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sábado, 11 de setembro de 2021

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte três

 Um dia marcado pela boa disposição.

Dia III

Alien on Stage

On stage everyone can make you laugh

Se não estivesse familiarizada com o fenómeno "The Room", quase acharia estranho o conceito de um grupo de teatro amador composto por motoristas de autocarro de uma pequena vila inglesa, levar uma adaptação séria de "Alien" ao palco. 

Depois de dar vida a pantominas divertidas em natais anteriores para angariar fundos para caridade, a decisão do grupo de criar uma peça inspirada no icónico filme de Ridley Scott confundiu muita gente.

A encenação revelou-se um fracasso. Passaram de natais de casa cheia para apenas 20 pessoas. Uma adaptação séria de Alien não equivalia às habituais comédias de Natal. Agora, podia dizer que a estória ficou por aqui mas tal não seria verdade. 

No meio do escasso público encontravam-se duas londrinas que encontraram um flyer sobre a peça que as intrigou tanto que as levou a conduzir três horas para assistir à peça. O resultado não podia ser mais feliz: elas fizeram da sua missão levar a peça aos palcos de Londres. O melhor? Conseguiram.

O documentário “Alien on Stage” é o caminho desde os ensaios penosos e de imaginação fértil amadora até aos palcos do West End. É a estória da Cinderella, se esta conduzisse um autocarro. 

A candura daquele grupo de pessoas ordinárias, que se vêm surpreendidas pelo amor à pequena peça que fizeram com alegria e ingenuidade fazem deste documentário o momento feel good do festival MOTELx de 2021.

O valor de "Alien on Stage" não reside na componente técnica mas nas emoções que provoca. Como documentário não existem muitas ideias. É quase amador. De facto Lucy Harvey e Danielle Kummer têm pouca experiência como uma breve passagem pelo IMDB vos poderá demonstrar. Sobra um amor incomensurável pelo material. Amam o filme “Alien” e amam a dedicação daquele grupo de pessoas, tratando-as com o máximo de respeito. Se aplicarem a mesma paixão aos próximos projetos e adquirirem mais experiência talvez nos possam vir surpreender.

“Alien on Stage” não é sobre actores à procura do estrelato. É sobre pessoas normais, com trabalhos normais que fazem o melhor que podem com os parcos meios de que dispõem. Nas horas livres dos trabalhos a tempo inteiro decoram textos, montam cenários e arranjam soluções criativas para encenar uma peça muito difícil e nada óbvia de levar ao palco. Um chestburster de espuma a fazer a sua estreia no palco ao vivo? Brilhante. A despeito de alguns momentos de autoconsciência como um encenador que se recusa a perder a paciência enquanto é filmado ou uma das actrizes a censurar os palavrões que lhe pesam na alma, é nas interações reais entre o grupo amador que o documentário ganha vida. Impossível assistir e não ficar bem disposto.


Sweetie you Won’t Believe it

A comédia física, música cazaque e a descrença entram num bar e…

Já posso riscar da minha bucket list ter assistido a um filme do Cazaquistão e posso confirmar que foi a surpresa positiva do 3º dia.

Confirmo que “Sweetie you Won’t Believe it”, mantém a tendência de comédias de terror inesperadas que vêm de mansinho e roubam o coração da audiência depois de “One Cut of the Dead” ou “Extra ordinary”. Ri-me tanto com aquele aquele último que quase tive contracções. #truestory

“Sweetie you Won’t believe it” segue a alegre tradição da comédia de enganos.

Farto de Zhanna, a sua mulher grávida ultra exigente, Dastan só quer um bocadinho para si, antes de o bebé nascer. Sem sequer saber pescar marca uma fugida para ir pescar com dois amigos, longe das preocupações do quotidiano. Quer o acaso que assistam a um homem a ser assassinado por causa de um negócio que correu mal e põem-se em fuga do bando de malfeitores pelo meio da mata. Pelo caminho cruzam-se com um serial killer temível, um pai e uma filha muito estranhos (a sério, o que é que aquela gente põe na água?) e a realização de que Zhanna entrou em trabalho de parto. Será que conseguem fugir dos bandidos? Será que conseguem chegar antes que a criança nasça? E se chegarem a tempo, será que a mulher não irá matar, ela própria Dastan, por ter dado de frosques?

O filme é acompanhado por uma excelente banda-sonora, um mix de folk com eletrónico cazaque que admito já, não me importava de ouvir de novo. Faz recordar as comédias tailandesas e outros filmes mais mainstream como “Tucker & Dale vs Evil”, sem passar por parente pobre. Em particular a sequência de eventos que desembocam numa autêntica bola de neve são um pequeno toque de génio. Digamos que a culpa de tudo quanto sucede no filme pode ser atribuída à mulher grávida. 

Não é isento de erros, incluindo alguns subenredos que podiam ser melhor explorados: Dastan tem as finanças numa miséria. Nos instantes iniciais é focada uma reportagem sobre o desaparecimento de três mulheres. É mostrado um álbum que demonstra um acontecimento vital na vida do serial killer. O par pai e filha é tão peculiar que mereciam mais minutos só para eles. Estas e muitas outras questões ficam por explorar e isto leva-me a uma sugestão: teria sido muito interessante desdobrar este “Sweetie” numa mini série, acompanhando cada grupo de personagens e as suas estórias já que são estas que dão cor ao guião. Não faço ideia como se irá materializar a distribuição internacional deste filme mas estejam atentos. Vale a pena o esforço.


Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte quatro


terça-feira, 13 de julho de 2021

"In Fabric" (2018)

Uma besta estranha.

Filmes sobre objectos assombrados são sempre uma provocação. Além da iminente e fulcral suspensão da crença, há ainda toda uma abordagem que é uma incógnita. Será que os argumentistas optaram por prosseguir com o absurdo puro ou, espera-nos um registo mais poético, quiçá onírico? A oferta é variada e podemos encontrá-la em muitos períodos do cinema: “Christine” (1983), “Trucks” (1997), “The Red Shoes” (2005), “Fridge” (2012), filmes de bonecas assombradas, então, encontram-se a rodos no cinema do sudeste asiático, tal como os slashers nos anos 80.

“In Fabric” enquadra-se nesse subgénero, mas as particularidades não se quedam por aí. É um pseudo-giallo produzido em plano século XXI, por Peter Strickland, que é mais conhecido pelo seu “Duke of Burgundy”, de 2014. Este é um bom ponto de partida para compreender os temas de “In Fabric” e, por que é que este, não é apenas um filme sobre um objeto assombrado. Strickland renova o interesse em contar histórias sobre as relações humanas, com ênfase na sensualidade, mesmo estas tomem um caminho mais negro ou, de como o desejo pode fazer os amantes tomar atitudes inesperadas ou mais bizarras. Assim, não é surpreendente desenhar-se uma teia de morte e erotismo em torno de um vestido vermelho. 

Marianne Jean-Baptiste interpreta Sheila, uma senhora de meia-idade respeitável mas solitária, que tenta ultrapassar o divórcio e um filho adulto cada vez mais desafiante. O ex-marido já mostrou ter ultrapassado o casamento, arranjando um nova namorada e o filho, nem sequer tenta ser discreto nas manifestações de afecto, na sua relação ardente com uma mulher mais velha, Gwen (Gwendoline Christie). A solidão arrasta, por fim, Sheila para os saldos e os anúncios românticos dos classificados.  É no retalho, que uma estranha e enigmática Miss Luckmoore, a convence de que o vestido vermelho trará a admiração e afecto por que Sheila tanto anseia. Seguem-se episódios, de encontros falhados e de sucesso, de tensão no outro e acidentes estranhos. Tudo isto, conectado ao estranho vestido vermelho.
Não posso garantir, com total segurança, que não existam outros giallos sobre objetos assombrados mas, na mão de Strickland, a proposta é, sem dúvida única. As analogias a “Suspiria” suscitadas por essa internet fora não são descabidas.
A selecção musical do colectivo Cavern of Anti-Matter, dá-lhe a singularidade que uns Goblin trouxeram ao anteriormente mencionado filme de bruxas. "Suspiria" estará sempre indelévelmente ligado ao tema principal. A bizarra Miss Luckmoore podia ter sido retirada do filme de Argento. Sem qualquer alteração, encaixava que nem uma luva no imaginário desse realizador. O comportamento e aparência desta personagem, em conjunto com o das outras colegas de loja, parecem sugerir a existência de um convénio de bruxas. Existe um momento, o qual não vou desvendar para manter o interesse, entre Luckmoore, o dono da loja e um manequim, que é tão peculiar, que não posso deixar de me perguntar, dado que não acrescenta nada à história, se não foi uma ideia posterior que o realizador/argumentista, certamente insistiu para colocar no filme, somente pela imagética. E, em simultâneo, não consigo imaginá-la num outro filme.
Mas a mensagem porventura mais ainteressante é a crítica ao consumo que nos destrói, mais do que um vestido assassino. Strickland não se coíbe de inserir alguns anúncios televisivos da loja, estridentes e hipnóticos em igual medida, que funcionam como mensagens subliminares para a compra. Uma homenagem a “They Live” (1988), não é descabida.
O realizador demonstra ainda ser amigável ao universo LGBTQI, devotando-lhe, se não, as estórias mais desenvolvidas, pelo menos, uns dos momentos mais interessantes de todo o filme, em particular, os chefes de Sheila, Stash e Clive, demasiado, entusiásticos acerca de narrativas da vida pessoal dos funcionários e de clientes.
“In Fabric” não é isento de críticas. Por vezes, transmite uma sensação de falta de auto-controle de quem está atrás da câmara. O realizador não sabe quando parar. Deixa a câmara rolar, muito depois de já ter demonstrado o seu objetivo. Isso, alonga uma estória que não precisava de duas horas para ser contada e anda em círculos.
O filme assenta, por fim, em três linhas principais: o slasher (que não o é), o erotismo ligado a pulsões de morte e a crítica social, resultando, como comecei por referir, numa estranha besta. Três estrelas e meia.


Realização: Peter Strickland
Argumento: Peter Strickland
Elenco:
Marianne Jean-Baptiste como Sheila
Fatma Mohamed como Miss Luckmoore
Jaygann Ayeh como Vince
Gwendoline Christie como Gwen
Leo Bill como Reg Speaks
Hayley Squires como Babs
Julian Barratt como Stash
Steve Oram como Clive

sábado, 17 de março de 2018

"The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku 2001)


Comédia musical de terror. Se calhar é difícil vender um produto destes. E no entanto, em simultâneo, parece mesmo aquele tipo de produtos que só podiam sair do estranho Japão. “Happiness of the Katakuris” baseia-se na película sul-coreana “The Quiet Family”, realizada apenas três anos antes por Jee-won Kim cuja obra já foi mencionada por diversas vezes (“A Tale of Two Sisters” e “I Saw the Devil”, são alguns bons exemplos). Em “The Quiet Family” uma família proprietária de uma estalagem vê os hóspedes falecer, um após outro, nas circunstâncias mais infelizes. Desta feita, Takashi Miike apresenta os azarados Katakuris que arriscaram todas as finanças da família numa estalagem perto de uma antiga lixeira, com base no rumor da construção de uma estrada ali perto, de caminho para o Monte Fuji, pitadas de animação em stop motion e números musicais inesperados. O boom turístico não se verifica e os poucos hóspedes que por ali passam, acabam por falecer de modo inesperado para a família que decide em conjunto esconder os cadáveres. Se é um morto já é mau para o negócio imaginem dois ou três! Os eventos são narrados por Yurie (Tamaki Miyazaki) o elemento mais novo da família, a neta do patriarca Masao (Kenji Sawada) que observa os seus parentes com o amor inocente de uma criança, sem descurar a evidente excentricidade dos Katakuris. A família é assim composta por Masao, a sua amada esposa e por vezes voz da razão Terue (Keiko Matsuzuka); o filho com um passado de desonestidade Masayuki (Shinji Takeda); a filha divorciada e obcecada pelo amor romântico, a ponto da cegueira infantil Shizue (Naomi Nishida); a sua pequenota Yurie, o avô com acessos ocasionais de mau génio Jinpei (Tetsuro Tanba) e o cão Pochi.

A palavra que melhor descreve “The Happiness of the Katakuris” é: surreal. Inicia-se com uma sequência na qual uma personagem feminina come uma tigela de ramen, da qual sai um querubim em versão demoníaca que a ataca, numa das cenas mais insanas e, curiosamente, terríficas do filme. A cena inicia-se em formato live-action para logo se transformar numa animação stop motion de plasticina, que faz a transição para a vida não tão sossegada e sem intercorrências quanto isso dos Katakuris, a despeito de eles assim o desejarem. A personagem feminina nunca mais volta a aparecer no ecrã mas cedo se percebe que esse não será o acontecimento mais bizarro do filme.
As personagens desatam em cantoria ou prantos desalmados e desafinados nos momentos mais inesperados que ao invés de cómicos parecem desajustados num filme que é ele próprio desajustado dos tempos e das expectativas de quem viu o original coreano. A única constante é o intenso amor entre os membros daquela família apesar de estes serem dotados de uma patologia colectiva que os impede de tomar decisões acertadas. “The Happiness of the Katakuris” quebra algumas regras e Takashi Miike não é inexperiente no que toca à fuga de padrões. A sua carreira é certamente colorida mas “Katakuris” é, no mínimo divisivo. Enquanto posso apreciar o mérito no mix de géneros e de técnicas e sim, a alusão a "The sound of Music" e "Dawn of the Dead" ficam-se pelo fraco a incipiente, acaba por falhar no mais importante: ter sucesso enquanto comédia, quanto mais comédia musical de terror. Duas estrelas.

Realização: Takashi Miike
Argumento: Kikumi Yamaguchi e Ai Kennedy
Kenji Sawada como Masao Katakuri
Keiko Matsuzaka como Terue Katakuri
Shinji Takeda como Masayuki Katakuri
Naomi Nishida como Shizue Katakuri
Kiyoshirô Imawano como Richâdo Sagawa
Tetsurô Tanba como Jinpei Katakuri
Tamaki Miyazaki como Yurie Katakuri

Próximo Filme: "The Ritual", 2017

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

"Exte - Hair Extensions" (Ekusute, 2007)

Trailer dobrado em inglês

Dois guardas portuários japoneses encontram o cadáver de uma jovem estrangeira com o cabelo rapado, num contentor cheio de cabelos humanos destinados à indústria de beleza. Na morgue, a polícia apercebe-se que está perante um caso de tráfico humano, dado que foi feita uma colheita de órgãos da vítima antes da sua morte. Yamazaki (Ren Osugi), um sinistro funcionário da morgue com um fetiche por cabelo, fica fascinado com o mais recente cadáver. Os cabelos da vítima continuam a nascer e brotam das feridas e de outros orifícios do corpo da jovem assassinada! Isto, constitui uma oportunidade para o tricófilo Yamazaki renovar incessantemente o stock de cabelos para satisfazer as suas perversões e de fazer negócio através da venda de extensões para os seus contactos em cabeleireiros. Pelo seu caminho cruza-se Yuko (Chiaki Kuriyama), uma aprendiza no cabeleireiro Gilles de Rais, a quem é imposta a presença da sobrinha Mami (Miku Sato), uma menina que exibe sintomas de abuso, mesmo antes de uma demonstração importante no sítio onde trabalha. A ligação ao cabeleireiro representa amplas oportunidades para os personagens que surgirem no caminho dos cabelos da estrangeira serem afectados pela sua maldição mortal, ainda que a contagem de mortes seja diminuta.

Como já foi tantas vezes retratado no cinema japonês, sendo “Ju-on: The Grudge” (2002), um dos seus expoentes máximos, o rancor de uma morte violenta pode apegar-se a objectos, amaldiçoando-os. Onde entrar na casa desse filme era sinónimo de uma morte breve e violenta, em “Exte” a ira da vítima foi transferida para os cabelos rapados da estrangeira para venda como extensões. Se a vítima não os pode ter, quaisquer outros que os coloquem nos seus escalpes também não!
“Exte: Hair Extensions” é um filme muito desigual. A cena inicial que ocorre durante a noite, na qual é descoberto um corpo mutilado, contrasta por completo com a manhã solarenga e animada que se lhe segue. Após um tom de terror prometedor, eis que os personagens vão debitando informação sobre quem são, as suas motivações e ocupações. A justificação apresentada – também pelas personagens –, para comportamento tão estranho é a imitação de um programa de televisão onde os actores efetuam diálogos expositórios, de forma bastante cómica. Se esses pequenos laivos de comédia são interessantes, também se revelam uma maneira preguiçosa de os argumentistas colocarem toda a informação ao dispôr da audiência, sem se preocupar com coisas tão mesquinhas quanto os comportamentos revelarem, a personalidade das personagens.

Sion Sono é um dos nomes mais bem conhecidos e divisivos do cinema japonês, tendo no currículo obras como “Suicide Club” (2001), “Noriko’s Dinner Table (2005) ou “Love Exposure” (2008) para citar apenas alguns. Diria que desta feita se embrenha totalmente no mundo do J-horror mas, a verdade é que os filmes de Sono têm sempre algo de perturbador pelo que os elementos de horror estão sempre presentes. Note-se por exemplo, o pormenor de o cabeleireiro onde Yuko trabalha se chamar Gilles de Rais. O nome francês pode dar uma aparência chique ao salão  mas o nome escolhido corresponde ao de um nobre dos tempos medievais mais conhecido como um assassino em série de crianças. Na mesma linha, existe uma relação tensa e abusiva entre Kiyomi (Tsugumi) e Mami (Miku Sato), a irmã e a sobrinha de Yuko respetivamente. Também existe a sugestão implícita de Kiyomi também maltratava Yuko, maus-tratos que se estendem agora à filha e que porventura, Yuko terá tentado afastar-se da irmã por causa disso. Kiyomi é um monstro, mas não é imediatamente compreensível como é suposto este monstro "real", se encaixa na estória se não para dizer que enquanto Kiyomi tem uma personalidade horrível porque assim o deseja, a desconhecida assim ficou por conta do mal que lhe fizeram. Por seu turno, Yamazaki é um terceiro monstro, não pelo seu fetiche, mas por o colocar acima de tudo, mesmo quando percebe que os cabelos estão na base de mortes horríveis. “Exte: Hair Extensions” perde-se nos muitos hair movies que existem e na própria cabeça de um Sono que não consegue decidir-se por uma narrativa. Vale pelos parcos e inventivos momentos de terror.


Realização: Sion Sono
Argumento: Sion Sono, Masaki Adachi e Makoto Sanada
Chiaki Kuriyama como Yuko Mizushima
Ren Osugi como Gunji Yamazaki
Megumi Sato como Yuki Morita
Tsugumi como Kiyomi Mizushima
Eri Machimoto como Sachi Kondo
Miku Sato como Mami Mizushima
Mayu Sakuma como rapariga estrangeira

PS: Gente gira se quiserem adquirir o DVD deste hair movie clássico ou se tiverem apenas um fetiche com a Chiaki Kuriyama, ebay is your friend.

Próximo Filme: "The Tag Along" (Hong yi xiao nu hai, 2015)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Better Watch Out, 2016


ALERTA SPOILER: Assistir por conta e risco!

É Natal. Os subúrbios estão decorados com renas, elfos e néons, enquanto se aguarda a chegada do Pai Natal. A paisagem está enfeitada de neve e o ar ecoa canções corais de Natal e do Grande Bing Crosby. Na televisão, com a pontualidade de um relógio, passam os filmes de todas as épocas natalícias anteriores e que ninguém consegue enjoar.


Ashley (Olivia DeJonge) está presa à promessa de tomar conta de Luke (Levi Miller) o filho de doze anos do simpático casal Lerner, uma Virginia Madsen e um Patrick Warburton, nuns papéis secundaríssimos. Ela está quase a partir para a universidade e dão-lhe jeito uns trocos para a nova fase de vida, mesmo que tenha de sacrificar o descanso na época de Natal. Luke tem uma pequena paixonite pela sua babysitter e conta com o apoio de Garrett (Ed Oxenbould) para conquistar Ashley antes de esta partir. Para ela, é apenas mais uma noite de babysitting… Isto é, até se aperceberem que alguém com intenções malévolas está a tentar introduzir-se dentro de casa. Segue-se uma luta contra um inimigo ao início invisível, numa casa da qual não conseguem escapar.
Esta comédia negra revisita grandes clássicos do cinema natalício como “Home Alone” (1990) – este até é mencionado por um dos actores –, não vá alguém não compreender a referência e, acreditem que AQUELA cena não deixará ninguém indiferente, e cruza-o com o tom a tempos perturbador de um “Gremlins” e de um certo outro filme protagonizado por Macauley Culkin que na altura chocou as audiências. Chris Peckover aproveitou ainda a química da dupla de actores DeJonge e Oxenbould que interpretou dois irmãos no também interessante “The Visit” (2015) de um Shyamalan que estava ainda a recuperar a boa forma antes de se sair com o espantoso “Split” (2016).
Numa época em que os cineastas procuram cada vez mais subverter os géneros e conferir originalidade às narrativas, “Better Watch Out” resulta num home invasion atípico. A dada altura os eventos dão uma viragem de 180 graus e o que até ali era uma comédia com toques negros que espicaçavam os limites para a gargalhada, um “espera aí, mas isto tem piada ou já é apenas cruel?”, transita para momentos perturbadores que o enquadram sem sombra de dúvida no género de terror. A mudança foi tão radical que senti o ambiente da sala ficar gélido. Onde antes existiam palmas ou risos nervosos podiam-se ouvir grilos. Para tal, muito contribuiu a interpretação de Levi Miller, com um desempenho natural e by the numbers no primeiro terço de filme, após o que evoluiu para uma capacidade além do que seria de esperar de um jovem daquela idade e com uma carreira ainda relativamente curta, muito bem apoiado por DeJonge e Oxenbould. Seria talvez mais fácil de assistir se os personagens não fossem menores ou se fossem detestáveis mas nem Peckover nem o argumentista Zack Kahn acreditaram que essa fosse a melhor opção e “Better Watch Out” apenas ganha com isso. A película também nunca degenera para a violência gráfica ou gratuita, a que se deve porventura o constrangimento de orçamento, mas o crescendo de tensão e o poder da sugestão fazem um papel mais do que competente a substituir actos de agressão gráficos.
“Better Watch Out” é um dos filmes mais ingratos sobre os quais escrever pois é uma daquelas obras em que queremos gritar aos quatros ventos que vale mesmo a pena assistir sem ceder à tentação de divulgar os detalhes que o tornam tão surpreendente e especial em simultâneo. A minha sugestão? É melhor assistir a “Better Watch Out” com um espírito aberto e, preferencialmente, sem ter visto qualquer trailer. Três estrelas e meia.



Realização: Chris Peckover
Argumento: Zack Kahn e Chris Peckover
Olivia DeJonge como Ashley
Levi Miller como Luke
Ed Oxenbould como Garrett
Aleks Mikic como Ricky
Dacre Montgomery como Jeremy
Patrick Warburton como Robert Lerner

NOTA: Texto publicado originalmente aqui.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Kung Fu Yoga" (Gong Fu yu jia, 2017)


“Botched” é um programa americano exibido em Portugal no canal E!, de entretenimento entenda-se, que dá a conhecer sem censura starlets e outros cidadãos anónimos que contactam os cirurgiões de serviço para corrigir ou esconder a porcaria que outros cirurgiões fizeram nas suas mais diversas partes do corpo. A maioria das vezes os cirurgiões do programa conseguem fazer algo para conseguir resgatar a dignidade perdida ou apenas uma aparência estética mais agradável. Digamos que “Kung Fu Yoga” é um filme chinês submetido a uma cirurgia plástica para se assemelhar a uma verdadeira colaboração com o cinema de Bollywood mas a operação cosmética não correu muito bem.

Jackie Chan é Jack um professor de arqueologia do museu chinês de soldados de terracota que se junta uma especialista indiana, a professora Asmita (Disha Patani), para encontrar o fabuloso tesouro Magadha que se deve encontrar algures no Tibete. Ao chegar lá, eles e os seus assistentes, entre outros Jones Lee - Aarif Rahman numa homenagem ao famoso Dr. Jones –, Xiaoguang (Zhang Yixing) e Noumin (Miya Muqi) são surpreendidos por Randall (Sonu Sood) um indiano rico que pretende ficar com o tesouro para si.

Dizer que a homenagem aos filmes de “Indiana Jones” é flagrante é um eufemismo. A personagem de Aarif Rahman não só se chama Jones e utiliza um chicote como é um arqueólogo intrépido. No entanto, todos os indícios de que estariam grandes aventuras por vir não passam disso mesmo. Ele é apenas mais uma das personagens que se passeiam pelo ecrã na qualidade de eye candy e sem apresentar um contributo importante para a narrativa, ela própria pouco mais que perceptível. Por outro lado, não é uma grande novidade e mais uma vez fica bem expresso no ecrã que Jackie Chan já não é o atleta de outros tempos. Ora isso não tem mal nenhum e deixem assentar por um momento a informação de que Chan nasceu em 1954. À data deste filme e com 63 anos ele consegue fazer movimentos com o corpo que jovens com metade da sua idade são incapazes. O seu carisma permanece intacto e ele continua a ser quem tem o melhor timing cómico do elenco multicultural. Com tantos jovens atléticos incluindo novas esperanças do mandopop como Yixing Zhang que tem aptidão para coreografias complexas é surpreendente que este potencial nunca chegue a ser explorado para criativas cenas de acção que possam preencher as evidentes lacunas de Chan. As cenas de acção ficam pois aquém daquilo de que Chan já fez e o vasto elenco poderia fazer. Talvez. Nunca saberemos. Mais estranho ainda é o facto de “Kung Fu Yoga” constituir uma das reuniões menos felizes de Chan com Stanley Tong, depois de “Rumble in the Bronx” (1995) ou “The Myth” (2005). Quem não soubesse diria que não estiveram para despender muita energia. “Kung Fu Yoga” também representa um retrocesso na carreira de Chan que já demonstrou ter capacidade dramática e parecia estar a encaminhar a sua carreira para escolhas mais calmas para o seu físico. Ainda que sejam sempre um regalo para a vista as cómicas e complexas sequência de acção de Jackie Chan, ele já fez muito melhor e, na verdade, quem é que quer ver Chan tornar-se embaraçoso, numa carreira antes gloriosa enquanto artista de cinema e artes marciais?

Uma das cenas mais marcantes deste filme envolve ainda Chan e um animal virtual que é representativo do pior CGI de que o cinema chinês é capaz, como também sucedeu no recente “The Mermaid” (2016) de Stephen Chow, um dos filmes com maior sucesso de bilheteira no país de sempre, e que falha de forma tão arrasadora no campo dos efeitos gerados por computador. Também a colaboração entre a Índia e a China se revela desinspirada. De facto o filme parece adoptar uma perspectiva etnocêntrica que é claramente desvantajosa no que respeita ao retrato da Índia. De facto, todas as alusões ao país surgem sobre a forma de estereótipos chineses do que é o grande país. Algumas situações são retiradas quase a papel químico dos filmes dos anos 80 e 90 como o “Indiana Jones”. Um sucedâneo de qualidade inferior made in China que não o consegue disfarçar. Duas estrelas.
Realização: Stanley Tong
Argumento: Stanley Tong
Jackie Chan como Jack
Disha Patani como Ashmita
Amyra Dastur como Kyra
Aarif Rahman como Jones
Miya Muqi como Nuomin
Sonu Sood como Randall
Paul Philip Clark como Max
Yixing Zhang como Xiaoguang

Próximo Filme: "Annabelle: creation" (2017)

quinta-feira, 23 de março de 2017

"House" (Hausu, 1977)


Segundo reza a história, estávamos nos loucos anos 70, quando o estúdio Toho – sim, esse mesmo do Godzilla (1954) –, impressionado pelo sucesso de “Jaws” (1975) encomendou a Nobuhiko Obayashi um filme similar. Sem inspiração e, confiando que a veia artística é de família, Obayashi foi buscar ideias à fértil imaginação de Chigumi, a sua filha então menor. O resultado foi tão pouco convencional que durante anos ninguém quis pegar no argumento incompreendido de Obayashi. Finalmente, o estúdio cedeu o total (des)controlo criativo ao argumentista e assim nasceu um filme que se diria ter sido influenciado pelas tão mal-afamadas drogas dos anos 70. E que viagem “House” se revelou.

Angel (Kimiko Ikegami) rebela-se após o seu pai revelar que encontrou uma nova namorada após anos de viuvez. Angel não gostou de Ryoko (Haruko Hanibucho) apesar da abordagem afectuosa desta e, decide, por despeito, passar as férias de Verão com as amigas e a tia (Yoko Minamida), irmã de sua mãe, que apenas viu em pequena. A tia acolhe-a de braços abertos no casarão onde habita sozinha, no meio de uma floresta. E mal pode estar por estar rodeada de juventude, ela, que se queixa de já não haver jovens na sua localidade. Ainda nos primeiros instantes da introdução da tia, professora de piano, é-nos dado a conhecer uma vida trágica. O noivo partiu para a Guerra mas nunca retornou e ela, nunca desistiu de esperar pelo seu regresso.

Desde os créditos iniciais que é transmitida a ideia de que “House” é uma experiência cinematográfica um pouco diferente. Mas podem referir-se a “House” apenas como uma experiência. O filme tem muito mais de captura dos excessos e defeitos dos anos 70, do que produto cinematográfico. O estúdio desistiu de “House” e deixou Obayashi fazer o que desejasse e isso nota-se. Mais do que a imaginação de uma criança, por incoerente que esta possa assemelhar-se, sobressai todo um look louco, repleto de objectos animados, animais malditos e muito amadorismo que se torna divertido se, (e isto é um grande se), for visionado com bastante distanciamento.
As garotas que dão nome a algumas personagens tão estereotipadas como Angel, Kunfû (Kung Fu), Fanta (Fantasy), Makku (Mac) ou Merodî (Melody), entre outras, são actrizes amadoras que não foram, decerto, selecionadas pelas suas excelentes capacidades dramáticas. De facto, várias actrizes nos mais variados momentos surgem desnudas. Longe de mim imaginar que a popularidade do género exploitation teve algo a ver com isso… Mas quem fala da falta de aptidão dramática das meninas não pode deixar de esquecer personagens como o vendedor de melancias, o próprio Obayashi num momento Hitchcockiano e que aparece para dar pistas de que o casarão esconde algo do outro mundo… E o que de lá vem não é tão macambúzio quanto o cinema de terror de finais dos anos 90 e novo milénio fariam crer. Quem disse que os fantasmas/poltergeists ou seja lá o que for, não têm sentido de humor? Os elementos de terror baseiam-se em momentos de profundo exagero musical, que funcionam como berros aos ouvidos ou até a repetição vezes sem conta de uma composição em particular, tal como as crianças costumam fazer. Além disso, temos alguns efeitos especiais sui generis, seja pelo enquadramento criativo da câmara, dos efeitos dignos de um estudante no primeiro ano do curso de cinema ou efeitos animados dissonantes do contexto que os envolvem. Por mais incrível que pareça, por baixo das camadas de maus efeitos especiais e gargalhadas involuntárias Obayashi faz algumas alusões à tragédia maior da História do Japão seja mediante a estória de um noivo desaparecido na guerra ou de uma personagem que arde até nada mais restar no seu lugar. Temos, por outro lado, as bases para o género da comédia de terror e das estórias de casas assombradas que por um motivo ou por outro entram em casarões e… nem sempre saem com vida. Duas estrelas.

Realização: Nobuhiko Obayashi
Argumento: Chigumi Obayashi
Kimiko Ikegami como Angel
Miki Jinbo como Kunfû
Kumiko Ohba como Fanta
Ai Matsubara como Gari
Mieko Satô como Makku
Eriko Tanaka como Merodî
Masayo Miyako como Suîto

Próximo Filme: "Spiral" (Uzumaki, 2000)

domingo, 17 de julho de 2016

"Kikujiro" (Kikujirô no natsu, 1999)


Foi senhor de um castelo que a cada episódio era alvo de uma invasão (“Takeshi’s Castle”, 1986-1990); um samurai louro e cego que lutava contra a injustiça (“The Blind Swordsman: Zatoichi”, 2003) e um gangster impiedoso num mundo de sucessivas traições (“Outrage”, 2010). O homem dos sete ofícios e mil talentos Takeshi Kitano deve ter encarado “Kikujiro” com naturalidade. Escreveu, realizou e encarnou o personagem (adulto) principal e apresentou, em simultâneo, mais uma personagem diferenciada e no entanto reconhecível para os que conhecem o seu trabalho e que por ele o amam e detestam em igual medida.

Em “Kikujiro” avizinha-se um Verão aborrecido para o pequeno Masao (Yusuke Sekiguchi), uma criança adorável mas socialmente desajeitada, habituada a longos períodos de solidão. O melhor e talvez único amigo, irá passar o Verão fora com os pais e Masao não tem com quem brincar. Também os treinos de basebol estão suspensos até ao início da escola. Ele vive apenas com a avó, mas nem esta lhe pode valer já que trabalha durante o dia, deixando-lhe as refeições preparadas para as horas em que não está em casa. Um dia encontra por acaso uma fotografia da mãe que não vê desde bebé. Temendo a reacção da avó e movido pela curiosidade decide partir sozinho à sua revelia para reencontrar e porventura voltar a viver com a mãe qual conto de fadas. A caminho da “fuga” planeada é interceptado por uma vizinha que se compadece dele e obriga o marido (Takeshi Kitano) a acompanhá-lo. Para o homem é uma oportunidade de passar uns dias sem a mulher mandona e aproveitar para gozar os prazeres da vida em paz. Levar à Masao a conhecer a mãe não faz de todo parte dos seus planos. Para a vizinha, desconfia-se, é apenas uma oportunidade de manter o marido na linha através da imposição de uma criança.
“Kikujiro” retrata as aventuras da criança e de um gangster através do Japão numa busca em torno do sonho inocente de Masao, mais do quea crescente relação de cumplicidade entre os dois. Filmado no estilo descontraído inconfundível de Kitano os acontecimentos sucedem-se com vagar desde a atitude negligente do gangster em cuidar de Masao às tentativas deste para sensibilizar o acompanhante que lhe foi imposto a ajudá-lo a cumprir aquela missão tão pessoal. “Kikujiro” é um trabalho estranho e desequilibrado. O que parece um feel-good movie torna-se afinal numa comédia negra quando se tocam em temas bem adultos como o jogo, vício, roubo, abandono ou a pedofilia. Se bem que não tenho a certeza de que o objectivo de fazer rir tivesse sido alcançado na totalidade. É antes um roadmovie com elementos de tragicomédia, nomeadamente durante uma sequência prolongada em que todos os adultos, ao dispor do pequeno Masao, desdobram-se em jogos de crianças para o animar. Como se a brincadeira o reparasse pelas experiências traumáticas porque passou durante a viagem. Se os jogos são giros, acho difícil quem quer que seja negá-lo, tenho todas as duvidas de que este momento devesse constar no filme, pelo menos de modo prolongado como se apresenta. Cinco minutos a menos não lhe fariam mal. A magia dos adultos que tentam fazer uma criança rir também acaba por ser manchada pelo facto de dois deles sofrerem de bullying por parte do gangster para se sujeitarem a tais comportamentos. Se este é um filme sobre o valor da amizade que pretende de algum modo indicar que se consegue encontrar alegria nos momentos mais negros, a verdade é que algumas atitudes do gangster são mesmo muito questionáveis em termos morais. Desde comportamentos desadequados para se ter à frente de uma criança, a usá-lo para a concretização de expedientes criminosos, vale tudo. Como apoiar alguém cuja moral inclui a despreocupação com o bem-estar de terceiros? A própria criança é influenciada de modo negativo pelo gangster a despeito de se tornar cada vez mais assertivo a cada novo desafio. Irrepreensível só mesmo Joe Hisaishi, o grande mestre das composições musicais para o cinema de animação mas não só que lhe confere uma aura refrescante ainda que “Kikujiro” seja tudo menos light. Se a composição de Hisaishi não vos comover são uns bastardos sem coração. Apesar de tudo, não seria má ideia Kitano passar mais tempo a ver comédias e filmes de animação. Esteve quase lá. Duas estrelas e meia.


Realização: Takeshi Kitano
Argumento: Takeshi Kitano
Takeshi Kitano como Kikujiro 
Yusuke Sekiguchi como Masao
Kayoko Kishimoto como Mulher do Kikujiro

Próximo Filme: "Election" (Akumu Tantei, 2006)

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Blind Detective", (Man tam, 2013)


Johnston Chong See-tun (Andy Lau) é forçado a abandonar a polícia após ficar cego. Considerado o melhor entre os seus pares pela extraordinária capacidade de dedução, a sua perda é um duro golpe para o departamento. Mas ele é incapaz de parar na sua senda de justiça e dedica-se agora aos casos para os quais a polícia não tem tempo: os casos antigos e aparentemente insolúveis, recolhendo as recompensas. Numa das suas mais recentes investigações cruza-se com a inspectora Goldie Ho Ka-tung (Sammi Cheng), incansável mas ainda um pouco “verde” que se revela o contraponto ideal para o seu estilo mais sóbrio. A nova dupla dedica-se a resolver casos em conjunto, incluindo um que afecta Goldie desde miúda, o desaparecimento da sua melhor amiga Minnie (Cheng Ho-lam) e que a fez tornar-se polícia. Pois que o mundo está cheio de gente mal-ajustada e Goldie tornou-se polícia por causa do trauma de infância. Alguma vez se viu alguém tornar-se agente polícia por genuína devoção à justiça?

Johnnie To está para os thrillers policiais/mafia como, bem… é o que ele faz de melhor (“Election”, 2005; “Mad Detective”, 2007, etc.). No entanto, não se pode dizer o mesmo de “Blind Detective”. A ideia de um agente da polícia/detective cego não é a mais original, temo dizê-lo mas, ainda que aceitemos a premissa absurda, o filme sobrevive mais da química entre Lau e Cheng do que das inúmeras investigações enfiadas à força num filme que já tem muita tralha. Parece que a tragédia da perda de visão de Johnston se arrastou ao longo de vários anos até ficar invisual. Johnston sente ainda os efeitos da solidão, o que pretende sugerir por um lado, o motivo pelo qual ele é incapaz de deixar de dedicar por completo ao trabalho policial e, por outro, a conveniência do aparecimento de uma certa detective. Pelo meio, é ainda apresentado um potencial interesse amoroso para Johnston para insinuar um triângulo romântico que não chega a ter pernas para andar (entenda-se que ainda assim “Blind Detective” tem 130 minutos de duração) e Johnston tem tempo para resolver diversos casos com o do maníaco que atira ácido sobre inocentes até finalmente, se debruçar sobre o caso que desola Goldie há mais de uma década. Adicionalmente, enquanto Johnston foi perdendo um dos sentidos, ele foi apurando outros, conferindo-lhe entre outros, um olfacto extraordinário e que o auxilia a resolver casos que seriam, para outros complicados. Não deixa de me espantar, a facilidade com que o cinema asiático e, o coreano em particular, chama às suas forças policiais uma anedota. Por entre polícias com os instintos de um calhau, chefias mais preocupadas com a manutenção do status quo e políticos que apenas querem ficar bem na fotografia, tem de aparecer um individuo especial para salvar o dia.
“Blind Detective” também não parece ter a certeza daquilo que quer ser. Os personagens alternam entre interpretações mais subtis e o exagero cómico. Lau, a despeito de ter ganho um prémio (surpreendente) pela sua interpretação nesta película, sai algumas vezes, demais da personagem. Ele “esquece-se” de que é suposto ser um invisual, o que é uma franca distracção. Os “casos” nem sempre interessantes que surgem para querer demonstrar vezes sem conta as capacidades fantásticas de Johnston assim como um pretexto para divertir, não duram o tempo suficiente para entreter e acabam por roubar tempo à resolução da investigação principal. Mas até a solução desta peca pela falta de investimento numa direcção clara e uma montagem cuidada. As sequências de acção estão impecáveis, ou não fosse a sua coreografia um dos pontos mais fortes de um filme do Johnnie To. Se ao menos houvesse a mesma atenção para o remanescente… Duas estrelas e meia.

Realização: Johnnie To
Argumento: Ryker Chan, Ka-Fai Wai, Nai-Hoi Yau e Xi Yu
Andy Lau como Johnston Chong See-tun
Sammi Cheng como Goldie Ho Ka-tung
Guo Tao como Szeto Fat-bo
Gao Yuanyuan como Tingting
Zi Yi como Joe
Lang Yueting como Minnie Lee
Cheng Ho-lam como Minnie (adolescente)
Lam Suet como Lee Tak-shing
Philip Keung como Chan Kwong
Lo Hoi-pang como Pang

Próximo Filme: "Parasyte: Part 1" (Kiseijuu, 2014)

domingo, 20 de dezembro de 2015

"Krampus", 2015


Anos depois de versões infindáveis de deslavadas com longos cabelos que ainda não descobriram o poder de um pente, chegou a vez das bestas cornudas que não gostam muito de criancinhas que se portam mal. 

Quando o folclore europeu aparenta ter sido profusamente explorado e, Anderson e os irmãos Grimm são referências óbvias, a despeito de nestes residir ainda muito material passível de ser trabalhado pela máquina destruidora de sonhos que é Hollywood, eis que chegou a altura dos contadores de estórias se virarem para outras lendas mais obscuras. E se o “Krampus” é uma figura bem conhecida nos territórios austríacos e germânicos, no remanescente território europeu ele é pouco se não mesmo desconhecido. Ele é a antítese do São Nicolau, mais conhecido pelos miúdos com o Pai Natal, aquele gordo de vermelho que lhes dá prendas todos os anos se eles se tiverem portado bem. Já o Krampus, ele procura os meninos e meninas que se portaram mal e arrasta-os para o inferno consigo… Michael Dougherty, reconhecido por “Trick r’ Treat” que se viria a tornar, com justiça diga-se, um fenómeno de culto em torno do Halloween, ele revela uma apetência para os contos de época focando toda a atenção para o Natal. Se já estão a esfregar as mãos de contentes, porque este é um bom filme para reunir a família em torno de uma mesa recheada de doces de natal e uma lareira quentinha é melhor pensar duas vezes. Dougherty traz uma visão muito negra não recomendável à pequenada e também não é recomendável que os pais usem o filme como munição para obrigar os filhos a portar-se bem durante o resto do ano pelo medo. Isso só faz de vocês cretinos. A boa notícia é que “Krampus” é o melhor filme de terror da época natalícia em muitos anos. Diria mais, "Krampus" inicia-se com aquela que é muito provavelmente a melhor sequência inicial dos últimos anos. E se, por esta altura se estão a questionar por que haveriam de querer juntar-se à volta de um filme de terror durante a época natalícia, é oficial: vocês são uns botas-de-elástico. Vão mas é ver as repetições de “Home Alone” (1990) ou o “The Sound of Music” (1965) pela enésima vez.
No centro de “Krampus” está Max (Emjay Anthony) que se encontra na idade perigosa da pré-adolescência e começa a ganhar uma visão de vida já sem alguma inocência. Por entre uns pais que aparentam já não se amar (Toni Colette e Adam Scott em grande forma), uma irmã que mal dá pela sua existência vivendo para o namorado e o smartphone, tios e primos que parecem existir com o único propósito de o humilhar, Max rasga a carta que escreveu ao Pai Natal e último obstáculo à visita do Krampus. Quando este surge, fá-lo em grande e para estupefacção de todos. Isto é dado muito positivo, pois que Dougherty deixa as regras suficientemente vagas para que a besta possa atacar indiscriminadamente. A apoiá-la estão uns ajudantes, tal como o Pai Natal é apoiado por duendes. No entanto, estes estão mais próximos dos bonecos possuídos por almas demoníacas de um “Poltergeist” (1982) do que uma qualquer encarnação fofinha” da Disney.
Toni Colette e Adam Scott brilham como Sarah e Tom Engel, um casal de classe média que atravessa uma crise no casamento mas tudo faz para manter as aparências perante os filhos e a sociedade (ainda que falhem). Toni prova mais uma vez que é perfeitamente capaz no papel de uma mãe terra-a-terra capaz de superas provas mais complicadas pelos filhos (“About a Boy” 2002, “The Sixth Sense” 1999, etc). Também é visível o esforço de ambos para suportar a irmã de Sarah, Linda (Allison Tohlman) e o marido Howard (David Koechner), assim como à prole insuportável, cujas ideias de educação e diversão, em tudo diferem da forma de ser dos Engel. Eles representam aquela parte da família da qual não se gosta particularmente mas que se tolera a bem do período natalício. Só alguns dias e voltarão a vê-los no próximo ano. Como as coisas não piorassem, eles trazem a tia abelhuda e inconveniente Dorothy (Conchata Ferrell), que através de um expediente manhoso, consegue fazer-se convidar para a seia de natal. O único dado positivo é que ao menos todos a odeiam de igual modo. Dougherty, no papel duplo de argumentista e realizador, dá ainda um piscar de olhos à lenda é através da personagem de Omi, a avó germânica extremosa (Krista Stadler) que servirá como elemento fulcral na exposição dos acontecimentos que escapam à compreensão de todos. Com todas as suas diferenças e divergências, os Engel assemelham-se a uma família real, que se torna mais forte à medida que o Krampus faz das suas. “Krampus” é uma comédia de terror, com contornos negros reminiscentes de um “Gremlins” (1984), desde os pequenos monstros ao cinismo dos anos 80, e representam boas perspectivas para a ainda curta carreira de Michael Dougherty. O que virá a seguir? O peru devorador de homens do Dia de Acção de Graças? Um coelhinho da Páscoa sugador de Almas? Mal posso esperar. Três estrelas.

Realização: Michael Dougherty
Argumento: Todd Casey, Michael Dougherty e Zach Shields
Adam Scott como Tom Engel
Toni Collette como Sarah Engel
David Koechner como Howard
Allison Tolman como Linda
Conchata Ferrell como Tia Dorothy
Emjay Anthony como Max Engel
Stefania LaVie Owen como Beth Engel
Krista Stadler como Omi Engel
Maverick Flack como Howie Júnior
Lolo Owen como Stevie
Queenie Samuel como Jordan
Leith Towers como Derek

Próximo Filme: "Blind Detective" (Man Tam, 2013)

domingo, 2 de agosto de 2015

“Sharknado 3: Oh Hell No!”


O canal SyFy fez dos filmes maus uma forma de arte. Onde outros com parcos recursos tentam fazer o melhor possível, o SyFy contínua convicto e orgulhoso na senda do pior possível para o maior número de gargalhadas. Algures ao longo do ainda curto percurso do canal, alguém decidiu apostar na fórmula fascinante dos “filmes tão maus que se tornam bons”. Por mais películas e séries, live-action ou animadas, que veja, recuso-me a acreditar que apenas com uma conta bancária recheada se conseguem concretizar bons projetos. Se existir uma boa estória, o céu é o limite. Mas também não posso afirmar que o inverso não seja verdade. Com uma narrativa ridícula talvez não se realize o filme do ano, se calhar nem no top 100 dos melhores filmes, mas uma experiência cinematográfica agradável está ao alcance de todos.

Adorava ser mosquinha na sala onde os criadores do primeiro “Sharknado” começaram a dar corpo à ideia. O que é que aterroriza mais as pessoas quando se encontram dentro do grande azul? Tubarões. Que fenómenos meteorológicos mais assustam os americanos? Tornados. Que actores reconhecíveis mas desesperados o suficiente para aceitar qualquer papel é que estão disponíveis? Um tipo do “Beverly Hills: 90210”, a loira gira do “American Pie” que destruiu a carreira à conta do álcool e actores de série C ou icónicos que já ninguém contrata.
Um incidente meteorológico que desafia a lógica da ciência gera um tornado com tubarões de diversas espécies no meio de centros populacionais. Encurralados pela intempérie, Fin (Ian Ziering) e amigos tentam salvar a família deste, incluindo a ex-mulher April (Tara Reid). Todos, incluindo aqueles actores por quem tiveram em algum momento uma certa estima, podem ser atacados e mortos do modo mais inventivo e idiota que possam imaginar: cortados ao meio por um tubarão, engolidos por inteiro ou até esmagados por um tubarão baleia. Melhor só mesmo as armas que os actores encontram para derrotar o peixe, como serras eléctricos, machados, bombas… Tudo é possível. A miscelânea de maus efeitos especiais, com uma estória em que nem uma criança de cinco anos acreditaria e actores que representam como se estivessem a ler um teleponto deviam ser ingredientes para o fracasso. Mas o resultado, absurdo e incrível em partes iguais é um sucesso tão estrondoso que hoje em dia, estrelas de cinema e televisão imploram para fazer um cameo na série. O ridículo vende e “Sharknado” nunca se assumiu como nada mais do que isso. Parte da piada advém do facto de todos os envolvidos no projecto saberem que a acção é absurda. Os actores disparam one-liners como quem respira e as referências à cultura popular são quase inquantificáveis. No universo de “Sharknado 3: Oh Hell No!” os tornados com tubarões surgem a qualquer momento para assassinar a vossa personalidade favorita ou mais detestada (Chris Jericho, Matt Lauer, David Hasselhoff, Kendra Wilkinson…) A trequela não é mais do que a repetição dos gags que funcionaram nos filmes que o antecederam, o primeiro focado nas “origens” do fenómeno e estabelecimento da dinâmica familiar, o segundo a aproveitar tudo o que resultou no anterior, em doses ainda mais elevadas. O terceiro amplifica as situações. Num momento temos Fin em Washington D.C. a ser condecorado pelos serviços prestados ao Estado (assassino de tubarões), no outro está, mais uma vez, a caminho da Flórida, onde está a criar mais um “sharknado” para salvar a família. Os filmes com tubarões do SyFy ficam tão bem numa sala de estar com a família, como as pipocas para as salas de cinema. Por isso para quê mexer no que funciona? Duas estrelas.

O melhor:
- O Ridículo

O pior:
- O Ridículo

Realização: Anthony C. Ferrante
Argumento: Thunder Levin
Ian Ziering como Fin Shepard
Tara Reid como April Shepard
Cassie Scerbo como Nova Clarke
Frankie Muniz como Lucas Stevens
Ryan Newman como Claudia Shepard
David Hasselhoff como Gilbert Grayson Shepard
Mark Cuban como President Marcus Robbins
Bo Derek como May Wexler
Blair Fowler como Jess
Michael Winslow como Brian 'Jonesy' Jones
Jack Griffo como Billy
Michelle Beadle como Agent Argyle
Ne-Yo como Agent Devoreaux
Chris Jericho como Bruce the Ride Attendant
Mark McGrath como Martin Brody
Ann Coulter como Vice President Sonia Buck
Melvin Gregg como Chad
Christopher Judge como Lead Agent Vodel

Próximo Filme: "Cult" (Karuto, 2013)

domingo, 19 de julho de 2015

"The Girl who leapt trough time" (Toki o kakeru shôjo, 2006)



"O tempo não espera por ninguém".

O Verão de uma vida. Amigos que ficam para sempre guardados nas mais doces memórias. Aqueles momentos que são mais vezes resgatados ao baú das recordações na mente, quando se refere a palavra “felicidade”. Ser jovem e despreocupado… pela última vez.

Makoto Konno (Riisa Naka) vive o sonho de qualquer adolescente. Passou um Verão fantástico a jogar baseball com os melhores amigos: o sempre bem-disposto Kosuke Tsuda (Mitsutaka Itakura) e o misterioso Chiaki Mamiya (Takuya Ishida). Por ela duraria para sempre mas o que é bom tem curta duração. A maria-rapaz descobre ao recomeçar as aulas que continua tão desatenta e tão desastrada como sempre. Por algum motivo as pessoas se referem aos anos da adolescência como embaraçosos. Ela não consegue corresponder à pressão de um teste surpresa e comete a proeza de provocar um incêndio durante uma aula de cozinha. Depois, já na descontracção misturada com a irritação daquele dia para esquecer, perde os travões da bicicleta durante uma descida ingreme e atravessa-se na frente de um comboio que a mata. Bem, mais ou menos. Nesse mesmo dia, Makoto entrou numa sala e, para não variar, a moça desastrada cai em cima de qualquer coisa que despoleta um processo insólito. Qual “Groundhog Day” (1993), ela vê-se a repetir aquele mesmo dia e a verificar que pode alterar os acontecimentos de modo a lhe serem benéficos. A única pessoa em quem confidencia esta descoberta é Kazuko (Sachie Hara) a tia que trabalha num museu como restauradora de quadros reservando ainda alguma juventude sonhadora e com certeza não a julgará pelas inúmeras indiscrições resultantes da sua imaturidade. Com o advento e percepção de tão grande poder seria expectável que Makoto o utilizasse para o bem comum, certo? Nada podia estar mais longe do pensamento da adolescente. A cultura popular e, em particular o cinema, desde heróis da banda-desenhada às forças policiais, não consegue exaltar com mais convicção do que aquela que já transmite que, quem se encontra numa posição de poder o deve utilizar de forma ponderada, comedida e até com alguma humildade para o bem de todos. O problema nesta linha de raciocínio é que pressupõe que qualquer herói, participante e relutante em igual medida, possui uma visão do todo, integrada. A realidade dita o oposto. Muitas vezes, mais do que seria desejável, o poder cai em mãos indesejadas que não vêem além dos seus próprios desejos fúteis e também destruidores. Makoto adquire um poder que nunca desejou e dedica-se com um toque de ingenuidade, sem egoísmo e com alguma ausência de experiências transformadoras, a melhorar aos poucos a sua própria vida. Melhores notas nos testes? Um pouco mais de tempo de diversão? Evitamento de tarefas aborrecidas? Ela satisfaz todos os caprichos. Quando descobre que uma colega nutre sentimentos por Kosuke, o que poderá ditar o afastamento do amigo do grupo, tudo o que ela terá de fazer é evitar o acontecimento. Se lhe é sugerido que Chiaki poderá estar apaixonado por ela própria, consegue adiar o confronto. Antecipar e prolongar o prazer e adiar o sofrimento é possível. Eis que a realidade a atinge dura como a reprimenda de um pai zangado. As suas acções têm consequências. E a despeito de conseguir melhorar a experiência dela enquanto amiga, filha ou estudante, qual efeito borboleta, os outros à sua volta sofrem pelas falhas que ela não cometeu. Ela tem de tomar a decisão de arcar com as consequências e sofrer ou, acolher a ideia de que terá de crescer e aprender a enfrentar as situações complicadas que daí advirão. “The Girl Who Leapt Trough Time” é sobre a jornada de uma rapariga banal e de um momento extraordinário na sua existência e que ressoa com pessoas de qualquer idade: uma criança porque gosta do cinema de animação, um adolescente porque se revê nas dores de crescimento ou até um adulto pela doce melancolia.

A animação não é a mais luxuriante que já se viu no cinema do género japonês ainda que a estória, brilhante, seja baseada na obra de Yasukata Tsutsui que escreveu o fenómeno “Paprika” (2006). Tanto a animação como o piano que pautua a banda-sonora, servem de complemento à estória, não se pretendendo substituir a ela como tantas vezes acaba por suceder. No entanto, existem alguns momentos fantásticos, seja nos momentos de quietude como o enfoque num “simples” crepúsculo ou uma Makoto numa corrida alucinada a não conseguir chegar a tempo – imagem forte de um ecrã a avançar cidade adentro, com a rapariga a ficar para trás. Escapa-se-lhe o tempo. Essa frase, descartada no início e inúmeras vezes repetida, ganha maior projecção até ao total (re)conhecimento por altura dos créditos. Vejam o quanto antes, afinal, “o tempo não espera por ninguém”. Quatro estrelas e meia.

O melhor:
- A animação, a narrativa, composição musical.
- Cinematografia
- A voz de Riisa Naka assenta na perfeição na extrovertida Makoto
- Mensagem transgeracional

Realização: Mamoru Hosoda
Argumento: Satoko Okudera e Yasukata Tsutsui (obra)
Riisa Naka como Makoto Konno
Takuya Ishida como Chiaki Mamiya
Mitsutaka Itakura como Kosuke Tsuda
Ayami Kakiuchi como Yuri Hayakawa
Sachie Hara como Kazuko Yoshiyama
Mitsuki Tanimura como Kaho Fujitani
Yuki Sekido como Miyuki Konno (irmã de Makoto)
Utawaka Katsura como pai de Makoto
Midori Ando como mãe de Makoto
Fumihiko Tachiki como Fukushima-sensei
Keiko Yamamoto como Obasan
Shiori Yokohari como Noriko Uesugi
Sonoka Matsuoka como Sekimi Nowake
Takayuki Handa como Kato

Próximo Filme: ?

segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Lost on Journey" (Ren zai jiong tu, 2010)


Ano novo, aquela altura maravilhosa em que muitos aproveitam para visitar a santa terrinha e rever os parentes que não viram durante todo o ano. Fruto da preguiça, comodismo ou se preferirem indiferença, há quem considere fazer uns meros 20 km um sacrifício e vá adiando a viagem. Ele há feriados católicos, nacionais, locais, um sem fim de oportunidades para visitar os parentes. Excepto se forem talvez cidadãos chineses. Muitos não se podem dar ao luxo de umas férias, outros não se permitem descansar e apenas resta apenas o período do ano novo. Trabalhar a milhares de quilómetros da terra natal nem sempre é opção e regressar é uma autêntica aventura. Todos os anos as filas de automóveis que ultrapassam inúmeras localidades, contos de viagens de comboio esgotadas fazem as manchetes dos jornais e ilustram o desespero de quem tem uma única chance para retornar a casa. Li Chenggong (Xu Zheng) e Niu Geng (Wang Baoqiang) encontram-se neste fluxo migratório gigantesco e fazem uma parelha improvável. Li é um homem de negócios arrogante que mantém uma vida dupla. Ele tem uma jovem amante perto de si, enquanto a mulher cuida da família na distante província de Hunan. Ele nunca sentiu remorso pelo seu comportamento até à data mas sente que deve regressar a casa nesse ano.  A paciente esposa Meili (Zuo Xiaoqing) começa a acusar o desgaste de um marido que pouco mais faz do que enviar dinheiro para casa e é estranho para a própria filha. Niu Geng é típico bom coração. Um pouco tonto, torna-se amigo de qualquer um e pela sua boa natureza é também de igual forma, enganado. O motivo da sua viagem é menos agradável. Também ele vai a Hunan mas para recuperar  dinheiro de um trabalho que lhe é devido. Dois percursos, um destino. As  suas personagens são as congéneres chinesas dos brilhantes Steve Martin e John Candy, este último e para infelicidade das audiências de todo o mundo já falecido em "Planes, Trains and Automobiles" (1987). O primeiro representa a classe alta, todo o pragmatismo e desafecto  pelas questões emocionais, o segundo possui a humildade descomprometida de uma classe social mais baixa e uma alegria pela vida e crença na sorte inabaláveis. Este último personagem perde algo da tragédia e da solidão tão evidentes no personagem do Candy. É mais indolor ser-se divertido e despreocupado certo? A película continua também presa aos lugares comuns do filme dos anos 80. Porque é que o rico tem de ser presunçoso e até degradável? Qual é o problema de se ter uma vida planeada e de possuir ambição? Por outro lado, custa a crer que ainda no século XXI se associe a pobreza de espírito a uma condição social mais baixa. Por outras palavras, Niu Geng surge como um pobre coitado que tem de ser ajudado pelo mais inteligente Li. No campo do amor e da vida familiar é o último que tem algo a aprender com simplório Niu Geng.

As aventuras por que passam são improváveis e confirmam até à última vírgula a "Lei de Murphy": tudo o que poderá ocorrer de errado irá acontecer. Assim, a parelha improvável consegue perder transportes, enfrentar desastres climatéricos,  encontrar acidentes e ser roubado. Os personagens vivenciam o desespero e impotência que milhões de pessoas atravessam durante o período da maior migração do mundo. Sem ser original, as situações são transportadas para a realidade chinesa de um modo credível e toca apenas ao de leve em alguns problemas sociais de modo a nunca perder a comédia de vista. "Lost on Journey" sobrevive da força da química de Xu Zheng e Wang Baoqiang e para quem recordar com nostalgia o filme de John Hughes. Três estrelas.
O melhor:
- Afinidade com a estória
- Excelente casting da dupla principal
- Factor Nostálgia
- Bom aproveitamento da cultura em que se insere.

O pior:
- Alguns momentos "Lost in Translation"
- Um desvio para ajudar os mais necessitados

Realização: Wai Man Yip
Argumento: Juan Wen
Baoqiang Wang como Geng Niu
Zheng Xu como Chenggong Li
Zuo Xiaoqing como Meili
Li Man como Manni

Próximo Filme: "Audition" (Ôdishon, 1999)
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