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domingo, 7 de junho de 2015

"Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)


A morte é gira, anda de fato, faz incursões pela Terra para ir buscar as suas vítimas e não, não se chama “Joe Black”. Esse é o filme de 1998. No caso presente, a personagem da Morte (e ele encarna-a tão bem), pertence a Takeshi Kaneshiro numa versão ingénua e doce.
Ele é conhecido por Chiba e é um dos enviados especiais para os assuntos da Terra relacionados com vida e morte. O procedimento é tão eficiente quanto simples. Abre-se um portal para o deixar transitar para o mundo dos vivos, introduz-se na vida da pessoa que lhe foi indicada e, em pouco tempo, terá de tomar uma decisão sobre a sua existência. O seu único companheiro, nesta tarefa solitária a maior parte do tempo é um cão negro que comunica com ele através da telepatia e sabe, e viu, muito mais do que ele. Ele faz de juiz e carrasco das pessoas que lhe são indicadas até que conhece Kazue Fujiki (Manami Konishi), uma jovem mulher triste que abraçaria com prazer uma morte precoce. Passam alguns anos Chiba é inserido numa estória sórdida que envolve um órfão que perdeu o norte e a máfia japonesa (yakuza). A sua terceira missão, mais calma, revolve uma cabeleireira que pretende cumprir um último desejo antes de transitar para o outro lado.

O questionamento sobre o sentido da vida não é a ideia mais brilhante ou mais original que já perpassou pelo cinema. A abordagem à temática já batida é o mais interessante. Doce como indica o título. Ao contrário de “Meet Joe Black”, “Sweet Rain” não se detém numa estória e tenta espremer todo o melodrama patente na realização de um romance impossível. “Sweet Rain” foca-se nas nuances, na sugestão ténue de um amor e apontamentos cómicos que não destoam com a seriedade da morte. Conhecido pela sua eficácia, Chiba questiona pela primeira vez a facilidade com que aceita o destino tal qual este lhe é apresentado. Perante uma situação de desespero, ao invés de aceitar com facilidade a morte como a única opção possível, sente um pesar pela incapacidade de realização do potencial da vítima. Sentimento que lhe era até então estranho. Caracterizado como convém a cada missão (atente-se ao vestuário questionável e penteando chunga na segunda missão ou a aparência de membro de uma boyband na última), ajudado pela sua boa parecença (pois que as pessoas estão mais predispostas a confiar em quem consideram bonito) e uma inocência que é mal julgada como humor, os personagens acabam por confiar com facilidade no estranho.

Chiba é intemporal mas é uma criança. Como se a existência como mensageiro da morte, fosse ela própria uma aprendizagem. Chiba atravessa três épocas diferentes e, a cada uma delas, as suas decisões vão se tornando menos extemporâneas, à medida que a sua compreensão das suas acções se aproxima de algo cada vez mais parecido com clareza. Também é comum o sentimento de melancolia a que não é alheia a selecção musical e que impacta ela própria as personagens. Para Chiba é uma das maiores criações da humanidade, para outras personagens significa dor, nostalgia ou catarse. Em simultâneo, Chiba lamenta o facto de as suas missões serem sempre acompanhadas de chuva. Irá ele ver um dia de sol?
“Sweet Rain” é bem carregado pelos ombros experientes de Takeshi Kaneshiro. À semelhança de outras grandes estrelas de Hollywood ele foi abençoado e amaldiçoado por uma aparência que faria pensar que é pouco mais uma face gira que será ultrapassada em breve pelas gerações mais novas e, tão parcas em talento quanto ele. Nada podia encontrar-se mais longe da verdade. “Sweet Rain” é como um calmo dia de chuva. Possui vários acontecimentos de elevada gravidade, no entanto, estes nunca são capazes de provocar reacções de choque. No final, permanece a sensação de que ar ficou mais leve, acompanhado de um aroma doce. Tal doçura pode ser atribuída ao desempenho sólido, mas subtil de Kaneshiro e de Manami Konishi e Sumiko Fuji em curtas aparições, que parecem querer dizer para a audiência olhar ao todo e não a cada uma das partes. Três estrelas e meia.

O melhor:
- O desempenho do elenco
- Uma nova abordagem a um tema muito explorado

O pior:
- Inexistência do factor uau que pode provocar algum aborrecimento
- Sentimento de que “Sweet Rain” nunca pretende ser pouco mais do que bom

Takeshi Kaneshiro como Chiba
Manami Konishi como Kazue Fujiki
Sumiko Fuji como Junko Fuji
Mitsuru Fukikoshi como Kentaro Oomachi
Takuya Ishida como Shinji Akutsu
Ken Mitsuishi como Toshiyuki Fujita
Jun Murakami como Aoyama
Erika Okuda como Takeko

Próximo filme: "13 Beloved" (13 game sayawng, 2006)

domingo, 26 de abril de 2015

"Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)


Trailer, poster e créditos iniciais vendem um mistério aquático. Com duas horas em excesso, a verdade revela-se bem menos interessante. 

Num dos mergulhos de rotina ao profundo azul, a Dra. Gao Jing (Angelica Lee) perde-se do amado Dave Chen (Xiaodong Guo). Ela acaba por emergir com Chen Xiao Kai (Isabella Leong), a irmã deste, mas nunca mais volta a vê-lo vivo. Quando um cadáver é recuperado Gao Jing recusa-se a acreditar que o corpo encontrado seja dele. Sem memória do que sucedeu debaixo de água, ela aceita submeter-se a uma sessão de hipnotismo com o Dr. Edward Tong (Tony Ka Fai Leung) para descobrir a verdade. Desesperada com a perspectiva de nunca mais ver Dave, Gao Jing decide deixar-se enredar na aura de mistério que envolve Simon (Chen Chang), um dos seus pacientes, convencido que é assombrado pela namorada morta. Esta descrição é uma súmula rápida e simplificada desta não descomplicada película. Podem agradecer-me mais tarde.

Os créditos iniciais brindam-nos com uma paisagem costeira fabulosa. De facto, se algum elogio é totalmente merecido é o de uma cinematografia maravilhosa. Atente-se à magnífica utilização do azul do oceano. As cenas de mergulho impecáveis parecem saídas de um documentário da National Geographic. Já fora de água e estas cenas estão em maioria, existe com frequência um apontamento de azul para fazer recordar a tragédia que agora se investiga. A paixão pelo mergulho e pela fotografia aquática foi o que uniu Gao Jing e Dave, acabando por ser também, por ironia do destino, aquilo que os separou.
“Missing” descreve na perfeição esta obra de Tsui Hark. Mais do que um desaparecimento, falta-lhe toda uma variedade de decisões que o podiam ter tornado bastante superior. Em primeiro lugar, a decisão da edição. Tsui Hark é enxergado com reverência por filmes como “Once upon a Time in China” (1991) que recuperaram os clássicos de artes marciais com um ainda jovem Jet Li ao leme. E parece ser neste género onde se encontra a sua área de conforto (veja-se “Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame” de 2010) e, com toda a fraqueza, o melhor local para empregar os seus talentos. Quando sai do género parece perder toda a confiança, caindo na armadilha do familiar. “Missing” também não tem problemas com uma linearidade excessiva do argumento. Antes pelo contrário. Peca por querer parecer mais perspicaz e complexo do que na realidade é. Anunciado como um mistério, deambula entre o thriller sobrenatural e o drama romântico até perto das duas horas em que estabiliza, por fim, na opção menos excitante das duas. Extirpado dos inúmeros subenredos que incluem Chen Xiao Kai, do Dr. Tong (Isabella Leong e Tony Leung Ka Fai inutilizados até à infelicidade) e de Simon, “Missing” seria de mais fácil compreensão e não perderia nenhuma qualidade. Fosse um mistério criminal, seria interessante explorar a vertente da amiga com uma paixão proibida, o terapeuta rejeitado ou o paciente com uma visão mais lúcida que a dos que o rodeiam. Faltam ideias, sejam elas quais forem!
 Já para Angelica Lee é mais do mesmo. Ela está habituada a ser a protagonista para as neuroses do marido Oxide Pang Chun em “The Eye” (2002), “Sleepwalker 3D” (2010), entre outros e, faz tudo o que lhe pedem, ainda que isso signifique observar o vazio durante segundos mais que o necessário. O que me leva à constatação óbvia, para quem já visionou quase toda a obra dos irmãos Pang, que “Missing” parece uma cópia descarada, da actriz principal às reviravoltas da dupla. O que em si, se não é completamente ético podia ao menos resultar numa experiência de visionamento agradável. Está presente a devida homenagem com a icónica cena do elevador assombrado (reinventada por Tsui Hark, claro), existe uma Angelica Lee chorosa (quantas lágrimas já ela verteu), o recurso à imagem gerada por computador com uma qualidade tão duvidosa e inesperada que é de bradar aos céus, e mais do que um final… Para quem almejou tanto, “Missing” é de um vazio atroz. A imagem é na maior parte impressionante, desde uns créditos iniciais que passeiam por entre escarpas costeiras ou a calmaria da fauna oceânica. A questão que se coloca é se estão dispostos a perder duas horas de vida para ver uma estória absurda a despeito das imagens bonitas quando há muito melhor oferta. Duas estrelas.

O melhor:
- Cinematografia e as paisagens naturais

O pior:
- O argumento
- Efeitos digitais
- Banda-sonora
- Os três desenlaces diferentes

Realização: Tsui Hark
Argumento: Tsui Hark e Ho Leung Tau
Angelica Lee como Dra. Gao Jing
Isabella Leong como Chen Xiao Kai
Chen Chang como Simon
Xiaodong Guo como Dave Chen Guo Dong
Tony Ka Fai Leung como Dr. Edward Tong

Próximo Filme: "The Second Sight", Chit sam phat 3D (2013)

domingo, 24 de novembro de 2013

"Ong bak 2: The Beginning" (Ong bak 2, 2008)


O Tony Jaa é o mais próximo de uma marca que o cinema tailandês de artes marciais possui. Quando se assiste a um filme deste lutador de Muay Thai já se sabe o que vai acontecer: pancadaria de quebrar ossos, ínfimas sequências de acrobacias fantásticas em slow motion, diálogos pouco a nada elaborados e a inexistência de uma espécie de estória coerente.

Uma dezena de filmes passados, Jaa ainda parece uma criança a quem os pais compraram pela primeira vez uma câmara de filmar e não sabe se agir de um modo natural ou representar (o que quer que isso signifique), em frente à objectiva. Uma inocência que contrasta com o físico invejável de um homem adulto, muito além de algumas horas de trabalho intensivo e da ida ocasional ao ginásio. E se bem que a sua face projecta boa vontade, perante a ameaça o corpo já de si tonificado transfigura-se, avoluma-se e enrijece. À semelhança de um dos seus ídolos, Bruce Li, que de homem franzino a máquina destruidora de homens bastava a ofensa de um vilão. O menino não brinca em serviço.
“Ong bak 2: The Beginning” é uma “falsa” sequela, nada tendo em comum com a película anterior, à excepção do actor principal. Nessa obra, Jaa interpretava um jovem aldeão que parte para a cidade em busca do “ong bak” uma estátua sagrada intimamente ligada à vitalidade da aldeia, roubada por traficantes pouco escrupulosos. “Ong bak 2: the Beginning” ocorre no século XV no momento em que várias facções lutam pelo poder do território. Os pais do jovem príncipe Tien (Tony Jaa) são traídos e assassinados por Rajasena (Sarunyoo Wongkrachang), um nobre sedento de poder, para quem aqueles últimos constituíam apenas um empecilho na sua luta por domínio absoluto. Tien escapa à morte mas vê-se nas mãos de traficantes de escravos que, entre outras coisas, o atiram para um fosso com um crocodilo. Chernang (Sorapong Chatree) o líder de um grupo guerrilheiro compadece-se de Tien e acaba por criá-lo como seu próprio filho. No seio de um grupo de homens perigosos, Tien mune-se das armas necessárias a uma vingança implacável. O tempo é seu amigo.
A mudança radical de perspectiva não oferece nenhuma melhoria face ao “Ong bak” original. A narrativa era simples, mas facilmente se criava empatia com a aldeia em desespero e se torcia pelo único homem responsável pela operação de resgate. Com as mãos na realização, argumento e papel principal, Jaa assume demasiado controlo e dispersa-se daquilo que as audiências querem ver dele: cenas de luta altamente intricadas. Se extraímos um confronto no qual um elefante é um figurante involuntário da acção que Jaa utiliza a seu aproveito para defesa e contra-ataque ao seu oponente. Como o elefante se manteve sereno perante a acção é um mistério. Menos impressionante é o facto de os confrontos de Jaa recorrerem mais à magia do cinema do que à fisicalidade dos seus interpretes. Onde a acção de “Ong bak: The Thai Warrior” era crua e dura, nesta encarnação é mais graciosa e mais dada a proezas impossíveis sem o recurso a artefactos externos. Se considerarmos que a plausibilidade e dureza do primeiro filme que o tornavam original, por oposição ao exército de filmes de artes marciais exportados de Hong Kong foi o que atraiu tantos e tantos cinéfilos por este mundo fora, não deixa de existir um sentimento residual de traição. Também o humor é deixado para trás. Nada há de slapstick que tornava Jaa tão encantador em primeira instância. Um jovem tão ingénuo e predisposto a acreditar na bondade que dos que o rodeavam que tal redundava em ser sucessivamente enganado até que alguém, derretido pelo seu bom coração o auxilia a recuperar o ong bak.  E bem que necessitava dessa dose de simpatia pois sem ela, Jaa não é o que se possa denominar carismático, necessita absolutamente de aulas de representação e também é o que se possa chamar de palmo de cara.

Mas se há acusação que ninguém pode levantar contra “Ong bak 2: The Beginning” é o de que o cenário histórico e natural da Tailândia não é bem utilizado. Existem confrontações nas clareiras das densas florestas, por entre os monumentos e em águas infestadas de crocodilos. Por tudo isto, fica a triste sensação que “Ong bak 2: The Beginning” nunca chegou aos calcanhares daquilo que poderia ter sido não chegando sequer ao patamar da homenagem que o predecessor merecia. Dos fracos não reza a história… Duas estrelas e meia.
Realização: Tony Jaa e Panna Ritikrai
Argumento: Tony Jaa, Panna Ritikrai, Ek Iemchuen e Nothakorn Thaweesuk
Tony Jaa como Tien
Sarunyoo Wongkrachang como Rajasena
Sorapong Chatree como Chernang
Primorata Dejudom como Pim
Nirut Cirichanya como Mestre Bua

Próximo Filme: "Kiss me, Kill me" (Kilme, 2009)

PS: O Tony Jaa e o seu físico impressionante.

domingo, 10 de março de 2013

"Death Bell" (Gosa, 2008)


Há poucos cenários com maior potencial para o macabro e tenebroso que uma sala de aulas coreana. A ambição desmedida e alta competitividade são lugar-comum neste sistema educacional. É um lugar onde ser bom não chega. Ser bom não é suficiente para receber um elogio. Ser bom é apenas um motivo para se ser encorajado a fazer mais e melhor. O objectivo é ser o melhor da turma e, depois disso, o melhor da escola. A meta: chegar às universidades mais prestigiadas para aceder aos melhores cargos. Menos que isso é um fracasso. Que tal isto para pressão? “Death Bell” inicia-se num desses períodos extenuantes. Os alunos já se encontram na recta final de exames mas existe ainda um último desafio antes das férias de Verão: um grupo de estudantes ingleses vai visitar a escola e dois professores têm a tarefa de preparar os vinte melhores alunos da escola, uma elite excepcional, para impressionar os visitantes. Eis que quando todos já saíram para aproveitar as férias e os escolhidos iniciam mais uma série de exames toca a campainha da escola e a televisão da sala liga-se. Uma das alunas está num tanque que se está a encher rapidamente de água. Nas paredes do tanque uma equação. Uma voz sobrehumana dita as regras: eles terão de resolver a equação ou a rapariga morre. Se tentarem sair da escola morrerão. E com o desaparecimento dos telemóveis e corte de comunicações estão impossibilitados de contactar o exterior… Parece urgente o suficiente?

“Death Bell” segue a tradição de armadilhas extremamente elaboradas à la franchise “Saw”, onde os protagonistas estão bem cientes das consequências do fracasso em concretizar as “instruções”. Há um enorme engenho por trás das mortes e “Death Bell” é um dos poucos filmes de terror que felizmente não cai no habitual truque do fantasma vingador. Há alguém realmente inteligente e maléfico a planear o esquema tenebroso, o que é capaz de ser, a meu ver ainda mais assustador. De facto, toda a encenação por trás das mortes recorda “Bloody Reunion”, um filme bastante superior em termos de enredo mas não menos importante pelo impacto visual. “Death Bell” foi realizado por um homem do mundo dos videoclipes e é para a imagem que ele tem apetência, não nos iludamos. Por que sim, persiste a tradição de personagens idiotas com ideias completamente descabidas: “embora separar-nos?”, melhor ainda, “estamos todos a morrer, embora virar-nos uns contra os outros?” Mas este filme foi criado para servir um público mais jovem. Uma sala de raparigas pré-adultas em uniforme escolar e rapazes capazes de fazer qualquer uma sucumbir ao seu charme masculino contribuem para uma obra que sabe que vive mais da forma que de conteúdo. Entre os principais motivos de atracção para a audiência jovem encontram-se o jovem actor e modelo Kim Bum (eu não disse que quase não há gente feia naquele sítio?) que faz o papel do rebelde Hyeon e a heroína com um bocadinho mais de cérebro que os génios que a rodeiam I-na (Gyu-ri Nam).
Esta última, tão ou mais conhecida pela polémica confrontação pública que opôs a sua agência de entretenimento e os membros da sua ex-banda a ela própria assim como as inúmeras cirurgias plásticas a que se submetem. Ela é o sonho de qualquer cirurgião plástico e um dos principais argumentos a favor da cirurgia estética. Digamos que a vida dela no espectro público foi bastante beneficiada pelas alterações cosméticas a que se submeteu. De destacar ainda a presença da Eun-jung Ham das T-ara num curto mas importante papel. “Death Bell”, com apenas 88 minutos de duração é altamente eficaz a chegar do ponto A ao ponto B. Não se detém em pinceladas dramáticas como tantas vezes sucede no cinema sul-coreano. Apresenta as personagens importantes, quase todas reduzidas ao estereótipo, foca os ataques não mais do que o tempo necessário e concentra-se na resolução da trama. Ora porquanto o como seja extremamente elaborado é o porquê que mais deixa a desejar. Se o motivo está ao alcance de qualquer pessoa com dois neurónios é o quem que mais intriga. A esse respeito, a intransigência da edição será um dos grandes culpados. Há momentos em que as transições de cena são pouco fluídas e apesar de não se perder o sentido, persiste a ideia que um pouco mais de conteúdo teria ajudado a conferir mais sumo à estória. Mas não podemos ser muito esquisitos. Foi uma hora e vinte minutos de diversão que me prometeram e cumpriram. Três estrelas.
Realização: Hong-Seong Yoon
Argumento: Hong-Seong Yoon e Eun-kyeong Kim
Beom-soo Lee como Chang-wook Hwang
Gyu-ri Nam como  I-na
Kim Bum como Hyeon
Yeo-eun Son como Myong-hyo
Eunjung Ham como Ji-won


Próximo Filme: “Clash” (Bay Rong, 2009) 

domingo, 11 de novembro de 2012

"Art of the Devil 3" (Long Khong 2, 2008)



Antes dos filmes “Saw” (2004), se tornarem uma instituição e os filmes de tortura, chamem-lhe torture porn se quiserem, a ver se me importo, já a Tailândia fazia as delícias do mercado interno de terror. É apenas natural que, uns meses após a estreia de “Saw”, o país lançasse “Art of the Devil” que se resume a uma sucessão de cenas de tortura e que catapultou a jovem e bela actriz principal para o estrelato. Mais dois filmes se seguiriam e é o terceiro de que hoje se fala. Não existe a problemática da continuidade pois o primeiro filme é independente dos que o seguiram e o filme de 2008 é a prequela de “Art of the Devil 2”. Curiosamente o terceiro filme foi intitulado Long Khong 2. Confusos? Mas a questão da continuidade nunca seria problemática, uma vez que o foco do filme é a tortura e o que interessa é ter carne viva disponível para o efeito. Quem, pouco importa vai tudo a eito.
Panor (Nakpakpapha Nakprasitte) é a professora sexy que desde que chegou à terreola deixou todos em polvorosa, incluindo um homem que para se casar com ela, chega a envenenar a própria esposa Daun (Paweena Chariffsakul). A morte da mãe e o rápido casamento do chefe de família com a intrusa provoca a desconfiança de todos. Cedo, desenham um plano para ressuscitar Daun e fazer desaparecer Panor, que inclui religião, magia negra e bastante tortura. Está-se bem de ver onde isso vai dar, cenas bastante explícitas de sevícias cruéis. Ok, não são tão dolorosas como, digamos, um vídeo do David Guetta com a Rihanna como guest star mas ainda assim bastante más. E caracterização deixa muito a desejar. "Ora deixa-me cá cortar-te a língua que é um óbvio pedaço de plasticina"... Sem pretender desvendar demasiado, deixem-me só deixar bem claro que “Art of the Devil 3” não é de todo aconselhado a mulheres grávidas ou com enorme sensibilidade no que toca ao seu útero. Mais, há uma cena em particular em que (e eu considero-me já bastante dessensibilizada no que a cenas impressionantes diz respeito), me senti fisicamente doente. Não se metam com o útero de uma mulher. Tipo, essa cena é doentia. No que é que estavam a pensar? 
Bem, cumprem o objectivo de provocar o temor nos espectadores, ainda que por alusão a uma qualquer atrocidade cometida contra a nossa pessoa e não propriamente pelo suspense ou poder da sugestão. A saga “Art of the Devil” concretiza um dos maiores problemas dos filmes de terror do novo milénio. Nada é deixado para a imaginação. O triunfo de inúmeros filmes de terror deve-se à sugestão e não ao que de facto mostraram no ecrã. Mais do que devido à mestria da equipa técnica, o ónus é colocado na curiosidade mórbida do espectador. É ele que se questiona sobre o que se passará fora do alcance da lente. Posto isto, de notar que a bruxaria, se não é algo recorrente para aqueles lados, pelo menos parece que em toda a saga, descobrir um bruxo é tão fácil como ligar ao canalizador. E nem um é vigarista. Todos sabem o que fazer no caminho das artes mágicas negras e todos atingem com sucesso as metas que os clientes lhes pedem. E o melhor de tudo é que enquanto praticam actos perfeitamente questionáveis, vão avisando que lidar com a magia negra traz consequências devastadoras para quem invocou tais males. Não me digam? O que mais me surpreende nem é a facilidade com que se contratam bruxos mas o facto de haver tanta maldade no coração que se recorre por motivo nenhum a medidas tão extremas quanto essas. Processar não? Pintar as paredes do malfeitor com graffiti? No máximo, uma bofetada ou uma ameaça de morte? Não? Eles lá sabem. E depois, existindo ofensas tão graves contra a família é assustador que as pessoas não se importem de colocar os seus entes queridos em risco por algo que foi feito contra apenas um indivíduo. Um bocadinho egoístas ou retardados não? O que me leva à questão seguinte: não existe um único personagem digno de piedade! Todos são malvados. Todos merecem um mau fim e não é como se alguém se importasse. Se o objectivo é repugnar-nos, "Art of the Devil 3" sucede em todas as frentes: ele há sangue, vermes, agulhas enfiadas em sítios pouco naturais, orifícios penetrados e castigados de modo extremamente doloroso… Só não há argumento. Mas não é como se alguém fosse procurar as artes do demónio por causa da estória não é? Uma estrela e meia. 


Realização: Equipa Ronin (Pasith Buranajan, Kongkiat Khomsiri, Isara Nadee, Seree Phongnithi, Yosapong Polsap, Putipong Saisikaew e Art Thamthrakul)
Argumento: Kongkiat Khomsiri e Yosapong Polsap
Nakpakpapha Nakprasitte  como Panor
Sukaporn Kitsuwon como Dis
Paweena Chariffsakul como Daun
Kalorin Supaluck Neemayothin como Pan
Sammart Praihirun como Pravet

Próximo Filme: Roman Polanski: A Film Memoir, 2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"Loner" (Woetoli, 2008)

(Pssst... Filme todo. Aproveitem enquanto é tempo)

Quem quis matar a sede por filmes de terror coreanos em 2008 não teve grandes opções. Houve o brilhante “The Chaser” mas esse é mais rapidamente contemplado na categoria de thriller de acção que em K-horror. “Loner” não vai buscar inspiração muito longe. A Coreia do Sul tem sido apontada, de modo sistemático, como um dos países com a taxa de suicídio mais elevada do mundo senão mesmo a maior. De facto, o suicídio é tão prevalente que os casos ocorridos entre personalidades de sucesso transversalmente aos diferentes sectores de actividade, incluindo, pessoas da indústria do entretenimento e, de quem, se poderia dizer, que tudo tinham para serem felizes são usuais. Neste cenário negro Jae-shik Park ataca o problema do ponto de vista da adolescência, problemática e complexa, susceptível à menor provocação. Após o suicídio da melhor amiga Ha-jeong (Da-in Lee), incapaz de lidar com a extrema crueldade dos rufias da escola, Soo-na (Eun-ah Ko) fecha-se no quarto e isola-se do mundo. À medida que a sanidade mental de Soo-na parece deterior-se o tio Se-jin (Yu-seok Jeong) pede ajuda a Yoo-mi (Min-seo Chae), a sua nova namorada que é psicóloga, para ajudar Soo-na a lidar com a perda e regressar à vida social, antes que esta possa também atentar contra a sua vida.

Se há coisa de que não podem acusar Jae-shik Park é de previsibilidade mas, pelo contrário, o seu argumento dispara, sem contemplações, em todos os sentidos. Em 117 minutos, Park consegue fazer-nos acreditar numa aparição fantasmagórica, numa exploração dramática da síndrome Hikikomori (reclusão em casa), num mistério de suspense e um drama familiar. E como parece que Park tem dificuldade em efectuar escolhas ele opta por todos estes subenredos.
Creio que a audiência não terá um problema com reviravoltas, isso é o mais sucede nos filmes de terror, excepto talvez se for uma produção independente, aí talvez já possamos ansiar por um pouco mais originalidade. Aliás, em termos pessoais (sim, eu tenho opinião), tenho vindo a apreciar o facto de qualquer filme possuir um twist. E se tal não suceder, quase (!) fico desapontada. O que muitos argumentistas parecem não compreender é que a simplicidade pode ser a sua maior vantagem. Nem todos podem aspirar a ser o novo “Oldboy”. “Loner” é apresentado como um filme de terror a não perder quando, retirando, alguns momentos de sobressalto, não é mais que um grande aborrecimento.  Não. “Loner” é um embuste com um grande segredo de família no núcleo que, quando exposto faz de personagens de si já pouco simpáticas, patéticas ou detestáveis. Queiram os bons costumes e uma ânsia de ocultar tudo o que possa culminar numa exibição pública embaraçosa, que se varram os segredos para debaixo do tapete e, desse clima de secretismo, resultem gerações inteiras perturbadas. Deixemos temáticas como o suicídio e a síndrome Hikikomori que tão actuais estão na sociedade e deixemos de lado as virtudes da reflexão social em nome de uma estória bem mais familiar.
Apesar do empenho dos actores, que não é pequeno, já que gritam, choram, esperneiam e recolhem-se dentro de si mesmos a cada momento, “Loner” não podia ser menos excitante. Além disso, tem a desvantagem de suceder a filmes como “Cello” (2005) ou “Cinderella” (2006), que trilharam o mesmo território antes e com resultados igualmente díspares. Tivera mais concorrência nesse ano e talvez nem tivesse ouvido falar de “Loner”, que não é um dos melhores filmes de terror a sair da Coreia do Sul mas, porventura, dos mais deprimentes. Duas estrelas.

Realização:  Jae-shik Park

Argumento:  Jae-shik Park
Eun-ah Ko como Soo-na
Yu-seok Jeong como Se-jin
Min-seo Chae como Yoo-mi
Da-in Lee como Ha-jeong

Próximo Filme: "Waterboys", (Wota Boizu, 2001) 


domingo, 29 de abril de 2012

"The Chaser" (Chugyeogja, 2008)

Eu corro, tu corres, todos correm… No dia-a-dia, isto é. Levam-se vidas stressantes que não conduzem a lado nenhum para se ter um salário ao fim do mês, pagar as despesas e recomeçar tudo de novo. Joong-ho Eom (Yun-seok Kim), um ex-polícia, decidiu deixar de ser bonzinho ou, pelo menos, de fingir e usa os contactos no submundo do crime para se tornar um proxeneta. Talvez esta palavra não seja a mais indicada. Ele é uma espécie de gestor de clientes. Eles ligam-lhe a pedir uma menina, e ele faz o reencaminhamento dos serviços. As regras são simples: elas vão, fazem o serviço, pagam-lhe e ele distribui os “dividendos”, à sua maneira, claro. Só não vale bater nas meninas. Ai deles. Que elas são mercadoria, mas são a mercadoria dele. E não queiram ver um duro, enfurecido. Pois que tudo corre às maravilhas, até que as suas colaboradoras começam a desaparecer. Ele compreende algo que ninguém até ali tinha tido a destreza mental ou vontade de fazer: todas desapareceram depois de ter sido chamadas pelo mesmo cliente. E a última Mi-jin (Yeong-hie Seo), acabou de sair para ir ter com o tipo. Ninguém, tenta roubar as meninas dele. Ou será que a verdade é bem mais aterradora?
Joong-ho Eom é um chulo, um anti-herói. Mas é o único que se importa. No meio de um escândalo que envolve o presidente da câmara de Seul, no qual a inacção da polícia não foi o menor dos males, o desaparecimento de umas prostitutas parece uma inconveniência. Mesmo quando os ex-colegas de Joong-ho começam a acreditar que no caso há mais do que o simples tráfico humano, os meandros da política não os deixam agir de modo eficaz. E Mi-jin continua desaparecida. Cabe a Joong-ho Eom correr contra o tempo antes que seja tarde demais. “The Chaser” é um estudo de personagens, dos papéis que desempenhamos na vida real e da sua importância relativa. Há ainda lugar para uma forte crítica social e política, com as fragilidades da justiça a serem demonstradas em toda a sua crueza. É triste verificar que o bem não surge sem grandes defeitos e que o mal é uma encarnação perfeita de tudo a quanto reservamos aversão. A vida de uma pessoa vale menos por esta ter uma profissão moralmente condenável? É mais importante salvar a face sobre todos os princípios? O fim de salvar uma pessoa justifica a brutalidade policial? Uma tecnicalidade deve sobrepor-se a suspeitas gravíssimas sobre alguém?
Jung-woo Ha é Young-min Jee, o antagonista implacável, que é tão odioso que o actor corre o risco de as pessoas mais sensíveis confundirem a personagem com a sua verdadeira personalidade. Quando esta raridade sucede, sabemos que um desempenho foi mesmo bom. Dei por mim, a torcer pelo anti-herói, a ficar frustrada com a inactividade da polícia, aqueles de quem, afinal, se esperava mais e, o temível Young-min a crescer em maldade a todo o momento. E sabem o que é mais assustador? “The Chaser” é baseado em eventos reais. Young-chul Yoo foi capturado em 2004, depois de um ano de matança, no qual assassinou 21 idosos e prostitutas, a maioria deles, à martelada. Foi condenado à morte, sentença que ainda não foi executada.
A maioria dos “thrillers”, apenas o são de nome e, apenas por que algum génio do marketing decidiu que os apelidar de thrillers era bom para o negócio. Um thriller com um ritmo rápido e furioso, intenso e estressante é ainda mais raro. Não devem procurar mais longe do que na Coreia do Sul, terra dos sonhos dos thrillers, onde “I Saw the Devil” e “Yellow Sea” são mais do que felizes acasos. “The Chaser” enquadra-se confortavelmente entre os filmes anteriormente mencionados, em nada inferior, tão somente uma das melhores exportações do cinema coreano nos últimos anos e, sem dúvida alguma, um daqueles filmes de qualidade superior destinados a sofrer um remake de Hollywood. Em 2013, para ser mais exacta, com o DiCaprio e a mesma equipa que nos trouxe “Departed”. Alguém questiona a eventualidade de um Óscar no horizonte? Só me interrogo se a versão americana será corajosa o suficiente para tomar o mesmo caminho de “The Chaser”, ao invés de embrulhar tudo bonitinho como é seu apanágio. Não é para fracos de coração. Quatro estrelas.


Realização: Hong-jin Na
Argumento: Wan-Chan Hong, Chinho Lee e Hong-jin Na
Yun-seok Kim como Joong-ho Eom
Jung-woo Ha como Young-min Jee
Yeong-hie Seo como Mi-jin Kim
Seong Kwang Ha como Detective Park
In-ji Jeong como Detective Lee
Moo-yeong Yeo como Comissário da Polícia

Próximo Filme: "The Hunger Games", 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

"Let the Right One In" (Lat den rätte komma in, 2008)



Existem emoções com as quais o ser humano não consegue lidar da melhor forma. Desconcerto, angustia e inquietação, certamente não se enquadrarão nos adjectivos de um filme favorito. “Let the right one in” comete a proeza de gerar estas emoções nos instantes iniciais. Oskar (Kare Hedebrant), um rapaz pálido como a neve que o rodeia, ataca uma árvore com uma faca de mato. “Guicha porco! Guincha” e procede a cortar a árvore. Logo ali, uma recoleção desconfortável, a de um “Deliverance” (1972) onde um Ned Beatty é violentado e humilhando – “guicha como um porco”, diz o torturador. Prosseguimos a assistir à vida atormentada de Oskar, a vítima favorita dos rufias da escola, que utiliza todas as desculpas para sair mais tarde das aulas e não se cruzar com os atacantes. Nova reminiscência: “The Lord of Flies” (1990), onde Conny (Patrik Rydmark) um líder natural talhado para o bestial, se possuísse mais poder do que aquele que efetivamente tem, só podemos imaginar o que faria do sensível Oskar. O rapaz, quase albino, não tem força para se defender, nem sequer contar aos pais divorciados o que se passa. Todos são indiferentes ou ignorantes do que se passa e a momentos, parece mesmo que nem querem saber. Ele queda-se por manejar uma faca, fantasiando sobre a morte do seu agressor. Assustador.
Entra pois, Eli (Lina Leandersson) uma nova vizinha misteriosa da idade de Oskar, que se muda para o apartamento ao lado dele e da mãe, com o pai Hakan (Per Ragnar). Ela apenas aparece no pátio de noite e diz-lhe que não podem ser amigos mas não abdica da sua companhia. Ela tem um cheiro “esquisito” e veste roupas frescas nas frias noites suecas. À partida, parece tão alheada de tudo quanto Oskar. É a amiga perfeita. É a única que tem. Hakan, por sua vez, é um velho estranho, que prefere uma vida solitária, enquanto fareja o próximo alvo para Eli. É que Eli, qual lobo sob pele de cordeiro, é na verdade uma vampira e tem de ser alimentada. Hakan é um serial killer, a mando de Eli? Ou por amor? Dizem-nos vagas insinuações e uma linha de diálogo dele, que alimenta algo mais por Eli do que amor paterno. Um pedófilo, um assassino, um servo, qual Renfield que serve o seu mestre Drácula. Mas nenhuma das personagens é na verdade “normal”, sugere-se que os pais de Oskar serão simpáticos por necessidade. Fizeram-no, mais vale criá-lo. Os vizinhos do bloco de apartamentos dividem-se entre o álcool e fobias de uma sociedade “evoluída”. Os professores de Oskar, nada mais são do que robots. Eles fazem o que têm que fazer por que é assim que as coisas são e não por que exista ali, algum traço de altruísmo. Com personagens assim, como não simpatizar com Oskar, mesmo quando ele demonstra um instinto homicida latente ou se encontra, (de modo perturbador entenda-se), inclinado a aceitar o vampirismo de Eli, tendo a compreensão de tudo o que isso implica. E Eli é uma vampira à maneira antiga, à de Bram Stoker. Talvez sem o caixão mas não é um ser totalmente destituído de razão e que brilha. Traz ainda uma nova visão do que significa ser vampiro, tanto na ficção como na vida real. Entenda-se o vampiro ficcional de John Ajvide Lindqvist, como uma criatura de enorme vulnerabilidade. Longe da invencibilidade que os vampiros de filmes mais recentes nos fizeram pensar. De facto, se reflectirmos bem, quão poderoso é um ser incapaz de suportar os raios de sol e que sobrevive de sangue humano? E mais, um predador do acaso, pois que, para entrar no covil da presa, tem de ser convidado. Já em termos clínicos, o vampiro, de Lindqvist é retratado de modo aproximado à realidade. Sob uma capa de vulnerabilidade, o vampiro consegue aproximar-se da sua “vítima” e fazê-la enamorar-se de tal modo que esta se torna sua protectora e dá tudo de si, dobra a sua vontade e abdica de uma vida própria. Tudo por ele. Incluindo matar.
Hakan é o retrato daquilo em que Oskar se tornará se seguir Eli. Um velho solitário, dominado, apaixonado e ao mesmo tempo amedrontado pelo mesmo ser que jurou proteger. Pese-se tudo isto, apesar da força inicial que Eli lhe incute para se proteger. A satisfação da afirmação de Oskar perante uns vilões, é rapidamente ultrapassada, pela ideia desconfortável de que ele poderá muito bem ser um psicopata em potência. Ele pode deixar de ser bem depressa um adolescente “normal” ao deixar-se ir atrás de uma menina, que lhe dá uma atenção que pode não ser tão desinteressada quanto isso. “Let the right one in”, trata-se então de percepção. Quando se está só e a apatia reina ao redor, pode não se ter a aptidão para compreender em que se deve acreditar ou como proceder. Está-se vulnerável e transmitem-se energias que podem convidar alguém que não deveria, a entrar nessa vida. Numa palavra: perturbador. Em última análise: fantástico. Quatro estrelas e meia.

Realização: Thomas Alfredson
Argumento: John Ajvide Lindqvist
Kare Hedebrant como Oskar
Lina Leandersson como Eli
Per Ragnar como Hakan
Patrick Rydmark como Conny


Próximo Filme: "The Chaser" (Chugyeogja, 2008)

domingo, 4 de março de 2012

"Phoonk", 2008





"No, no, no, no, don't Phoonk with my heart". Entra uma bela Indiana a cantar, de olhos negro de khol e um sari colorido. Junta-se a ela um belo espécimen do sexo masculino com os seus melhores passos de dança. E em breve, sabe-se lá de onde, entra uma centena de bailarinos a cantar e a rodopiar nas suas vestes ricas, igualmente coloridas. O par canta e esgrime argumentos até à inevitável reconciliação. O momento musical termina com o casal a aproximar-se com uma sugestão de um beijo…

Admitam lá que foi este o cenário que idealizaram após a sugestão de um filme made in India? “Phoonk” não podia estar mais longe do filme típico de Bollywood e menos perto das películas ocidentais. Rajeev (Sudeep) é um homem de posses que vive uma existência pacata com a sua mulher, mãe e os dois filhos do casal. Ele é o chefe inflexível de uma empresa de construção. Quando os seus trabalhadores descobrem uma estátua do deus Ganesh no seu mais recente local de escavação, ele recusa-se a deixar os trabalhadores construir um santuário. Para ele, tempo é dinheiro e a religião, um absurdo. Nem a sensatez dos seus sócios mais chegados consegue chegar a ele. Esta atitude choca a sua mãe, mulher e criada, todas elas profundamente devotas e tementes aos deuses. Rajeev gosta de pensar em si próprio como um homem mais liberal que a maioria. Ela condena as superstições comummente aceites mas, a despeito das suas próprias convicções, deixa o seu lar ser palco das deferências aos deuses. Também desvaloriza os avisos dos seus empreiteiros relativamente a um casal em quem Rajeev depõe toda a sua confiança. Sobretudo Madhu (Aswini Kalsekar),  a mulher do casal é alvo de desconforto, com os seus maneirismos e olhares estranhos. Quando Rajeev é confrontado com provas irrefutáveis de desfalque por parte do casal, ele perde a calma e humilha-os em público. A bruxa não perdoa a perda de face e jura vingança. A partir desse momento, a paz familiar de Rajeev passa a ser abalada. O principal alvo é a sua filha Raksha (Ahsaas Channa), que começa a manifestar um comportamento muito distante da sua disposição doce. Segue-se uma luta de convicções: o mal que os afecta tem a sua fonte em superstições absurdas, como diz Rajeev, ou tudo tem uma explicação racional? Entram em campo médicos e psiquiatras, espíritas e xamans na batalha pela saúde de Raksha e o bem-estar de toda a família.
“Phoonk” peca por se afastar demasiado do que á a India e aspirar à comparação com o ser ocidental. A identidade indiana seria a maior força de “Phoonk” se ao menos este estivesse imbuído de todo o misticismo da religião Hindu. Eles tinham toda uma história e a facilidade do quotidiano mas preferiram quedar-se por manifestações fracas de devoção. Esta vale por si mesma e nunca são explicadas as suas graças para que tantos milhões a sigam de olhos fechados. No outro lado da barricada encontra-se Rajeev, ateísta que contrasta em absoluto com uma mãe crente. Tal como não se explicam os contornos da religiosidade das personagens, ainda que a India e o hinduísmo estejam intimamente interligados, também não se entende a aversão de Rajeev à religião. Perdeu a fé? Nunca a teve de todo? Este background era essencial para a trama ganhar contornos de urgência. Se o objectivo dos cineastas era levar-nos a questionar as nossas próprias crenças, elas não podem pois, ser tratadas com superficialidade. Num filme sobre possessão, valha-nos ao menos, uma causa para esta acontecer. Em “Phoonk” a raiz do mal é uma vingança consumada mediante magia negra. Ao contrário dos outros filmes de possessão que estreiam aos magotes, “The Exorcism of Emily Rose” (2005), etc. A vítima não é uma jovem inocente escolhida mais ou menos aleatoriamente entre os biliões que habitam este planeta. Não. Rasha é um alvo, selecionado precisamente pela ofensa do seu pai. A pequena actriz encarna uma vítima de possessão que alterna entre o “possuído para totós” e um cansaço demasiado genuíno para uma pessoa tão jovem. Mas não há duvida que se inicialmente o seu desempenho era conducente a algumas gargalhadas, à medida que a película avança para a recta final, Raksha é uma menina esgotada por quem não conseguimos não ter dó. O problema que mais aflige “Phoonk” é a duração descabida, mais do que planos escusados de brinquedos e o exagero de alguns actores.  Muito depois dos requintes de malvadez, há um enfoque desnecessário no melodrama familiar. “Phoonk” nunca chega a provocar o terror dos seus congéneres ocidentais no género da possessão. “Phoonk” não funciona como produto de exportação mas a nível interno revelou-se um grande êxito, tendo já uma terceira sequela a caminho. Lamento que com tão rica matéria-prima consubstanciada no hinduísmo que poderia suplantar em originalidade as habituais alusões à religião católica, os cineastas se tenham quedado por registo seguro. Assim, “Phoonk” passa despercebido. Pode ser concebido como um mal menor. Duas estrelas.

Realização: Ram Gopal Varma
Argumento: Milind Gadagkar, Sandeep Nath e Prashant Pandey
Sudeep como Rajeev
Amruta Khanvilkar como Arati
Ahsaas Channa como Raksha
Ganesh Yadav como Vinay Dev
Aswini Kalsekar como Madhu


Próximo filme: "Haunted Village" (Arang, 2006)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Lake Mungo", 2008

A querida, precoce Alice de 16 anos era a princesinha dos olhos dos seus pais. Ela foi abençoada com todas as qualidades que os pais extremosos vêem nos filhos. Linda, estudiosa, sociável e até já tinha namorado. Ela não seguia ninguém, ela é que era a rapariga popular, uma líder natural. Um dia, durante um piquenique familiar, foi nadar e não voltou mais. Assim, começa o pesadelo de qualquer pai. Mas a morte é apenas o início. Meses depois da sua morte, Alice parece tão presente como quando estava viva. Os Palmer estão numa profunda depressão e os indícios de Alice nos vislumbres, nos cheiros e nas impressões em tudo quanto tocou em vida, são demasiado fortes para ignorar. Os pais estão por demais fragilizados e mandam exumar o corpo. “É Alice. Ela morreu. Ela ainda está connosco.” Matthew (Martin Sharpe), o único filho sobrevivente dos Palmer, decide montar câmaras na casa e captar o que acreditam ser as manifestações de Alice, além-vida. O que descobrem deixa-os chocados. Eles irão descobrir que Alice, a sua querida Alice, escondia segredos e podia não ser a menina que todos julgavam.
Está dado o mote para o falso documentário de Joel Anderson. Insisto que suspendam por um momento as evidentes associações mentais a “Blair Witch Project” (1999) e “Paranormal Activity”(2007) e entrem neste esquema de mente aberta. A obra de Anderson está mais perto de Lynch em “Twin Peaks” (90-91) do que dos filmes de found footage anteriormente mencionados. Não é por acaso que a família se chama Palmer e muito menos coincidência será que acompanhemos o rumo dos que a rodeavam, como forma de obter o retrato psicológico de Alice. Ela não é nenhuma Laura mas estava tão perdida quanto ela. Do mesmo modo se pode encontrar semelhanças em “Shutter” (2004), com o mesmo fervor da esperança de “um fantasma dentro da máquina”. Em última análise, são estas duas fontes de inspiração, simultaneamente, as suas maiores forças e fraquezas. “Lake Mungo” deseja ser um filme de fantasmas ou um drama familiar sobre a perda?
 “Lake Mungo” não é um filme feito a partir de um vídeo que foi encontrado relatando fenómenos do paranormal que afectaram todos os envolvidos para nunca mais serem encontrados… Esse tema já era, por favor. A narrativa de “Lake Mungo” foca-se nos que sobrevivem a Alice e ao modo de lidar com a sua morte. Filmado estilo documentário para televisão, assistimos ao desmoronar e tentativa de reconstrução de uma família que sofreu uma perda inimaginável. São efectuadas entrevistas aos pais, irmão, amigos e conhecidos de Alice que vão descrevendo os seus últimos passos e estado de espírito antes do acidente. Estes momentos sérios, emocionais até, sobretudo após as declarações da mãe June (Rosie Traynor), são intercalados com os vídeos caseiros onde se vê uma Alice alegre. Existe mais do que uma reviravolta no argumento, incluindo a entrada em cena de um médium com um papel mais relevante do que à partida se supunha. Steve (Ray Kemeny) é capaz de ser o médium mais realista alguma vez retratado em tela. E ele ajuda a desvendar o mistério que envolve Alice do modo mais terreno possível. Mas tudo isto é tolerável. Noutro filme, o cineasta podia cair na tentação de exagerar mas, Joel Anderson, não se afasta um milímetro do estilo documentário, por oposição a um qualquer pretensiosismo cinematográfico. O elenco, composto sobretudo por desconhecidos é globalmente bom. Todos eles desempenham os papéis mais difíceis para um actor: representar que não estão a actuar. A naturalidade dos desempenhos surge tão fácil que qualquer pessoa que não saiba que “Lake Mungo” é um filme, julgará estar a ver um documentário real. Rosie Traynor é a maior força do filme, por todas as reviravoltas e subenredos cada vez menos credíveis, a sua June Palmer, que alterna entre aturdida e dormente é um grande retrato de uma mãe em sofrimento. Evita todos os tiques e os lugares-comuns associados a tão grande emoção. Traynor transmite uma calma e, por vezes, uma ausência, aquela de quem se perde no horizonte e não consegue, ainda hoje, retirar sentido do que sucedeu. E por fim, a tragédia, por realizar que não conhecia a filha como julgava, que a sua menina se sentia perdida e por ter falhado na sua protecção. Todas aquelas falhas e todos os “e se” com que nos deparamos quando já é tarde demais.
A acompanhar o elenco sólido está um trabalho magnífico de sonoplastia e do compositor Dai Peterson, cuja subtileza contribui grandemente para a construção da tragédia.Esta é apenas acentuada pela sugestão de assombração, embora a película reúna, durante os 87 minutos de duração, uma aura misto de assustador e desconcerto. “Lake Mungo” não é um filme fácil. A morte de uma adolescente assombrada pelos seus próprios demónios, não é nenhuma matiné da tarde. O epílogo pode mesmo provocar o ressentimento ou até revolta da audiência perante as opções do cineasta. Um conselho: façam uma introspecção sobre o que valorizam em cinema. Desejam finais felizes ou finais que vos façam reflectir? Quatro estrelas.

Realização: Joel Anderson
Argumento: Joel Anderson
Rosie Traynor como June Palmer
David Pledger como Russel Palmer
Martin Sharpe como Matthew Palmer
Thalia Zucker como Alice Palmer
Steve Jodrell como Ray Kemeny

Próximo Filme: "The Cut" (Haebuhak-gyosil, 2007)

domingo, 20 de novembro de 2011

Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

Ip Man. De vez em quando surge um homem com um talento tão extraordinário que marca indelevelmente a história. Ip Man é conhecido como o mestre por excelência do Wing Chun uma arte marcial chinesa e um modo de auto-defesa utilizada no combate corpo-a-corpo. Ip Man é responsável por ter deixado por escrito a história desta arte marcial e foi criado um museu em sua honra em Foshan, na China. Mas o motivo por que é mais conhecido no Ocidente é ter sido mestre de um pequeno artista do Kung Fu, de que talvez já tenham ouvido falar, chamado Bruce Lee.  No cinema Ip Man já tinha sido retratado por diversas vezes, nomeadamente, como mestre do seu pupilo mais famoso. Só recentemente houve um renascer da atenção sobre Ip Man, por via do cinema de acção de Hong Kong cujos filmes sobre grandes mestres e o género wu xia são sinónimo de grandes resultados de bilheteira. O facto de o Wing Chun ter uma história tão peculiar, pois que reza a lenda que o estilo nasceu quando a donzela Ying Wing-Chun se defendeu contra um pretendente rejeitado, só podia dar origem a um filme. Em 1994, uma Michelle Yeoh ainda desconhecida no ocidente interpretou a heroína em "Wing Chun", acompanhada por Donnie Yen no papel de pretendente rejeitado. Ele já tinha familiaridade com a lenda e um grande mestre teria de ser retratado por um grande lutador. Yen foi então, a escolha óbvia, ou não fosse ele praticante de wushu, jiu-jitsu, taekwondo, judo e muitas outras artes marciais. E o resultado são sequências de luta impossíveis para o comum dos mortais e visualmente espantosas (o termo técnico é “deixar de queixo caído”).
A narrativa começa em meados dos anos 30 quando um Ip Man, ocioso e despreocupado se limita a praticar e intervir em escaramuças de ocasião as quais secretamente, lhe dão um intenso prazer. Lynn Hung interpreta a esposa de Ip Man que deseja que este abandone as artes marciais e se dedique mais ao filho Ip Chun. Tudo muito giro e calmo até que o exército imperial japonês invade a China. Acredito que tudo correria às mil maravilhas se os japoneses não tivessem cometido o erro histórico de invadir Pearl Harbor, provocando assim a entrada dos EUA na 2ª Grande Guerra e não se tivessem metido com o Ip Man. Ninguém se mete com o Ip Man! Mas ele pertence àquela marca do herói relutante, modesto e cativante, que terá de passar por muitas provações até compreender o poder do seu talento, com o potencial de ser seguido por milhares. Com a invasão japonesa Ip Man é obrigado a deixar o seu palacete e a arranjar um trabalho numa fábrica de extracção de carvão para evitar a fome da sua família. A vida deixa de ser a preto e branco, para existirem vários tons de cinzento. Muitos cidadãos chineses para evitar a miséria, passam-se para o lado dos invasores como espiões e captam antigos mestres para enfrentar lutadores japoneses por sacos de arroz. E aqui incorre o grande defeito do filme. Os maus são demasiado maus, são cartoonescos, demoníacos mesmo. Estamos a referir-nos a uma guerra, pois claro, mas ambas as partes cometeram atrocidades ao longo da história. Até os portugueses foram a dada altura o maior povo esclavagista do mundo! O argumento podia ter manuseado melhor esta questão, explorando por exemplo, o facto de o exército japonês estar a cumprir ordens, de os soldados terem sido enviados para a guerra, deixando também eles, empregos e famílias para trás. O argumento podia ter dar espaço à reflexão sobre como a maldade não é inata, mas no contexto certo pode ser criada. Senti que a escrita foi ao encontro das expectativas das massas que se encontram enraizadas no profundo nacionalismo e ressentimento decorrentes da história entre os dois países. A dissonância cognitiva é melhor demonstrada no personagem Li Zhao (Ka Tung Lam), um chinês tradutor do exército invasor que é forçado a fazer escolhas dificílimas, mesmo perante aqueles a quem há poucos meses chamava de amigos, em nome da sobrevivência da sua família.
Depois temos um Ip Man que aguenta ofensas que só um homem extraordinário pode suportar até que um dia, percebe a razão de ser do seu talento. O evento é, curiosamente, despoletado pela sua mulher que era antes castradora quanto ao seu envolvimento nas artes marciais. É o desejo de proteger a sua família que o leva a empreender toda a sua força contra o inimigo. Ip Man, não pára sozinho a guerra mas incentiva os chineses a lutar pela sua dignidade, emprestando as suas excelentes capacidades físicas e a sua filosofia de vida muito zen. Sim, que apesar de conseguir esmurrar um homem um gazilião de vezes, evita fazê-lo porque ele é assim, muito chill out, estão a ver? Ele incentiva implicitamente os cidadãos de Foshan a resistir e traz o sentimento da esperança novamente àqueles coraçõezinhos quebrados. Há uma luta final, que é o grande confronto com o General japonês Miura, no qual Donnie Yen é excelente, não haja duvida, mas fica a saber a pouco. Quando damos por nós, não sendo fãs acérrimos de artes marciais, a ansiar por mais, é sinal de que o que estamos a ver é pancada da séria! "Ip Man" trouxe reminiscências de um jovem Jean Claude Van Damme, de um explosivo Bruce Lee, ou de um sério mas brutalmente eficaz Chuck Norris. E o melhor de tudo? Donnie Yen tem o desempenho de uma vida. Já o critiquei por diversas vezes: aqui e aqui. As suas qualidades como actor não são as melhores mas em Ip Man, estão bem acima de medíocres, são muito razoáveis. Este filme apesar de toda a liberdade artística em torno da demonização do povo japonês e da própria vida do mestre representa bom entretenimento. Por isso é, no mínimo, de estranhar que Donnie Yen ainda não tenha sido seduzido por Hollywood, nem seja um nome sonante em terras americanas, como o são Jet Li e o Jackie Chan. Neste minúsculo cantinho de língua portuguesa, Donnie Yen merece todo o respeito e aclamação pelo seu trabalho como lutador, coreógrafo e artista. Três estrelas e meia.
Realização: Wilson Yip
Argumento: Edmond Wong
Donnie Yen como Ip Man
Simon Yam como Zhou Qing Quan
Siu-Wong Fan como Jin Shan Zhao
Ka Tung Lam como Li Zhao
Yu Xing como Mestre Zealot Lin
Lynn Hung como Zhang Yong Cheng
Hiroyuki Ikeuchi como General Miura

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man 2" (Yip Man 2, 2010)

Clica aqui para veres o mestre Yip Man com o seu mais famoso discíplo.

domingo, 23 de outubro de 2011

"Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

O título inglês "Coming soon" não podia ser mais apropriado, por todas as razões. Só nesta era é que se podia fazer um filme sobre um filme dentro do filme que ultrapassa a ficção e afecta os personagens no mundo real. Confusos? O título original da película é qualquer coisa como "este programa é o espírito vingativo". O tal filme que vai estrear brevemente no cinema onde Shane (Chantavit Dhanasevi) trabalha. Ele deve dinheiro a uns rufias devido ao seu vício de jogo e pensa que a melhor maneira de arranjar dinheiro é piratear o novo filme. O vício custou-lhe a namorada Som (Vookam Rojjanavatchra), está a afectar o seu trabalho e poderá trazer-lhe a morte! "Espírito Vingativo" é a história "baseada em factos reais de Shomba", uma velha decrépita que rapta crianças para substituir os próprios filhos que morreram num incêndio. Louca, esta predadora cega e tortura as crianças dos modos mais horríveis. A sua própria aparência é matéria de pesadelos: cabelo cinzento desgrenhado, olhar maléfico e uma perna aleijada que arrasta, devagar, como o som da morte a aproximar-se... Os pais das crianças mobilizam-se para encontrar as crianças mas quando as encontram deparam-se com um cenário de terror. Horrorizados, eles lincham Shomba. Nasce uma maldição. Ou será que não? Quando "Espírito Vingativo" perpassa a película e os corpos se começam a acumular, Shane alia-se a Som para descobrir o que está por detrás das mortes e como as deter.
O argumento é de Sopon Sukdapisit que emprestou o seu contributo a "Shutter" (2004) e "Alone" (2007) e se estreia pela primeira vez na cadeira de realizador. A narrativa é interessante com alguns dos laivos de originalidade que já lhe são reconhecidos. Infelizmente, "Coming Soon", tem alguns problemas. Para começar, "Espírito Vingativo" é mais assustador do que o filme no qual está inserido. Tem uma envolvência e uma atmosfera que "Coming soon" conseque alcançar apenas em momentos fugazes e nunca ao mesmo nível. Talvez o talento de Sukdapisit surja no trabalho de outros, fazendo-os brilhar e não quando toma as rédeas do projecto. Não é uma crítica afinal, o trabalho de um realizador sempre se baseia num argumento.  Além disso, quando um filme começa com um estrondo, depois abranda e parece que nunca mais recupera o fôlego inicial em 95 minutos de duração é mau sinal. Tudo o resto são truques gastos vistos inúmeras vezes: o personagem ouve um som estranho e vai verificar ou pensa que viu algo pelo canto do olho, etc.
Um pormenor que me dá sempre vontade de rir, à boa maneira dos slashers dos anos 80, é que a nossa assassina é uma velhinha que arrasta uma perna, no entanto, ninguém consegue correr mais do que ela nem superar a sua força. Dá vontade de lhe perguntar que vitaminas é que ela toma, que se chegar àquela idade quero ser rija como ela. De qualquer modo, "Coming soon" não é mau de todo. O cenário é pelo menos original. Fazer um filme de terror num cinema verdadeiro não é totalmente descabido. Salas enormes com duas ou três pessoas, um projeccionista sozinho, corredores escuros e compridos quando se acaba de sair de uma sessão de terror... Houve aí bastante material para explorar e o próprio merchandise do filme "Espírito Vingativo" podia pertencer a um filme verdadeiro em exibição. Por isso, é lamentável que a película não tenha respondido ao hype que se gerou em seu redor, que de resto é justificado com o currículo de Sukdapisit. "Coming Soon" pertence àquele tipo de terror descartável que entretém (mais ou menos), enquanto é visionado e cai no esquecimento horas depois. Duas estrelas.
Realização: Sopon Sukdapisit
Argumento: Sopon Sukdapisit
Elenco:
Chantavit Dhanasevi como Shane
Vookam Rojjanavatchra como Som

Próximo Filme: "Three - Memories" (Saam Gaang, 2002)
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