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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"The Tag Along" (Hong yi xiao nu hai, 2015)

Trailer cheio de spoilers. Ver por vossa conta e risco.

Um sucesso estrondoso, na sua nativa Taiwan, “The Tag Along” baseia-se numa história afamada, de final dos anos 90, que se tornou um mito urbano. Segundo reza a história, uma família, assistiu após o funeral de um familiar, a um vídeo no qual viu uma menina de vermelho a seguir o falecido quando este integrava um grupo de caminhantes em passeio por uma montanha. Daí até aos avistamentos se multiplicarem foi um instante, sendo um dos visionamentos mais recentes, se deu quando uma idosa se perdeu numa montanha, tendo sido encontrada cinco dias depois com vida, a contar uma estória delirante sobre uma menina vestida de vermelho.

Em “The Tag Along”, acompanhamos o dia-a-dia de Wei (River Huang) é um agene imobiliário que trabalha duramente para poder casar e constituir família com Yi-chun (Wei-Ning Hsu). Eles são um casal há vários anos, mas chegaram a um ponto crítico da relação. Wei deseja ter uma família tradicional, enquanto Yi-chun parece estar contente com a relação e que esta se mantenha nos termos habituais. Nem o casamento nem a maternidade fazem parte dos seus planos e Shu-Fang (Yin-Shang Liu), a avó de Wei também é fonte de discórdia. Acolher a familiar do namorado seráum obstáculo ao desejo de estilo de vida independente que Yi-chun almeja. O delicado balanço destas relações é colocado em causa quando a avó de Wei desaparece, num paralelismo demasiado evidente com uma lenda local.

“The Tag Along” é um exercício interessante de contenção no retrato da vida “real” dos personagens e de fogo-de-artifício no que respeita à suposta assombração. É-nos permitido perscrutar um pouco mais do que uma espreitadela sobre a vida dos personagens, através da repetição. A avó de Wei de fazer todo o tipo de tarefas que permitam um maior grau de conforto ao neto. Ela acorda-o e prepara-lhe o pequeno-almoço e preocupa-se com ele pois só o quer ver feliz. Sabe que parte da felicidade está em constituir família com Yi-chun. Tenta para isso, provocar oportunidades para os juntar a despeito as reticências desta. Wei tem um horário vai além do que lhe é pedido para conseguir reunir condições para realizar o seu ideário de vida perfeita. Yi-chun é DJ numa rádio e encontra-se com o namorado no final dos turnos que acabou de fazer. Nada de muito excitante para uma classe média tradicional. Estes pedaços de vida são interessantes o para compreender os personagens e criar um elo emocional suficientemente forte para sentirmos a sua falta, quando o meio sobrenatural se introduz nas suas vidas. O elo mais fraco do trio já mencionado ainda assim é capaz de ser o actor River Huang. Wei-Ning Hsu interpreta uma avó capaz de captar a simpatia das avozinhas por esse mundo fora. Já Yin-Shang Liu representa a força vital do filme com um desempenho com camadas suficientes para demonstrar que a sua personagem pode ser mulher forte, independente, feminista e ter os receios de quem já sofreu no passado. A sua personagem perde-se depois no primitivismo do status quo societal tão certo quanto dois mais dois darem a soma de quatro. Sempre, muito bem coadjuvados com uma cinematografia eficaz e incomum entre os seus congéneres. Mas falava de repetições: quando a assombração assola existem variações suficientes no comportamento padrão dos personagens para perceber que algo está errado.

O mal de “The Tag Along” está em que o prelúdio para algo maior é a melhor parte do filme. O primeiro acto que corresponde ao desaparecimento e o segundo que diz respeito à investigação são mais interessantes que o último acto de conflito aberto. A película degenera num melodrama sacarino e efeitos gerados por computador de bradar aos céus. Alguém acha sinceramente que o “Alien” teria metade do encanto se têm mostrado o monstro num CGI manhoso? Porquê é a palavra operativa. Não havia necessidade de abalar o que até ali fora construído, em atmosfera opressiva e mistério de investigação, com efeitos "especiais" para agradar a ensejos de blockbuster. “The Tag Along” tentou, em contraciclo com o recente terror asiático, ser vagamente interessante e, em certa medida, conseguiu.
Realização: Wei-Hao Cheng
Argumento: Shih-Keng Chien
Wei-Ning Hsu como Shen Yi-Chun
River Huang como Ho Chih-Wei
Yin-Shang Liu como Ho Wen Shu-Fang
Po-Chou Chang como Tio Kun
Ming-Hua Pai como Tia Shui

Próximo Filme: "Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"The Villainess" (Ak-nyeo, 2017)


Conquanto seja um espectáculo visual assistir aos suspeitos do costume desferir golpes em todas as direcções e receber uma centena de pancadas e continuar de pé a despeito dos ferimentos como um Iko Uwais (basicamente toda a sua filmografia) ou, disparar balas em todas as direcções como se fosse um profissional da magia e não da profissão mais violenta deste mundo qual Keanu Reeves, isso já não é tão habitual vindo de uma mulher. De vez em quando necessito de doses de personagens femininas fortes no meu cinema de acção e isso não é assim tão habitual. Os exemplos anteriores masculinos mencionados não serão os melhores actores que a arte da representação já viu mas, nem as mulheres são as flores delicadas que se julgava até não há muito serem. Existem algumas figuras icónicas no género como a eterna Ripley mas esse exemplo é já muito antigo e mesmo a Beatrix Kiddo de “Kill Bill” já remonta a 2003/4). “Salt” não foi além de 2010 e também não se antevê grande história num “Tomb Raider” (2018) com uma Alicia Vikander no seu estilo mais insípido. Eis, que depois de alguns anos de deserto e de um autêntico “Furiosa Show”, onde deixou um Tom Hardy a milhas da sua presença no ecrã, aparece em 2017 uma Theron pronta a tirar partido do ímpeto gerado em “Mad Max: Fury Road” (2015) para se elevar ao estatuto de heroína de acção já que tudo o resto já conseguiu em “Atomic Blonde”.
E como pareceu existir um grito colectivo pelo ressurgimento pelo poder feminino, empurrado pelos novos extremismos de direitas alternativas (revirar de olhos), este teve a concorrência de um “The Villainess” (2017) que surgiu subtil mas foi ganhando tracção por entre cinéfilos além das semelhanças depois encontradas com a congénere ocidental que estreava depois. O chamado “Money shot” parece tirado a papel químico entre os filmes mas não estou aqui a querer acusar ninguém de cópia, até porque “The Villainess” tem muito de emprestado a filmes do próprio país, bem como do próprio género de artes marciais. Enquanto a loura platinada de Theron está fisicamente mais próxima de uma Carly de “The Long Kiss Goodnight” (1996), Ok Bin Kim encarna uma assassina com uma psique mais próxima daquela, enquanto progenitora de uma criança menor mas sem as one liners pirosas. As cenas de acção de “The Villainess” são um híbrido do que melhor se tem feito nos últimos anos no cinema de artes marciais e isso não tem mal nenhum. A sequência inicial, em que uma Sook-hee irrompe por um edifício adentro matando todos e quaisquer que se atravessem no seu caminho, é uma das mais brutais que vi ultimamente e completamente merecedora de todos os prémios pela mestria técnica em particular, o trabalho da equipa de duplos. Se quiserem exemplos, podem remontar a “Oldboy” (2003) ou “The Raid 2” (2014), com um bónus adicional de espectativa na primeira pessoa de um “Hardcore Henry” (2015) que muito mais gente devia ter visto. É de loucos imaginar como alguns daqueles momentos foram capturados pelas câmaras. São dez minutos inteiros de destruição total. Outro momento de acção fantástico envolve uma perseguição de mota que termina com os motoqueiros a esgrimir argumentos… com espadas.
Que tal isto para hype? A narrativa caminha depois para o mais convencional de uma “La femme Nikita” (1990). Jovem e enlouquecida pela morte do seu amado Sook-hee é movida pela sede de vingança até perceber que está grávida do amor que perdeu. Encontrada pela Agência Secreta coreana, a única hipótese de escapar às malhas da justiça (a sua lista de mortes é muito elevada) é tornar-se uma operativa e cumprir escrupulosamente as missões que lhe são apresentadas pela enigmática chefe Kwon (Seo-hyeong Kim), se quiser almejar viver uma vida de liberdade com a filha. É-lhe dada uma nova identidade, uma casa e até surge um novo interesse romântico que lhe dão a aparência de uma vida normal mas em breve o imperativo das missões se tornarão realidade, bem como de uma vingança ainda não sanada. Com pouco mais de duas horas “The Villainess” é traído pela incapacidade genética de não adicionar melodrama que arrasta uma película que tinha iniciado de modo tão promissor mas nada que retire a vontade de assistir a este filme. As analepses que ainda são em número razoável são uma boa adição para a compreensão das motivações da “Vilã”. Falta-lhes, no entanto, a fluidez que se encontra nas cenas de acção, tornando-se difícil distinguir a acção em tempo real dos bocadinhos de história que ajudam a montar o puzzle da personalidade de Sook-hee. Ok-bin Kim está perfeita no papel da assassina rebelde à procura de vingança que se torna uma operacional obediente. Sempre confinada aos papéis que lhe são apresentados e nunca tendo realmente o poder de escolha na sua vida. A única forma de autonomia e de expressão de Sook-hee é apenas na sua forma mais violenta. “The Villainess” é um bichinho complicado e imperfeito com maravilhosas cenas de acção e a sua estrela é uma Ok-bin Kim que já devia estar no radar de todo o mundo. Três estrelas.

Próximo Filme: "Blade of the Immortal" (Mugen no jûnin, 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Better Watch Out, 2016


ALERTA SPOILER: Assistir por conta e risco!

É Natal. Os subúrbios estão decorados com renas, elfos e néons, enquanto se aguarda a chegada do Pai Natal. A paisagem está enfeitada de neve e o ar ecoa canções corais de Natal e do Grande Bing Crosby. Na televisão, com a pontualidade de um relógio, passam os filmes de todas as épocas natalícias anteriores e que ninguém consegue enjoar.


Ashley (Olivia DeJonge) está presa à promessa de tomar conta de Luke (Levi Miller) o filho de doze anos do simpático casal Lerner, uma Virginia Madsen e um Patrick Warburton, nuns papéis secundaríssimos. Ela está quase a partir para a universidade e dão-lhe jeito uns trocos para a nova fase de vida, mesmo que tenha de sacrificar o descanso na época de Natal. Luke tem uma pequena paixonite pela sua babysitter e conta com o apoio de Garrett (Ed Oxenbould) para conquistar Ashley antes de esta partir. Para ela, é apenas mais uma noite de babysitting… Isto é, até se aperceberem que alguém com intenções malévolas está a tentar introduzir-se dentro de casa. Segue-se uma luta contra um inimigo ao início invisível, numa casa da qual não conseguem escapar.
Esta comédia negra revisita grandes clássicos do cinema natalício como “Home Alone” (1990) – este até é mencionado por um dos actores –, não vá alguém não compreender a referência e, acreditem que AQUELA cena não deixará ninguém indiferente, e cruza-o com o tom a tempos perturbador de um “Gremlins” e de um certo outro filme protagonizado por Macauley Culkin que na altura chocou as audiências. Chris Peckover aproveitou ainda a química da dupla de actores DeJonge e Oxenbould que interpretou dois irmãos no também interessante “The Visit” (2015) de um Shyamalan que estava ainda a recuperar a boa forma antes de se sair com o espantoso “Split” (2016).
Numa época em que os cineastas procuram cada vez mais subverter os géneros e conferir originalidade às narrativas, “Better Watch Out” resulta num home invasion atípico. A dada altura os eventos dão uma viragem de 180 graus e o que até ali era uma comédia com toques negros que espicaçavam os limites para a gargalhada, um “espera aí, mas isto tem piada ou já é apenas cruel?”, transita para momentos perturbadores que o enquadram sem sombra de dúvida no género de terror. A mudança foi tão radical que senti o ambiente da sala ficar gélido. Onde antes existiam palmas ou risos nervosos podiam-se ouvir grilos. Para tal, muito contribuiu a interpretação de Levi Miller, com um desempenho natural e by the numbers no primeiro terço de filme, após o que evoluiu para uma capacidade além do que seria de esperar de um jovem daquela idade e com uma carreira ainda relativamente curta, muito bem apoiado por DeJonge e Oxenbould. Seria talvez mais fácil de assistir se os personagens não fossem menores ou se fossem detestáveis mas nem Peckover nem o argumentista Zack Kahn acreditaram que essa fosse a melhor opção e “Better Watch Out” apenas ganha com isso. A película também nunca degenera para a violência gráfica ou gratuita, a que se deve porventura o constrangimento de orçamento, mas o crescendo de tensão e o poder da sugestão fazem um papel mais do que competente a substituir actos de agressão gráficos.
“Better Watch Out” é um dos filmes mais ingratos sobre os quais escrever pois é uma daquelas obras em que queremos gritar aos quatros ventos que vale mesmo a pena assistir sem ceder à tentação de divulgar os detalhes que o tornam tão surpreendente e especial em simultâneo. A minha sugestão? É melhor assistir a “Better Watch Out” com um espírito aberto e, preferencialmente, sem ter visto qualquer trailer. Três estrelas e meia.



Realização: Chris Peckover
Argumento: Zack Kahn e Chris Peckover
Olivia DeJonge como Ashley
Levi Miller como Luke
Ed Oxenbould como Garrett
Aleks Mikic como Ricky
Dacre Montgomery como Jeremy
Patrick Warburton como Robert Lerner

NOTA: Texto publicado originalmente aqui.

domingo, 12 de novembro de 2017

"Deep Trap" (Ham-jeong, 2015)


So-yeon (Kim Min-Kyung) e Joon-sik (Jo Han-seon) são um casal que sofre ainda bastante devido com um aborto espontâneo sofrido anos antes. Joon-sik fechou-se sobre si próprio e passa os dias num martírio diário entre o trabalho e o álcool, deixando So-yeon sozinha. Além do sentimento de abandono, So-yeon ressente-se com a falta de intimidade. Desde o acontecimento traumático que Joon-sik desenvolveu impotência e não dá mostras de a conseguir curar sem apoio. Determinada a salvar a relação ferida e gerar o tão desejado rebento So-yeon decide marcar um dia de férias numa ilha remota de descanso e romance. Lá, encontram um restaurante que é gerido por Seong-cheol, um Ma Dong-seok num papel sinistro e a sua bonita irmã muda Min-hee (Ah jin). Após uma noite de bebidas estranhas e comida gostosa, Seong-cheol faz a proposta indecente a Joon-sik: dormir com Min-hee e recuperar a pujança para ter um filho com So-yeon. Entre os quatro é gerada uma dinâmica desconfortável que é aparente a todos quanto a ela assistem mas, sobretudo para So-yeon e, pela sua parte, quase omissa para um Joon-sik semi-alcoólico.

“Deep Trap” é bastante explícito quanto ao que pretende. O cenário isolado, o par de personagens estranhas que não inspiram total confiança, a série de coincidências que leva a que o casal fique preso no local e propostas inconcebíveis são a mera antecipação do que tantas vezes se viu antes no cinema do género. O filme apresenta algumas cenas de sexo que deixam pouco à imaginação e uma cena de violação brutal a que poderá ser difícil assistir. De igual modo, à boa maneira coreana, há duas ou três sequências de extrema violência e que parecem contrastar com o dramazinho romântico sobre um casal que tenta ultrapassar e reacender a chama da paixão que os minutos iniciais aparentavam prometer. O quarteto de protagonistas, liderado pelo experiente Ma Dong-seok que mais uma vez rouba o protagonismo (vide “Train to Busan”, 2016) e é um dos parcos motivo para que “Deep Trap” não caia na penúria total. Ma Dong-seok encontra nuance suficiente no personagem amoral para ainda assim, encarnar o bronco ignorante que pode ser desculpado pela educação que teve e pouca exposição às boas regras de civilidade. Quase podia ser uma boa pessoa se ao menos tivesse tido acesso às oportunidades que outros têm… isto se conseguirem ignorar os maus-tratos a Min-hee.
O que não será de digestão fácil serão algumas das acções dos personagens. Para sociedades mais liberais comportamentos onde o bem-estar e segurança própria são relegados para segundo lugar em favor de agradar ao “Homem” ou a flor delicada que sofre estoica em silêncio, não são fáceis de entender. No entanto, são elementos indeléveis de culturas patriarcais, como a sul-coreana. Onde os países tendencialmente ocidentais verão fraqueza, os orientais poderão encontrar heroísmo. Mas temo informar que se mantém o padrão tantas vezes visto e iguais vezes criticados em filmes coreanos e japoneses. A síndrome de petrificação e de colagem ao chão continua viva. Onde em situações limite a reacção rápida é essencial, os personagens continuam imóveis, chocados com os acontecimentos. Um exemplo paradigmático sucede quando dois homens combatem corpo a corpo e a mulher de um deles permanece imóvel, sabendo bem que o companheiro poderá perder a luta. É um pressuposto que em filmes de assassinos psicopatas e, como a boa tradição de filmes como um “Friday the 13th” (1980) e suas iterações demonstraram, os personagens devem ter uma boa dose de tontice para que sejam apanhados pelo papão. Gostava contudo, de ver a parte do contrato em que diz que os personagens não devem correr e tropeçar bastante ou mais simplesmente ficar colados ao chão enquanto uma figura malévola se dirige a eles para lhes fazer coisas muito más. Por estes motivos “Deep Trap” torna-se um exercício de concentração para não carregar no botão de stop e para o filme quando os personagens agem de forma tão, mas tão, frustrante, que ficamos a pensar que se o assassino os apanhar não se perde nada ou pior, torcer que o assassino os apanhe para limpar o mundo (do cinema) de tamanha estupidez. “Deep Trap” tem zero de factor surpresa. Um casal de betinhos da cidade fica preso no covil do inimigo e sofre horrores a tentar escapar. Been there done that… and better. Próximo. Duas estrelas.

Realização: Hyeong-jin Kwon   
Ji An como Min-hee 
Sun-Jo Han como Joon-sik
Dong-seok Ma como Seong-cheol
Min-Kyeong Kim como So-yeon

Próximo Filme: "Better Watch Out", 2016

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Museum: The Serial Killer is Laughing in the Rain" (Myujiamu, 2016)

Atenção aos inúmeros spoilers, vejam o trailer por vossa conta e risco.

“Museum” é a adaptação de uma manga inserida no género de horror de Ryosuke Tomoe que foi publicada durante os anos de 2013 e 2014. A acção centra-se nos homicídios bizarros cometidos por um misterioso Homem-rã e a perseguição que lhe é movida pelo detective Sawamura que tem um interesse pessoal no caso.

A realização esteve a cargo de Keichi Otomo que também dirigiu o live-action do sucesso estrondoso em manga e animação “Rurouni Kenshin”, sob a forma de uma trilogia (2012-2014), cobrindo de grosso modo a respetiva mitologia e seus personagens. Admita-se porém que “Museum” representa um compêndio de três volumes, enquanto a saga “Rurouni Kenshin” teve direito a três filmes, cada um com mais de duas horas e parece não ter existido a pretensão de deixar esta estória aberta à possibilidade de uma continuação. Otome não é um estreante nas andanças da adaptação de publicações de sucesso ao grande ecrã. E quando o material original é bom, é difícil falhar na concretização não é? Pois…

Os créditos iniciais anunciam pompa e circunstância. No meio de chuva torrencial a polícia tenta corresponder à chamada que deseja nunca ouvir: aconteceu um homicídio. Entram em cena os detectives duros e lacónicos de gabardina. O experiente Sawamura (Shun Oguri) e o novato Nishino (Shuhei Nomura) que tenta manter os conteúdos do estômago no seu devido lugar. O corpo de uma jovem mulher assassinada com os requintes de uma besta é encontrado como numa encenação. Essa imagem remete de imediato para outros espaços e temporalidade: “Seven” (1995), “The Bone Collector” (1999) ou até “The Wailing” (2016) vêm à mente. Não será a primeira e também a última vez que tal irá suceder durante o filme. No entanto, o ritmo mais lento é abandonado em favor da exposição da montra de horrores demasiado cedo, fazendo cair a investigação para enveredar pelos tortuosos caminhos de um “Saw” (2004-2010). O aparecimento de novas vítimas sucede a um ritmo rápido e furioso. Uma nota deixada no local, falando numa punição apropriada aos erros cometidos pelas vítimas, anunciam tratar-se de um assassino em série. Esta sequência de eventos conduz a investigação policial ao caso de um assassinato cometido tempos antes e que teria sido solucionado. A forma como as vítimas são apresentadas é impressionante ainda que, de modo casual, uma ou outra encenação possa parecer menos realista. Alguns dos adereços sobretudo os que dizem respeito à anatomia humana têm aparência amadora por comparação com outros surgidos em cenas similares. Porém, o enfoque nas vítimas e no método investigativo é mais célere e aleatório que o início do filme faria antever. “Museum” despacha as vítimas com rapidez para avançar para uma investigação rebuscada, com direito a polícias a demonstrar à boa maneira asiática como conseguem ser incompetentes e pistas cujas interpretação desafia a lógica para se tornar num “Saw” nas suas piores iteracções. De facto, um filme de investigação policial by the numbers como um “Seven” seria sempre mais interessante que o “Sawven” em que seria tornar. Shun Oguri é um excelente actor, capaz de ligar o fogo-de-artifício quando tal lhe é exigido e o seu personagem alterna entre o detective compenetrado e o homem frustrado com muita volatilidade mas aguentar estas cenas é pouco mais que sofrível. O build-up para as cenas dramáticas é quase inexistente, parecendo somente histriónicas. Isto, em conjunção com flashbacks que surgem nas piores alturas se é que eram de todo necessários, transforma a última meia hora num exercício de endurance penoso. No meio de tudo, o Homem-rã, cuja máscara e motivos tinham tido todo o potencial para se tornar num clássico, é quase esquecido. Mais uma vez o passado de um personagem surge à pressa sob a forma de um flashback ainda que este nada esclareça das suas motivações. No tempo presente não se consegue extrair um racional deste assassino para a sua obra e métodos, cujo discurso louco não se coaduna com o de quem passou bastante tempo a planear assassinatos elaborados. Além disso, antecipar e reforçar repetidamente a ideia de que "Museum" irá ser extremo ao ponto de romper com tabus e depois acobardar-se é apenas patético. Para isso, até o "Saw" fez melhor. Salva-se a primeira meia hora. O remanescente é puro engano. Duas estrelas e meia.

Shun Oguri como Detective Hisashi Sawamura
Satoshi Tsumabuki como Homem-rã
Machiko Ono como Haruka Sawamura
Shūhei Nomura como Junichi Nishino
Tomomi Maruyama  como Tsuyoshi Sugawara
Tomoko Tabata como Kayo Akiyama
Mikako Ichikawa como Mikie Tachibana

Próximo Filme: ?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Annabelle: Creation" (2017)



Assisti há tempos à Conferência de Apresentação de um Festival, uma coisa pequena chamada MOTELX (gritinhos histéricos!), onde foi dado a conhecer um pequeno gostinho do que será a 11.ª Edição, cuja programação foi entretanto relevada. Como habitual, nestas coisas de festivais teve lugar um visionamento-surpresa. Para ser honesta, a exibição de longas numa primeira apresentação à imprensa não é original mas, de facto, só descobri ao que ia quando lá cheguei. Fiquei por isso, um pouco desiludida quando me apercebi que seria exibida a sequela de “Annabelle” (2014). A sério, MOTELX? Estava habituada a filmes indie, por certo longas-metragens de baixo orçamento, mas nunca a continuação de uma película que a despeito de estar inserida na saga de “The Conjuring” é de longe a mais fraca. Ainda mais, se pensarmos que os casos de sequelas superiores aos filmes originais se contam pelos dedos de uma mão.
Estava errada. Em mais sentidos do que um. Apesar de ser conhecida de forma universal por “Annabelle 2”, “Annabelle: Creation” é afinal uma prequela que explica as origens da boneca que tanto terror terá provocado ao casal Warren e o filme representa ainda a segunda incursão no mundo das longas-metragens de uma das novas grandes promessas do cinema de terror, David F. Sandberg. Se não estão familiarizados com a sua película anterior, “Lights Out” (2016), recomendo uma visita rápida ao “cineclube” mais próximo. A curta que inspirou essa longa, está disponível no canal do realizador. Confesso que quando aprecio uma obra originária do cinema independente tenho sempre receio quando os seus criadores dão o salto. Ir parar ao cinema comercial é uma progressão natural na carreira mas, tenho receio que os maus hábitos dos executivos de grandes estúdios que consideram natural impôr as suas opiniões (de)informadas, que se sobrepõem por vezes ao talento contratado. “Annabelle: Creation” felizmente não se enquadra nessa categoria. A acção decorre nos anos 40 e 50, quando os Mullins, casal composto pelo criador de bonecas de porcelana Samuel (Anthony LaPaglia) e Esther (Miranda Otto) perde a filha Bee (Samara Lee) num acidente trágico. Destroçado, o casal isola-se na sua casa e entrega-se ao sofrimento. Doze anos mais tarde, decidem abrir de novo o coração e acolher no seu lar uma freira e seis meninas de um orfanato que ficou sem sede. Ficar ali, pelo menos de forma temporária é a única forma de manter as jovens juntas. O grupo é composto por adolescentes mais velhas que dificilmente serão adoptadas e meninas mais novas, onde se incluem Janice (Talitha Bateman) com mobilidade reduzida após cair vítima de um surto de poliomielite e a sua amiga inseparável Linda (Lulu Wilson). Janice é especialmente susceptível ao encanto de uma boneca de porcelana que encontra nas deambulações pela casa a que se encontra confinada. Apenas Linda se apercebe das mudanças que se operam na amiga.
David F. Sandberg manteve a abordagem que funcionou tão bem em “Lights Out”. Ele está no seu melhor nas cenas que envolvem muita escuridão ao mesmo tempo que manteve as convenções de “The Conjuring” que funcionaram com mais eficácia. Gary Dauberman escreveu o argumento dos dois "Annabelle", notando-se uma subida de qualidade na segunda parte que em muito se deve à nova escolha de realizador. Mas se existe um sinal de que ainda estão por vir muitos trabalhos interessantes de Dauberman, atente-se a “The Nun” e “It”, ambos com estreia em 2018.
O filme é um desfile de caras familiares ao universo de “The Conjuring” e do género de terror em geral. Sandberg foi buscar caras como Lulu Wulson que impressionou em “Ouija: Origin of Evil” (2016), Alicia Vela-Bailey a grande vilã de “Lights Out” ou Joseph Bishara, compositor de vários filmes da saga The Conjuring” e com uma apetência para interpretar o papel de demónios. Do elenco sobressaem Thalita e Lulu como actrizes de fazer envergonhar muito bom actor adulto com muito mais experiências que estas adolescentes, já que Lapaglia e Otto têm pouco que fazer.
Ao contrário de outras sagas que divergem de tom entre filmes, desde a banda-sonora até aos actores, este universo mantém-se fiel a si mesmo. Existe uma ideia de grande coesão desde os demónios aos jumpscares (yep, continua, a funcionar), o que significa que para quem não tenha apreciado os outros filmes da saga, “Annabelle: Creation” não constituirá a excepção. Uma pena porque o universo “The Conjuring” com todas as acusações de repetição dos clichés do género continua a ser uma das sagas mais interessantes e relevantes do panorama do cinema de terror americano dos últimos anos. Três estrelas e meia.
Realização: David F. Sandberg
Argumento: Gary Dauberman
Anthony LaPaglia como Samuel Mullins
Samara Lee como Bee
Miranda Otto como Esther Mullins
Lulu Wilson como Linda
Talitha Eliana Bateman como Janice
Stephanie Sigman como Irmã Charlotte
Mark Bramhall como Padre Massey
Grace Fulton como Carol
Philippa Coulthard como Nancy
Tayler Buck como Kate
Lou Lou Safran como Tierney

Próximo Filme: "Museum" (Myujiamu, 2016)

domingo, 11 de junho de 2017

Headshot, 2016


O cinema indonésio tem estado sobre a mira do público internacional, tendo conseguido exportar – com algum sucesso admita-se –, actores como Iko Uwais, Yayan Ruhian, Julie Estelle ou Joe Taslim. Também a dupla Stamboel/Tjahjanto, mais conhecida como os “Irmãos Mo”, não são novatos nestas lides desde que chamaram a atenção pelo fantástico “Macabre” (2009), uma espécie de “The Texas Chain saw Massacre” (1973) dos tempos modernos, tendo-se destacado por terem criado algumas das intervenções mais criativas e interessantes em antologias de cinema a oeste, da 2ª década do novo milénio (“ABC’s of Death”, 2012 e “V/H/S/2”, 2013). A pressão para gerar novos sucessos de bilheteira deve ser tão grande quanto a sentida por Ishmael (Iko Uwais), o personagem principal de “Headshot” que encontra mauzões em cada esquina, os quais chacina com brutalidade, minuto após minuto de acção frenética e um pouco louca. A movê-lo está um dos clichés mais utilizados, irritantes e cansativos em cinema ou telenovela. O pobrezinho sofre de amnésia. Encontrado numa praia como morto, ele é assistido pela Dra. Ailin (Chelsea Islan), a personagem mais desesperada por afeição que tenho visto nos últimos tempos. Que importa que ele tenha uma bala na cabeça? Qual é o mal de alguém ter tentado assassiná-lo? Pelos vistos o desconhecido misterioso é atraente e, se for bonzinho, como aparenta, uma vez que depende da boa vontade de estranhos já que não se recorda do próprio nome, deverá ser fácil amestrá-lo até se tornar o namorado perfeito. Ela até lhe dá o nome do personagem principal do livro que está a ler naquele instante: Ishmael um marinheiro resgatado com vida após o encontro funesto do seu barco com a baleia Moby Dick. Tão romântico. Até que ele é visto pelos mauzões que lhe espetaram com uma bala na cabeça. Eles pertencem a uma seita secreta de assassinos e gostariam que desta vez ele ficasse morto. Ailin acaba por ser raptada e Ishmael toma a decisão de a resgatar, mesmo que isso implique descobrir factos menos abonatórios sobre o seu caracter pré-amnésia.

Para este filme os irmãos Mo vão reciclam estórias clássicas do cinema de acção e vão repescar estórias do próprio corpo de trabalho, de que “Killers” (2014) ou “V/H/S/2” constituem um bom exemplo. Existe um entendimento perfeito de que o argumento é secundário. “Heashot” poderá afugentar alguns cinéfilos devido à sua matriz base que é repetitiva. As suas qualidades encontram-se antes nos momentos de combate corpo a corpo, coreografados pelo próprio Uwais e intercalados com acção bélica que faz recordar “The Raid 2” (2014). A título de exemplo, um dos instantes que ficarão para a estória envolvem um autocarro cheio de inocentes e armas. Muitas Armas. O filme tem ainda alguns repetentes tais como Julie Estelle e Very Tri Yulisman que retomam os papéis de “The Raid 2” “Rapariga do Martelo” e “Rapaz do Taco de Baseball”, perdão, como “Femme fatale do facalhão” e o “Assassino Hipster”. Quem pode julgar os “manos Mo” por estas brincadeiras? Eles sabem o que o público quer ver? Os actores é que poderão se cansar de interpretar o mesmo saco de pancada vezes sem conta. As cenas de luta são longas e extenuantes, exageradas e irrealistas mas que ninguém diga que não têm estilo ou não ficam na memória. Morte por facalhão, catana, metralhadora são o pouco nosso de cada dia. Apenas o estilo shaky cam acaba por confundir mais em alguns momentos do que a compreender a acção dura que se vê no ecrã.

O cinema de acção indonésio apresenta-se como a solução para colmatar o vazio entre a acção ultra-violenta mas estilizada do cinema coreano e o wire fu de uma Hong Kong que parece ter-se esquecido dos seus “Hard Boiled” ou “A Better Tomorrow”. Falta apenas encontrar um meio-termo entre a sofreguidão das cenas de acção e a exigência de um argumento que apresente uma estória nova que valha a pena contar através deste estilo tão peculiar. Duas estrelas.

Realização: Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto
Argumento: Timo Tjahjanto
Iko Uwais como Ishmael
Chelsea Islan como Ailin
Sunny Pang como Lee
Very Tri Yulisman como Besi
Julie Estelle como Rika
Yayu A.W. Unru como Romli

Próximo filme: Get Out, 2017

domingo, 5 de março de 2017

"The Handmaiden" (Agassi, 2016)


Chan-wook Park, realizador de filmes tão brilhantes e brutais como a trilogia da Vingança (2002-2005), um dos melhores segmentos da antologia de terror “Three… Extremes” (2004) ou ainda o injustamente ignorado “Snowpiercer” (2013) ainda não encontrou um desafio que não pudesse superar. Desta feita adaptou um romance gótico-vitoriano “Fingersmith” de Sarah Waters escrito em 2002 e transportou-o para a Coreia dos anos 40, ocupada pelo invasor Japão. Tanto quanto me foi dado a perceber (obrigada Google!), a essência e a motivação das personagens permanece a mesma contudo, elas seguem o rumo que Chan-wook Park lhes quis dar. Este thriller erótico-dramático foi escrito por uma romancista mas as personagens são tão familiares, tão intrinsecamente ligadas à obra de Chan-wook que quem não saiba dirá com facilidade que “The Handmaiden” é 100% fruto do seu imaginário.


Hideko (Min-hee Kim) é uma órfã japonesa prisioneira numa relação inquietante com Kouzuki (Jin-woong Jo) um coreano que se casou com uma tia dela para ascender socialmente e usufruir do dinheiro da herdeira para dar azo à sua derradeira paixão: a literatura. A fortuna da jovem japonesa capta as atenções de um vigarista que se apresenta como um Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) tomado de ardores de amor e paixão, herói que a irá resgatar da clausura. Para tal, ele capta a ajuda da pequena ladra Sok-hee (Tae-ri Kim), uma servente que deverá influenciar e colocar Hideko no caminho do sedutor.
Um plano que parecia simples complexifica-se quando Hideko e Sook-hee forjam uma forte ligação. Elas são mais iguais do que seria expectável. Presas às circunstâncias do nascimento, elas parecem fadadas à impossibilidade de escapar aos destinos que lhes foram prescritos há muito, muito tempo. Por dinheiro, ambas são joguetes nas mãos dos homens. Até que surge num plano maquiavélico uma hipótese derradeira de liberdade. As relações entre as personagens são intrincadas e a duplicidade é uma constante. Esta percepção do estado de coisas e das relações entre personagens instala-se pela apresentação de uma narrativa menos comum, divida em capítulos, como se tratasse do livro que lhe deu origem. Cada capítulo é apresentado do ponto de vista das diversas personagens e gera-se mesmo o efeito “Rashômon” até que os motivos são desvelados e confrontados para uma verdade dos “factos” sobressair.

“The Handmaiden” é vastamente superior a muitos equivalentes do género e sim, o recente “Crimson Peak” (2015) vem à mente. As representações do quarteto principal são todas dignas de prémios e a acção move-se devagar, à excepção da última meia hora mas em momento algum se torna insípida como a abordagem de Del Toro. Aqui há beleza à superfície e em profundidade. A cinematografia é esplêndida, o que é aliás comum nos filmes de Park Chan-wook. Existe um forte sentido de transmissão das ideias de clausura física e das barreiras psicológicas que separam as personagens. Sobretudo a relação entre Sook-hee e Hideko é explorada de modo hábil pela câmara curiosa, intrusa, em todos os pequenos momentos, mesmo aqueles em que duas mulheres cúmplices se encontram a brincar aos vestidos. Momentos de comédia transitam para outros de elevada tensão com uma fluidez natural. Por outro lado, existem ainda pequenos momentos de homenagem e referência a trabalhos anteriores, designadamente, uma cena de tortura reminiscente do segmento “Cut” em “Three Extremes” e “Oldboy”. “The Handmaiden” é ainda um thriller erótico com cenas capazes de fazer corar o cinéfilo mais liberal. A despeito do cuidado na direção destas sequências estas prolongam-se sem necessidade, fazendo com que a película perca o ritmo, ou quebre mesmo alguma tensão que lhe antecedeu. Talvez seja este o mal menor num filme onde as personagens são tão violentadas que algo que se assemelhe a um breve momento de prazer saiba a uma pequena recompensa. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Seo-kyeong Jeong e Chan-wook Park
Min-hee Kim como Hideko
Tae-ri Kim como Sook-Hee
Jung-woo Ha como Conde Fujiwara
Jin-woong Jo como Tio Kouzuki
Hae-suk Kim como Miss Sasaki
So-ri Moon como Tia de Hideko

Próximo Filme: "House" (Hausu, 1977)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)



Shinya Tsukamoto, realizador conhecido por ter alguns clássicos de culto no currículo incluído o incontornável filme do subgénero cyberpunk “Tetsuo” (1989) e a respetiva sequela, ou o drama erótico (experimental?! Diria que em qualquer filme de Tsukamoto a experiência é uma constante) “A Snake of June” (2002), retoma a sua abordagem pouco convencional num mistério detectivesco.

Em Tóquio, ocorrem num curto espaço de tempo, duas mortes brutais por esfaqueamento. Numa primeira análise, as condições em que sucederam, como o facto de os apartamentos onde foram encontrados os corpos se encontrarem fechados por dentro, fariam crer à força policial que esta estaria perante casos de suicídio. Um erro negligente e amador para Keiko Kirishima (Hitomi) uma inteligente mas inexperiente detective no terreno, que foi transferida há muito pouco tempo para aquela esquadra. A reprovação e desrespeito pela senioridade dos colegas em conjugação pela reacção de choque ao visionar os cenários macabros do crime, granjeiam-lhe a desconfiança dos colegas Ishida (Ren Osugi) e Wakamiya (Masanobu Ando) e a desvalorização das capacidades que o seu currículo ostenta. É a cabeça fria porém que lhe diz que existe algo mais por trás de mortes tão aparatosas. Os suicídios foram grotescos, por que não escolher formas mais rápidas e indolores de provocar a própria morte? Se a morte foi voluntária porque é que em ambos os casos há relatos de pedidos de ajuda ou de agonia não deliberada? Por fim, ambas as vítimas marcaram o número 0 antes da morte? Estarão perante um culto suicida ou porventura, um anjo da morte? Estas e outras interrogações levam a investigação policial por caminhos nunca trilhados no campo dos sonhos e que são a todo o momento questionados pelos detectives mais racionais. A investigação conduz Keiko a Kyoichi Kagenuma (Ryuhei Matsuda), um homem atormentado de quem se diz possuir a capacidade de mergulhar nos sonhos de terceiros. Entretanto e, a bem do velho método policial continua uma investigação paralela com diligências mais convencionais.


Se a premissa já parece intrigante o facto de ter o nome de Shinya Tsukamoto associado é a confirmação de que “Nightmare Detective” não é o thriller policial típico. É aliás, o ambiente natural para Tsukamoto se exibir em todo o seu esplendor. Ele é obsessivo no que respeita ao mundo onírico. Quase todos os seus filmes têm uma ou mais sequências de sonho e flashbacks.
As bizarrias, fetiches e pecados imaginários ou passados podem ser resgatados na psique dos personagens desta forma. Sem se tornarem repetitivas, as cenas são tão características do trabalho do realizador que por vezes, pode até aparentar que elas foram idealizadas em primeiro lugar na sua mente e só numa fase posterior se desenhou o remanescente da estória. Elas constituem ainda momentos surrealistas que em muito fazem lembrar realizadores como David Lynch. No caso de “Nightmare Detective” será porventura mais fácil descortinar o significado por trás da imagética pois que este, apesar de tão distintivo do realizador é uma versão mais acessível e comercial da sua filmografia. Ele próprio surge como uma personagem fulcral na narrativa, pois que ele gosta de imergir nos seus próprios filmes através da interpretação de personagens – sem qualquer vestígio de surpresa –, quanto mais bizarras melhor. A premissa de “Nightmare Detective” conduz a algumas semelhanças óbvias com “Nightmare in Elm Street” contudo, é bem mais difícil de rotular, encontrando-se mais próximo do thriller que do género de terror. É representativo do trabalho do realizador sem se tornar pretencioso e é uma lufada de ar fresco para os mistérios detectivescos em geral. Temos aqui um bom ponto de partida para um franchise de sucesso. Três estrelas.


Realização: Shin'ya Tsukamoto
Argumento: Hisakatsu Kuroki e Shin'ya Tsukamoto
Ryûhei Matsuda como Kyoichi Kagenuma
Hitomi como Keiko Kirishima
Masanobu Andô como Detective Wakamiya
Ren Ohsugi como Detective Sekiya
Yoshio Harada como Keizo Oishi

Próximo Filme: "Black Coal, Thin Ice" (Bai ri yan huo, 2014)

domingo, 2 de outubro de 2016

"The Wailing" (2016)



“The Wailing” (Goksung) é o mais recente colosso de Hong-jin Na, o ainda jovem realizador de “The Chaser” (2008) e “The Yellow Sea” (2010), que integram – e digo isto sem qualquer pingo de hesitação –, o leque de melhores filmes dos anos em que estrearam. Tal como os filmes que lhe precederam, “The Wailing” é longo e moroso mas nunca cansativo. Uma película mais do que respeitável para o segundo dia de arranque do Motelx.


“The Wailing” segue o padrão dos trabalhos prévios de Hong-jin Na na sugestão de mistério/thriller policial, mas dá uma viragem brusca para o campo do metafísico, sem perder a tensão crescente que lhes foi tão característica. Enquanto “The Chaser” se focava em duras e longas cenas de perseguição por vielas labirínticas, “The Wailing” mantém-nos agarrados à cadeira através de cenas tais como a de um ritual xamânico, qual luta eterna do bem contra mal, em que bom e vilão empregam toda a sua fisicalidade para tomar posse do corpo de uma garotinha ou a conseguir das garras do mal. O efeito é alcançado mediante a intermediação das cenas de ambos os ritos, aumento exponencial do volume, bem como do aumento dos níveis de intensidade no desempenho dos actores. O elenco é vasto e sólido, sem elos fracos. Cada personagem tem uma palavra a dizer, uma expressão a acrescentar, mesmo que subtil, para o resultado final. Do lado dos “inocentes” temos um Do-won Kwak que encarna na perfeição o polícia tolo e ineficaz tantas vezes retratado no cinema coreano. A inacção e completa incompetência são exasperantes, no entanto, é impossível não simpatizar com o seu desespero enquanto pai que teme perder a sua cria em circunstâncias que nem sequer compreende quanto mais controlar. Também está a seu cargo a maioria das cenas cómicas, que se vem a verificar não serem mais do que uma artimanha para criar uma falsa sensação de conforto inicial. Já a pequena Hwan-hee tem um desempenho de gente grande, no papel de Hyo-jin, a filha de Jong-goo parecendo ela própria, por vezes, mais adulta que os que a rodeiam. É ela a Linda Blair deste “The Wailing” mas sem o apoio do departamento de caracterização.

O misticismo em todo o seu fulgor é canalizado por Jung-min Hwang, Jun Kunimura e Chun-woo Hee, os únicos que parecem saber o que se encontra na base dos incidentes terríveis em Goksung e também aparentam, em simultâneo, estar determinados em esconder o que sabem. Hwang é irrepreensível no sempre difícil papel de “sacerdote” que seria fácil ridiculizar através de uma cena de “exorcismo” mal conseguida. Já Jun Kunimura tem o ingrato papel do “Japonês”, como é tratado pela população pequenina e mesquinha, sabendo de antemão que a escravidão e abusos sobre o povo coreano, na sequência de sucessivas invasões japonesas, constituem crimes de guerra não esquecidos e certamente não perdoados que persistem até aos dias de hoje, sobretudo nos episódios de disputas de ilhas entre os países. O argumento alimenta-se desta rivalidade e preconceito, tema que já tinha sido explorada numa perspectiva diferente, entre os povos chinês, sul e norte-coreano, em “The Yellow Sea”. Esta abordagem torna mais fácil compreender o porquê da facilidade em apontar a culpabilidade do japonês, aliado à desconfiança de povoações pequenas perante os “que não são de cá”. Woo-hee Chun é quem tem talvez menos que fazer mas ainda assim tem uma presença marcante. As vestes, ritos e respostas enigmáticas destes personagens, estão repletas de pistas para as quais a atenção é essencial, ainda que, ao final da segunda hora de filme se torne óbvio que as respostas não serão fáceis. A dificuldade na sua obtenção e a possibilidade de diferentes interpretações pode ser motivo de cólera para alguns mas numa época onde a celebração da mediocridade é cada vez mais banal, um “The Wailing” que se sente confortável pululando entre géneros é porventura um dos momentos cinematográficos mais refrescantes de 2016. Quatro estrelas.
Realização: Hong-jin Na
Argumento: Hong-jin Na
Do-Won Kwak como Joong-goo
Jung-Min Hwang como Il-Gwang
Jun Kunimura como "O Japonês"
Woo-Hee Chun como Moong-myeong
Hwan-Hee Kim como Hyo-Jin

NOTA: Texto publicado originalmente aqui.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Election" (Hak se wui, 2005)


De dois em dois anos a tríade Wo Shing passa por um período de eleições para escolher o seu líder máximo. Acerca-se um novo de período de eleições e os membros seniores da Wo Shing acomodados que estão nas suas regras e rituais não pensam candidatar-se. Também é verdade que não estão mais perto de encontrar um novo líder. É altura de entrar sangue novo e as opiniões dividem-se entre Lok (Simon Yam) e Big D (Tony Leung Ka Fai). Lok é calmo e reservado, dir-se-ia mesmo sonso, não fosse ele um assassino frio e calculista que gostava de analisar todas as jogadas antes de decidir o curso de acção. Big D é o oposto. Espalhafatoso e possuidor de confiança excessiva, ele acredita que estão todos abaixo dele o que gosta de demonstrar por via do sadismo. Se por um lado está disposto a tudo para a Wo Shing triunfar por entre todas as sociedades criminosas e, sobretudo ele, reinar, por outro é a característica que o torna vulnerável a cometer o tipo de erros de impulsividade que costumam granjear muitos inimigos. São tidas reuniões, são feitos subornos e são tidas ainda mais reuniões. Uma decisão é tomada. Mas convém não esquecer um importante pormenor. Os anciões da tríade são organizados mas acima de tudo dão valor à tradição. O vencedor, para se legitimar terá de possuir um bastão centenário que pertenceu aos diversos chefes. Quem o obtiver será reconhecido por todos como o Grande Líder. Desencadeia-se então uma luta entre as facções e os seus seguidores para conseguir o símbolo máximo de poder.

É comum fazer-se uma associação imediata à extrema violência à mera menção da palavra máfia mas “Election” é tão enganador como os seus predecessores. Conduzido com a mão sábia de Johnnie To que tem um vasto currículo no retrato dos estilos de vida à margem da lei, “Election” concentra-se mais nas maquinações das tríades chinesas que na sua brutalidade mesmo que esta quando surja seja marcante. A título de exemplo, um leal lacaio mastiga pedaços de porcelana a mando do chefe…
A maioria do elenco, quase na totalidade do sexo masculino, são homens de meia-idade, práticos e capitalistas. Não fosse a natureza dos assuntos com que lidam e quase se poderia olhar para estes como legítimos homens de negócios. No fundo, tudo é passível de ser transformado num negócio desde que se seja amoral. Com alguns dos meninos bonitos do cinema chinês como Louis Koo (Jimmy) e Nick Cheung (Jet) é de estranhar quão pouco estes são utilizados. Eles ostentam nas poucas cenas em que surgem carisma suficiente para se querer saber mais sobre os seus personagens que se revelam, aliás, os poucos idealistas ou bandidos por vocação num filme onde predomina o cinismo. Entra ainda em acção a força policial, como que para nos fazer recordar quem é que é o bom da fita. Ela está no entanto, condenada a um plano secundário num enredo onde já existem demasiados actores secundários. Talvez fosse mesmo essa a ideia dos argumentistas, demonstrar como estas sociedades são enormes, como existem demasiados intervenientes a considerar e, assim, se torna difícil distingui-los. A película perde talvez o potencial de encanto após abandonar o engenho em detrimento da caça ao homem, ou melhor, ao bastão mítico, altura em que se torna mais convencional. Curiosamente, uma crítica que não se lhe pode apontar e não costuma ser habitual em filmes sobre a máfia (chinesa, italiana ou japonesa) é que é demasiado curto.
Após um período de acalmia, o fim vem rápido e furioso, com os dois melhores actores em cena a comprovar aquilo que já se dizia sobre os seus personagens. Aquele é um negócio sujo e mesmo sobre um clima de calma aparente, os bandidos não conseguem negar a sua natureza. Três estrelas.

Realização: Johnnie To
Argumento: Nai-Hoi Yau e Tin-Shing Yip
Simon Yam como Lok
Tony Ka Fai Leung como Big D
Louis Koo como Jimmy
Nick Cheung como Jet
Ka Tung Lam como Kun
Siu-Fai como Sr. So
Suet Lam como Big Head
Tian-Lin Wang como Uncle Teng
Bing-Man Tam Uncle Cocky
Maggie Siu como Senhora Big D
David Chiang Chefe Superintendente Hui

Próximo filme: "Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

"The Invitation" (2015)


“The Invitation” foi o último filme a ser exibido numa edição do MOTELx de 2015 que tinha sido pouco mais que morna. “Assassination Classroom” foi a adaptação de mangá divertida que não comprometeu, “We are still Here” fez as delícias dos fãs de um estilo retro e pouco mais houve que ficasse na retina. Eis que surgiu “The Invitation”, uma daquelas películas que surgem assim de mansinho, ninguém dá por elas e acabam por roubar o Show. Wow!

“The Invitation” faz o mesmo pelos jantares de amigos no género de thriller, o que “Coherence” fez em 2013, em Ficção Científica. Posto isto, não morrendo de amores por esta última obra que atua em formato “lume brando” até a um clímax inesperado, “The Invitation” não convidará muito ao visionamento.

Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) dirigem-se para um jantar de amigos, quando sucede o inesperado. Eles atropelam um animal e Will acaba por ter de tomar uma decisão difícil. Com isto em mente, uma noite que já se adivinhava tensa torna-se ainda mais enervante. É a primeira vez que Will se reencontra com a ex-mulher Eden (Tammy Blanchard), 2 anos depois de um acontecimento penoso que transformou as suas vidas para sempre. Tanto Will como Eden prosseguiram as suas vidas românticas e o inesperado e estranho convite de Eden faz pensar que o Encontro servirá, em simultâneo, para sarar feridas e enterrar o machado de guerra. Eden reuniu os velhos amigos do casal para um jantar com o seu novo companheiro, o calculista David (Michiel Huisman) e a provocadora Sadie (Lindsey Burdge) cuja aparência parece gritar “vítima” de todos os ângulos. Os amigos parecem aceitar, pelo menos durante algum tempo, a explicação de Eden para a reunião após tantos anos sem se verem. Houve um acontecimento horrendo que precipitou o fim do casamento de Will e Eden, o casal perfeito e o consequente afastamento dos amigos. Eles aceitam com hesitação a renovada e sofisticada Eden, à excepção de Will. Ele conhecia-a, ele foi marido dela e aquela, simplesmente não é a querida e vulnerável Eden de quem se separou. Se calhar ele é que se perdeu na dor e na bebida, porque só ele consegue ver algo de muito estranho na atitude dela, de David, de Sadie e, mais tarde, na imponente e ameaçadora figura de Pruitt (John Carroll Lynch), o amigo que ninguém conhece.

“The Invitation” sobretudo da paranóia de Will. Já alguma vez experimentaram a sensação de estar num grupo e sentir que apenas vocês estão certos e, até podem, de facto, estar certos, mas ninguém acredita em vocês? O problema que se coloca perante Will e constitui a maior fonte de interesse para a audiência é que não se sabe se ele tem razão ou se estará apenas a imaginar coisas. “The Invitation” é um jogo de percepção que mantém o equilíbrio a todo o momento. Will tem mesmo motivo para achar que há algo de muito errado naquele jantar? Não serão as suas desconfianças apenas delírios de um louco? De cada vez que tomamos uma decisão relativamente à pespectiva certeira, surge nova pista para nos fazer mudar de ideias. “The Invitation” sucede devagar mas seguro, claustrofóbico, à medida que os convivas transitam entre as divisões da casa, comendo e bebendo, as personalidades mais desinibidas e a conversa começa a tocar nas feridas abertas. Os convivas agem como um grupo de amigos normal, com personalidades bem definidas e as suas “cliques”, de espírito aberto mas reserva suficiente para não ferir susceptibilidades, até à descontracção ou a agressão latentes se tornarem manifestas. Muitos destes estados de alma podem ser observados sem quaisquer palavras, através da paralinguística, tal como aqueles jantares desconfortáveis em que somos obrigados a participar umas poucas vezes na vida. “The Invitation” não é sobre o desenlace que apenas a poucos minutos do clímax se torna óbvio mas, sobre o caminho percorrido. Logan Marshall-Green assemelha-se a um Tom Hardy sombrio em versão indie, com excelentes resultados. A sua dor, desconfiança, paranóia e o instinto de sobrevivência, reunidos sob uma aparente calma contida, são um gosto de observar. De igual modo, John Carroll Lynch é a prova viva de como um actor secundário pode roubar a atenção das “estrelas” através de um brilhante e perturbadora interpretação… “The Invitation” não vai além do terreno da casa onde decorre o jantar de amigos mas não precisa de muito espectáculo para ser inquietante. Muito depois de terminar ficará num recanto da mente, a fervilhar. É fogo que arde sem se ver e esse é talvez o maior elogio que se lhe pode fazer. Quatro estrelas.

Realização: Kary Kusama
Argumento: Phil Hay e Matt Manfredi
Logan Marshall-Green como Will
Tammy Blanchard como Eden
Michiel Huisman como David
John Carroll Lynch como Pruitt
Emayatzy Corinealdi como Kira
Toby Huss como Dr. Joseph
Mike Doyle como Tommy
Michelle Krusiec como Gina
Karl Yune como Choi
Lindsay Burdge como Sadie
Marieh Delfino como Claire
Aiden Lovekamp como Ty
Jordi Vilasuso como Miguel
Danielle Camastra como Annie
Jay Larson como Ben

Próximo Filme: "Teketeke" (2009)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Sleepwalker 3D" (Meng you 3D, 2011)


Os sonhos são uns sacanas. Uma pessoa trabalha como uma escrava, tendo por vezes apenas por miragem o sonho de um banho quente e de uma refeição consistente, o mínimo que pode desejar é um sonho reconfortante certo? Nada disso. Os sonhos são a porcaria da recompensa mais inconsistente e desconfortante de todas. Diz que é o espelho do subconsciente, aquele bocadinho de matéria que jaz dormente que surge para nos dizer: “há questões dolorosas, mal resolvidas, que convém explorar neste preciso período em que estás especialmente cansado e angustiado”.
A vida de Yi (Angelica Lee) revolve à volta deste ciclo pernicioso. Ela tenta apanhar os cacos da sua existência após a morte da filha e falha todos os dias. À noite é assaltada por sonhos nos quais uma criança é enterrada num bosque. De manhã, acorda como se tivesse estado acordada durante toda a noite e com as mãos cheias de terra. Com o desaparecimento do ex-marido, Yi começa a temer que tenha tido algo a ver com o caso. Entretanto, Peggy (Charlie Young) está a enfrentar um pesadelo que Yi conhece demasiado bem, o filho desapareceu e com o tempo a passar a esperança torna-se ténue. Com o apoio da detective Au (Huo Sien), Yi compromete-se a dar apoio à investigação. Se os seus sonhos tiverem uma pista para o paradeiro da criança ela irá auxiliá-la ainda que isso possa significar que é culpada do rapto e possivelmente homicídio.

A ideia do sonambolismo é tão tentadora quanto atemorizante mas nas mãos dos irmãos Pang é igualmente excitante. A metade dos irmãos Pang conhecida por Oxide recruta caras conhecidas para mais uma aventura a solo: a sua eterna musa Angelica Lee e Decha Srimantra, cinematógrafo que o acompanhou em quase todos os filmes que realizou até ao momento. É uma garantia reconfortante saber que pelo menos uma das actuações será sólida e que nos aguarda um espectáculo visual, o que é mais que a maioria das películas nos oferece. Oxide diverte-se com as possibilidades de “Sleepwalker 3D” mas não existe um verdadeiro foco. O 3D, à semelhança de tantas outras experiências anteriores e já posteriores mais se assemelha a um acessório que nem era necessário, nem acrescenta um contributo válido para a estória e é escasso. Os motivos de interesse são outros, incluindo a técnica simples mas que sempre funciona da imagem a preto e branco com um toque de cor, matizes azuladas e breves animações nas sequências de sonho. Angelica é a melhor das três protagonistas e parece genuinamente afectada pela perda pessoal, a possibilidade de possuir uma faceta negra e… uma peruca terrível. Estou em crer que algumas das suas lágrimas se devem aquela coisa vermelha que lhe colocaram na cabeça no lugar de peruca e ninguém me convence do contrário.
Ela é uma alfaiate com um estilo pessoal alternativo pelo que não é como se o cabelo vermelho fosse uma opção estética fora de série. No entanto, a caracterização distrai em algumas cenas importantes. A sério que não tinham orçamento para dar à belíssima Angelica um penteado decente? A par com o cabelo estão uma série de desempenhos muito abaixo do nível de aceitabilidade para um grupo de teatro amador. As mulheres fazem o que podem com aquilo que têm. Os homens nem sequer tentam. Este é o calcanhar de Aquiles de qualquer dos irmãos Pang. Eles dedicam mais atenção às suas actrizes e, sobretudo, às que interpretam as protagonistas que ao resto da equipa de actores. Os primeiros filmes da sua carreira e o thrillers “The Detective” (2007) e “The Detective 2” (2011) constituem notáveis excepções. A aparente ausência de preocupação com o casting tem sido uma das críticas consistentes para não possuam uma reputação superior à que por ora possuem e as suas obras fiquem sempre aquém do potencial inicial. O segundo grande mal de “Sleepwalker 3D” é os subenredos que acompanham a narrativa principal que todos os juntos, não parecem fazer grande sentido: ex-maridos desaparecidos, irmãs com uma relação complicada, mulheres em coma… Uma grande série de nada, que não leva a nenhum lado em particular. A prova de que não têm relevância para a estória e apenas contribuem para gerar ruído é o habitual, dispensável, irritante e arrogante flashback para explicar os acontecimentos. Uma estrela e meia.

O melhor:
Os passeios nocturnos de Yi
Os sonhos
Cinematografia
Angelica Lee

O pior:
A peruca da Angelica Lee
A identidade do vilão é óbvia.
É mesmo para dormir… sem direito a sonambulismo.
3D, para que serves tu?


Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Angelica Lee como Yi
Charlie Young como Peggy
Huo Sien como Detective Au
Li Zong Han como Eric

Próximo Filme: Babangluksa, 2011
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