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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"The Tag Along" (Hong yi xiao nu hai, 2015)

Trailer cheio de spoilers. Ver por vossa conta e risco.

Um sucesso estrondoso, na sua nativa Taiwan, “The Tag Along” baseia-se numa história afamada, de final dos anos 90, que se tornou um mito urbano. Segundo reza a história, uma família, assistiu após o funeral de um familiar, a um vídeo no qual viu uma menina de vermelho a seguir o falecido quando este integrava um grupo de caminhantes em passeio por uma montanha. Daí até aos avistamentos se multiplicarem foi um instante, sendo um dos visionamentos mais recentes, se deu quando uma idosa se perdeu numa montanha, tendo sido encontrada cinco dias depois com vida, a contar uma estória delirante sobre uma menina vestida de vermelho.

Em “The Tag Along”, acompanhamos o dia-a-dia de Wei (River Huang) é um agene imobiliário que trabalha duramente para poder casar e constituir família com Yi-chun (Wei-Ning Hsu). Eles são um casal há vários anos, mas chegaram a um ponto crítico da relação. Wei deseja ter uma família tradicional, enquanto Yi-chun parece estar contente com a relação e que esta se mantenha nos termos habituais. Nem o casamento nem a maternidade fazem parte dos seus planos e Shu-Fang (Yin-Shang Liu), a avó de Wei também é fonte de discórdia. Acolher a familiar do namorado seráum obstáculo ao desejo de estilo de vida independente que Yi-chun almeja. O delicado balanço destas relações é colocado em causa quando a avó de Wei desaparece, num paralelismo demasiado evidente com uma lenda local.

“The Tag Along” é um exercício interessante de contenção no retrato da vida “real” dos personagens e de fogo-de-artifício no que respeita à suposta assombração. É-nos permitido perscrutar um pouco mais do que uma espreitadela sobre a vida dos personagens, através da repetição. A avó de Wei de fazer todo o tipo de tarefas que permitam um maior grau de conforto ao neto. Ela acorda-o e prepara-lhe o pequeno-almoço e preocupa-se com ele pois só o quer ver feliz. Sabe que parte da felicidade está em constituir família com Yi-chun. Tenta para isso, provocar oportunidades para os juntar a despeito as reticências desta. Wei tem um horário vai além do que lhe é pedido para conseguir reunir condições para realizar o seu ideário de vida perfeita. Yi-chun é DJ numa rádio e encontra-se com o namorado no final dos turnos que acabou de fazer. Nada de muito excitante para uma classe média tradicional. Estes pedaços de vida são interessantes o para compreender os personagens e criar um elo emocional suficientemente forte para sentirmos a sua falta, quando o meio sobrenatural se introduz nas suas vidas. O elo mais fraco do trio já mencionado ainda assim é capaz de ser o actor River Huang. Wei-Ning Hsu interpreta uma avó capaz de captar a simpatia das avozinhas por esse mundo fora. Já Yin-Shang Liu representa a força vital do filme com um desempenho com camadas suficientes para demonstrar que a sua personagem pode ser mulher forte, independente, feminista e ter os receios de quem já sofreu no passado. A sua personagem perde-se depois no primitivismo do status quo societal tão certo quanto dois mais dois darem a soma de quatro. Sempre, muito bem coadjuvados com uma cinematografia eficaz e incomum entre os seus congéneres. Mas falava de repetições: quando a assombração assola existem variações suficientes no comportamento padrão dos personagens para perceber que algo está errado.

O mal de “The Tag Along” está em que o prelúdio para algo maior é a melhor parte do filme. O primeiro acto que corresponde ao desaparecimento e o segundo que diz respeito à investigação são mais interessantes que o último acto de conflito aberto. A película degenera num melodrama sacarino e efeitos gerados por computador de bradar aos céus. Alguém acha sinceramente que o “Alien” teria metade do encanto se têm mostrado o monstro num CGI manhoso? Porquê é a palavra operativa. Não havia necessidade de abalar o que até ali fora construído, em atmosfera opressiva e mistério de investigação, com efeitos "especiais" para agradar a ensejos de blockbuster. “The Tag Along” tentou, em contraciclo com o recente terror asiático, ser vagamente interessante e, em certa medida, conseguiu.
Realização: Wei-Hao Cheng
Argumento: Shih-Keng Chien
Wei-Ning Hsu como Shen Yi-Chun
River Huang como Ho Chih-Wei
Yin-Shang Liu como Ho Wen Shu-Fang
Po-Chou Chang como Tio Kun
Ming-Hua Pai como Tia Shui

Próximo Filme: "Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)

domingo, 19 de outubro de 2014

"Invitation Only" (Jue Ming Pai Dui, 2009)


Wade Chen (Bryant Chang) é o motorista de Yang (Jerry Huang), o presidente de uma grande empresa sediada em Taiwan, o qual inveja com todas as forças. Ele tem tudo o que o preguiçoso Chen gostaria de ter: rios de dinheiro, uma namorada supermodelo e carros de luxo. Um dia, Wade é apanhado a observar Yang a ter relações com Dana (Maria Ozawa) e este responde com um convite insólito. Wade é convidado a participar numa festa exclusiva onde pela primeira vez tem contacto com a vida da elite. Lá, ele explora ao máximo aquilo com que apenas poderia sonhar: jogar as apostas mais altas, conviver com os famosos, uma noite com Dana e até, a oferta de um carro desportivo. Parece bom demais não é? 
Só entra com convite
Wade e outros convidados são atraídos para uma sala onde descobrem que a sua presença ali faz parte de um plano malicioso. Eles foram convidados para constituir a sobremesa (figurativa) dos seus anfitriões. Aquilo é um jogo e eles não são os jogadores. Foram atraídos para a festa para os ricos e poderosos poderem dar azo à suas fantasias mais sádicas.
A senda de Wade encontra eco no próprio filme. “Invitation Only” é um primo invejoso das películas de torture porn. “Saw”, “Hostel” e outros que tais, são a óbvia inspiração de um filme que se apresenta com o slogan de “1.º Slasher Originário de Taiwan”. O engenho complexo de um e a luta de classes do outro são subaproveitados e amalgamados numa única noite de tortura. As classes baixas são humilhadas. Apresentadas como falsas e invejosas, visto que até encarnam entidades falsas para se enquadrar entre os ricos. Como se isso fosse importante. Note-se que é suposto odiarmos os ricos por brincarem com os indesejáveis pobres que são odiados apenas por pertencerem a uma determinada condição social. A qual, se calhar, nem sequer é controlada por eles. Mas tal é o argumento para que a audiência mantenha os níveis de adrenalina elevados. 

“Invitation Only” está cheia dos lugares-comuns do género pelo que afirmar que “Invitation Only” se desenrola na Europa ou na Ásia, é indiferente. No máximo, os actores asiáticos são tão maus ou piores que os actores originais que pretendem emular. Quase nunca algum dos personagens se assemelha a uma pessoa real pois, todos eles parecem, sem excepção, autênticas bestas. Isto leva-nos a questionar se tal não será, de certo modo, uma protecção dos argumentistas. Como se criar sentimentos pelas pessoas que irão morrer de forma horrenda fosse provocar aflicção junto das audiências. O que eles não sabem é que a simpatia pelos personagens pertence à fórmula que nos faz gostar de um filme. O orçamento é diminuto, os diálogos são atrozes, as personagens caricaturas e poucos aparentam saber o que estão a fazer. Apenas os momentos de tortura são eficazes embora, até esses, não sejam nada de original ou brutal por comparação com os procuram imitar. A cena de sexo gratuito com a actriz pornográfica Maria Ozawa também é capaz de agradar a quem gosta do seu terror com um pouco de erotismo. Mas se o motivo for a actriz, não há por que não ver directamente um “filme” dela a sofrer através do primeiro terço de filme para lá chegar. 
“Invitation Only” é como um convite indesejado. À primeira vista, o convite parece aliciante e alinhamos até que percebemos que fizemos asneira e é tarde demais. O filme é um desperdício de tempo e quando olhamos para o relógio chegamos à conclusão que já vimos metade. É impossível desistir agora. O fim? O terror da possibilidade de uma sequela. Uma estrela.

Realização: Kevin Ko
Argumento: Sung In e Carolyn Lin
Bryant Chang como Wade Chen
Maria Ozawa como Dana
Julianne Chu como Hitomi
Kristian Brodie como Warren
Jerry Huang como Presidente Yang
Vivi Ho como Holly

O melhor:
- As cenas de tortura
- Maria Ozawa (quando está calada)

O pior:
- Imita filmes que já não são muito bons e ainda faz pior
- Argumento é tão ridículo que darão por vós a rir-se da improbabilidade das situações
- Consegue ser um tédio


Próximo Filme: "The Theatre Bizarre", 2011

domingo, 2 de março de 2014

"Double Vision" (Shuang Tong, 2002)


Huang Huo-tu (Tony Leung Ka Fai) cometeu um pecado capital. Ninguém denuncia corrupção dentro do próprio serviço. É embaraçoso para a entidade, é desconfortável para todos e o mais provável é levar com uma despromoção. A Huo-to os princípios não lhe serviram de muito. Deixou de ser um detective e foi transferido para a unidade que lida com os estrangeiros e fronteiras. Uma das actividades mais pequenas e humilhantes para quem tem a formação de Huo-to e, onde, esperam, que não levante mais a voz. Fica quietinho que estás bem assim. Ah e, junte-se a isto uma esposa insatisfeita que quer o divórcio e uma filha traumatizada para completar o caos que é a vida pós “boa acção vira-se contra o próprio”. O que Huo-to não precisa é de mais complicações. É precisamente isso que sucede quando um serial killer começa a atuar no território e é chamado Kevin Richter (David Morse), um agente do FBI americano no papel de consultor para a resolução do caso. Huo-to é designado como interlocutor entre as duas agências, um papel que na realidade ninguém queria desempenhar. Os colegas não parecem mais interessados em desvendar o caso do que em abafá-lo e Kevin não é visto como mais do que um americano arrogante que foi convocado para fazer figura para os media.

Desconfio fortemente que “Double Vision” tinha como público-alvo o mercado estrangeiro como atestam, quer o trailer com enfoque no actor americano quer por uma narrativa com laivos de filme noir americano. Digo laivos porque a dada altura a narrativa muda numa direcção completamente diferente, com elementos religiosos do Taoísmo e da superstição a tomarem o leme. Um policial para os agarrar, um mistério sobrenatural para os prender. Normalmente, seria tentada a dizer que a mudança radical constituiria o problema do filme mas, neste caso, é o que o torna tão diferente dos demais e até, interessante. “Double Vision” não se demarca de Taiwan, da religião praticada e das suas pessoas, abraçando, antes, a sua cultura. A parelha de polícias não segue a fórmula, já que qualquer dos personagens é inteligente e simpática o suficiente para nos preocuparmos com o que lhes acontece ainda que, estranhamente, Morse sobressaia sobre o actor local Leung Ka Fai. É recomendável que considerem a parelha Chan/Tucker de “Rush Hour” (1998) o oposto do que irão visionar. Aliás, “Double Vision” encontra-se mais próximo de um “Seven”(1995), com o seu ritmo lento e mortes cuidadosamente orquestradas.
As discussões entre o supersticioso Huo-To e o polícia prático que apenas acredita em provas empíricas demonstram que “Double Vision” é tudo menos acéfalo. Em duas linhas de diálogo percebemos quem são os personagens: Huo-to tem demasiada bagagem para não acreditar que tudo acontece por um motivo e Kevin já viu tanto que se recusa a acreditar que o pior na Terra não é o ser humano. Richter é orientado para o resultado e não percebe as nuances culturais que condicionam uma rápida resolução, enquanto Huo-to o tenta fazer compreender este facto sem entrar por território que já não é o seu. Ele é apenas um interlocutor, um interveniente secundário numa sucessão de crimes atrozes e com uma ligação obscura a uni-los. Infelizmente a personagem de Morse não tem história a acompanhar o cinismo manifesto. Apenas podemos supor. E por falar em suposições, de modo algum conseguimos adivinhar o caminho que “Double Vision” irá trilhar desde que surge no ecrã um recém-nascido com duas pupilas no mesmo globo ocular. “Double Vision” alterna entre o visceral e a subtileza a todo o momento que apenas peca pelo ritmo lento e um desfecho inferior ao crescendo que o antecede. Três estrelas.

O melhor:
- David Morse
- Imprevisibilidade da estória
- Cinematografia
- Criatividade das mortes

O pior:
- Complexidade da estória. Demasiados sub-enredos.
- Elemento sobrenatural
- Desfecho


Realização: Kuo-fu Chen
Argumento: Kuo-fu Chen e Chao-bin Su
Tony Leung Ka Fai como Huang Huo-tu
David Morse como Kevin Richter
Rene Liu como Ching-fang
Leon Dai como Li Feng-bo
Wei-hanHuang como Mei-Mei


Próximo filme: "Sawako Decides" (Kawa no soko kara konnichi wa, 2009)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

“Zombie 108”, (Z-108 qi chen, 2012)


Diz que é o primeiro filme de zombies a sair de Taiwan. Diz que nunca de lá devia ter saído.

Sabem aqueles filmes que, passados 15 minutos de visionamento nos questionamos sobre o nosso juízo quando decidimos ver aquilo? Este é um desses infelizes casos. Oitenta e oito minutos de sofrimento atroz. E nem é como se estivesse a tentar ter piada. “Ah e tal mas ele não é nenhum Romero!” - realizador de praticamente todos os grandes filmes de zombies do século XX. Pois não. Mas infelizmente também não chega aos calcanhares de um Edgar Wright (“Shaun of the Dead”, 2004). A melhor descrição que encontrei desta trapalhada foi “AVISO: PODE PROVOCAR DISSONÂNCIA COGNITIVA, à medida que começam a surgir pessoas do nada, sem qualquer tipo de contextualização. Os efeitos secundários incluem desconforto, cefaleias, o vómito, diarreia, convulsões, breves episódios psicóticos ou ódio extremo por este filme.” – Tradução de excerto da crítica do site Quiet Earth.
Podia e provavelmente devia quedar-me por aqui mas não sou pessoa de dar a outra face. E se este filme me deu um bofetão, daqueles com direito a deixar os dedos bem marcados por umas horas na cara, não me deixo abandonar o barco sem vos explicar porque deverão evitar esta desculpa de filme.
Instantes iniciais, cena típica: uma mulher acorda após um acidente de carro, o companheiro morto ao lado e a filha desaparecida. Após vaguear pelo Carrefour local ( uma das várias marcas infelizmente contempladas com o foco especial da lente do Chien), Linda (Yvone Yao) chega à conclusão que está rodeada de zombies. E a audiência chega à conclusão que ela não sabe correr. Assim que sai do hipermercado encontra logo a filha Chloe. A partir desta cena mais ou menos com poucos recursos, que copia todos os lugares-comuns existentes, incluindo os tais mamilos proeminentes (até sugeria que a pobrezinha estava com frio mas se estava com uns calções ultra curtos...) “Zombie 108” é sempre a decair.
Não há nada que descreva com justiça aquilo que vi. Apenas posso fazer uma tentativa débil. "Zombie 108" é uma sequência orgíaca de lesbianismo, sexo, apalpões, longos close-ups de mamas e rabos, mais alguma acção, entrada e saída de actores vários, estrangeiros; depois gangsters e polícias, lutam todos entre si, algures lá se decidem a combater os zombies, seguem-se mais personagens aleatórias, morrem personagens aleatórias, entra tarado sexual que inicia uma sucessão de violações, humilhações e sevícias com animais vivos (polvo?), todos os caminhos vão dar ao covil do tarado, entra serial killer, mais escaramuça, depois é a vez de entrar em cena um monstro. E, acreditem que por essa altura já me encontro num estado de estupefacção. Pelos vistos o orçamento do filme foi suportado por cerca de 900 pessoas demasiado generosas. Tipo, eu bater à porta da produção exigindo que me devolvessem o dinheiro. Com que argumentos é que enganaram essa pobre gente? Ah, o realizador e o produtor interpretam respectivamente os papéis de tarado sexual e gangster. É uma desculpa para abusarem e apalparem repetidamente as actrizes que obviamente são todas modelos? É que não há nenhuma gorda no filme. Nem sequer surge uma actriz com uma aparência “vulgar”. É bruto, feio, sujo e misógino. Os zombies? Um pretexto para se rodearem de mulheres lindas das quais tirar partido por que isto é arte estão a ver? Mas estou em crer que eles, os homens, se divertiram muito. Já agora, alguém me explica os actores americanos? Ou melhor, os péssimos actores americanos? Sendo que um deles, de raça africana, a dada altura larga o fato por uma aparência mais gueto e a atitude a condizer. Alguém disse a palavra estereótipo? Um dos muitos problemas neste filme de acção/terror/sexploitation é não ter uma identidade claramente definida. É uma mixórdia de ideias, todas as que tiveram provavelmente, que foram agrupadas de modo caótico. Se alguém me dissesse que “Zombie 108” era uma comédia ficava surpreendida. Mais depressa me punha a chorar baba e ranho, de tão mau. Até os zombies, que dão nome ao filme, deixam muito a desejar. Por entre a péssima caracterização, alguns dos zombies são corredores natos enquanto outros se ficam pelo cambalear típico. Decidam-se! E os efeitos são ridículos. Órgãos arrancados, sangue e tripas a escorrer que nunca estão em demasia são, a melhor dizer, escassos. E depois há as tretas patrióticas e a exploração das imagens da inocente criancinha. Deve ter daqueles pais que querem que os filhos se tornem famosos embora, “Zombie 108” mais depressa destrua a possibilidade de ela algum dia ter uma carreira do que a construir. A não ser que, que lhe queiram dar mais uns 20 anos e a coloquem num filme de Chien para ele e companheiros abusarem do seu corpo nu como fizeram com as restantes actrizes. Inqualificável. Meia estrela.

Realização: Joe Chien
Argumento: Joe Chien
Yvonne Yao como Linda
Joe Chien  como Tarado Sexual
Jack Kao como Comandante SWAT
Chloe Lin como Chloe
Kevin Lee como Gangster


Próximo Filme: “Zatoichi", 2003


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Seediq Bale: Warriors of the Rainbow" (Sàidékè balái, 2011)




Parece que deste pequeno país à China, com uma passagem pelos EUA, no topo da lista de erradicação de povos indígenas (culpem a televisão), a estória das tribos nativas é marcada por guerra, sangue e morte. “Coexistência pacífica” é uma expressão maravilhosa mas despojada de sentido no mundo real. Quando esta coexistência apelidada de pacífica apenas é alcançada à custa da conquista e humilhação, como se pode, legitimamente, esperar por mais que uma paz podre e uma subserviência que sobrevive alimentada por uma memória que aguarda por uma centelha inflamatória? O modo de vida dos seediq, população aborígene de Taiwan é um de caça, bebida e de guerrear entre si. Originalmente eram cortadores de cabeças e os seus únicos rivais eram eles próprios, recorrendo a pequenas ofensas para satisfazer o capricho de divertimento. O papel da mulher é relegado para segundo plano. O próprio título do filme conta essa mesma história, seediq bale significa algo como homem verdadeiro.  A mulher está lá para o bom e o mau feitio do seu homem de coração quente seediq. A mulher assegura o calor no lar e a amamentação dos filhos. E pouco mais saberemos dela. A personalidade do homem seediq é tão intempestiva e inesperada quanto a natureza.
Enquanto o homem seediq pulula por entre o terreno selvagem e inexplorado de uma ilha muito distante da cidade de edifícios que rasgam o céu, pouco adiante, o povo japonês, civilizado e calculista prepara uma nova demonstração de força. A ilha não é tão importante quanto demonstrar o poderio do império do sol nascente contra toda e qualquer oposição real ou imaginada. Entre a ilha e o povo japonês está Mouna Rudao (Lin Ching-Tai) o irascível líder de uma facção da tribo seediq, o povo aborígene da ilha de Taiwan. Após a invasão que esmaga quaisquer pretensões de domínio sobre as facções rivais, Rudao aprende a refrear o ego, o seu e o dos outros, temendo que qualquer movimento em falso possa acordar a besta nipónica. Ele vive entre o mundo dos vivos e o dos deuses e ele canta os seus divinos senhores como se vivesse naquele mesmo plano. Superior. Além da ponte do arco-íris, onde os pastos são verdes e existe caça para todos. Mas os deuses estão insatisfeitos. Eles clamam pelas glórias do passado, em que os seediq caçavam e esmagavam os oponentes e com as suas cabeças reclamavam qualquer esperança destes transitarem para o outro lado. O povo japonês esmagou a arrogância dos seediq, retirou-lhes as terras e humilha-os constantemente. Sobreviver a troco da dor do conhecimento da superioridade do inimigo? Sobreviver para não lutar por uma última vez? Sobreviver para as gerações vindouras nunca conhecerem o gosto pela caça, nem provarem a sua masculinidade através da morte? Ou estão destinados a sobreviver como uns bêbados, comprados com o vinho do invasor? Não. Os deuses clamam pelo sangue do inimigo e a época em que os Seediq se unem como um só e lutam até ao último homem… E é Mona Rudao, o homem que irá unir, contra o ego e as escaramuças passadas unir o povo dividido. Pela liberdade.
Em “Seediq Bale: Warriors of the Rainbow” existe o mesmo gosto amargo de “Braveheart”, “Apocalypto” e “O Último dos Moicanos”. A sensação de fatalismo, sem entrarmos por considerações históricas está demasiado presente. Não é latente. É manifesta. Umas centenas de homens armados com flechas nada podem contra milhares de militares, os mesmos que viriam a atacar Pearl Harbour e a atrair a ira americana. No entanto, a piedade, por todo o sofrimento que o povo seediq atravessa só é superada pela barbárie que este povo provoca em igual proporção contra o povo japonês. O incidente Wushe de 1930, que provoca a revolta contra o povo japonês, colonos e militares demonstra que numa guerra não há bons nem maus, apenas dor e morte.

As tentativas (pois que são muitas em quatro horas de duração), de se tentar demonstrar o povo seediq como corajoso e valente saem, de certo modo goradas no comportamento bestial e errático do mesmo e na chacina evitável de mulheres e crianças de ambos os lados. Nenhuma canção deste mundo consegue apagar da memória o derrame do sangue dos inocentes. E por tudo quanto resultou tal incidente e a temível, brutal e esperada reacção japonesa que diminuiu grandemente a população seediq, não deixa de ser irónico que no século XXI, sob o jugo chinês, numa “Taiwan civilizada” os aborígenes sejam ainda em menor número. Três estrelas e meia.

Realização: Te-Sheng Wei
Argumento: Te-Sheng Wei
Lin Cing-Tai como Mona Rudao
Masanobu Andô como Genji Kojima
Umin Boya como Temu Walis

Próximo Filme: "Sex is Zero 2" (Saek-jeuk-shi-gong-ssi-zeun-too,  2007)

domingo, 15 de abril de 2012

"Silk" (Gui si, 2006)



Até no cinema existe a chamada “injustiça crónica”. Seja por distribuição incompetente ou a incompreensão de um conceito de terror e de ficção científica que não o estabelecido, certas obras nunca obtêm o sucesso e respeito que merecem. O filme taiwanês “Silk” não está isento de falhas, mas não reconhecer a sua premissa singular é um erro tremendo.
O argumento parte de um pressuposto simples: “E se fosse possível capturar um fantasma?”. Localizada em Taiwan, uma equipa de cientistas, liderada pelo enigmático Hashimoto (Yôsuke Eguchi ) capturou uma criança fantasma num prédio com a sua criação, a Esponja Menger. Esta tecnologia funciona como uma espécie de buraco negro. É capaz de desafiar a gravidade e até capturar a energia espectral, conseguindo aprisionar espectros. O desenvolvimento da tecnologia também permite ao olho humano, visualizar fantasmas. Esta equipa opera sob um manto de secretismo, a mando do Governo Japonês, que financia o projecto mais pelas vantagens economicistas e bélicas. Apenas Hashimoto demonstra o desejo obsessivo de compreender a vida após a morte e até, se possível, entender como a replicar. Para tal, contrata Tung (Chen Chang), um sniper com a habilidade especial para ler lábios de modo a descobrir mais informações sobre o fantasma. A sua entrada causa um conflito no seio da equipa, que vigia 24 horas por dia, o fantasma enclausurado num quarto. Su (Barbie Hsu) teme pela descoberta e até roubo do trabalho que fizeram até ali e vê Tung como um elemento invasor.
“Silk” explora, no mínimo, a possibilidade de uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo espectral. Há muitas variáveis interessantes a esse propósito. Dá como certa a existência de uma sobrevivência residual após a morte e vai mais além, admitindo que podemos ver e até comunicar com os mortos. E que mundo de oportunidades se expande. E se pudéssemos comunicar com os nossos tentes queridos depois da morte? E se conseguíssemos explicar alguns mistérios irresolúveis pelos vivos? E se existisse a capacidade de prolongar a vida após a morte? Tung envolve-se emocionalmente com a estória da criança fantasma pois ele próprio está a passar por uma fase de sofrimento. A sua mãe, que sofre de esclerose múltipla encontra-se num estado de coma permanente. E se ele a puder, afinal, salvar? A doença da sua mãe, também está a afectar a sua relação com Wei (Karena Lam), pois ele não considera justo assumir uma relação com ela, quando tem a responsabilidade de cuidar de uma pessoa doente. O seu conflito é habilmente explorado por Hashimoto que põe a sua agenda pessoal acima das possibilidades científicas da descoberta. Tung é devido à sua situação pessoal movido por questões de piedade do que de interesse pessoal. Como é que aquela criança se tornou um fantasma? Por que está sozinho e não fez a transição para outro estado?
A ciência por trás da descoberta não é demasiadamente explorado mas não é esse o móbil do filme. No entanto, não deixa de ser uma hipótese interessante para possuirmos uma perspectiva única sobre o mundo dos espectros. Durante a maior parte do filme, há a invulgar perseguição das passadas do fantasma e não uma série de sustos provocados por uma qualquer ofensa que os vivos lhe tenham efectuado. Com a mudança de foco há uma pequena desilusão, pois cai-se em todos os lugares-comuns, de fantasmas que surgem nas situações mais estranhas e perseguem certos humanos nem se compreende bem porquê. “Silk” passa pelos estados de terror, ficção científica, thriller e drama, como se o ensejo de agradar a todas as audiências fosse superior ao de manter uma estória coesa. Contudo, a espaços, qualquer dos géneros funciona brevemente, seja com os instantes iniciais de um encontro inesperado com uma presença feroz, a explicação do funcionamento da Esponja Menger, a perseguição de um fantasma enfurecido e as estórias dramáticas que acompanham quer o menino fantasma quer Tung, induzindo a audiência a sentir compaixão por ambos. Subjacente a tudo isto está uma linha de seda, uma linha apenas visível devido à tecnologia desenvolvida pela equipa secreta que permite ver onde começa a ligação dos mortos aos vivos. Pena que a linha da coesão esteja demasiado emaranhada no desejo de agradar a todos. No entanto, não deixa de ser uma lufada de ar fresco no género de terror e ficção científica do cinema taiwanês e, porventura, mundial se, se atreverem a procurar tal gema no extremo oriente. Três estrelas e meia.
Realização: Chau Bin-su
Argumento: Chau Bin-su
Chen Chang como Tung
Yôsuke Eguchi como Hashimoto
Karena Lam como Wei
Barbie Hsu como Su
Bo-lin Chen como Ren
Chun-Ning Chan como Mei
Kuan-Po Chen como criança fantasma

Próximo Filme: "Poetry"

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"Good Will Evil" (Xiong Mei, 2009)

Sabem aqueles filmes que quando acabam de ver não têm reacção? É do género: "ah, já acabou?" "Good Will Evil" é assim. Começou bem mas lá para o final quase que tive de me beliscar para ver se sentia algo. Aliás, comecei esta apreciação sem saber o que vos dizer. É que é assim indiferente estão a ver? Não amo este filme mas também não me provoca emoções negativas por aí além. "Good Will Evil" é uma película de 2009 com Terri Kwan que temos oportunidade de (re)ver desde "The Heirloom". Terri interpreta Yi-hsi, mulher de Wen Cheng (Leon Dai), um político local que para bem da sua carreira política decide adoptar uma criança. Dá-lhe aquele ar de homem do povo estão a ver? Ah e também para fazer companhia à sua mulher que passa tanto tempo sozinha enquanto ele "trabalha" que corre o risco de criar macaquinhos no sotão. A criança escolhida é Tien (Cindy Chi Hsin-Ling), a primeira criança que se lhes esbarra no caminho. Literalmente. Como isto de escolher logo à primeira nunca dá bom resultado, Yi-hsi põe em causa a sua decisão logo que começam a aparecer bonecas desmembradas e a menina resiste aos seus mimos. Até aqui nada de muito diferente, até bem parecido com o filme "Acácia", embora o novelo se desenrole de maneira muito diferente. Agora a sério, o que é que se passa com os asiáticos e os novelos de lã vermelhos?
Durante bastante tempo interrogamo-nos sobre a mensagem que nos estão a transmitir: será que Tien é a semente do demónio, será que ela tem uma boneca assassina ou é um espírito que a acompanha. A resposta, seja ela qual for, será sempre insatisfatória. "Good Will Evil" caminha a passos lentos mas precisos na construção de um grande clímax e quando este chega é tudo menos climático. Os personagens também não são likeable. Terri interpreta uma personagem vulnerável e até um pouco parvinha num intenso conflito em torno da maternidade e do seu próprio passado. Se consegue transmitir o conflito interno de Yi-hsi, também é verdade que a sua subserviência e ausência de reacção às tiradas do marido são irritantes. Já Wen Chen é egoísta, vicioso e todos os aqueles adjectivos que uma mulher nunca gostaria de atribuir ao seu marido. Será que foi o primeiro homem que lhe apareceu à frente? De qualquer modo, se a ideia do argumento era que a audiência criasse uma imagem tão má de Wen Chen os meus parabéns, conseguiram. Não tenho grande coisa a dizer de Tien a não ser que ela é adorável. (Aparte: ai como lhe apertava as bochechinhas mimosas!) Já a quantidade de falas que ela tem não é gigante para que pudesse fazer um estudo do desenvolvimento da personagem. Mas admito que ela puxa as lágrimas com facilidade.
A ínicio adorei o pormenor da música "Twinkle Twinkle Little Star" em versão desconcertante. Com o tempo a repetição perde o efeito. Também o contexto do seu surgimento podia ter sido melhor explorado. A dupla de realização Yu-fen Lin e Ming-chan Wang podia ter dado lugar a algo de único ou de extraordinário em "Good Will Evil" só que foi apenas uma oportunidade perdida. Na película nada existe de memorável. E acredito que daqui a umas semanas não me irei recordar deste filme. Forgettable to say the least. Uma estrela e meia.


Realização: Yu-fen Lin e Ming-chan Wang
Argumento: Jin Han
Elenco:
Terri Kwan como Yi-Hsi
Cindy Chi Hsin-Ling como Tien
Tammy Chen como Chung Li-hsin
Leon Dai como Tseng Wen-cheng
Lu Yi Ching como mãe de Chung Li-hsin 

Próximo Filme: "The Host" (Gwoemul, 2006)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

"The Heirloom" (Zhaibian, 2005)

"The Heirloom" abre o jogo nos primeiros segundos de filme. O pensamento dos cineastas deve ter sido algo do género: "Para quê tê-los a adivinhar? Vamos mas é pô-los já a salivar desde o início".
Assim, temos direito a uma frase introdutória que nos fala no "Hsiao guei" uma prática com raízes no folclore chinês que significa, literalmente, criar crianças fantasma. Há quem acredite que as crianças fantasma possuem grandes poderes e podem trazer grande fortuna a quem as possuir. Então, são venerados fetos humanos dentro de urnas... Para quem viu "Three Extremes... Dumplings" (2004), a visão não será pior. Contudo, e eu já estava à espera de uma grande partida cósmica, quem os possui também paga um preço muito alto. Podes ter toda a fortuna deste mundo que também terás uma maldição acompanhar-te enquanto viveres. Tão bom.
James (Jason Chang) herda a velha mansão da sua família que morreu toda num suícidio em massa há 20 anos. Que faz ele? Muda-se para lá (esta é a parte em que a audiência faz um suspiro colectivo pensando nos inúmeros filmes que já viu com casas assombradas e abana a cabeça em descrença). Pouco depois, Yo (Terri Kwan) que até há pouco tempo estava decidida a ir para o estrangeiro muda inesperadamente de ideias e vai viver com James. Hey, se o meu namorado herdasse do nada uma mansão gigantesca, na qual não são feitas obras há pelos menos vinte anos, só madeira estragada e tinta das paredes descascada e de ambiente spooky mudava-me já a correr... Ou então não. O casal convida dois amigos Yi-Chen (Yu-chen Chang) e Ah-Tseng (Tender Huang) para visitar o seu novo lar e cedo se precipitam uma série de acontecimentos que ninguém consegue explicar. Pesadelos, perdas de memória, visitas inesperadas e mortes, motivam Yo a investigar o passado da família de James. Por conveniência, uma sobrevivente dos eventos de há 20 anos está internada num asilo ali à mão (onde é que já vimos isto antes?) e estranhamente sã para lhe contar o terrível segredo de família. Não é que seja tudo terrivelmente surpreendente ou não fossem feitas revelações nos primeiros segundos mas, a backstory que é o melhor do filme é mal aproveitada e aqui estou a ser muito simpática.
Também as actuações deixam muito a desejar, Yo alterna entre a corajosa e a parvinha, ora faz o que quer ora subitamente a opinião de James já lhe interessa para alguma coisa. Apesar disto, Yo acaba por ser o melhor do filme neste campo. Yi-Chen a amiga repórter de Yo é mais forte e tem infinitamente mais presença do que ela mas o papel que recebeu é muito limitado. Quanto a James que é só o elemento catalisador da narrativa é fraco. Nem é só unidimensional, é mau. Numa das cenas finais, vemos Jason Chang a puxar todo o dramalhão de novela do horário nobre que tem dentro de si. A acção torna-se involuntariamente ridícula, o que não pode ser bom, sobretudo se tivermos em conta que é Terri Kwan que possui experiência profissional em novela. É ainda de salientar a mestria do cinematógrafo Kwan Pun-leung que cria alguns frames imaginativos num filme de outro modo aborrecido no campo das ideias. O mundo das cores, os jogos de sombras em conluio com uma música romântica conseguem tornar a mansão uma visão assustadora. Só é pena que "The Heirloom" pareça melhor (a nível visual) do que na realidade é. Infelizmente, se o cenário está e bem montado, falta-lhe argumento e cenas de sustos eficazes. É tudo muito previsível, fácil e barato. Mãos que surgem de repente, breves close-ups, sabem a pouco e não conseguem montar a tensão necessária para um filme que se diz de terror. Também as mortes são fracas, falta-lhes ímpeto e pior, não têm plausibilidade. Não aquecem nem arrefecem. O realizador Leste Chen vindo do mundo dos videoclip pop asiáticos é competente embora não pudesse ter feito muito mais com o material que lhe foi dado para trabalhar. Não está mal para uma estreia mas também podia ser melhor. Duas estrelas.


Realização: Leste Chen
Argumento: Dorian Li
Elenco:
Terri Kwan como Yo
Jason Chang como James
Yu-chen Chang como Yi-Chen
Tender Huang como Ah-Tseng
Próximo Filme: "Harry Potter and the Deathly Hallows", 2011
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