Girl”, a assassina icónica dos óculos de sol ultra estilosos que transportava dois martelos mortíferos em “The Raid 2: Berandal” (2014), Julie Estelle era a miúda sensação dos filmes de terror indonésios. Em 2006, ela participou em “Kuntilanak”, um dos dois filmes e meio de cariz sobrenatural cque ostentam uma qualidade razoável e em “Macabre” (2009), onde encarnou a “final girl” capaz de escapar a uma família de canibais sedentos de sangue.

Em “Kuntilanak” Estelle interpreta Samantha, uma rapariga que após a morte da mãe foge de casa para escapar às investidas amorosas do padrasto. Sam recusa-se a aceitar o apoio do namorado Agung (Evan Sanders) que não esteve ao lado dela quando a mãe dela morreu e procura refúgio numa residencial de estudantes. Esta é gerida por Yanti (Lita Soewardi) uma mulher supersticiosa que lhe explica as regras do local e lhe conta como o edifício teve um incêndio há muitos anos, sendo propriedade, nos dias de hoje, da elusiva Madame Mangkujiwo (Alice Iskak). Segundo a tradição local, a árvore em frente à residência é habitada por um demónio, motivo pelo qual, a população evita passar ali, à excepção de jovens estudantes com parcos recursos e desconhecimento da História. A acreditar no folclore local, o monstro pode ser convocado através de um encantamento que procede a entoar. Se ele aparecer e o som parecer próximo é por que na verdade ele encontra-se ainda longe. Se, por outro lado, se ouvir uma gargalhada distante ele encontra-se mais perto do que se poderia pensar. Claro que tudo não passa de um conto de gente supersticiosa. No entanto, após esta interacção Sam nunca mais é a mesma. Ela fica fascinada pelo espelho que possui no seu novo quarto que aparenta possuir poderes místicos e mostra um comportamento irascível crescente. Em simultâneo o corpo dela inicia a demonstrar sequelas físicas. Em breve, aqueles que a maltratam começam a surgir mortos. Será que a dor que sente a está a transformar num monstro? Será tudo obra de uma mente bem mais maléfica ligada ao mundo dos espíritos?

No totoloto que é o cinema de terror indonésio, “Kuntilanak” é uma das experiências mais entusiasmantes e seguras. Uma tendência da indústria e, em particular, no género de terror é a utilização exagerada da técnica da subexposição. Esta serve uma dupla função: utilizar a ausência de luz como modo de acentuar o sentimento de desconforto e, o mais provável, tentar disfarçar na ausência de cor, as deficiências do orçamento que se denotam por demais nos cenários e “efeitos especiais”.  Em “Kuntilanak” são evidentes os dois lados da moeda. Durante o dia é utilizada a sobreexposição que acaba por ter o mesmo efeito de disfarçar eventuais deficiências e de conferir uma atmosfera de desconforto genuíno e não apenas ensaiado. “Kuntilanak” continua a apostar na velha fórmula de jovens na maioria bonitos e um pouco parvos, para quando estes encontrarem o fado, não termos pena excessiva deles. O que lhes acontece é menos importante que os demónios de Samantha. É em Estelle que se encontra o potencial e na tragédia da personagem uma estória mais do que vaga. A morte da mãe dela, a relação péssima com o namorado e a sugestão de abuso por parte do padrasto são material muito mais interessante do que criaturas rastejantes de cabelos compridos. A mente perturbada aliada às estórias contadas para assustar a pequena e adultos em semelhante medida constituem o ingrediente ideal. A ideia de que Sam finalmente quebra perante a pressão e ataca em todas as direcções é tentadora mas ainda assim uma improbabilidade. Só que à época, Julie Estelle era ainda uma actriz verde e o argumento demasiado óbvio. Talvez por isso é que quando Sam entoa o encantamento pela primeira vez a imagem parece ridícula ao invés de desconcertante. Afinal, “Kuntilanak” continua a constituir um mistério sobrenatural. Três estrelas.

Realização: Rizal Mantovani
Argumento: Ve Handojo e Rizal Mantovani
Julie Estelle como Samantha
Evan Sanders como Agung
Ratu Felisha como Dinda
Alice Iskak como Madame Mangkujiwo
Lita Soewardi como Yanti
Ibnu Jamil como Iwank

Próximo Filme: "Invitation Only" (Jue ming pai dui, 2009)

domingo, 31 de agosto de 2014

"The Raid 2: Berandal", 2014


Em 2011 dava-se um dos primeiros momentos "Unicórnio Cor-de-rosa", entenda-se "todos sabem que não existe mas todos esperam secretamente que exista" e estreava "The Raid: Redemption". O melhor de filme de acção da última década disseram alguns, quiçá de sempre, disseram outros. Apresentava uma arte marcial inédita (silat) e adrenalina como há muito não se via. A sinopse era algo tão simples como: uma equipa SWAT que entra num edifício em Jacarta para combater o domínio de um barão da droga acaba encurralada e massacrada pelos mesmos que jurou destruir. Em 2014, surge "The Raid 2: Berandal" e volta a dar-se o fenómeno "Unicórnio Cor-de-rosa", daqueles que só se repetem uma vez em cada ciclo cinematográfico: a sequela ser superior ao filme que a antecede. Se não sentem o mesmo, lamento mas estão em negação que, bem dentro dos vossos corações, sabem que o que estou a dizer é verdade.

Rama (Iko Uwais) o polícia sobrevivente ao massacre do primeiro filme (e, também ele responsável por um) faz um pacto com os superiores: deverá assumir uma nova identidade e infiltrar-se no seio do crime organizado, de modo a chegar ao topo da cadeia e arranjar provas comprometedoras contra os grandes chefes. A alternativa não se avizinha a melhor: se recusar e regressar à família será perseguido pelos criminosos e colocará em perigo a vida de todos. Assim, Rama segue numa odisseia pelo crime que inclui ser preso para se tornar próximo de Uco (Arifin Putra) filho de Bangun (Tio Pakusodewo), um dos pais do crime de Jacarta. O resto é estória e sequências infindáveis de pancada não aconselháveis aos mais sensíveis. Isto, como quem diz, se forem sensíveis e, "The Raid 2: Berandal" não é, em definitivo, para os de estômago fraco fizeram a pior selecção de filme possível. Mas se forem, como eu, entusiastas de bom cinema de acção e de artes marciais sentem-se e apreciem a Mona Lisa do realizador Gareth Evans.
Uma das grandes victórias deste filme improvável é o facto de ser impossível apreciá-lo em silêncio absoluto. Os combates são a cereja no topo do bolo e Gareth, a esse nível, não nos poupou. Há mais e muito bons vilões incluindo o irascível e mimado Uco, a misteriosa “Hammer Girl”, Alicia (Julie Estelle) e o assassino por encomenda Prakoso (Yayan Ruhian). Estas cenas exigem uma tal fisicalidade dos actores e dos duplos que darão por vós a soltar muitos “ahs”,“uis” e até arfar com a falta de fôlego, para o ecrã, tornando a película interactiva de um modo positivamente inesperado. Mais, a audiência não é poupada ao cinema mais visceral: cada golpe é sentido e o sangue não é ocultado. Os actores, para o final parecem sombras de si próprios, como se tivessem sido espancados, física e psicologicamente. Não me tomem por sádica mas sabemos que estamos a assistir a algo especial quando os actores fingem tão complemente que a dor que ostentam parece real. Tais sequências de pancadaria selvática exibem uma graciosidade tal que se assemelham a um bailado. A coreografia é novamente dirigida pelo multifacetado Yayan Ruhian que não só regressa a este papel como volta a interpretar um papel sem qualquer ligação com o do filme anterior, demonstrando mais carisma que muitos actores veteranos. Pelo trabalho técnico, “The Raid 2: Berandal” merece o maior destaque e ser premiado; pela inovação, vagas sucessivas de audiências sem medo de experienciar o verdade cinema de acção. Coloquem de parte o preconceito por “ser um filme de artes marciais”. “The Raid 2: Berandal” é um bom filme e é apenas isso que necessitam saber. E é um filme tão imponente que é capaz de fazer homens adultos questionar a sua masculinidade e por empatia, fazer crescer pêlos no peito às mulheres. Ok, estou a exagerar mas acho que percebem a ideia.
“The Raid 2: Berandal” não está isento de falhas. Além de cenas que desafiam as leis da física, é incrível como certos personagens, com tal desgaste físico se aguentam ainda de pé. Pessoal, não tentem isto em casa, mas estou certa que se levarem um murro bem dado, não sei, digo eu, que perdem os sentidos. Quanto mais levar uma dezena e na cena a seguir estarem frescos como um pêssego. No entanto, onde é competente, é-o de tal modo que os defeitos, reais ou percepcionados quase desaparecem do nosso radar. Quatro estrelas.

O melhor:
- As sequências de combate, nomeadamente, a luta na lama (sem bikinis)
- O retorno de Yayan Ruhian
- Silat.

O pior:
- Improbabilidade de algumas cenas.
-  A estória deixa de fazer sentido para se tornar apenas uma desculpa para inúmeras sequências de confronto.

Realização: Gareth Evans
Argumento: Gareth Evans
Iko Uwais como Rama
Arifin Putra como Uco
Tio Pakusodewo como Bangun
Oka Antara como Eka
Alex Abbad como Bejo
Cecep Arif Rahman como “Assassino”
Julie Estelle como Alicia
Very Tri Yulisman como “Homem do bastão”
Ryuhei Matsuda como Keichi
Kenichi Endo como Goto
Yayan Ruhian como Prakoso

Próximo Filme: "71 into the Fire" (Pohwasogeuro, 2010)

PS: Este filme vai ser exibido no Motelx, dias 10 de setembro pelas 16h00 e 14, às 00h15. Não sejam uns meninos e apareçam!

domingo, 6 de julho de 2014

Jeritan Kuntilanak, 2009

Deliciem-se...

Reina (Garneta Haruni), Ferry (Andrew Ralph Roxburgh), Bimo (Zaki Zimah), Vivin (Joanna Alexandra) e Lila (Furry Citra) são cinco estudantes que decidem aproveitar a ausência dos pais de Reina para passar uns dias de descanso no casarão da família. O ambiente entre eles não é o melhor. A animosidade de Reina para com Lila é evidente, já que ela suspeita que Ferry esteja interessado na rapariga ao contrário dela própria e que o sentimento possa ser recíproco. Se Ferry não tivesse convidado Lila, a viagem podia ter sido uma boa oportunidade para Reina o conquistar em definitivo. Os planos de diversão são arruinados a meio da viagem quando Lila tem um grave ataque de asma e o grupo acaba por levá-la para a única casa que encontram num raio de quilómetros. Escusado será dizer que a coincidência não foi a mais feliz e a casa se encontra mal-assombrada. Lila desaparece e, em pânico os estudantes acabam por fugir deixando para trás a rapariga. Eles firmam um pacto de silêncio sobre o caso mas Yunita (Julia Perez) a irmã da rapariga desaparecida não aceita esta decisão e pressiona-os para que estes a ajudem a encontrar Lila. De volta ao campus e com um segredo terrível dentro de si, eles começam a ser assaltados por visões aterradoras que correm o risco de transitar para o mundo real.

“Jeritan Kuntilanak” apresenta a sintomatologia clássica de “férias correm horrivelmente mal” com “créditos constituem o momento mais assustador do filme”, “Há resmas de Kuntilanaks na Indonésia” e “encontre o pior actor do elenco”. O filme é todo um affair de “não se percebe muito bem o que está a suceder”. Porque é que o carro avaria numa primeira fase levando os estudantes a refugiar-se na casa e depois na fuga este já arranca é um daqueles mistérios que só convêm porque se tratar de um filme de terror, onde tudo é perdoado. Errado. Porque é que os adolescentes não recorrem à polícia ou contam aos familiares que tiveram medo e deixaram Lila lá sozinha, pedindo para a irem socorrer é algo que me ultrapassa. Como eles (quase todos) voltam à vida normal, como se nada se tivesse passado, é muito estranho. Porque é que a meio da película, os personagens que a princípio possuíam o protagonismo quase desaparecem é outra questão. Como é que ainda há quem ache piada a Zacky Zimah e que este com 30 anos ainda faça o papel de um estudante é algo que me ultrapassa. Apenas a irmã e Vivin sofrem com o desaparecimento da rapariga, uma por motivos óbvios, a segunda devido sentimentos de culpa. Haja alguém que tenha algo parecido com empatia! Até Ferry, o potencial interesse amoroso de Lila perde o interesse logo após a excursão fracassada. O mínimo que uma pessoa apaixonada pode fazer é demonstrar preocupação pelo objecto amoroso não?
Onde “Jeritan Kuntilanak” sofre realmente é com a execução infantil. Não é como se a estória fosse fenomenal ou desse para esticar os músculos da representação do limitado elenco. No entanto, a sensação de que as cenas foram concluídas num único take é demasiado forte para negar. Isso e a prevalência de sons que se devem assemelhar a algo de incrivelmente assustador enquanto as actrizes em trajos menores rodopiam sobre si próprias como se de baratas tontas se tratassem. O elenco é assombrado durante o dia, enquanto dormem e, em quase todas as assoalhadas da casa. O ciclo é repetido até à exaustão: uma personagem é ameaçada vezes sem conta e depois passa à seguinte. O enquadramento das cenas chega a ser replicado ao pormenor. Até ao bocejo. “Jeritan Kuntilanak” podia ter ser sido criado por quaisquer maçaricos e se calhar, com melhores resultados. Mais assustador? Apenas pensar que isso produzirá algum efeito nas audiências mais cépticas e/ou habituadas a ver filmes de terror. Meia estrela.



O melhor:
- Esquece-se facilmente
- Noventa minutos de ocupação para quem não tem nada que fazer
- Pode ser bom... Se fingirem que é uma sátira

O pior:
- Não é suficientemente curto
- Execução técnica (a todos os níveis)
- Menção especial aos actores, umas lições de representação se calhar não lhes fazia mal
- Imaginação que é feito de ti?

Realização: Koya Pagayo
Argumento: Shinta Rianasari
Julia Perez como Yunita
Garneta Haruni  como Reina
Andrew Ralph Roxburgh como Ferry
Zaki Zimah como Bimo
Joanna Alexandra como Vivin
Furry Citra como Lila

Próximo filme: “Cyrano Agency” (Sirano; yeonaejojakdo)

domingo, 22 de junho de 2014

"The Forbidden Door" (Pintu Terlarang, 2009)


Vamos lá supor por um momento, que queriam iniciar-se nos caminhos do terror indonésio. A julgar pelos filmes aqui abordados anteriomente, e à excepção dos filmes de artes marciais de São Gareth Evans, é difícil não ficar com a impressão que o cinema de terror oriundo deste país é terrível. E a verdade é... Faça-se suspense… Vá, um pouco mais… É que não estão muito longe da realidade. A produção em série no seu pior encontra-se nos cinemas deste arquipélago. O filme de terror, a comédia e o mix destes dois géneros dominou, durante muitos anos o panorama cinematográfico do país. A fórmula é a mesma: um grupo de jovens estupidamente giros (quase todos), uma conveniente viagem ou visita de estudo, a ausência de adultos e/ou de qualquer sentido de responsabilidade e um monstro baseado numa das muitas lendas locais disponíveis. Acompanhe-se a fórmula por uma péssima execução técnica, incluindo um elenco tão capaz de proferir falas memorizadas como o cidadão normal, argumento que parece ter sido escrito por um estudante de liceu, montagem horrível, banda-sonora que é uma cópia dos 39583957405 filmes anteriores, caracterização e efeitos digitais que mais valia não se terem esforçado. Ainda estão comigo? Agora imaginem que “The Forbidden door”, é o oposto do que acabei de descrever.

Gambir (Fachri Albar) é um escultor cuja vida é radicalmente alterada quando a namorada Talyda (Marsha Timothy) engravida. Sem condições de criar um filho e ainda sem a bênção dos pais dela, ela faz um aborto. Enlouquecida pela dor, pede a Gambir que homenageie o filho morto, colocando o corpo numa das suas esculturas. Gambir acede e pouco tempo depois a situação é bem diferente. Eles encontram-se agora casados e as suas esculturas de mulheres grávidas fazem um sucesso tremendo. Mas por baixo da máscara de sucesso, Gambir tem o coração despedaçado. Ele nunca recuperou da perda do filho e isso trouxe-lhe problemas para a intimidade. É invejado por todos pela mulher linda e inteligente, mas impressiona-o a recém-formada frieza dele. Pior, é pressionado pela mãe para que lhe dê um neto. Como se não bastasse, ele começa a ver uma mensagem em todos os lugares de alguém a pedir socorro. Até onde o mistério o irá levar?

“The Forbidden Door” parece saído de um episódio da “Twilight Zone” para maiores de 18. A ajudar estão o décor retro e o ambiente artificial dos anos 50. O protagonista tem a cabeça num caos e age em conformidade. São todos à volta, e sobretudo Talyda, que se sentem demasiado seguros de si próprios. Os personagens instilam uma confiança que ninguém sente no mundo real. E se todos têm os seus problemas e frustrações, em “The Forbidden Door” tudo vai bem naquele aquário. O mundo deles é perfeito. E já que se fala em perfeição, a cinematografia é fora de série. As cores outonais são reminiscentes dos contos de fadas, com a dualidade que lhe é tão presente, de aparência bela mas esconde podridão. E não precisamos de ser confrontados com uma porta intrigante para chegar a essa conclusão. Aí reside um dos maiores pecados de “The Forbidden Door”, a previsibilidade. Curioso que filmes que estrearam em simultâneo que sofriam do mesmo mal obtiveram maior sucesso de bilheteira que “The Forbidden Door”. Outros dos problemas do filme são os vários finais que deixam a ideia de insatisfação ou pelo menos, a necessidade de um corte mais decidido assim como o tempo que demorou até chegar ao gore. Não sou de vender a minha verdade como incontestável e decerto que “The Forbidden Door” não agradará a todos, mas estranho que quando estreia um filme de execução e criatividade superiores seja deixado para trás, quando a qualidade média deixa muito a desejar. Custa mais pensar do que entregar-nos aos velhos vícios não é? Três estrelas.

Realização: Joko Anwar
Argumento: Joko Anwar e Sekar Ayu Asmara (livro)
Fachri Albar como Gambir
Marsha Timothy como Talyda
Ario Bayu como Dandung
Otto Djauhari como Rio
Tio Pakusodewo como Koh Jimmy
Henidar Amroe como Menik Sansongko
Verdi Solaiman como John Wongso
Putri Sukardi como Ibu


O melhor:
O elenco.
Cinematografia. O visual é fantástico.
Cenário.

O pior:
Vários Finais.
Rítmo lento.
Demora algum tempo até às primeiras gotas de sangue.

Próximo Filme: "The Neighbors" (Ee-oot Salam, 2012)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pocong Rumah Angker, 2010

Sugestão: Saltem o trailer e passem directamente à visualização com legendas em inglês no youtube

Se não existir mais nenhuma característica redentora da generalidade do cinema de terror indonésio, que ao menos se aprecie a inocência. Quando se valorizam as narrativas ultra-complexas que redundam em estórias absurdas (ainda que tenhamos relutância admiti-lo), há que dar espaço às falsas narrativas que não são mais que uma sucessão de eventos repetidos, num movimento circular com enfoque nos corpos dos intervenientes, no gag que puxa a gargalhada e enfim, no terror.
Zak e Pung são dois rapazes desmiolados que decidem realizar filmagens durante a noite (óbvio!) na casa assombrada local para o jornal da escola. Haverá algo mais emocionante que uma casa assombrada? (Não respondam). Estes estarolas, com pouco ou nenhum jeito para seduzir o género feminino conseguem atrair as colegas de turma Joanna e Debbie para o seu projecto e não tarda, todos se vêem alvo de manifestações sobrenaturais. Pocong Rumah Angker não deixa nada para a imaginação e significa literalmente, pocong (fantasma enrolado num sudário) numa casa assombrada. Por isso, não é de estranhar que ao fim de segundos tenhamos a primeira aparição que surge sob a forma de uma bailarina de Jaipong, de um pocong e ainda anciões versados na arte de combater as trevas. Para aqueles lados há imensos peritos em combater aparições inesperadas. Não se preocupem. “O que foi retirado deve ser devolvido” e só assim terá “descanso eterno” e coisas que tais. Mais fácil de falar do que fazer com uma trupe que tem como cabecilha Zak, que desconfio, empresta mais de si ao papel do que conseguiu descarnar a sua personagem. Pocong Rumah Angker é “Zakocêntrico”, disso não restam dúvidas. A personagem confunde-se com o actor com o mesmo nome e aproveita para qualquer oportunidade para improvisar dando lugar a cenas involuntariamente engraçadas pois, enquanto Zak dispara falas de cabeça, os restantes actores tentam desesperadamente manter-se nas personagens. Não faço ideia o que passou pela cabeça do realizador, se deu instruções para os actores seguirem o “show de Zak” ou se acreditou na magia em directo e deixou a película rolar. Uma aposta arriscada se querem que vos diga pois com 77 minutos de duração, não há muito sumo para se espremer. Surpreendente é o número de piadas sexuais e alusões homoeróticas, para bem da comédia claro, num país que se crê muito conservador. Existe de tudo, desde piadas com testículos e erecções à possibilidade de ósculos entre homens e partilha de cama… Enfim, tudo o que se podia esperar do cinema coreano e das comédias sexuais americanas, à la “American Pie” (1999), que se encontram atualmente num estado comatoso.
Diz que Pocong Rumah Angker é de terror e é aí que os problemas se agravam. Desde o início que a assombração é posta a descoberto e, além de uma ocasional aparição não se pode dizer que os fantasmas sejam muito assustadores. A maquilhagem horrenda assemelha-se a um disfarce de Halloween que correu mal. Já para não mencionar o styling exactamente igual ao de filmes anteriores. Ora, onde é que já vimos mulheres de cabelos desgrenhados com aparência atemorizante? A verdadeira tragédia reside no não aproveitamento da única ideia criativa que poderia elevar Pocong Rumah Angker a um patamar superior. Por momentos, há um laivo de reflexão, de tragédia escondida que poderia impactar em definitivo os nossos tontos personagens e depois, demasiado rápido, desaparece, para dar lugar aos pocong, aos kuntilanak (espíritos), às casas assombradas, num eterno movimento circular. Que ninguém diga que os espectadores não gostam de previsibilidade. Uma estrela e meia.

Realização: Koya Pagayo
Argumento: Ery Sofid
Zaky Zimah como Zaky
Donita como Joanna
Pamella Bowie como Debbie
Krisna Patra como Ipung
Radith

Próximo Filme: “Dead Sushi” (Deddo Sushi, 2012)

domingo, 30 de junho de 2013

"Toilet 105" (Hantu Toilet 105, 2010)



Sou toda por casas-de-banho assombradas. Porque não? Se nos dizemos fãs do género de terror temos de ser destemidos. Mesmo que isso signifique ver películas para adolescentes indonésios com uma visão de comédia e de terror muito próprias. Como seria de esperar os valores estão bastante arreigados à religião pelo que o facto de uma rapariga andar com as pernas nuas é motivo suficiente para a considerar uma vadia.
A sudeste nada de novo, Marsya (Coralie Gerald) muda-se para uma nova escola onde é recebida com muito entusiasmo pelos rapazes e rejeitada pelas miúdas populares residentes que não estão habituadas a que lhes façam frente. A adaptação não é fácil visto que a pobre Marsya é alvo das partidas das rufias, ao mesmo tempo que é cortejada por Okta (Ricky Harun)o fraco galã de serviço anterior namorado de uma das rufias da escola. Como impedir que a nova miúda se tornasse num alvo? A dificultar a adaptação está ainda o facto de Marsya começar a ter todo o tipo de encontros sobrenaturais sempre que vai ao quarto de banho. Com os encontros a intensificar-se e a notícia de que Adelia, uma antiga aluna desapareceu, Marsya decide investigar o caso.
“Toilet 105” devia vir com um aviso: “Se for da opinião que os adolescentes são criaturinhas irritantes não veja este filme”. E na verdade, é um conjunto de estereótipos universais irritantes. A miúda nova é gira, humilde e reúne toda uma série de qualidades; o engatatão de serviço tenta seduzir a novidade da escola; as miúdas populares são giras e más para os colegas e o mundo dos adultos está quase à margem do dos miúdos. Se conseguirem viver com a convencionalidade dos personagens e da narrativa não será uma experiência demasiado penosa. “Toilet 105” não é das piores experiências de terror a sair da Indonésia. Tem a favor o facto de não ter um orçamento tão baixo como outros conterrâneos. E o elenco está claramente vocacionado para uma audiência mais jovem, com actores ainda com bastantes anos de aprendizagem pela frente e humor local. Uma das críticas mais injustas que se podem fazer após o visionamento de um filme de origem geográfica e cultural longínqua é a de que não tem sentido de humor. Quem é o crítico para julgar, sem qualquer tipo de referência anterior o que apela à gargalhada de outros? O espirito da casa-de-banho 105 é um dos pontos fracos da película. A caracterização deixa bastante a desejar. Ainda assim é exibido em qualquer oportunidade. A subtileza não é o forte dos cineastas mas não é como se cabos de arame estivessem visíveis (Karak, 2011). Este também é um daqueles casos em que o título do filme não deixa margem para duvidas: “Toilet 105” não é para ser levado a sério. Desde a “Moaning Myrtle” da saga Harry Potter, que não se encontra espírito capaz de incutir o receio por fantasmas de casa-de-banho. Quem consegue bater uma adolescente choramingas?

Longe de mim implantar ideias erróneas na cabeça dos meus ricos leitores mas fica a sensação que “Toilet 105” surgiu com o intuito de se fazer um filme sobre uma casa-de-banho assombrada e que a estória veio depois. Já agora, alguém é capaz de me explicar porque é que o espírito parece tão interessado em assombrar casas-de-banho de rapazes e de raparigas? Se, como um dos personagens questiona a dada altura, a aparição está ligada ao local onde faleceu, porque é que esta não se queda por um único sítio? Claro que a casa-de-banho traz algumas ideias de assombração interessantes, digamos que um urinol e uma cena à “Ring” (1998) é muito engraçada. Isto, se pretendermos sorrir. Se a ideia for ficarem aterrorizados irão ficar desiludidos. Mas e daí, não teriam escolhido um filme como o nome “Toilet 105”! Uma estrela e meia.

Realização: Hartawan Triguna
Argumento: Ve Handojo e Melody Mucharansyah
Coralie Gerald como Marsya
Ricky Harun como Okta
Aming Sugandhi como Satpam
Indra Birowo como Senhor Wahyu
Suti Karno como Senhora Endang
Leonil Tikoalu como Ical
Rizki Putra como Rio
Navi Rizki como Viola

Próximo Filme: “Blind” (Beul-la-in-deu, 2010)

domingo, 15 de julho de 2012

"Merantau Warrior" (Merantau, 2009)


Os ritos de passagem da adolescência à condição de adulto são qualquer coisa de extraordinário que só as culturas que os possuem podem compreender na totalidade. Nos países ocidentais, o mais parecido com “tornar-se homem” é capaz de ser a perda de virgindade. Entre as mulheres é mais ou menos consensual a identificação do surgimento da menstruação com uma superior maturidade emocional. De facto, é curioso verificar noutras culturas a existência de práticas temerárias como saltar sobre bois desencabrestados ou fazer tatuagens dolorosas em todo o corpo, com a afirmação da masculinidade. Na ilha de Sumatra, vinga, entre o povo Minangkabau a tradição do “Merantau”, que leva a que os rapazes abandonem o conforto do lar, à procura de experiência e sucesso que possam depois trazer para a comunidade. A ideia não é uma diáspora sem retorno, mas a importação de conhecimento que contribua para o crescimento e bem-estar da população Minangkabau.
No meio rural, entre os criadores de plantações de tomate, Wulan (Christine Hakim)  despede-se do filho mais novo, Yuda (Iko Uwais). Ela recorda-se bem das adversidades que o filho mais velho enfrentou e pede a Yuda que não siga a tradição. Ela acredita que o filho não precisa de cumprir o “Merantau” para demonstrar o seu real valor mas ele está decidido. Ele quer seguir as passadas do irmão que tanto admira e passar pelo mesmo que os seus antepassados antes de si. É um dever.O teste de Yuda inicia-se logo que chega a Jakarta. O sítio onde iria pernoitar foi demolido. Sem um tecto sobre a sua cabeça, com pouco dinheiro no bolso e pouco mais que a comida que a mãe embalou, a aventura ainda mal começou. Yuda é incapaz de permanecer impassível perante a injustiça então, quando vê Astri (Sisca Jessica), ser atacada por bandidos ele intervém. Sem o saber, intromete-se no caminho de uma rede tráfico de escravas sexuais e os criminosos não vêm com bons olhos interferências no seu ganha-pão.
Segue-se uma luta implacável entre um gangue e o jovem lutador de silat (artes marciais) pela rapariga. O gangue quer fazer de Yuda um exemplo e ele, só pretende resgatar Astri das garras dos criminosos. A narrativa é bastante standard: rapaz conhece rapariga; rapariga está envolvida com uns vilões e, qual cavaleiro andante, ele vai resgatá-la e vivem felizes para sempre. Mas “Merantau” não é uma estória com um final feliz. Certos pormenores revelam que por trás de uma estória simples se encontra uma boa direção de actores e coreografia de acção.
Christine Hakim, a veterana e galardoada actriz que interpreta Wulan, traz ao seu curto papel uma doçura maternal, estimável em qualquer parte do mundo. O Eric de Yayan Ruhian funciona como uma espécie de anjo negro. É ele, quem na viagem para a selva urbana de Jakarta, desfaz as ilusões de Yuda e o prepara para o duro choque com a realidade. É muito difícil vingar na capital, ainda mais sendo um jovem provinciano que desconhece a vida da cidade. Já a espevitada Astri é a vítima perfeita para o tipo de crime que é retratado. Abandonada pelos pais e com o irmão pequeno para cuidar, dança num clube duvidoso para se poderem alimentar. Sem alguém para a proteger, pouco faltará para a forçarem a prostituir-se e o irmão Adit (Yusuf Alia), acabar nas ruas a mendigar. Os bandidos dividem-se em dois tipos: os estrangeiros que pretendem “exportar” mulheres do arquipélago e os indonésios que as vendem. Destes, quais os piores?
Na verdade, Yuda é o único ser humano, em todo o filme, que se opõe a tal prática. Os que só vêm cifrões à frente não se compadecem do sofrimento alheio. Os restantes ignoram o que se está a passar ou fecham os olhos ao que está à vista… Qualquer dos três: o “louco” Yuda, Astri e Adit, podiam desaparecer que ninguém iria à sua procura. Resta desvendar se “Merantau Warrior” é um conto caucionário sobre a presença dos estrangeiros no país, se uma crítica à ausência de valores da selva urbana. É um jovem provinciano, ainda por corromper, que se insurge contra o crime e tenta salvar inocentes. É nesta reflexão que se encontra o assombro de uma estória aparentemente banal e na força explosiva do silat, a sua espectacularidade. As cenas são dotadas de um realismo impressionantes cuja edição é depois limada na colaboração seguinte de Uwais e Evans, “The Raid – Redemption”. Se intencional ou não, atentem, em particular, ao confronto final, que parece uma homenagem a “Who Am I” (1998), no qual, Jackie Chan defronta dois lutadores, no topo de um arranha-céus. A acção e o desenvolvimento da narrativa acabam por resultar como as mais-valias de “Merantau Warrior”, uma lufada de ar fresco que deverá agradar a fãs do género e a iniciados. Quatro estrelas.

Realização:  Gareth Evans
Argumento:  Gareth Evans
Iko Uwais como Yuda
Sisca Jessica como Astri
Christine Hakim como Wulan
Mads Koudal como Ratger
Yusuf Alia como Adit
Alex Abbad como Johni
Yayan Ruhian como Eric
Laurent Buson como Luc

Próximo Filme: "The Eye", (Gin Gwai, 2002)

domingo, 8 de julho de 2012

"The Raid - Redemption" (Serbuan Maut), 2011

Querem conhecer a estrela do cinema de acção da próxima década? Não precisam procurar mais longe que na Indonésia. O realizador galês Gareth Evans apresenta Iko Uwais. Giro? Um rapaz normal diria. Excelente actor? Isso ainda está por se ver. Intenso Carisma? Nem por isso. Mas ai se ele sabe lutar… Ele domina o contacto físico como poucos. Bem, o Yayan Ruhian, ou “Mad Dog” em “The Raid - Redemption” é melhor lutador e mais espectacular só que a natureza não foi simpática para com o senhor. Ele não é abonado em termos de beleza e de altura. Mas também não é o tipo de pessoa que gostaria que lesse este último comentário. Digamos que as suas capacidades atléticas impõem respeito e este não é um individuo que se deseje ver chateado… “The Raid – Redemption”, é o epitome máximo da expressão: “location, location, location”! Recordam-se da saga “Diehard”, na qual um Bruce Willis, ainda jovem, domina cenários desde um arranha-céus a um aeroporto? Lembram-se do negrume que escondia uma entidade do outro mundo, na nave Nostromo em Alien? Ou talvez estejam familiarizados com a gruta, imprópria para quem tem medo do escurso em “The Descent”. Gareth Evans fez o trabalho de casa e demonstra uma das invasões mais brutais e, porventura, mais espectaculares na história do cinema. Notem que esta é a segunda afirmação ousada que faço na sequência de um só filme! Interessados?
Vinte polícias de elite dão chamados a cumprir missão complicada: capturar e prender um senhor do crime da sua fortaleza criminosa, um edifício de 30 andares, a partir do qual opera as suas operações criminosas e que se encontra guardado por centenas de bandidos dispostos a lutar pelo seu quinhão. A eficácia da missão policial depende da velocidade e descrição mas com olhos vigilantes em cada esquina, tal revela-se impossível. Os polícias vêem-se apanhados numa emboscada e, alerta cliché: o caçador torna-se a presa. Para escapar com vida terão de deixar atrás de si um rasto de corpos. Daí resultam quase 100 minutos de acção ininterrupta, nua e crua. A arte marcial silat, na sua essência, um mecanismo de auto-defesa, é brutal e há que reconhecer o trabalho irrepreensível dos duplos. Por vezes, torna-se difícil não imaginar que eles se terão magoado a sério. Ser atingido por cadeiras, arrastado com um trapo e projectado contra móveis e tijolos não é para qualquer um. E quando não há materiais de arremesso, os personagens são amplamente armados com pistolas, espingardas, metralhadoras e catanas! “The Raid – Redemption”, assegura uma fonte inesgotável de cenas de ameaça à integridade física dos personagens, aos fãs inveterados de artes marciais! E, apesar, da eventual comicidade que o facto de se levar uma dezena de murros e pontapés em zonas sensíveis do corpo e, mesmo assim, os personagens se manterem de pé, podia ter, “The Raid – Redemption”, consegue escapar ao absurdo. Este festim de pancada, não deixa de ter meia de dúzia de papéis bem definidos, por entre as hordas de criminosos com uma motivação que não ultrapassa o desejo de assassinar os invasores. Existe Tama (Ray Sahetapy), o senhor do crime que não admite uma “infestação” na sua casa; Andi (Donny Alamsyah), o braço-direito pragmático, “Mad Dog”(Yayan Ruhian), o psicopata que encontra a maior diversão no confronto corpo-a-corpo, Jaka (Joe Taslim), o jovem comandante que nem por isso deixa de ostentar medo nos olhos; Wahyu (Pierre Gruno), um polícia com uma agenda obscura, o jovem herói numa primeira missão que não pode deixar de regressar a casa para a mulher grávida…
Há uma sensação de perigo iminente enquanto os sobreviventes da guerra que se abateu sobre eles vagueiam pelos corredores. E não é menos claustrofóbico que um filme de terror assumido pois não se sabe o que se esconde por trás de cada porta, ou no contorno de cada esquina.
Ah, já mencionei que a banda-sonora de “The Raid – Redemption” inclui o Mike Shinoda dos Linkin Park? As batidas do seu sintetizador estão perfeitamente ajustadas à acção implacável. Pois, o que resulta menos bem na película? Se a acção está próxima da perfeição houve aspectos mais básicos que escaparam à mesma análise clínica da coreografia. Por exemplo, os polícias parecem bonecos de teste. Para uma equipa de elite, seria de pensar que exercessem maior resistência. Além disso, quem é que, sabendo que há atiradores furtivos se vai colocar à frente de uma janela? Sabendo por fim, das verdadeiras intenções perversas de algumas personagens, quem é que, mesmo assim, coloca a sua confiança e, vida nas suas mãos? São pormenores como este que fazem de “The Raid – Redemption”, apenas um filme muito bom. Mas agora que já detectámos os erros há espaço de manobra para melhorar na sequela. Quatro estrelas.

Realização:  Gareth Evans
Argumento:  Gareth Evans
Iko Uwais como Rama
Joe Taslim como Jaka
Donny Alamsyah  como Andi
Yayan Ruhian como Mad Dog
Ray Sahetapy como Tama
Tegar Satrya como Bowo

Próximo Filme: "Lady Vengeance" (Chinjeolhan geumjassi, 2005)

domingo, 4 de setembro de 2011

"Lawang Sewu Dendam Kuntilanak", 2007

Lawang Sewu, que significa literalmente a casa das 1000 portas é conhecida como uma das mansões mais assombradas em Semarang, na ilha de Java (Indonésia). Desde o século XVIII passou pelas mãos dos holandeses, japoneses e por fim, dos nativos. Várias são as histórias de tortura na época da invasão japonesa que contribuem para a lenda deste edifício. É pois, de pensar que este será o cenário ideal para um filme de terror. Não podiam ter falhado de forma mais espectacular o alvo. "Lawang Sewu Dendam Kuntilank" é um fracasso estrondoso do início ao fim. Não vale a pena estar com paninhos quentes. A realização e o argumento pertencem a Arie Aziz e Eviv Elham que se voltam a juntar depois em "Tali Pocong Perawan" (2008) já aqui revisto com resultados igualmente maus. Eles falham miseravelmente na capitalização de terem uma verdadeira! casa assombrada no filme e transformam-na quanto muito num cenário medíocre de um filme de igual qualidade.
Não me acreditam? Então, vejamos. Esta dupla consegue ir buscar a lenda do "Kuntilanak" ou vampiro, representado normalmente por uma mulher de longos cabelos negros que anda pelas povoações a assustar sobretudo as criancinhas e também aí pecar pelo absurdo. Para uma indústria absolutamente obcecada com os filmes de terror, a maioria deles baseados em monstros de crenças populares como o Kuntilanak ou o Pocong, o amadorismo é surpreendente. Ok,os orçamentos são praticamente inexistentes mas os cineastas e argumentistas tendem a replicar e continuar o ciclo vicioso dos erros de filmes anteriores e, basicamente, reciclar histórias anteriores. A premissa podia ser retirada de qualquer filme de Hollywood: um grupo de adolescentes entra numa casa assombrada e começam a cair mortos um por um. Vou perder um pouco de tempo com os clichés já que cada curva e reviravolta no guião é um hino ao que já vimos antes. Bem que "Lawang Sewu Dendam Kuntilanak" se poderia tornar um caso de estudo de como não fazer um filme de terror. 
1) Portanto, temos um grupo de jovens que fazem uma viagem de finalistas após a conclusão de mais um ano escolar. Visto.
2) Uma das raparigas, Diska interpretada por Thalita Latief, tem um fraquinho por um dos rapazes do grupo que não assume directamente. É a santinha do grupo. Visto.
3) As outras raparigas são as sluts. Como as raparigas promíscuas são sempre tão amigas de florzinhas de estufa, ainda estou para perceber. Visto.
3) Após uma noite de borga uma das raparigas (Cika), entra na casa assombrada. Ela desaparece. O que é que o grupo faz? Vai procurá-la, claro está. Visto.
4) O ambiente na mansão é assustador: sons de portas a ranger, correntes de ar, sombras e outros barulhos estranhos... Visto.
5) Depois de uns quantos sustos eles decidem fazer a acção mais insensata e previsível possível: separam-se. Visto.
6) O Kuntilanak persegue-os a todos e vai fazendo vítimas, uma a uma. Visto.
7) A heroína tem sonhos premonitórios. Visto.
8) A heroína acaba por descobrir afinal que o ataque não é aleatório que e que os seus grandes amigos terão feito algo para provocar a ira do monstro. Visto.
9) Acontece que um deles conhece uma bruxa ou mulher mística. Não é tão comum? Visto.


Poderia continuar com a enumeração dos clichés, mas isto deixaria de ser uma crítica para se tornar apenas uma sessão de masoquismo para a minha já traumatizada massa cinzenta. Vou ser sucinta: a direcção é péssima, a história não faz sentido e o elenco é mau demais para ser verdade. Espero não ouvir falar da dupla Arie Aziz/Eviv Elham durante muito tempo. Quem lhes disse que eles tinham talento devia ser severamente castigado. Podiam ver, digamos, uma maratona de todos os filmes que já fizeram juntos. Retiro o que disse sobre os filmes indonésios que já tive oportunidade de ver. Perdoem-me. Os outros, ao pé deste são muito superiores. "Lawang Sewu Dendam Kuntilank" tornou-se facilmente o melhor candidato a pior filme que já passou neste blogue. Se quiserem vê-lo força, mas não me responsabilizem por eventuais danos cerebrais. Não leva classificação. Não consigo encontrar uma classificação que consiga descrever aquilo que vi.
Realização: Arie Azis
Argumento: Aviv Elham
Elenco:
Thalita Latief como Diska
Salvina como Naya
Bunga Jelita como Cika
Tsania Marwa como Dinda
Marcell Darwin como Yugo
Ronald Gustav como Onil
Melvin como Armen

Próximo Filme: "The Coffin" (โลงต่อตาย ou Lhong Tor Tai, 2008)

domingo, 5 de junho de 2011

"Tali Pocong Perawan", 2008

"Tali Pocong Perawan", nome sonante não acham? Infelizmente, é apenas mais um, numa série de filmes com o Pocong. E que é o Pocong, perguntam vocês? Eu respondo. O Pocong é um fantasma indonésio de quem se diz ser a alma de um morto enclausurado nas suas ligaduras. Estas, ou se preferirem, sudário é o que é utilizado pela comunidade muçulmana para cobrir o corpo de um morto. Ele é atado acima da cabeça, debaixo dos pés e no pescoço. Nem na morte há liberdade para um morto! Diz a tradição popular que a sua alma permanece na terra durante 40 dias. Após este período, se os nós não tiverem sido desfeitos, a alma saltará da campa para que os vivos o façam, após o que deixará de vez este mundo. E como está amarrado, o Pocong persegue os vivos dando saltos. Uma ideia: e que tal não atarem o morto para começar?
Aparte as superstições dos vivos, "Tali Pocong Perawan" pouco traz de novo para os ocidentais. É uma triste cópia de "Shutter" (2004). Mas passando à história, Nino (Ramon Y. Tungka) é um jovem slacker, também voyeur, com traços de stalker que passa a vida ao computador ou a espiar o seu irmão Aldo (Ibnu Jamil) a enrolar-se com a namorada Virnie (Dewi Perssik), por quem ele, a propósito, está apaixonado. Querido como só ele, tenta roubar a namorada ao irmão. Como? Ora, da maneira mais razoável e sensata possível. Ele rouba um sudário de uma virgem que morreu recentemente. Curiosamente, ou talvez não, essa jovem tinha-se suicídado, no campus onde eles estudam...
Entretanto, há muitas coisas que me chateiam. Há algum motivo para Nino estar sempre a coçar-se? Inclusivamente nas virilhas? Ewwwwwww... Algo me diz que há sérios problemas de higiene ali. E talvez algo mais, se é que me entendem. Nada disto é de admirar, já que Nino tem o quarto todo desarrumado e ar de quem se levanta da cadeira... raramente. Portanto, além de tentar espiar a namorada do irmão e de a tentar roubar, também tem falta de higiene. Isto não o torna digno de piedade, torna-o detestável. Não se preocupem que há mais: Virnie, também tem uma série de tiques e não é nada likeable, aparte encontrar-se  num estando constante de gata que ronrona mas não convence. Está sempre a provocar Nino e outros homens, de tão senhora que é do seu sexo. Isto funcionaria bem se transmitisse com sucesso uma imagem de femme fatale. Pelo contrário, mais parece uma femme desespérée. Já Aldo, jeitoso que dói, mal diz uma palavra até metade da película e a própria câmara também não se digna a focá-lo, a ele que é a coisa mais bonita de todo o filme! O horror! Depois, vai-se a ver e ele até tem um papel importante! Shame on you! O que me leva ao argumento que é uma grande trapalhada. É como se a meio do filme tivessem despedido o argumentista e contratado outro. Não é como se a primeira parte do filme estivesse a correr bem. A dada altura há uma cena no elevador, que só vos digo isto: "The Eye" (2002). Reviro os olhos e não é de satisfação. Quanto à última parte... Posso repetir "Shutter"? Tem uma revelação surpreendente e inacreditável porque podem acreditar-me, não é de todo convincente. O pouco nexo que existia até então, desapareceu para parte incerta. Há ainda cenas desconexas, comportamentos sem sentido (como é que ela sabia que ele estava no telhado? Uh?) Enfim, mauzinho mesmo. Meia estrela e já estão a ter muita sorte.

Realização: Ari Azis
Argumento: Eviv Elham
Elenco:
Dewi Perssik como Virnie
Ramon Y. Tungka como Nino
Ibnu Jamil como Aldo
Próximo Filme: "Rule number 1" (Dai yat gaai, 2008) + Bónus: trailer com legendas em PT
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