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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Babang Luksa, 2011

Babang Luksa é uma tradição filipina com base na herança católica, na qual os familiares e amigos de um falecido se reúnem o primeiro aniversário após a sua morte para cessar o luto. É uma espécie de formalização do final do período de “pesar”, com o conforto de comida, onde os convivas decidem seguir com as suas vidas a despeito do falecimento de um ente querido. Este ritual abre as hostilidades e é o único momento genuíno em toda a trama.
Close-ups para que vos quero?

Soledad (Ces Quesada) convida Carlo (Luis Alandy) e Ana (Precious Lara Quingaman) para o Babang Luksa da sua filha Beatriz (Arya Valdez). Desde esse momento as vidas de todos ficam marcadas. Por quem ou o quê, não se sabe ao certo mas suspeito que as sombras e close-ups das caras assustadas do elenco signifiquem que existe uma assombração. Outra conclusão perfeitamente lógica é a de que Beatriz não partiu para o outro lado e prefere ficar na terra a atormentar quem lhe foi prestar homenagem. Porque parece que quem nos quer bem é a vítima ideal para estas coisas de assombrações. Pelo menos é essa a opinião de Ana que é a mais acossada pelas manifestações de Beatriz. Aliás, a amiga nem sequer teria qualquer motivo para estar zangada com ela. Alguma vez ela devia ficar chateada por Carlo que lhe foi apresentado por Ana a rejeitar por esta última? Beatriz nem sequer cortou os pulsos por despeito. Sim, ela era uma moça que estava de bem com a vida e que não guardava qualquer rancor da amiga por esta tomar o seu amado…Além disso, Ana deveria descansar como aconselham Soledad e Carlo. Deve ser por causa disso que ela está com uma imaginação demasiado activa. (Quando estou cansada dá-me assim para o sono ou até tonturas, não para ver fantasmas, mas isso sou eu que não percebo destas coisas). Assim ela toma o curso de acção mais sensato: faz uma sessão espírita para pedir à amiga para os deixar em paz. O que podia correr mal?
Um dos pormenores mais fantásticos é o facto de “Babang Luksa” ser uma produção independente. Normalmente uma obra é denominada independente quando não tem um estúdio por trás. Ora se a ausência de recursos é flagrante, o que não é tão imediato é entender como conseguiram atrair uma beauty queen e uma apresentadora de televisão conhecidíssimas para um filme que não ficará na estória do cinema independente, quanto mais filipino. Os críticos de cinema são massacrados por estarem sempre a falar da qualidade dos argumentos e Babang Luksa é um excelente exemplo disso mesmo. É vermo-nos obrigados a ver uma novela com a desculpa que é filme e sentirmo-nos desafiados nas nossas faculdades mentais porque os actores explicam a todo o momento o que se passa no ecrã. “É a Beatriz!”, “Tem de ser a Beatriz”, “Tu não tens culpa nenhuma do que sucedeu à Beatriz”, “Amo-te a ti e não à Beatriz”, “O que posso fazer para acalmar a Beatriz?”, “O que está a suceder?”, “Tem cuidado” e “Não temos a certeza do que se está a passar” repetem-se.
Não fosse a estupefacção por nos proporcionarem momentos destes e ainda somos brindados com cenas do quotidiano de Carlo e Ana. Ele anda muito stressado coitado, pois parece que os números da empresa (vendas?), não são o que deviam, conforme é indicado numa reunião de trabalho onde os colegas ostentam um ar seríssimo e de extrema preocupação. Já ela tem uma chefe horrível que a maltrata mas entretanto Ana demonstra que é uma profissional eficiente numa urgência apesar de perder o doente. Porque é que isso é importante também não sei. Se a ideia é demonstrar que eles são pessoas normais o argumentista, quem quer que seja, falha a partir do momento em que apresenta a hipótese da assombração ao fim dos primeiros cinco minutos de filme. Entre diálogos que não se assemelham de modo remoto à vida real que se tenta emular, problemas de continuidade que produzem a confusão e uma péssima caracterização do “monstro” a única questão que restará é se este filme era a única opção para visionamento nesse dia. A outra opção seria decerto melhor. Meia estrela



O melhor:
Curta duração do filme

O pior:
Argumento, incluindo diálogos saídos de uma novela
Continuidade
Caracterização horrível
Direcção horrenda
Suspense inexistente
O tempo de vida desperdiçado


Realização: Yuan Santiago
Precious Lara Quigaman como Ana
Luis Alandy como Carlo
Angelika Dela Cruz como Idang
Roselle Nava como Cathy
Helga Krapf como Kris
Ces Quesada como Tita Soledad
Joy Viado como Dra. Catacutan
Joshua Ocampo como Miguel
Arya Valdez como Beatriz
Rachael Chezka Marie Decena como Sigbin

Próximo Filme: "Ghost House" (Gwishini sanda, 2004) 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Sleepwalker 3D" (Meng you 3D, 2011)


Os sonhos são uns sacanas. Uma pessoa trabalha como uma escrava, tendo por vezes apenas por miragem o sonho de um banho quente e de uma refeição consistente, o mínimo que pode desejar é um sonho reconfortante certo? Nada disso. Os sonhos são a porcaria da recompensa mais inconsistente e desconfortante de todas. Diz que é o espelho do subconsciente, aquele bocadinho de matéria que jaz dormente que surge para nos dizer: “há questões dolorosas, mal resolvidas, que convém explorar neste preciso período em que estás especialmente cansado e angustiado”.
A vida de Yi (Angelica Lee) revolve à volta deste ciclo pernicioso. Ela tenta apanhar os cacos da sua existência após a morte da filha e falha todos os dias. À noite é assaltada por sonhos nos quais uma criança é enterrada num bosque. De manhã, acorda como se tivesse estado acordada durante toda a noite e com as mãos cheias de terra. Com o desaparecimento do ex-marido, Yi começa a temer que tenha tido algo a ver com o caso. Entretanto, Peggy (Charlie Young) está a enfrentar um pesadelo que Yi conhece demasiado bem, o filho desapareceu e com o tempo a passar a esperança torna-se ténue. Com o apoio da detective Au (Huo Sien), Yi compromete-se a dar apoio à investigação. Se os seus sonhos tiverem uma pista para o paradeiro da criança ela irá auxiliá-la ainda que isso possa significar que é culpada do rapto e possivelmente homicídio.

A ideia do sonambolismo é tão tentadora quanto atemorizante mas nas mãos dos irmãos Pang é igualmente excitante. A metade dos irmãos Pang conhecida por Oxide recruta caras conhecidas para mais uma aventura a solo: a sua eterna musa Angelica Lee e Decha Srimantra, cinematógrafo que o acompanhou em quase todos os filmes que realizou até ao momento. É uma garantia reconfortante saber que pelo menos uma das actuações será sólida e que nos aguarda um espectáculo visual, o que é mais que a maioria das películas nos oferece. Oxide diverte-se com as possibilidades de “Sleepwalker 3D” mas não existe um verdadeiro foco. O 3D, à semelhança de tantas outras experiências anteriores e já posteriores mais se assemelha a um acessório que nem era necessário, nem acrescenta um contributo válido para a estória e é escasso. Os motivos de interesse são outros, incluindo a técnica simples mas que sempre funciona da imagem a preto e branco com um toque de cor, matizes azuladas e breves animações nas sequências de sonho. Angelica é a melhor das três protagonistas e parece genuinamente afectada pela perda pessoal, a possibilidade de possuir uma faceta negra e… uma peruca terrível. Estou em crer que algumas das suas lágrimas se devem aquela coisa vermelha que lhe colocaram na cabeça no lugar de peruca e ninguém me convence do contrário.
Ela é uma alfaiate com um estilo pessoal alternativo pelo que não é como se o cabelo vermelho fosse uma opção estética fora de série. No entanto, a caracterização distrai em algumas cenas importantes. A sério que não tinham orçamento para dar à belíssima Angelica um penteado decente? A par com o cabelo estão uma série de desempenhos muito abaixo do nível de aceitabilidade para um grupo de teatro amador. As mulheres fazem o que podem com aquilo que têm. Os homens nem sequer tentam. Este é o calcanhar de Aquiles de qualquer dos irmãos Pang. Eles dedicam mais atenção às suas actrizes e, sobretudo, às que interpretam as protagonistas que ao resto da equipa de actores. Os primeiros filmes da sua carreira e o thrillers “The Detective” (2007) e “The Detective 2” (2011) constituem notáveis excepções. A aparente ausência de preocupação com o casting tem sido uma das críticas consistentes para não possuam uma reputação superior à que por ora possuem e as suas obras fiquem sempre aquém do potencial inicial. O segundo grande mal de “Sleepwalker 3D” é os subenredos que acompanham a narrativa principal que todos os juntos, não parecem fazer grande sentido: ex-maridos desaparecidos, irmãs com uma relação complicada, mulheres em coma… Uma grande série de nada, que não leva a nenhum lado em particular. A prova de que não têm relevância para a estória e apenas contribuem para gerar ruído é o habitual, dispensável, irritante e arrogante flashback para explicar os acontecimentos. Uma estrela e meia.

O melhor:
Os passeios nocturnos de Yi
Os sonhos
Cinematografia
Angelica Lee

O pior:
A peruca da Angelica Lee
A identidade do vilão é óbvia.
É mesmo para dormir… sem direito a sonambulismo.
3D, para que serves tu?


Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Angelica Lee como Yi
Charlie Young como Peggy
Huo Sien como Detective Au
Li Zong Han como Eric

Próximo Filme: Babangluksa, 2011

domingo, 2 de novembro de 2014

"The Theatre Bizarre", 2011


Em finais do século XIX abriu em Paris o “Grand Guignol”, um teatro dedicado à encenação de experiências de terror naturalistas. À época, os efeitos “especiais” eram tão realistas que provocavam reacções na audiência como o desmaio ou o vómito. Com o advento da Segunda Grande Guerra as audiências começaram a escassear, até que por fim o teatro bizarro fechou as portas de vez. A vida real era afinal mais horrenda que a ousada encenação parisiense. “The Theatre Bizarre” é pois uma homenagem à História do “Grand Guignol”, onde sete realizadores tentam recriar uma noite deste teatro do horror sob o conveniente formato de antologia.

“Enquadramento” - A jovem Enola Penny (Virginia Newcomb) sente-se fascinada com um antigo teatro abandonado. Um dia, ela atreve-se a entrar no edifício devoluto e descobre que os actores estão bem vivos e dispostos a interpretar um último show. O espectáculo conduzido pelo fantoche humano Peg Poett (Udo Kier) apresenta-a a um mundo de bizarrias… Seis estórias para ser exacto.

“Mother of Toads” – Obcecado com o “Necronomicon”, um livro raro sobre o oculto, um casal percorre o cenário bucólico francês em busca de uma pista deste. Lá, deparam-se com uma idosa demasiado disponível para lhes dar as boas novas que anseiam. Sucedem-se um abandono, um engano e uma traição. Talvez tenham sido as forças mágicas que escondem os segredos do livro que os encontraram.

“I Love You” – Um casal demonstra que do amor ao ódio a distância é pouca. Axel (André Hennicke) começa a enlouquecer à medida que as suas neuroses e paranoias de traição se revelam reais e a esposa cruel o conduzem a um comportamento destrutivo.

“Wet Dreams” – Um Homem inquieto (James Gill) conta ao psiquiatra os pesadelos recorrentes que o atormentam. No mundo dos sonhos, a sua esposa (Debbie Rochon) é uma sádica que retira prazer da sucessiva mutilação e humilhação do marido. Como se vem, mais tarde a perceber, as causas do sonho podem ter que ver com esqueletos no seu armário.

“The Accident” – Mãe (Lena Kleine) e filha (Mélodie Simard) têm uma conversa sobre um dos temas que mais aterrorizam um pai: a morte. Em viagem, cruzam-se com o acidente que provocou uma vítima. As questões inevitáveis da menina levam a mãe a contar-lhe de modo franco mas delicado o significado da morte.

“Vision Stains” – Uma toxicodependente (Kaniehtiio Horn) com uma escolha de droga peculiar. Ela está obcecada com as memórias e imagens das outras pessoas e pretende absorvê-las. Descobriu o modo prefeito de as preservar, injectando o fluído ocular das suas vítimas nos seus próprios olhos.

“Sweets” – Se alguma vez houve uma relação disfuncional ela é a de Estelle (Lindsay Goranson) e Greg (Guilford Adams) que vivem para o maior dos pecados: a gula. A sua relação está um caos e Greg continua a humilhar-se, empanturrando-se para a delícia de Estelle. Mas isso não chega para saciar a namorada. A relação só poderá resultar se o já obeso Greg se sacrificar.

Entende-se “Bizarria” por “característica do que é estranho, grotesco ou incomum”. Ora como fãs de terror que somos (se não são, façam-me a vontade), sabemos como é complicado encontrar uma longa-metragem de terror original. Mesmo que se decomponha o género de terror em subgéneros como “gore”, “psicológico” (admito que a definição deste é dúbia), “assassínio”, “monstros” e “paranormal” afirmar a diferença é tarefa difícil se não mesmo impossível. Se tudo já se fez, então o que poderá ser considerado de facto “bizarro”? Pelas propostas de definição apresentadas, “incomum” não será, pelo que resta a possibilidade de “The Theatre Bizarre” se poder identificar com estranho ou grotesco.

domingo, 8 de junho de 2014

"Hara-Kiri: Death of a Samurai" (Ichimei, 2011)


A afirmação de que os remakes são desnecessários é quase consensual. Qualquer pessoa com um pouco de senso-comum e, nem sequer me estou a referir a cinéfilos poderá concordar que se um filme é bom, não será indispensável refazê-lo. Mais, se a experiência prévia já não funcionou bem, para quê mexer numa fórmula que há partida já carrega o fardo do fracasso? De vez em quando sucede um pequeno milagre e a nova reincarnação resulta. A maioria das vezes, é apenas um filme terrível e até um insulto ao sentimento nostálgico da audiência. Porque é que alguém achou que refazer o clássico “The Thing” (1982) do John Carpenter é algo que me ultrapassa. Note-se que não mencionei a qualidade do remake de 2011. Também não sou ingénua a ponto de pensar que a onda de remakes se deve a algo mais que a procura desenfreada por cifrões. Quem parece passar incólume a toda esta polémica é Takashi Miike, um dos grandes realizadores japoneses que em 2010 descobriu a paixão pelo que é velho e apostou de uma assentada em apresentar a sua versão dos acontecimentos no próximo do genial “13 Assassins” (2010), a que se seguiu este “Hara Kiri: Death of a Samurai”. Onde a primeira experiência resultou altamente cansativa, ou não fossem as sequências pós-contextualização da narrativa, rápidas e furiosas, a segunda revela-se um affair bem mais calmo e contemplativo. Desengane-se quem espera os habituais laivos de loucura de Miike em “Hara Kiri”. É que a despeito do potencial da estória para o realizador-argumentista libertar os seus demónios é uma das interpretações mais subtis da sua obra.

Hanshiro Tsugumo (Ebizo Ichikawa) é um ronin (samurai sem senhor) que solicita uma audiência com o senhor de uma casa senhorial para efetuar o hara kiri (suícidio ritual). Uma forma habitual, na altura de “forçar” o anfitrião a conceder algum tipo de donativo para o pobre ex-samurai sobreviver. Com o fim da era samurai muitos tiveram dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. Enquanto uns se converteram em artesões, agricultores, comerciantes, homens de Estado, outros, que conheciam no código samurai a sua forma de viver e o seu modo de experienciar o mundo viraram subitamente mendigos que nada mais sabiam fazer. Com vergonha da queda de estatuto e sem modo de garantir a subsistência da família, muitos cometeram suicídio. Outros encontraram na piedade dos outros um modo de ir sobrevivendo. Tsugumo seria apenas um de muitos casos desesperados, mas cedo os homens da casa entendem que as suas intenções não são aquilo que parece. A estória é entrecortada por analepses, do ponto de vista de Tsugumo e dos seus anfitriões que demonstram memórias de uma vida mais feliz por um lado e uma existência miserável, por outra. Enquanto Tsugumo apresenta uma agenda negra, mas ainda assim, com pinceladas felizes que parecem, nos momentos negros em que surgem no ecrã patéticas, os homens, liderados por Kageyu (Koji Yakusho) estão mais apostados em assustá-lo com a estória verídica e terrível de Motome (Eita Nagayama) que ali morreu, antes dele.

A narrativa é de uma morbidez típica de Miike pois é trabalhada de modo que pouco é deixado à imaginação: o sangue, a agressão, cadáveres, a miséria humana são comuns no seu corpo de trabalho. E ainda assim, este é Miike no seu mais contido e subtil. Onde filmes anteriores podiam impressionar pelo modo explícito como apresentar certas temáticas e acções dos personagens na tela, em “Hara Kiri: Death of a Samurai” a audiência é vencida pelo insistir nos pontos de pressão da família e dinheiro (tão penosos para o ser humano comum), conjugados com o brutal tempo de duração. Quando pensamos que a miséria não pode ser maior, eis que surge nova afronta. Adivinhando facilmente o desfecho não podia ser de outra forma e, ao mesmo tempo, não podíamos deixar de o temer. Perto de brilhante. Três estrelas e meia.
O melhor:
- Elenco brilhante mas um destaque particular para o actor de palco Ebizo Ichikawa
- Aspectos técnicos

O Pior:
- 3D?!
- Rítmo.
- Podiam cortar à vontade 30 minutos de miséria.

Realização: Takashi Miike
Argumento: Kikumi Yamagishi e Yasuhiko Takiguchi (livro)
Ebizo Ichikawa XI como Hanshiro Tsugumo
Eita Nagayama como Motome Chijiiwa
Hikari Mitsushima como Miho
Koji Yakusho como Kageyu Saito
Naoto Takenaka como Tajiri
Munetaka Aoki como Hikokuro Omodaka
Hirofumi Arai como Hayatonosho Matsuzaki
Kazuki Namioka como Kawabe Umanosuke
Yoshihisa Amano como Sasaki
Takehiro Hira como Naotaka Ii Kamon-no-kami
Takashi Sasano como Sosuke
Nakamura Baijaku II como Jinnai Chijiiwa

Próximo Filme: Pee Mak Phrakanong, 2013

domingo, 27 de abril de 2014

"The Ghosts must be crazy", (Gui ye xiao 2011)

Desliguem os telemóveis durante o visionamento por favor

O híbrido de terror e comédia chegou para ficar. A horrédia (por que é a tradução de um neologismo nunca soa tão bem como na língua original?), “The Ghosts must be Crazy” segue-se à não menos louca antologia “Where got Ghost?” (2009) e encontra-se algures entre a comédia negra chico-esperta, para exemplos vide “The Cabin in the Woods” (2012) e a gargalhada de criar dores de barriga de “Tucker & Dale vs. Evil” (2010), mas mais perto desta última.


“The Ghosts must be Crazy” é um jogo de atenção pois quase todos os personagens de “Where got Ghost” regressam com variações das estórias que interpretaram nesta “prequela”, não necessariamente por ordem cronológica ou com alguma conexão lógica sequer. A antologia anterior reunia três segmentos: “Roadside got Ghost”, “Forest got Ghost” e “House got Ghost”, sendo que para “The Ghosts must be Crazy” recuperou estas duas últimas (e muito bem que eram as melhores) com um twist: desta feita Jack Neo limitou-se ao papel de argumentista-produtor e Mark Lee estreia-se como actor e realizador em simultâneo.

As curtas:
“The Day Off” – Dois reservistas preguiçosos estão empenhados em escapar ao penoso exercício anual e tentam convencer o novo Comandante a conceder-lhes baixa médica. Entretanto, um pobre coitado que estava mesmo doente e necessitava de ir para o hospital vê o pedido de internamento recusado pelo Comandante que acredita que todos o querem enganar para escapar ao dever. Quando esta decepção fracassa recorrem a técnicas de guerrilha para sabotar o treino. Mesmo que consigam enganar o seu comandante, as forças do sobrenatural nunca tiram folga…

“The Ghost Bride” – Um homem deseja atrair boa fortuna e decide tentar alcançar o seu objectivo através do jogo, acabando por fazer um pacto com o sobrenatural. Ele fica rico mas despreocupado e esquece-se de cumprir a sua parte do acordo. Os fantasmas não dormem e aquilo que deram podem tão facilmente retirar, isto, se ele fizer a única coisa que lhe pedem: casar com uma noiva fantasmas…

Sobre os filmes:
Desta feita prevaleceu o bom senso de “menos é mais”. Com menos estórias, com certeza as duas narrativas que escaparam ao corte serão mais trabalhadas e cuidadas certo? A resposta é negativa. “The Day Off” recupera a excelente química da dupla de actores John Cheng e Wang Lei que recuperam os papéis de Ah Nan e Ah Lei respectivamente, dois reservistas que não foram fadados para a tropa e utilizam todos os artifícios possíveis para escapar às tarefas duras que lhe são exigidas. Onde as interacções dos actores soavam antes pouco naturais, constituem agora os pontos altos da narrativa, apenas ultrapassados pelas tiradas brilhantes de Encik Muthu (David Bala). As aparições desta personagem nos vários filmes de Jack Neo são tão acarinhadas que Muthu até já virou meme! “I die! You die! Everybody dies!”

“The Ghost Bride” é apenas mais uma variação de crime e castigo. Sejamos sinceros. Quem é que pensava que recorria a métodos muito questionáveis para enriquecer, não fazia o que lhe competia para honrar a sua parte do acordo e não esperava algum tipo de retribuição? É preciso ser um bocadinho condescendente para não pensar que a audiência iria ter o mesmo raciocínio. Mas isso nem é o pior porque, ultrapassando a fraca estória, os efeitos gerados por computador são muito maus, aliás, demasiado maus para a quantidade de vezes que surgem no ecrã. Uma pessoa questiona-se se todo aquele (mau) aparato era necessário para contar uma história tão simples. Além disso, podia sempre alegar que Mark Lee dá uma mulher muito feia, mas isso não basta para ignorar o facto de que a “The Ghosts must be crazy” nada falta de más interpretações (sobretudo de personagens secundaríssimas), argumentos queijo-suíço, edição paupérrima e lições de moral – “Se escolheres tomar a mão do demónio, um grande preço terás de pagar”. Por isso é de estranhar que "The Ghosts must be crazy" seja tão surpreendente, um pequeno pecado mesmo, a contra-gosto que não dá para negar. Duas estrelas.


O melhor:
- Actores principais (com notáveis excepções)
- A primeira curta-metragem
- David Bala como Muthu
- O cabelo de Mark Lee

O pior:
- Argumento
- Os efeitos são “especiais” e não digo isso num bom sentido.

“The Day Off”
Realizador: Boris Boo
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
John Cheng como Ah Nan
Wang Lei como Ah Lei
Chua en Lai como Comandante
David Bala como Encki Muthu

“The Ghost Bride”
Realizador: Mark Lee
Argumento: Jack Neo e Ho Hee Ann
Henry Thia como Ah Hui
Mark Lee como Ah Hai / Chen Xiaojuan
Tay Yin Yin como ex-namorada de Hui

Próximo Filme: "Tales from the Dark - Part I"


domingo, 26 de janeiro de 2014

"23:59", 2011


Em “23:59”, um grupo de recrutas atravessa o “Treino Básico Militar”, obrigatório para qualquer jovem adulto do sexo masculino com 18 primaveras já contadas, residente em Singapura. É brutal, é exigente, é aborrecido e… já disse que era obrigatório? Para se entreter, eles decidem, numa noite em que pouco há para fazer (digo eu, que estariam tão extenuados que só quereriam dormir mas enfim), contar estórias de terror. É aquela cena dos homens de comparar o tamanho do pénis e coisas que tais, ver quem é que consegue contar a estória mais aterradora sem demonstrar receio. Um deles prossegue a relatar uma estória verídica, na qual uma mulher grávida, terá cometido suicídio uns anos antes na ilha onde eles estão a realizar a recruta e terá regressado como um “kuntilanak” (Vampiro), cometendo crueldades às 23:59. Tan (Tedd Chan) revela-se impressionável e infelizmente um medricas no local errado. Os seus sonhos começam a ser invadidos por uma mulher que, julga ele, é a mesma da lenda e o virá reclamar. Além de fraco de espírito é o que mais sofre com a brutal disciplina física pelo que se torna o alvo preferido do rufia de serviço. Tal é a lei da selva, onde quer que se vá, há sempre um estupor decido a rebaixar até quebrar quem percepciona como mais frágil. Ele tem um amigo Jeremy (Henley Hii) que o protege quando pode mas até ele é incapaz de actuar contra forças sobrenaturais.

A noite e a floresta devem ser uma das combinações naturalmente mais indicadas para a concretização de filmes de terror desde que as pessoas são pessoas e são aconselhadas por outras a evitar vaguear por esses locais. Mas se o cenário oferece ínfimas oportunidades e alguns momentos próximos de temor, não se pode dizer que se encontre o mesmo grau de credibilidade nos seus personagens. Tudo é válido, desde um capitão que declara perante uma morte no mínimo suspeita, tratar-se de um acidente, a um sargento bonzinho e supersticioso, passando por soldados que passam aparentemente mais tempo em descanso e convívio do que a treinar. Que um Capitão não queira lidar com esses problemas, não sob o seu comando aceita-se. Que incorra no risco de a sua autoridade ser colocada em causa e alvo de uma investigação já é esticar a corda. Que um sargento não seja como o R. Lee Ermey de “Full Metal Jacket” (1987) é um alívio, mas daí a acreditar no sobrenatural e partilhar essa crença com superiores e os homens que tem a cargo na véspera da marcha mais importante que a companhia terá de realizar…
A indisciplina é manifesta e generalizada. As entradas e saídas da base sem qualquer controlo então são uma verdadeira surpresa. A maioria dos homens entende o treino como uma obrigação da qual se querem libertar o mais rápido possível e negligenciam as regras básicas que lhes foram ensinadas para a sua própria sobrevivência. A marcha a que se vai aludindo em pouco mais de um terço de filme é o momento mais infeliz para qualquer aprendiz de soldado. Entre a distracção, a preguiça e a indiferença total, cometem toda uma série de erros que conduzem à morte de um. Como retrato do exército local é assim ligeiramente humilhante. Nada de grave, portanto. E a cantina do exército é capaz de ter uma das empregadas mais giras de sempre (Stella Chung). Não sei o que é mais improvável: uma rapariga giríssima que podia ser uma modelo-actriz a trabalhar numa cantina ou, que uma mocinha trabalhe numa cantina do exército cheia de homens que não vêem uma mulher há eras. De resto, a revelação nem sequer é surpreendente. Uma pista: mete mulher. “23:59” está repleto de pormenores do género que são difíceis de engolir sobretudo quando tudo está compassado em 78 minutos de filme! Se há película que necessitava de mais tempo para que os personagens se tornassem mais reais e a sua angústia mais envolvente é este. Uma estrela e meia.


Realização: Gilbert Chan
Argumento: Gilbert Chan
Tenaly Hii como Jeremy
Lawrence Koh como Dragão
Tommy Kuan como Lim
Josh Lai como Chester
Mark Lee como Sargento Kuah
Stella Chung como Shirley
Susan Leong como Yi Gu
Benjamin Lim como Capitão Hong

Próximo Filme: "Heaven and Hell" (Wong Jorn Pid, 2012)

domingo, 12 de janeiro de 2014

"Marianne", 2011


Adoro tropeçar em filmes sem um grande estúdio por trás, feitos com pouco mais que boa vontade e que parece que estão no radar de pouca gente. Têm umas críticas assim-assim e são oriundas de um destino menos habitual para o fã incondicional de terror. Por isso, quando encontrei “Marianne” senti-me como uma miúda pequena a quem acabaram de oferecer a primeira Barbie.
Krister (Thomas Hendegran) não tem sido um bom homem. No funeral da mulher Eva (Tintin Anderzon), que morreu em consequência de um acidente de carro que ele conduzia, apercebe-se que Sandra (Sandra Larsson), a filha mais velha, o odeia e prefere a companhia de Stiff (Dylan M. Johansson), o namorado oito anos mais velho. Não é de admirar pois, dez anos antes, ela e a mãe, descobriram que Krister mantinha uma relação extra-conjugal chegando mesmo a abandonar a família pela amante. Os próximos tempos não se adivinham fáceis pois, Krister tem a recém-nascida Linnea, fruto de um novo recomeço de vida ao lado de Eva, o enorme sentimento de culpa associado às acções que levaram à morte da mulher e uma filha adolescente revoltada. Some-se a isso, uma sogra disposta a dar apenas o apoio estritamente necessário (afinal, Krister traia frequentemente Eva) e a “imposição” da escola onde ensina, de que consulte um conselheiro (Peter Stormare) e, aguardam-no muitas noites de insónias. Krister é um céptico, um homem prático, mas até ele não pode deixar de tremer, quando se sente visitado, todas as noites por uma presença sobrenatural. São de culpa as dores que sente ou por trás estará algo bem mais sinistro.

“Marianne” tem por base o folclore sueco, que conta a lenda da “Mare”, ou Pesadelo (em inglês, nightmare), um ser que visita o Homem durante a noite e se senta sobre o seu peito, inspirando-lhe maus sonhos. A sugestão advém de uma fonte improvável, embora, na verdade, a maioria dos personagens seja improvável para a ficção. Krister encontra-se bastante distante de um herói. É um homem frio, hedonista e mulherengo, um egoísta, que até ali conduzia um estilo de vida totalmente conduzido por si, sem interferências externas. Nem a degradação psicológica o faz largar o vício do álcool. A não ser que seja esta que o mantenha distante dos muitos esqueletos que esconde... Sandra é uma adolescente com uma vida interior muito mais velha do que os seus 18 anos anunciam. A necessidade de amadurecer motivada pelo abandono do pai e a necessidade de conforto da mãe fizeram-na temer tanto a vida familiar que agora rejeita o pai e a irmã mais nova. De certo modo é tão casmurra e tão céptica quanto o pai. Já o namorado Stiff, aos 26 anos não perdeu a criança que existe dentro dele, deixando espaço para a brincadeira e para o mito, vivendo como se fosse ainda um jovem sem responsabilidades. É ele a voz conciliadora entre ela e o pai, uma voz da razão estranha, para tão desconfortável situação.
“Marianne” pouco tem de terror, as visitas nocturnas a Krister são breves e raramente deixam antever alguma imagem mais brutal. Quando isso sucede, o orçamento limitado torna-se bastante óbvio mas é compensado pela vasta caracterização das personagens. As conversas desconfortáveis entre pai e filha, ou entre este e o conselheiro sobre o impacto da morte de Eva nas suas vidas, demonstram o à-vontade e naturalidade de Filip Tegstedt no retrato da vida familiar. Sem artifícios, pois os diálogos parecem conversas de pessoas que tão podiam ter-nos a nós como inspiração como o nosso vizinho do lado e não um “diálogo ficcional criado para o ecrã”. Krister tenta aproximar-se da filha, que resiste aos avanços reconciliatórios do pai e ainda o provoca mais. Por sua vez, a difícil relação entre pai e filha provocam uma ruptura entre o jovem casal de namorados, sendo que Stiff alimenta as ideias de um Krister crescentemente paranóico com o que lhe está a acontecer. À medida que as visitas se tornam cada vez mais frequentes e Krister se apercebe que o resta da família se encontra em perigo aumenta a sensação de opressão. E que pode ele fazer se ninguém se predispõe a acreditar nele, como pressupõem até que o seu comportamento peculiar resulta da degradação do seu estado mental? Em “Marianne”, não existe conforto, apenas a dura realidade da perda e dos que continuam na terra, tentando prosseguir com uma vida cada vez mais vazia. Três estrelas e meia.

 Realização: Filip Tegstedt
Argumento: Filip Tegstedt
Thomas Hendegran  como Krister
Sandra Larsson como Sandra
Dylan M. Johansson como Stiff
Tintin Anderson como Eva
Gudrun Mickelsson como Birgitta
Peter Stormare como Sven


Próximo Filme: "Rouroni Kenshin" (Rurôni Kenshin: Meiji kenkaku roman tan, 2012)

domingo, 8 de dezembro de 2013

"King Game" (Osama Game, 2011)


“O rei manda…” É assim que começa, uma sugestão inocente, um grupo de pessoas dispostas a cumprir os desejos. E rapidamente, a convicção, de que não podem deixar de levar o jogo até ao fim. 


Uma turma inteira recebe no telemóvel uma mensagem com uma ordem do rei. As regras são simples. Todos deverão participar. Os visados numa ordem específica têm 24 horas para a cumprir. As pessoas que não a cumprirem serão castigadas. Desistir não é uma opção. A maioria dos alunos acha que é uma brincadeira inofensiva e aguarda ansiosamente pelo dia seguinte para saber se a “ordem” é cumprida. É que, de acordo com o rei, dois estudantes terão de se beijar. Chiemi (Yurina Kumai) fica incomodada desde o início, sobretudo porque o rei incentiva a intimidade entre colegas de turma. Eles cumprem as ordens e o rei revela a sua satisfação mas o jogo ainda agora começou. As ordens tornam-se cada vez mais intrusivas e violentas e o primeiro aluno desiste. A pena? Desaparecer para sempre. E o pior é que nada podem fazer quanto a isso pois o resto da sociedade não dá pela ausência dos alunos. A solução é encontrar o rei. Será que esta turma consegue unir-se para encontrar o vilão por trás das mortes? Ou a desunião vai ditar o encontro da morte?

A estória baseia-se num romance de Nobuaki Kanazawa, que foca o jogo do “Rei Manda” levado às consequências mais extremas. Tida como uma brincadeira inocente, faz as delícias dos adolescentes em busca de emoções fortes. O problema que se coloca é quando este surge como agenda escondida de alguém com más intenções. A conformidade e o desejo de agradar aos pares fazem o resto. Os desistentes são vítimas de zombaria e/ou expostos ao ridículo. Ninguém quer parecer um fraco em frente aos amigos ou aqueles a quem pretende impressionar. Em “King’s Game” existe a mentalidade de rebanho e depois, duas ou três ovelhas negras como Chiemi e Nobuaki (Dori Sakurada) que tentam retirar sentido do jogo e tentam identificar o Rei antes que o mal se abata sobre eles. Nem todos reagem como eles, entre o desistir de lutar pela vida e baralhar os dados de modo a que outros tomem o seu lugar, aos poucos vão revelando a sua verdadeira face, confrontados com uma situação de perigo iminente. “King’s Game” perde a parada mal começa o jogo, a narrativa investe nos ídolos que interpretam os papéis principais, diga-se de passagem com sucesso, mas escusa-se a penetrar na psique do rei. Quando os alunos começam a realizar as perguntas importantes já grande parte está condenada. Porque é que alguém faria aquilo? Porquê eles? Porquê naquele momento? Há insinuações de quem poderá ser o rei apenas não creio que as sugestões fossem necessárias. Elas são tão óbvias que é demasiado fácil chegar à conclusão que “aquela” pessoa não pode ser. A maioria das personagens possui atributos que permite a sua distinção. É talvez um pouco enervante que alguns dos alunos apostem em prejudicar o próximo para sua própria protecção sem qualquer transição. De melhores amigos a inimigos em minutos. A gravidade dos acontecimentos implica uma reflexão que o argumento não demonstra ainda que se trate de adolescentes dramáticos eque dão prioridade em primeiro lugar às relações com os pares.

A este filme com uns meros 82 minutos, faltou coragem. O desfecho nada tem de desafiante. “King’s Game” pouco tem de crítica social e muito de atracção. A turma deve ser a mais atraente que já alguma vez vi. Praticamente não há alunos feios. E a liderar este grupo estão duas jovens oriundas de grupos de jpop que certamente não precisavam de puxar dos galões dramáticos pois a sua presença na cena musical japonesa já lhes confere uma legião de fãs à partida. Os argumentistas não souberam trabalhar além de um elenco jovem, bonito e um jogo conhecido um pouco por todo o mundo… Um desperdício. Duas estrelas e meia.

Realização: Norio Tsuruta
Argumento: Nobuaki Kanazawa e Jun’ya Kato
Yurina Kumai como Chiemi
Dori Sakurada como Nobuaki
Airi Suzuki como Maria Iwamura

Próximo Filme: V/H/S, 2012

domingo, 29 de setembro de 2013

"Mitsuko Delivers" (Hara ga kore nande, 2011)


Haverá pior do que estar grávida quase no fim de termo, completamente só, sem tecto sob o qual pernoitar e sem dinheiro no bolso? Assim de repente não me consigo recordar de grande coisa mas Mitsuko (Riisa Naka) parece não se importar. É daquelas miúdas que arregaçam as mangas, mesmo que tenham uma barriga muito grande a dificultar a mobilidade. E decide seguir uma nuvem que a leva à antiga casa de infância. Esta continua a ser habituada pela ex-senhoria Kiyoshi (Miyoko Inagawa) agora acamada, que continua com tão mau feitio quanto antes. Mitsuko passa à acção, impõe-se na antiga casa e aproveita a velha paixão de Yoichi (Aoi Nakamura) para tomar refeições grátis no seu restaurante. Não fosse o facto de estar grávida e seria apenas uma miúda de nariz empinado, meio irritante. Ou se calhar é, mas perdoada pela ternura de uma barriga cheia de vida. “Mitsuko Delivers” tem um título que se pode perder nas várias traduções, mas escusado será dizer que Mitsuko dá à luz a muito mais que uma criança. É quase como se ela tomasse como uma causa sua, provocar desconforto numas vidas acomodadas num falso conforto. Como se ninguém à sua volta estivesse disposto a fazer um esforço extra para melhorar umas vidas que nem são más de todo. Mas porquê, contentar-se com o “bonzinho” quando se pode ter o “muito bom”?

Yuya Ishii é um pensador. Já em “Sawako Decides” (2010), tinha pegado numa personagem feminina forte que provocou uma pequena revolução no seu microcosmos social, com resultados mistos. Ambos os filmes se apresentam como comédias com contornos dramáticos, em tudo semelhantes ao que se faz com regularidade no cinema sul-coreano. Mas algumas piadas podem passar despercebidas ou não ser mesmo do agrado de quem vê. E as personagens principais têm feitios muito peculiares. Se Mitsuko não estivesse grávida, com grande probabilidade perdia a simpatia de grande parte dos espectadores. As personagens são de uma lassidão desconcertante. Tão passivas que uma pessoa se pergunta como é que foram capazes de tomar uma decisão em toda a sua vida. E atenção que estamos a falar da película “Mitsuko Delivers” e não de “Sawako Decides”! A própria imagem não auxilia à resolução dos corações sobre a orientação da película. As tonalidades próximas de sépia não boas indicações de um filme de alma leve e alegre.

O importante em “Mitsuko Delivers” é não olhar sobremaneira para a protagonista mas o modo como a sua acção impacta as vidas dos outros. É filme construído por camadas e, à medida que as exteriores vão sendo retiradas, chegamos a níveis de complexidade tal que finalmente se compreendem os motivos por trás de iniciativas aparentemente aleatórias da protagonista. Em particular, a estória de Jiro (Ryo Ishibashi), o tímido tio de Yoichi e a dona de um restaurante, ameaça roubar o filme. Durante mais de duas décadas e apesar da óbvia química entre os dois, Jiro ainda não foi capaz de abordar o objecto de afeição.
A Mitsuko fez pelas grávidas asiáticas o que a “Juno” fez pelas americanas. As grávidas não têm de ser delicadas, frágeis e hormonais. Sim, Mitsuko é uma espertalhona e não, não é hormonal. É uma força da natureza que chegou para dar um abanão nas vidas dos que a rodeiam. Três estrelas e meia.

Realização: Yuya Ishii
Argumento: Yuya Ishii
Riisa Naka como Mitsuko
Miyoko Inagawa como Miyoko
Aoi Nakamura como Yoichi
Ryo Ishibashi como Jiro

Próximo Filme: "Ghost Child" (Toyol, 2013)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Blind" (Beul-la-in-deu, 2011)


Soo-ah (Ha-neul Kim) é uma antiga recruta da polícia que cegou há três anos, na sequência de um acidente de viação. Ela ainda tem dias maus, dias em que os nervos lhe toldam a concentração e parece tão desamparada como no dia em que experienciou pela primeira vez a cegueira total e permanente. Soo-ah recusa-se a aceitar a ajuda do orfanato que a acolheu e, não se sabe se o motivo por trás desta atitude é o orgulho ou o facto de achar que não a merece, por não ser alheia à responsabilidade no acidente que a cegou a vitimou o “irmão”. Um dia apanha boleia do táxi errado. O condutor é um assassino em série e Soo-ah está prestes a tornar-se a próxima vítima quando atropelam algo. Soo-ah cedo suspeita que atropelaram uma pessoa e aproveita a confusão do acidente para se escapulir das garras do homem estranho, transformando-se na testemunha improvável do desaparecimento de uma jovem mulher.
Entretanto, surge Gi-seob (Seung-ho Yoo), um jovem desenraizado e extemporâneo que põe em causa as declarações de Soo-ah. Ele semeia a dúvida sobre a credibilidade de uma testemunha já frágil, ao mesmo tempo que faz a própria Soo-ah questionar as suas capacidades. Para o caso é destacado o desajeitado mas bem-intencionado detective Cho (Hie-bong Jo) cujo instinto parece estar a milhas de Soo-ah e do assassino. Estará numa invisual a chave para a captura de um assassino que tem conseguido iludir a polícia? “Blind” é comedido nas personagens mas não se poupa a esforços para as caracterizar. O assassino é calculista, dissimulado, aterrorizante e brutal. A construção da personagem está ligada ao que de pior se pode conceber na existência humana, é conscientemente unidimensional, como se não merecesse mais respeito. Acto consciente é, também, a exploração de Soo-ah como uma mulher que a despeito da incapacidade recém-descoberta explora o melhor dos seus outros sentidos e da sua intuição de polícia. Já Gi-seob utiliza o confronto como modo de escape a situações incómodas e impedir que os que estão à volta o magoem. Ela perdeu o “irmão” com quem foi criada no orfanato e Gi-seob constitui em simultâneo uma recordação penosa e uma nova oportunidade, dando espaço a um laço que poderá ser a fronteira intransponível para um assassino que não conhece o afecto. O detective Cho parece retirado a papel químico da polícia de outros filmes mas revela competência ligeiramente superior. Ele contribui para o mito de que as forças da autoridade sul-coreanas têm um QI bastante inferior ao da população média. Quase como se fosse um requisito para se tornarem polícias. Com uma taxa de crime das mais baixas dos países desenvolvidos é normal que a polícia seja no mínimo, relaxada. Junte-se um sistema penal onde as penas são consideradas leves pela população e o sistema judicial é considerado desclassificado em efeito cascata. O ecrã não é mais do que o reflexo do senso comum da população.

“Blind” é a segunda incursão do realizador Sang-hoon Ahn nas longas-metragens, cuja primeira obra, “Haunted Village” foi um thriller sobrenatural, também tendo por foco uma personagem feminina forte mas com uma narrativa menos coesa e mais improvável. Erm, thriller sobrenatural?! A cena da autópsia improvisada ao cadáver de um cão permanecerá para sempre comigo… Enfim, a julgar pelas duas obras Ahn não deve ter grande impressão do melhor amigo do homem. A personagem de Soo-ah tem ainda algumas idiossincrasias: tão depressa apresenta capacidades sobre-humanas como as alterna com atitudes incoerentes com o treino policial e fraca habituação à condição de invisual. Há deduções demasiado brilhantes para ser reais! O grande problema de "Blind" reside na distribuição desigual de cenas de tensão. Após a primeira metade do filme existe uma cena de perseguição no metropolitano que é uma das mais enervantes (no bom sentido), que vi nos últimos tempos. O final, por contraste é quase anticlimático.
Mas desengane-se quem pensa que “Blind” é mais um thriller genérico. Ou melhor, a indústria cinematográfica sul-coreana alberga um verdadeiro dom que respeita a resgatar uma estória das malhas da vulgaridade e, se a não reinventa, tem pelo menos habilidade para a moldar e polir, sólida como um rochedo. Os sul-coreanos são os melhores contadores de estórias negras, perigosas e envolventes da 7ª arte. Eles não sabem como não fazer um bom thriller de assassinos em série. Devia existir alguma lei científica quanto a isso. É tão certo quanto a existência da gravidade, provas aqui, ali e acolá. Por isso, se tencionam passar ao lado de “Blind” por entender que retrata mais uma mulher desamparada contra um vilão superior, cometem um grande erro. Só não vê quem não quer. Três estrelas.

Realização: Sang-hoon Ahn
Argumento: Min-seok Choi e Andy Yoon
Ha-neul Kim como Soo-ah
Seung-ho Yoo como Gi-seob
Hie-bong Jo como Detective Cho
Yoeng-jo Yang como Myeong-jin

Próximo Filme: “Colic” (Colic: Dek hen pee, 2010

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"The Road", 2011



O cinema filipino percorreu um longo caminho desde o conforto de estórias baseadas no folclore regional ao slasher clássico de terror. O aswang – figura mítica que alberga qualquer coisa entre o vampiro e o zombie, tem sido a escolha segura por muitos anos e, não posso dizer que censure os cineastas. O último filme que por aqui passou do género: “Corazon Ang Unang Aswang” (2012) bateu à data de estreia, “John Carter” e “The Hunger Games”. Por que se haveria de mexer em fórmula que resulta? E depois há pessoas como Yam Laranas, do tipo nervoso, que não se contentam com o fácil e querem, por via do difícil, demonstrar que o cinema de terror filipino não tem de se quedar pelas velhas estórias que agradam a audiências tradicionais. Ele próprio já entrou nesse território com “Patient X” (2008), com resultados mistos. A transição de subgénero parece natural, como se tivesse passado anos a estudar a audiência para ver até onde podia ir e dar o salto final.
“The Road” tem início em 2008, quando três adolescentes se escapam de casa durante a noite para treinar para o teste de condução de um deles. O medo de serem apanhados pelos adultos levam-nos a enveredar por uma estrada escondida. Má opção. A estrada não tem fim e rapidamente começam a ser assombrados por uma série de figuras fantasmagóricas. O pânico instala-se e, eis que está cada um por si (não há nada como testar os laços de amizade como colocá-los perante um perigo mortal). Recuamos dez anos e as duas irmãs Lara (Rhian Ramos) e Joy (Louise de los Reyes) ficam paradas nessa mesma estrada quando o carro fica sem gasolina. Sem outra solução, acabam por pedir ajuda a um transeunte. Repitam comigo: má opção. Passamos a 1988 e um casal com um filho parece lutar pelo prémio de pior família do ano. Chamar-lhes disfuncionais é estar a ser simpático.
“The Road” não oferece nada de novo em termos de conteúdo mas é na forma que antevê o talento do artista. As hostilidades são abertas com o aparente habitual trio de adolescentes irritantes: a miúda certinha que acha que sair a meio da noite é uma imprudência mas vai na mesma, a garota que procura um pouco de aventura na sua vida e o jovem com as hormonas aos saltos que só quer passar uns momentos a sós com a namorada, mas tem que levar com a amiga chata. Trio irritante só de aparência pois que passados uns minutos damos por nós a temer o pior pelos jovens. Realmente cometeram um erro, não pensaram antes de agir mas são bons miúdos e não queremos que lhes aconteça nada. E a sensação de pânico também não é difícil de engolir. São novos, escapuliram-se a meio da noite sem os pais saberem e dão por eles numa estrada desconhecida a ser atacados por uma força obscura. Se bem se recordam, com aquela idade não era preciso muito para as vossas mentes entrarem em estado de sítio… A segunda estória é a mais fraca e existe um erro flagrante quando uma das personagens decida investigar o desaparecimento de duas irmãs ocorrido 12 anos antes. Ora, se a memória não me falha estamos em 2008 e o segmento das jovens sucede em 1998. Escapou-me alguma coisa? O segundo capítulo é também o mais fraco do filme. Se as actrizes até podem ser mais capazes que os miúdos que introduzem a estória, não sabemos por que os papéis delas estão reduzidos a gritos e choro histérico, qual carne para canhão. Onde o prólogo é mistério sobrenatural, este é slasher puro. A última parte é a redenção de “The Road”. O terror dá lugar a um drama familiar tão poderoso que explica de modo convincente os primórdios de um degenerado homicida. A estória tem lacunas quanto baste, nomeadamente em termos temporais. O mesmo personagem rapaz que em 88 tem 12 anos, em 1998 teria 22 certo? Errado, pois foram contratar um jovem com uma aparência tão jovial que parece ter uns 16 no máximo. Agora, imaginem um rapaz de 16 anos a pôr fora de combate uma rapariga da mesma idade e outra mais velha ao mesmo tempo e a arrastá-las para dentro de casa. Não é muito verosímil pois não? O melhor é mesmo a fotografia e Laranas faz questão de juntar mais essa função à de realizador e escritor. E se ele pinta cenários? Ele aproveita todas as oportunidades para mostrar a estrada de diversas perspectivas. Ao nascer do sol, durante o crepúsculo, nas trevas da noite que vai longa... Por entre a folhagem virginal, através do campo de visão dos ocupantes da estrada. Quase tudo é estrada, momentos que alterna com a evolução de uma casa à medida que vai tendo diferentes ocupantes durante duas décadas. Como dissera antes, “The Road” salva-se pela forma e, não só apresenta momentos de grande beleza como apela a diferentes correntes de terror. Tem tudo para agradar a todos, se a narrativa não for um requisito essencial. Duas estrelas e meia.

Realização: Yam Laranas
Argumento: Yam Laranas e Aloy Adlawan
TJ Trinidad como polícia
Carmina Villaroel como Carmela
Rhian Ramos como Lara
Barbie Forteza como Ella
Alden Richards como jovem Luís
Louise de los Reyes como Joy
Lexi Fernandez como Janine
Derick Monasterio como Brian

Próximo Filme: “The Wig” (Gabal, 2005)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"Sleep Tight" (Mientras Duermes, 2011)


“Sleep Tight” é uma das boas razões pelas quais quase que, de cada vez que vejo um filme espanhol digo para mim própria que tenho de começar a ver mais filmes daquele país. Isso e chorar baba e ranho devido à minha imbecilidade (ninguém vê). A película é do Jaume Balagueró ou JB como carinhosamente lhe chamo. Para fãs de [REC], “Sleep Tight” é uma surpresa agradável. Agora aqueles que detestaram aquele filme de zombies, possessos ou lá o que é, têm aqui a oportunidade ideal de encontrar um motivo para seguir com atenção a carreira do JB. “Darkness” (2002) não deve constar do currículo do senhor. É o chamado erro de julgamento se bem que, entretanto, o senhor já encontrou o norte e as coordenadas trouxeram-no de volta ao bom caminho do suspense/terror. Mauzinho mesmo é o título (já lá vamos).
César (Luis Tosar) é o homem dos sete ofícios no prédio onde trabalha, em Barcelona. Também ninguém lhe presta grande atenção, a maioria dos inquilinos nem sequer se deve lembrar do seu nome. Se calhar deviam, visto que ele possui as chaves de todos quantos habitam naquele sítio. César é metido consigo próprio e, à primeira vista, digno de simpatia. Tem uma mãe doente e, a bem dizer, podia ser inofensivo. Podia. Pois que ele está obcecado com a inquilina Clara (Marta Etura), uma jovem atrevida sempre com um sorriso estampado no rosto. César começa por enviar-lhe cartas anónimas, depois passa às mensagens até que já tem os movimentos de entrada e saída de Clara bem estudados. Não chega. Ele quer um pouco mais de proximidade e usa das chaves tão importantes que lhe foram concedidas. Durante a noite, enquanto Clara dorme, César aguarda-a ali, bem perto de si… Debaixo da cama dela. No que é que ele está a pensar? Pode perder o emprego. Pode ser preso por perseguição. Os motivos dele nunca são suficientemente claros. Predador sexual?! Claro. Mas há algo mais que isso. Ele alterna entre o desejo de possessão de uma mulher que nunca olharia para ele num mundo normal e o ódio pela pêga que o cumprimenta com um sorriso insolente para no momento a seguir ir-se deitar com outro. Ele destila um ódio apenas visível quando começa a deixar pequenas “prendas” atrás de si, tornando a vida de Clara cada vez mais insuportável.
Como pano de fundo para uma psique distorcida está uma mãe envelhecida e inválida, condenada a ouvir os esquemas do filho. Querem decadência melhor do que a de assistir ao apodrecimento moral de um filho?
A surpresa maior de “Sleep Tight” é a actuação de Tosar. Mesmo durante os actos mais atrozes, o seu porteiro arrepiante nunca chega a ser totalmente detestável. Há qualquer coisa de charmoso neste César. Como não simpatizar com um homem tão infeliz que chega a atentar contra a sua própria vida? Como não detestar quem encontra uma réstia de esperança quando os outros estão tão ou mais infelizes que ele? É ou não é o monstro perfeito? Se até na hora de o julgar a audiência é assaltada por dúvidas. Será o ódio a emoção mais correcta? A acompanhar o desempenho poderoso de Tosar está uma maquilhagem que sucede em torná-lo feio, como a personalidade, lá está.
“Sleep Tight” é um registo muito mais subtil para Balagueró. A câmara frenética e o histerismo dos actores de [REC], contrastam com as sequências que tomam o seu tempo até existir um evento significativo e a ingenuidade, quase inocência dos personagens que rodeiam o porteiro do inferno, quanto às verdadeiras intenções de César. Existe uma vizinha, miúda de escola, certamente destinada a tornar-se rufia que vê mas não compreende o que ele faz. Azar o dela que utiliza deste conhecimento como um segredinho sujo que sabe que não devia ter, poder sobre a última pessoa de quem o devia ter retirado. O segredo de Balagueró está, sobretudo na utilização do espaço. Já em [REC], demonstrara uma sensibilidade extrema sobre o espaço da acção. Sempre dentro de um edifício, sempre sufocante. O titulo inglês da película é que não reflecte o verdadeiro sentimento da invasão da privacidade que Balagueró explora durante os 100 minutos de duração. Mais adequado seria “While you sleep”, ou “Enquanto Dormes”. Porque é aí, no conforto do lar, durante um sono reparador, descansado, sob os nossos cobertores, o nosso sítio mais seguro que César penetra sem pedir permissão. Três estrelas e meia.

Realização: Jaume Balaguero
Argumento: Alberto Marini
Luis Tosar como César
Clara como Marta Etura
Petra Martinez como Senhora Verónica


Próximo Filme: “Flashpoint” (Dou Fo Sin, 2007)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Roman Polanski: A Film Memoir (2011), Um percurso comentado

Poucas pessoas tiveram uma vida tão fascinante como Roman Polanski. Também poucas podem dizer que atravessaram e sobreviveram a uma Guerra Mundial. E ainda menos podem afirmar que sofreram na pele o efeito das LSD e do fanatismo em torno de Charles Manson por altura do início do fim dos libertinos anos 60.
Roman Polanski no set com Emmanuelle Seigner e Harrison Ford
“A Film Memoir” é um percurso comentado pelo próprio durante o período de clausura imposto pelas autoridades suíças, quando o passado regressa para o atormentar: o caso de abuso sexual que nunca mais morre. Foi pois em prisão domiciliária com uma vida, imaginamos, muito mais aborrecida e o velho amigo Andrew Bransberg como interlocutor, que Polanski se lançou numa longa reflexão sobre a sua ainda mais longa vida. A conversa de amigos ou viagem ego-maníaca se preferirem, na qual até existem palmadinhas nas costas e elogios mútuos como “nós trabalhámos juntos naquele filme que teve tanto sucesso” ou “tenho a honra de te chamar amigo há muitos anos”, não é um reinventar da roda. É mais uma viagem nostálgica povoada por momentos mais ou menos conhecidos. Na verdade, se quiséssemos partir a vida de Polanski em pedaços, três destacavam-se facilmente: o crescimento no gueto de Varsósia, o casamento de conto-de-fadas com o final trágico correspondente e a acusação de abuso sexual. Estes momentos foram alternando entre a semi-obscuridade e uma carreira de realizador menos polémica que as suas escapadas sexuais. Não fossem estes eventos e Polanski seria tão aborrecido como qualquer outra pessoa. Ele é apenas um indivíduo com uma vida extraordinária que por acaso, é um realizador ultra-galardoado. 
Sharon Tate
Por isso é no mínimo curioso que a paixão de Polanski pelo cinema tenha nascido com a propaganda nazi. Desfiles de homens e mulheres fardados, de tanques e canhões, sob a égide de um símbolo que para sempre se associará ao fim das coisas vivas. Filmes dos que um dia juraram obliterá-lo, a ele e a todos os da sua raça, mesmo que estes não encontrassem a culpabilidade, o acto vil aleatório de que eram acusados. Pessoas como a mãe de Roman. De cabelo negro, nariz pontiagudo e formas redondas, confortáveis. A perda da mãe numa idade tão precoce deixa-o embargado. Mas ainda mais o pai. O querido pai que viveu e sobreviveu para retornar um homem diferente. O pai que ele reconhecia em cada estranho à distância, para logo perceber que era apenas mais um desconhecido. E depois ele regressa e não já não há final feliz. O homem que mais queria regressar vivo à Polónia para recuperar o filho, arranja uma nova mulher e, de súbito, Roman deixa de pertencer ao retrato familiar tão ferozmente idealizado pelos dois. Ou assim que cremos, já que apenas nos podemos guiar pelas palavras do realizador. Palavras que rapidamente afastam a crise da separação como se nada fosse, para se aproximar de Paris e de uma irmã mais velha que até ali pouco interessara ao enredo. Teria sido mais difícil mas mais sincero ouvir de Roman as palavras que lhe adivinhamos facilmente: o rancor por o pai ter ultrapassado tão depressa a morte da mãe, o ódio pela usurpadora… Uma mão cheia de nada. Duas ou três declarações que demonstram que pouco foi resolvido na mente do rapazinho e a negação. Há quem lhe chame limitações de tempo, constrangimentos de edição, para a película não se estender infindavelmente. Eu chamo-lhe respeito e ainda temor pelo velho pai. A segunda fase surge rápida e furiosa: o trabalho na sétima arte, as amizades, os primeiros sucessos, um casamento, o divórcio e o início do conto-de-fadas. De todas as mulheres de Polanski, de resto, sobejamente mediatizadas, é Barbara Lass a menos conhecida. Nem os comos nem os porquês da estória de amor. Como se de um capítulo menos importante se tratasse. Mau Roman. Não sabes que há pouco que não seja do domínio público? Por que guardas estes pequenos tesouros para ti?
Aliás, de olharmos com atenção para as mulheres da vida romântica de Roman (as importantes pelo menos), todas elas são altas, louras, deusas. O ideal de mulher ariano. Perdoai a referência ofensiva mas Polanski afasta-se do modelo feminino judeu, como se alguma da propaganda tivesse aberto uma fenda no crânio genial. Depois? Tudo o que já sabemos. Extensa literatura, documentários, arte… O casamento com Sharon Tate, a mulher que permanecerá perfeita para todo o sempre no imaginário das massas, que culminou com a morte horrenda às mãos da seita da Charles Manson. Polanski teria tudo para ser feliz: a mulher, o filho, a carreira. Num instante tudo se foi. Até a carreira, por esta altura no mais alto patamar, se esvai pelo momento insano de abuso de uma jovem de 13 anos de idade. A merecida simpatia do público pelo infeliz viúvo transforma-se em repúdio fácil. E, em tudo isto, o que é que o Polanski do séc. XXI tem para nos dizer? Que lamenta. Que foi um erro. E é tudo.
O escândalo
Não é confrontado. Questionado sequer. Andrew é o ombro amigo. Alguém com quem pode contar para continuar a entoar a canção de uma vida, sem desconforto ou provocação. O comentário mais interessante que ouvi sobre esta aventura biográfica foi que podia ter sido exibida no canal História. Pois que se me parece obra digna de um canal tão respeitável, também me parece que provavelmente passaria despercebida de todos. Nem como prova documental de cinema é o expoente máximo. As imagens dos filmes do Polanski são projectadas de modo célere e, a tempos, aleatório. Apenas é dada maior atenção a um dos seus últimos grandes esforços e também mais galardoados, “O Pianista”. Como se o mérito como realizador e a piedade que advém do filme descrever a sua infância durante a IIª Guerra Mundial, o absolvesse de todos os erros cometidos. Não, o momento é de um regozijo contido, num chalé suíço. E de fé no futuro. Pelas suas próprias palavras, Polanski não terá de que sentir temor pois que não lhe é pedido mais do que a sua versão, verdadeira ou ficção. E isso não é justo, pois não? Polanski. O adorado. O infame.


Próximo Filme: "Red Eagle", 2010 
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